29 de fevereiro de 2016

Drones da Itália para a Líbia

Manlio Dinucci


Desempenhando o papel de um Estado soberano, o governo Renzi “autorizou caso a caso” a partida de drones armados dos Estados Unidos desde a base italiana de Sigonella para a Líbia e outros países. Sabe-se que já em 2011 um drone Usa Predator Reaper decolou de Sigonella e foi telecomandado desde Las Vegas para atacar na Líbia o comboio em que se encontrava Kadafi, jogando-o nas mãos dos milicianos de Misurata.

A Itália entra assim no elenco oficial das bases de drones de ataque dos Estados Unidos, sob o controle exclusivo do Pentágono, junto a países como o Afeganistão, a Etiópia, o Níger, a Arábia Saudita, a Turquia.

O ministro das Relações Exteriores, Gentiloni, deixando claro que a utilização das bases não requer uma comunicação específica ao parlamento”, garante que isto “não é o prelúdio de uma intervenção militar” na Líbia.

Quando na realidade a intervenção já começou: forças especiais americanas, britânicas e francesas – como confirmam The Telegraph e Le Monde – estão operando secretamente na Líbia. Desde o hub aeroportuário de Pisa, limítrofe à base estadunidense de Camp Darby, decolam continuamente aviões de transporte C-130 (provavelmente também estadunidenses), levando materiais militares às bases meridionais e talvez ainda a alguma base no Norte da África.

Na base de Istres, na França, chegaram aviões USA KC-135 para o reabastecimento em voo dos caças-bombardeiros franceses. A operação é dirigida não só à Líbia. Istres é a base da “operação Barkhane”, que a França conduz com 3 mil militares na Mauritânia, no Mali, Níger, Chade e Burkina-Faso.

Na mesma área, na Nigéria, operam os Estados Unidos com forças especiais e uma base de drones em Camarões. Sempre com a motivação oficial de combater o chamado Estado Islâmico (EI) e seus aliados.

Simultaneamente, a OTAN deslocou para o Mar Egeu o Segundo Grupo Naval Permanente, sob comando alemão, e aviões radar Awacs (centros de comando voadores para a gestão do campo de batalha), com a motivação oficial de “apoiar a resposta à crise dos refugiados” (provocada pelas guerras dos EUA/Otan contra a Líbia e a Síria). Junta-se a tais operações a “Dynamic Manta 2016”, exercício militar da OTAN no Mar Jônico e no Canal da Sicília com forças aeronavais dos Estados Unidos, da França, Grã Bretanha, Espanha, Grécia, Turquia e Itália, que forneceu as bases de Catânia, Augusta e Sigonella. Prepara-se desse modo a “operação de peacekeeping (manutenção da paz) sob liderança italiana” que, com a motivação de libertar a Líbia do EI, visa a ocupar sua zona costeira, econômica e estrategicamente mais importante. Falta apenas o “convite”, que poderá ser feito por um fantasmagórico governo líbio.

Quem está pressionando para a intervenção na Líbia, desde Washington, é Hillary Clinton, candidata à presidência, que – escreve o New York Times em uma ampla reportagem – tem “a abordagem mais agressiva sobre as crises internacionais”. Foi ela quem em 2011 convenceu Obama a romper as hesitações. “O presidente assinou um documento secreto, que autorizava uma operação clandestina na Líbia e o fornecimento de armas aos rebeldes”, enquanto o Departamento de Estado dirigido pela [Hillary] Clinton os reconhecia como “legítimo governo da Líbia”.

As armas, inclusive os mísseis antitanques Tow e radares anti-bateria, foram enviados pelos Estados Unidos e outros países ocidentais a Bengasi e alguns outros aeroportos. Simultaneamente, a OTAN sob comando estadunidense, realizava ataques aéreos e navais, com dezenas de milhares de bombas e mísseis, desmantelando do exterior e do interior o Estado líbio.

Quando em outubro de 2011 Kadafi foi assassinado, a Clinton vibrou com um “Uau!”, exclamando: “Nós viemos, nós vimos, ele morreu”. Não sabemos que líder citaremos para a segunda guerra na Líbia. Sabemos, no entanto, que será por controle remoto.

