31 de maio de 2016

Você está assistindo à morte do neoliberalismo - a partir de dentro

Economistas do FMI publicaram um artigo notável admitindo que a ideologia foi sobrevalorizada

Aditya Chakrabortty


Foto: Dylan Martinez/AFP/Getty Images

Tradução / Com o que se parece quando uma ideologia morre? Tal como acontece com a maioria das coisas, a ficção pode ser o melhor guia. Em Red Plenty, seu magnífico e prazeroso romance histórico da União Soviética, Francis Spufford desenha como o sonho comunista de construção de uma sociedade melhor, mais justa, se desfez.

Mesmo enquanto censuravam os próprios pensamentos dos seus cidadãos, os comunistas sonharam grande. O herói de Spufford é Leonid Kantorovich, o único Soviético a ganhar um prêmio Nobel de Economia. Chacoalhando no metrô de Moscou, ele fantasia sobre quanta abundância trará para seus empobrecidos companheiros de jornada: "As roupas das mulheres todas se tornando de seda acolchoada, os uniformes militares tornando-se, sob medida, em cinza e prata; e rostos, olha a extensão do vagão, relaxando, perdendo as linhas de preocupação e os olhares famintos e todas as variadas marcas de dentes da necessidade".

Mas a realidade faz um trabalho rápido em tais castelos de areia. Os números são cada vez mais desobedientes. Os belos planos só podem ser realizados através da trapaça, e os planejadores o sabem melhor do que quaisquer dissidentes. Esta é uma das ideias fundamentais de Spufford: que muito antes de quaisquer protestos públicos, os insiders abrem o caminho murmurando sua inquietação. Sussurro por sussurro, nota por nota, o regime está constantemente sendo minado por dentro. Sua derrubada final ocorre décadas além do final do romance, mas já pode ser notada.

Quando o Red Plenty foi publicado em 2010, estava claro que a ideologia subjacente ao capitalismo contemporâneo estava falhando, mas não que ela estava morrendo. No entanto, um processo semelhante ao descrito no romance parece estar acontecendo agora, em nosso capitalismo em constante crise. E são os tecnocratas responsáveis pelo sistema que estão lentamente, relutantemente, admitindo que ele está fracassando.

"Você o ouve quando Mark Carney, do Banco da Inglaterra, soa o alarme sobre um equilíbrio com 'baixo crescimento', 'baixa inflação', 'baixas taxas de juro'". Ou quando o Bank of International Settlements, o banco central dos bancos centrais, adverte que "a economia global parece incapaz de retornar ao crescimento sustentável e equilibrado". E você o viu mais claramente na última quinta-feira, do próprio FMI.

O que torna a intervenção do fundo tão notável não é o que está sendo dito - mas quem está dizendo isso e quão abruptamente. Na principal publicação do FMI, três dos seus principais economistas escreveram um ensaio intitulado "Neoliberalism: Oversold?".

O próprio título provoca uma sacudida. Por tanto tempo economistas de prestígio e os responsáveis políticos têm negado a existência de uma tal coisa como o neoliberalismo, descartando-o como um insulto inventado por descontentes banguelas que não entendem nem a economia, nem o capitalismo. Agora, aqui vem o FMI, descrevendo como uma "agenda neoliberal" se espalhou por todo o mundo nos últimos 30 anos. O que eles querem dizer é que mais e mais estados têm refeito suas instituições sociais e políticas em cópias pálidas do mercado. Dois exemplos britânicos, sugere Will Davies - autor de Limites do Neoliberalismo - seriam o NHS e as universidades, "onde as salas de aula estão sendo transformadas em supermercados". Desta forma, o setor público é substituído por empresas privadas, e a democracia é suplantada por mera competição.

Os resultados, os pesquisadores do FMI admitem, tem sido terríveis. O neoliberalismo não entregou o crescimento econômico - ele só fez algumas pessoas muito mais ricas. Ele provoca falhas épicas que deixam para trás destroços humanos e custam bilhões de dólares para limpar, uma descoberta com a qual a maioria dos moradores do banco de alimentos, na Grã-Bretanha, concordariam. E enquanto George Osborne poderia justificar a austeridade como "consertar o telhado, enquanto o sol está brilhando", a equipe do Fundo a define como "reduzir o tamanho do estado... um outro aspecto da agenda neoliberal". E, dizem, os seus custos "podem ser grandes - muito maiores do que os benefícios".

Duas coisas precisam estar em mente aqui. Em primeiro lugar, este estudo vem da divisão de pesquisa do FMI - não daqueles funcionários que voam por países falidos, regateando os termos do empréstimo com os governos que precisam de dinheiro e administram o transbordamento fiscal. Desde 2008, uma grande lacuna se abriu entre o que o FMI pensa e o que ele faz. Em segundo lugar, enquanto os pesquisadores vão muito mais longe do que os observadores do fundo poderiam ter acreditado, eles deixam opções de saída em algumas cláusulas muito importantes. Os autores ainda defendem a privatização como levando a "prestação mais eficiente de serviços" e menos gastos do governo - para a qual a única resposta deve ser a de oferecer-lhes um passeio de trem através de Hinkley Point C.

Mesmo assim, esta é uma violação extraordinária do consenso neoliberal pelo FMI. A desigualdade e a inutilidade de muito das finanças modernas: esses temas tornaram-se "brinquedos regulares de mastigar" para economistas e políticos, que preferem tratá-los como aberrações da norma. Finalmente uma grande instituição está indo atrás não só dos sintomas, mas da causa - e está nomeando essa causa como política. Não é de admirar que o principal autor do estudo diga que esta investigação não teria sequer sido publicada pelo fundo, cinco anos atrás.

Desde a década de 1980 a elite política tem refutado a noção de que eles estavam agindo ideologicamente - apenas estavam fazendo "o que funciona". Mas você só pode seguir com essa reivindicação se o que você está fazendo está realmente funcionando. Desde o crash, os banqueiros centrais, políticos e correspondentes de televisão têm tentado tranquilizar o público que este chiado ou esses bilhões fariam o truque e colocariam a economia novamente em ordem. Eles têm folheado cada página do manual e além - salvamentos bancários, cortes de gastos, congelamento de salários, injeção de bilhões nos mercados financeiros - e o crescimento ainda permanece anêmico.

E quanto mais a crise segue, mais o público cai em si de que não só o crescimento tem sido mais fraco, mas os trabalhadores comuns têm desfrutado muito menos de seus benefícios. No ano passado o centro de ideias dos países ricos, a OCDE, fez uma concessão notável. Ela reconheceu que a parcela do crescimento econômico do Reino Unido que beneficia os trabalhadores está agora em seu nível mais baixo desde a Segunda Guerra Mundial. Ainda mais notável, ela disse que o mesmo ou pior aplica-se aos trabalhadores em todo o Ocidente capitalista.

Red Plenty termina com Nikita Khrushchev andando fora de sua dacha, para onde ele foi violentamente aposentado. "Paradise," ele exclama, "é um lugar onde as pessoas querem acabar, não é um lugar de onde querem fugir. Que tipo de socialismo é esse? Que tipo de merda é essa, quando você tem que manter as pessoas em correntes? Que tipo de ordem social? Que tipo de paraíso?"

Os economistas não falam como os romancistas, o que é uma pena, mas o que você está testemunhando em meio a todos os gráficos e linguagem técnica é o início de uma longa morte de uma ideologia.

30 de maio de 2016

Venezuela: chaves da guerra não convencional contra a Venezuela

Gustavo Borges Revilla e Diego Sequera

Le Grand Soir

A Venezuela é um país neste momento sitiado. No país são aplicados novos métodos de guerra alternativos concebidos nos laboratórios dos serviços secretos dos EUA e outros países poderosos. No futuro imediato o objetivo é tirar o chavismo do poder. Posteriormente, eliminar todas as formas da participação maciça do povo na política, fazer desaparecer o chavismo como proposta civilizacional e enterrá-lo como um precedente na região e referência ética para outros movimentos globais.

Os diferentes métodos usados para destruir qualquer sinal de estabilidade e de força do chavismo para a Venezuela passam pelas agressões financeiras, culturais, econômicas, políticas, militares e morais.

Ao terminar este documento, numa semana sucederam-se duas pequenas marchas da oposição caracterizadas por uma baixa taxa de participação e também pela colocação em cena de surtos premeditados de "confronto" perante um exército de câmaras e telefones em ligação direta com todos os grandes meios de comunicação mundiais (The New York Times, The Washington Post, Wall Street Journal, Bloomberg, The Economist, CNN, Fox News, NBC, etc,).

O última destas marchas, a 18 de maio, terminou com uma tentativa de linchamento pela técnica do "enxame"(swarming) contra um oficial feminino da polícia nacional Bolivariana por provocadores profissionais de guerrilha urbana, estudantes embrutecidos e lumpen.

Na mesma semana, os meios de comunicação mais poderosos do planeta (e dois da imprensa espanhola) aumentaram seu assédio. O agrupamento dos meios de comunicação em cartéis unificou os argumentos contra a Venezuela, o que indica a entrada numa nova fase do processo de guerra não convencional, tenazes geopolíticas e procura do colapso interno. Houve 1.135 informações agressivas.

Como o Presidente denunciou, evidencia-se um salto qualitativo em comparação com o modelo pré-existente de agressão. O único precedente de um assédio semelhante terá sido na Líbia em 2011 e sabemos como isso acabou.

Ao mesmo tempo, Alvaro Uribe procura a intervenção militar estrangeira "que proteja a oposição", José María Aznar fala da urgência de uma "mudança de regime", Joe Biden, disse que a Venezuela continuou a cometer "violações graves dos direitos humanos", Federica Mogherini fala de "restrições das liberdades" e John Kerry, em coordenação total, diz que Washington "apoia a Carta Democrática da OEA contra a Venezuela". Tudo isso em menos de 30 dias. A escalada na guerra contra a Venezuela atingiu sua aceleração máxima.

A Venezuela é vítima de um cenário que combina todos os elementos das novas guerras. As modalidades da agressão procuram aumentar a fraqueza e o caos interno de diferentes maneiras.

1. A guerra econômica, as agressões financeiras e a crise induzida

Nestes últimos três anos a Venezuela sofreu uma agressão sistemática à sua vida econômica, concertada entre os diferentes agentes e atores dos meios econômicos nacionais e internacionais. Os ataques de maior envergadura quebraram a dinâmica econômica interna, causando uma enorme deterioração da qualidade de vida da população.

Os procedimentos usados para interromper a atividade econômica na Venezuela partem de uma concepção nova por múltiplos fatores, usando agentes poderosos e pequenos comerciantes para formar uma corrente que atua em várias frentes:

  • Desvio de mercadorias e especulação; desvio pelos grandes distribuidores de mercadorias para o comércio ilegal, para mercados de rua itinerantes ou municipais, restaurantes de luxo, onde os controles de preço não são realizados e a especulação é superior a 2000%, utilização de matérias-primas, financiadas pelo Estado venezuelano para produzir outros bens, provocando a escassez de produtos.
  • Açambarcamento: Manter toneladas de alimentos e outros produtos em grandes armazéns para venda através de canais ilegais a preços exorbitantes. O objetivo da guerra econômica contra a Venezuela é que as pessoas não possam comprar alimentos.
  • Deitar fora e queimar alimentos: 4.000 kg de frango em estado de decomposição foram deitados fora por uma das mais importantes cadeias de lojas na Venezuela, os Hipermercados Occidente. Noutras zonas do país, a mesma coisa se repete: chefes de empresa e distribuidores deixam apodrecer alimentos.
  • Utilização de máfias em cumplicidade com distribuidores retiram grandes quantidades de alimentos das lojas para depois os venderem a um preço 5 000 vezes superior nas ruas, alimentando a inflação e impedindo o acesso da população a esses produtos.
  • Fuga de capitais e redução das importações : o patronato venezuelano (agrupado em organizações como Fedecamaras e Consecomercio, os dois principais cartéis econômicos no país) tem 30 mil milhões de dólares depositados em bancos fora da Venezuela. A mesma quantidade de divisas que entrou no país com a venda de petróleo durante todo o ano de 2015. Esses capitais que não entram na economia venezuelana paralisam e fazem estagnar a produção dos sectores de prioritários para o consumo da população. 

