9 de julho de 2017

Denunciar o desastre social e o vocabulário do engano

O original é o capítulo introdutório do livro "J is for Junk Economics: A Guide to Reality in an Age of Deception", de Michael Hudson, ISLET, 2017, 404 p.

Michael Hudson

J Is for Junk Economics: A Guide to Reality in an Age of Deception

... o declínio de uma linguagem deve em última análise ter causas políticas e econômicas... Ela torna-se disforme e imprecisa porque nossos pensamentos são tolos, mas o desmazelo da nossa linguagem facilita termos pensamentos tolos. Argumento que este processo é reversível... Se alguém se livrar destes hábitos poderá pensar mais claramente e pensar claramente é um primeiro passo necessário rumo à regeneração política. 
– George Orwell, "Política e língua inglesa" (1946)

“Você pode enganar algumas pessoas o tempo todo. São aquelas em que deveria se concentrar. 
– George W. Bush (2001)

Tradução / "A desordem social começa quando se deixa de chamar as coisas pelos seus nomes corretos. O primeiro passo para reformar um mundo mal estruturado é, portanto, a "retificação dos nomes". Para Confúcio, isto significava restaurar o significado original das palavras.

A terminologia econômica atual tem uma óbvia necessidade de tal renovação. Rejeitando a economia clássica de Adam Smith, John Stuart Mill e os seus críticos contemporâneos dos latifundiários e monopolistas, os defensores rendimento não merecido borraram e obscureceram a terminologia econômica com eufemismos a fim de negar que há algo como almoços grátis. Os termos rentista e usura, que em séculos passados desempenharam um papel central, soam agora como anacrônicos e foram substituídos pelo "pensamento duplo" orwelliano.

Como sabem os publicitários, dar nome a um produto condiciona a forma como as pessoas o percepcionam. Uma vasta operação de relações públicas foi engendrada para inverter o sentido das palavras e fazer com que o preto pareça branco. Em nenhum outro lado esta tática é tão política quanto na promoção da ideologia econômica. O vocabulário atual acerca da riqueza e o seu deslize para uma economia de renda e usura é disfarçado com eufemismos como o progresso rumo a uma sociedade de lazer – não de servidão à dívida. Bolhas financeiras que inflacionam os preços para a compra de uma casa ou planos financeiros específicos de aposentadoria são chamadas de "criação de riqueza", não de "inflação dos preços dos ativos alavancados por dívida, ao passo que a contração de empresas industriais, a sua desintegração ou encerramento é chamada de "criação de valor", não de saqueio.

O vocabulário econômico é definido pelos vencedores de hoje – a classe financeira rentista

Alice no país dos espelhos (Through the Looking-Glass), de Lewis Carroll, descobre que a definição das palavras depende de quem está no controle. "Quando uso uma palavra – disse Humpty Dumpty, num tom escarninho – ela significa apenas o que eu escolho que signifique – nem mais nem menos... A questão é, quem comanda – e isto é tudo".

Assim como a história é escrita pelos vitoriosos, do mesmo modo os direitos adquiridos patrocinam porta-vozes acadêmicos e jornalistas a fim de moldar o vocabulário da mídia de forma que descrevam a Wall Street a desempenhar um papel produtivo. Quanto mais predatório é o comportamento desta, mais necessário se torna moldar a opinião pública através do abuso de linguagem, concedendo prêmios para explicar como "mercados livres" funcionam sem a "interferência" tributária ou a regulamentação da riqueza por parte do governo.

O atual consenso neoliberal de Washington reverte o liberalismo clássico ao favorecer a extração predatória de renda, políticas fiscais regressivas e desregulamentação econômica. Assim, "reforma" agora passa a significar desfazer aquilo que no século XX era considerado reforma. Políticas anti-laborais destinadas a reduzir o poder dos sindicatos e a proteção no lugar de trabalho são rotuladas como reformas, tal como são reescritas as leis da bancarrota, revertendo a tendência para um tratamento mais humanitário dos devedores.

