31 de julho de 2017

A política de Narcos

No mundo de Narcos, os policiais malvados e os narco-capitalistas populistas tornam-se os heróis que precisamos.

Andrew Pendankis

Jacobin

Tradução / Até pouco tempo atrás, falar de Medellín significava falar sobre a capital dos homicídios.

A violência era tamanha que se referir a ela exigia superlativos como “muitos” e “piores”. Os traficantes de cocaína e o Estado colombiano se uniram para criar um grande sistema de crueldade indiscriminada. Os métodos usados ​​pela polícia na busca por Pablo Escobar, o notório chefe de drogas, em nada se diferenciava daqueles usados ​​pelos sanguinários para punir e intimidar a polícia. Em 1991, dois anos antes da morte de Escobar, a cidade famosa por ter uma primavera de um ano teve sua taxa de homicídios referente a uma zona de guerra.

Sem surpresas, é provável que hoje em dia lembranças desse sofrimento sejam comercializadas. Um dia que começa com um passeio pelo Edificio Mónaco de Escobar – uma estrutura que agora é silenciosa, mas que ele costumava usar para torturar pessoas e ter refeições com a família – pode muito bem terminar em Comuna 13 – esse que já foi o bairro mais violento e inóspito a estrangeiros, mas que hoje atrai turistas com sua arte de rua brilhantemente pintada e guias locais encantadores.

Os turistas chegam a Medellín informados por seus guias de que o “Urbanismo Social” do Estado transformou a cidade em um modelo de inovação e paz. Alguns, em especial os estrangeiros de meia-idade com pouco interesse pela história da Colômbia, reafirmam que proclamar justiça nunca é tão simples quanto declarar o fim de uma guerra: para eles, a “paz” significa acesso a sexo com menores de idade e cocaína barata – os prazeres de um “Amsterdã sul-americana”, um assunto que surge com certa frequência quando se conversa com os visitantes da cidade.

Não por coincidência, o que os turistas do último período têm em comum é que chegam a este novo El Dorado após terem assistido Narcos.

A História contada pela Polícia

Narcos não é uma biografia de Escobar, mas sim um tipo de retrato de sua época. Ao invés de desenvolver personagens através de uma seqüência de cenas diárias lentas, vagamente conectadas, o seriado se constrói cronologicamente em torno de uma historiografia complexa. A abertura intercalada imagens documentais elegantes com cenas dos instrumentos utilizados pela polícia na década de 1970 para detectar, confirmar e armazenar fatos. Dispositivos de escuta da época, mapas topográficos e documentos redigidos nos encorajam a antecipar o que vem a seguir, como um perito.

Esta ideia é reforçada pela evidente intenção do seriado de escapar dos limites da “história mais verídica possível”, que geralmente apresenta conhecimentos sobre pessoas e suas psicologias, não sobre estruturas ou eventos. Narcos, por sua vez, expande sua narrativa para incluir os detalhes geopolíticos mais gerais do período: Reagan, Noriega, os sandinistas – todos estão aqui. As coisas são apresentadas por um viés cru, grandioso e histórico.

É importante notar que Narcos conta sua história através da narração de Steve Murphy, um agente americano da DEA1. É uma história contada pela polícia. As verdades fundamentais do seriado são os relatos de policiais que “viram um tipo de merda” que nós nem conseguimos imaginar: ter que lidar com as especificidades de cenas de crimes mostrou a eles que a última coisa que separa a natureza humana e o desastre é uma lei espinhosa.

Para pegar o que o narrador chama de “cara ruim”, os “bons moços” vão ter que sujar suas mãos. Qualquer um que duvide disso – aqueles que naturalmente se apegam aos princípios do devido processo legal ou do Estado de Direito – não “passou tempo suficiente com os bandidos”. Por essa lógica, o mal é uma espécie de escola ou campo de treinamento para autoritários. Embora seja dito que a linha entre o bem e o mal é relativa, nunca há dúvida de onde o último realmente se encontra.

Não há nada de novo nisso. Os dramas policiais sempre esconderam o seu conservadorismo – um gosto pela lei e pela ordem, pela justiça como forma de punição – por trás de uma imagem de rebeldia. Brash, um policial rebelde alérgico à autoridade e propenso a bebidas alcoólicas e brigas, é um personagem que permite que o espectador sacie seu prazer de quebrar regras sem realmente desafiá-las.

É verdade que somos apresentados aos pontos cegos do narrador. O espanhol de Murphy é terrível. Ele só consegue ter uma compreensão melhor quando tem um breve histórico dos crimes americanos na região. No entanto, sua ignorância não é considerada uma fraqueza – na verdade, ela permite que ele tenha um melhor diagnóstico dos problemas da região.

Murphy não é um gênio, é um homem intuitivo. O gênio se perde em abstrações e age conforme o que for mais confortável. O policial rebelde mergulha de cabeça na toca do coelho com base em palpites.

É a ordem com roupagem rebelde, a estupidez vendida como intuição “fora da caixa”, a agressão como um requisito para ganhar. Em tempos de Trump e populismo de extrema direita, a autoridade não seria exatamente isso?
Narco-Revolução

Ao lado do controverso policial não conformado, Narcos configura um segundo eixo com ambição política: o narco-revolucionário.

Desde o princípio somos encorajados a ver Escobar como uma figura de revolta, um revolucionário cujas origens na pobreza extrema o diferenciam de um capitalista gângster medíocre. Depois de atribuir um único episódio à história inicial do real “negócio” de Escobar – a fase entre 1975 e 1982 na qual ele constrói um sistema de clientes, laboratórios e rotas comerciais sob o mote “plata o plomo”, “prata ou chumbo” (no qual este último significa bala) – o seriado começa a narrar sua campanha de 1983 para o Congresso.

Esta decisão revela Escobar como alguém menos interessado em dinheiro e mais interesse em justiça. Dessa forma, o narco-império de Escobar aparece como uma revolta da classe trabalhadora contra o governo dos oligarcas.

Não é só que Escobar tenha uma mera ambição política. Ele é retratado como alguém que fez com que a paixão pela política colocasse em perigo seu negócio e sua própria família. Para que a trajetória de Escobar por uma vaga no Congresso (e além disso, pela própria presidência) não seja interpretada como resultante de um realismo político vazio – uma estratégia de sobrevivência, uma ambição pessoal por poder – o seriado insiste que, em última instância, Escobar é motivado por justiça. “O que eu quero, sinceramente, é ajudar os pobres desse país”, ele diz em particular a um amigo.

Este fato ganha grande relevância quando analisamos como o seriado representa a esquerda extraparlamentar. Em uma cena bizarra, vemos Escobar aceitando solenemente a espada de Simón Bolívar do líder do M-19, um grupo de guerrilha socialista ativo na época. Em 1974, quando o M-19 roubou esta relíquia de um museu em Bogotá, ele o fez para evidenciar seu desejo de completar a revolução iniciada, porém deixada inacabada, por Bolívar.

Desta forma, Narcos dá as credenciais revolucionárias do comunismo para legitimar a política de Escobar, ao mesmo tempo em que nega a esquerda ao vincular a militância a um idealismo cego e a algo infantil. A série sugere que o comunismo é um sonho eterno de estúpidos, crianças tolas, mulheres e também daquilo que é tido como a figura mais infantil e frágil: o homem intelectual de esquerda.

Se o gênio burocrata desafia constantemente a ação, a criança comunista sempre age de forma precipitada. Composto por estudantes universitários de classe média que “leem muito Karl Marx” e liderados por um professor de história maluco (Iván Marino Ospina), os guerrilheiros são enquadrados como vítimas ingênuas dos livros. Em um clássico gesto liberal-pragmático, o ativismo de esquerda é retratado como dogmático e refém da teoria.

A série denuncia os guerrilheiros por evitar a paz e o parlamento, ao mesmo tempo que zomba deles por não conseguirem ser violentos o suficiente. Embora a direita militar seja descrita como “psicopata”, ao menos ela recebe a dignidade de ser competente – ela mata com uma eficiência meticulosa, mesmo que tenha um prazer além da conta em realizar esse trabalho.

Narcos não traça as origens da militância de esquerda contra o anti-comunismo repressivo do Estado colombiano ou contra as desigualdades provindas da economia política rural da Colômbia. Em vez disso, enquadra o comunismo como patologia nacional, como um reflexo da mais antiga neurose cultural da Colômbia: o Realismo Mágico. Afinal, a Colômbia é “um país onde os sonhos e a realidade se confundem, onde, em suas cabeças, as pessoas voam tão alto quanto Ícaro” 2.

Uma oposição começa a ganhar corpo. A narco-revolução é inconsciente e orgânica ao invés de utópica e reprimida, um movimento autêntico da classe trabalhadora em vez de ingenuamente vanguardista e atua diretamente contra o Estado e o modelo vigente de distribuição de riqueza ao invés de esperar por uma revolução que nunca chega.

Se o comunismo fala sobre a moradia simplesmente como um problema social e histórico, a narco-revolução constrói casas para os pobres. Narco-revolução é o machismo robusto, uma anti-ideologia emocionante. O comunismo, por outro lado, é maçante, um longo zumbido ideológico.

Se os guerrilheiros são ignorados pela maioria ou simplesmente desprezados – a série diz ao espectador que os camponeses e os agricultores vivem em um estado de “subjugação comunista” definitiva – Escobar consegue evitar ser capturado, transitando pelos bairros mais pobres como um fantasma.

A maneira como o seriado escolhe representar o Holocausto do Palácio da Justiça, de 1985, é especialmente importante. Ao lado do assassinato de Jorge Eliécer Gaitán em 1948, este foi o evento político mais emblemático do século na Colômbia. Narcos representa o caso como orquestrado por Escobar e os guerrilheiros simplesmente para atender ao seu desejo de destruir uma evidência contra ele que estava dentro no prédio.

Embora isso esteja mais para uma teoria da conspiração – essa evidência realmente existia e foi destruída durante o ataque – a maioria dos historiadores acredita que os documentos foram incendiados quando os militares colombianos decidiram abrir fogo de forma indiscriminada no Palácio, usando tanques e matando senadores, guerrilheiros e funcionários administrativos.

Embora as guerrilhas tivessem anunciado um conjunto de demandas “referentes à redistribuição de riqueza e o fim da injustiça e da tirania”, a narrativa cinicamente realista diz que tudo isso era apenas uma “besteira”. Somos então lembrados de uma das ideias mais reforçadas de nossa cultura: a injustiça está tão enraizada na sociedade capitalista que aqueles que falam de aboli-la só podem estar mentindo.

As afirmações de Narcos podem ser levadas a sério porque não fingem ser puras. Assim como Trump, Escobar é um negociador, uma figura cuja potência se baseia em reproduzir, e não resistir, a corrupção no centro da vida mercantilizada. Em um mundo de acordos e negócios, só podemos confiar que os desonestos não irão mentir sobre a existência de utopias.
A Política de Centro como o Futuro

Quando Narcos não está oferecendo uma visão romantizada de Escobar, a série foca no que há de mais pretensioso na política colombiana: o Partido Liberal. À medida que a violência narco-revolucionária se desliza para a incoerência e a crueldade niilista, a série apresenta um novo herói: o Dr. César Gaviria, presidente da Colômbia de 1990 a 1994 e o principal arquiteto da reforma neoliberal no país.

Como Escobar, ele é vendido como um revolucionário outsider, um anti-oligarca diligente capaz de atacar a corrupção burocrática por dentro. Se Escobar ataca o Estado colombiano corrupto com explosivos – uma violência narcisista que acaba por destruí-lo – Gaviria, por outro lado, escolhe observar rigorosamente os princípios da política. Ele é um respeitável liberal de centro.

Transformar o Partido Liberal Colombiano em um condutor da pureza transformadora é um ato de ficção política incrivelmente desonesto por parte da série. Durante a maior parte do século XX, o poder político na Colômbia foi dividido entre dois partidos: O Partido Conservador Colombiano – tradicionalmente ligados à elite latifundiária do país – e o Partido Liberal Colombiano – um partido associado aos interesses da burguesia industrial, trabalho institucionalizado (às vezes) e a classe média profissional do país.

Embora a diarquia tenha sido efetivamente real na Colômbia desde 1849, este arranjo foi explicitamente institucionalizado durante os anos do Frente Nacional (1958-74), um acordo pelo qual a cada quatro anos seria alternado mecanicamente (e não democraticamente) o poder entre os dois partidos. Alternativas de esquerda, quando não banidas, foram tradicionalmente reprimidas, seja por meio da violência direta do Estado ou por ordem dos militares.

Narcos representa Gaviria como um reformista altamente qualificado, cuja formação em Economia lhe dá base para administrar a política colombiana com uma integridade moral própria da classe média. Ele é retratado como alguém que tem a vontade política de enfim libertar a Colômbia de seu longo ciclo de corrupção e violência, apesar disso implicar um grande risco pessoal.

A série deixa completamente de lado o papel que Gaviria cumpriu para implementar reformas de Livre Mercado na economia colombiano.

