31 de março de 2016

A fadiga do desespero

Como a desesperança se tornou entediante

David Graeber


Eleanor Shakespeare

Tradução / É possível ficar entediado com a desesperança?

Há razões para se acreditar que algo assim está começando a acontecer na Grã-Bretanha. Pode chamar de “fadiga do desespero”.

Por quase meio século, a cultura britânica, particularmente à Esquerda, fez do desespero uma forma de arte. Esta é a terra onde “No Future for You” [“Nenhum Futuro para Você”] se tornou o lema de uma geração, e depois de outra, e depois outra. Do desmoronamento de seu império, ao desmoronamento de suas cidades industriais, ao atual desmoronamento de seu Estado de Bem-Estar, o país parecia estar explorando todas as permutações possíveis do desespero: desespero como fúria, desespero como resignação, desespero como humor, desespero como orgulho ou prazer secreto. É quase como se agora o desespero tivesse finalmente se esgotado.

Na superfície, e de longe, a Grã-Bretanha parece estar passando por um dos mais estranhos paroxismos de autodestruição masoquista da história mundial. Desde a vitória dos Conservadores em 2010, primeiro em coalizão com os Liberal-Democratas e agora por conta própria, o governo britânico tem buscado desfazer sistematicamente muito do que torna a vida no país boa e decente. Os líderes conservadores começaram destruindo o uma vez orgulhoso sistema universitário do Reino Unido, enquanto mantinham os olhos na maior fonte de orgulho e dignidade nacional, as garantias de saúde universal do Serviço Nacional de Saúde. Tudo isso está sendo feito em nome de uma doutrina econômica – austeridade, a necessidade imperativa de disciplina fiscal – na qual ninguém acredita genuinamente e cujos resultados quase todos deploram (incluindo o ex-primeiro-ministro David Cameron, que em particular tem denunciado o declínio de seus serviços públicos locais), em resposta a uma crise existencial que não existe.

Como isso aconteceu? Parece que toda a classe política ficou presa na narrativa bizarramente bem sucedida que varreu o caminho dos conservadores para o poder após o colapso de 2008 e que ainda os sustenta muito depois de suas conseqüências ultrapassarem qualquer nível de humanidade ou de senso comum.

Ópera do crescimento e do colapso

Praticamente todos os principais governos foram chutados do poder após o colapso, e a aparência política do governo em questão determinou em grande parte a narrativa popular sobre o que causou a crise. Nos Estados Unidos, foi culpa de George W. Bush, de modo que o ônus popular caiu sobre os CEOs e gestores de fundos hedge [10] que Bush costumava se referir, em eventos de arrecadação de campanha, como sua “base”. Nenhum deles foi processado, mas a maioria dos estadunidenses sentiu fortemente que eles deveriam ter sido. No Reino Unido, onde o Partido Trabalhista de Gordon Brown estava sentado em Downing Street [11], todo mundo aceitou a narrativa da oposição de que a crise britânica resultou de gastos sociais irresponsáveis ​​e déficits governamentais. Na verdade, os Tories descobriram que apelar para uma retórica de sacrifício compartilhado, aperto do cinto e até mesmo sofrimento coletivo ressoou no público britânico. Isso foi talvez mais verdadeiro entre os eleitores da classe trabalhadora. Agora quase totalmente despojados de qualquer sentido de comunidade, vizinhança ou solidariedade no local de trabalho por décadas de engenharia social de Direita, eles viam os tempos difíceis e o racionamento da Segunda Guerra Mundial como a última vez em que os britânicos haviam agido com um propósito comum genuíno.

Os efeitos sociais dos cortes nos gastos – todos visando ostensivamente a redução da dívida supostamente catastrófica pairando sobre o governo – foram devastadores. As universidades britânicas, que há não tantos anos atrás (como na maioria da Europa) eram totalmente gratuitas, passaram a estar entre as mais caras do mundo. A habitação social foi saqueada, subsídios foram cortados, e a ocupação de propriedades residenciais foi tornada ilegal exatamente no momento em que dezenas de milhares estavam sendo “deslocadas” de seus lares. Ser pobre agora significa ser infinitamente avaliado, monitorado e pesquisado, e quase invariavelmente ser considerado um fracasso. Ninguém sabe de verdade quantos milhares de pessoas morreram como resultado da queda-livre no suporte dado pelo governo, mas para termos apenas uma ideia: entre dezembro de 2011 e fevereiro de 2014, o Departamento de Trabalho e Pensões informou que 2.380 britânicos anteriormente recebendo o suporte de deficiência foram encontrados mortos não mais do que seis semanas depois de receberem a notificação de que estavam tendo seus benefícios cortados porque tinham sido avaliados como estando “aptos para trabalhar”.

Uma razão pela qual isso pode ter acontecido é que não tem havido praticamente nenhum debate público sobre a austeridade em si. Por exemplo, nunca um grande portal de notícias de TV recebeu um painel de economistas para discutir se a dívida pública era realmente a causa da crise econômica, ou para debater o que seria uma resposta mais apropriada: se a austeridade no estilo europeu ou o estímulo fiscal no estilo Obama. As únicas questões eram qual deveria ser o tamanho do corte no orçamento e onde os cortes deveriam incidir. [14] Esta confiante narrativa dos Tories reinou inconteste desde os golpes mais rudes no Daily Mail até a mais esculpida eminência da BBC (supostamente socialista), e todas as figuras de autoridade pública se agarraram a ela mesmo depois que os efeitos imediatos dos cortes se mostraram espetacularmente ineficazes. Mesmo quando o “duplo mergulho” virou “mergulho triplo” [15] e o ministro da fazenda dos Tories, George Osborne, dobrou suas apostas, ao fazer promessas cada vez mais estranhas (que todos os futuros governos gerariam um excedente, que a Grã-Bretanha eliminaria completamente sua dívida nacional, etc. [16]), quase nenhum grande “especialista” político, editorialista, ou o comentador de TV quebrou as fileiras. E quando, após anos de miséria abjeta, a economia, inevitavelmente, começou a se agitar um pouquinho, todos proclamaram instantaneamente que Osborne havia sido vingado.

Este consenso, estranhamente, não tem nada a ver com as opiniões dos economistas profissionais. Quase todos os economistas britânicos entendiam que os déficits crescentes de 2008 e 2009 foram causados pela crise bancária, e não o contrário. Da mesma forma, qualquer pessoa que prestasse atenção sabia que os cortes dos serviços públicos para “economizar dinheiro” reduziam a atividade econômica e, assim, as receitas fiscais do governo – e que, portanto, tinham na verdade o efeito de aumentar, não diminuir os déficits. A maioria também entendia que os déficits não eram realmente um problema tão grande, para começo de conversa. Mas mesmo a opinião de economistas conhecidos foi, de repente, excluída do debate público. Chegando em 2012, mesmo o FMI estava emitindo declarações pedindo aos Tories que soltassem a mão. Mas você nunca aprenderia nada disso no Times, no Observer ou na BBC.

Como pode que esse desafio completo à realidade tenha se mantido em um país com uma imprensa formalmente livre e uma população altamente educada? Até certo ponto, é o conhecido “efeito bolha”. Políticos, jornalistas, lobistas, CEOs e burocratas corporativos raramente falam com alguém além de seus pares. Eles constituem um universo intelectual à parte. Dentro deste universo, as políticas econômicas são projetadas principalmente para a comercialização política; a ciência econômica existe em grande parte para fornecer diagramas e equações impressionantes para vendê-las. Frases projetadas em think tanks e grupos focais (“mercados livres”, “criadores de riqueza”, “responsabilidade pessoal”, “sacrifício compartilhado”) são repetidas como encantamentos até que tudo pareça tanto com um senso comum impensado que ninguém nem mesmo chegue a perguntar o que a imagem resultante tem a ver com a realidade social. É verdade, a lógica da bolha só pode ser mantida por uma certa ignorância ilustrada de como a economia realmente funciona. Uma pesquisa de 2014 descobriu, por exemplo, que 90% dos deputados com mandato, com todos os seus inúmeros debates sobre a necessidade de economizar dinheiro, não sabiam de onde o dinheiro vem. (Eles achavam que ele era criado pela Royal Mint.)

O efeito de bolha não é exclusivo da Grã-Bretanha, é claro. O debate político nos Estados Unidos, no Japão ou na Alemanha funciona da mesma maneira. Mas na Grã-Bretanha, as coisas chegaram tão longe que estamos começando a ver um clássico efeito de reforço do tipo “Grande Mentira”. Quando a realidade consensual se torna tão completamente divorciada da realidade realmente existente, quando tantas pessoas inocentes têm sofrido como resultado, e quando qualquer um que aponte isso seja denunciado, de forma consistente e agressiva, como um terra-planista-com-papel-alumínio-na-cabeça (ou um trotskista), quebrar as fileiras significaria admitir que os lunáticos estavam certos. E não há nada que a mídia estabelecida seja mais relutante em fazer.

O divórcio entre consenso e realidade se tornou tão extremo e impraticável que até mesmo os tecnocratas encarregados de executar o sistema começaram a gritar falta. Em 2014, o Banco da Inglaterra – seus economistas aparentemente esgotados por terem de implementar políticas econômicas em um mundo inventado e de ponta cabeça, projetado apenas para beneficiar os ricos – emitiu um relatório sobre “Criação de Dinheiro na Economia Moderna” que efetivamente destruía toda a base teórica para a austeridade. O dinheiro, eles observaram, não é criado pelos governos, nem mesmo pelos bancos centrais, que devem ter cuidado para não fazer muito disso para que não iniciem inflação; é na verdade criado por bancos privados quando fazem empréstimos. Sem dívidas, não haveria dinheiro. Os economistas heterodoxos pós-keynesianos, regularmente denunciados como uma franja lunática por aqueles comentadores dispostos a reconhecer sua existência, estavam certos.

Nenhum grande veículo de notícias considerou isso uma história digna de repercussão; os políticos continuaram a pregar seus contos de moralidade sobre os males da dívida exatamente como antes.
Nada Além de Classe

Então, qual é a base real da economia britânica? Ela é, afinal de contas, a quinta maior do mundo.

É importante lembrar que, apesar de muita retórica em contrário, a economia do Reino Unido, como as de outros países ricos, é em grande medida auto-sustentável. Ainda existem fazendas, fábricas, minas, áreas de pesca e oficinas artesanais, que continuam a atender a maioria das necessidades materiais do país. Muito do sentimento de que a Grã-Bretanha se desindustrializou é devido ao declínio das fábricas gigantes de meados do século XX. Mas estas sempre foram uma anomalia: desde o auge da Revolução Industrial até a era vitoriana, quando a Grã-Bretanha liderava o mundo na produção e na inovação tecnológica, a economia era dominada por uma combinação de altas finanças e pequenas empresas familiares – muito como é hoje.

Ainda assim, em muitos aspectos a Grã-Bretanha se assemelha a uma economia imperial: enquanto exporta maquinário, produtos farmacêuticos, plásticos, gasolina e toda uma variedade de produtos artesanais de alta-qualidade, em termos materiais totais, ela recebe muito, muito além do que envia para outros países. Então, devemos fazer uma pergunta simples: por que outros países continuam a enviar suas coisas para a Grã-Bretanha? Como é que a ilha consegue levar muito mais do resto do mundo do que lhes dá em troca?

A resposta convencional é, claro, “serviços financeiros”. A economia do Reino Unido agora gira em torno de seu centro financeiro, a City de Londres, cujas maiores empresas desempenham um papel enorme na coordenação do comércio internacional. As vantagens da City são, em parte, apenas aquelas do fuso-horário do meridiano de Greenwich: um bilionário no Catar ou Mumbai pode fazer uma chamada para seu corretor em Londres com apenas algumas horas de diferença; em Nova York, ainda mais na Califórnia, é provável que seja o meio da noite. Além disso, o mesmo bilionário pode falar com um corretor com um sotaque familiar e reconfortante de Oxbridge, dando-lhe a sensação agradável de ter agora o neto das ex-autoridades coloniais de seu país à sua disposição.