Em parte alguma o vocabulário do "duplo pensamento" é mais descarado do que na conquista financeira da Grécia pela "troika" da Eurozona: o Banco Central Europeu, a Comissão Europeia e o FMI. James Galbraith, assessor do ex-ministro das Finanças grego Yanis Varoufakis, foi questionado sobre se "as instituições (FMI, CE e BCE) teriam de resgatar a Grécia indefinidamente". Ele respondeu:

"Não existe qualquer "resgate" aqui. Não há "resgate", não há "bailout", não há "reforma" em curso. Preciso insistir nisto, porque estas palavras infestam nosso discurso. Elas são plantadas pelos credores a fim de que pessoas incautas as utilizem, mas nada disso se verifica. O que está a acontecer é uma captura dos ativos possuídos pelo Estado grego, pelas empresas e pelas famílias gregas. Não faz sentido dizer que isto tem algo a ver com a recuperação da economia grega ou com o bem-estar do povo grego. Ao contrário, esta política é absolutamente indiferente a tais considerações". [1]

Um vocabulário que retrata a classe financeira como produtiva

Todo grupo de pressão (special interest) procura afirmar-se como justo e equitativo. Banqueiros e latifundiários preferem naturalmente um vocabulário que os retratem como produtivos, ao invés de predadores. Consequentemente, o vocabulário anti-clássico atual redefine "mercados livres" como aqueles que são livres para os extratores de rendas. A fim de impedir a regulação, tributação ou nacionalização – e até mesmo obter subsídios públicos e garantias do governo – os lobistas dos setores financeiro, seguros e imobiliário (FIRE) retratam a renda e o juro como refletindo a contribuição dos seus receptadores para a riqueza comum e não os seus privilégios para extrair renda econômica da economia.

Aparentemente as contas do Rendimento Nacional e do Produto Interno seguem esta reviravolta linguística ao descreverem juros e rendas como "ganhos", como se banqueiros e proprietários de terras ou imóveis produzissem PIB na forma de crédito e serviços de propriedade. Esta prática está em conflito com a definição de John Stuart Mill de que renda da terra é aquilo que os donos da propriedade são capazes de produzir "enquanto dormem" pela simples cobrança de taxas de acesso a lugares criados pela natureza e cujo valor depende da prosperidade geral da comunidade. Apresentar tais cobranças como "ganhos" por fornecer um "produto" econômico é fingir que a extração de renda reflete um produto real, como se se tratasse de um serviço proveitoso.

O que está em causa é a definição clássica de renda econômica como rendimento não merecido – o excesso de preço sobre o valor real do custo – uma reivindicação ou um privilégio que não reflete um custo de produção necessário. Tais custos são em última análise redutíveis ao pagamento pelo trabalho. Com efeito, a Teoria do Valor Trabalho foi aperfeiçoada a fim de isolar a renda econômica. Ao rejeitar a teoria clássica do valor e do preço, a teoria economia de hoje literalmente livre de valor está baseada no pressuposto de que nenhuma atividade é improdutiva ou extrativa [de renda].

Essa inversão da linguagem deturpa o que os principais economistas clássicos defendiam. Adam Smith e seus colegas reformadores são aclamados por terem favorecido os "mercados livres" e se oporem à "interferência" do governo. Mas aquilo a que eles realmente se opuseram foi a governos controlados pela aristocracia latifundiária, que dominava a política fiscal, por exemplo, pelo poder que detinha na Câmara dos Lordes da Grã-Bretanha para aplicar impostos aos trabalhadores e à indústria ao invés da terra e da finança. Smith criticou as aventuras militares e o colonialismo por darem origem a dívidas de guerra, emissão de títulos do governo a serem pagos com a tributação dos bens de consumo básicos.

No final do século XIX, movimentos reformistas foram ganhando poder. Com a influência de Darwin, quase toda a gente via o capitalismo industrial a evoluir para o que era generalizadamente chamado socialismo. Do socialismo cristão ao "socialismo ricardiano" de Mill e do socialismo utópico ao socialismo libertário de Henry George, o termo "socialismo" tinha uma ampla variedade de acepções. O socialismo marxista descreveu o capitalismo como sendo revolucionário ao levar inexoravelmente a uma mais forte propriedade e direção pública da economia, frequentemente através de sistemas bancários nacionalizados.

Por surpreendente que possa parecer nos dias de hoje, as ideias clássicas de criação de um mercado livre seriam alcançadas através de reformas "socialistas". O seu objetivo comum era proteger as populações da obrigação de pagar preços que incluíam uma renda não proveniente do trabalho ou um imposto financeiro a pagar aos donos de terras e proprietários de recursos naturais, monopolistas ou detentores de títulos financeiros. Nesse sentido, os detentores de direitos adquiridos protestavam contra a regulamentação pública e a tributação. Eles opunham-se à propriedade pública ou mesmo à tributação de terras, monopólios naturais e bancos. Eles queriam arrecadar rendas e juros, não fazer terras, bancos e infraestruturas monopolistas de caráter público.