A guerra econômica usa vários processos para organizar a escassez de produtos básicos e aumentar seus preços. A sua finalidade é provocar constantemente filas de espera e que menos venezuelanos tenham acesso a alimentos. Procura-se causar a fome e o desespero seja devido a preços altos ou à escassez. Tudo isto para levar o povo a reduzir o apoio e a legitimidade do Presidente Nicolás Maduro responsabilizando-o por estes atos.

2. A guerra no território. Os paramilitares, a guerra ilegal e os bandos criminosos

Nos últimos anos a Venezuela viu criarem-se formações privadas e ilegais de homens armados e treinados com claros fins políticos e militares. Trata-se de exércitos paramilitares que ganharam impulso com a crise econômica provocada, procurando tornar-se um exército único através de alianças com grupos criminosos que nasceram na Venezuela a seguir à deslocalização das organizações ditas de autodefesa colombiana e o tráfico de droga, cujos dirigentes estiveram juntos na prisão.

Um esquema muito semelhante foi desenvolvido há alguns anos atrás na Síria e no Iraque com os "exércitos livres" que lutam contra "o regime" e que controlam o território como uma autoridade soberana que se alimenta dos canais estratégicos de circulação de rendimentos e do capital. Na Venezuela, estes exércitos recebem um apoio semipúblico e encoberto de financeiros e agentes de Estados estrangeiros que obedecem a uma agenda que favorece, obviamente, potências estrangeiras e grandes empresas do petróleo e da energia.

Estes novos exércitos e estes grupos criminosos usam mecanismos sofisticados para realizar suas ações no território. Possuem uma logística tecnológica como drones e aparelhos para interceptar chamadas para os dispositivos de intervenção. Estabeleceram redes de informação no território ocupado e fora dele infiltrando o tecido social das populações mais pobres. E todos têm o mesmo inimigo comum, um objetivo político partilhado: o Estado venezuelano e as forças de segurança.

Há algumas semanas, as forças de segurança enfrentaram e neutralizaram com poucos dias de intervalo, dois chefes de megabandos criminosos que descreveram o que acabamos de dizer.

Trata-se de José Antonio Colina Tovar, El Picure, que agia numa posição geoestratégica no território venezuelano. A poucos quilômetros do centro exato do país, no estado mais central de todos (Guárico). Este megabando colocava-se num ponto de passagem para qualquer direção, com vias de grande importância nas proximidades.

A internet e os meios de comunicação em papel tinham feito de El Picure um mito concedendo-lhe, bem como aos seus crimes, um tratamento privilegiado. Ele usufruía de uma representação privilegiada como um arquétipo do Robin Hood (amado pelo povo que receberia generosos presentes que ele expropriava ao mau governo, sem revelarem os seus crimes e assassinatos). Seus talentos eram sobreavaliados ao ponto torná-lo intocável. Ele foi levado para a Assembleia Nacional pela atual maioria parlamentar. E saiu em festa para comemorar a vitória da oposição nas eleições de 6 de dezembro de 2015.

Três dias depois da morte de Tovar Colina, foi abatido Jamilton Andrés Suárez Ulloa, El Topo, perto de El Callao, na região de mineração do Sul do Estado Bolívar. El Topo, que foi paramilitar na Colômbia na sua juventude, foi o responsável direto por um massacre perpetrado contra um grupo de 17 mineiros nesta área. Foi um crime que chocou a nação e que nos leva a um conjunto muito pesado de questões sobre esta zona.

El Topo operou um território estratégico no sul da Venezuela conhecido como o Arco Mineiro, uma região de riquezas muito importantes em minerais abertamente cobiçado por empresas internacionais. O seu valor estratégico é tal que tanto pelas suas reservas como pela qualidade dos recursos minerais, especialistas consideram a possibilidade de fazer um novo salto tecnológico a partir apenas do que até ao presente está dado como existente sem ser extraído. Além do ouro, dos chamados "minerais raros" (tório, nióbio, vanádio, coltan-colombo e tântalo etc) existem jazidas de diamantes. Como se vê, estes bandos criminosos irradiam a geopolítica e o interesse declarado ou obscuro pela gestão direta de recursos muito sensíveis e de interesse global.

Se algo se torna claro no dossier de Topo e de Picure é a instalação de um braço armado nas táticas da política neoliberal de terra queimada – também aplicadas noutros países. "Atrás dos paramilitares deslocando os camponeses, chegam as transnacionais do óleo de palma", relatou o comandante paramilitar colombiano Jorge Ivan Laverde aliás El Iguano (o iguana) numa triste história da guerra colombiana.

A resposta do Estado a estes novos mecanismos híbridos de exércitos paramilitares foi a "Operação de libertação e proteção do povo". Os seus resultados foram agora demonstrados (todos os dias, líderes caem e bandos são desmantelados). Esta operação foi objeto de uma forte e custosa campanha de descrédito e criminalização que enche os relatos de falsidades sobre o fracasso do Estado, quando é precisamente uma operação que inverte estes fatores de desestabilização. Nos meios de comunicação, ONGs financiadas por organizações estrangeiras e entidades do Departamento de Estado dos EUA, a soberania da Venezuela é criminalizada.

3. A guerra midiática, a propaganda e os falsos relatos

Foram escritas 1315 notas negativas sobre a Venezuela nestes últimos três meses em Bogotá, Madrid e Miami. Os media pertencentes ao grande capital, com grande influência global e regional, implantaram uma campanha feroz para mobilizar a opinião pública mundial em apoio a uma intervenção internacional na Venezuela. Conglomerados de media superpoderosos como The New York Times, The Washington Post, The Wall Street Journal, Bloomberg e The Economist estão na origem dos ataques sistemáticos contra a Venezuela, e a partir daqui reproduzidos em uníssono pelos outros meios de comunicação na Europa e América Latina.

"A Venezuela é a resposta ao que aconteceria se um cartel da droga economicamente analfabeto assumisse um país" escreveu em 19 de maio deste ano, Matt O'Brien, responsável para a América Latina do jornal norte-americanoThe Washington Post, no seu último artigo. (A Venezuela à beira de um completo colapso económico). Este jornalista e dezenas de seus colegas apoiam os seus artigos com índices do FMI e outras organizações que dependem de grupos de pressão políticos e financeiros com grande interesse na mudança de regime ou num golpe de estado na Venezuela, um país que possui as reservas de petróleo mais importantes do mundo e incontáveis reservas minerais de ouro e de " minerais raros".

Na Europa, dois grandes meios de comunicação dirigem a fabricação de argumentos, relatos falsos, manipulação, meias verdades, desinformação e calúnias contra a Venezuela: El País (Propriedade da BNP Paribas, Bank of America e Deutsche Bank) e ABC (Propriedade de bancos BBVA, Santander e Lazard). O pico mais alto de infofreniae demência comunicacional contra a Venezuela foi em 19 de maio, dia em que 74 informações foram publicadas nos mais importantes media em papel e digitais.

A este nível, a forma vai para segundo plano e formaliza-se (uma vez mais) o uso sistemático contra a Venezuela, do "princípio da renovação" de Goebbels: "é preciso constantemente divulgar novas informações e novos argumentos a um ritmo tal que, quando o adversário responde o público já se interessa para outra coisa. As respostas do oponente nunca devem parar o crescente nível das acusações".

O objetivo é que a população mude a percepção e o controlo do espírito a fim de que a responsabilidade pela crise seja deslocada para o governo. Embora nos últimos meses as notícias tenham sido deslocadas para audiênciasexternas a fim de legitimar ações internacionais de modo a martelar no país e no exterior três narrativas: "Crise humanitária", "Estado que fracassou", "intervenção internacional".

No interior, os media tradicionais (El Nacional, 2001, Globovisión, etc) e novos meios de comunicação digitais justificam diariamente as histórias que vêm do exterior e servem de placa giratória para mobilizar os grupos radicais e as declarações sensacionalistas dos medíocres líderes dos partidos da oposição.

A criminalização do exército e dos organismos de segurança do Estado é uma tarefa essencial dos media venezuelanos ligados a sectores muito poderosos do patronato.

O controlo permanente dos danos que os jornalistas e os meios de comunicação oferecem aos sectores paramilitares e gangues criminosos também representa algo de inédito na Venezuela. Eles protegem e transformam em mito a imagem de chefes criminosos notórios, procurados na Venezuela pela Interpol. El Picure, no momento em que foi abatido após anos de trabalho dos serviços de informações do Estado, teve tratamento preferencial na internet e redes sociais nos meios de comunicação que fizeram uma triste tentativa para minimizar o progresso efetivo das forças de segurança do Estado contra as estruturas criminosas e paramilitares.

Colocando palavras-chave estratégicas em redes sociais e nas primeiras páginas dos jornais como "assassinado", evidenciaram a relação de interesse entre esses meios de comunicação e os bandos. O objetivo – não tão escondido – é classificar como "assassinos" o corpo de segurança de Estado e aumentar ainda mais o esquema de violações dos direitos humanos. Tentando apagar elementos que põem em evidência o estado de guerra total em que se encontra a Venezuela. El Picure, tem de passar a qualquer preço por vítima, mesmo que combatesse com armas e granadas.

Fazer do assassino uma vítima e violar a soberania e a segurança da nação fecha o círculo das óbvias cumplicidades entre os media venezuelanos, os novos bandos criminosas e paramilitares e os políticos da oposição. Todos focados no mesmo objetivo: desalojar o chavismo do poder por qualquer meio.

4. A guerra não convencional: "senso comum" e antipolítica "constitucional"

Com as novas guerras, as conspirações, os complôs obscuros das potências mundiais, acontece a mesma coisa que com uma bactéria: pode-se acreditar que não existem porque não se "vêm" e no entanto, fazem o seu trabalho e seus efeitos vêem-se. O ceticismo é também um produto dessa indústria.

As guerras atuais ultrapassam todo o modelo conceptual que as define como tais agravando-se em aspectos que convencionalmente podiam ser considerados como "'não militares" atacando todos os ciclos de atividade da sociedade venezuelana desde a paralisia da economia à criação de uma neurose mediática, a instalação permanente da fobia e da rejeição do que é político e da política, ao profundo esgotamento da vida quotidiana impondo filas para comprar alimentos e medicamentos. Tudo isto define perfeitamente um ciclo de desestabilização e ensaio de novos métodos para destruir do exterior um país.

A guerra não convencional que ocorre contra a Venezuela tem por objetivo principal o psicológico, o físico, o económico e o bem-estar, por isso eles realizam multiplas ações de sabotagem de serviços básicos e fundamentais (sistema elétrico e água), além da paramilitarização do submundo. Tudo isto instalado pela força com a promoção em paralelo pelos media.

Moisés Naím intitula um de seus artigos escritos no El Nacional em 15 de maio de 2016: «Venezuela: como viver num estado que falhou? '

O Decreto de Obama e a proposta da lei de Amnistia e Reconciliação Nacional da oposição na Assembleia Nacional projetam a mesma narrativa sob diferentes ângulos usando as ONGs como fontes "de informação" habitual que, através de múltiplas manipulações, confirmam a imagem da Venezuela como uma nova Sérvia, nova Somália, novo Afeganistão, novo Iraque, nova Líbia, nova Síria.

O Decreto de Obama coroa a versão do ocidente que dá o seu aval à versão de Estado pária-totalitário que fracassou enquanto a lei de amnistia pretende negar e anular os crimes políticos, as responsabilidades históricas do passado começando pelo ciclo da insurreição de 12 de fevereiro de 2014, que é precisamente o ponto de partida do Decreto de Obama.

Num despacho interno CIA de 1967, assinala-se a necessidade de qualificar como "teóricos da conspiração", para os desacreditar, os que denunciem um certo número de factos que na verdade, mais se aproximam da realidade.

Neste ponto, se se nega tudo sem conceder um mínimo de possibilidades, tal obedece a três razões: ou é cegueira que produz o dogma político e ideológico ou se participa conscientemente no processo de desestabilização ou se é suficientemente ignorante e adormecido por mecanismos de alienação sob todas as suas formas.