Certamente há algo de verdade nisso. Mas não pode ser toda a explicação. A escala é simplesmente grande demais. As pessoas no Brasil ou na Coréia realmente enviam inúmeros navios com contêineres cheios de aço, carros ou computadores para a Grã-Bretanha porque estão encantados com os acentos de Oxbridge ou impressionados com suas habilidades com a papelada? Porque a papelada, afinal de contas, é tudo o que os “serviços financeiros”, em última instância, são, e há muitas pessoas no Brasil e na Coréia que são extremamente boas em lidar com papelada também.

Outro argumento, comum nos círculos esquerdistas, é que a Grã-Bretanha está apenas colhendo os benefícios da sua posição como leal tenente do império norte-americano. O “sistema financeiro” patrocinado pelos EUA é, conforme economistas como Michael Hudson tem argumentado, em grande parte um sistema de extorsão, um meio de extrair algo que, se não for idêntico, então é muito parecido com um tributo imperial sobre o resto do mundo. A Grã-Bretanha, assim entendida, poderia então ser vista como facilitando o processo dentro de seus próprios antigos territórios imperiais – talvez com um olho encoberto para lançar suas fidelidades para a China e a Índia, quando chegar o momento delas. Sem dúvida há algo de verdade nisso também, mas, de novo, dificilmente é a explicação completa. No Reino Unido, a “finança” está baseada acima de tudo no setor imobiliário, e a bolha imobiliária que sustenta a City se sustenta no fato de que praticamente todos os bilionários do mundo sentem que precisam manter pelo menos um apartamento, e frequentemente uma casa maior, em uma parte elegante de Londres. Por quê? Há muitas outras cidades modernas e bem equipadas no mundo, a maioria das quais possuem um clima decididamente mais aprazível. No entanto, ainda mais do que, digamos, Nova York ou São Francisco, o setor imobiliário de Londres se tornou algo como os títulos do Tesouro dos EUA, uma moeda básica dos ricos internacionais.

É quando se faz perguntas como essas que a economia e a política se tornam indistinguíveis. Aqueles que têm investigado a situação acham que o apelo de Londres – e, por extensão, da Grã-Bretanha – depende de dois fatores. Em primeiro lugar, oligarcas russos ou princesas sauditas sabem que podem obter praticamente tudo o que quiserem em Londres, desde candelabros antigos e dispositivos de espionagem de alta tecnologia, até babás no estilo Mary Poppins para seus filhos, lagostas frescas entregues de bicicleta ainda de madrugada, e toda variedade concebível de serviços sexuais, música e comidas exóticos. Além disso, tudo será entregue por uma população de classe trabalhadora alegre, criativa e subserviente que, com base em séculos de tradição, sabe exatamente como ser serviçais. O segundo fator é a segurança. Se alguém é um novo rico, magnata da construção civil ou um comerciante de diamantes de Hong Kong, Deli ou Bahrein, estará bem consciente de que em casa algo ainda pode dar terrivelmente errado: uma revolução, uma reviravolta súbita das políticas do governo, expropriação, agitação violenta. Nada disso poderia acontecer em Notting Hill ou Chelsea. Qualquer mudança política que afetaria significativamente os mais ricos foi efetivamente retirada da mesa desde a Revolução Gloriosa de 1688.

Em outras palavras, a histórica derrota e humilhação das classes trabalhadoras britânicas é agora o principal produto de exportação da ilha. Ao organizar toda a economia em torno da bolha imobiliária resultante, os Tories asseguraram que a maior parte da população britânica saiba, pelo menos em algum nível tácito, que é precisamente o apelo global do sistema inglês de classes – indo até (e incluindo) o sorriso desdenhoso dos graduados da Oxbridge no parlamento abafando risos com a remoção iminente dos benefícios da habitação – que está mantendo o fluxo de tênis esportivos, de cerveja e de eletrônicos de consumo acessíveis para o país. É um dilema impossível. Não é surpreendente, então, que tantos se voltem para os cínicos populistas de direita como o UKIP, que manipulam a indignação resultante ao fomentar a fúria contra trabalhadores poloneses de construção civil em vez de oligarcas russos, contra motoristas de Bangladesh em vez de príncipes do Qatar, contra porteiros das Índias Ocidentais em vez de magnatas brasileiros do aço.

Este marketing da subordinação de classe é a essência da estratégia econômica Tory. A indústria pode ser derrotada e o sistema universitário se tornar (novamente) um parquinho para os ricos, mas mesmo que isso leve a um colapso da tecnologia e da economia do conhecimento, o resultado final apenas selará mais firmemente o sistema de classes que produz políticos Tory: a Inglaterra literalmente não terá nada mais para vender.

As políticas do “Novo Trabalhismo” de Tony Blair (que, apesar de ser financiado por uma base de classe trabalhadora, representava essencialmente a sensibilidade das classes de profissionais liberais), tentaram forjar uma visão alternativa. Para os Blairistas, o futuro do Reino Unido estava no que eles chamavam de “indústrias criativas”. O Reino Unido não havia, regularmente desde os anos sessenta, produzido ondas de música e cultura juvenil popular que haviam varrido o mundo, trazendo bilhões em receita direta e indireta? Pode ter parecido uma jogada plausível na década de noventa, mas fracassou porque os Blairistas estavam operando com uma compreensão completamente falsa de onde a criatividade cultural vem.

Eles ingenuamente assumiram que a criatividade era basicamente um fenômeno de classe média, o produto de pessoas como eles próprios. De fato, quase tudo que vale a pena vindo da cultura britânica durante o século passado, desde o music hall, até os kebabs de rua, a comédia de stand-up, o rock and roll e a cena rave, tem sido principalmente fenômenos da classe trabalhadora. Essencialmente, essas eram as coisas que a classe trabalhadora criava quando não estavam trabalhando “de verdade”. O surgimento da cultura popular britânica dos anos sessenta foi inteiramente um produto do Estado de Bem-Estar Social do Reino Unido, à época muito generoso. Há uma razão para que, nas gírias das rimas Cockney, a palavra para o “seguro desemprego” seja “rock and roll” (“he got the sack, he’s on the rock ‘n’ roll again” [“ele foi mandado pra rua, está na base do rock ‘n’ roll novamente”): uma proporção surpreendente de grandes bandas que mais tarde varreriam o mundo passaram pelo menos alguns dos seus anos formativos no auxílio-desemprego. Os Blairistas foram estúpidos o suficiente para combinar a promoção de sua “Cool Britannia” [“Bretanha Descolada”] com reformas maciças no sistema de bem-estar social, o que efetivamente assegurava que o projeto todo desabasse espetacularmente, uma vez que forçaram que praticamente qualquer um com o potencial para se tornar o próximo John Lennon passasse o resto de suas vidas empilhando caixas na Tesco local como parte das novas condições para receber os programas de bem-estar.

No final, tudo o que os Blairistas conseguiram produzir foi um setor de marketing de nível mundial (já que é nisso que pessoas da classe média são realmente boas); tirando isso, eles não teriam nada mais para exibir para si mesmos.

O retorno do futuro

Tudo isso pode parecer irremediavelmente sombrio. Ainda mais surpreendente, então, que a principal reação à esquerda, começando timidamente com o movimento estudantil de 2010 e agora explodindo em todos os lugares, esteja sendo uma onda de otimismo quase insolente e um retorno (reconhecidamente hesitante) a visões utópicas. É por isso que comecei a falar de “fadiga do desespero”. Há uma percepção – ainda pequena, mas crescente – de que se a Grã-Bretanha vier a voltar a entrar para a história, se for existir qualquer tipo de visão grande e positiva para o seu futuro, essa visão só pode vir da esquerda.

Ao fim e ao cabo, as visões dos Tories e do Novo Trabalhismo não são visões de verdade. De fato, no tempo de Thatcher e, até certo ponto mesmo no de Tony Blair, os reformadores de mercado deram um jeito de se apresentarem, de certo modo, como os verdadeiros revolucionários. Não mais. O mesmo tipo de apoio insincero é dado à idéia de que os entusiastas do mercado são jovens, entusiasmados e expertos em tecnologia, e que aqueles que defendem os restos do Estado de Bem-Estar Social são um bando de velhos amargos que se queixam no pub. Este simulacro também está se tornando cada vez mais vazio. Tendo estabelecido sua realidade consensual, a única coisa que sobrou para as classes políticas é defendê-la. Todos sabem que os Conservadores mantém as rédeas precisamente porque conseguiram convencer o público de que são conservadores; sua “competência” fabulosa se resume ao argumento de que só eles conseguiriam manter as coisas juntas, mais ou menos como existem atualmente, antes do advento de alguma catástrofe inevitável, cujos contornos precisos não podemos saber.

Enquanto isso, nas ruas e nos municípios, a Grã-Bretanha está sofrendo uma mudança radical, um verdadeiro florescimento da resistência. É muito difícil conhecer a sua escala real porque, ao contrário do que aconteceu em gerações anteriores, a mídia se recusa a falar sobre isso. Talvez porque quando eles falam, os resultados raramente são o que esperavam. Em 9 de maio de 2015, o dia após a vitória da eleição Tory ser declarada, antes que a inevitável nova rodada de cortes pudesse ser anunciada, houve uma pequena revolta na frente dos escritórios do primeiro ministro em 10 Downing Street. Centenas de estudantes ativistas enfrentaram a polícia; vários deles, sendo socados e chutados por oficiais uniformizados, realmente revidaram; bombas de tinta foram jogadas, chamas começaram e o memorial das Mulheres da Segunda Guerra Mundial foi pintado com o slogan familiar “Fuck Tory Scum” [“Foda-se a Escória Tory”]. Os editores do tablóide de Direita, o Daily Mail, decidiram que o clima público era tal que seria possível reportar isso, e publicaram uma enorme tiragem com imagens impressionantes sob a manchete “Anarchist Mob Planning Summer of Thuggery” [algo como “Gentalha Anarquista Planejando Verão de Baderna”]. Dentro de vinte e quatro horas eles ficaram horrorizados ao descobrir que na seção de comentários, a opinião entre seus próprios leitores estava em algo como cinco contra um à favor da baderna anarquista. Mesmo a “profanação” do memorial não escandalizou tanto quanto imaginavam. Afinal, a maioria dos britânicos está bem ciente de que a primeira coisa que os veteranos fizeram, ao retornar da guerra, foi expulsar o governo Tory de Churchill e votar em um que prometeu presidir a criação de um moderno Estado de Bem-Estar Social, precisamente o trabalho que os inquilinos atuais da Downing Street estão tentando desmantelar. Os manifestantes estavam simplesmente defendendo o legado desses veteranos e anunciando o que eles, se vivos, provavelmente diriam.

Entre ocupações de estudantes, ocupações habitacionais, ações de rua e um ressurgimento do sindicalismo radical, tem havido um aumento da resistência sem precedentes. Mas ainda mais importante, isso começou, mesmo que de forma hesitante, a assumir um espírito muito diferente das ações desesperadas e de retaguarda dos anos anteriores. Afinal, até mesmo as lendárias revoltas do “imposto de votação” que desalojaram Thatcher eram ou apontavam para o passado ou eram, alternadamente, amargos e niilistas. Os slogans de Guerra de Classes (“The Royal Question: Hanging ou Shooting?” [algo como “a questão da realeza: enforcamento ou fuzilamento?”]) eram talvez provocadores, mas dificilmente utópicos.

É aqui que entra a noção de fadiga do desespero.