Hoje, os neoliberais e seus mascotes libertários procuram ter governos demasiados fracos para cumprirem o programa clássico de tributação da terra e dos recursos naturais, para regular ou impedir os monopólios, ou para proporcionar serviços econômicos e financeiros básicos através do investimento público em infraestrutura. Ao denegrir a regulação como sendo "planejamento central", o efeito é abandonar o planejamento aos centros financeiros globais da Wall Street, City de Londres, Frankfurt, Bolsa de Paris, todos eles a fazerem lobby a favor dos seus clientes rentistas. Aqueles que se auto-classificam como libertários tornaram-se portanto anti-iluministas financeiramente patrocinados contra governos democraticamente estabelecidos.

Mercados livres, liberdade e o antídoto para a "falsa visão"

Denis Diderot (1713-1784) organizou a Encyclopédie como um projeto do Iluminismo francês. Publicada em fascículos de 1751 a 1772, continha um mapa do conhecimento humano de acordo com linhas que definiam o programa político do Iluminismo: "O bem do povo deve ser o maior objetivo do governo. Pelas leis da natureza e da razão, os governantes são investidos de poder para esse fim. E o maior bem do povo é a liberdade. Ela é para o Estado o que a saúde é para o indivíduo".

Hoje, o "bem maior do povo" de Diderot acabou por ser revertido pelo pensamento agora dominante na economia que defende a riqueza e o produto acumulado principalmente pelos rentistas, os mesmos que os fisiocratas franceses e seus amigos reformadores pretendiam tributar. A reação anti-clássica de hoje redefine liberdade para identificar liberdade aos predadores das sanções governamentais contra comportamentos socialmente destrutivos. Invertendo o objetivo clássico de libertar os mercados dos rentistas, os neoliberais consideram a regulação de monopólios e das taxas de juro, o investimento público em infraestrutura e a tributação da propriedade e do setor financeiro como sendo uma intrusão na sua liberdade. Isto é antitético à liberdade das populações da dependência a dívidas e ao crédito para ter acesso à habitação, educação, cuidados médicos e outras necessidades básicas.

O Dicionário filosófico de Voltaire (1764) estava intimamente associado à Encyclopédie e escrito num estilo aforístico com o seu humor e ironia habituais para torná-lo uma crítica mordaz e sarcástica à Igreja Católica Romana, à nobreza e ao palácio real. Voltaire à sua própria maneira fez algo semelhante a Orwell quando descrevia o carácter das Ideias falsas:

"Temos homens cegos, homens zarolhos, homens vesgos, homens com visão de longo alcance, curtos de vista, fraca visão. Tudo isso corresponde a uma imagem bastante fiel de nossa compreensão; mas estamos mal familiarizados com a falsa visão. 
... Por que nos deparamos frequentemente com mentes que são absolutamente falsas em coisas importantes? Por que estes mesmos siameses que nunca se deixam enganar quando se trata de contar-lhes três rúpias, acreditam firmemente nas metamorfoses de Sammonocodom? ... Os maiores gênios podem ter falsas opiniões sobre um princípio que aceitaram sem exame. ... Tudo o que certos tiranos das almas desejam é que os homens a que eles ensinam tenham juízos falsos."

Ao referir-se a um faquir sem dúvida para evitar citar o nascimento através de uma virgem e a ressurreição, Voltaire notou que "quanto mais subtil é a sua mente, mais falsa ela é e forma depois outras mentes tão falsas como a sua". Tais indivíduos "raciocinarão de modo distorcido em toda a sua vida". O meu próprio dicionário critica aos atuais economistas do "mercado livre" neoliberal e similares de raciocínios distorcidos baseados em falsos pressupostos, imune ao senso comum empírico.

O modo de raciocínio mais típico dos que têm Ideias falsas, explicou Voltaire, é "não examinar se o princípio é verdadeiro, mesmo quando se deduzem consequências precisas do mesmo". Este é o método de hoje na análise econômica matemática, nas estatísticas do rendimento nacional e especialmente na teoria do comercial internacional e monetária. (Providencio uma lista de citações de vencedores do Prêmio Nobel de Economia que seguem tais linhas religiosamente anti-científicas no meu artigo "Economics as Fraud" neste livro.)

A teoria econômica neoliberal do "mercado livre" desempenha atualmente o papel que a religião desempenhava nos dias de Voltaire. Mas na academia o aviso que Voltaire deu aos seus leitores permanece verdadeiro: "É perigoso ter razão em assuntos nos quais os homens consagrados estão errados". Talvez por esta razão hoje em dia licenciados em ciências econômica colocam as suas dúvidas de lado quando concorrem a uma posição para fazer carreira em universidades respeitáveis.