O mito do “imperialismo russo”: em defesa das análises de Lenin

Renfrey Clarke e Roger Annis

Links International Journal of Socialist Renewal

Tradução / Uma controvérsia afiada dentro da esquerda internacional nos tempos recentes diz respeito ao lugar ocupado pela Rússia no sistema-mundo capitalista contemporâneo. A Rússia é um poder imperialista, parte do “centro” do capitalismo global? Ou suas características econômicas, sociais e politico-militares marcam-na como parte da “periferia” ou semi-periferia global — isso é, como uma na maiorias de países que, a um grau ou outro, são os alvos do assédio e do saque imperialistas?[1]

Tradicionalmente, a esquerda marxista usou o termo “imperialismo” com um alto grau de discriminação. Imperialismo para os marxistas não é algo chamado misteriosamente quando a “ganância” supera os líderes políticos. Nem é simplesmente a ação militar externa, por mais agressiva que seja. Para os marxistas, o imperialismo do nosso tempo se ergue de características específicas das economias e ordens sociais dos países capitalistas mais avançados.

A definição marxista clássica de imperialismo na época moderna foi dada por V. I. Lenin no seu panfleto de 1917 Imperialismo, estágio superior do capitalismo. Como visto pelo líder bolchevique, o capitalismo avançado que emergiu durante as décadas precedentes tinha essas características salientes:

“(1) a concentração da produção e do capital alcançou um grau tão elevado de desenvolvimento que criou os monopólios, os quais desempenham um papel decisivo na vida econômica; (2) a fusão do capital bancário com o capital industrial e a criação, baseada nesse “capital financeiro”, da oligarquia financeira; (3) a exportação de capitais, diferentemente da exportação de mercadorias, adquire uma importância particularmente grande; (4) a formação de associações internacionais monopolistas de capitalistas, que partilham o mundo entre si; (5) conclusão da partilha territorial do mundo entre as potências capitalistas mais importantes.” ²

Nas últimas décadas do século XIX, argumentou Lenin, as economias dos países industrialmente mais avançados adentrou uma nova fase de “capital monopolista”. Controle sobre a vida econômica pelas maiores concentrações de capital atingiram o ponto onde, em cada um desses países, um grupo firmemente interligado dos mais poderosos capitalistas financeiros e industriais mantinham o domínio incontestado.

Porém, ainda incapazes de encontrar campos de investimento em casa para grande parte do capital que acumularam (em outras palavras, sofrendo de um excesso crônico de capital), os magnatas financeiro-industriais se viram compelidos a multiplicar e intensificar suas operações no exterior. Cada vez mais as operações de troca do passado aumentadas e ofuscadas pelo investimento direto, grande parte dele em regiões onde o desenvolvimento do capitalismo era, em geral, muito mais fraco. Nessas regiões —a “periferia” do sistema imperialista emergente — as novas hegemonias globais puderam encontrar matéria-prima barata, abundante força de trabalho com baixos salários, e mercado consumidor para as mercadorias do “centro” do sistema. Em fins do século XIX, a necessidade de proteger os novos investimentos e afastar competidores levou à incorporação da maioria das áreas da periferia em vastos impérios coloniais.

O imperialismo evoluiu muito desde o tempo de Lenin, mas é notável o quão apropriada sua análise permanece. Embora as formas específicas tenham mudado, cada uma das principais características subjacentes observadas pelo líder bolchevique ainda está muito no lugar. As “associações capitalistas monopolistas internacionais” da época de Lenin —os cartéis e trustes — se transformaram em mega-corporações multinacionais e suas agências fiscalizadoras, o FMI, o Banco Mundial e a OMC. Os impérios coloniais desapareceram em termos formais, mas sua essência persiste em mecanismos direcionados para reforçar severas desigualdades mundiais de poder e riqueza que são imensamente lucrativas para o centro global. Tais mecanismos de roubo e opressão pós-colonial incluem a remessa direta de lucros pelas empresas de propriedade imperialista; dependência da dívida; constante intromissão política do centro; e, quando outros métodos falham, embargos comerciais e coerção armada.