Pode-se argumentar que seus inícios já estavam visíveis na cultura popular. Testemunham o surgimento da escola socialista escocesa de ficção científica, que, após o distopianismo implacável dos anos setenta, oitenta e noventa [25], liderou o caminho para uma tendência mais ampla, ao brincar com futuros redentores uma vez mais. Depois, havia Steampunk [algo como “punk-à-vapor”], certamente a mais peculiar das tendências de contra-cultura, uma espécie de futurismo vitoriano desajeitado, cheio de computadores e aeronaves alimentados a vapor, ciborgues de cartola, cidades flutuantes alimentadas por bobinas Tesla e uma infinita variedade de tecnologias que nunca apareceram realmente. Lembro de assistir a uma conferência acadêmica sobre o assunto e me perguntar: “Ok, eu entendo a parte do vapor, é óbvia, mas... O que exatamente isso tem a ver com o punk?” E então me caiu a ficha. Não há futuro! A era vitoriana foi a última vez que a maioria das pessoas neste país acreditou genuinamente em um futuro tecnológico que levaria a um mundo não apenas mais próspero e igualitário, mas na verdade mais divertido e emocionante do que o deles. Então, é claro, veio a Primeira Guerra Mundial, e descobrimos como seria o século XX, com a sua alternância monótona de terror e tédio nas trincheiras. O que é o Steampunk se não uma maneira de dizer: “não podemos simplesmente voltar atrás, ignorar todo o século passado como um pesadelo e começar de novo?”

Não é este o momento necessário de formatar antes de tentarmos imaginar com o que um século XXI genuinamente revolucionário poderia se parecer?

Em frente para o corbofuturismo

Os primeiros movimentos vieram, de forma apropriada, da Escócia, onde, em 2015, o Partido Nacional Escocês virtualmente varreu os assentos parlamentares possíveis, concorrendo sobre uma plataforma explicitamente socialista e anti-austeridade e surrando um Partido Trabalhista morno sem vontade de desafiar fundamentalmente a agenda Conservadora (basicamente, ninguém na Escócia vota Tory). Mas o verdadeiro terremoto ocorreu alguns meses depois, com a ascensão aparentemente inexplicável de Jeremy Corbyn e seu “chanceler à sombra”, John McDonnell, à chefia do próprio Partido Trabalhista em Westminster. Aos olhos de uma absolutamente e incondicionalmente hostil à nova equipe dos Trabalhistas – mesmo veículos ostensivamente de Esquerda como o Guardian -o sucesso deles é em si mesmo um produto de desespero político: aqueles velhos reclamões dos pubs desistiram até mesmo de tentar ganhar eleições e cuspiram na cara de todo o sistema ao eleger um deles. E isso é verdade; a nova liderança trabalhista é constituída por radicais genuínos. Corbyn e McDonnell representam a ala militante do Partido Trabalhista – até recentemente, uma facção de fato muito pequena, composta na melhor das hipóteses de uma meia dúzia de deputados. Eles têm sido apoiadores regulares e até participantes das mobilizações de rua.

Não estou me referindo aqui apenas a falar em comícios. Posso dar meu testemunho pessoal. Quando, no verão de 2014, os ativistas do movimento “Pessoas Com Deficiência Contra os Cortes” estavam se acorrentando no “gramado do santuário” na Abadia de Westminster em uma tentativa vã de chamar a atenção da mídia para o fechamento do Fundo de Vida Independente, o que resultaria na morte de ainda mais pessoas com deficiências, McDonnell e eu fazíamos parte da equipe que levava baterias sobressalentes para as suas cadeiras de rodas. Tanto McDonnell como Corbyn apoiam abertamente uma filosofia que insiste em que a mudança social nunca pode vir só da política eleitoral, mas apenas de uma combinação de mobilização política, organização sindical e, como McDonnell colocou uma vez, carinhosamente, “o que antigamente costumávamos chamar de “insurreição”, embora hoje em dia a chamemos polidamente de ‘ação direta’”. Dá para imaginar o horror que se seguiu dentro do establishment político quando essas pessoas foram repentinamente catapultadas para cargos de liderança dentro de um dos dois principais partidos do país. Do ponto de vista deles, não é como se Bernie Sanders assumisse o Partido Democrata. É mais como se tivesse sido anexado por uma combinação de Noam Chomsky com Abbie Hoffman.

Como isso aconteceu? No sentido imediato, a ascensão de Corbyn foi precisamente um produto da estranha bolha conceitual em que a classe política britânica opera. Os picaretas Blairistas que dominam o Partido Trabalhista estavam dispostos a quebrar qualquer poder remanescente dos sindicatos e estavam tão convencidos de que seu senso comum fabricado era, de fato, realmente comum a todo mundo, que decidiram que a melhor maneira de fazer isso seria mudar as regras e permitir que o líder do partido fosse eleito pelo voto popular. Parece nunca ter lhes ocorrido que uma porcentagem significativa de membros de um partido político ainda ostensivamente de esquerda pudesse realmente responder positivamente a valores de esquerda. Na sequência da vitória Tory, McDonnell, pelo menos assim diz a história, conseguiu convencer um número suficiente de deputados Blairistas a apoiar um candidato de esquerda radical à chefia do partido para “ampliar o debate”, o que seria equilibrado do outro lado pela sua própria candidata de Direita pró-negócios, Liz Kendall – uma das favoritas dos “especialistas” ingleses, notoriamente sem-noção. Então, os mesmos delegados assistiram, de queixo-caído, Corbyn obter 59,5% dos votos em uma disputa entre quatro candidatos, o resultado mais avassalador já conquistado por qualquer candidato a lídera trabalhista. (Kendall ficou em último lugar, com 4,5%).

Em um nível, os “especialistas” provavelmente estavam certos: a Corbynmaniaera apenas uma maneira de mandar um foda-se para o establishment. O apelo do sujeito reside em grande parte em uma completa ausência de carisma convencional. Corbyn não tem nenhum talento retórico. Ele simplesmente diz o que pensa. Em um campo político tão corrupto que muitas vezes parece que o espectro moral para as figuras públicas vai mais ou menos do cínico calculista até o molestador infantil, a idéia de que um homem genuinamente honesto poderia concorrer com sucesso para cargos públicos foi uma espécie de revelação. Corbyn está enraizado na tradição socialista, mas lhe faltava qualquer ideologia ou agenda específica. Votar nele era simplesmente votar em um conjunto de valores. Aqueles que o apoiavam sabiam que só depois das eleições começaria o verdadeiro trabalho, de descobrir como (ou mesmo, se) seria possível para políticos e ativistas de rua sinergizar seus esforços sem cooptar ou destruir uns aos outros; que tipo de modelo econômico a esquerda poderia contrapor ao marketing da subordinação de classe dos Conservadores; e como seria a cara de uma “nova política” baseada na participação popular na tomada de decisões. Isso ainda está em disputa, e todo o projeto pode muito bem acabar naufragando terrivelmente, deixando a esquerda totalmente derrotada por muitos anos por vir. Certamente, toda a mídia e o establishment do partido deixaram claro que estão dispostos a fazer quase qualquer coisa para reverter os resultados da eleição de liderança. Mas três coisas dão razão para a esperança.

Primeiro, se um realinhamento geral da política britânica realmente estivesse acontecendo, provavelmente se pareceria com isso. O papel do Banco da Inglaterra é crucial aqui: eles sempre se viram como meio que seguindo à frente dos outros. Entre meados e o final dos anos setenta, o abraço repentino e inesperado do Banco da Inglaterra de modelos econômicos monetaristas abriu o caminho para a revolução thatcherista; e Thatcher, devemos lembrar, era considerada uma insurgente ultrajante dentro de seu próprio partido na época, como Corbyn é considerado agora. Portanto, é possível que um estranho paralelismo estranho esteja em operação.

Em segundo lugar, a nova liderança Trabalhista tem uma rota bastante clara para o poder. A economia atual do Reino Unido está baseada em uma bolha imobiliária mantida artificialmente, e as bolhas invariavelmente estouram. Os Trabalhistas têm quatro anos antes das próximas eleições. A chance de não haver algum tipo de crise econômica nesses quatro anos é infinitesimal. Para os Corbynistas, a tarefa é dupla: primeiro, criar uma narrativa sobre os perigos da dívida privada da mesma maneira que os Tories fizeram sobre a dívida pública, para que os Conservadores sejam firmemente marcados com a culpa (mais fácil, talvez – ou talvez não – porque essa narrativa realmente será verdadeira); e segundo, e mais difícil, permanecer na liderança do Partido Trabalhista, resistindo a qualquer golpe interno dos Blairistas, até que a crise inevitável ocorra.

Finalmente, o próprio fato de que Corbyn tenha algo de tabula rasa inspirou uma investida de visões em disputa, uma concatenação ardente de novos modelos econômicos e políticos disputando por atenção, o que tem começado a revelar quão ricas e diversas podem ser, na verdade, as visões de futuro possível na esquerda. Não é apenas a chegada previsível dos luminares da economia para compor a corte do novo chanceler à sombra – todo mundo, de Joseph Stiglitz e Ann Pettifor, passando por Yanis Varoufakis e Thomas Piketty. Idéias verdadeiramente radicais estão sendo debatidas e propostas. A esquerda deveria perseguir o “aceleracionismo”, forçando as contradições do capitalismo para a frente com um rápido crescimento e desenvolvimento, ou deveria visar uma mudança total de valores e um decrescimento radical? Ou deveríamos avançar na direção do que a Novara, a iniciativa de mídia que emergiu do movimento estudantil de 2010, começou a se referir alegremente como FALC – ou “Fully Automated Luxury Communism” [“Comunismo Luxuriante Totalmente Automatizado”] – encorajando tecnologias como a impressão 3D para buscar um mundo de replicadores no estilo Star Trek onde tudo é grátis? O Banco Central deveria implantar “flexibilização quantitativa para as pessoas”, ou uma política de Renda Cidadã Universal, ou deveríamos seguir o caminho da Teoria Monetária Moderna e de garantias universais de emprego?

Tudo isso está sendo realizado com o conhecimento de que os paradigmas econômicos existentes – mesmo na medida em que não estejam simplesmente sendo mobilizados para justificar políticas projetadas com propósitos puramente políticos – não são mais relevantes para os problemas que a humanidade enfrenta na realidade, na Grã-Bretanha ou em qualquer outro lugar. É verdade, a maioria dos economistas da linha dominante são capazes de ver através de absurdos óbvios, como as justificativas propostas para a austeridade fiscal. Mas a disciplina ainda está tentando resolver o que é essencialmente um problema do século XIX: como alocar recursos escassos de forma a otimizar a produtividade para atender a crescente demanda dos consumidores.

Os problemas do século XXI provavelmente serão totalmente diferentes: como, em um mundo de produtividade potencialmente disparando até o céu e de demanda decrescente por mão-de-obra, será possível manter uma distribuição equitativa sem, ao mesmo tempo, destruir a Terra? O Reino Unido poderia ser o pioneiro para uma tal nova configuração econômica? A nova liderança Trabalhista está fazendo os movimentos iniciais: exigindo novos modelos econômicos (“socialismo com um iPad“) e buscando aliados potenciais na indústria de alta tecnologia. Se realmente estamos caminhando para um futuro de produção descentralizada, em pequena escala, de alta tecnologia e robotizada, é bem possível que as tradições peculiares do Reino Unido da pequena empresa e da ciência amadora – o que nunca a tornou particularmente suscetível aos gigantes conglomerados burocratizados que se desenvolveram tão bem nos Estados Unidos e na Alemanha, nas suas manifestações capitalistas ou socialistas – pode se revelar incomumente apta. É tudo uma aposta colossal. Mas é assim que são as mudanças históricas.

30 de março de 2016

Isto é luta de classes?

Mike Whitney

counterpunch: Tells the Facts and Names the Names

Há uma conspiração para impedir que salários subam, ou se trata da boa e velha luta de classes?

Examinem esses gráficos, de um recente relatório do Deutsche Bank e veja o que lhes parece:

(Feeling Underpaid, Zero Hedge)

Ora, o que já se sabe? Por toda parte o cartel global de bancos tem seus tentáculos, e os salários ou andam de lado ou caem.

"Coincidência", você diz?

De modo algum, eu digo. Ou várias cabeças de estado e respectivos bancos centrais sentam-se para coordenar ações, ou as elites ricas assumiram secretamente as alavancas de comando do poder e impuseram seu dogma neoliberal num momento em que ninguém estava vendo. De um modo ou de outro, é fácil ver os efeitos, sobre os salários, de uma "extraordinária acumulação monetária". Absolutamente nada se faz, razão pela qual a inflação permaneceu controlada. Porque, se os salários não aumentam, a inflação permanece baixa, o que dá aos banqueiros centrais o pretexto perfeito para lançar mais um de seus programas QE de trilhão de dólares que cada vez mais enriquecem os amigos escroques que os banqueiros mantêm em Wall Street.