Gaviria aprovou uma legislação para flexibilizar o trabalho (Lei 50) e enfraquecer os sindicatos, privatizar ativos e pensões, mercantilizar a saúde (Lei 100) e mudar a economia do intervencionismo para um modelo de desenvolvimento do Livre Mercado. Em consequência dessa reforma neoliberal, em muitos lugares o aumento do desemprego e o sofrimento social – decorrente da redução de serviços – foram mascarados pela alta taxa de crescimento econômico.

A “Revolución Pacífica” de Gaviria definiu como seu tema principal o slogan “Habrá Futuro!” – um sentimento que a série imprime com grande importância histórica e afetiva.

Este é o slogan neoliberal definitivo de uma época que obriga as pessoas a escolher entre vários tipos de catástrofes – catástrofe ecológica, desemprego em massa, novas formas de violência social e alienação – e ajustes tecnocráticos ao sistema. O progresso não é um futuro mais justo – é simplesmente qualquer futuro.
Bad Boy e Bigode dos Anos 70

Vinte e cinco anos após a morte de Escobar, Medellín mudou. É comum ver casais de mãos dadas andando de patins e pessoas correndo sem camisa. O número de assassinatos por ano na cidade felizmente caiu. Por toda a cidade encontramos arte e bibliotecas novas, brilhantes e modernas. Ninguém confunde o barulho de um trovão com o de um carro-bomba.

No entanto, os salários são baixos e os aluguéis são caros. São poucos os empregos bons. As “Fronteras Invisibles” – zonas controladas por gangues locais – ainda dividem os bairros com fronteiras fatais. Somos levados a crer que à medida que as mortes violentas diminuíram, o número de pessoas forçadas fisicamente a sair dos bairros aumentou: o deslocamento parece ser parte de um acordo entre o Estado e as gangues para melhor gerenciar a marca internacional da cidade. Alguns chegam a pensar que as gangues estão simplesmente matando de forma mais aperfeiçoada.

Narcos surge em um momento que Medellín se classifica como um dos destinos mais procurados da América Latina. Para quem quer uma viagem fora do padrão, porém progressista, Narcos vende uma ideia de politicamente diligente. Estes turistas podem deixar a cidade sentindo que desempenharam um papel em sua renascimento: os dólares gastos localmente em artesanato ajudam a movimentar a economia e a enterrar os velhos tempos de violência.

Ao mesmo tempo, Narcos passa a imagem de Medellín como uma utopia machista e niilista. Bebidas e cocaína à vontade, ignorância tida como charme ou intuição “fora da caixa”, um mundo organizado em torno de uma glória mesquinha e masculina por vingança – tudo isso é combinado para produzir uma atmosfera de rebeldia contra os limites de um presente sufocado.

Narcos sonha com uma Medellín que não existe mais. No entanto, seu desejo de ressonar um populismo de direita que anseia poder desenfreado e o espetáculo fascista de um homem sem limites, significa que pode ser mais uma imagem do futuro do que do passado.

Macron-Líbia: A conexão Rothschild

Manlio Dinucci

Tradução / “O que está a acontecer hoje na Líbia é o nó de uma instabilidade de vários aspectos”, declarou o Presidente Emmanuel Macron ao celebrar, no Eliseu, o acordo que “descreve o caminho para a paz e para a reconciliação nacional”. Macron atribui a situação caótica do país unicamente aos movimentos terroristas, os quais “se aproveitam do desequilíbrio político e da riqueza econômica e financeira que pode existir na Líbia, a fim de prosperar.” Por este motivo - conclui - a França ajuda a Líbia a bloquear os terroristas. Macron desvaloriza os fatos, desta maneira.

O mecanismo da desestabilização da Líbia foi a própria França, acompanhada pelos Estados Unidos, pela OTAN e pelas monarquias do Golfo. Em 2010, documentava o Banco Mundial, a Líbia registava em África os indicadores mais elevados de desenvolvimento humano, com uma renda per capita médio-alta, com acesso universal ao ensino primário e secundário, e de 46% ao ensino superior. Cerca de 2 milhões de imigrantes africanos encontravam emprego nesse país. A Líbia favorecia com os seus investimentos, a formação de organizações econômicas independentes da União Africana. Os EUA e a França – provam-no os emails de Hillary Clinton - concordaram em impedir o plano de Gaddafi de criar uma moeda africana, como alternativa ao dólar e ao franco CFA (moeda que a França impõe às suas 14 antigas colônias africanas). Foi a Srª. Clinton - documenta o New York Times – que fez o Presidente Obama assinar um “documento que autorizou uma operação secreta na Líbia e o fornecimento de armas aos rebeldes” incluindo grupos até então classificados como terroristas.

Pouco depois, em 2011, sob o comando dos Estados Unidos, a OTAN derruba o Estado líbio com a guerra (aberta da França), atacando-o no interior, com forças especiais. Daí o desastre social que vai fazer mais vítimas do que a própria guerra, especialmente entre os migrantes. Uma história que Macron conhece bem: de 2008 a 2012 faz uma carreira impressionante (se bem que suspeita) no Banco Rothschild, o império financeiro que controla os bancos centrais de quase todos os países do mundo.

Na Líbia, o Banco Rothschild chega em 2011, enquanto a guerra ainda está em curso. Os grandes bancos americanos e europeus efetuam, ao mesmo tempo, o maior roubo do século, confiscando 150 biliões de dólares dos fundos soberanos da Líbia. Nos quatro anos de formação no Banco Rothschild, Macron é introduzido na elite das finanças globais, onde se decidem as grandes operações, como a da demolição do Estado líbio. Em seguida, vai para a política, fazendo uma carreira deslumbrante (se bem que suspeita), primeiro como Vice Secretário Geral do Eliseu, depois, como Ministro da Economia. Em 2016, em poucos meses cria o seu próprio partido, En Marche!, um "partido instantâneo" sustentado e financiado por poderosas corporações multinacionais, financeiras e da comunicação mIdiática, que lhe abrem o caminho para a presidência.

Por trás da liderança de Macron não estão somente os interesses nacionais franceses. Na Líbia, o saque para repartir é enorme: a maior reserva africana de petróleo e grandes reservas de gás natural; as imensas reservas de água fóssil do aquífero nubiano, o ouro branco em perspectiva, mais precioso do que o ouro negro; o próprio território líbio, de primeira importância geoestratégica na intersecção entre o Mediterrâneo, a África e o Oriente Médio.

Há “o risco da França exercer uma hegemonia forte sobre a nossa ex-colônia”, adverte a Analisi Difesa (Análise da Defesa), sublinhando a importância da próxima expedição naval italiana na Líbia. Uma apelo ao “orgulho nacional” de uma Itália que reivindica a sua fatia na divisão neo-colonial da sua antiga colônia.

29 de julho de 2017

Qual o caminho para sair da crise venezuelana?

À medida que os venezuelanos vão às urnas neste domingo, o país enfrenta uma escolha entre o aprofundamento da revolução e uma reviravolta imposta pela elite.

por George Ciccariello-Maher

Hugo Chávez votando em 2007. Wilson Dias / Wikimedia

Quando as revoluções estagnam, a confusão reina, e ambas são realidades palpáveis para a Venezuela hoje. Em meio a uma profunda crise econômica, política e agora institucional, muitos no terreno na Venezuela e ainda mais observadores do exterior não sabem o que pensar ou fazer. Mas ao invés de abandonar o processo bolivariano ao fazer eco das denúncias mainstream do governo de Nicolás Maduro como antidemocrático, repressivo e até autoritário, é precisamente nesses momentos difíceis que os revolucionários devem pensar com clareza e levar a frente.

Uma crise institucional

As causas da crise são muitas e suas explicações são bem conhecidas. A morte de Hugo Chávez em 2013 deixou uma cratera simbólica no coração da revolução bolivariana e coincidiu com um colapso nos preços mundiais do petróleo que limitou severamente o espaço de manobra de um governo de Maduro já vacilando para fora do portão. Aproveitando essa fraqueza, as elites conservadoras à frente da oposição apoiada pelos EUA foram para a ofensiva nas ruas em abril de 2013, protestos que deixaram onze mortos e iniciaram uma estratégia de tensão que continua quatro anos depois.

Ao invés de agir de forma decisiva desde o início, o governado Maduro sitiado optou por uma abordagem pragmática. Um sistema falido de controles cambiais que regem a distribuição de renda do petróleo nunca foi totalmente desmantelado. O resultado foi um ciclo de feedback destrutivo de especulação no mercado negro, o acúmulo e contrabando de gasolina e alimentos e uma explosão de corrupção já desenfreada na interseção dos setores público e privado. Confrontado com protestos de rua e escassez de alimentos, Maduro respondeu de forma errática, apoiando a produção de base por comunas ao mesmo tempo em que cortejava as empresas privadas em busca de alimentos nas prateleiras.

O turbilhão que se seguiu não era o que esperávamos. Como é frequentemente o caso, o caminho pragmático pareceu ser o mais seguro quando era de fato o mais traiçoeiro, e a hesitação de Maduro revirou espetacularmente quando a oposição teve uma vitória decisiva nas eleições da Assembléia Nacional de dezembro de 2015. O que se seguiu foi uma crise institucional plena em que a oposição procurou intensificar a crise, desestabilizar o governo e tornar o país ingovernável.

Tendo tomado um ramo do governo, as forças da oposição imediatamente exigiram os três, violando constantemente as decisões do Supremo Tribunal e descaradamente tentando derrubar o executivo. Eles continuam a encorajar protestos violentos nas ruas que deixaram mais de cem mortos - onde a causa é conhecida, a maioria foi morta diretamente ou indiretamente pelos próprios manifestantes. Esta não é a imagem da repressão do governo pintada pela mídia internacional e em um país onde 55 por cento dos venezuelanos continuam a aprovar Chávez e quase metade se opõem às táticas violentas da oposição, aqueles que procuram derrubar Maduro não desfrutam de uma grande legitimidade popular.

A mídia internacional tem desempenhado seu papel, enquadrando a questão como simplesmente uma questão de tempo: quando o presidente democraticamente eleito e legítimo será derrubado? Esqueça isso, mesmo em meio à crise, Maduro ainda é mais popular do que o mexicano Enrique Peña Nieto, Juan Manuel Santos da Colômbia e o não-eleito e ilegítimo presidente-golpista brasileiro Michel Temer. Esses detalhes importantes desaparecem no nevoeiro de uma implacável disputa na mídia, apoiada pela CIA e pelo governo Trump.

Qual caminho?

É difícil encontrar um caminho para a frente. Fala-se de diálogo - a panaceia liberal das panaceias -, mas ainda não está claro com quem o diálogo deve ocorrer, ou que tipo de soluções podem trazer. Embora possivelmente seja necessário parar a violência, sem soluções concretas para as contradições subjacentes ao petro-estado, esse diálogo simplesmente aliviaria a crise política à custa de resolver a crise econômica. A situação que prevalece não é o resultado de muito socialismo, mas muito pouco, e qualquer caminho que tente dividir a diferença entre socialismo e capitalismo sofrerá o pior de ambos os mundos.

No contexto desta aguda crise institucional, os venezuelanos vão às eleições neste domingo para eleger uma Assembléia Constituinte habilitada a revisar a Constituição da nação pela segunda vez desde o surgimento de Hugo Chávez e da Revolução Bolivariana. Nas eleições, os venezuelanos escolherão não apenas 364 representantes regionais, mas também 8 representantes indígenas e 173 representantes setoriais adicionais, incluindo trabalhadores, agricultores, deficientes, estudantes, aposentados e representantes de empresas, comunas e conselhos comunais.

Este processo está longe de ser perfeito e enfrenta muitos obstáculos, incluindo um debate jurídico não resolvido promovido por uma aparente contradição sobre quem pode convocar uma assembléia constituinte: é "o povo" (artigo 347) ou o presidente entre outros (artigo 348)? Alegando que Maduro violou o primeiro, mas se recusou a citar o último, a oposição ameaça boicotar as eleições dominicais e até mesmo obstruir fisicamente os lugares de votação. Depois de cortejar a ideia de chamar uma assembléia constituinte para minar o Chavismo, os líderes da oposição agora recuam sobre a ideia de uma assembléia que pode aprofundar o processo bolivariano em vez de revertê-lo.

A oposição sofreu as conseqüências desastrosas da abstenção eleitoral no passado: depois de boicotar as eleições da Assembleia de 2005, ela ficou sem uma voz na legislatura. Mas 2017 não é 2005, e a ebulição do início do chavismo deu lugar a uma crise profunda e sustentada que tem seus adversários à procura de um final para enterrar seus ganhos de uma vez por todas. Meses de bloqueios de ruas e pilhagens se desenvolveram em atentados e ataques de infra-estrutura em transportes públicos, hospitais, televisão estatal e, recentemente, instalações estatais de produção de leite. A oposição ameaçou nomear um novo governo em resistência e prometeu grandes confrontos neste fim de semana, incluindo uma possível marcha no palácio presidencial, como a que provocou o golpe de Estado de 2002 contra Chávez.