A terminologia eufemística é usada para tornar populares políticas que de outra forma seriam impopulares ou pelo menos para ganhar tempo confundindo algumas das partes lesadas. Se o objetivo é enfraquecer os sindicatos, rebaixar níveis salariais e reduzir a proteção no local de trabalho, a tática de relações públicas adequada é tentar cooptar os trabalhadores chamando a tais programas "capitalismo do trabalho" como fez o general Pinochet no Chile após o golpe militar de 1973, ou "capitalismo popular" como a sua admiradora Margaret Thatcher na Grã-Bretanha após a vitória conservadora de 1979. Igualmente, para confundir assuntos adotando um vocabulário falso para complementar uma falsa narrativa, lobistas das privatizações caracterizaram a regulamentação pública e a proteção dos consumidores como "interferência". Na verdade, é o que em 1944 Frederick Hayek chamou de O caminho da servidão (The Road to Serfdom) – como se o neoliberalismo não fosse o caminho para uma nova servidão e a escravidão pela dívida.

O currículo acadêmico foi sequestrado a fim de substituir a economia política clássica por uma ideologia aparentemente despolitizada, mas que é realmente uma ideologia a favor dos rentistas. Ao simbolismo matemático foi dado o papel santificador que no passado era concedido ao latim. Macaqueando as ciências naturais, economistas refugiam-se em abstrusos modos de expressão. Quanto mais complexa a matemática, mais simplistas e banais tendem a ser as relações postuladas e as conclusões. A maior parte da matemática refere-se a escolhas entre diferentes "menus" de bens e serviços, sem muita análise de como foram estes produzidos, ou sobre as consequências para toda a economia a longo prazo de comprar a crédito ao invés de cash.

Teorias econômicas que incidem sobre a troca de bens e serviços sem discutir os meios de adquirir controle sobre a riqueza desviam a atenção do exame daquilo que é mais importante na modelação da economia. Em última análise, o que está em causa é se o jargão econômico considera que a economia "real" da produção e do consumo é mais real do que os interesses da finança e da propriedade.

Não é possível resgatar bancos através de bail-outs e de alguma forma dar capacidade aos devedores para pagar. Um lado ou o outro deve perder. É por isso que o problema econômico é em última análise o da insolvência, não de mera falta de liquidez temporária. O grande problema econômico é se as dívidas devem ser reestruturadas para refletirem a capacidade de pagamento, ou se os níveis de crescimento e padrões de vida devem ser sacrificados a fim de preservar o valor que os credores reclamam.

A distinção clássica entre rendimento merecido e não merecido

Há uma história falsa e uma história verdadeira. Raramente a história factual é a versão promovida pelos "vencedores" (ou pretensos vencedores – a luta ainda não acabou). Isto também é verdadeiro na teoria econômica. Há apenas uma realidade econômica, assim em princípio deve haver apenas um corpo de teoria econômica: a economia da realidade. Mas interesses especiais (dos vitoriosos de hoje) promovem mistificações e decretam exclusões a fim de se auto-retratarem como heróis econômicos, como se os seus ganhos predatórios fossem os da sociedade como um todo. A sua imagem auto-congratulatória caracteriza o que se passa atualmente na teoria econômica dominante.

Ao atuarem em favor da finança, do imobiliário e dos interesses monopolistas defendendo a desregulação e a não aplicação de impostos sobre os seus ganhos, os neoliberais sequestraram os economistas clássicos no seu templo. Eles invocam Adam Smith, enquanto desviam a atenção daquilo que ele e seus seguidores clássicos realmente disseram. Sua reescrita da história do pensamento econômico trata a crítica de Smith aos rentistas e ao financiamento por dívida como heresia.

Há dois séculos atrás os economistas clássicos lutaram contra os interesses adquiridos dos rentistas que haviam sobrevivido aos códigos do direito pós-romano e aos senhores feudais subsequentes. Mas a reforma progressista foi interrompida após a Primeira Guerra Mundial. Uma reação anti-clássica começou a emergir na Era Dourada da década de 1880 e de 1890 e ganhou força após a Primeira Guerra Mundial terminando a tendência para a socialização do capitalismo industrial (por exemplo, saúde pública e pensões, investimento público em infraestruturas e educação) e a mobilização da atividade bancária para o financiamento da indústria, que florescia sobretudo na Alemanha.

As práticas bancárias anglo-americanas emergiram como norma, em aliança com o imobiliário e os monopólios em vez da tríade antes prevista de capitalismo industrial, bancos e governo. A luta entre o que parecia serem as ondas do futuro – "socialismo de Estado" e socialismo marxista – foi posta de lado por uma economia financiarizada de rentistas. Com eles surgiu um novo conjunto de conceitos econômicos e definições, cujo objetivo era amortecer a resistência ao que é agora um golpe frontal Anti-Iluminista.