Oba! Mais dinheiro grátis para Wall Street e a classe dos investidores!

Viram como funciona?

E o que acontece com a produtividade? Por que os salários não estão subindo junto com a produtividade?

(What Killed the Middle Class, Zero Hedge)

Parece bastante óbvio que se os salários não sobem com a produtividade, nesse caso o consumo pessoal cai e a economia afundará. Se for esse o caso, então impulsionar os salários deveria ser prioridade máxima para os políticos e governantes democráticos, certo?

Mas não é. A prioridade para a maioria dos políticos é fazer o que mandam seus patrões do setor privado, que pagam pelas campanhas deles e cuidam para que tenham um emprego confortável, quando afinal tiverem completado seus anos de serviço servil. Não é assim que em geral funciona, para esse tipo de chamados "servidores públicos". Eles não fazem as leis que são mandados fazer pelos seus eleitores gatos-gordos? E em seguida, não passam a contar os dias até a próxima recompensa também gorda? Claro que sim.

A questão é que essa política econômica não é pensada para melhorar as condições de vida do povo trabalhador comum. Sequer é pensada para fortalecer a economia. Se fosse assim, haveria algum esforço para contratar mais empregados para empresas públicas, para estimular a atividade econômica, promover o investimento em negócios e fortalecer o crescimento. Seria o remédio óbvio contra a estagnação da economia que se vê hoje, certo? Pois o caso é que Obama fez exatamente o oposto de tudo isso. Cortou o déficit em cerca de três trilhões inteiros de dólares e despachou mais de 500 mil servidores do estado para casa e para as chinelas cor-de-rosa. Resultado, a economia foi contida e já anda à velocidade cortada ao meio há quase uma década. Obrigado por nada, Barry. Não deixe a porta empurrá-lo você para fora.

Agora confiram o gráfico de "destruição de empregos pelo governo", no blog Streetlight:

(Government Job Destruction, Streetlight blog)

E a coisa não fica por aí, porque todo esse infindável apertar de cintos reduziu a demanda de consumo, que já forçou as empresas a reduzir a quantidade de capital que reinvestem nos respectivos negócios. Quer dizer: assim como os salários foram comprimidos em todos os países desenvolvidos e em todo o mundo, também os investimentos foram furiosamente reduzidos praticamente por todo o mundo, eliminando outra fonte crítica de estímulos. Confiram esse clip do Daily Reckoning:

"A divulgação ontem de valores relativos às despesas de capital nacional (capex) foi bem triste de ver. Nos três meses até setembro, o investimento em negócios caiu quase inacreditáveis 9,2%. ... 
À luz dos gastos domésticos, é boa a oportunidade para refletir sobre o que está acontecendo com os Gastos de Capital (capex, de Capital Expenditures) pelo mundo. Assim como a Austrália, todo o mundo enfrenta um grande problema de investimento. E não se vê nem sinal de que as coisas melhorem, não, no curto ou no médio prazo. ... 
Fora dos EUA, é como se todo o mundo decidisse renunciar de vez ao investimento. O investimento em negócios caiu 6% nos EUA; acima de 20% na Europa; 15% na China e Japão. Para o resto do mundo, Austrália inclusive, o capex caiu impressionantes 28%" (Australia’s Capex Collapse is Part of a Global Disease, Daily Reckoning)

Ok, então as empresas não estão investindo em seus negócios porque os salários estão baixos e a demanda está fraca. Isso é realmente um grande negócio?

Sim, é um grande negócio, porque há tantas e tantas fontes de gasto na economia, e quando empresas, governos e consumidores reduzem seus gastos, ao mesmo tempo, a economia retarda a um rastejamento e permanece assim até que algo mude. Infelizmente, nada mudou e é por isso que o PIB ainda está oscilando em torno de 2 por cento oito anos após o Lehman Brothers explodir.

Mas por que? Será que os formuladores de políticas de repente esqueceram como a economia funciona ou o que alavancas fiscal puxar para o arranque do crescimento?

Claro que não. Todos eles simplesmente se recusam a fazer o que tem de ser feito. Em vez de tentar avançar, o Congresso usou a crise para delegar todo o controle do sistema aos bancos centrais e aos seus corretores e agentes operantes no estado profundo. Agora, para qualquer lado que você olhe, só se veem políticos sentados esfregando as mãos, enquanto o BC dita a política. É uma loucura. É como uma mudança de regime, sem todo o sangue.

E como é que este golpe de Estado afeta o povo trabalhador?

Tem sido terrível. Enquanto o preço das ações quase triplicou e os especuladores passaram a mão em trilhões, a renda familiar média caiu mais de 7,2%, rendas despencam, salários são achatados cada vez mais e as pessoas mal se seguram pendurados, agarrados aos próprios cabelos.

Você sabia que 85 por cento dos americanos dizem que é mais difícil manter um padrão de vida de classe média hoje do que era há 10 anos atrás? (Pew Research Center) Ou que "77 por cento de todos os americanos vivem de salário em salário, pelo menos por algum tempo", ou que "um em cada quatro trabalhadores nos EUA levam para casa salários iguais ou abaixo do nível de pobreza federal", ou que "47 milhões de americanos vivem de cupons de alimentos", ou que "40,4% da força de trabalho dos EUA é hoje composta por trabalhadores temporários", principalmente trabalhadores contratados e de trabalho a tempo parcial?

Seja como for, vocês entenderam o quadro geral. Pagar as contas e chegar ao fim do mês é a cada dia mais e mais difícil. Mas por que elites ricas apoiariam políticas tão obviamente destrutivas para os trabalhadores e para a economia como um todo?

Por dinheiro, é por isso. Muito dinheiro. Confira:

"Entre 2009 e 2012, segundo dados atualizados de Emmanuel Saez (...) o 1% viu a própria renda real aumentar 34,7%, enquanto os 99% só a viram crescer 0,8%, o que significa que o 1% capturou 91% de toda a renda real ... 
A renda do trabalho continua sendo arrochada. Os salários cresceram apenas 1,7 por cento no ano passado, o ritmo mais lento desde pelo menos a década de 1960. Não porque os trabalhadores americanos estejam ficando frouxos. Nessa mesma década inteira de salários estagnados ou encolhendo, a produtividade do trabalhador americano aumentou quase 25%. 
Ao mesmo tempo, o mercado de ações vem atingindo níveis recordes, o que na maior parte ajuda os ricos que têm muito mais probabilidade de possuir ações, agravando a desigualdade de renda. Os lucros das empresas também atingiram recordes e aumentaram os salários dos executivos, sem escorrer para os trabalhadores." (The 1 Percent Have Gotten All The Income Gains From The Recovery, Think Progress)

Mas pode ter um grande engano, não poderia? Quer dizer, talvez os bancos centrais realmente não sabiam que as suas políticas iriam funcionar da maneira que funcionaram.

Fala sério. Você realmente acha que esta infindável cachoeira de dinheiro para cima até os magnatas super-ricos ("95% dos ganhos de renda entre 2009-2012 foi para o top 1% da população") é um erro, que é apenas a consequência não intencional de bem-intencionadas políticas monetárias que foram projetadas para estimular empréstimos e reforçar o crescimento, mas, por puro acaso, saiu pela culatra e desencadeou a maior redistribuição de riqueza para vorazes plutocratas não fazem nada na história?

É isso que você acha?

Você não precisa ser Leon Trotsky para descobrir o que realmente está acontecendo aqui. Heck, mesmo Warren Buffett acertou em cheio quando disse: "Não há guerra de classe, tudo bem, mas é a minha classe, a classe rica, que esta a... ganhar."

Tens razão, Warren.

Revelado: como a Associated Press colaborou com os nazistas

Historiador alemão mostra como a agência de notícias manteve o acesso na década de 1930 com a promessa de não pôr em causa a força de regime de Hitler

Philip Oltermann

The Guardian

O livreto nazista Os judeus nos EUA usou uma fotografia da Associated Press do prefeito de Nova York, Fiorello LaGuardia

Tradução / A agência de notícias Associated Press participou, com uma colaboração formal, do regime de Hitler na década de 1930, fornecendo aos jornais americanos material diretamente produzido e selecionado pelo Ministério de Propaganda nazista. Os arquivos foram descobertos e revelados por um historiador alemão.

Quando o partido nazista tomou o poder na Alemanha em 1933, um de seus objetivos era o de cooptar não só a imprensa nacional, como também a internacional. Um ano depois, o jornal The Guardian já havia sido proibido e em 1935 mesmo as maiores agências de notícias britânicas e americanas, como a Keystone e a Wide World Photos, foram obrigadas a fechar seus escritórios depois de serem atacadas por empregar jornalistas judeus.

A Associated Press, que se descreveu a si própria como os “fuzileiros navais do jornalismo” (“sempre a primeira a entrar e a última a sair”) foi a única agência de notícias ocidental que ficou aberta na Alemanha de Hitler e continuou funcionando até a entrada dos Estados Unidos na guerra, em 1941. Encontrou-se, então, na situação presumivelmente vantajosa de ser o principal canal para reportagens e fotografias fora do Estado totalitário.

Em um artigo publicado pelo jornal acadêmico Estudos de História Contemporânea, a historiadora Harriet Scharnberg mostra que a Associated Press (AP), só conseguiu conservar seu acesso às informações participando de uma colaboração mutuamente benéfica com a regime nazista.

A agência, com sede em Nova York, abriu mão do controle de sua produção ao assinar o chamado Schriftleitergesetz (lei do editor), prometendo não publicar qualquer tipo de material “destinado a enfraquecer a força do Reich no exterior e em seu país”. Essa lei exigia que a AP contratasse repórteres que também trabalhavam para a divisão de propaganda do partido nazista. Um dos quatro fotógrafos empregados pela Associated Press na década de 1930, Franz Roth, era membro da divisão de propaganda da unidade paramilitar das SS e suas fotografias eram pessoalmente escolhidas por Hitler. A AP retirou as fotos de Roth de seu website desde que Harriet Scharnberg publicou suas descobertas, embora miniaturas das imagens continuem visíveis devido a “problemas de software”.

A AP também permitiu que o regime nazista utilizasse seus arquivos de fotografias para sua venenosa literatura de propaganda antissemita. Entre as publicações ilustradas com fotografias da AP estão o panfleto Der Untermensch (“O subumano”) e o livreto Jie Juden in USA [Os judeus nos EUA], que pretendiam mostrar a decadência dos judeus americanos – o último, com uma foto do prefeito de Nova York, Fiorello LaGuardia, comendo com as mãos.

Vindo à tona pouco antes do 170º aniversário da Associated Press, que ocorre em maio, as informações recentemente descobertas levantam não só questões difíceis sobre o papel desempenhado pela AP ao permitir que a Alemanha nazista escondesse sua verdadeira cara durante os primeiros anos de Hitler no poder, mas também sobre as relações da agência com regimes totalitários contemporâneos.

Embora o acordo feito pela AP tenha tornado possível aos países ocidentais ter uma ideia da sociedade repressiva que, de outra forma, permaneceria totalmente oculta – o que permitiu que o correspondente em Berlim Louis P. Lochner ganhasse um prêmio Pulitzer em 1939 –, o acordo também permitiu que os nazistas encobrissem parte de seus crimes. Harriet Scharnberg, que é historiadora e trabalha na Universidade Martin Luther da cidade de Halle, argumenta que a colaboração da AP com a regime de Hitler permitiu que os nazistas “descrevessem uma guerra de extermínio como uma guerra convencional”.