Sendo desonesto sobre a Venezuela

Em circunstâncias tão difíceis, o que é revolucionário fazer? A Assembléia Constituinte não é perfeita, mas não estamos no terreno de soluções perfeitas. O apoio às cegas não é útil, mas nem o caminho oposto, o que podemos chamar - tomando emprestado uma frase de Lenin - uma "crítica acrítica" que se recusa a chegar ao coração das coisas e a compreender as mudanças revolucionárias como um processo dinâmico. Nada é mais difícil do que fazer uma revolução, e pouca coisa é mais fácil do que antecipar prematuramente o fracasso.

Em um artigo recente, Mike Gonzalez declarou a morte da revolução bolivariana: "Este projeto fracassou". Escusado será dizer que essa sugestão arrogante seria uma surpresa para aqueles que estão no terreno, ainda lutando por mudanças revolucionárias, precisamente porque não têm outra opção. Para um artigo intitulado "Sendo honesto sobre a Venezuela", Gonzalez começa com uma estranha teoria da conspiração: que um ataque de helicóptero contra alvos do governo era realmente uma operação de falsa bandeira realizada pelo próprio governo. Infelizmente para ele, essa insinuação infundada - que ecoou pontos da conversa da direita - não terminou bem: menos de uma semana depois, Oscar Pérez apareceu em uma manifestação de oposição.

O objetivo de Gonzalez é revelar a "traição" por Maduro da Revolução, mas essa traição assume a forma de uma captura 22: o governo é ineficaz, mas se tenta agir, é autoritário; quando se defende de uma maneira muito menos pesada do que a maioria dos governos, seria repressivo; é fiscalmente irresponsável, mas criticado por se desesperar para projetos extrativistas como o Arco Minero; se não consegue preencher as prateleiras, é inútil, mas colaborar com companhias privadas para fazer isso é uma alta traição; e quando um partido socialista reconhecidamente problemático (o PSUV) atua de forma partidária - este é, afinal, o que os partidos revolucionários devem fazer - torna-se um "instrumento de repressão política".

Em meio a denúncias hiperbólicas do "saneamento sistemático da democracia, a demonização da dissidência", Gonzalez rejeita a Assembléia Constituinte de forma paranoica: "Não haverá debate, sem transparência", ele nos diz, sem necessidade de explicar. E para um socialista revolucionário, o autor parece manter a democracia liberal em alta estima, criticando de forma enganosa as "instituições lotadas" do Chavismo e considerando o governo "cada vez mais antidemocrático" sem especificar em que medida. Gonzalez afirma que o governo "impede o direito protegido pela constituição de protestar" - isso seria uma surpresa para aqueles cujos bairros não viram nada além de protestos durante meses.

Com pouco mais do que um aceno de cabeça para o imperialismo, capital global ou a brutalidade da oposição venezuelana, Gonzalez coloca tudo nos ombros de Maduro. A corrupção, portanto, aparece como uma política de estado sem mencionar as "briefcase companies" privadas que simplesmente levaram bilhões em fundos do governo antes de desaparecerem no ar. As prateleiras são deixadas vazias para falar a verdade de um projeto político fracassado, sem mencionar a sabotagem capitalista da produção. E Gonzalez aponta de modo crítico para o assassinato do cacique indígena Sabino Romero, embora não mencione que ele foi morto por ricos proprietários de terra. Os "ganhos do Chavismo" estão realmente escorregando, mas isso não nos absolve da tarefa de explicar o porquê.

Em última análise, para Gonzalez, as elites chavistas e a burguesia, que têm "alegremente conspirado" com elas são uma e a mesma coisa. Mas isso o deixa incapaz de responder a pergunta mais básica de todas: se eles são uma e a mesma coisa, então por que eles estão lutando uma batalha sangrenta nas ruas? A resposta é que, por imperfeita que seja, o governo de Maduro ainda representa a possibilidade de algo radicalmente diferente, já que os muitos revolucionários de base que continuam a apoiar o processo podem atestar.

Ao retratar uma constelação caótica de fatos sem explicar suas causas, ao culpar o governo e deixar a oposição e o imperialismo fora do gancho, a crítica de Gonzalez compartilha muito com seus adversários professos. Como a mídia mainstream, ele não nos conta quem é responsável pelas mortes nas ruas e, como a mídia mainstream, ele oferece tragédias descontextualizadas como prova do fracasso do governo. Mas, acima de tudo, como a mídia mainstream, ele apaga os mesmos revolucionários que ele alega representar: deixando quase totalmente fora dessa imagem estão as centenas de milhares lutando pelo socialismo no nível da base e tendo que tomar decisões difíceis - com consequências reais - em meio à crise do presente.

"Devemos apoiar os que estão lutando para reconstruir a base para uma sociedade genuinamente democrática", escreve Gonzalez. Para fazer isso, ele pode prestar atenção a José Miguel Gómez, um organizador revolucionário da Comuna Pío Tamayo em Barquisimeto, que tem lutado há muito tempo pelo poder comunal:

O governo não é o projeto bolivariano, que vai muito além da presidência - é por isso que eles não conseguiram derrotá-lo e por que ainda está nas ruas hoje. Precisamos continuar a resistir e a construir uma opção verdadeiramente revolucionária que possa transformar a própria estrutura do estado. A Assembléia Constituinte é um passo em direção a isso, mas também precisamos purificar o governo e as instituições, onde há muita corrupção e burocracia. Temos que arrancar o poder das forças armadas. Há muitas mafias financeiras - precisamos eliminar os controles cambiais e nacionalizar o setor bancário e o câmbio. A direita nunca será uma opção. Devemos ser críticos em relação ao governo e construir uma verdadeira alternativa capaz de governar.

Aqui, Gómez expressa muitas das mesmas críticas expressas pelos críticos do chavismo, mas ele os atormenta para uma visão revolucionária da mudança social e uma compreensão do que aconteceria se a oposição tomasse o poder.

A direita espera nas asas

Devemos ser claros sobre as apostas das próximas semanas e meses: a vitória para a direita significa, na melhor das hipóteses, austeridade e, na pior da hipóteses, uma guerra civil. Conhecemos isso porque sabemos exatamente quem são: a liderança da oposição é extraída dos setores mais reacionários das antigas elites, e a juventude mascarada nas ruas - como mostro em Building the Commune - é fruto de uma aliança perigosa com as forças do fascismo latino-americano sob a liderança do guru colombiano da morte, Álvaro Uribe. O retorno deles, que promete restabelecer o bom funcionamento do capitalismo, só o faria - como Marx insiste que sempre tenha sido - através dos meios mais brutalmente repressivos.

É claro que as aspirações antidemocráticas da oposição são expostas na linguagem da democracia. Uma recente "consulta" da oposição, realizada de forma inteiramente informal e sem o apoio oficial do conselho eleitoral, falou em defender a Constituição de 1999. Enquanto isso, pediu tacitamente às Forças Armadas que adotem um lado no conflito "apoiando as decisões da Assembléia Nacional" (um ramo do governo) e pediu "o estabelecimento de um governo de unidade nacional" através de eleições antecipadas - em clara violação das normas constitucionais.

Apesar das reivindicações da oposição sobre a repressão do governo, poucos podem esquecer a sangrenta retribuição exigida pela oposição durante o breve golpe de 2002, em que os líderes chavistas foram caçados e espancados, e sessenta foram mortos em menos de dois dias. O fato de que várias pessoas foram linchadas, queimadas até a morte e até mesmo mortas com argamassas caseiras nos últimos meses por se parecerem muito com chavistas (ou seja, com pele escura e pobre) é apenas uma amostra do que está por vir, se a campanha de desestabilização da oposição for bem sucedida.

Construindo uma verdadeira alternativa

Não existe uma compreensão coerente da revolução que não envolva a derrota de nossos inimigos à medida que construímos uma nova sociedade. A corrupção, a burocracia e a complacência das novas elites são todas pragas a serem combatidas e derrotadas - mas simplesmente criticar estas não faz uma revolução. Não podemos derrotar tais perigos sem armas, o mais importante dos quais são o peso das massas nas ruas, as lutas populares de base para a autodeterminação e o controle do território e da produção. Enquanto o governo bolivariano - de Chávez a Maduro - ajudou a afiar essas armas, também confiou nelas para sua própria sobrevivência.

As revoluções são feitas pelas massas em movimento, dominadas por ideias revolucionárias. Nenhum indivíduo foi mais eficaz para ajudar a colocar as massas venezuelanas em movimento do que Hugo Chávez. E, no entanto, esse movimento colide inevitavelmente com obstáculos em seu caminho para ser combatido e superado, desde as realidades econômicas até os ferozes inimigos da mudança. Nesse processo, e mesmo sem ele, um certo cansaço lento é inevitável. Isso passa pelo desgaste conhecido na Venezuela hoje - um desgaste do fervor revolucionário, especialmente quando os tempos são difíceis.

Para o revolucionário trinitário-tobagense C.L.R. James, existia um vazio inegável entre a liderança jacobina da Revolução Francesa e a fúria popular dos sem-culottes. Os primeiros, como Robespierre, eram autoritários; os últimos, democratas radicais. Mas eles coincidiram momentaneamente e estrategicamente em direção ao objetivo de derrotar um inimigo brutal no campo de batalha: "Nunca antes de 1917 as massas tivessem uma influência tão poderosa - pois não era mais do que influência - para qualquer governo".

Ninguém afirmaria que as massas venezuelanas estão no poder hoje, mas nos últimos vinte anos as viu se aproximando mais do que nunca. Seus inimigos e os nossos estão nas ruas, ardendo e saqueando em nome de sua própria superioridade de classe, e sabemos exatamente o que eles farão se tiverem sucesso. O único caminho a seguir é aprofundar e radicalizar o processo bolivariano através da expansão do socialismo radicalmente democrático incorporado nas comunas de base da Venezuela, que ajudam a superar as contradições econômicas do petro-estado ao expandir a consciência política participativa.

A única maneira de sair da crise venezuelana hoje é decisiva para a esquerda: não no nem-nem de "que se vayan todos", mas na construção de uma alternativa socialista real que surgirá ao lado do governo Maduro, se possível, mas sem ele, se necessário.

27 de julho de 2017

Na linha de frente síria, a batalha contra o Daesh está chegando ao seu crescendo

O Daesh está enfrentando agora uma derrota total em Qalamoun, e o exército sírio - no Líbano - o Hezbollah e o exército libanês desejam sinceramente alcançar este objetivo

Robert Fisk


Recentemente capturada por combatentes sírios e do Hezbollah, a fortaleza do Daesh fica a mais de 6.000 metros acima do nível do mar Nelofer Pazira

Tradução / Tropas sírias estão agora instaladas em posições do lado libanês da fronteira entre os dois países, em sua batalha para destruir o Daesh nas altas montanhas do Qalamoun. Corpos apodrecem nas encostas da montanha por aqui, enquanto o Hezbollah libanês – que combate agora dentro da Síria – prepara-se para um confronto final contra os terroristas, que hoje estão cercados num pico de pedra preta ao norte. Do alto da montanha Karra, 2.100 metros acima da fronteira sírio-libanesa, pude ver soldados sírios acampados nos picos das duas montanhas – dentro do Líbano.

O comandante sírio em Qalamoun, general Median Abad, diz a verdade sem hesitar. "Sim, temos soldados nossos em dois pontos dentro do Líbano – acima da estrada da fronteira pela qual o Daech costumava entrar na cidade libanesa de Ersal. Nossos homens estão nas montanhas libanesas de al-Sharqia e al-Valilal. Veem-se daqui as tendas deles". Verdade. Do outro lado de uma ravina (wadi) estreita que nos separa do Líbano, posso ver várias tendas cinzentas dos militares sírios espalhadas pelos picos das duas montanhas libanesas. O general confirma que está em comunicação com o exército libanês – cujo tanque atira contra o Daesh que ele ouve ao longe pelos vales – através do Hezbollah, cujas forças uniram-se a ele ao atacar contra al-Karra.

Andar por aquela montanha depois da batalha que acabou há apenas cinco dias é experiência perturbadora. O fedor dos corpos do Daesh insepultos, o ar da montanha batendo nos sacos de areia nas trincheiras vazias e os montes de terra feitos pelo Daesh antes da última refrega, e a rede de túneis – escavados na rocha viva pelos terroristas, na vã esperança de se proteger contra os ataques aéreos dos sírios – mostram bem a fúria dos combates. Nenhum terrorista do Daesh sobreviveu – o que fala por si – mas um vídeo notável filmado pelos vitoriosos durante a luta mostra um guerrilheiro do Hezbollah dizendo a um terrorista do Daesh, que está morrendo, coberto de sangue: "Que Deus te abençoe" – a benção de um combatente xiita a um combatente sunita moribundo.

Sobre a carroceria de uma caminhonete, um oficial sírio abre os sacos caqui que transportam três mortos do Daesh tentando identificar alguém, sem sucesso. Os cadáveres estão inchados ao calor de 46º, escuros por causa da putrefação, um deles só de cuecas. Soldados sírios e combatentes do Hezbollah olham à distância de poucos passos, imperturbáveis, muitos com a mão sobre o nariz. Estão numa operação conjunta contra os terroristas do Daesh – o centro de comando está numa construção térrea na vila de Fleita – e dizem que só tiveram feridos na batalha. Médicos ali perto têm uma tenda onde se lê, num dos lados "Crescente Vermelho Iraniano" – mas não parece haver iranianos por aqui. 