Um outro mecanismo de pilhagem, menos reconhecido, porém entre os mais poderosos, está implícito nas estruturas subjacentes ao comércio global. Esse é o conjunto de fenômenos conhecido como “troca desigual”. No capital exportador, o centro capitalista global manteve consistentemente seu monopólio sobre as tecnologias e funções econômicas mais avançadas e sofisticadas (e portanto lucrativas). No imperialismo dos tempos coloniais, as empresas do centro usavam suas vantagens de monopólio para vender seus produtos manufaturados com um preço mais elevado. Os produtores de matéria-prima nas colônias e semi-colônias eram forçados a competir uns contra os outros, e assim a se contentar com margens muito mais baixas. O comércio entre centro e periferia era, portanto, profundamente desigual. Por detrás de uma cortina de mercados imparciais, o valor foi sifonado da periferia para o centro.

Outro “valor de sifão” estava implícito na diferença entre o investimento massivo de capital nas fábricas do centro e a capitalização habitual para as fazendas, plantações e outras empresas da periferia muito menor. Entre centro e periferia, a lacuna na produtividade do trabalho era enorme. Ao trocar suas matérias-primas pelos bens manufaturados, as colônias e semi-colônias trocaram, de fato, grandes quantidades de força de trabalho e, portanto, de valor, por montantes muito menores. Os industrialistas do centro, a despeito de pagar salários comparativamente maiores em casa, lucraram generosamente. A acumulação de capital ocorreu esmagadoramente nos países do centro, enquanto a periferia permaneceu pobre.

Desde a descolonização, as formas subjacentes à troca desigual evoluíram extensivamente, embora seu propósito e resultados gerais permaneçam inalterados. Complexos de investimento e produção uma vez unificados estão agora rachados ao longo das fronteiras nacionais. As funções mais especializadas e rentáveis — pesquisa e desenvolvimento, financiamento, design, marketing, e os aspectos mais exigentes da produção — ainda assim são monopolizados pelas empresas do centro. Funções de baixo lucro são terceirizadas para a periferia, onde empreendimentos locais são forçados a competir uns com os outros por contratos para produzir componentes e realizar a montagem.

Para este sistema funcionar, um importante grau de industrialização teve que ocorrer nas áreas mais avançadas da periferia. Maiores diferenças econômicas have se abriram, então, dentro da própria periferia, ao ponto em que se tornou necessário falar de uma ampla “semi-periferia” do capitalismo global.

A semi-periferia, entretanto, ainda é inconfundivelmente periférica em relação ao sistema como um todo. Permanece substancialmente excluída das funções econômicas mais rentáveis, e sua industrialização é de tipo dependente, distorcida, restrita, cuja lógica é a de maximizar lucros imperialistas.

Entre o centro e a semi-periferia, permanece um abismo econômico e social. Entre os Estados Unidos e o México, por exemplo, a diferença efetiva nos padrões médios de vida é maior que três para um, e entre a Alemanha e a Turquia, bem mais de dois para um.[3] O capitalismo da semi-periferia permanece subdesenvolvido, suas relativamente fracas máquinas estatais possuem apenas uma habilidade limitada de resistir à chantagem financeira imperialista e interferência politico-militar.

Para os marxistas, a habilidade de distinguir entre o centro imperialista e os países da periferia e semi-periferia — isso é, entre capitalismo avançado e suas presas — é uma indispensável ferramenta. A falta de clareza nesta separação torna erros políticos grosseiros inevitáveis.

Lenin e o imperialismo tsarista

Antes de proceder à análise do papel desempenhado pela Rússia no capitalismo global do presente, necessitamos esclarecer uma questão que é fonte de uma grande confusão. Isto relaciona-se com as caracterizações do Império russo tsarista feitas por Lenin no período em torno da eclosão da Primeira Guerra Mundial.

Em 1914, Lenin estava entre os poucos líderes socialistas europeus a rejeitar a sirene da classe dominante que conclamava os trabalhadores a deixar de lado as lutas de classes e se juntar ao esforço nacional de guerra. Sua posição de “derrotismo revolucionário” baseava-se na análise de que a Rússia tsarista era uma grande potência imperial e que trabalhadores e camponeses russos nada tinham a ganhar com sua vitória.