Em junho de 1941, tropas nazistas invadiram a cidade de Lviv, na Ucrânia ocidental. Ao depararem com provas de matança em massa promovida por tropas soviéticas, as forças de ocupação alemãs organizaram pogroms de “vingança” contra a população judaica da cidade. As fotografias de Franz Roth de corpos mortos dentro das prisões de Lviv foram selecionadas por ordem pessoal de Hitler e distribuídas à imprensa americana via Associated Press. “Ao invés de imprimir fotografias dos pogroms de Lviv, que duraram vários dias e tiveram milhares de judeus como vítimas, a imprensa americana só recebeu fotografias mostrando as vítimas da polícia soviética e os ‘selvagens’ criminosos de guerra do Exército Vermelho”, disse Harriet Scharnberg ao The Guardian. “Nesse contexto, é justo dizer que essas fotos desempenharam um papel ao disfarçar o verdadeiro caráter da guerra dirigida pelos alemães”, disse a historiadora. “Os acontecimentos que se tornaram visíveis e os que permaneceram invisíveis no fornecimento de fotos da AP obedeciam aos interesses alemães e à narrativa da guerra alemã.”

Ao lhe serem apresentadas essas alegações, a Associated Press disse, numa declaração, que o relatório de Harriet Scharnberg “descreve indivíduos e suas atividades, antes e durante a guerra, que eram desconhecidos de AP” e que a agência está neste momento revendo documentos, em e para além de seus arquivos, “para um conhecimento mais profundo do período”.

Um porta-voz da AP disse ao The Guardian: “Continuamos a pesquisar o assunto, mas a AP descarta qualquer ideia de que tenha ‘colaborado’ deliberadamente com o regime nazista. Uma descrição correta é a de que a AP e outras organizações jornalísticas estrangeiras foram submetidas a uma intensa pressão por parte do regime nazista desde o ano em que Hitler chegou ao poder, 1932, até a expulsão da AP da Alemanha, em 1941. A direção de AP resistiu à pressão e trabalhou para coletar informações corretas, vitais e objetivas durante um período negro e perigoso.”

As novas descobertas poderiam não ter tido senão o interesse dos historiadores, porém esta não foi a primeira vez que se examinam as relações de AP com regimes totalitários. Desde janeiro de 2012, quando a Associated Press foi a primeira agência de notícias ocidental a abrir uma filial na Coreia do Norte, a produção do escritório de Pyongyang tem sido constantemente questionada no que se refere à neutralidade.

Em 2014, o website NK News, com sede em Washington, disse que executivos do alto escalão de AP tinham, em 2011, “concordado em distribuir propaganda norte-coreana produzida pelo Estado em nome de AP” de forma a garantir o acesso ao mercado, altamente lucrativo, de distribuir material fotográfico para fora do Estado totalitário. A República Popular Democrática da Coreia é o penúltimo país no atual Índice de Liberdade de Imprensa Mundial.

O rascunho de um acordo que vazou mostrava que a Associated Press aparentemente estava disposta a deixar a Agência Central de Notícias Coreana (KCNA, na sigla em inglês) escolher um redator e um fotógrafo de sua unidade de agitação e propaganda para trabalhar em seu escritório. A AP disse ao The Guardian que “seria pretensioso pensar que ‘o rascunho’ tivesse qualquer importância”, mas se recusou a dar qualquer outra informação sobre o acordo final.

Acontecimentos importantes, divulgados pela mídia internacional, não tiveram cobertura por parte da filial da Associated Press em Pyongyang, como o desaparecimento público do líder norte-coreano Kim Jong-un em setembro e outubro de 2014, a interferência em um vídeo da Sony Entertainment em novembro de 2014 que teria sido orquestrada por uma agência de guerra cibernética norte-coreana e reportagens sobre a fome na província de Hwanghae do Sul em 2012.

Quando a agência de notícias francesa Agence France-Presse assinou um acordo para abrir uma filial em Pyongyang, em janeiro deste ano, a ex-chefe da filial da Associated Press em Pyongyang, Jean Lee, comentou que isso era um sinal da “crescente confiança do regime em sua capacidade de manter jornalistas estrangeiros sob controle”.

O porta-voz da Associated Press negou que a agência se tenha submetido à censura. “Nós não enviamos nossas matérias à Agência Central de Notícias Norte-Coreana ou a qualquer outra autoridade governamental antes de as publicarmos. Paralelamente, as autoridades têm a liberdade de conceder ou recusar acesso e entrevistas.”

Nate Thayer, o ex-correspondente da Associated Press no Camboja que divulgou o vazamento do rascunho do acordo, declarou ao The Guardian: “Parece que a AP aprendeu muito pouco com sua própria história. Reivindicar, como faz a agência, que a Coreia do Norte não controla sua produção é ridículo. É evidente que há o argumento de que qualquer acesso a segredos de Estado é importante. Mas, no final do dia, o que importa é se você diz a seus leitores que o que você está publicando tem como base fontes independentes e neutras.”

29 de março de 2016

A estrada de Damasco, ruínas, sangue e lágrimas

Michel Raimbaud

Afrique Asie

Tradução / Après cinq ans de guerre totale contre la Syrie, le pays a plié sans rompre. Ceux qui avaient parié sur sa reddition en auront été pour leurs frais.

Conçue dans les années 1980 et appliquée sans faiblir depuis le 11-Septembre par les néoconservateurs américains pour reconfigurer la région en plusieurs micro-États faibles et dépendants, la théorie du chaos donne aujourd’hui la pleine mesure du désastre. Retour sur des décennies de carnage en Irak, Libye et Syrie. Un chaos qui s’étend désormais à ses initiateurs, les États-Unis et leurs alliés européens et moyen-orientaux.

O conflito da Síria entrou no sexto ano. Qual será o seu resultado, quando se defrontam o campo da guerra a qualquer preço, os da paz custe o que custar e os partidários duma solução justa e moral ? Ainda hoje há ingênuos que pretendem convencer-se e convencer a opinião pública de que haveria opositores moderados entre os terroristas, « democratas » no meio dos dois mil grupos jihadistas recenseados, nobres patriotas sem mácula entre os mercenários de uma centena de nacionalidades que semeiam a morte e a destruição na Síria, no Iraque, na Líbia e noutros locais. Nos meios que se encantaram com as « primaveras » cor de jasmim ou de malva, o desnorte perante os impasses do passado condicional leva à evocação infindável e comovida dos pioneiros da ciber-revolução do inverno de 2010-2011, mas a ignorar o caos generalizado que vai conquistando o conjunto do Grande Oriente Médio país atrás de país. Não é que desagrade aos ideólogos neo-conservadores (neo-cons) americanos que, desde os anos 90, excitados pelo triunfo sobre o Eixo do Mal comunista, resumiam à atenção dos europeus a sua ideia sobre a divisão de tarefas: "Enquanto vocês analisam e comentam o passado, nós fazemos História..."

A fórmula é cínica, mas bem vista : enquanto nos nossos institutos e outros « tanques de ideias » os intelectuais de França e Navarra filosofam sobre as primaveras árabes, vendo aí uma sucessão de encontros falhados com a democracia, os seus colegas dos think tanks anglo-americanos abastecem de argumentos, ideias e projetos o empreendimento de desconstrução e deslocação lançado pelo Império atlântico sobre o mundo árabe e muçulmano, desde que o desaparecimento da URSS deixou campo livre ao Eixo do Bem.

Barack Obama, um neo-conservador que não se conhece

Barack Obama iniciou a sua última caminhada. O seu « testamento », publicado nestes últimos dias sob a forma de entrevistas com o jornalista americano Jeffrey Goldberg, faz grande efeito designadamente com as suas frasezinhas. Erdogan é um « falhado », um « tirano » ou um « autoritário » (à escolha do tradutor). A Arábia Saudita é um aliado ? Obama responde com a pirueta «É complicado », antes de lembrar que os terroristas do 11 de setembro são « sauditas não iranianos » e que um « país moderno não pode avançar quando oprime metade da sua população ». Provocação máxima : « A Arábia Saudita e o Irã devem dividir os papéis no Oriente Médio e instaurar entre si uma paz fria. » No fundo, Obama parece não ter grande estima pelos seus « aliados » reis do petróleo e a sua primeira preocupação não parece ser a democracia : sonha apenas com « autocratas inteligentes ».

Apesar destes pormenores picantes, o discurso do Nobel da paz não é essencialmente diferente do dos seus antecessores, republicanos ou democratas... O historiador canadense Michael Jabara Carley, que ensina na universidade de Montreal, perguntava-se prosaicamente há pouco tempo se ainda haverá um piloto na Casa Branca. Avançava três hipóteses suscetíveis de esclarecer a ambígua abordagem de Obama em matéria de política estrangeira : deve-se imputá-la à fraqueza de quem se vai embora face aos governos que ficam, a uma certa incompetência ou a uma postura maquiavélica que consiste em fazer a guerra sem o parecer?

Apresentado como o homem mais poderoso do mundo, Obama não é o homem mais poderoso dos Estados Unidos. Reconhece-se-lhe grande inteligência e inspira simpatia mesmo àqueles que constatam as suas fraquezas e insuficiências. Contudo, no « testamento », estas últimas aparecem diluídas e misturadas nos meandros de uma visão estratégica à qual nenhum presidente consegue escapar, democrata ou republicano, visto que se trata do « poder profundo » americano, desde há mais de trinta anos sob a batuta neo-conservadora. Esta visão remete-nos para a « lógica do caos », maquiavélico por definição.

O presidente americano Obama está desiludido com o seu aliado turco Erdogan, que trata de autocrata numa entrevista à revista americana « The Atlantic ».

Esta lógica dá conta do hipócrita jogo duplo que muitas vezes se censura a Washington. Barack Obama faz seus todos os princípios fundamentais dos seus antecessores. A América é portanto o melhor país do mundo e o seu papel é por definição benéfico. Constata o caos que reina em todos os estados onde quis impor a sua democracia de mercado, mas ignora arrogantemente que está na origem desse caos, deplorando apenas que este « ensombre o balanço do trabalho desenvolvido pela América » e a « desvie das suas outras prioridades ». Na Líbia, os Estados Unidos planificaram cuidadosamente a intervenção militar e financiaram a formação da coligação, mas o país é « uma catástrofe », espanta-se Obama, julgando contudo « ter impedido uma guerra civil prolongada e sangrenta » (sic). Resignado perante o caos, por exemplo na Líbia e na Síria, consola-se afirmando que o preço da ação (intervenção direta) seria mais elevado do que o preço da inação (a recusa de intervir que lhe é censurada). É o raciocínio próprio dos entusiastas do « caos criador » : é mais fácil manter o domínio de uma situação caótica criada intencionalmente do que construir a todo o custo uma ordem « americana » improvável numa zona extensa, longínqua e estrangeira.

Com efeito, inspirada pelo filósofo judeu alemão Leo Strauss (1899-1973), a teoria em questão assenta num postulado : « É pela destruição de toda a resistência e não pela construção que o poder se exerce », ou « é mergulhando as massas (os países vulneráveis) no caos que as elites (os países dominantes) podem aspirar à estabilidade da sua posição ». Léo Strauss especifica : « É nesta violência que os interesses imperiais dos Estados-Unidos se confundem com os do estado judaico. » Estes princípios serão adotados à letra pelos estrategistas que, produto histórico de uma simbiose entre sionismo e calvinismo, irão dar à luz o pensamento neo-conservador. A doutrina toma corpo no início dos anos 80, quando o artista do neo-liberalismo selvagem, o cowboy Ronald Reagan (no poder entre 1981 e 1989), põe termo ao degelo para regressar à tensão (os soviéticos no Afeganistão) e à « dupla tensão » (o Iraque de Saddam Hussein contra o Irã de Khomeiny). Os neo-cons, em muitos casos com dupla nacionalidade israelo-americana, irão desenvolver os seus enviesados planos com vista à remodelação do Grande Oriente Médio de acordo com as obsessões de Washington e de Tel-Aviv : o controle das zonas ricas em hidrocarbonetos supõe uma redefinição das fronteiras, dos Estados e dos regimes políticos. O plano Yinon, tornado público em 1982, preparado por um estrategista israelita para o governo do Likud de Menahem Begin, definiu assim « a estratégia para Israel nos anos 80 ». Propõe sem ambiguidades « desconstruir todos os Estados árabes existentes e remodelar o conjunto da região em pequenas unidades frágeis, maleáveis e incapazes de afrontar os israelenses ».