"O exército sírio e o Hezbollah combateram por esse topo de montanha, ao lado de forças da defesa nacional [durante parte do tempo], mas foram as Forças Especiais Sírias e do Hezbollah que conduziram a batalha", diz o general Abad, 48 anos. "Para nós, o Hezbollah é uma escola de combate. Aprendemos com a experiência deles e nos ensinamos uns aos outros, estávamos literalmente treinando lado a lado, na luta, e, claro, tínhamos nossa artilharia." Há rifles e armamento antiaéreo sírio pelo chão nas montanhas – e um motorista exímio conseguiu dirigir um tanque de combate fabricado na Rússia, montanha acima, pela trilha de rochas soltas, até o topo de al-Karra.

O comandante do Hezbollah libanês, de barba curta, grisalho e de óculos, do sul do Líbano, que diz ter 37 anos – conheço bem a cidade dele, mas desconfio que seja mais velho do que diz – sentou-se à minha direita durante o almoço dos soldados numa barraca, refeição de algum modo temperada pelo cheiro dos cadáveres a poucos metros de distância e pela insistência de um oficial de inteligência do Hezbollah que filmou cada garfada de arroz e galinha que enfiei na boca. O que o Hezbollah em Beirute, que me conhece, fará com esse vídeo absurdo, não tenho ideia.

Mas os soldados sírios e do Hezbollah sentaram juntos em torna da tenda e pareciam conhecer-se bem, e o oficial do Hezbollah e seus soldados partilhavam um denso e intimidante chá "mate" – preparado com folhas argentinas – obrigatório em todas as refeições de militares sírios. Vários combatentes do Hezbollah portavam rifles de precisão novos, mas a maioria estavam armados com a conhecida Kalashnikov usada pelo exército sírio. Os uniformes do Hezbollah, com estampa de camuflagem marrom claro são muito diferentes das roupas de combate verde e marrom dos sírios.

Ao norte, está a última fortaleza do ISIS. Os que a defendem estão em tendas negras e, logo ao sul, um pouco abaixo, os homens do Hezbollah que se preparam para atacar a fortaleza distribuíram suas tendas brancas pela encosta da montanha. Vai haver mais fogo de artilharia e mais ataques aéreos nos próximos dias, segundo o general Abad. O ninho que implantou na montanha será local perfeito para assistir de cima ao ataque; al-Karra está 2.200m acima do nível do mar – os acampamentos dos israelenses no Monte Herman nas Colinas do Golan tem apenas 600m, e Abad concorda que os sírios jamais sairão de al-Karra – em território sírio, é claro, agora que se instalaram nesse pico. Antenas de rádio militares já se agitam como trigo ao vento acima das rochas.

Do lado sudoeste posso ver a cidade libanesa de Ersal – invadida por pouco tempo pelo ISIS e pela Frente Nusrah. Alguns dos militares libaneses que defendiam a cidade foram degolados; outros, pelo menos nove, continuam prisioneiros em algum lugar dessas montanhas, provavelmente do lado libanês da fronteira.

Soldados libaneses percorreram campos sírios de refugiados perto de Ersal. Em sua mais recente operação, dois homens se autodetonaram, mas quatro outros morreram quando estavam sob custódia dos libaneses, por efeito – como informou o exército em Beirute – de "problemas médicos preexistentes". História provável, como se diz, mas nem libaneses nem sírios deram muita importância.

O ISIS sofre agora derrota total em Qalamoun, e o exército sírio e o Hezbollah e o exército libanês aplicadamente trabalham para que assim seja. A eliminação deles porá fim à ameaça que o ISIS representa contra a linha de suprimento do Hezbollah ao longo da estrada Hermel-Baalbek dentro do Líbano e restaura a soberania libanesa segura sobre a cidade de Ersal. Diplomatas ocidentais observaram essa última batalha a partir do lado libanês da fronteira, mas claro que não podem vir à Síria – e aparentemente nem percebem que soldados sírios estão em território libanês, mesmo que só umas poucas centenas de metros além da fronteira.

Única testemunha ocidental do lado sírio da luta na montanha é The Independent, e o general Median Abad oferece uma descrição de especialista em tática, da paisagem. Para o sul, em torno das cidades de Zabadani, Bloudan e Madaya, houve um cessar-fogo entre sírios de um lado, e Frente Nusrah e aliados, do outro, conversas para "reconciliação" que talvez devolvam as cidades outra vez ao controle sírio. Se forem bem-sucedidos – e se o iminente ataque ao ISIS a partir de al-Karra sair vitorioso –, então toda a fronteira sírio-libanesa estará limpa dos terroristas islamistas que frequentemente fugiam para o Líbano, para não serem presos pelos sírios, e usavam o Líbano como rota de suprimento militar – via Ersal – para a Síria.

A área em torno de Ersal ("Jurd") – terra nua perto da cidade – cobre 150 km2 de pedra, cascalho e montanhas açoitadas pelo vento que fica entre Líbano e Síria, sobre os dois lados, separados pela suja linha de fronteira que lá está, 500m abaixo de nós.

É trilha traiçoeiramente pacífica, traçada – claro – em alguma sala de desenho francesa, quando as autoridades do mandato francês dividiam o Líbano da Síria, no início dos anos 1920s. Talvez fizesse sentido em algum salão parisiense, mas lá no alto da montanha al-Karra, parece invenção quixotesca, cheia de armadilhas políticas e militares. Talvez fosse esse o plano dos franceses, tantas décadas atrás.

O general Abad tem visão menos sutil dos eventos correntes. O presidente Bashar al-Assad percebeu logo o "plano internacional" para destruir a Síria, e o Hezbollah e a Resistência – motivo pelo qual a coordenação começou entre Síria, Irã e o Hezbollah, explicou ele. Israel sempre foi o "principal apoiador dos terroristas" – e por isso atacou forças sírias e do Hezbollah – e por isso Qatar e Arábia Saudita ajudaram na "conspiração". "Ouvimos vozes turcas e sauditas e Qatari nas rádios terroristas, também afegãos falando muito mal o árabe" – diz o general. "Depois da vitória do Hezbollah sobre Israel no Líbano em 2006, muita gente passou a querer desarmar o Hezbollah, como parte do projeto para um "novo" Oriente Médio da [então secretária de Estado dos EUA] Condoleezza Rice. Havia gente no Líbano que falava de desarmar o Hezbollah, e outros tentavam tirar a Síria da "trilha da resistência". Mas nós lutamos contra tudo isso – e agora combatemos juntos contra o Daech."

Mas o ISIS ainda lutará. Da sua última fortaleza na montanha negra ao norte, ainda fazem voar seus drones miniaturas para o sul, em direção às linhas sírias e do Hezbollah. Mais para sudeste, os caminhões do Hezbollah e da Síria escalam a estrada da montanha, e passam por agricultores locais e os filhos, que colhem cerejas que pendem das cerejeiras carregadas. E oferecem cerejas aos soldados que passam. "O governo os ajudou a plantar essas árvores. – Por que apoiavam o Daech, quando estava aqui?" – pergunta Abad, desalentado.

Sim, as cerejas de al-Karra etsão maduras e doces - e perigosas.

Os dias de julho

Os bolcheviques queriam evitar o destino da Comuna de Paris. É por isso que eles não assumiram o poder em julho de 1917.

Daniel Gaido

Jacobin

Manifestação política em 18 de junho de 1917, em Petrogrado. A bandeira da esquerda diz "Paz para o mundo inteiro - Todo poder para o povo - Toda terra para o povo" e a bandeira da esquerda diz: "Abaixo os ministros-capitalistas"; estes eram slogans bolcheviques.

Tradução / Em 1917, a Rússia tinha mais de 165 milhões de cidadãos, dos quais apenas 2,7 milhões moravam em Petrogrado. A capital tinha 390 mil trabalhadores de fábrica – um terço eram mulheres – 215.000 a 300.000 soldados como tropas aquarteladas, e cerca de 30 mil marinheiros e soldados estacionados na base naval de Kronstadt.

Após a Revolução de fevereiro e a abdicação do Czar Nicolau II, os sovietes, liderados pelos mencheviques e os socialistas revolucionários, cederam o poder a um governo provisório não eleito que se inclinava a continuar com o envolvimento da Rússia na Primeira Guerra Mundial e a atrasar a reforma agrária até as eleições da Assembleia Constituinte, cuja data foi logo em seguida adiada indefinidamente.

Esses mesmos sovietes também haviam exigido a criação de Comitês de Soldados e os instruíram a desobedecer quaisquer ordens oficiais contrárias às ordens e decretos dos Representantes do Soviete dos Trabalhadores e dos Soldados.

Essas decisões contraditórias produziram uma estrutura de poder dual e instável marcada por crises regulares do governo.

A primeira dessas crises estourou em abril de 1917 durante a guerra e terminou depois que os principais líderes políticos burgueses – Pavel Milyukov do Partido cadete (Partido Democrático Constitucional) e Alexander Guchkov do Partido Outubrista – foram expulsos. Além disso, revelou a impotência do governo na guarnição de Petrogrado: as tropas respondiam ao Comitê Executivo do Soviete de Petrogrado e não ao então comandante, o General Lavr Kornilov.

O governo de coalizão que emergiu desta crise incluiu nove ministros dos partidos burgueses e seis dos chamados partidos socialistas. O príncipe Georgy Lvov permaneceu Primeiro Ministro e Ministro do Interior, mas o Ministro da Guerra e da Marinha Alexander Kerensky, membro do Partido Socialista Revolucionário, logo se tornou uma estrela em ascensão no governo. O gabinete também incluiu o menchevique Irakli Tsereteli como ministro dos Correios e Telégrafos e Matvey Skobelev como ministro do Trabalho. Os revolucionários socialistas Viktor Chernov e Pavel Pereverzev também se juntaram à coalizão como Ministro da Agricultura e ministro da Justiça, respectivamente.

O Partido Bolchevique no verão de 1917

Os Bolcheviques lutaram durante a primeira metade de 1917. Eles inicialmente se opuseram à manifestação do Dia Internacional da Mulher, que levou à Revolução de Fevereiro. O Partido Bolchevique experimentou, em seguida, uma forte guinada à direta em meados de março, quando Lev Kamenev, Josef Stalin e M. K. Muranov retornaram da Sibéria e assumiram o órgão de comunicação do partido, o Pravda. Sob o controle deles, o jornal defendia o apoio crítico ao Governo Provisório, rejeitava o slogan “Abaixo a guerra” e pedia o fim das atividades desorganizadoras no front.

Essas posições contrastavam fortemente com as visões que Lenin expressava em suas “Cartas de Longe”, por isso não é surpresa que o Pravda publicasse apenas a primeira dessas Cartas, com inúmeras exclusões. De acordo com o testemunho de Alexander Shlyapnikov:

O dia da publicação do primeiro número do “Novo Pravda”, 15 de março, foi um dia de triunfo para os “defensistas”. Todo o Palácio Tauride, desde os membros do Comitê da Duma até o Comitê Executivo, o coração da democracia revolucionária, estava repleto com uma notícia – a vitória dos bolcheviques moderados e razoáveis sobre os extremistas. No próprio Comitê Executivo, fomos recebidos com sorrisos venenosos.

Esses pontos de vista prevaleceram entre os líderes bolcheviques em Petrogrado quando, em 3 de abril, Lenin chegou à Estação Finlândia. No dia seguinte, ele apresentou as suas famosas “Teses de Abril” aos delegados bolcheviques na Conferência dos Sovietes de Toda a Rússia. Em contraste com Kamenev e Stalin, Lenin reafirmou seu repúdio total ao “defensismo revolucionário” e defendeu a fraternidade no front. Ele também adotou a perspectiva de Leon Trotsky, caracterizando o “momento atual” como uma transição entre o primeiro estágio “burguês-liberal” da revolução e o segundo estágio “socialista”, durante o qual o poder seria transferido para as mãos do proletariado.

Lenin se opôs ao “apoio crítico” de Stalin e Kamenev ao Governo Provisório, e solicitou a rejeição total a tal Governo bem como a dissipação da noção de que os bolcheviques e os mencheviques menos radicais poderiam se reunificar. Daí em diante, os bolcheviques chamaram à transferência de todo o poder aos Sovietes, que passariam então a armar o povo, abolir a polícia, o exército e a burocracia estatal, bem como confiscar todos os latifundiários e transferir o controle de produção e distribuição aos trabalhadores.

Na Sétima (abril) Conferência do Partido Bolchevique de toda a Rússia, realizada em Petrogrado de 24 a 29 de abril, as posições de Lênin sobre a guerra e o Governo Provisório ganharam o apoio da maioria.

