7 de julho de 2017

Observações sobre a crise da Coréia e Donald Trump

Gary Leupp

counterpunch: Tells the Facts and Names the Names

Foto de Kamil Antosiewicz Monika Powalisz

Tradução / 1) Os líderes da Coreia do Norte consideram o desenvolvimento de armas nucleares vital para sua segurança nacional.

Por quê? Há 70 mil militares dos Estados Unidos no Japão e na Coreia do Sul, e Pyongyang está na mira nuclear de Washington. Bombardeiros B-52 sobre a Coreia do Sul garantem “um guarda-chuvas nuclear” (como diz o Pentágono). A guerra liderada pelos EUA entre 1950 e 1953 (para evitar a reunificação do país sob a liderança de Pyongyang) resultou nas mortes de cerca de três milhões de civis.

A hostilidade de Washington tem sido ininterrupta. Após assinar o "Marco Acordado" com Pyongyang em Genebra – o qual que exigia que a Coréia do Norte congelasse e, eventualmente, eliminasse suas instalações nucleares, em troca de dois reatores de água leve financiados pela Organização de Desenvolvimento Energético da Península da Coreia (KEDO), um consórcio multinacional – Washington poderia ter interrompido o programa. Mas o governo Bush/Cheney, para o horror do presidente sul-coreano Kim Dae-jung, se opôs à “Política do Sol” de reaproximação entre as Coreias do Sul e do Norte e sabotou o acordo.

2) Um míssil balístico intercontinental (ICBM, na sigla em inglês) que possa atingir as ilhas Aleutas, no Alasca, pode atingir Vladivostok ou Pequim. Veja no mapa. Russos e chineses estão tão preocupados com o programa da Coreia do Norte quanto os norte-americanos. Moscou e Pequim propuseram que a crise seja resolvida por um acordo no qual os EUA e a Coreia do Sul suspendem os exercícios militares anuais e o desenvolvimento do escudo antimísseis THAAD (nada popular na própria Coreia do Sul), em troca do congelamento do programa nuclear norte-coreano.

Essa é uma proposta razoável, feita pelo presidente chinês, Xi Jinping, e pelo presidente russo, Vladimir Putin, a quem podemos chamar (em comparação a Donald Trump) “líderes mundiais respeitados”.

3) Os EUA rejeitaram a proposta de imediato. Washington preza os exercícios militares anuais na Coreia do Sul, os maiores do mundo, às vezes envolvendo mais de 200 mil militares. (A rejeição ao acordo pode não melhorar a percepção global sobre os EUA. Uma pesquisa recente do instituto PEW Research mostra que somente 49% da população mundial tem uma opinião positiva sobre os EUA, em contraste com os 64% de dois anos atrás.)

4) Os EUA são liderados por um presidente impulsivo e instável que disse em janeiro: “A Coreia do Norte acaba de afirmar que está nos estágios finais do desenvolvimento de uma arma nuclear capaz de atingir partes dos EUA. Isso não vai acontecer!”

Pyongyang está agora provocando-o com essa mensagem: “Trump vociferou no começo desse ano que o acesso da Coreia do Norte a uma arma nuclear que pudesse atingir os EUA nunca iria acontecer. Mas os testes estratégicos conduzidos pela Coreia do Norte claramente provam que o momento do teste com seu ICBM não está tão distante assim.”

5) Trump se tornou uma figura a ser ridicularizada na TV, é vastamente impopular, está fraco politicamente, sob pressão para exibir sua masculinidade. Ele lembra como foram populares seus ataques contra a Síria e a megabomba no Afeganistão.

(Lembre-se como Brian Williams ficou tão emocionado que ele citou uma canção de Leonard Cohen sobre “a beleza de nossas armas”). Âncoras liberais declararam que Trump “se tornou presidente” em tais momentos. Isso tudo deve ter sido bem gratificante para um homem tão inseguro que ele fingia ser seu assessor (com o nome “Marc Fisher”) para divulgar suas conquistas sexuais para os tabloides.

6) Analistas pedem “mais sanções”, o que a essa altura significa sancionar bancos chineses que financiam o comércio exterior com a Coreia do Norte e seus associados, e pressionar a China a parar de comprar carvão norte-coreano. Mas as sanções, reconhecidamente, não funcionam. A economia norte-coreana aparentemente melhorou nos últimos anos apesar delas, e turistas no país relatam um fluxo alto de importações de bens de consumo pela China ou talvez por outros países amigos (como Malásia ou Camboja). Pode ser politicamente necessário anunciar uma nova “rodada” de sanções para assegurar o público norte-americano que alguma coisa, de alguma forma, está sendo feita. E deixar as coisas assim.

7) Mas massivas preparações militares para um ataque contra a Coreia do Norte estão sendo realizadas neste momento. O analista George Friedman observa que em 20 de maio os porta-aviões USS Carl Vinson e USS Ronald Reagan estavam a uma distância necessária para atacar a Coreia do norte. “Mais de 100 caças F-16 estão conduzindo exercícios diários na região, uma tática que precedeu o começo da operação Tempestade no Deserto, a invasão do Iraque em 1991. Caças F-35 também foram enviados para a área, e representantes do governo norte-americano estavam para trocar informações com Guam, território norte-americano na Micronésia, sobre defesa, terrorismo e a Coreia do Norte no fim de maio”.

Enquanto isso, a embaixadora dos EUA nas Nações Unidas, Nikki Haley, disse ao Conselho de Segurança da ONU que as ações da Coreia do Norte estão “rapidamente encerrando a possibilidade de uma solução diplomática” e que “uma de nossas capacidades está em nossa considerável força militar. Vamos usá-la se for preciso, mas preferimos não ter que avançar nessa direção”.

8) Trump está cercado por líderes militares que presumivelmente querem evitar a Terceira Guerra Mundial. Ele tem uma boa relação com o presidente chinês e respeita Vladimir Putin. Os dois irão pedir que os EUA se controlem, por razões óbvias.

9) Mas Trump provavelmente irá insistir na necessidade de fazer algo, e pedir a seus generais uma lista de opções – de apocalípticas a meramente simbólicas – para dar vazão a sua ira e aumentar sua popularidade. Isso aconteceu antes do ataque à base síria em 7 de abril.

10) Para ter uma ideia do que Trump está pensando, vamos continuar acompanhando seus tuítes publicados às 4 da manhã.

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