5. Que fazer? Verdade e método contra o golpe de estado acelerado e em marcha

Após descrever como foi configurada a maior operação geopolítica semi-secreta da região (e provavelmente do mundo), contra a Venezuela chavista, podemos traçar algumas conclusões que funcionarão como dicas para a ação. A saber:

  • Risco, método e capacidade de imaginação . Os novos métodos empregados contra países soberanos pela aplicação dos princípios da guerra não-convencional excederam sempre os antídotos e mecanismos tradicionais obsoletos de operações semelhantes do passado. O jornalístico, o acadêmico, a dogmática e o tradicional passaram diretamente da História sem reciclagem. Há necessidade hoje de novos níveis de audácia que tornem indecifrável o confronto com o superpoder das transnacionais. A investigação através de fontes abertas, a sobrestimação política do que parece sem importância, a capacidade de unir o que parece irrelevante e o risco de designar o que em tempo de paz, alguns poderiam considerar como teoria da conspiração constitui o primeiro passo. Porque estas guerras são guerras que têm como alvo central a população civil e, portanto, é tarefa de todos.
  • Recepção e resistência. Todos os fatos políticos, informações, qualquer mensagem da rua, toda realização linguística, toda realidade que se torna citação uma vez dita provem de um emissor condicionado. Como método eficaz, ler tudo e receber o conteúdo dos grandes meios de comunicação sem nenhum intermediário para então desmontá-los de forma crítica. E como ponto de partida crítico para o demonstrar, Mision Verdad tem quase quatro anos de análise ininterrupta.
  • "Follow the money". A luta de classes nunca para. Unindo os pontos comuns entre os atores políticos e do capital financeiro local e global, desenvolvendo um mapa das relações que assinalam muito claramente os interesses, os objetivos e alianças do poder, contra a Venezuela e no resto do mundo.
  • A Venezuela e a geopolítica global . Premissa chave: a Síria é o mundo, a Venezuela também o é. Que as consequências de três anos de cerco midiático não sejam tão visíveis, não tornam menos verdadeiro o fato de que se a Venezuela cair vós caireis também e a contra-revolução oligárquica quase terá ganho.
  • Solidariedade real, ativa e honesta . Atos simbólicos e manifestações de rua não valem nada se seu conteúdo não estiver absolutamente de acordo com o que se passa na Venezuela. A primeira linha de ação de solidariedade refere-se estritamente ao domínio da comunicação e deve estar de acordo com o objetivo de fazer parar os reais efeitos da narrativa única do inimigo.
  • Dados de problemas idênticos . Não é uma coincidência se este Verão, se vir uma escalada sem precedentes na Síria, for escolhido este momento para realizar o golpe final na Venezuela e se a Ucrânia estiver definitivamente fragmentada. Estes são os três principais movimentos que o labirinto do Império realizará na sua situação eleitoral inédita.
  • Ideia preconcebida. As linhas ideológicas não apenas foram alteradas, mas são fraturadas até se tornarem um instrumento que atue contra governos populares e democracias radicais. Desconfie-se dos discursos acadêmicos, como se se tratasse de Hillary Clinton.

Os socialistas não são pacifistas? Algumas guerras não são justificadas?

Socialistas querem erradicar a guerra por que ela é brutal e irracional. Mas nós pensamos que existe uma diferença entre a violência dos oprimidos e a dos opressores.

por Jonah Birch


Ilustração por Phil Wrigglesworth

Em junho de 1918, Eugene Debs fez um discurso que o colocaria na prisão. Falando em Canton, Ohio, o líder do Partido Socialista denunciou o presidente Woodrow Wilson e a Primeira Guerra Mundial para a qual ele guiou os Estados Unidos.

Para Debs, a matança em massa que havia assolado toda a Europa por quatro anos sangrentos era um conflito travado em nome dos interesses dos capitalistas, mas combatido por trabalhadores. Em cada país era o rico quem havia declarado guerra e se mantinha lucrando à partir dela; mas eram os pobres quem eram enviados para lutar e morrer aos milhões.

Isso, Debs disse à sua audiência, era como sempre foi, enquanto exércitos têm sido enviados para batalharem uns aos outros em nome de reis ou países. “As guerras através da história têm sido travadas para conquista e pilhagem,” ele disse. “A classe dominante tem sempre declarado as guerras; a classe dominada tem sempre lutado as batalhas. A classe dominante tem tido tudo a ganhar e nada a perder, enquanto a classe dominada não tem tido nada a ganhar e tudo a perder – especialmente suas vidas.”

A mensagem de Debs aos trabalhadores era simples: seu inimigo não eram as pessoas da Alemanha, os soldados da classe trabalhadora que eles estavam sendo embarcados para assassinar; eram os dominadores, em ambos os lados, que ordenaram suas tropas rumo a batalha. Eram os capitalistas e seus representantes nos governos americano e alemão, cuja riqueza e poder lhes deu controle sobre os destinos de milhões.

O discurso de Debs foi demais para as autoridades nos Estados Unidos – eles os prenderam sob uma nova lei de restrição da liberdade de expressão, o Ato de Espionagem de 1917, e o sentenciaram a dez anos de prisão. Notavelmente, nas eleições de 1920, Debs concorreu para presidente na cédula Socialista enquanto permanecia em uma penitenciária federal em Atlanta, e ainda conseguiu conquistar quase 1 milhão de votos.
Tornando o Mundo Seguro Para o Capitalismo

No exemplo de Debs, podemos ver as principais ideias que têm sustentado a abordagem do movimento socialista para a questão da guerra. Socialistas têm sempre visto a propensão do Capitalismo para guerras de conquista e pilhagem como a expressão definitiva da brutalidade do sistema. Na organização da violência de Estado em uma escala sem precedentes, nós vemos a tendência do Capitalismo de subordinar as necessidades humanas à lógica do lucro e do poder. No intervalo entre a promessa de igualdade democrática e a realidade da opressão de classe que a guerra expressa, vemos a injustiça fundamental que define nossa ordem social.

Sob o Capitalismo, a exploração ocorre na maior parte do tempo através do mercado. É a relação contratual ostensivamente não-coercitiva entre trabalhadores e empregadores que mascara as desigualdades de classe mais profundas subjacentes. Mas o poder de fazer a guerra dos Estados Capitalistas ainda é essencial para o funcionamento saudável do sistema. Capitalistas em países como Estados Unidos ainda dependem dos militares de seus próprios governos, tanto para fazer cumprir “as regras do jogo” na Economia Global e para ajudá-los a competir mais eficientemente contra outras Classes dirigentes.

Contra esse estado de coisas, os Socialistas apoiam a organização de movimentos de massa contra as guerras travadas por nosso governo [1]. Nós participamos [2] na luta contra restrições à liberdade de expressão e outros direitos democráticos que inevitavelmente acompanham essas guerras. Contra os chamados por “unidade nacional”, nós lutamos por solidariedade internacional e organização de classe mais forte para lutar pelos interesses dos trabalhadores. No longo prazo, esperamos traduzir estes movimentos em uma luta mais ampla por uma transformação radical da Sociedade ao longo de linhas democráticas.

Em nenhum lugar essa abordagem é mais importante do que nos Estados Unidos [3] – o mais poderoso país capitalista do mundo. Hoje, os EUA gastam mais com seus militares do que os próximos 7 países que mais gastam nisso combinados. Nosso governo tem cerca de 800 bases militares no estrangeiro. Soldados estadunidenses ou tropas aliadas estão presentes em cada região do globo.

No último século e meio, o Estado Estadunidense tem travado guerras brutais em nome de um império crescente, desde a guerra hispano-americana de 1898 até as recentes invasões do Afeganistão e Iraque. Interveio de novo e de novo na África, Ásia, América Latina para proteger os interesses dos negócios e chutar os movimentos que pudessem ameaçar seu controle sobre recursos-chave ou minar a estabilidade do sistema global capitalista.

Frequentemente estas aventuras foram descritas como sendo necessárias para trazer liberdade e democracia para países oprimidos, ou para proteger cidadãos estadunidenses do perigo. O registro histórico, entretanto, conta uma história diferente.

Mesmo na época da Guerra Hipano-Americana de 1898, considerada por muitos como sendo a alvorada do imperialismo estadunidense moderno, o governo estadunidense estava invadindo Cuba, Porto Rico e as Filipinas em nome da libertação de seus povos do jugo do colonialismo espanhol. Quando, depois da vitória ter sido assegurada, Washington decidiu fazer daqueles três territórios protetorados estadunideses (ou, no caso de Porto Rico, uma colônia por completo), eles garantiram que tinham apenas as intenções mais benevolentes. E quando os residentes desses países levaram essas promessas de liberdade e democracia muito literalmente, os Estados Unidos decidiram que não tinham escolha além de esmagar as lutas por independência que emergiram. Nas Filipinas, uma insurreição nacionalista que irrompeu em 1899 foi suprimida às custas de várias centenas de milhares de vidas filipinas.

Em cada guerra entre aquela época e agora o padrão tem sido o mesmo. O governo estadunidense entrou na Primeira Guerra Mundial em 1917 (depois que Wilson venceu as eleições de 1916 na base de suas promessas anti-guerra) para “tornar o mundo seguro para a democracia,” enquanto enviava Marines por toda a América Latina na defesa dos interesses econômicos e políticos do Capital. Lutou a Segunda Guerra Mundial para “livrar o mundo da tirania,” mas gastou os anos do pós-guerra manipulando eleições na Itália, patrocinando uma perversa guerra civil na Grécia e escorando o xá do Irã. Enviou milhões para o túmulo na Coréia e no Sudeste Asiático para “salvar” as pessoas de lá do Comunismo, enquanto instalava ditaduras brutais tanto no Vietnã do Sul quanto na Coreia do Sul. Enquanto isso, os decisores políticos dos EUA secretamente organizaram a derrubada de governos populares e democráticos por todo o mundo – desde Mohammad Mosaddegh no Irã, passando por Patrice Lumumba no Congo e Salvador Allende no Chile.

Para justificar estas campanhas, os oficiais estadunidenses têm muitas vezes recorrido ao perverso racismo. O General William Westmoreland uma vez justificou a brutalidade das forças que ele liderava no Vietnã dizendo que “os orientais não colocam o mesmo valor na vida como faz um ocidental… Nós valorizamos a vida e a dignidade humana. Eles não se importam com a vida e a dignidade humana.”

A cada turno o governo estadunidense tem mostrado [4] seu compromisso com a democracia e a liberdade no estrangeiro como sendo tão superficial quanto o seu compromisso com a igualdade em casa. Vez após outra, tem provado que seu temor pelo controle democrático sobre os recursos do mundo corre mais fundo que sua retórica pró-Democracia. Como Henry Kissinger, que serviu como um consultor em políticas estrangeiras a três presidentes, disse dos esforços da administração de Nixon para tombar o governo socialista eleito no Chile, “não vejo por que nós devemos ficar parados e assistir um país se tornar comunista por causa da irresponsabilidade de seu próprio povo.” O mesmo se deu nos anos 80 nas tentativas de minar os governos esquerdistas na pequena Nicarágua e na menor ainda Granada.

Mais recentemente, esse padrão tem se repetido no Oriente Médio – agora o campo de batalha central para os EUA e seus competidores imperiais, por causa de seu papel como o centro da produção global de petróleo.

Se as guerras no Iraque e no Afeganistão foram inicialmente justificadas como necessárias para defender vidas estadunidenses, detruir a Al-Qaeda, e erradicar o terrorismo, elas não atingiram nenhum desses objetivos. Nem resultaram em governos democráticos em nenhum desses países. Ao contrário, as centenas de milhares de vidas perdidas nestas guerras apenas desestabilizaram a região e intensificaram as divisões sectárias. Ao invés de dar suporte a movimentos democráticos, os EUA tem apoiado regimes ditatoriais no Egito e no Bahrein, e ajudado a fortalecer as monarquias mais cruéis e reacionárias na Arábia Saudita e nos Emirados Árabes Unidos.

Os Estados Unidos têm também permitido a Israel escalar sua violência diária (com assaltos semi-regulares de matança em massa em Gaza), ocupação e expansão de assentamentos às custas de palestinos. E têm assistido enquanto os lados em enfrentamento na guerra civil síria tem dirigido um massacre que afogou as lutas sírias por democracia no sangue de centenas de milhares de seus cidadãos.