O partido bolchevique permaneceu pequeno no início de 1917, com apenas cerca de dois mil membros em Petrogrado, constituindo apenas 0,5% da classe trabalhadora industrial da cidade. Na abertura da Conferência de Abril, no entanto, o número de membros do partido havia aumentado para dezesseis mil na capital. No final de junho, ele tinha dobrado. Dois mil soldados aquartelados se juntaram à Organização Militar Bolchevique e mais quatro mil se associaram ao Clube Pravda, uma organização não partidária para o pessoal militar, operada pela Organização Militar Bolchevique.

Esse crescimento maciço no número de membros transformou a organização. Suas fileiras cresceram com recrutas impetuosos que pouco sabiam sobre o marxismo, mas que estavam ansiosos por uma ação revolucionária.

Enquanto isso, os bolcheviques começaram a incorporar as organizações existentes. Em 4 de maio, no dia anterior à formação do governo da coalizão, Trotsky voltou do exílio. Agora que ele e Lênin tinham encontrado um terreno em comum, Trotsky começou a conectar sua organização, a Organização Mezhraiontsy ou Organização Interdistrital de Petrogrado, ao partido de Lênin.

Apesar desse crescimento exponencial, os bolcheviques ainda estavam em minoria. Eles representaram menos de 10% dos delegados presentes no Primeiro Congresso dos Representantes dos Sovietes dos Trabalhadores e dos Soldados de Toda a Rússia, que começou em 3 de junho. Este encontro nacional incluiu 1.090 delegados – dos quais 822 podiam votar – que representavam mais de trezentos sovietes de trabalhadores, de soldados e de camponeses, e cinquenta e três sovietes regionais, provinciais e distritais. Os bolcheviques tiveram a terceira maior representação com 105 delegados, atrás dos Revolucionários Socialistas (285 delegados) e dos mencheviques (248 delegados).

Neste momento, Petrogrado tinha três organizações distintas do partido bolchevique: o Comitê Central de nove homens, a Organização Militar de Todos os Russos e o Comitê de Petersburgo. Cada um tinha suas próprias responsabilidades, submetendo-as a pressões diferentes e às vezes conflitantes. O Comitê Central, que teve que considerar a situação de todo o país, frequentemente se via restringindo os grupos mais radicais.

Preparando o cenário

A Organização Militar Bolchevique planejou uma manifestação armada para 10 de junho a fim de expressar uma oposição de massas aos preparativos do Governo Provisório para uma ofensiva militar, uma oposição às tentativas de Kerensky de reinstituir a disciplina no quartel e uma oposição à crescente ameaça de transferência para o front de guerra. A Organização Militar Bolchevique cancelou a ação no último minuto, curvando-se à oposição do Congresso Soviético.

Alguns elementos no Partido Bolchevique, particularmente no Comitê de Petersburgo e na Organização Militar, viram a manifestação abortada como uma potencial revolta. De fato, o próprio Lenin teve que comparecer em uma reunião de emergência para defender a decisão do Comitê Central de cancelar a mobilização planejada. Ele explicou que o Comitê Central tinha que seguir a ordem formal do Congresso Soviético e que a contrarrevolução pretendia usar a manifestação para seus próprios propósitos. Lenin acrescentou:

Mesmo em uma guerra simples, pode acontecer que as ofensivas programadas devam ser canceladas por razões estratégicas e isso é mais provável que ocorra na guerra de classes. É necessário determinar a situação e ser ousado nas decisões.

O Congresso dos Sovietes votou a organização de sua própria marcha uma semana depois, em 18 de junho, e ordenou a participação de todas as unidades militares aquarteladas, desarmadas. Os bolcheviques transformaram esta em uma manifestação maciça contra o governo, com mais de quatrocentos mil manifestantes.

Em seu relato de testemunha ocular da Revolução Russa, Nikolai Sukhanov lembra:

Todos os trabalhadores e soldados de Petersburgo tomaram parte nela. Mas qual foi o caráter político da manifestação? “Os bolcheviques de novo”, observei, olhando os slogans, “e lá atrás deles está outra coluna bolchevique”... “Todo o poder aos Sovietes!” “Abaixo os Dez Ministros Capitalistas!” “Paz para os casebres, guerra aos palácios!” Com esta maneira robusta e pesada, o trabalhador-camponês de Petersburgo, a vanguarda da revolução russa e mundial, manifestou a sua vontade.

Os bolcheviques haviam planejado a manifestação original com a Federação de Petrogrado dos Anarquistas-Comunistas, um dos dois principais grupos anarquistas que operavam naquele momento. O Comitê Revolucionário Provisório Anarquista decidiu superar seu aliado e rompeu com F. P. Khaustov, editor do jornal linha de frente da Organização Militar Bolchevique, fora da prisão de Vyborg.

Em resposta, o governo invadiu a sede dos Anarquistas, matando um de seus líderes. Combinado com a Ofensiva de Julho de Kerensky e novas ordens para armas e homens, o assassinato de Asnin intensificou a agitação militar, particularmente no Primeiro Regimento de Metralhadora. Esses soldados começaram a planejar um levante imediato – com o encorajamento dos Anarquistas-Comunistas – já em 1 de julho.

Na Conferência das Organizações Militares Bolcheviques de Toda a Rússia, os delegados foram alertados a não darem nenhuma vantagem ao governo, ao organizarem um levante desorganizado e prematuro. O discurso de Lenin em 20 de junho soou um aviso premonitório:

Devemos ser especialmente atentos e cuidadosos, de modo a não sermos arrastados por uma provocação. (...) Um movimento errado da nossa parte pode destruir tudo. (...) Se fôssemos agora capazes de tomar o poder, é ingênuo pensar que, tendo-o tomado nós seríamos capazes de mantê-lo em nossas mãos. 
Já dissemos mais de uma vez que a única forma possível de governo revolucionário seria através dos Representantes dos Sovietes dos Trabalhadores, dos Soldados e dos Camponeses. 
Qual é o peso exato da nossa fração no Soviete? Mesmo nos Sovietes das duas capitais, para não falar agora dos outros, somos uma minoria insignificante. E o que esse fato mostra? Não pode ser descartado. Isso mostra que a maioria das massas estão oscilando, mas ainda acreditam nos Socialistas Revolucionários e nos mencheviques.

Lenin voltou a essa ideia em um editorial do Pravda:

O exército marchou até a morte porque acreditava que estava fazendo sacrifícios pela liberdade, pela revolução e pelo alcance da paz o mais rápido possível. 
Mas o exército o fez porque é apenas uma parte do povo, que nesta fase da revolução estão seguindo os partidos Socialistas-Revolucionárias e Mencheviques. Este fato geral e básico, a confiança da maioria na política pequeno-burguesa dos Mencheviques e dos Socialistas-Revolucionários, que depende dos capitalistas, determina a posição e a conduta de nosso Partido.

Mas, nas palavras de Trotsky, os trabalhadores e os soldados:

[L]embraram que, em fevereiro, seus líderes estavam prontos para bater em retirada, exatamente na véspera da vitória; que em março a jornada de oito horas por dia foi conquistada pelas ações dos escalões mais baixos; que em abril Miliukov havia sido expulso por regimentos que foram para a rua por sua própria iniciativa. A lembrança desses fatos aumentou o clima tenso e impaciente das massas. 

Líderes de nível da Unidade da Organização Militar de Petrogrado apoiaram a ação imediata e direta contra o Governo Provisório e muitos membros da base do partido bolchevique já consideravam inevitável e até desejável um levante sem mais demoras.

Mesmo quando a ofensiva estava prestes a entrar em colapso, no entanto, o governo entrou em espiral em outra crise: quatro ministros do partido cadete deixaram a coalizão, protestando contra o compromisso de Kerensky com a Rada Central da Ucrânia. Essa deserção abrupta deixou o governo, agora composto por seis ministros socialistas e apenas cinco capitalistas, desorganizado e vulnerável. À medida que as jornadas de julho começaram, os bolcheviques conquistaram a maioria na seção do Soviete de Petrogrado dos trabalhadores, atestando a sua crescente influência entre as massas.

A manifestação armada

A série de eventos conhecidos como as jornadas de julho começou no dia 3 de julho, quando o Primeiro Regimento de Metralhadora lançou uma rebelião com o apoio de várias outras unidades militares. A eclosão da revolta coincidiu com a segunda Conferência dos Bolcheviques na cidade de Petrogrado, que se iniciou em 1 de julho.

Foi somente quando ficou claro que vários regimentos, apoiados pelas massas de trabalhadores, já haviam tomado as ruas e que os militantes bolcheviques da base estavam participando, que o Comitê Central se juntou ao movimento e recomendou que as manifestações continuassem no dia seguinte sob os auspícios dos Bolcheviques. Embora o Comitê Central entendesse que os manifestantes levariam armas, a recomendação não dizia nada sobre uma revolta armada ou a tomada de instituições governamentais. Em vez disso, a resolução oficial reiterou o apelo bolchevique para “a transferência de poder para os Representantes do Soviete dos Trabalhadores, dos Soldados e dos Camponeses”.

Assim, a Organização Militar Bolchevique assumiu a liderança de um movimento de rua que havia, originalmente, se desenvolvido fora de seu controle. A erupção inesperada jogou o partido em desordem. Aqueles que obedeciam ao Comitê Central e argumentavam a favor do adiamento da revolução encontraram-se em conflito com outros, particularmente os membros da Organização Militar e o Comitê de Petersburgo, que eram a favor de uma ação imediata.

Claro, um partido revolucionário experimenta um crescimento exponencial durante uma revolução: já vimos que o partido bolchevique em Petrogrado cresceu 1.600 por cento em menos de cinco meses. Isso sujeita o partido a uma pressão sem precedentes, que se manifesta em vários graus de intensidade em diferentes órgãos do partido e ameaça separar a organização.

Nenhum arranjo organizacional pode impedir isso; todo um conjunto de circunstâncias – entre elas a confiança que a liderança do partido tenha conquistado – impacta em como os eventos revolucionários se desdobrarão. É por isso que a construção de um partido não pode ser feita no calor do momento, como a Revolução Alemã iria demonstrar.

Em 3 de julho, os manifestantes armados tentaram, sem sucesso, prender Kerensky antes de irem para o Palácio Tauride, sede do Comitê Executivo Central Soviético. Eles pretendiam forçar este grupo a tomar o poder do Governo Provisório.

A multidão – estimada em sessenta a setenta mil pessoas – superou as defesas do palácio e apresentou sua demanda. O comitê executivo recusou. Trotsky capturou a ironia do momento quando ele observou que, enquanto centenas de milhares de manifestantes exigiam que os líderes soviéticos assumissem o poder, a liderança em si estava procurando as forças armadas para usar contra os manifestantes.

No rescaldo da revolução de fevereiro, os trabalhadores e os soldados haviam dado o poder aos Mencheviques e aos Socialistas Revolucionários, mas esses partidos tentaram entregá-lo à burguesia imperialista, preferindo uma guerra contra o povo ao invés de uma transferência de poder sem sangue para suas próprias mãos. Quando os manifestantes de Julho perceberam que a liderança soviética não iria dispensar seus aliados capitalistas – a maioria dos quais deixara o governo por conta própria – a situação atingiu um impasse.

“Tome o poder, seu bastardo maldito, quando ele é dado a você!”

No dia seguinte, Lenin, que estava ausente, na Finlândia, foi direto para a sede do Partido Bolchevique, a mansão de Kshesinskaia. Em breve, marinheiros da base naval de Kronstadt chegaram lá também. O último discurso público de Lenin até depois da Revolução de Outubro não era o que os marinheiros esperavam: ele enfatizou a necessidade de uma manifestação pacífica e expressou sua certeza de que o slogan “Todo Poder aos Sovietes” venceria. Ele concluiu apelando aos marinheiros para que tivessem auto restrição, determinação e vigilância.

As Jornadas de Julho lançaram o Comitê Central Bolchevique, e particularmente Lenin, em uma luz mais que incomum: eles haviam impedido um levante prematuro na capital que, se tivesse acontecido, poderia ter isolado os bolcheviques e esmagado a revolução, como aconteceu com a Comuna de Paris em 1871 e à Revolta Espartaquista em Berlim, em 1919.

Uma forte procissão estimada em sessenta mil participantes dirigiu-se ao Palácio Tauride, apenas para encontrar os franco-atiradores na esquina das Ruas Nevsky e Liteiny e novamente na esquina das Ruas Liteiny e Panteleymonov. A maioria das vítimas, no entanto, veio de confrontos com dois esquadrões Cossacos, que empregaram até artilharia contra os manifestantes. Após essas batalhas campais, os marinheiros de Kronstadt, liderados por Fyodor Raskolnikov, chegaram ao Palácio Tauride, onde se juntaram ao Primeiro Regimento de Metralhadora.

Então, aconteceu um dos eventos mais dramáticos e tragicômicos do dia: Victor Chenov, o chamado teórico dos Socialistas Rveolucionários, foi enviado para acalmar os manifestantes. A multidão o agarrou, e um trabalhador com o punho em riste disse: “Tome o poder, seu bastardo maldito, quando ele é dado a você!”