O complemento operacional do caos criador é a « teoria do louco » de Nixon, preconizando que a América seja dirigida por « alucinados de comportamento imprevisível, dispondo de uma enorme capacidade de destruição, a fim de criar ou reforçar o temor dos adversários ». Obama refere-se a esta teoria sem nela ver malícia...

Desde a implosão da URSS e do bloco comunista (1989-1991), os Estados Unidos, que « conservam a responsabilidade de proteger o mundo », têm mais do que nunca uma obsessão (Brzezinski em O Grande Tabuleiro, 1997) : abafar a emergência de qualquer potência suscetível de contrariar as suas ambições, conforme a « doutrina do domínio em espetro total » elaborada pelo Pentágono. Esta última incarna o sonho dos neo-cons e seus émulos infiltrados nos arcanos dos « estados profundos » do universo ocidental : os grandes e pequenos da comunidade internacional, bancos, empresas trans-nacionais ou ONG’s.

Inspirando-se da teoria do caos e aplicada de acordo com a teoria do louco, a política imperial do momento unipolar americano (a partir de 1991) será baseada nos seguintes preceitos : fazer seja o que fôr, praticar um « dois pesos, duas medidas » sistemático, pregar moral e agir de modo imoral, usar um discurso irracional, violar os princípios do direito internacional e contornar as decisões do Conselho de Segurança das Nações Unidas quando elas incomodarem. Segundo Noam Chomski, « este desprezo pela primazia do direito está profundamente enraizado na cultura e nas práticas americanas ».

O resultado não será triste. A lógica do caos não tem a ver com o direito, conforme se suspeitava, mas sim com uma opção estratégica ditada pela geopolítica. Para ela, o planeta está dividido em três zonas concêntricas : ao centro, a « heartland » euro-asiática (China, Rússia) que detém as chaves de domínio do mundo ; na periferia, as terras « offshore » onde estão as bases dos impérios do mar ambicionando a hegemonia ; entre os dois, uma « rimland » que em grande parte é ocupada por uma « cintura verde muçulmana » e constitui um espaço rico e estratégico que é preciso controlar. O cocktail das duas teorias, a do caos e a do louco, vai-se verificar explosivo para os povos desta « muslim green belt » (cintura verde muçulmana).

Numa selva em que tudo é mentira, pretender combater movimentos terroristas para cuja criação se contribuíu (Al-Qaeda, Daech) e a quem sem grandes rebuços se dá apoio não passa de simples pecadilho. Que dizer então da iniquidade das sanções, arma favorita dos ocidentais com a sua pretensão de punir os autores dos « massacres » e os « regimes », mas na realidade visando humilhar, esfomear, desesperar as populações, roubando dinheiro do seu país e, coisa que não é pouca, dispensando-se de respeitar os compromissos assumidos ?

Sanções: arma de destruição massiva ou golpe de misericórdia 

Ainda que a eficácia testada das defesas russo-sírias tenha pesado sem dúvida junto com as reservas do Congresso na sua decisão, Obama evitou o pior em agosto de 2013 ao renunciar a lançar ataques punitivos (?) sobre a Síria, a seguir à questão das armas químicas. De fato, esta decisão de "romper com as regras do jogo" parece ter sido inspirada, não por uma lógica de justiça, mas pela vontade de afirmar o seu poder face aos estados-maiores, aos serviços e aos "think tanks". Estes são influenciados e financiados pela Arábia e por outros países do Oriente Médio – segundo Goldberg, isto é bem sabido na Casa Branca – e a maior parte trabalha para os seus patrões árabes e pró-israelenses. C.Q.D.... Nada no entanto que possa incitar os povos do Grande Oriente Médio a contradizer Paul Craig Roberts, antigo secretário adjunto do Tesouro americano, quando escreve no seu estilo corrosivo (blog da resistência, 12 janeiro 2016): "Único entre todos os países da Terra, o regime dos EUA é a organização criminosa mais acabada da história humana."

Ao comentar os acontecimentos dos anos passados, Ahmed Ben Saada, investigador e politólogo argelino instalado no Canadá, lembra no seu livro Arabesco$ que "não geraram mais do que caos, morte, ódio, exílio e desolação [...]". O levantamento que faz de um recente balanço sobre "as primaveras árabes" faz estremecer: 1 milhão e meio de mortos e feridos (número a rever em alta), mais de 15 milhões de refugiados e deslocados (de fato, 18 ou 19 milhões incluindo as guerras do Iraque). Teriam custado ao conjunto dos países árabes perdas brutas de 833 bilhões de dólares, dos quais mais de metade em infraestruturas diversas e em sítios arqueológicos ou históricos. Os países da "zona África do Norte - Oriente Médio (ANMO) teriam perdido mais de 100 milhões de turistas". Juntemos a estas devastações faraônicas financiadas pelos estados petrolíferos a golpes de dezenas de bilhões de dólares outras centenas "congeladas" pelas sanções, quer dizer, pura e simplesmente roubados. Só para a Síria, estimativas recentes avaliam em 300 bilhões o custo das destruições e pilhagens e há quem avance o valor de 1 bilhão para os danos e juros que poderia ser pedidos por esse país (cf. infra).