Dados o escopo e a escala da violência imperial estadunidense, é crucial que os Socialistas nos Estados Unidos se oponham às intervenções militares de seu governo. Tal posição é necessária para qualquer solidariedade genuína da classe trabalhadora. Toda vez que o governo dos EUA explode uma festa de casamento afegã ou ajuda a proteger um esquadrão da morte no Iraque; toda vez que ele envia alguém para apodrecer em uma prisão no Afeganistão ou na Baía de Guantánamo; toda vez que ele permite que a CIA torture um prisioneiro; torna a solidariedade de classe através das fronteiras mais remota.

Por que trabalhadores em outros países deveriam se aliar àqueles nos EUA, em nome de quem eles são bombardeados e ocupados? Na medida em que estadunidenses compram o nacionalismo que inevitavelmente segue as maquinações estrangeiras de seu governo, tornam a emergência de um movimento de classe contra a opressão e a exploração impossíveis.

Enquanto isso, a posição dos trabalhadores estadunidenses apenas se deteriora mais. Quando centenas de bilhões de dólares são gastos atacando países ao redor do globo, não estão disponíveis para programas de Bem-Estar Social que poderiam ajudar aqueles em casa. O desperdício de sangue e recursos, o racismo, e os levantes reacionários que acompanham as guerras no estrangeiro ricocheteiam para detrimento dos trabalhadores nos EUA. Em um tempo em que milhões de estadunidenses estão sofrendo com o desemprego e a pobreza, os mais de $2 trilhões gastos na invasão e ocupação do Iraque parecem cada vez mais obscenos.

Tudo isso significa que o movimento trabalhista estadunidense tem um incentivo material para se opor os desejos de guerra de seu próprio governo. É por esta razão que os Socialistas pensam que um movimento internacional da classe trabalhadora contra a guerra e o imperialismo não é apenas necessário, mas também possível.
O Inimigo em Casa

Entretanto, se Socialistas em um país como os EUA se opõem às guerras travadas por seus governos, não significa que eles são pacifistas. – ou seja, que eles se opõem a todas as guerras ou tem uma posição baseada em princípios contra qualquer tipo de violência. A questão é quem está travando a guerra e em nome de quais interesses e políticas.

Como o teórico militar do século XIX Carl von Clausewitz disse, “Guerra é a continuação da política por outros meios.” Clausewitz queria dizer que para entender o caráter de uma dada guerra, você tem de entender quem estava lutando e por quais propósitos. É claro, Clausewitz, um general prussiano nas guerras napoleônicas, não era bem um radical de Esquerda, mas seu ponto básico é um importante para os Socialistas compreenderem.

O movimento socialista quer erradicar a guerra por que ela é brutal e irracional – um desperdício de vida humana e recursos sociais que produz uma devastação enorme. Mas em um mundo cheio de exploração e opressão, é preciso diferenciar entre a violência daqueles lutando para manter a injustiça e aqueles lutando contra a injustiça.

Uma pessoa não pode, por exemplo, misturar a violência do apartheid sul-africano com aquela dos elementos armados do Congresso Nacional Africano de Nelson Mandela. O mesmo vale para a violência dos militares estadunidenses na Guerra do Vietnã – uma guerra que eventualmente matou 3.5 milhões de pessoas – e aquela da Frente de Libertação Nacional Vietnamita, que lutou para libertar o Vietnã da dominação estadunidense e francesa.

Para o movimento socialista, a máxima de Clausewitz aponta para a necessidade de pesar qualquer guerra na base dos interesses a que ela serve. Não é coincidência que socialistas como Marx e Engels apoiaram a União na Guerra Civil estadunidense, reconhecendo que apesar da fala de Lincoln de que sua intenção era reunir o país sem acabar com a escravidão, uma guerra [5] contra os Confederados se tornaria necessariamente uma guerra contra a classe dos proprietários das plantations [6]. De fato, como Lincoln – que nos anos 1840 se opôs à Guerra Mexicana-Estadunidense por que a via como um esforço para expandir a escravidão para novos territórios – veio a reconhecer, o Norte só poderia ter sucesso mobilizando os escravos em uma batalha por sua própria liberdade.

Nada disso é para sugerir que os Socialistas possuem uma abordagem puramente instrumental para com a violência – que nós pensamos, como tão comumente afirmam, que “os fins justificam os meios.” Em nossos esforços para atingir o tipo de mudança que procuramos, a violência só pode minar a nossa causa no longo prazo; nós nunca podemos esperar igualar a capacidade para a violência do Estado Capitalista, e nosso movimento somente será enfraquecido enquanto a luta pelo Socialismo for transformada de um conflito social e político em um militar.

Também não apoiamos necessariamente governos apenas por que acontece deles estarem em conflito com o nosso: não perdoamos a violência imperial, por exemplo, da Rússia e da China apenas por que eles estão ocasionalmente discordando dos nossos próprios dominadores.

Mais fundamentalmente, é importante deixar claro que nosso suporte por grupos lutando contra sua opressão, nas mãos do governo dos EUA ou de qualquer outro, não significa que seremos sempre acríticos com essas forças. Alguém precisa apenas olhar para os níveis crescentes de desigualdade e a penetração cada vez maior do Capitalismo Global na África do Sul desde a queda do Apartheid, ou no Vietnã desde a libertação, para ver que mesmo lutas vitoriosas não precisam produzir um resultado realmente justo. De fato, enquanto expressam solidariedade com movimentos desafiando a opressão, os Socialistas precisam estar dispostos a criticar aqueles que travam estas lutas, sempre que necessário – seja esta crítica feita em termos políticos, estratégicos ou mesmo morais.

Mas também não tratamos todos os lados em um conflito particular como se eles fossem o mesmo. Acima de tudo, nós nos opomos ao papel de nosso próprio governo na propagação de guerras, ou na expansão de sua influência militar e política, às custas das classes trabalhadoras do mundo. Como o revolucionário alemão Karl Liebknecht colocou em seu discurso durante a Primeira Guerra Mundial, nós entendemos que “o principal inimigo está em casa.”

Sobre esta base, nós esperamos forjar um movimento internacional que possa não apenas desafiar uma intervenção imperial específica, mas que possa representar uma ameaça às próprias fundações de um sistema que cria guerra e violência de massa numa escala sem-precedentes na História.
Além do Imperialismo

Hoje, a Esquerda é fraca demais para atingir esse objetivo. Nos Estados Unidos, o movimento trabalhista carece de capacidade para atividade sustentada contra a guerra. Mas o que o exemplo de Eugene Debs nos mostra é que existe uma longa história de oposição radical ao imperialismo [7] da qual nós podemos tirar esperança e inspiração.

A tradição anti-imperialista de Esquerda sobreviveu depois que o próprio Debs morreu. Se ela perdeu força durante os anos de Guerra Fria de repressão macartista após a Segunda Guerra Mundial, ela reviveu durante os anos 60 e 70. Figuras como Martin Luther King Jr. se tornaram vozes cada vez mais críticas da Guerra do Vietnã. Mesmo que ele seja frequentemente pintado como um moralista anódino, um precursor para o liberalismo multicultural, King foi na verdade um visionário cuja política se tornou cada vez mais radical em conjunto com o movimento que ele liderava. Nada expressava melhor esse radicalismo crescente do que sua decisão de se opor publicamente à Guerra do Vietnã – um movimento que mesmo seus conselheiros mais próximos recomendaram que ele não fizesse por causa de suas potenciais consequências políticas.

Ignorando seus conselhos, em 4 de abril de 1967, exatamente um ano antes de seu assassinato, King proferiu o discurso mais controverso de sua carreira. Falando para a Igreja Riverside de Nova Iorque, ele se abriu contra a Guerra do Vietnã e cobrou a administração de Johnson para que parasse sua campanha de bombardeio sem precedentes e iniciasse a retirada de meio milhão de tropas estadunidenses do Sudeste Asiático.

Denunciando a “loucura” da política da administração Democrata, King se focou na incrível brutalidade que as pessoas comuns no Vietnã encaravam nas mãos dos militares estadunidenses. “Eles devem ver os estadunidenses como estranhos libertadores,” ele concluiu, quando essa suposta libertação envolvia apoiar governos corruptos e anti-democráticos, destruir vilas inteiras, desflorestar o interior com napalm e Agente Laranja, e matar mulheres, crianças e idosos.

Uma estimativa conservadora das mortes civis geradas pela guerra é de 2 milhões, apenas entre Sul-Vietnamitas, de uma população de 19 milhões. Uma taxa análoga de baixas civis nos Estados Unidos hoje seria próxima de 33 milhões.

E sobre os soldados estadunidenses, na maioria esmagadora das vezes jovens tirados de comunidades rurais indigentes e guetos urbanos segregados? Notando o número desproporcional de afro-estadunidenses que haviam sido enviados para matar e morrer nos pântanos do Vietnã, King castigava a administração por “tirar os jovens negros que tinham sido acorrentados pela nossa sociedade e os enviar 8000 milhas para longe, para garantir liberdades no Sudeste Asiático que eles não haviam encontrado em Georgia ou no Harlem Leste.

King apontou que as esperanças de um esforço real para combater a pobreza nos EUA que haviam sido inspiradas pelo programa da “Grande Sociedade” de Johnson haviam sido destruídas pela escalada no Vietnã. Uma campanha genuína para erradicar a pobreza em casa seria impossível, ele havia concluído, “enquanto as aventuras como no Vietnã continuarem a sugar homens e talentos e dinheiro como um demoníaco tubo de sucção de destruição.”

Dado tudo isso, King disse que não poderia mais ficar em silêncio, apesar da forte pressão de seus supostos aliados na administração Johnson para evitar a crítica pública da política do governo para o Vietnã. Comparando a escala incrível de violência no Vietnã com a relativamente pequena destruição causada por uma série de revoltas que estouraram em muitas cidades grandes dos EUA – que haviam causado muita gritaria na mídia sobre a ameaça representada por “extremistas negros” – King descreveu sua percepção de “que eu não poderia nunca mais levantar minha voz contra a violência dos oprimidos nos guetos sem ter primeiro falado claramente do maior fornecedor de violência no mundo hoje: meu próprio governo.” Alguns dias depois, ele marchou em um protesto de massa contra a guerra no Central Park em Nova Iorque.

O discurso de King, conhecido pela posteridade como “Além do Vietnã,” fez com que ele ganhasse a ira mesmo de figuras antes simpatizantes no establishment progressista. Ele foi desconvidado de uma visita planejada com Johnson na Casa Branca. Um dos conselheiros do presidente escreveu privadamente que King havia “feito sua jogada com os ‘comunas’” [8]. Enquanto isso, ele foi atacado em editoriais que apareceram no dia seguinte em 168 jornais de maior circulação. O New York Times escreveu que sua denúncia da guerra era “um desperdício e auto-destrutiva.” O Washington Post fez ainda melhor, dizendo que King “diminuiu sua utilidade para sua causa, seu país e seu povo.”

O que King veio a entender [9] foi que o racismo e a desigualdade dentro do país, e a guerra no exterior, estavam interligados. Este reconhecimento o colocou em desacordo com seus antigos apoiadores progressistas, cujas vontades de desafiar o status quo acabaram – como é tão comum para o establishment progressista – quando a posição dos EUA como o maior poder imperial mundial entrou em questão.

Assim, ao confrontar estas questões e desafiar seus antigos amigos, King estava lidando com um conjunto de problemas que qualquer movimento social de massa que faça sérios avanços nos EUA vai ter de encarar, uma hora ou outra: você não pode falar sobre mudança social em seu país enquanto ignora a carnificina gerada pela política externa estadunidense. Para a Esquerda dos EUA, e especialmente qualquer futuro movimento socialista por aqui, essa é uma lição a ser aprendida.

29 de maio de 2016

Pobreza mundial

por Prabhat Patnaik


A Organização Internacional do Trabalho (OIT) publica todos os anos o World Employment and Social Outlook. O relatório deste ano, divulgado em 18 de maio, tem o sub-título "Transformar empregos para acabar com a pobreza". Ali se apresentam estimativas do nível da pobreza mundial e do montante das transferências de rendimento para os pobres necessário para acabar com a pobreza mundial.