Se a Rússia de 1914 é medida contra o imperialismo de nosso próprio tempo, a categorização de Lenin de seu país como imperialista parece altamente problemática. Somente em alguns enclaves o capitalismo russo em 1914 estava avançado para os padrões mundiais; na maior parte do país, a produção e as trocas eram primitivas. Muito menos marcado por uma super acumulação de capital; ao contrário, era um devedor internacional de larga escala. Lenin, no entanto, não estava errado em considerar a Rússia tsarista como um poder imperialista. As possessões coloniais do país se igualavam às da França, se não da Grã-Bretanha. Com vasta população e exército, o império tsarista era principal força intervencionista na política européia, a despeito de seu atraso. Sua história relativamente recente incluía guerras expansionistas contra a Turquia.

Lenin estava agudamente ciente da contradição implícita em categorizar o primitivo e atrasado Império Russo como uma força imperialista ao lado dos imperialismos modernos da Europa Ocidental. Em escritos de 1916, o líder Bolchevique deixou claro que percebia o imperialismo da Rússia como sendo de natureza qualitativamente diferente do Ocidente, baseando-se em fundações econômicas e sociais fundamentalmente distintas. Ele estabeleceu uma clara distinção entre o imperialismo tsarista “bruto, medieval, economicamente atrasado” [4] e o sistema em sua forma “européia, de capitalismo avançado”. [5]

Quais eram as raízes econômicas e sociais do imperialismo “medieval” ao qual Lenin se referiu? Nos impérios russo e austro-húngaro, durante as primeiras décadas do século XX, o tradicional imperialismo da dinastia feudal e mercantil, baseado na extração de rendas camponesas e os lucros dos comerciantes, conservou certa vitalidade. Foi claramente em relação a este “antigo” imperialismo, herança de uma época histórica anterior, que Lenin considerava a Rússia dos tempos pré-revolucionários como imperialista.

Para finalidades práticas, as mudanças que acompanharam o fim da Primeira Guerra marcaram o final do “velho” imperialismo. Hoje, buscamos em vão por uma emanação persistente e semelhante a esse antigo sistema que nos permita deslizar para uma caracterização da Rússia como “imperialista”. A base material para tanto passou para a história. O lugar da Rússia no sistema-mundo capitalista deve agora ser traçado estritamente com base no imperialismo financeiro-industrial moderno cuja fase de abertura Lenin analisou.

Então o quê, dentro dos paradigmas do moderno imperialismo, marca os países como membros do exclusivo clube imperialista atual? Além do abismo que separa o mundo imperialista dos países em desenvolvimento em termos de prosperidade geral, uma série de outros critérios podem ser identificados. É claro, países imperialistas individuais não necessariamente apresentarão todos esses traços. Porém se a Rússia atual é de fato imperialista, isto se mostrará como um relativamente denso “aglomerado” das características que serão agora examinadas.

Um capitalismo avançado?

Para os propósitos deste estudo, a questão mais geral necessitando ser posta é se o sistema agora predominante na Rússia é, em qualquer sentido real, “o mais alto estágio do capitalismo” — isto é, capitalismo avançado.[6] Para qualquer um seriamente familiarizado com a Rússia, o argumento de que a produção e troca do país podem ser descritas desta maneira é pitoresco ao extremo.

O Produto Interno Bruto per capita da Rússia (mensurado pela Paridade do Poder de Compra) em 2015 era um pouco abaixo de US$24,000 — menos da metade do nível dos EUA, significantemente atrás da Malásia, e similar ao Chile e Argentina.[7]

A lacuna separando a Rússia dos países mais prósperos do mundo desenvolvido é ainda mais impressionante se examinarmos a riqueza, distinta da renda. O Banco de Dados de Riqueza Global de 2015 do banco Credit Suisse mostra que na maioria dos países que claramente se qualificam como imperialistas, as taxas de riqueza por adulto no câmbio atual em meados de 2015 eram superiores a US$200,000. Na Rússia, a situação era de apenas $11,726. Isto era um pouco acima de quadros como Jamaica e Paraguai, bem abaixo do Brasil, e quase metade da África do Sul, China, e México.[8]

Em 2014 a produtividade russa, um indicador chave do desenvolvimento econômico geral, era menos da metade da média européia e cerca de 35 por cento do nível dos EUA.[9]