A « democratização » americana inclui a instalação em residência do Daech. É evidente que esta devastação incomensurável – a pior das catástrofes que podia abater-se sobre os árabes e muçulmanos – não poderia ter sido levada a cabo sem a colaboração dos aliados do Império atlântico no Médio-Oriente, demasiado conhecidos para que seja necessário mencioná-los de novo. Porém, neste início da época 2016, não se trata apenas de fazer o balanço das « primaveras árabes ». É um quarto de século de « democratização » americana, à força de bombardeamentos humanitários, massacres, efeitos colaterais e estratégia do caos aquilo que nos contempla do alto das pirâmides de ruínas do Grande Médio-Oriente. Desordem e anarquia instalaram-se em numerosos países como dados permanentes e as visões à Yinon já não parecem delirantes, desenhando-se progressivamente uma nova geografia de acordo com as intenções dos estrategas neo-conservadores, americanos ou israelitas. Esta cartografia, evocada pelos políticos, integra a instalação em residência do Daech (organização do Estado islãmico). Enfim – e não é a menor das alterações na paisagem geopolítica do Grande Médio-Oriente – perfila-se rapidamente uma evolução antes ou jamais impensável na confusa atmosfera das « revoluções com aspas » : durante muito tempo discreto, mas vigilante e omnipresente nos meios e grupos de pressão dos « opositores armados », o Estado hebreu já não esconde a sua cumplicidade com a Arábia wahhabita e as monarquias do Golfo. A ideia de uma normalização generalizada entre Tel-Aviv e a maioria das capitais árabes faz o seu caminho. Esse é certamente um dos êxitos mais gritantes da estratégia neo-conservadora e a mais humilhante para os árabes. A recapitulação sumária à qual nos limitaremos aqui respeita a três países em que o caos se mostrou particularmente inovador e criador : o Iraque, que não pára de se partir e contar os mortos desde há mais de um quarto de século, a Líbia destruída em nove meses e tornada tão plural que agora encontramos várias, e a Síria que paga desde há anos o custo de um encarniçamento sádico. De entre os pontos comuns, notam-se estes: regimes republicanos sem charia, interesses de petróleo e gás em confronto, três « politicídios » incluindo a destruição de instituições, infrastruturas, economias e exércitos, derrube dos regimes e instalação de um caos permanente marcado por tentativas de desmontagem em entidades com base étnica ou religiosa, e implantação do Daesh numa parte dos territórios destes três estados. Um empreendimento bem sucedido : a destruição do Estado-nação iraquiano Em agosto de 1990, Saddam Hussein, acabado de sair de uma longa guerra contra o Irão e « encorajado » por uma ambiguidade de linguagem da embaixadora americana, invadiu o Kuwait que recusa « pagar a sua dívida » a Bagdad. Washington e Londres decretam que o Iraque ao ter violado o direito internacional é um « estado pária ». A URSS já não é mais do que um estado em perdição e Saddam vai encontrar-se sozinho, diplomática e militarmente, face à América triunfante e à sua « coligação ». O Iraque será o primeiro objetivo da vindicta do eixo do Bem, iniciando – coisa que os iraquianos ainda não sabem – um calvário que dura há vinte e cinco anos. Em janeiro de 1991, a operação Tempestade do Deserto é lançada sob mandato da ONU pelos EUA com a colaboração de uma grande « coligação » arábico-ocidental, destinada a punir a agressão contra o Kuwait e a sua anexação. Três meses mais tarde, as hostilidades terminaram. O « castigo » do Iraque apenas começou. A década 1991-2001 será marcada por um encarniçamento maníaco visando abafar o país e quebrar o seu povo à força de embargos, bloqueios e sanções. Tratando-se de um « estado pária », a busca de armas de destruição massiva vai substituir as violações do direito internacional. As exigências de Washington e do Conselho de Segurança vão multiplicar as provocações que procuram limitar a soberania do estado iraquiano através da criação de zonas de exclusão aérea (em nome da responsabilidade por proteger) e das inspeções da UNSCOM. É também a vergonhosa operação « petróleo contra alimentos », procurando humilhar e esfomear as populações. Logo após os atentados de 11 de setembro de 2001, os reforçados neo-conservadores vão convencer Bush junior, que diz querer « vingar o papá » (sic), a lançar uma nova agressão para acabar com Saddam Hussein, se necessário com a cobertura legal de uma resolução do Conselho de Segurança. Os relatórios de peritos de espionagem, dirigidos à Casa Branca depois do escandaloso discurso de Colin Powell no Conselho de Segurança em 5 de fevereiro de 2003, foram ignorados. As « minutas de Downing Street » dirigidas pelo chefe do Serviço de Informações (depois de contacto com o seu colega da CIA) informam Tony Blair em julho de 2003 que George Bush decidiu desembaraçar-se de Saddam Hussein através de uma ação militar. Esta será justificada pelas armas de destruição massiva, apesar dos sucessivos anos de inspeção, e pelo terrorismo (a cooperação com a Al-Qaeda, criada no Afeganistão nos anos 80 com a colaboração dos Estados-Unidos, dos paquistaneses e dos sauditas para combaterem os soviéticos). Em março de 2003, passando por cima da oposição da França, da Alemanha, da Rússia e da China, os Estados-Unidos e seus aliados invadem o Iraque, decididos a fazer regressar este país à Idade da Pedra. A tomada de Bagdad e a rendição do exército marcam o início da destruição do Estado baathista sob a direção de um pró-consul americano perdido nesse país desconhecido. Ignorante, Paul Bremer desencadeia o desmantelamento das instituições e do exército, a instalação de um poder xiita e « curdo » em vez e no lugar do regime derrubado. Será duramente reprimida uma contra-insurreição « sunita » de base tribal, à qual se juntaram numerosos baathistas do exército dissolvido e combatentes islamistas próximos da Al-Qaeda. Foi a prisão em que os insurretos islamistas e oficiais baathistas se conheceram que será o cadinho do Daech. A captura e tratamento iníquo reservado a Saddam Hussein, os seus processos e a sua execução em direto no dia da Festa muçulmana, assim como as abjetas práticas da soldadesca americana sobre os presos iraquianos vão figurar no balanço moral do eixo do Bem. O Iraque irá escapar às « primaveras árabes » na sua forma clássica, mas, em 2011, teve já a sua dose de primavera. Vinte e cinco anos após o início de um calvário que prossegue até aos dias de hoje sob formas sempre renovadas, não é cedo demais para fazer o balanço dos feitos da « democratização » americana desse grande país moderno que foi o Iraque. A criação de três comunidades (curda, sunita e xiita) a partir de critérios em si mesmos caóticos, meio étnicos, meio religiosos, permite traçar a divisão do Iraque. A destruição do tecido nacional e institucional vai traduzir-se pela sedição étnica entre curdos e árabes, designadamente a rápida e encorajada afirmação do Curdistão iraquiano, coqueluche dos ocidentais, e a sedição confessional. Neste ponto, a marginalização dos sunitas tem por contrapartida a promoção da maioria xiita, acompanhada de ferozes lutas entre clãs. O povo iraquiano irá ser abandonado a uma empresa impune com toques de genocídio : de acordo com os números normalmente aceites, haverá pelo menos milhão e meio de mortos, dos quais meio milhão de crianças, sem contar com as sequelas sanitárias ou genéticas das armas químicas e dos bombardeamentos com urânio empobrecido (cancros, malformações) e o exílio massivo de vários milhões de iraquianos de todas as religiões (Síria, Líbano, Europa). A pilhagem do património arqueológico e histórico (sítios e museus) será banalizada e aberta ao público, por assim dizer. Trata-se de destruir a memória deste povo muito antigo. A tarefa será perpetuada um pouco mais tarde pelo Daech. Soldados americanos derrubam em 2003 a estátua de Saddam Hussein em Bagdad. O potencial económico não será cuidado, quando as infrastruturas sofreram durante anos bombardeamentos e golpes dos « amigos do Iraque ». A pilhagem dos recursos petrolíferos seguirá o seu caminho, mas sob contrôle : o ministério do Petróleo terá sido, segundo se diz, a única parte da administração protegida pelos esbirros de Bremer. Ponhamos no inventário « o dinheiro de Saddam Hussein », isto é, do Iraque, que terá conhecido a sorte habitual na matéria. Politicamente, a redistribuição das cartas no plano nacional provocará uma mutação imprevista e contudo previsível no plano estratégico : é o Irão, e não a América, que se tornará o interlocutor privilegiado do « poder xiita », onde a Arábia não vai ganhar nada com o assunto. Finalmente, como produto direto da invasão americana e gozando da proteção da Turquia, do Qatar e da Arábia saudita, o Daech instala-se no norte do Iraque em junho de 2014, abrindo uma nova fase na perturbação da geografia iraquiana. Protegido por Washington mais do que inimigo a abater, a organização « Estado Islâmico » vai trabalhar para a destruição do Estado iraquiano e estender-se rapidamente para a vizinha Síria. A «nova era democrática» prometida pelo ocupante traduz-se por um regime que generaliza a prática da tortura, como na prisão de Abu-Ghraib. Desmantelamento, partilha, pilhagem e caos na Jamahiriya As mensagens de e-mail (pirateadas) de Hillary Clinton confirmam o que já se sabia : a eliminação de Kadhafi não tem nada a ver com uma vontade de democratizar a Líbia. Inspirou-se em interesses estratégicos, económicos e petrolíferos e na existência dos « milhões de Kadhafi ». De acordo com a banca mundial e com o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), a Líbia dispõe no início de 2011 do « índice de desenvolvimento humano mais elevado do continente africano », com um crescimento do PIB de 7,5% ao ano, um rendimento por habitante record (10.000 dólares americanos por ano), instrução primária e secundária para todos e acesso ao ensino superior para um em cada dois alunos. Mais de 2 milhões de imigrados africanos encontram trabalho na Jamahiriya. Fator de estabilidade e desenvolvimento no norte de África, a Líbia multiplicou investimentos com o objetivo de dotar a União Africana de autonomia financeira e moeda independente. Algo de inaceitável para os Estados-Unidos e para a França, a acreditar nos e-mails de Hillary Clinton. Teria Kadhafi feito outros « investimentos » na Europa ? O Ocidente desconfia. Os « revolucionários » líbios não esperam muito para apelarem por socorro contra Kadhafi que « massacra o seu povo ». Rapidamente são satisfeitos. As primeiras sanções diplomáticas são o resultado da Resolução 970 adotada pelo Conselho de Segurança nos finais de fevereiro de 2011 : proibição de viajar, embargos de armas e… congelamento de bens, decreta o Tribunal Penal Internacional. A Resolução 1973 de 17 de março de 2011 confirma e reforça as sanções anteriores (acrescentando a exclusão aérea), ao mesmo tempo que dá luz verde a uma intervenção militar a título da « responsabilidade de proteger ». Enganadas (segundo se diz, pela França), a China e a Rússia abstêm-se em vez de oporem um veto, assim como a Alemanha. A NATO, investida do trabalho pelos ocidentais em violação do mandato da ONU, desencadeia imediatamente os bombardeamentos. É posta de lado qualquer diplomacia. A França será um dos ferros de lança da aventura. Milhares de raides atingirão não apenas objetivos militares e centros de comando, mas também e sobretudo zonas residenciais, zonas industriais e objetivos civis. Jamais se irá conhecer o balanço exato : milhares e sem dúvida dezenas de milhares de mortos e feridos, mas poucos combatentes, porque quase não houve confrontos militares. De facto, a intervenção « humanitária » visa mudar o regime : Kadhafi será torturado e assassinado em direto, diante das câmaras de televisão no fim de outubro de 2011. Kadhafi foi torturado e assassinado diante das câmaras de televisão. A Líbia será destruída, as suas infrastruturas devastadas, o exército desmantelado e os homens desmobilizados irão alimentar o fluxo de mercenários e jihadistas em todo o Sahel, incluindo o Mali. Mergulhada num caos generalizado e posta ao alcance de várias centenas de milícias armadas, a Líbia está já dividida em três ou quatro entidades e o poder é disputado entre dois ou três governos. O terreno é propício à instalação do Daech, que encontrará aí o seu terceiro ponto de ancoragem. A situação líbia é preocupante para a segurança e estabilidade de toda a região, nomeadamente para a Argélia, a Tunísia, o Sahel. Ela gera um buraco negro securitário entre o sul da Líbia e o norte do Chade. No meio deste desastre, as primeiras sanções terão sido rapidamente esquecidas. Se o « congelamento dos bens », sanção clássica, não desperta a atenção de toda a gente, apresenta um interesse maior para alguns. Não será legítimo « apanhar o dinheiro de Kadhafi » ? De facto, os « 500 mil milhões de Kadhafi » recenseados em março de 2011 são simplesmente os 500 mil milhões de bens líbios investidos no mundo (250 na América e 250 na Europa e resto do mundo ocidental), entre bancos e empresas. E nem se fala dos investimentos (50 mil milhões) efetuados pelo Guia no continente africano e na pilhagem futura do petróleo líbio. Jamais se saberá deles, com exceção dos 11 a 34 mil milhões restituídos ao Conselho Nacional de Transição (CNT) pela NATO e pelos ocidentais (inquérito de Pascal Henry : Piéces à conviction na France 3, em 29/01/204). Quanto ao restante, que esteja congelado ou descongelado, ninguém saberá dizer onde estão, exceto que de certeza não foram perdidos por toda a gente. A sorte de todos os bens congelados ao abrigo do capítulo 7 (da Carta da ONU – N.T.) é a de serem postos a recato algures (incluindo em França). Cinco anos depois, o caos é tal que se aprontam para intervir de novo para pôr fim ao caos. Sinal de que o colonialismo está de volta é a Itália estar à frente do empreendimento, tal como a França na Síria… A Síria destruída em parte e o Estado sírio não derrotado, mas sempre ameaçado Após cinco anos de uma guerra de uma violência extrema, e ainda que tenha servido de terreno de experiências para todos os recursos da estratégia do caos, a Síria continua. O estado sírio não se desmoronou. Paga vencimentos e pensões aos seus funcionários sem falhar e as suas instituições estão no sítio. O exército resistiu face a uma agressão aliando as grandes potências ocidentais aos regimes fundamentalistas do Médio-Oriente. Desde outubro de 2011, está afastado o espetro de um cenário à líbia, já que Moscovo e Pequim quebraram pelo seu veto a unanimidade dos membros permanentes do Conselho de Segurança. Dedos acusadores apontam para « certos países que não jogam o jogo », uma vez que Rússia e China recusam « juntar-se à comunidade internacional » (sic) como queriam Juppé e Hague. Mas, esta mutação não vai evitar uma escalada contínua da guerra universal imposta à Síria. O envio massivo de mercenários jihadistas com as suas agendas próprias vai perpetuar o caos, « abrindo caminho à organização do Estado Islâmico, constituído com ex-oficiais do exército iraquiano irradiados por Paul Bremer em 2003, com armas americanas e com o apoio considerável de fundos sauditas ». Nestas condições, para que servem as sanções, tornadas tão banais para os países ocidentais que lhes passam despercebidas, tanto mais que nada sofrem com elas ? Cinco anos de encarniçamento terão esgotado a Síria, já devastada pela guerra, acabando por asfixiar a sua economia e condenando o povo sírio a viver de agora em diante em condições terríveis. As sanções clássicas de « normalização » são tomadas pela União Europeia (UE) em maio de 2011 : dizem respeito à proibição de viajar (fim dos visas) e ao congelamento dos bens de 150 personalidades do « regime sírio ». Uma cinquentena de sociedades « apoiantes do regime » ficam sujeitas a boicote, das quais cinco organismos militares, de acordo com o embargo « sobre as exportações de armas e de material suscetível de ser utilizado para fins de repressão ». A partir de julho de 2011, a Síria é alvo regular de medidas de represália da parte da « comunidade internacional ». É necessário « punir e asfixiar economicamente o regime de Bachar al-Assad, que reprime com sangue os opositores ». A 10 de agosto de 2011, o governo americano adota sanções contra as sociedades de telecomunicações sírias e os bancos ligados a Damas, impedindo os cidadãos americanos de fazer negócios com os bancos sírios ou Syriatel. Os bens destas sociedades nos Estados-Unidos são congelados, ou seja, roubados. Hillary Clinton anuncia um embargo total sobre as importações de produtos petrolíferos sírios. Imitando logo os seus professores, a União Europeia decide sanções suplementares, incluído um embargo sobre o petróleo. Como os Estados-Unidos, o Canadá, a Austrália, a Suissa, a Turquia e a Liga Árabe (sequestrada pelo Qatar e pelos regimes do Golfo), Bruxelas vai renovar e reforçar as sanções sem descanso, por dezassete vezes apenas no ano de julho de 2011 a julho de 2012. O encerramento da Syrianair em Paris e a proibição de qualquer ligação aérea entre a França e a Síria serão decididos no verão de 2012, do mesmo modo que o fim dos voos entre as capitais europeias e Damasco. As sanções diplomáticas são decididas a partir do outono de 2011, depois do veto russo-chinês. Os Estados-Unidos chamaram o seu embaixador agitador em Damas, vários estados da UE chamam os seus e o ministro francês dos Negócios Estrangeiros Alain Juppé chama também o seu, primeiro a 17 de novembro de 2011 e depois definitivamente em fevereiro de 2012. Nomeado em maio de 2012, Fabius fará melhor : apenas entronizado, vai expulsar a embaixadora da Síria, embora esta, representante junto da UNESCO, não possa ser expulsa. As « grandes democracias » e seus aliados do Médio-Oriente estão sempre de serviço. Os prejuízos são imensos e um país anteriormente próspero, autosuficiente e sem dívidas está em ruínas, com as infrastruturas devastadas e os serviços sociais frequentemente danificados. Com mais de 300.000 mortos (100.000 dos quais membros do exército regular), 1 milhão de deficientes e 14 milhões de refugiados ou deslocados (mais de um sírio em cada dois), o tecido nacional fica fragilizado pela proliferaão de grupos armados e minado pela invasão de mercenários vindos para a jihad, assim como por certas reivindicações étnicas. Foram necessários muitos esforços da parte dos « amigos da Síria » para instalar mês após mês este caos que reina numa boa parte da Síria, « mãe da nossa civilização ». Bernard Cornut, especialista do Médio-Oriente, escreve a justo título em 11 de março de 2016 : « Visto que cada vez é mais conhecido e verificado que vários países apoiaram e financiaram grupos rebeldes armados com o objetivo afirmado e partilhado de mudar o regime, e nomeadamente fazer partir o presidente, países que incluem a França, os Estados-Unidos, a Grã-Bretanha e claro o Qatar, a Arábia, a Turquia e outros conhecidos da Síria, todos eles em diversos graus são corresponsáveis pelos prejuízos provocados na Síria e recentemente estimados em 1 milhão de milhões de dólares. » E concluindo : « Deverão portanto enfrentar ações judiciais internacionais por parte da Síria para que obtenha indemnizações de guerra legítimas. » Com o fim de as financiar, propõe a criação de uma taxa sobre o petróleo e o gás, a qual seria afeta a « um fundo de indemnização das vítimas e de reconstrução da Síria em todos os planos, a gerir pela ONU ». Conforme constatado por Jeffrey Sachs, diretor do Earth Institute na Universidade Colúmbia de Nova Iorque e consultor junto do secretário-geral das Nações Unidas, « a política americana foi um falhanço enorme e terrível ». Assad não partiu e não foi vencido, graças à ajuda da Rússia e do Irão. A perspetiva neo-conservadora ficou comprometida. Daí a fúria dos « amigos da Síria », a sua fuga em frente e a sua violência louca… diante do avanço do exército sírio em todas as frentes. Não haverá mais « primaveras ». Resta que o caos é omnipresente, do Iraque à Síria, da Tunísia ao Egipto, da Líbia ao Iémen, da Palestina ao Líbano. Salvo que há uma novidade : os cúmplices e agentes do Médio-Oriente da estratégia imperial ficam de agora em diante às voltas com essa desordem e essa selvajaria que contribuíram para propagar. A Arábia saudita, a Turquia tornaram-se um alvo para os grupos extremistas e terroristas que apadrinharam e protegeram. Pesares, pesares… Que aconteceu aos responsáveis ocidentais pela « democratização » ? Colin Powell, o homem que deu a cara no Conselho de Segurança, afirmou-se mal informado pelos serviços americanos : exprime o seu pesar alguns anos depois dos factos. Madeleine Albright, para quem as centenas de milhares de crianças iraquianas mortas eram o « preço a pagar pela democratização do Iraque » ou Condoleeza Rice que via nas convulsões do Líbano em 2006 as « contrações do nascimento da democracia » dedicam-se certamente às suas boas obras. Bush goza de uma reforma pacífica e pinta bonitos carneirinhos no seu rancho : terá Alzheimer ?... Blair e Bush : depois da mentira e do horror, reformas douradas… Tony Blair faz conferências pagas principescamente. O ex-primeiro ministro britânico exprime também o seu pesar onze ou doze anos depois dos factos. De acordo com Jeremy Corbin, na sua candidatura à direção do partido Trabalhista, ele deve ser levado à justiça por crimes de guerra, « devido à invasão ilegal do Iraque, uma guerra catastrófica que custou muito dinheiro e vidas humanas, de que ainda hoje se vêm as consequências ». Quanto a Hillary Clinton a mulher do « veni, vidi, vici », que escarnecia do assassínio de Kadhafi em direto (« um dia feliz para a humanidade »), é assediada por certos jornalistas americanos. Jeffrey Sachs (22 de fevereiro de 2016) acusa-a de ter contribuido para provocar e manter o banho de sangue na Síria, tendo assim pesada responsabilidade pela carnificina. « Perigo para a paz mundial », terá que « responder por muita coisa referente à guerra da Síria », conclui. Candidata à investidura democrata para a presidência, deve pensar mais vezes em Donald Trump do que em Kadhafi. Se, por um capricho da sorte (qualquer máquina de votar com os buracos entupidos, por exemplo), a machona da diplomacia fosse eleita, os sírios até agora poupados pela guerra só teriam que se cuidar. E quanto à França e aos seus dirigentes de todos os bordos que se felicitavam pelo balanço da grande cavalgada líbia e pontificavam – continuam sempre a pontificar – sobre o futuro da Síria e o destino do seu presidente ? Não deviam temperar a sua arrogância de ignorantes e a sua impudência de privilegiados ? Em vez de continuarem a atirar planos viciosos com ar enjoado, não precisariam antes de se interrogar sobre a sua esmagadora responsabilidade pelas desgraças do povo sírio e a baixeza da diplomacia francesa ? O futuro da Síria não tem nada a ver com eles. O maior serviço que podem prestar à « mãe da civilização », à « segunda pátria de qualquer ser civilizado » alvo do seu encarniçamento, é deixá-la em paz, em todos os sentidos da palavra.