Antes de ir a estas estimativas, vale a pena discutir como a OIT define pobreza. Ela utiliza a mensuração do Banco Mundial do ano 2011 de que viver abaixo dos US$1,90 por pessoa por dia é a definição de "pobreza extrema" e viver entre US$1,90 e US$3,10 por pessoa por dia constitui "pobreza moderada" em "países emergentes e em desenvolvimento". Estas linhas de pobreza são convertidas para as divisas locais destes países através da utilização das "paridades de poder de compra" (PPC) de 2011 e não das taxas de câmbio nominais.

A diferença entre estas duas taxas de câmbio pode ser entendida como se segue. A taxa de câmbio nominal entre a rúpia e o US dólar é aproximadamente cerca de 67 rúpias por dólar, mas se adotarmos um cabaz de bens e serviços, digamos que o cabaz consumido pelos grupos de rendimento mais baixos, então aquele cabaz não custa 67 vezes em rúpias indianas em comparação com o que custa em US dólares. Ele pode custar, digamos, 20 vezes em rúpias quanto custa em dólares, caso em que a taxa de câmbio PPC é de Rs20 por dólar e não Rs67. A taxa PPC utilizada na conversão da linha de pobreza de dólares para rúpias é, como já foi dito, aquela que prevaleceu em 2011.

Números como US1,90 e US$3,10 são eles próprios alcançados considerando as várias linhas de pobreza nacionais em 2011, convertendo-as em US dólares às taxas PPC de 2011 e a seguir fazendo uma média destas diferentes linhas de pobreza em dólares. Isto é então reconvertido para divisas nacionais às taxas PPC de 2011 para descobrir a partir de dados nacionais quantas pessoas vivem abaixo destes números. A população total a viver abaixo da linha de pobreza é assim estimada para o ano base 2011. Alguém pode então calcular números para os anos seguintes, isto é, para os anos depois de 2011, avançando a linha de pobreza de 2011 com um índice de preços.

A OIT descobriu que, para o ano 2012, dois bilhões de pessoas, ou 36,2 por cento da população total de "países emergentes e em desenvolvimento", era afligida por pobreza extrema ou moderada. Destes, 15 por cento eram afligidos por pobreza extrema e o resto por pobreza moderada. Tomando a população mundial como um todo, a qual era cerca de sete bilhões naquela data, aqueles afligidos por pobreza extrema ou moderada só nos países emergentes e em desenvolvimento (para os países desenvolvidos a pobreza é definida e estimada de uma maneira completamente diferente e tem estado a ascender ultimamente, mas ignoraremos esta pobreza por enquanto), constituem cerca de 30 por cento da população mundial.

A OIT afirma naturalmente que esta pobreza tem estado a declinar, mas uma vez que a linha de pobreza utilizada pela OIT (e obtida do Banco Mundial) deriva em última análise das linhas de pobreza nacionais, e visto que na base destas linhas de pobreza nacionais países como a Índia têm apregoado um declínio significativo na pobreza, não é surpreendente que a OIT também reflita esta afirmação. Por outras palavras, não se pode dar mais crédito à afirmação da OIT sobre o declínio da pobreza nos "países emergentes e em desenvolvimento" como um todo do que se dá à afirmação do governo indiano quanto ao declínio da pobreza neste país. Uma vez que esta última afirmação é completamente insustentável, e que a verdade acontece ser exatamente o oposto, exatamente o mesmo pode ser dito da afirmação da OIT.

Vamos entretanto deixar esta questão de lado por um momento. A OIT estima o que ela chama o "fosso do rendimento" ("income gap") o qual é a soma, tomando todas as pessoas pobres em conjunto, da diferença entre despesas de consumo per capita (ou de rendimento, se houver dados disponíveis sobre o rendimento) e a linha de pobreza. Por outras palavras, este é o montante de moeda que, se transferido para os pobres, de acordo com [o critério de] quanto o rendimento de cada pessoa pobre está aquém da linha de pobreza, eliminará toda a pobreza. O número que é exigido para eliminar tanto a pobreza extrema como a moderada chega a US$600 bilhões em 2012, o qual é 0,8 por cento do PIB mundial naquele ano.

Se dividirmos US$600 bilhões pelo número dos pobres, o qual é dois bilhões, obtemos então US$300 por ano, o que equivale a US$0,82 por dia. A pessoa pobre média nos países emergentes e em desenvolvimento do mundo, por outras palavras, tinha uma despesa diária que ficavam aquém da linha de pobreza dos US$3,10 em 82 centavos, ou apenas cerca de um quarto da linha de pobreza. Se este montante fosse disponibilizado para a pessoa pobre média todos os dias ou como transferência direta de rendimento ou através de medidas de proteção social, então os pobres do mundo seriam erguidos para fora da pobreza.

É claro que uma mera transferência pode não ser o melhor caminho para eliminar a pobreza; é sempre preferível assegurar que empregos de melhor qualidade fiquem disponíveis para os pobres. Mas a questão não é qual é o caminho ideal de eliminar a pobreza; a questão é quão pouco é preciso para eliminar a pobreza da face da terra. Uns meros 0,8 por cento do rendimento mundial é tudo quanto é preciso entregar ao mundo dos pobres para elevá-los acima da pobreza. E ainda assim a coisa notável é que nenhumas vozes se levantaram no sentido de efetuar tal transferência. Mesmo o relatório da OIT, tendo mencionado o nível minúsculo do fosso de rendimento em relação do PIB mundial, imediatamente passa a comparar este fosso não com o PIB do mundo como um todo mas só com os dos países emergentes e em desenvolvimento, como se só a estes últimos devesse ser deixada a responsabilidade de eliminar a pobreza no interior das suas economias.

Haveria sem dúvida alguma base para sugerir que os países afligidos pela pobreza são os únicos que deveriam arcar com o fardo da sua remoção se os diferentes países do mundo não estivessem conectados uns com os outros, se cada um fosse uma ilha separada. Contudo, isto obviamente não é o caso. Os "países emergentes e em desenvolvimento" são precisamente aqueles que foram subjugados como colônias e semi-colônias, com suas economias sistematicamente drenadas do excedente durante séculos, com o seu artesanato local destruído através das importações de bens metropolitanos, fabricando uma população excedente a partir das massas de artesãos e trabalhadores manuais e, dessa forma, engendrando a moderna pobreza em massa. Mesmo nos dias de hoje estão a ser acorrentados através da "globalização", suas economias abrem-se aos saqueios da finança especulativa, seus recursos naturais lançados abertamente para corporações multinacionais e seu campesinato e pequenos produtores sujeitos a um processo de acumulação primitiva por parte de corporações metropolitanas e das oligarquias corporativo-financeiras locais em que estão integradas. Mesmo o mais ligeiro esforço por parte destes países para dar quaisquer benefícios em favor dos pobres enfrentaria resistência e dispararia fugas de capitais. E controles de capital para restringir tais fugas convidariam a sanções e braços de ferro da parte de potências metropolitanas.

Em suma, uma vez que vivemos num mundo de "globalização" e supõem que nos devemos sentir gratos por este fato, a própria pobreza deveria ser encarada como um problemas global e a sua remoção como uma responsabilidade global. O que a OIT sugere é que esta responsabilidade representa quando muito um "fardo" minúsculo.

Entretanto, isto de fato não constitui um fardo para todos. Uma vez que a economia mundial está numa crise, os 0,8 por cento do PIB mundial que tem de ser disponibilizado para preencher o "fosso de rendimento" não tem de vir através da redução da absorção [do consumo] de quaisquer outros. Pode simplesmente produzir-se este montante extra colocando em uso o trabalho desempregado existente e o equipamento não utilizado. E além disso, se 0,8 por cento da produção existente for transferida para o mundo dos pobres como uma dádiva, então não só este montante virá da capacidade que atualmente permanece ociosa como um múltiplo dele será produzido a partir da utilização da capacidade ociosa.

Um exemplo tornará claro este ponto. Vamos assumir que a atual produção mundial é 100. Agora, se 0,8 unidades de bens forem produzidas, elas gerariam um montante equivalente de rendimento, uma parte do qual será gasto, gerando nova produção e rendimento, e uma parte poupada. Esta produção em suma gerara uma cadeia de despesas, e portanto de produção, através do que é chamado o "processo multiplicador". Se, digamos, um quarto do rendimento gerado é poupado habitualmente, então, para tornar 0,8 unidades disponíveis para os pobres do mundo, a produção mundial tem de aumentar em 3,2, da qual as poupanças seriam 0,8 (a qual o(s) governo(s) podiam tomar emprestado para financiar transferências para os pobres do mundo) e 2,4 de consumo adicional pelos não-pobres do mundo. Por outras palavras, a eliminação da pobreza mundial, longe de exigir uma restrição do consumo dos não-pobres, realmente permitirá um aumento no consumo dos não-pobres do mundo.

Naturalmente, uma vez que o mundo não tem apenas um governo mas sim muitos, como exatamente os 0,8 por cento da produção mundial devem ser contribuídos pelos diferentes governos tem de ser calculado. Mas, em princípio, nenhum sacrifício da parte de ninguém está implicado para ultrapassar a pobreza mundial. Ao contrário, ao assim fazer deixará outros em melhor situação.

O que impede a superação da pobreza mundial não é nem a relutância dos não-pobres a fazer sacrifícios (uma vez que nenhum sacrifício é necessário), nem mesmo os problemas de logística decorrentes do fato de haver muitos governos (estes também poderiam ser ordenados). O que impede é o próprio capitalismo, cuja ética, nas palavras de Kalecki, "exige 'Você ganhará o seu pão com suor' — a menos que aconteça ter meios privados". Fechar os fossos de rendimento é anátema para o capitalismo. E é um sintoma da atual hegemonia desta ética que — ao contrário de décadas atrás quando a Comissão Brandt pediu aos países desenvolvidos para contribuírem com um por cento do PIB para a "ajuda" aos países subdesenvolvidos, um pedido social-democrata, enraizado no "Keynesianismo Global" — hoje em dia já não esteja a ser proclamada. 

27 de maio de 2016

Silenciando a América, que se prepara para a guerra

por John Pilger

counterpunch: Tells the Facts and Names the Names

Tradução / Retornando aos Estados Unidos num ano eleitoral, estou impressionado pelo silêncio. Já cobri quatro campanhas presidenciais, a principiar pela de 1968; eu estava com Robert Kennedy quando ele foi alvejado e vi o seu assassino, a preparar-se para matá-lo. Foi um batismo no estilo americano, juntamente com a violência salivante da polícia de Chicago na convenção amanhada do Partido Democrático. A grande contra-revolução havia começado.

O primeiro a ser assassinado naquele ano, Martin Luther King, ousara ligar o sofrimento dos afro-americanos e o do povo do Vietname. Quando Janis Joplin cantava, "Liberdade é apenas outra palavra para nada deixar a perder", ela talvez falasse inconscientemente aos milhões de vítimas da América em lugares remotos.

"Perdemos 58 mil jovens soldados no Vietnã e eles morreram a defender a tua liberdade. Agora não os esqueça". Assim dizia um guia do Serviço de Parques Nacionais quando na semana passada filmei o Lincoln Memorial, em Washington. Ele dirigia-se a um grupo escolar de adolescentes em brilhantes t-shirts laranjas. Como que automaticamente, ele inverteu a verdade acerca do Vietnã convertendo-a numa mentira incontestada.

Os milhões de vietnamitas que morreram e foram mutilados e envenenados e desalojados pela invasão americana não têm lugar histórico nas mentes jovens, para não mencionar os estimados 60 mil veteranos que deram cabo das suas próprias vidas. Um amigo meu, um fuzileiro naval (marine) que ficou paraplégico no Vietname, era muitas vezes indagado: "A qual lado se opunha?"

Uns anos atrás comparecei a uma exibição popular chamada "O preço da liberdade" na venerável Smithsonian Institution, em Washington. Às filas de pessoas comuns, sobretudo crianças arrastadas numa caverna santa de revisionismo, era administrada uma vasta variedade de mentiras: o bombardeamento atômico de Hiroshima e Nagasaki salvou "um milhão de vida"; o Iraque foi "libertado [por] ataques aéreos de precisão sem precedentes". O tema era infalivelmente heroico: só americanos pagam o preço da liberdade.