Mais será dito em outros contextos sobre a pobreza e atraso da economia russa atual. Para o momento, alguns pontos gerais precisam ser colocados nas formas e estruturas do capitalismo do país. Economistas políticos de esquerda na Rússia destacam a estranheza essencial de um sistema que não possui análogos próximos, exceto em outros países da expansão pós-soviética. Há um consenso de que o capitalismo russo é nada semelhante ao “mais alto estágio” do sistema, mas é, ao contrário, um retrocesso des-desenvolvido que perpetua a cultura gerencial, bem como estruturas informais fundamentais, do período soviético tardio – isto é, do “socialismo de estado” burocratizado em sua fase final. [10]

O estudo clássico do real funcionamento da economia russa atual é fornecido por Ruslan Dzarasov da Universidade de Economia da Rússia Plekhanov. Dzarasov descreve um sistema no qual a condução da lei é acidental, e os empresários dependem da sua sobrevivência comercial a favor de burocratas corruptos. Controle das empresas é concentrado nas mãos dos “grandes insiders”, que, para efeitos de evasão fiscal e fraude financeira, escondem a sua propriedade por trás de uma elaborada “nuvem offshore” de empresas fictícias estrangeiras. Aquisições hostis são comuns, rotineiramente apoiadas por violência física. Nestas circunstâncias, gerentes sênior compõem sua insegura posse saqueando as receitas da empresa, usando a “nuvem offshore” para esconder os lucros no exterior.[11]

Fenômenos como estes não são desconhecidos no capitalismo de países muito mais ricos que a Rússia. A doutrina capitalista, é óbvio, os condena como um perigo para o sistema. Em países de capitalismo avançado eles não são tão prevalentes para impedir investimento e acumulação de prosseguir. Mas na Rússia essas marcas de capitalismo debilmente desenvolvido não são acidentais mas disseminadas, e desempenham um papel fundamental na manutenção da economia do país em forma semi-desenvolvida. Dentro do “capitalismo jurássico” da Rússia,[12] pouco da “torta de lucro” é deixada para os investidores que não são eles próprios grandes insiders, ou estão intimamente ligados a eles. Compreensivelmente, níveis de investimento produtivo são abismais.[13] Dzarasov cita dados mostrando que a média atual da idade do equipamento industrial russo, em torno de 21 anos, é aproximadamente o dobro da cifra do final do período soviético.[14]

Monopolismo russo

As formas do capitalismo atual da Rússia incluem um alto grau de monopólio. Em quase todos os setores da economia, um relativo punhado de corporações domina. Isso pode sugerir uma estreita correspondência entre os processos do capitalismo da Rússia e os do sistema tal como encontrados em países imperialistas avançados, mas a analogia é ilusória. O monopolismo russo contemporâneo, parafraseando Lenin, não se ergueu de um “alto estágio” de produção e acumulação capitalistas. Tipicamente, os monopólios da Rússia têm suas raízes nos grandes complexos de produção integrados que foram favorecidos pelo planejamento soviético. Reforçando a tendência ao monopólio, há o fato de que, no meio de negócios violentos e cronicamente instáveis da Rússia capitalista, as empresas de médio porte raramente prosperam.

Enquanto isso, é de se notar que monopólios não são mais incomuns nos países da atual semi-periferia capitalista. Além de refletir o processo de concentração que ocorre em todos os capitalismos, esta situação também deriva diretamente de iniciativas estatais. Governos des países em desenvolvimento geralmente estabeleceram corporações de monopólio estatais, em sua totalidade ou maioria, como as corporações petrolíferas estatais iranianas, sauditas e nigerianas. A existência destas corporações não significa que os países envolvidos são imperialistas.

Monopólios privados de países em desenvolvimento tendem a diferir de seus homólogos imperialistas do mundo por ser bem menores. A Rússia tem poucas companhias, tanto privadas quanto estatais, que se aproximam, em escala, das “hiper-corporações” do ocidente desenvolvido. Na lista de 2015 das 2000 maiores companhias públicas da revista Forbes, a empresa russa mais destacada é a companhia de gás Gazprom, na 27º colocação, enquanto a petrolífera Rosneft aparece listada no número 59.[15] Ambas são majoritariamente estatais. A maior corporação privada russa listada pela Forbes é a LUKOIL, no 109º lugar. Ao todo, a Rússia acumula 27 empresas na lista — similar ao Brasil com 25, e bem atrás da Índia com 56.