Os interesses dos rentistas vitoriosos reconhecem que enquanto puderem capturar as consciências dos políticos e do público formatando a maneira como as pessoas vêem a dinâmica da economia, não há necessidade de gastar dinheiro para os subornar ou lutar contra eles. Enquanto os 1% puderem controlar o currículo educacional ensinando que estamos no fim da história e que não há alternativa (TINA), eles conseguirão privar os eleitores da capacidade de conceptualizar uma alternativa (ver "baixa cognição" abaixo). Eles promovem a ideia de que a austeridade – e a polarização econômica que lhe está associada – é o destino natural da nossa época, não uma reversão do impulso de progresso da sociedade civil.

Não é necessário reinventar a roda para substituir o atual mal-estar por uma análise mais realista. O meu modelo econômico visa estabelecer as bases para a criação de um formato mais realista da contabilidade do produto e do rendimento nacional, excluindo do "produto" a sobrecarga rentista. Renda é rendimento sem produto, preço "vazio" de valor. Quando este rendimento é pago ao setor FIRE (finança, seguros e imobiliário) e monopólios, isto é feito à custa de salários, lucros industriais e impostos.

Este livro é, pois, concebido como um antídoto, começando com uma renovação da linguagem usada para descrever como funciona a nossa economia (ou não funciona). Os verbetes de A a Z na seção de vocabulário ilustram esta distinção do ponto de vista histórico e político, bem como do ponto de vista metodológico.

Democracia de "baixa cognição": o nosso oximoro político mais recente

Quando eu era estudante universitário, na década de 1950, a abordagem de Sapir-Whorf à linguística era o padrão. Benjamin Lee Whorf descreveu como o vocabulário e a semântica da linguagem modelam a forma como os oradores conceptualizam o Mundo à sua volta.

O antropólogo Robert Levy com seus estudos na década de 1960 sobre as taxas de suicídio nas ilhas Taiti observou que aumentavam quando acontecimentos infelizes tornavam as pessoas tristes. Mas a sua língua não dispunha de palavra para "triste" ou "deprimido". Eles diziam "doente" ou "estranho" e culpavam-se pela forma como se sentiam. Em outros grupos com vocabulário tosco, atribuem os sentimentos de tristeza ou frustração a uma presença demoníaca que parecia apossar-se das suas vidas. Para descrever este fenômeno, o linguista George Lakoff forjou a expressão "baixa cognição" (hypocognition) a fim de descrever uma condição em que "as palavras ou a linguagem necessária para exprimir uma ideia de forma a obter uma comunicação persuasiva é inexistente ou ineficaz" [2].

No seu livro de 2004, "Don't Think of an Elephant! Know Your Values and Frame the Debate", ele acusa as doutrinas libertárias do "mercado livre" de [ênfase na] responsabilidade pessoal e do conceito de "menos governo" como sofrendo de "baixa cognição maciça". Na falta de conceitos econômicos adequados para entender o que está a tornar as pessoas mais pobres, a ideologia da responsabilidade pessoal leva as pessoas a culparem-se por não serem capazes de evitar ficarem presas num sistema de servidão pela dívida.

O presente guia de A-a-Z tem como objectivo proporcionar o vocabulário e os conceitos para um diagnóstico mais eficaz da atual depressão econômica (e, por extensão, psicológica), pensando em termos de juros compostos, servidão pela dívida, economias rentistas, rendimento não merecido, atividades de soma zero e parasitismo econômico. Sem tais conceitos no primeiro plano das ideias, as atuais economias neoliberais tendem a sucumbir ao vírus da "dupla linguagem" orwelliana.

A análise econômica lixo, com o seu vocabulário eufemístico, procura limitar as ferramentas do pensamento a fim de distrair a atenção quanto às causas – e, por consequência, do remédio necessário. Assim, a falsa teoria do "gotejamento" (trickledown) tece um manto de invisibilidade semântica em torno dos fenômenos do parasitismo rentista. As vidas de muitos devedores parecem ter sido capturadas por uma nuvem demoníaca ou uma personificação econômica de Drácula que suga a sua subsistência. Políticos culpam os imigrantes ou outras minorias de tomarem seus empregos, enquanto os lobistas tentam convencer os assalariados e a classe média que o que os mantém tão amarrados à dívida não são os altos custos da habitação, educação e da vida, a serem financiados por hipotecas, empréstimos a estudantes e cartões de crédito. A culpa é deslocada para o governo por aplicar impostos demasiado altos aos 1% e "excesso de regulação", condições burocráticas para a realização de negócios, sobretudo regulamentos para promover o ar limpo, comida saudável e contabilidade honesta.