A campanha eleitoral de 2016 é notável não só pela ascensão de Donald Trump e Bernie Sanders como também pela resiliência de um silêncio permanente acerca de um mortífero [estatuto] auto-concedido de divindade. Um terço dos membros das Nações Unidas já sentiu a bota de Washington, derrubando governos, subvertendo democracias, impondo bloqueios e boicotes. A maior parte dos presidentes responsáveis foram liberais –Truman, Kennedy, Johnson, Carter, Clinton, Obama.

O recorde sensacional de perfídia é tão mutante na mente do público, escreveu o falecido Harold Pinter, que ele "nunca aconteceu ... Nada alguma vez aconteceu. Mesmo quando estava a acontecer não estava acontecendo. Isso não importava. Não tinha interesse. Pouco importava...". Pinter exprimia uma admiração simulada pelo que chamava "uma manipulação bastante clínica do poder à escala mundial ao mesmo tempo que era mascarada como uma força para o bem universal. É brilhante, mesmo genial, um ato de hipnose com grande êxito".

Tome-se Obama. Quando ele se prepara para deixar o gabinete, começou outra vez toda a bajulação . Ele é "cool".Como um dos presidentes mais violentos, Obama deu rédea solta ao aparelho de fabricação de guerras do seu desacreditado antecessor. Ele perseguiu mais denunciantes – os que contavam verdades – do que qualquer outro presidente. Ele declarou Chelsea Manning culpada antes de ela ser examinada. Hoje, Obama dirige uma campanha mundial sem precedentes de terrorismo e assassinato através de drones.

Em 2009 Obama prometeu ajudar a "livrar o mundo de armas nucleares" e recebeu o Prêmio Nobel da Paz. Nenhum presidente americano construiu mais ogivas nucleares do que Obama. Ele está a "modernizar" o arsenal da America para o juízo final, incluindo uma nova "mini" arma nuclear, cuja dimensão e tecnologia "inteligente", disse um general proeminente, assegura que a sua utilização "já não é mais impensável".

James Bradley, o autor do best-seller Flags of Our Fathers e filho do fuzileiro naval dos EUA que asteou a bandeira sobre Iwo Jima, disse: "Um grande mito que estamos a assistir é esse de Obama como uma espécie de rapaz pacífico que está a tentar livrar-nos de armas nucleares. Ele é o maior belicista nuclear que há. Está a comprometer-nos numa corrida ruinosa de gastos de um milhão de milhões de dólares com mais armas nucleares. De certo modo, as pessoas vivem nesta fantasia de que como ele dá notícias vagas em conferências e discursos e aparece bem em fotografias isso de algum modo está ligado à política real. Não está".

Com Obama, uma segunda guerra fria está a caminho. O presidente russo é um vilão de pantomina; os chineses ainda não estão de volta à sua sinistra caricatura de macacos – quando todos os chineses forem banidos dos Estados Unidos – mas os guerreiros dos media trabalham para isso.

Nem Hillary Clinton nem Bernie Sanders mencionaram algo disto. Não há risco nem perigo para os Estados Unidos e todo nós; para eles, a maior acumulação militar nas fronteiras da Rússia desde a Segunda Guerra Mundial não aconteceu. No dia 11 de Maio a Romênia aceitou uma base de "defesa de mísseis" da Nato que aponta mísseis americanos de primeiro ataque ao coração da Rússia, a segunda potência nuclear do mundo.

Na Ásia, o Pentágono está a enviar navios, aviões e forças especiais para as Filipinas a fim de ameaçar a China. Os EUA já cercam a China com centenas de bases militares que se encurvam num arco desde a Austrália até a Ásia e através do Afeganistão. Obama chama a isto um "eixo central" ("pivot").

Como consequência direta, a China confirmadamente mudou sua política de armas nucleares do não-primeiro-uso para o alerta máximo e lançou ao mar submarinos com armas nucleares. A escada rolante está a acelerar.

Foi Hillary Clinton quem, como secretária de Estado em 2010, elevou as reivindicações territoriais que competiam por rochas e recifes no Mar do Sul da China a uma questão internacional. Seguiu-se a histeria da CNN e da BBC. A China estava a construir pistas de pouso nas ilhas disputadas. Num jogo de guerra gigante em 2015, a Operation Talisman Sabre, os EUA e a Austrália experimentaram "engasgar" os Estreitos de Málaca pelos quais passa a maior parte do petróleo e do comércio da China. Isto não foi noticiado.

Clinton declarou que a América tinha um "interesse nacional" naquelas águas. As Filipinas e o Vietname foram encorajados e subornados para prosseguirem com suas reivindicações e velhas inimizades contra a China. Na América, o povo está a ser intoxicado a fim de encarar qualquer posição defensiva chinesa como ofensiva e, assim, o terreno fica preparado para uma escalada rápida. Uma estratégia semelhante de provocação e propaganda é aplicada à Rússia.

Clinton, a "candidata das mulheres", deixa um rastro de golpes sangrentos: nas Honduras, na Líbia (mais o assassínio do presidente líbio) e na Ucrânia. Este último é agora um parque de diversões da CIA enxameado de nazis e a linha de frente de uma acenada guerra com a Rússia. Foi através da Ucrânia – literalmente, terra de fronteira – que os nazis de Hitler invadiram a União Soviética, a qual perdeu 27 milhões de pessoas. Esta catástrofe gigantesca permanece presente na Rússia. A campanha presidencial de Clinton tem recebido dinheiro de todas excepto uma das dez maiores companhias de armamento do mundo. Nenhum outro candidato se aproxima.

Sanders, a esperança de muitos jovens americanos, não é muito diferente de Clinton na sua visão de proprietário do mundo para além dos Estados Unidos. Ele apoiou o bombardeamento ilegal da Sérvia promovido por Clinton. Ele apoiou o terrorismo de Obama com drones, a provocação da Rússia e o retorno de forças especiais (esquadrões da morte) ao Iraque. Ele nada tem a dizer sobre os tambores de guerra com ameaças à China e quanto ao agravamento do risco de guerra nuclear. Ele concorda em que Edward Snowden deveria ser submetido a julgamento e chama Hugo Chavez – um social-democrata, como ele – de "ditador comunista morto". Ele promete apoiar Clinton se esta for nomeada.

A eleição de Trump ou de Clinton é a velha ilusão da escolha que não é escolha: dois lados da mesma moeda. Transformando minorias em bodes expiatórios e prometendo "tornar a América grande outra vez", Trump acaba por ser um populista interno de extrema direita; mas o perigo da Clinton pode ser mais letal para o mundo.

"Só Donald Trump não disse nada de significativo e crítico acerca da política externa dos EUA", escreveu Stephen Cohen, professor emérito de História Russa nas Universidades de Princeton e Nova York, um dos poucos peritos em Rússia nos Estados Unidos a falar acerca do risco de guerra.

Numa entrevista à rádio, Cohen referiu-se a questões críticas que só Trump levantou. Dentre elas: por que os Estados Unidos estão "por toda a parte do globo"? O que é a verdadeira missão da OTAN? Por que os EUA procuram sempre mudanças de regime no Iraque, Síria, Líbia, Ucrânia? Por que Washington trata a Rússia e Vladimir Putin como inimigos?

A histeria nos media liberais acerca de Trump serve a uma ilusão de "debate livre e aberto" e de "democracia a funcionar". Suas visões sobre imigrantes e muçulmanos são grotescas, mas o deportador-chefe de pessoas vulneráveis da América não é Trump e sim Obama, cujo legado é a traição às pessoas da sua cor: basta ver a acumulação nas prisões de uma população principalmente negra, agora mais numerosa do que no gulag de Stalin.

Esta campanha presidencial pode não ser acerca do populismo mas sim do liberalismo americano, uma ideologia que se vê a si própria como moderna e portanto superior e o único caminho consagrado. Aqueles à sua direita comportam-se como os cristãos imperialistas do século XIX, com um dever divino de converter ou cooptar ou conquistar.

Na Grã-Bretanha, isto é o blairismo. O criminoso de guerra cristão Tony Blair avançou com a sua preparação secreta para a invasão do Iraque em grande medida porque a classe política e os media liberais caíram no seu "orgulho britânico" ("cool Britannia"). No Guardian, o aplauso era ensurdecedor; ele foi chamado de "místico". Uma ilusão conhecida como política de identidade, importada dos Estados Unidos, acomodou-se facilmente aos seus cuidados.

A história foi declarada ultrapassada, a classe foi abolida e o gênero promovido como feminismo; montes de mulheres tornaram-se deputadas do New Labour. Desde o primeiro dia no Parlamento elas votaram pelo corte de benefícios a famílias monoparentais, sobretudo mulheres, como lhes foi instruído. A maioria votou por uma invasão que provocou 700 mil viúvas iraquianas.

O equivalente nos EUA são os politicamente corretos belicistas do New York Times, Washington Post e redes de TV que dominam o debate político. Era claro, disseram eles, que a um homem como aquele não podia ser confiada a Casa Branca. Nenhumas questões foram levantadas. Nada acerca dos 80 por cento de americanos cujo rendimento colapsou para os níveis da década de 1970. Nada sobre a deriva para a guerra. A sabedoria corrente parece ser "cuide do seu nariz" e vote por Clinton: qualquer um excepto Trump. Desse modo, você trava o monstro e preserva um sistema que silencia [a preparação de] uma nova guerra.

26 de maio de 2016

A verdade sobre a Síria: Uma guerra fabricada contra um país independente

Os povos do mundo deveriam perguntar aos líderes ocidentais e seus aliados: Por que vocês estão prolongando esta guerra? Por que continuam a fornecer liberdade de ação e fundos para os terroristas? Cinco anos de guerra ininterrupta já não foram suficientes? Vale mesmo a pena tanta morte e sofrimento apenas para derrubar o governo da Síria?

Caleb T. Maupin

Mint Press

Kevin Lamarque / Reuters

Tradução / 250 tropas de Operações Especiais dos Estados Unidos foram enviadas para a Síria conforme anúncio do presidente Barak Obama em abril. Diferentemente das forças iranianas e russas que prestam ajuda contra o terrorismo no país, o pessoal militar dos Estados Unidos entrou no país contra os desejos do governo reconhecido internacionalmente.

Se fossemos observar fielmente os termos da lei internacional, os Estados Unidos invadiram a Síria, um país soberano, membro das Nações Unidas. Contudo, esta não foi a primeira vez – John Mccain, senador americano pelo Arizona cruzou as fronteiras da Síria sem visto, para encontrar com lutadores anti-governo em 2013.

Mesmo que oficialmente as novas tropas dos Estados Unidos no teatro de guerra na Síria ali estejam para supostamente combater o Daesh, é muito mais provável que trabalhem para alcançar a meta perseguida pelos Estados Unidos há longo tempo: a derrubada violenta do governo da Síria.

Os altos custos das tentativas do governo dos Estados Unidos para a ação de “mudança de regime” na Síria deveriam ser questionados, já que o terrorismo do Estado Islâmico e outros grupos extremistas cresce cada vez com mais intensidade, enquanto milhões de cidadãos sírios se tornam refugiados.

Educação, assistência médica e o renascimento da nação

A luta contra o colonialismo foi o fator de nascimento do governo nacional sírio independente, que agora se tornou o alvo da política externa ocidental. Foram necessárias décadas de sofrimento e um enorme sacrifício do povo sírio para tornar o país livre da dominação estrangeira – primeiro do império francês e depois dos líderes que eram seus títeres. Nas últimas décadas, a Síria se tornou um país forte e autoconfiante na região do Oriente Médio, rica em petróleo. Vivia também um período de relativa paz.

Desde que alcançou a independência a liderança Baathista síria tem desenvolvido um enorme esforço para melhorar o padrão de vida da população. A expectativa de vida da população cresceu 17 anos no período compreendido entre 1970 e 2009. A mortalidade infantil diminuiu dramaticamente, de 132 mortes por 1.000 nascimentos para apenas 17.9. De acordo com um artigo publicado pelo Avicenna Journal of Medicine, essas mudanças extraordinárias foram resultado do acesso da população à saúde pública, por sua vez proporcionado pelos esforços governamentais para levar assistência médica para as áreas rurais do país.