Eles declararam Chernov sob prisão e o levaram para um carro nas proximidades. A intervenção oportuna de Trotsky salvou o ministro. Sukhanov descreveu a cena bizarra:

A multidão estava em tumulto, tanto quanto os olhos podiam alcançar. (...) Todo o Kronstadt conhecia Trotsky e, alguém teria pensado, a multidão confiava nele. Mas ele começou a falar e a multidão não atenuava os ânimos. Se um tiro tivesse sido disparado nas proximidades naquele momento para fins de provocação, uma enorme matança poderia ter ocorrido e todos nós, incluindo talvez Trotsky, poderíamos ter sido destruídos. Trotsky, excitado e não encontrando palavras nesta atmosfera selvagem, mal conseguia que as fileiras mais próximas o escutassem. (...) Quando ele tentou conduzir o próprio Chernov, as fileiras ao redor do carro se enfureceram. “Vocês vieram declarar a sua vontade e mostrar ao Soviete que a classe trabalhadora não quer mais ver a burguesia no poder [declarou Trotsky]. Mas por que prejudicar a sua própria causa por pequenos atos de violência contra indivíduos casuais? Cada um de vocês tem demonstrado sua devoção à revolução. Cada um de vocês está pronto a dar sua vida por ela. Eu sei disso. Me dê sua mão, camarada! Sua mão, irmão!” Trotsky estendeu a mão para um marinheiro que protestava com especial violência. Mas este recusou-se firmemente a responder. (...) Pareceu-me que o marinheiro, que deve ter ouvido Trotsky em Kronstadt mais de uma vez, teve agora uma sensação real de que ele era um traidor: ele se lembrou de seus discursos anteriores e ficou confuso. (...) Não sabendo o que fazer, os homens do Kronstadt liberaram Chernov.

Chernov retornou ao Palácio Tauride e escreveu oito editoriais condenando os bolcheviques. A revista Socialista Revolucionária Delo nadora finalmente publicou quatro deles.

No entanto, o Governo Provisório, como um todo, se vingou de uma maneira muito mais pérfida: no dia seguinte, começou uma campanha caluniosa que descrevia Lenin – que havia chegado à Rússia viajando pela Alemanha em um trem selado – como um agente a serviço do imperialismo alemão.

Triunfo temporário da reação

Em 5 de julho, o Comitê Executivo Central Soviético e o Distrito Militar de Petrogrado lançaram uma operação militar para reassegurar o controle da capital. As tropas leais ao governo ocuparam a mansão de Kshesinskaia e destruíram a planta de publicação do Pravda. Lenin escapou por pouco.

É inútil especular que, se ele tivesse sido apanhado, teria encontrado o mesmo destino que Rosa Luxemburg e Karl Liebknecht no rescaldo da Revolta Espartaquista, mas podemos encontrar uma pista em uma caricatura publicada no jornal de direita Petrogradskaia gazeta dois dias depois:


As tropas leais também ocuparam as Fortalezas de Pedro e Paulo, que o Primeiro Regimento de Metralhadora havia rendido a mando da Organização Militar Bolchevique. O Comitê Central do Partido instruiu seus seguidores a encerrar as manifestações de rua, convidando os trabalhadores a voltarem ao trabalho e os soldados a retornarem aos seus quartéis.

Enquanto isso, o governo ordenou a prisão dos principais Bolcheviques, incluindo Lenin, Kamenev e Grigory Zinoviev, bem como Trotsky e Anatoly Lunacharsky, os chefes da Organização Interdistrital. Embora alguns desses prisioneiros políticos, incluindo Trotsky, tenham deixado a prisão durante o golpe de Kornilov para organizar a resistência dos trabalhadores, outros permaneceriam na prisão até a Revolução de Outubro.

Assim terminaram as Jornadas de Julho, que foram, nas palavras de Lênin, “algo consideravelmente mais do que uma manifestação e menos do que uma revolução”.

Alguns dos principais líderes do Partido Bolchevique tiveram que passar à clandestinidade, e seus jornais foram fechados, mas o revés foi de curta duração. A ofensiva fracassada do 11º exército na frente sudoeste contra um enorme contra-ataque austro-alemão, acompanhada da deterioração da situação econômica, renovou a validade dos slogans bolcheviques.

Na verdade, os jornais Bolcheviques logo reapareceram com nomes ligeiramente alterados, e os comitês do partido encontraram novas bases muito rapidamente. Desarmar as unidades militares rebeldes, como o governo havia ordenado, era mais fácil dizer do que fazer. Em breve, a derrota do golpe de Kornilov em agosto de 1917 inverteu a situação, criando finalmente as condições para a tentativa bem-sucedida da tomada do poder pelos Bolcheviques.

26 de julho de 2017

Medo e perturbação em Tel Aviv: estará Israel a perder a guerra na Síria?

Ramzy Baroud

counterpunch: Tells the Facts and Names the Names

Israel, que desempenhou um papel bastante arriscado na guerra da Síria, desde 2011, está a ficar furioso por constatar que o futuro do conflito não se desenrola como gostaria.

A guerra na Síria, que dura há seis anos está a evoluir para um novo patamar, talvez o último. O regime sírio está a consolidar o controle sobre a maior parte dos centros populacionais, enquanto o ISIS perde rapidamente terreno – e em toda a parte.
As áreas evacuadas pelo grupo militante, em rápida desintegração, estão prestes a ser tomadas. Há muitas regiões fortemente contestadas, almejadas pelo governo de Bashar al-Assad em Damasco e seus aliados, por um lado e, por outro, os vários grupos de oposição anti-Assad e os seus apoiadores.

Com o ISIS totalmente derrotado no Iraque – com um custo de 40.000 vidas humanas, só em Mosel – os partidos da guerra estão a movimentar-se para o oeste. Milícias xiitas, encorajadas pela vitória no Iraque, têm estado a ser empurradas para o oeste até à fronteira Iraque-Síria, convergindo com forças leais ao governo sírio que estão do outro lado.

Ao mesmo tempo, os primeiros passos para um cessar-fogo permanente estão a ser dados e têm sido frutuosos, em comparação com muitas tentativas falhadas no passado.

Na sequência de um acordo de cessar-fogo entre os Estados Unidos e a Rússia, alcançado no dia 7 de julho na cimeira do G-20 em Hamburgo, na Alemanha, três províncias no sudoeste da Síria – que fazem fronteira com a Jordânia e os territórios dos Montes Golan, ocupados por Israel – estão agora relativamente calmas. O entendimento parece que irá estender-se por todo o território.

O governo de Israel deixou claro aos EUA que estava desagradado com o acordo, e o primeiro-ministro de Israel, Benjamim Netanyahu, tem estado a desenvolver grandes esforços para boicotar o cessar-fogo.

Os maiores medos de Netanyahu estão, talvez, a concretizar-se: uma solução para a Síria que permita uma presença permanente do Irã e do Hezbollah no país.

Nas primeiras fases da guerra, tal possibilidade parecia remota; mas as mudanças constantes nos resultados dos brutais combates na Síria tornavam a discussão completamente irrelevante.

Mas as coisas agora mudaram.

Apesar das afirmações em contrário, Israel esteve sempre envolvido no conflito da Síria. Israel repetia declarações de que “mantém uma política de não intervenção na guerra civil da Síria” e só os loucos meios de comunicação do sistema dos EUA se faziam eco destas posições.

Israel não só esteve envolvido na guerra, como também não participou nos esforços humanitários, nem estendeu uma mão solidária aos refugiados sírios.

Centenas de milhares de sírios morreram nesta guerra sem quartel; muitas cidades e aldeias foram totalmente destruídas e milhões de sírios tornaram-se refugiados.

Enquanto o frágil e pobre Líbano abrigou mais de um milhão de sírios, todos os países da região e muitas nações em todo o mundo receberam também refugiados sírios. Exceto Israel.
Até uma simbólica proposta do governo, no sentido de acolher 100 órfãos sírios, foi finalmente rejeitada.

Porém, a natureza do envolvimento de Israel na Síria está a começar a mudar. O cessar-fogo, o crescimento do envolvimento da Rússia e a posição inconsistente dos EUA obrigou Israel a redefinir o seu papel.

Um sinal dos tempos foi as mais frequentes visitas de Netanyahu a Moscou, para persuadir o reforçado presidente russo Vladimir Putin dos interesses de Israel.

Moscou pressiona com cautela, ao contrário de Washington, e não concebe os interesses de Israel como algo superlativo. Quando Israel abateu um míssil sírio usando um míssil de flecha, no passado mês de março, o embaixador de Israel em Moscou foi chamado, para ser repreendido.

O castigo de Israel aconteceu apenas alguns dias depois da visita de Netanyahu a Moscou e de “deixar claro” a Putin que quer “evitar qualquer situação na Síria que permita ao ‘Irã e seus aliados ter uma presença’ militar no país”.

Desde o início do conflito, Israel quis aparecer como se controlasse a situação, pelo menos no que toca ao conflito no sudeste da Síria. Bombardeou alvos na Síria quando achou oportuno e, de vez em quando, dizia que mantinha contatos com certos grupos da oposição.

Em comentários recentes perante funcionários europeus, Netanyahu admitiu ter atacado caravanas iranianas na Síria “dezenas de vezes”.

Mas, sem um plano conjunto Israel-EUA, Israel aparece agora como um parceiro fraco. Tendo tomado consciência disso tardiamente, Israel ficou cada vez mais frustrado. Depois de anos a fazer lóbi, a administração Obama recusou-se a encarar os objetivos de Israel na Síria como a linha condutora das políticas do seu governo.

Tendo falhado também esse apoio do recém-eleito presidente Donald Trump, Israel está agora a tentar desenvolver a sua própria estratégia independente.

A 18 de junho, o Wall Street Journal referiu que Israel tinha estado a dar “ajuda secreta” aos rebeldes sírios em “dinheiro e ajuda humanitária”.

A 20 de julho, o New York Times dizia que se esperava que um grande embarque de ajuda israelense desse uma “centelha de esperança” aos sírios.

Escusado será dizer que dar esperança aos sírios não é uma prioridade israelense. Além dos bombardeamentos frequentes e da recusa em acolher refugiados, Israel ocupou os Montes Golan sírios, em 1967 e anexou ilegalmente o território, em 1981.

De fato, o objetivo de Israel é infiltrar-se no sul da Síria para criar um tampão contra os iranianos, o Hezbollah e outras forças hostis.

Na chamada “Operação Bom Vizinho”, Israel está a trabalhar diligentemente para construir laços com vários chefes de tribos e grupos influentes naquela região.

Entretanto, o plano israelense aparenta ser uma fraca tentativa de recuperação, já que a Rússia e os EUA, além dos seus aliados regionais, parecem estar a convergir para um acordo independente dos próprios objetivos ou, mesmo, preocupações de segurança de Israel.

As autoridades israelenses estão furiosas e sentem-se especialmente traídas por Washington. Se as coisas continuarem a ir nesta direção, o Irã poderia brevemente ter um caminho seguro ligando Teerã a Damasco e Beirute. O chefe do Conselho de Segurança Nacional israelense, Yaakov Amidror, ameaçou, numa recente conferência de imprensa, que seu país está preparado para agir sozinho na Síria, contra o Irã.

Rejeitando veementemente o cessar-fogo, Amidror disse que o exército israelense “intervirá e destruirá todas as tentativas de construir infraestruturas iranianas permanentes na Síria”.

As declarações igualmente carregadas de Netanyahu, durante a sua visita europeia, também apontam para a crescente frustração em Tel Aviv.

Isto contrasta fortemente com os dias em que os neoconservadores em Washington geriam o Oriente Médio através de uma visão que era – em grande parte, se não totalmente –, consistente com os impulsos israelenses.

O famoso documento de estratégia elaborado por um grupo de estudo dos EUA liderado por Richard Perle, em 1996, é pouco utilizado agora, já que a região não é mais modelada por um ou dois países.
O documento intitulado “Uma clara ruptura: uma nova estratégia para garantir o domínio” via um mundo árabe hostil magistralmente gerido pelos EUA e Israel.

Por um fugaz momento, Tel Aviv teve esperança de que Trump trouxesse mudanças à atitude dos EUA.

De fato, houve esse movimento eufórico em Israel, quando a administração Trump atacou a Síria. Mas a natureza limitada da luta deixou claro que os EUA não tinham planos para uma mobilização militar maciça similar à do Iraque, em 2003.

A excitação inicial foi eventualmente substituída pelo cinismo, como o expressado por este título no Monitor: “Netanyahu avisa Trump sobre a Síria”.

Em 1982, aproveitando os conflitos sectários, Israel invadiu o Líbano e instalou um governo liderado pelos seus aliados. Aqueles dias já se foram há muito.

Enquanto Israel permanece militarmente forte, a própria região mudou e Israel não é o único poder a possuir todas as cartas.

Além disso, a liderança global recuada dos EUA sob Trump torna a dupla israelo-americana menos efetiva.

Sem aliados alternativos suficientemente influentes para preencher a lacuna, Israel fica, pela primeira vez, com opções muito limitadas.