A iliteracia matemática é uma pré-condição para a generalizada falha em entender este crescimento exponencial das reivindicações do setor financeiro sobre a economia, enquanto a Teoria Econômica Lixo deixa de atribuir a polarização econômica à dinâmica predatória da deflação da dívida. A dívida está a absorver quase todo crescimento econômico em países como a Grécia. Quando o volume da dívida cresce tanto como o rendimento nacional ou o PIB, e quando suporta uma taxa de juros (tipicamente 5%) acima da taxa de crescimento da economia (normalmente apenas 1% a 2%), então todo o crescimento do RN nacional é absorvido pelos credores.

Sem a compreensão generalizada de como a nossa economia se financiarizou e a criação de riqueza e o seu rendimento e riqueza ficou comprometido aos credores, não pode haver nenhuma democracia econômica real na qual eleitores elejam representantes que os salvem da depressão e daquilo que Martinho Lutero chamou o demônio Cacus (uma personificação do crescimento exponencial da dívida). Qualquer democracia nominal a que faltem tais conhecimentos econômicos é um oximoro, ou seja, uma contradição política interna.

A reescrita da história econômica pela redefinição do significado das palavras

A história é escrita pelos vencedores, e os vencedores de hoje são os interesses adquiridos ressurgidos. Assim como a verdade é a primeira vítima da guerra, o passado é reescrito como se inevitavelmente tivesse de levar ao presente. Ao reescrever a história do pensamento económico, os lobistas ao serviço dos rentistas criaram um falso acerca pedigree do que é um clássico mercado livre. O objectivo é dar a impressão que todos os economistas aos quais é concedido estatuto no panteão intelectual endossam a visão actual de que a riqueza e o rendimento são razoavelmente distribuídos e que as elites financeiras são os principais responsáveis pela sua criação.

Nesta nova visão Winston Smith substituiu Adam Smith. No romance "1984", de Orwell o superestado anglo-americano, Oceania, empregou Winston Smith para reescrever o passado. Seu trabalho no Ministério da Verdade era actualizar continuamente a história para que se ajustasse à linha política do Big Brother, sempre em constante mudança. O slogan do Ministério era: "quem controla o passado controla o futuro. Quem controla o presente controla o passado".

A linguística tornou-se desta forma uma vítima tal como a História. Então pode dizer-se que quem controla a línguagem controla a forma como as pessoas se apercebem do mundo à sua volta. Tal como Michael Lewis descreveu em The Big Short : "O mercado de hipotecas subprime tinha um talento especial para obscurecer o que precisava ser esclarecido". Ele explica:

"A linguagem do mercado de títulos serve para um objectivo diferente daquele do mundo exterior. A terminologia do mercado de títulos foi concebida não tanto para transmitir significados e sim para confundir os não iniciados. ... Os escalões dos títulos hipotecários subprime não foram chamados de escalões – ou qualquer outra coisa que pudesse levar o comprador de títulos a formar qualquer espécie de imagem concreta em sua mente – mas sim como "fatias" (tranches). A fracção inferior – o arriscado piso térreo – não foi chamada piso térreo, mas o mezanino... o que soa não tanto como um investimento perigoso, mas sim como uma poltrona valiosa num estádio com cobertura."

A escritora de ficção científica Ursula LeGuin, em A Wizard of Earthsea (1968), descreve sabichões treinados por um "Master Namer, um professor que sabe overdadeiro nome de tudo". Um crítico social moderno comenta a ideia do LeGuin: "O nome verdadeiro é diferente do nome comum, o nome público. Assim, quando se aprende o verdadeiro nome de uma coisa, é-se capaz de repelir qualquer poder que ela tenha sobre si. Precisamos fazer isso com o sistema em que vivemos" [3].

A designação de nomes verdadeiros está bloqueada por lobistas financeiros e seus estrategistas de relações públicas, os quais produzem o vocabulário usado pelos media populares ao discutirem economia. O objectivo é desviar a atenção de como o mundo realmente funciona, criar uma visão de conto de fadas em que nenhum rendimento é espoliação (extractive) e não há almoços grátis – enquanto na economia real está tudo voltado para a obtenção de almoços grátis.

A fim de preservar os seus privilégios especiais, os interesses adquiridos devem convencer o mundo de que ganham as suas fortunas contribuindo para a prosperidade comum. Eles retratam a Era das Reformas Progressistas e subsequente regulação económica e programas sociais, como uma recaída na autocracia e uma estrada para a servidão pela dívida, não uma fuga ao legado dos interesses feudais rentistas. E quando as políticas ao seu serviço mergulham as economias na austeridade, fazem lóbi para persuadir os governos a absorver suas perdas financeiras.