A camada superior das empresas russas é fortemente dominada por empresas com base em extração de recursos naturais ou processamento de matérias-primas (incluindo metalurgia), e cuja produção é amplamente exportada. À exceção de dois bancos estatais, as oito maiores empresas russas listadas pela Forbes têm esse caráter. Indústrias extrativas orientadas para a exportação terem maior peso na economia é incomum para o capitalismo avançado. Mas é freqüentemente encontrado entre os países da periferia – e especialmente entre os estados menos desenvolvidos e mais dependentes.

A empresa privada russa mais poderosa que não possui conexão óbvia com o setor de recursos é a cadeira varejista Magnit, de posição 701 na lista da Forbes. RAs corporações privadas não-extrativistas e de não-processamento da Rússia são, portanto, bastante modestas em tamanho por padrões mundiais.

Um capital financeiro russo?

Em seus escritos sobre imperialismo, Lenin fala da “criação, baseada no ‘capitalismo financeiro’, de uma oligarquia financeira”.[16] Mas as posições-chave da elite russa contemporânea não são financeiras. A fusão de capital industrial e capital financeiro que Lenin identifica com o imperialismo moderno não é a faceta majoritária do capitalismo russo, e ocorreu no país apenas em um grau limitado.

Na literatura da indústria financeira da Rússia, numerosos comentários e estatísticas atestam que este setor é pequeno e relativamente subdesenvolvido. A Rússia é surpreendentemente pobre em ativos financeiros. O Credit Suisse, em seu Banco de Dados de Riqueza Global de 2015, cita o espantosamente baixo valor dos ativos financeiros por adulto na Rússia em meados de 2015 de $2,490, comparado com $8,204 no Brasil, $25,962 no Chile, e quadros na Europa ocidental que em geral supera $100,000.[17] O baixo valor para a Rússia reflete o desenvolvimento fraco desde os tempos soviéticos dos instrumentos financeiros, incluindo ações, títulos, fundos do mercado monetário e depósitos bancários, que na maioria das partes do mundo capitalista compõem a maior parte da riqueza.

Dentro do capital financeiro de um país imperialista, o elemento central é o sistema bancário altamente desenvolvido. Lenin se refere ao “a fusão sempre crescente ou (…) a coalescência, dos capitais bancário e industrial e (…) o crescimento dos bancos em instituições de um verdadeiro ‘caráter universal’.”[18] Mas nada há de universal sobre os bancos da Rússia. Um comentário de 2012 possui a seguinte nota: “Os ativos do setor bancário representam apenas 75% do produto interno bruto, comparado com economias desenvolvidas, nas quais ativos bancários tipicamente excedem 100 por cento do PIB.”[19]

O pequeno setor bancário da Rússia é dominado por dois bancos estatais majoritários, provenientes de instituições financeiras soviéticas. Nenhum dos dois é especialmente grande em termos mundiais. Na lista da SNL Financialcom os 100 maiores bancos do mundo de 31 de março de 2015, Sberbank aparece em 59ª posição, enquanto o VTB Group está no número 100.[20] Os bancos russos restantes são muito menores.

Com uma capitalização de mercado em maio de 2015 de US$26,9 bilhões, o Sberbank mediu, nessa base, menos de um décimo do tamanho do maior banco do mundo, a estadunidense Wells Fargo, e não muito além de 40 por cento do maior banco do Brasil, Itaú Unibanco.[21] O Brasil, além disso, tem quatro bancos no top 100 da SNL Financial, comparado com dois da Rússia.

Desde a dissolução da União Soviética, o sistema bancário da Rússia teve uma história caótica que reflete a criminalidade e disfunção generalizada dos negócios russos. Durante a década de 1990, centenas de pequenos bancos foram fundados por empresários em ascensão, muitas vezes como ferramentas mal ocultadas para condutas financeiras ilegais. Relatórios de imprensa sobre o setor bancário russo se queixam de práticas de empréstimos ruins, falta de transparência, altas taxas de empréstimos ruins, lavagem de dinheiro e, por vezes, fraudes massivas. Em dezembro de 2015 a empresa Bloomberg reportou que ao decorrer daquele ano cerca de 100 bancos russos, representando 13 por cento do setor, foram destituídos de suas licenças pelas autoridades do Banco Central.[22]

Os dois maiores bancos da Rússia são jogadores corporativos importantes, mas tentar descrever o pequeno capital financeiro do país como um setor hegemônico que constitui o núcleo da economia é ingênuo. A verdadeira força hegemônica russa é uma fusão próxima de altos funcionários do estado com oligarcas industriais, o último principalmente dos campos extrativos de recursos e processamento de metais. Um poder decisivo ser controlado por tal cabala de burocratas e chefes de negócios dependentes da exportação de recursos é um padrão que tem muitos precedentes na história dos países periféricos.