Trump e Clinton: Censurando o intragável

por John Pilger


Uma censura virulenta, ainda que familiar, está prestes a abater-se sobre a campanha eleitoral estado-unidense. Como o selvagem caricato, Donald Trump, parece quase certo que ganhe a nomeação do Partido Republicano, Hillary Clinton está a ser consagrada como a "candidata das mulheres" e a campeã do liberalismo americano na sua luta heroica contra Satã.

Isto é disparate, naturalmente. Hillary Clinton deixa um rastro de sangue e sofrimento por todo o mundo e um recorde claro de exploração e cobiça no seu próprio país. Dizer isto, no entanto, está a tornar-se intolerável na terra da liberdade de expressão.

A campanha presidencial de Barack Obama em 2008 deveria ter alertado até o observador mais desatento. Obama baseou sua campanha da "esperança" quase totalmente no facto de um afro-americano aspirar dirigir a terra da escravidão. Ele também era "anti-guerra".

Obama nunca foi anti-guerra. Ao contrário, como todos os presidentes americanos, era a favor da guerra. Ele votou pelo financiamento da carnificina de George W. Bush no Iraque e planeava escalar a invasão do Afeganistão. Nas semanas em que fez o juramento presidencial, aprovou secretamente um assalto israelense a Gaza, o massacre conhecido como Operação Chumbo Derretido. Prometeu encerrar o campo de concentração de Guantánamo e não o fez. Jurou que ajudaria a tornar o mundo "livre de armas nucleares" e fez o oposto.

Como uma nova espécie de gestor de marketing do status quo, o untuoso Obama foi uma escolha inspirada. Mesmo no fim da sua presidência coalhada de sangue, com a sua assinatura para drones a propagarem infinitamente mais terror e morte em todo o mundo do que o desencadeado por jihadistas em Paris e Bruxelas, Obama é bajulado como um "tipo fixe" (the Guardian).

Em 23 de Março, a Counterpunch publicou meu artigo "Uma guerra mundial começou – rompa o silêncio" . Como tem sido minha prática durante anos, difundi então esta peça através de uma rede internacional, incluindo Truthout.com, o sítio web liberal americano. Truthout publica algum jornalismo importante, inclusive excelentes revelações de Dahr Jamail.

Truthout rejeitou a [minha] peça porque, disse um editor, ela havia aparecido no Counterpunh e havia quebrado "linhas de orientação". Respondi que isto nunca fora um problema ao longo de muitos anos e que nada sabia de linhas de orientação.

À minha recalcitrância foi então atribuído um outro significado. O artigo seria liberado desde que eu o submetesse a uma "revisão" e concordasse com mudanças e apagamentos feitos pelo "comitê editorial" de Truthout. O resultado foi adoçar e censurar minha crítica a Hillary Clinton e o distanciamento dela em relação a Trump. Foi cortado o seguinte:

Trump nos meios de comunicação é uma figura odiosa. Isto só por si deveria despertar nosso ceticismo. As visões de Trump sobre migração são grotescas, mas não mais grotescas do que as de David Cameron. Não é Trump o Grande Deportador dos Estados Unidos, mas sim o vencedor do Prêmio Nobel da Paz Barack Obama... O perigo para todos nós não é Trump, mas Hillary Clinton. Ela não é independente (maverick). Ela corporifica a resiliência e violência de um sistema... Quando o dia da eleição presidencial se aproximar, Clinton será louvada como a primeira mulher presidente, apesar dos seus crimes e mentiras – tal como Barack Obama foi louvado como o primeiro presidente negro e liberais engoliram sua insensatez acerca de "esperança".

O "comitê editorial" quis claramente diluir minha argumentação de que Clinton representa um comprovado perigo extremo para o mundo. Como toda censura, isto era inaceitável. Maya Schenwar, que dirige o Truthout, escreveu-me [a dizer] que minha relutância em submeter meu trabalho a um "processo de revisão" significava que ela tinha de retirar a sua "publicação da agenda". Este é o modo de falar do guardião.

Na raiz deste episódio está uma resistência indizível. Esta é a necessidade, a compulsão, de muitos liberais nos Estados Unidos a aceitar um líder a partir de dentro de um sistema que é comprovadamente imperial e violento. Tal como a "esperança" de Obama, o gênero de Clinton não é mais do que uma fachada conveniente.

Isto é uma compulsão histórica. No seu ensaio de 1859, Sobre a liberdade, ao qual liberais modernos parecem prestar homenagem incansável, John Stuart Mill descreveu o poder do império. "Despotismo é um modo legítimo de governo ao tratar com bárbaros", escreveu ele, "desde que a finalidade seja a sua melhoria e os meios justificados para realmente cumprir aquele fim". Os "bárbaros" eram grandes secções da humanidade às quais era exigida "obediência implícita".

"É um mito lindo e conveniente que os liberais são pacificadores e o conservadores belicistas", escreveu em 2001 o historiador britânico Hywel Williams, "mas o imperialismo do modo liberal pode ser mais perigoso por causa da sua natureza ilimitada – sua convicção de que representa uma forma de vida superior [enquanto nega a dos outros] conduz ao fanatismo farisaico". Ele tinha em mente um discurso de Tony Blair na sequência dos ataques de 11/Set, no qual Blair prometia "reordenar este mundo em torno de nós" de acordo com o seus "valores morais". O resultado foi a carnificina de um milhão de mortos no Iraque.

Os crimes de Blair não são inabituais. Desde 1945, uns 69 países – mais de um terço dos membros das Nações Unidas – sofreram alguns ou todos dos seguintes males. Foram invadidos, seus governos derrubados, seus movimentos populares suprimidos, suas eleições subvertidas e seus povos bombardeados. O historiador Mark Curtis estima a número da morte em milhões. Com a morte dos impérios europeus, este tem sido o projeto do liberal transportador de chamas, o "excepcional" Estados Unidos, cujo celebrado presidente "progressista", John F. Kennedy, segundo nova investigação, autorizou o bombardeamento de Moscou durante a crise cubana em 1962.

"Se temos de utilizar força", disse Madeleine Albright, secretária de Estado dos EUA na administração liberal de Bill Clinton e hoje uma apaixonada ativista de campanha pela sua esposa, "é porque nós somos a América. Nós somos a nação indispensável. Nós encaramos de frente. Nós vemos mais longe no futuro".

Um dos mais horrendos crimes de Hillary Clinton foi a destruição da Líbia em 2011. Por sua insistência, e com apoio logístico americano, a OTAN, lançou 9.700 "incursões de ataque" contra a Líbia, segundo seus próprios registos, dos quais mais de um terço foram destinados a alvos civis. Elas incluíam mísseis com ogivas de urânio. Ver as fotografias das ruínas de Misurata e Sirte, e as sepulturas em massa identificadas pela Cruz Vermelha. Ler o relatório da UNICEF sobre as crianças mortas, "a maior parte [delas] com menos de dez anos".

No mundo acadêmico anglo-americano, seguido servilmente pelos meios de comunicação liberais de ambos os lados do Atlântico, teóricos influentes conhecidos como "realistas liberais" têm desde há muito ensinado que imperialistas liberais – uma expressão que eles nunca utilizaram – são os mediadores da paz mundial e administradores de crises, ao invés de causa de crises. Eles evacuaram a humanidade do estudo das nações e congelaram-na com um jargão que serve o poder belicista. Preparando todas as nações para a autópsia, identificaram "estados fracassados" (países difíceis de explorar) e "estados vilões" (países resistentes à dominação ocidental).

Se o regime alvo é ou não uma democracia ou ditadura é irrelevante. No Oriente Médio, colaboradores do liberalismo ocidental desde há muito têm extremistas islâmicos, ultimamente a al-Qaeda, ao passo que noções cínicas de democracia e direitos humanos servem como cobertura retórica para a conquista e a destruição – como no Iraque, Afeganistão, Líbia, Síria, Iêmen, Haiti, Honduras. Ver o cadastro público destes bons liberais Bill e Hillary Clinton. O cadastro deles é um padrão ao qual Trump mal pode ambicionar.