Emmanuel Macron não é seu amigo

Emmanuel Macron é um amante do Vale do Silício e odeia os sindicatos. Um centrista da terceira onda, ele não é um baluarte contra a extrema-direita.

Branko Marcetic

Jacobin

Emmanuel Macron em maio de 2017. Jeso Carneiro / Flickr

Tradução / Se você vive em alguma parte da realidade, reconhece que o mundo atual está testemunhando o ressurgimento do liberalismo e da tolerância graças a uma determinada trupe de líderes americanos e europeus.

Hillary Clinton está liderando a “resistência”, enquanto o primeiro-ministro canadense Justin Trudeau e a chanceler alemã, Angela Merkel, estão na linha de frente lutando contra a invasão da barbárie de direita. (Não se preocupe, é claro que Merkel é uma conservadora que se opõe ao casamento gay e passou anos levando a Grécia à pobreza e que Trudeau combina a política energética de Donald Trump com a política de venda de armas de Donald Trump.)

O último recruta para esta linha de supostos “amigos do mundo real” é o líder francês Emmanuel Macron, que na corrida presidencial de maio ganhou de Marine Le Pen, líder da Frente Nacional (que não é mais anti semita, ela insiste). Desde então, Macron tem sido objeto de admiração de liberais do mundo inteiro, tendo especialistas e observadores que veneram sua coragem de enfrentar Trump e Vladimir Putin, além de rejeitar a xenofobia a la Le Pen.

Como Trudeau e Obama, Macron é jovem, bonito e carismático. E, assim como Clinton (e particularmente Trudeau), ele abraçou mostras simbólicas do liberalismo social, ao mesmo tempo que se posicionou explicitamente como um obstáculo contra a extrema direita. Tudo isso ajudou a tornar turvos os elementos mais desconcertantes de suas crenças, em particular o seu firme apoio às reformas econômicas que podem levar a França a um tipo de livre-mercado ainda mais profundo.

Nesse sentido, podemos pensar em Macron como uma versão atualizada e francesa de Bill Clinton e Tony Blair, com uma quantia da nova geração de terceira via. Ele se coloca conscientemente como o “outsider” que romperá com a política comum em defesa da decência e da democracia – e ele fez tudo ao serviço da implementação de uma agenda econômica de direita.

O “Insider”

“A França está paralisada devido às tendências da elite de se auto-servir”, Macron disse em um comício em abril. “E eu vou contar um segredo: eu sei porque já fui parte dela.”

Macron está certo em certa medida: de fato ele fez parte da elite, mas é difícil sustentar que ele saiu. Em 2004, Macron se formou na École Nationale d’Administration (ENA), uma universidade de elite para funcionários públicos.

Nos Estados Unidos existe a Ivy League. No Reino Unido tem Oxbridge e Eton. Mas ninguém dá crédito para a ENA, que já formou quatro presidentes franceses e oito de seus últimos dezesseis primeiros-ministros – sem citar os diversos funcionários públicos e ministros (muitos dos ministros de Macron se formaram na ENA). Em 2012, quatro presidenciáveis tinham sido formados pela ENA.

Depois de se formar, Macron naturalmente entrou para o governo, ganhando um cargo de elite reservado para os melhores graduados na Inspeção Geral de Finanças, órgão fiscalizador do Ministério da Economia. Em 2007, o governo de Nicolas Sarkozy o escalou para trabalhar na “Comissão Attali”, um painel de reforma econômica cujo relatório final ele ajudou a redigir.

No mundo incestuoso de governos e negócios, os contatos que Macron fez no governo se mostraram úteis para trilhar sua carreira na iniciativa privada. Sendo um filósofo formado sem experiência no ramo financeiro, Macron conseguiu um emprego na Rothschild, um dos principais bancos da França. De acordo com o Financial Times, foi o amigo e inspetor financeiro Alain Minc que conseguiu uma entrevista para ele.

Os contatos de Macron no governo atuaram no lugar de sua falta de conhecimento financeiro, levando-o para as alturas. Como disse o Wall Street Journal, ele foi recomendado como um danseur mondain, “uma pessoa única com muitos contatos”, de acordo com um membro da equipe, que poderia usar seus contatos para conseguir trabalho para a empresa. O acordo que fez a fortuna de Macron – a compra de uma filial da farmacêutica Pfizer por $12 bilhões em 2012 – foi facilitada pelo fato do presidente da Nestlé ter participado da “Comissão Attali”.

Enquanto estava na Rothschild, Macron trabalhou na vitoriosa campanha presidencial de François Hollande de 2012, pela qual ele foi premiado por Hollande com o cargo de secretário-geral adjunto. Dois anos depois, ele foi indicado como Ministro da Economia, período durante o qual ele se assegurou de garantir uma publicidade constante para si mesmo (algo pelo qual Hollande o provocava individualmente). Então, em 2016, sentindo uma oportunidade, ele lançou um novo grupo político chamado En Marche, um esforço transparente para estabelecer as bases para uma campanha presidencial. Hollande e seu grupo interno viram isso como um tapa na cara, mas era completamente previsível para aqueles que conheciam Macron.

“Ele sempre quis fazer parte da política, ser eleito” disse Gaspard Gantzer, um assessor de Hollande que estudou na ENA com Macron. “Ele falava disso o tempo todo”. Quando um colega de classe da ENA perguntou a ele como se via em trinta anos, ele respondeu “como presidente da República”.

A vida adulta de Macron se baseou naquilo que é, em essência, uma fábrica de políticos. Servir oito anos no governo, trabalhar quatro anos para um banco multinacional com bons contatos em que ele regularmente aprofundava seus contatos com o governo – tudo antes de se tornar presidente. Se o establishment tentou “matá-lo”, o fez com carinho.

“Ao mesmo tempo”

Durante a campanha, não era segredo que Macron queria ser um “Obama francês”. Ele demonstrava isso publicamente. Macron fez uma campanha estilo Obama, que exaltava positividade, esperança, otimismo e unidade, tentando se apresentar perante algum tipo de cenário de zona fantasma fora do espectro ideológico.

“Eu quero ganhar um voto de confiança”, ele disse à revista Time. “Quero convencer os franceses que um projeto positivo e progressista é a melhor saída para nossos desafios”.

Os seus adversários reclamaram que ele monopolizava as capas de revistas brilhantes com um discurso vazio. Ele criticava Le Pen por sua retórica de ódio, se distanciava orgulhosamente de Trump (“eu não quero construir um muro... Vocês se lembrar da Linha Maginot?” ele brincava) e cautelosamente evitava proclamar políticas específicas (quando perguntaram qual seria sua resposta para a crise dos refugiados, ele respondeu, sem entrar em detalhes “eu almejo um asilo político que seja humano e eficiente”).

Ele dizia que seu movimento não era “nem de direita nem de esquerda” e ganhou uma reputação por usar incessantemente a frase “ao mesmo tempo”.

No entanto, para seus aliados, isso não era prova de seu vazio, mas sim de seu intelecto. De fato, uma outra característica notável da marca Macron é de que ele é um tipo de Jimmy Neutron francês, um garoto gênio cuja inteligência formidável é incompreensível para meros mortais. Suas declarações de “ambos os lados” não era uma forma calculada de evitar tomar lado, mas um reflexo de sua “preferência pelo pensamento complexo”, afirmou o Le Monde.

“Emmanuel Macron nunca foi uma criança como as outras”, disse a jornalista Anne Fulda, que escreveu a biografia Emmanuel Macron: Um Jovem Perfeito. Ao explicar como ela se apaixonou por ele, sua esposa diz que ela foi “completamente subjugada pela inteligência desse jovem” cuja “mente é tão cheia e perfeita” e cujas “capacidades são completamente além das de qualquer ser humano normal”. Em particular, ela disse a um amigo que se sentia “trabalhando com Mozart”.

Em seu livro, Macron descreve como costumava passar horas estudando história, geografia e gramática com sua avó desde os cinco anos de idade; um de seus professores disse que Macron “tinha um alto nível de inteligência, acima da média, com a capacidade de absorver e interpretar conceitos complexos e contraditórios, integrando-os com suas próprias ideias”.

Este perfil o acompanhou até a presidência: Macron ignorou o costume de quatro décadas de realizar uma conferência no Dia da Bastilha, porque o seu “processo de pensamento complexo presta mal” a este formato. Alguns desses pensamentos complexos? Que o antissionismo é uma “reinvenção do antissemitismo” e que os problemas na África são “civilizatórios”.

Não à esquerda, mas à direita

Deixemos de lado o intelecto aparentemente demagogo de Macron e sua crença em estar acima das preocupações político-ideológico dos mortais. O que ele realmente defende? Um programa convencional de terceira via, aparentemente.

Apesar de ser ex-membro do Partido Socialista, Macron passou a última década tentando fazer a França se mover para a direita. A “Comissão Attali” informou que ele ajudou a elaborar uma proposta de “ampla liberalização da economia”, nas palavras da The Economist. As suas recomendações incluíam desregulamentar profissões como taxistas e farmacêuticos, além de reduzir as taxas de previdência social pagas pelos trabalhadores ao passo em que aumentava impostos.

Antes de ser nomeado, Sarkozy tentou convencer Macron a se juntar à sua equipe. Porém, Macron, sempre oportunista, deixou explícito que apostava que Hollande seria presidente em 2012. Um ex-conselheiro de Sarkozy percebeu que apesar de Macron se declarar de centro-esquerda, “intelectualmente eu não vejo bem nada que nos distancia, pelo menos em assuntos econômicos”. Posteriormente o jornal conservador Le Figaro o classificou em primeiro lugar em sua lista dos “cem líderes do amanhã”.

No entanto, seria no governo Hollande que Macron ganharia a reputação de cópia de Tony Blair e pressionaria o presidente a adotar medidas econômicas de direita. Não é segredo que Macron via as políticas trabalhistas francesas como um obstáculo a ser desmantelado. Ele reclamava que “acumular direitos trabalhistas é uma armadilha que se acaba se tornando um obstáculo para os desempregados”. Ele disse que a França precisa “mudar o modelo social recheado de proteções formais para afrouxar o que estrangula a economia” e argumentou que “ao proteger demais, nós acabamos deixando de proteger”. Ele reconheceu que as reformas “provavelmente serão dolorosas”, mas que “a França sairá vitoriosa.”

Dessa forma ele persuadiu Hollande a abandonar a proposta de cobrar um imposto de 75% sobre aqueles que ganham mais de €1 milhão, dizendo que isso faria a França se tornar uma “Cuba sem sol”. Em seu primeiro dia, ele causou um tumulto ao insinuar que poderia deixar as empresas alterarem a jornada de trabalho de 35 horas por semana. Ele quis alterar os benefícios dos desempregados, irritando os sindicatos.

Ele ajudou a convencer Hollande a adotar o “Pacto de Responsabilidade” em 2012, que negociou uma redução de €50 bilhões nos gastos públicos ao passo que estabelecia um desconto de €40 bilhões em impostos para as empresas. Para tentar evitar uma “década perdida”, Macron e sua cúmplice alemã também divulgaram um relatório em 2014 pedindo um “New Deal”.

Mas não era o “New Deal” do seu avô. O relatório alertava que “a tamanha ineficiência do governo” era “um problema que precisava ser resolvido”. O relatório pedia a flexibilização da jornada de 35 horas semanais, tornando os contratos abertos mais atrativos e contratos fixos menos atrativos, alterando a frequência de negociação salarial, vinculando o salário mínimo à produtividade ao invés da inflação e permitindo que as empresas pudessem introduzir a “flexibilização” em tempos de “maior competitividade” e não somente durante uma recessão.

Essas iniciativas culminaram na “Lei Macron” de 2015. Entre outras coisas, a nova legislação desregulamentou certas indústrias, permitindo o trabalho aos domingos e facilitando a demissão de trabalhadores. Quando protestos de massas ocuparam as ruas, os apoiadores levaram a lei ao parlamento – não uma, mas duas vezes – usando um mecanismo constitucional questionável.

As controversas medidas faziam parte de uma visão mais ampla de economia de Macron. Em 2014 ele explicou que “nós não retornaremos aos Trinta Gloriosos” – os anos de ouro na França pós Segunda Guerra Mundial – “com os mesmos empregos e as mesmas empresas”. Ao contrário disso, “as pessoas jovens vão vivenciar de dez a vinte mudanças em seus trabalhos, elas vão trabalhar mais, os seus salários não vão aumentar, não o tempo todo.”

Esta é uma visão de uma economia uberizada, uma visão que pessoas como Macron consideram excitante e inovadora, enquanto outros – digamos, os trabalhadores – podem ver como distópica e horripilante. É compatível com a ideologia de Macron. Ele lamentaque empreendedores frequentemente tenham “uma vida mais dura que os empregados” porque “podem perder tudo e têm poucas garantias”. A versão do Macron sobre a esquerda se vincula a “recriar as condições de investir, produzir e inovar.”

Macron disse que quer que a França “pense e aja como uma startup” e que sua inspiraçãoé o Vale do Silício – um lugar que cria abusos no trabalho de forma desenfreada, desigualdades insustentáveis e péssimas condições de trabalho na mesma medida em que cria inovação e “positividade”.