O rumo da civilização ao longo deste caminho destrutivo é um desvio absurdo da tradição da economia política clássica. Mas como Voltaire exemplarmente observou: "Quem acredita em absurdos comete atrocidades". Os absurdos da economia dominante de hoje conduziram às atrocidades da austeridade na Grécia, ao despovoamento da Letónia e ao desmantelamento pós-soviético da indústria russa e báltico desde 1991. A riqueza crescente dos 1% é conseguida pela imposição de austeridade às economias nacionais e pelo despojamento dos seus activos.

Aplausos para este despojamento de activos e para a economia de bolhas especulativas, como um modelo de negócio – juntamente com a tolerância para a deflação da dívida – mantêm agora o mundo numa depressão profunda ao mesmo tempo que habilita uma classe de rentistas a tornar-se os senhores neofeudais deste século.

A pretensa oposição dos "mercados livres" à servidão/comunismo

Para além do vocabulário desta linguagem, o pensamento é moldado pela metáfora social e pela psicologia de grupo. Em 1928 o livro Propaganda , de Edward Bernays (1891-1996), sobrinho de Sigmund Freud, descreveu a então nova disciplina de relações públicas (seu eufemismo para propaganda) como uma forma de "governo invisível" para manipular eleitores e consumidores jogando com suas esperanças e temores. "Se entendemos o mecanismo e os motivos do espírito de grupo, não será possível controlar e arregimentar as massas de acordo com nossa vontade sem seu conhecimento?" [4] A chave desta técnica, a "engenharia do consentimento" [5] , como Bernays explicou posteriormente, serviu para os estrategistas de relações públicas e seus designados formadores de opinião mobilizarem o "instinto de manada" e criarem uma mentalidade de "nós contra eles" para induzir eleitores e consumidores a actuarem contra seus interesses reais.

Tendo feito campanha em favor de Woodrow Wilson para promover a entrada dos EUA na I Guerra Mundial como um combate contra os "hunos alemães", Bernays ajudou a tornar aceitável e até chique que as mulheres na década de 1920 fumassem, chamando os cigarros de "tochas de liberdade". Mais tarde, apoiou o derrube do presidente democraticamente eleito da Guatemala Jacobo Arbenz, em 1954, pela United Fruit Company ao chamá-lo de "comunista" [6]. A nova junta governativa patrocinada pelos EUA retratou a reversão da reforma agrária e da libertação da escravidão rural pela dívida como restauração dos mercados livres.

Éis como os neoliberais de hoje estruturam as suas políticas a fim de ganhar aceitação pública. "Libertação do comunismo" ("eles") é o meio usado para significar mercados livres ("nós") definidos como oposição à tributação progressiva e outras políticas sociais democráticas do real interesse dos eleitores e dos consumidores. À semelhança das companhias de tabaco que apresentaram médicos para garantir aos consumidores que fumar era saudável (e emagrecia!), os 1% de hoje exibem vencedores do Prémio Nobel de Economia para promover a economia do "gotejamento" e cortes de impostos para os ricos.

Uma extensão lógica da abordagem de Bernays foi o que Leo Strauss, um imigrante alemão que se tornou professor da Universidade de Chicago (1949-69). Strauss ensinou que a maneira de mobilizar pessoas a reboque de uma política era apelar à sua identidade de grupo incutindo o "nós" contra "eles" tal como Bernays havia explicado. Um conjunto de mitos era necessário para modelar a opinião pública, tal como a República de Platão [7] descrevia como uma "mentira nobre" (gennaion pseudos): "uma artimanha para algumas falsidades que venham a ser necessárias – alguma que seja nobre" para ganhar a aceitação das regras das elites como "almas de ouro". Foi o que fizeram os oligarcas gregos quando se auto-denominaram aristocracias ("os melhores"), alegando que as suas acções protegiam a cidade-estado das "almas de bronze" (reformadores populistas demonizados como "tiranos") que podiam ascender ao posto de guardiões do Estado, anular dívidas e redistribuir a terra.

Um outro colega de Strauss em Chicago (1950-1962), Frederick Hayek, amalgamou a Era Progressista de programas sociais, comunismo, nazismo e fascismo tudo junto como sendo intrusões nos "mercados livres" e, portanto, como "o caminho para a servidão". Sua retórica visava reverter o impulso dos economistas clássicos para acabar com os privilégios rentistas e, portanto, livrar a economia real da servidão: uma classe hereditária de senhores da terra e banqueiros que se aliaram a outros interesses de extracção de renda.

Por que é que os neoliberais apoiam os neoconservadores imperialistas

Os ideólogos anti-governo chamam ao investimento público em infraestruturas para impedir o setor privado de extrair rendas de "o caminho da servidão", nada menos que isto. A geopolítica desempenha um papel, dado que os investidores dos EUA procuram controlar a obtenção de renda a partir dos recursos naturais e de monopólios públicos de outros países. Este impulso para o controle une economistas neoliberais a militares neoconservadores que pressionam por "mudanças de regime" nos países que procuram proteger os seus mercados, o domínio público e sistemas bancários a fim de promover seu próprio crescimento e bem-estar.