Um estudo nacional sobre a Síria de 1987 publicado pela Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos, descreve enormes progressos no campo da educação. Durante os anos 80, pela primeira vez em sua história, o país alcançou “a totalidade em matrículas de meninos na escola primária”, com 85% das meninas também matriculadas da escola primária. Em 1981, 42% da população adulta da Síria era analfabeta. Por volta de 1991, o analfabetismo tinha sido eliminado da Síria, graças a uma campanha massiva de alfabetização liderada pelo governo.

O nome do principal partido político na Síria é: “Partido Socialista Árabe Baath”. A palavra árabe “baath” pode ser literalmente traduzida como “Renascimento” ou “Ressurreição”. Em termos de padrão de vida, o partido Baath esteve à altura de seu nome, forjando um país novo, com uma economia independente e rigorosamente planejada. O “Estudo Nacional” da Síria da Biblioteca do Congresso Americano descreve a vasta indústria da construção de infraestrutura nos anos 80: “gastos massivos para o desenvolvimento da irrigação, eletricidade, água, projetos de construção de rodovias, expansão da assistência médica e educação para as áreas rurais contribuíram para a prosperidade do país”.

Comparado ao Iêmen – dominado pela Arábia Saudita, muitas partes da África e outros cantos do mundo que nunca conseguiram estabelecer plenamente sua independência econômica e política, as conquistas da República Árabe Síria parecem sensacionais. Apesar de meio século de investimentos pela Petróleo Shell e outras companhias ocidentais, o CIA World Factbook, elaborado pelo governo dos EUA com um resumo conciso sobre quase todos os países do mundo informa que apenas cerca de 60% dos nigerianos são alfabetizados e que seu acesso a assistência médica e moradia é muito limitado. Na Guatemala, dominada pelos Estados Unidos, 18% da população é analfabeta, e a pobreza grassa no país, ainda de acordo com o CIA World Factbook.

Aquilo que os conquistadores e colonizadores ocidentais não conseguiram realizar durante séculos de dominação, foi feito rapidamente pelo governo sírio independente com a ajuda da União Soviética e outros países anti-imperialistas. A União Soviética providenciou um empréstimo de $100 milhões de dólares para que a Síria construísse a represa de Tabqa no Rio Eufrates a qual a qual, após concluída foi “considerada a espinha dorsal de todo o desenvolvimento econômico e social na Síria”. Novecentos técnicos soviéticos trabalharam no projeto de infraestrutura que levou eletricidade a várias partes do país. A construção da barragem também possibilitou a irrigação para toda a zona rural do país.

Em tempos mais recentes, a China estabeleceu várias joint ventures com corporações energéticas sírias. De acordo com relato da Fundação Jamestown em 2007 a China já teria investido “centenas de milhões de dólares” para ajudar os esforços do país na “modernização da ultrapassada infraestrutura de petróleo e gás”

Não dá para simplesmente colocar de lado ou negar essas grandes conquistas da população síria, como fazem rotineiramente os comentaristas e analistas quando repetem despreocupadamente a narrativa ocidental de que “Assad é um ditador”. Para as pessoas que sempre tiveram acesso a educação e assistência médica, pode-se banalizar essas conquistas. Mas para milhões de sírios, especialmente aqueles residentes em áreas rurais, que viveram em extrema pobreza há apenas duas décadas, coisas como água corrente, educação, eletricidade, assistência médica e educação universitária representam uma tremenda mudança para melhor.

Como quase todo país na alça de mira da política externa dos Estados Unidos, a Síria tinha uma economia forte e controlada pelo próprio país. Não era um “Estado Cliente” como as autocracias do Golfo que a cercam, o que era objeto de desconfiança por parte de Estados Unidos e Israel. Foi isso, não uma suposta preocupação com direitos humanos que motivou os ataques do ocidente contra o país.

O que a Síria precisa é de reformas, não de terrorismo

Uma nova Constituição Síria foi promulgada em 2012 em resposta aos protestos ocorridos durante a Primavera Árabe. De acordo com a nova Constituição, a Síria promoveu uma controversa eleição em 2014, a qual foi monitorada por observadores de 14 países.

A liberdade religiosa é algo que distingue a Síria da Arábia Saudita, Catar, Barein e vários outros regimes alinhados aos Estados Unidos na região. A prática da religião e a liberdade de fé na Síria são estendidas desassombradamente a Sunitas, Cristãos, Alawitas, Drusos, Judeus e outros grupos religiosos. O governo é secular e respeita os direitos da maioria sunita tanto quanto o de minorias religiosas.

Além da liberdade religiosa, a Síria permite abertamente a existência de dois fortes partidos Marxista/Leninistas. O partido Comunista Sírio e o Partido (Bakdash) Comunista Sírio operam abertamente como parte de uma coalizão anti-imperialista apoiada pelo Partido Socialista Árabe Baath. Os comunistas lideram os sindicatos trabalhistas e as organizações comunitárias em Damasco e outras partes do país.

Observe-se que o presidente sírio Bashar al Assad professa a fé Alawita e sua esposa, Asma, é sunita como a maioria da população. Historicamente, os maiores oponentes do governo sírio foram apoiados pela Irmandade Muçulmana, culminando com um episódio sangrento em 1982. Na esperança de amenizar a tensão recorrente, o Presidente Assad recentemente fez incansáveis gestos de boa vontade e solidariedade para com a comunidade sunita. Chegou ao ponto de usar práticas religiosas que não são comuns para os alawitas, como rezar em mesquitas e estudar do Corão.

Imediatamente após o início do conflito em 2011, o governo sírio garantiu autonomia à regiões de maioria curda e delegou autoridade política para organizações nacionalistas curdas de esquerda.

O sistema politico da Síria com certeza necessita de reforma e modernização, e representantes do governo como o embaixador da Síria para a ONU, Bashar Al-Jaafari Bashar Al-Jaafari admitem prontamente tal assertiva. Ocorre que a guerra que assola o país há cinco anos não se trata nem de democratização, nem de reforma nem de modernização.

Em 2013, a BBC publicou um “guia para os rebeldes na Síria”. Entre eles, não se enumera apenas o infame “Estado Islâmico”, que atualmente causa horror pelo mundo afora, mas também a Frente Al Nusra, conhecida anteriormente como Al Qaeda na Síria. Outras organizações com nomes como “Frente Islâmica”, “Frente Islâmica de Liberação” e “Brigadas Ahfad al-Rasoul” também fazem parte da lista.

Mesmo que a mídia ocidental apresente a Guerra na Síria como sendo uma “Batalha pela Democracia”, liderada por “Revolucionários”, o objetivo principal de quase todas as organizações é a criação de um califado sunita – não um que reflita a realidade sunita nem que sirva para abrigar sunitas, mas em vez disso uma versão politizada e pervertida do sunismo criada pela Arábia Saudita a fim de controlar ideologicamente toda a região. A religião unificada que os “rebeldes” sírios têm em mente é a interpretação do Islã Sunita praticado e promovido pela Arábia Saudita, conhecido como Wahabismo.

Lutadores estrangeiros, armas químicas e crianças usadas como soldados

A maioria dos insurgentes não é composta de sírios. Pessoas empobrecidas em todo o Oriente Médio são recrutados para lutar contra o governo da Síria. no Barein, há instalações onde recrutas são treinados para matar, mandados em seguida para lutar na Síria.

Em vários outros países do Golfo existem instalações para o treinamento de terroristas. Lutadores estrangeiros vêm de lugares tão longínquos quanto a Malásia. Filipinos foram encontrados entre as fileiras de insurgentes Wahabitas que tentam derrubar o governo sírio.

Não é fruto do acaso esse fluxo de lutadores violentos dentro da Síria. Isso foi apoiado e facilitado pelos Estados Unidos e seus aliados. A CIA gastou bilhões de dólares em campos de treinamento na Jordânia para os guerreiros antigovernamentais.

Os regimes da Turquia e da Arábia Saudita, aliados dos Estados Unidos, apoiam abertamente a Frente Al Nusra, ligada à Al Qaeda, organização por sua vez acusada de já ter matado dezenas de milhares de pessoas inocentes na Síria. O Gen. David Petraeus não se pejou de instar os EUA a se juntar a tais esforços, iniciando imediatamente o envio de armamento diretamente para a Frente Al Nusra.

Nas Colinas de Golan (ocupadas por Israel) o governo israelense fez questão de providenciar assistência médica para os extremistas Wahabi. Também fez questão de atacar com bombardeios aéreos os aliados do governo sírio.

Enquanto a mídia ocidental faz alarde estridente das alegações de que o governo sírio teria usado armas químicas, Carla Del Ponte, das Nações Unidas confirmou que os insurgentes, apoiados por governos estrangeiros estão usando largamente o gás sarin, que ataca o sistema nervoso, e outras armas químicas.

Segundo informações fornecidas pela UNICEF, os insurgentes usam crianças em suas fileiras, recrutadas do mundo árabe empobrecido, para a tentativa de derrubar pela violência o governo da Síria. Cometem atos como sequestro para extorsão, bombardeio de escolas e hospitais, além da decapitação e tortura indiscriminada entre a população, tornando a vida efetivamente insuportável no país.

Entre 50 a 72 por cento da população vive em áreas controladas pelo governo sírio. Mesmo assim, a USAID confirmou que o comparecimento nas eleições realizadas em 2014 na Síria foi maior que 70% da população.

Enquanto a inundação de lutadores estrangeiros e extremistas, alinhados com pequena percentagem da população e armada pelas potências ocidentais e seus aliados está comprometida com a derrubada do governo sírio, é flagrante a discordância do povo sírio. O fato de que o governo sírio mantém sua força depois de cinco anos de massacres mostra que o país como um todo está dedicado a preservar sua independência. A revista Time magazine e outros órgãos da imprensa empresa ocidental foram obrigados a reconhecer que muito dificilmente o presidente Assad será deposto pelo povo da Síria.

Como acabar com a Guerra?

À medida que lutadores estrangeiros fluíram para a Síria, centenas de milhares de pessoas morreram nos últimos cinco anos, e mesmo assim a mídia ocidental continua a culpar o governo da Síria pelo conflito. No entanto, a guerra poderia ser muito abreviada. Bastaria que findasse o apoio estrangeiro dado aos extremistas.

Ao se mostrar um país independente, com uma economia centralizada e planejada nos mínimos detalhes, a Síria se exibe como um exemplo para o mundo. Prova que mesmo sem a doutrina econômica neoliberal é possível proporcionar condições de vida para a população e se desenvolver de forma independente. O governo da Síria não poupou esforços para ajudar o povo Palestino e sua resistência contra as agressões israelenses, tendo sido esta a causa principal da sua inclusão como estado patrocinador do terrorismo pelo Departamento de Estado dos EUA. A Síria também tem relações econômicas estreitas com a Rússia e com a República Islâmica do Irã.

A Guerra na Síria não é um conflito doméstico. Foi imposta por Israel, Estados Unidos e outras potências ocidentais. A causa primária do extremismo Wahabista através do mundo sempre foi a Arábia Saudita, Estado Cliente dos Estados Unidos. A Turquia e a Jordânia, países que fazem fronteira com a Síria e alinhados com os EUA mantiveram abertas suas fronteiras, através das quais as armas, suprimentos e dinheiro puderam continuar a fluir para as mãos do Estado Islâmico e outros grupos terroristas  antigovernamentais.

Morreram pelo menos 470.000 pessoas, e milhões de outros foram forçados a se tornarem refugiados, porém mesmo assim os líderes ocidentais e seus aliados não querem interromper sua campanha. O coro insano “Assad tem que sair” transformou o que deveria ser um pequeno conflito doméstico numa crise humanitária de larga escala.

Agora que o Estado Islâmico ameaça o mundo inteiro, as consequências da operação de mudança de regime promovida por Wall Street, irrigada pela propaganda enganosa sobre “direitos humanos” se tornam cada vez mais extremos. O governo sírio convocou uma coalizão de Cristãos, Comunistas, Revolucionários Islâmicos e outras forças que estão lutando para manter a estabilidade do país e derrotar as forças do terrorismo Takfiri ( o termo “Takfiri” se refere a grupos de muçulmanos sunitas que consideram todos os outros muçulmanos como apóstatas e pretendem estabelecer um Califado através da violência).