Não é de se admirar que Macron tenha uma relação ruim com os trabalhadores. Durante a sua campanha, em um subúrbio controlado pelos comunistas, os sindicalistas jogaram um ovo nele e mandaram ele “se ferrar”. Ao visitar uma fábrica que estava demitindo muitas pessoas, uma mulher gritou para Macron que lamentava não ter trabalho. Macron respondeu que era “importante não sentir raiva e estar aberto a novas perspectivas”.

Em outro acidente mais infame, durante uma visita a uma escola de Lunel, Macron entrou em uma briga com manifestantes que protestavam contra as reformas trabalhistas do governo socialista. Macron disse a um professor de 70 anos que, se ele estava preocupado em ficar desempregado, ele devia abrir o seu próprio negócio. Quando um desempregado de 21 anos disse a Macron que não tinha condições de comprar um terno bonito como o dele, ele respondeu que “a melhor forma de comprar um terno é trabalhando por um”.

Macronismo em ação

Fazer campanha é uma coisa, governar é outra. Então vamos lá: o que Macron fez desde que chegou à presidência?

Mantendo seu compromisso com o neoliberalismo e com um modo de fazer política a partir de compromissos ao invés de laços partidários e ideológicos, Macron montou uma equipe de governo com 50% de mulheres, além de dividi-lo entre direita e esquerda. De forma orquestrada, no entanto, tanto seu Ministro da Economia como seu Ministro de Contas Públicas estão bem à direita. De acordo com o Telegraph, o primeiro quer a “privatização dos escritórios da França, o fim de empregos subsidiados e o corte de direitos sociais.”

Algumas das propostas de Macron não são tão ruins, como limitar a 12 o número de alunos nas salas de aula de “zonas de educação prioritária” e dar um vale de €500 para jovens de 18 anos comprarem livros ou terem qualquer outro tipo de acesso à cultura. Ele também quer acabar, até 2040, com a venda de carros a petróleo e diesel e introduzir representações proporcionais no parlamento.

Outras não são tão boas. Apenas 16 dias após assumir a presidência, Macron começou uma consulta sobre reformas trabalhistas. Sua intenção era ir ainda mais longe que as reformas anteriores, incluindo retomar pontos que haviam sido descartados na Lei Macron de 2015 e propostas de seu “New Deal” de 2014. As medidas incluíam limitar o pagamentos por demissões sem justa causa, permitir que acordos internos se sobreponham à lei, reduzir o tempo em que os trabalhadores enfrentam redundância no processo produtivo e facilitar que empresas demitam trabalhadores por “razões econômicas”.

Aqui uma das propostas mais regressivas de Macron em relação a impostos: um corte orçamentário de €64,5 bilhões em cinco anos, de forma que as autoridades municipais tenham que cortar €13 bilhões – isso representa, respectivamente, €4,5 bilhões e €3 bilhões a mais do que ele prometeu durante a campanha. Ele também planeja reduzir os impostos locais sobre unidades domésticas, fazendo os governos municipais sangrarem.

Em um de seus momentos mais francos, o governo de Macron admitiu que suas políticas não são exatamente progressistas. Quando o Financial Times sugeriu ao Primeiro Ministro Edouard Philippe que a política para a economia estava à direita, ao contrário do que Macron dizia durante a campanha, ele riu e respondeu “Sim. O que você esperava?”

Possíveis medidas futuras incluem reduzir imposto sobre imóveis (preço:€10 bilhões) e, na esperança de atrair bancos para a França que devem deixar Londres devido ao Brexit, remover o maior saldo de impostos sobre a folha de pagamento de banqueiros, o que significa uma redução de até 50%, e estabelecer o direito de excluir os impostos sobre imóveis estrangeiros e ativos por oito anos. O imposto sobre as empresas também seria reduzido em 25% até 2022.

Com um conjunto de políticas econômicas que faz o mundo financeiro babar, alguém pode ter esperança que o resto do programa de Macron é ao menos tragável. Mas assim como o discurso dos demais que se colocam como uma alternativa, a política de Macron só vai longe quando abandona o reino da retórica.

Assim como Trudeau, Macron se dizia feminista, dizia que queria que o cargo de Primeiro Ministro fosse ocupado por uma mulher e pediu que mais candidatas mulheres se juntassem ao seu partido. Porém, como bem escreveu Pauline Bock do New Statesman’s, Macron escolheu um homem como Primeiro Ministro, escolheu um homem como porta-voz enquanto havia duas mulheres como possibilidade, além do fato de a paridade de gênero em disputas eleitorais já ser uma lei na França. Pior que tudo isso, os seus cortes orçamentários vão atingir de forma mais profunda as mulheres refugiadas e todos os tipos de programas no qual as mulheres francesas dependem.

E em relação aos direitos LGBTs? Macron foi elogiado e aplaudido por desafiar Vladimir Putin sobre a Síria, propaganda russa e direitos gays. Sem objeções aqui. Mas o que acontece quando essas críticas devem ser levadas a um Estado que não é o atual bicho-papão do Ocidente? Como, por exemplo, a Arábia Saudita, um estado violentamente repressivo, misógino e homofóbico.

Macron disse que “seria um erro mostrar apoio excessivo a Arábia Saudita, como já fizemos no passado”. No entanto, como Ministro da Economia, ele apoiou a linha do partido quando Hollande cobria o regime. Macron foi uma das diversas autoridades importantes que se reuniram com o príncipe herdeiro quando ele visitou Paris para receber a Legião de Honra em 2016 – uma reunião que Macron não colocou em sua agenda pública.

Quando questionado sobre as vendas de armas para aquele país durante a campanha, Macron descartou a questão, dizendo que “a França não vendeu muito para a Arábia Saudita”. Mas fato é que os sauditas se constituíram como o principal cliente de arma de fogo da França na última década, estando o Catar em um segundo lugar relativamente distante. A França autorizou US$18 bilhões em licenças de armas para a Arábia Saudita em 2015 e o fornecimento de armas ao país foi celebrado pelo governo, mesmo que alimentando a guerra terrível dos sauditas no Iêmen. A decisão de Macron de minimizar o problema é uma reação peculiar de alguém que declarou em seu discurso inaugural que “a França sempre se certificará de estar do lado dos. . . direitos humanos.”

Quando Macron não está fazendo promessas vazias em defesa dos direitos humanos, Macron está ocupado abraçando os militares. Sua posse foi carregado de simbolismo militar para mostrar sua “profunda empatia pelos defensores da liberdade”. Após ser criticado pelos militares devido aos cortes no orçamento da defesa, ele rapidamente retrocedeu e prometeu aumentar os gastos militares nos anos subseqüentes, elevando-o para 2% economia em 2025 – em contraposição aos atuais 1,7% – ainda que tenha cortado gastos públicos em outras áreas.

Para quem é um suposto ideal do liberalismo internacional, Macron também provou ser um defensor bastante pobre dos direitos democráticos liberais. Macron anunciou que acabaria com o estado de emergência em que a França está desde 2015 ao mesmo tempo em que prometeu novas leis antiterroristas que permitiriam que as autoridades fechassem os locais de culto e assegurassem as áreas que considera de risco, sem a permissão dos tribunais. Macron também tornar permanentes algumas das leis de emergência, inclusive aquelas que capacitam as autoridades a colocar as pessoas em prisão domiciliar, solicitar buscas domiciliares e proibir as reuniões públicas sem aprovação de juiz. (Estas leis já foram usadas contra centenas de militantes, ambientalistas e ativistas dos direitos trabalhistas).

Os gestos antidemocráticos fazem parte da trajetória de Macron. Em julho de 2015, ele lamentou que a derrubada da monarquia após a Revolução Francesa deixou um “vazio emocional, imaginário e coletivo” que o presidente francês deveria preencher. Quando no poder, de forma conveniente, Macron não só declarou seu desejo de passar suas reformas econômicas impopulares por decreto, ao invés de por vias parlamentares, mas também que quer cortar o número de legisladores por um terço, ameaçando colocá-lo sob referendo, se o parlamento não concordar.

Em um longo discurso de uma hora, Macron disse a deputados que o processo legislativo seria simplificado uma vez que “o ritmo da concepção das leis deve atender às demandas da sociedade” em áreas onde uma resposta rápida é particularmente necessária, destacando a segurança e, entre todas as demais coisas, direitos autorais digitais. Ele classificou a “proliferação legislativa” como uma “doença”, sugerindo que o parlamento deveria assumir um papel mais “de supervisão” enquanto o Executivo deveria atuar e advertir contra transformar a vulnerabilidade da nação em uma “enfermaria permanente de Estado”.

Dada a forma como Macron foi eleito, talvez o ponto mais irritante seja sua política referente à imigração. Macron se apresentou conscientemente como o candidato anti-Le Pen. Recentemente, seu governo revelou planos para encurtar o processo de pedido de asilo de um ano para seis meses e criar mais lugares para os que procuram de asilo. Em junho, um porta-voz do governo anunciou que Macron havia mandado que as autoridades locais mostrassem “mais flexibilidade” e “humanidade” em relação aos imigrantes. E em julho, a polícia levou milhares de imigrantes que dormiam no chão duro para abrigos temporários.

No entanto, Macron também nomeou Gérard Collomb como Ministro do Interior, que adotou uma linha dura contra refugiados. Ele descartou a criação de um novo centro de acolhimento de imigrantes em Calais porque “nós não queremos criar um ponto de encontro onde os números podem inflar”, enviou mais 150 policiais para evitar que imigrantes levantassem novas tendas e prometeu enviar mais policiais para evitar que a área se torne uma “úlcera”, apenas um dia após a ordem de Macron para “mais humanidade”. Collomb se referiu aos imigrantes como “enigmáticos” e sua posição foi louvada pela Generation Identity, um grupo juvenil de extrema direita que ofereceu seus serviços ao ministro.

As forças francesas de segurança também continuaram seu tratamento severo aos imigrantes sob o comando de Macron. Grupos humanitários acusaram a polícia de bater nos imigrantes em Calais, colocando gás em seus sacos de dormir e em seus cantis para torná-los inutilizáveis e impedindo que grupos de ajuda distribuíssem água e alimentos. Acusações semelhantes foram posteriormente repetidas pela Justiça Nacional, levando atores franceses de alto perfil e políticos a recorrerem a Macron. Segundo o Médicos Sem Fronteiras e um grupo de ativistas franceses LGBT, esse assédio continuou após a ordem de Macron. E em resposta à sua conversa de que não ouviu “o suficiente sobre o pedido de ajuda da Itália referente à crise da imigração”, as autoridades italianas afirmam que não há diferença substancial entre a abordagem de Macron e Hollande em relação à manter a fronteira fechada.

Imagine a relutância dos liberais se uma figura mais nociva atendessem às mesmas políticas – buscando minar o poder da lei, reduzir os impostos sobre os ricos e enfraquecer as proteções dos trabalhadores por decreto executivo, assediar imigrantes e sistematizar permanentemente medidas emergenciais antiterroristas.

Um mandato para resistir

A auto-representação de Macron como corajoso e um outsider que desafia a ortodoxia foi sempre uma farsa. Sua trajetória prévia e suas atitudes na presidência evidenciam que ele é um político convencional de “terceira via”, cuja vontade de conquistar vacas sagradas e desafiar as estruturas de poder apenas se mantém se estas vacas sagradas e estas estruturas de poder são os sindicatos e os direitos dos trabalhadores. Basta analisar a rapidez com que Macron se corrigiu quando o exército francês se colocou contra o corte de gastos.

A maioria da imprensa ao menos reconhece essa realidade, se referindo a ele como um “centrista”. No entanto, o que é incompreensível é como, apesar do seu histórico, sua imagem continua sendo a de um líder dos direitos dmocráticos e liberais em muitos círculos.

A maior preocupação é que Macron, impulsionado pela dormência global e seu suposto mandato eleitoral, conseguirá implementar sua agenda com sucesso. Em relação ao seu mandato, Macron está certo em um ponto – ele bateu Le Pen por 32 pontos – mas errado em outro, muito mais significativo: as eleições francesas tiveram a menor participação na história, mergulhando abaixo dos 50% pela primeira vez, sugerindo que a população francesa não estava muito feliz com os candidatos e que muitos votaram em Macron simplesmente como uma forma de impedir o neofascismo francês. A aprovação da Macron já caiu dez pontos.

Macron está apostando que suas políticas farão com que o desemprego caia para 7% até 2022. Talvez caia. Mas, historicamente, reduzir os empregos do setor público e restringir os gastos públicos ao privar o governo de dinheiro cortando impostos sobre os ricos não teve um bom retorno.

Com a ausência de uma oposição de massas, Macron provavelmente irá exacerbar a desigualdade e a insegurança econômica que ajudaram no crescimento de Le Pen – só que, dessa vez, ela também herdaria as leis antiterroristas que Macron planeja dar andamento.

Então Macron não é algo a se comemorar. Ele pode ter bloqueado temporariamente a extrema direita de tomar o poder na França, mas ele está fazendo tudo o que pode para trazê-la de volta com tudo.