Os neoconservadores seguidores de Strauss distorceram a "inteligência" em enganosos sofismas para moldaram uma ideologia de Guerra Fria na América [8]. O seu colega, professor em Chicago (1964-80) Albert Wohlstetter prestou-se a servir como conselheiro das teses dos instigadores da Guerra Fria, Paul Wolfowitz e Zalmay Khalizad, um imigrante afegão que mobilizou o apoio dos EUA para os Talibã contra o regime laico aliado da Rússia, inflamando grupos militares fundamentalistas para o derrube de governos do Oriente Médio que procuravam autonomia em relação ao controle dos EUA. Wolfowitz e Khalizad montaram uma campanha de difamação contra Saddam Hussein, muito semelhante à de Bernays contra a Guatemala, afirmando que o Iraque estava patrocinando a Al Qaeda e tinha armas de destruição em massa [9].

Os neoliberais criaram uma "nobre mentira" estilo nós-contra-eles ao apropriarem-se de Adam Smith, John Stuart Mill e outros economistas clássicos como se estes houvessem endossado cortes de impostos e a desregulamentação do setor financeiro, do imobiliário e de outros setores de extração de renda. Isto é o oposto daquilo que hoje eles realmente advogariam com o aperfeiçoamento da sua teoria da renda para medir e remover fiscalmente ganhos não merecidos.

Tais sofismas com "mentiras nobres" retratam a política econômica e fiscal a favor da finança como uma fortaleza democrática contra governos suficientemente fortes para desafiar o poder da alta finança e os interesses seus aliados na extração de renda. Os 1% procuram criar uma mitologia da tradição, uma dependência como a Síndrome de Estocolmo e uma pseudo-inevitabilidade histórica darwiniana, para orientar o público no apoio aos 1%, como o "nós" universal, enquanto demoniza os defensores dos interesses dos 99% como "eles".

Esta Teoria Econômica Lixo do engano promove tratados neoliberais como "reformas" de leis, impostos e regras comerciais, revertendo as reformas reais da Era Progressista. "Peritos" (lobistas corporativos) são enfeitados com as insígnias de prestigiosos títulos acadêmicos para redefinir "progresso" como se não houvesse alternativa racional à mudança do planeamento econômico de um governo democrático para os centros financeiros do mundo. Esta nova guerra fria ideológica é administrada pelo FMI, BM e OMC, sob o controle dos Estados Unidos. Países que adotem políticas que não sirvam a Wall Street e seus satélites financeiros considera-se que caminham para a falta de liberdade – aquela do "outro". Esta inversão do que se pensava ser progresso há um século é um simulacro de liberdade e uma mentira ignóbil – como a maior parte das mentiras ditas "nobres", quando se pensa a respeito.

Notas:

[1] James Galbraith e J. Luis Martin, "The Poisoned Chalice", Open Democracy, 01 de setembro de 2015.

[2] George Lakoff, "Women, Fire and Dangerous Things," March 27, 2013, citado em Rebecca J. Rosen, "Millions of Americans are facing a serious financial problem that has no name." The Atlantic, May 7, 2016. Ver também Robert I. Levy, Tahitians: mind and experience in the Society Islands (Chicago: 1975).

[3] Anne Wilson Schaef. When Society Becomes an Addict (Harper, San Francisco, 1987) p. 10.

[4] Edward Bernays, Propaganda (1928), p. 47.

[5] "The Engineering of Consent", Annals of the American Academy of Political and Social Science 250 (March 1947), pp. 113–20.

[6] Stephen Schlesinger and Stephen Kinzer, Bitter Fruit. The Story of the American Coup in Guatemala (1999), pp. 78-90.

[7] Plato, Republic, Book 3, 414b-415d.

[8] Seymour Hersh, "Selective Intelligence", The New Yorker, May 12, 2003.

[9] Jim Lobe, "Leo Strauss's Philosophy of Deception", Alternet, May 18, 2003. "Tal como Thomas Hobbes, Strauss acreditava que a natureza inerentemente agressiva do seres humanos só podia ser restringida por um poderoso Estado nacionalista. Tal como ele escreveu "a espécie humana é intrinsecamente perversa e tem de ser governada". Contudo, "tal governação só pode ser estabelecida quando os homens estão unidos – e eles apenas podem ser unidos contra outro povo". Ver também, Scott Horton, "Will the Real Leo Strauss Please Stand Up?" The Harpers blog, July 31, 2016.

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