O único plano de paz com chances reais de funcionar na Síria seria o abandono por Estados Unidos, França, Arábia Saudita, Turquia, Jordânia e outras potências de sua cruzada neoliberal. O governo sírio internacionalmente reconhecido e recentemente reeleito pode derrotar facilmente os insurgentes se a intromissão estrangeira for interrompida.

Enquanto a imprensa dos Estados Unidos continua cinicamente lamentando a crise humanitária, culpando o governo sírio por tudo o que aconteceu e os Estados Unidos continuam mandando suas forças militares para o país, os povos ao redor do mundo deveria perguntar aos líderes ocidentais e seus aliados: Por que vocês estão prolongando esta guerra? Por que continuam a fornecer liberdade de ação e fundos para os terroristas? Cinco anos de guerra ininterrupta já não foram suficientes? Vale mesmo a pena tanta morte e sofrimento apenas para derrubar o governo da Síria?

25 de maio de 2016

Eu estava lá

Uri Avnery


Tradução / “Por favor não escreva sobre Yair Golan!” – um amigo me pediu – “Qualquer coisa que um esquerdista como você escrever apenas irá piorar a situação dele!”.

Então, abstive-me por algumas semanas. Mas não posso mais manter o silêncio.

O general Yair Golan, Vice Chefe do Estado Maior do exército israelense, fizera um discurso no Dia de Memória do Holocausto. Vestindo seu uniforme, leu um texto preparado que desencadeou um terremoto que ainda não acabou.

Dezenas de artigos foram publicados em seguida, alguns o condenando e outros aplaudindo. Ninguém ficou indiferente.

A principal frase foi: “Se existe algo que me amedronta sobre as memórias do Holocausto, é o conhecimento dos horríveis processos que aconteceram na Europa em geral, e na Alemanha em particular,70, 80 e 90 anos atrás. E o surgimento de traços deles aqui em nosso meio, hoje, em 2016.”

O inferno desabou. O que??? Traços de nazismo em Israel? Uma semelhança entre o que os nazistas nos fizeram com o que estamos fazendo com os palestinos?

Há 90 anos era 1926, um dos últimos anos de república alemã. 80 anos atrás era 1936, três anos após os nazistas chegarem ao poder; 70 anos atrás era 1946, logo após o suicídio de Hitler e o fim da Reich nazista.

Eu me sinto compelido a escrever sobre o discurso do general porque, além de tudo, eu estava lá.

Quando criança fui testemunha ocular dos últimos anos da República de Weimar (assim chamada porque sua constituição tomou forma em Weimar, a cidade de Goethe e Schiller). Como menino politizado, assisti à Machtergreifung (“tomada de poder”) nazista e aos primeiros 6 meses de domínio nazista.

Eu conheço aquilo do que Golan estava falando. Apesar de pertencermos a gerações diferentes, partilhamos da mesma formação. Nossas duas famílias vieram de pequenas cidades da Alemanha Ocidental. O pai dele e eu devemos ter muito em comum.

Existe um mandamento estrito em Israel: nada pode ser comparado ao Holocausto. O Holocausto é único, aconteceu conosco, judeus, porque somos únicos (um judeu religioso acrescentaria: “Porque Deus nos escolheu”).

Eu quebrei este mandamento. Pouco antes de Golan nascer, publiquei (em hebraico) um livro chamado “A Swastika“, no qual recontei minhas memórias de infância e delas tentei tirar conclusões. Foi às vésperas do julgamento de Eichmann e fiquei chocado com a falta de conhecimento da era nazista entre a juventude israelense daquele tempo.

Meu livro não tratou do Holocausto, que se deu quando em já vivia na Palestina. Mas uma questão me perturbou pelos anos e até agora: como pôde acontecer que a Alemanha, talvez a nação mais culta do planeta naquele tempo, a pátria de Goethe, Beethoven e Kant, elegeu democraticamente um psicopata transtornado, como Adolf Hitler, para ser seu líder?

O último capítulo do livro era intitulado “Isso Pode Acontecer Aqui! ”. O título foi tirado de um livro do romancista americano Sinclair Lewis, ironicamente chamado “Isto Não Pode Acontecer Aqui”, no qual ele descrevia uma tomada dos Estados Unidos pelos nazistas.

Nesse capítulo, eu discutia a possibilidade de um partido judeu semelhante ao nazista chegar ao poder em Israel. Minha conclusão foi de que um partido nazista pode chegar ao poder em qualquer país do mundo, se houverem as condições certas. Sim, também em Israel.

O livro foi ignorado pelo grande público em Israel, que naquele tempo estava tomado pela tempestade de emoções evocadas pelas terríveis revelações do julgamento de Eichmann.

E agora vem o General Golan, um soldado profissional estimado, e diz a mesma coisa.

E não num comentário improvisado, mas numa ocasião oficial, vestindo seu uniforme de general, lendo um texto pensado.

A tempestade despencou e ainda não acabou.

Os israelenses têm um hábito de autoproteção: quando confrontados com verdades inconvenientes, fogem do argumento principal e se desviam para um aspecto secundário e pouco importante. De todas as dezenas e dezenas de reações na imprensa escrita, na TV ou em plataformas políticas, quase ninguém enfrentou os dolorosos argumentos do general.

Não, o debate furioso que irrompeu limitou-se às questões: É permitido a um oficial de alto escalão do exército manifestar-se sobre assuntos pertinentes ao establishment civil? E fazê-lo num uniforme militar? Numa ocasião oficial?

Deve um oficial do exército manter-se calado sobre suas convicções políticas? Ou faze-lo apenas em sessões fechadas – “em fóruns relevantes”, como vociferou um furioso Binyamin Netanyahu?

O general Golan goza de um alto grau de respeito entre os militares. Como Vice-Chefe do Estado Maior ele, até agora, era um candidato certo ao posto de Chefe do Estado Maior.

O cumprimento deste sonho, partilhado por qualquer oficial, tornou-se remoto. Na prática, Golan sacrificou qualquer futura promoção quando manifestou seu alerta, dando-lhe a maior ressonância possível.

Só há que se respeitar tal coragem. Acredito que nunca me encontrei com o general Golan e não conheço suas ideias políticas. Mas admiro o seu ato.

(Por alguma razão, recordei um artigo publicado na revista inglesa Punch, antes da 1ª Guerra Mundial, quando um grupo de recrutas publicou um manifesto se opondo à política do governo na Irlanda. A revista dizia que, mesmo desaprovando a opinião expressada pelos soldados, admirava muito o fato desses jovens soldados se mostrarem dispostos a sacrificar suas carreiras por suas próprias convicções).

A marcha nazista rumo ao poder começou em 1929, quando uma terrível crise mundial atingiu a Alemanha. Um partido de ultradireita frágil e ridículo tornou-se, subitamente, uma força política a ser combatida. Dali, levaram apenas quatro anos para se tornar o maior partido do país e assumir o governo (ainda que precisassem de uma coalizão).

Eu estava lá quando isso aconteceu. Um menino numa família na qual a política se tornara o principal assunto na mesa de jantar. Vi como a República foi destruída, gradual e lentamente, passo a passo. Vi os amigos da nossa família pendurando a bandeira da swastika. Eu vi meu professor do colégio estendendo seu braço ao entrar na sala, dizendo “Heil Hitler” pela primeira vez (e me assegurando em privado que nada havia mudado).

Eu era o único judeu de todo o ginásio. Quando as centenas de meninos – todos mais altos do que eu – levantaram seus braços para cantar o hino nazista e eu não, ameaçaram quebrar meus ossos caso isso acontecesse de novo. Poucos dias depois, deixamos a Alemanha.

O general Golan foi acusado de comparar Israel à Alemanha nazista. Nada disso Uma leitura cuidadosa do seu texto mostra que ele comparou os recentes acontecimentos em Israel aos eventos que levaram à desintegração da República de Weimar. E esta é uma comparação válida.

Os fatos que estão acontecendo em Israel, especialmente desde a última eleição, têm uma ameaçadora semelhança com esses eventos.

Mas o processo é bem diferente. O fascismo germânico surgiu da rendição humilhante da Alemanha na 1ª Guerra Mundial, da ocupação do Ruhr pela França e Bélgica de 1923 a 1925, da terrível crise econômica de1929 e a miséria de milhões de desempregados.

Por sua vez, Israel tem sido vitorioso em suas frequentes ações militares. Vivemos vidas confortáveis. Os perigos que nos ameaçam são de naturezas bem diferentes. Originam-se de nossas vitórias, não de derrotas,

Na verdade, as diferenças entre o Israel de hoje e a Alemanha de então são bem maiores do que as similaridades.

Mas essas similaridades existem sim. E o general estava certo ao apontá-las.

A discriminação contra os palestinos, em praticamente todas as esferas da vida, pode ser comparada ao tratamento dos judeus na primeira fase da Alemanha nazista (a opressão dos palestinos nos territórios ocupados lembra mais o tratamento dos tchecos no “protetorado” após a traição de Munique).

A enxurrada de leis racistas no Knesset, já aprovadas ou em tramitação, lembra fortemente as leis adotadas pelo Reichstag no início do regime nazistas. Alguns rabinos clamam pelo boicote a lojas árabes. Como então. Os gritos de “Morte aos árabes” (“Judah verrecke”?) é regularmente ouvido em jogos de futebol. Um membro do parlamento está propondo a separação entre os recém-nascidos judeus e os árabes nos hospitais. Um Rabino Chefe declarou que os Goyim (não judeus) foram criados por Deus para servir os judeus. Nossos ministros de Educação e Cultura estão ocupados em submeter as escolas, o teatro e as artes às ideias da extrema-direita. Algo conhecido na Alemanha como Gleichschaltung. A Suprema Corte, o orgulho de Israel, é incessantemente atacada pelo ministro da Justiça. A Faixa de Gaza é um grande gueto.

Claro que ninguém em sã consciência iria comparar, mesmo remotamente, Netanyahu ao Fuehrer. Mas existem aqui partidos políticos que emitem um forte cheiro de fascismo. Alguns membros do governo de Netanyahu encontrariam facilmente um lugar no primeiro governo nazista.

Um dos principais slogans do atual governo é de substituir a “velha elite”, considerada liberal demais, por uma nova. Um dos principais slogans nazistas era substituir “das System”.

Quando os nazistas chegaram ao poder, quase todos oficiais do primeiro escalão eram antinazistas convictos. Até consideraram um golpe contra Hitler. Seu líder político foi executado sumariamente um ano depois, quando Hitler liquidou os opositores no próprio partido.

Fomos informados de que o general Golan está agora protegido por um guarda-costas pessoal, algo que nunca aconteceu a um general nos anais de Israel.

O general não mencionou a ocupação e os assentamentos, que estão sob domínio militar. Mas mencionou o episódio que ocorreu poucos dias antes do seu discurso e que ainda está estremecendo Israel: Na Hebron ocupada, sob domínio do exército, um soldado matou um palestino ferido deitado no chão com um tiro na cabeça, a queima-roupa.

A vítima tinha tentado atacar soldados com uma faca, mas não representava mais nenhuma ameaça para ninguém. Foi uma clara contravenção às regras militares vigentes. O soldado foi submetido a uma corte marcial.

Um clamor percorreu o país: o soldado é um herói! Ele deve ser condecorado! Netanyahu telefonou para o pai dele, garantindo o seu apoio. Avigdor Lieberman entrou no salão da Corte lotado para exprimir sua solidariedade ao soldado. Poucos dias depois, Netanyahu nomeou Lieberman como Ministro da Defesa, o segundo principal cargo em Israel.

Antes disso, o general Golan recebera apoio robusto, tanto do Ministro de Defesa, Moshe Ya’alon, quanto do Chefe do Estado-Maior, Gadi Eisenkot. Provavelmente esta foi a razão imediata para a demissão de Ya’alon e a nomeação de Lieberman para o seu lugar. Pareceu um golpe.

Parece que Golan é não apenas um oficial corajoso, mas também um profeta. A inclusão do partido de Lieberman para a coalizão de governo confirma os piores temores de Golan. Este é um golpe fatal na democracia israelense.

Estou eu condenado a assistir ao mesmo processo pela segunda vez na minha vida?