Enquanto isso, o capital financeiro russo nunca causou muito impacto no papel arquetípico desempenhado por este setor no imperialismo moderno — como a vanguarda da expansão econômica fora das fronteiras do país. Ao contrário dos maiores bancos ocidentais com suas operações internacionais massivas, bancos russos se concentram esmagadoramente em empréstimos domésticos. Uma exceção parcial é o Grupo VTB, reconfigurado pelo governo russo em 1990 para atender o comércio internacional do país. No final de 2013, a VTB operava em 23 países, com participações notáveis na Bielorrússia, no Cazaquistão e na Ucrânia. O Sberbank entrou no campo internacional em 2006 e, até 2012, comprou bancos no Cazaquistão, Ucrânia, Bielorrússia e Turquia, afirmando que planejava gerar cerca de cinco por cento do seu lucro líquido fora da Rússia até 2014. [23]

Os bancos russos acabaram por se apossar dos mercados financeiros ucranianos. Mas sua posição na Ucrânia nunca foi dominante, mesmo em relação a outros interesses bancários estrangeiros. Em 2014, três bancos russos – Sberbank, AlfaBank e o grupo VTB – mantiveram 3,2%, 2,8% e 2,8% do mercado bancário ucraniano, respectivamente, de uma participação de mercado total de 31% detida pelos bancos estrangeiros.[24]

Indústria e comércio russos: imperialistas ou dependentes?

Como explicado anteriormente, o nível superior das empresas russas é dominado fortemente pelas empresas com base na extração e processamento de matérias-primas. Os setores industriais nos países imperialistas apresentam um contraste acentuado, com funções intensivas em conhecimento, de alto valor agregado, que normalmente prevalecem. Mesmo nos países imperialistas onde as indústrias extrativas são importantes, como no Canadá e na Austrália, as economias são geralmente diversas, com uma ampla gama de atividades que contribuem substancialmente para o PIB.

A União Soviética em suas últimas décadas teve uma economia diversificada, com todos os setores produtivos importantes pelo menos moderadamente desenvolvidos. O retorno à Rússia do capitalismo, no entanto, viu amplas áreas de produção entrar em declínio catastrófico. Enquanto a indústria de armas continua a ser globalmente competitiva, as indústrias civis russas ficaram famintas de investimento. As empresas civis de alta tecnologia foram as mais atingidas.[25] A natureza relativamente atrasada da maior parte da produção industrial na Rússia de hoje alinha o país firmemente com o desenvolvimento, e não o mundo desenvolvido.

No seu comércio de exportação, os países imperialistas tipicamente mostram uma tendência marcada em relação a vendas de mercadorias sofisticadas e de alto valor; de serviços técnicos intensivos em conhecimento; e também de serviços financeiros. Aqui também, a Rússia tem as marcas da periferia. Os serviços em 2013 apresentaram um baixo percentual das vendas totais de exportação na Rússia (11,8%) e, nesta área, o país apresentou um enorme déficit.[26] A estrutura das exportações russas de mercadorias reflete ainda o “des-desenvolvimento” da indústria desde a era soviética; em 2013, os transportadores de energia e os produtos minerais constituíam 71,5% do total, com metais refinados, produtos químicos básicos, produtos florestais e alimentos representando a maior parte do restante. A categoria de máquinas, equipamentos e veículos compreendeu apenas 5,5%,[27] consistindo principalmente de armas e material militar relacionado.[28] Do outro lado do registro, máquinas, equipamentos e veículos constituíram 48,5 por cento das importações de mercadorias.[29]

Em termos absolutos, os dados do Banco Mundial para 2013 colocaram as exportações russas de produtos de alta tecnologia em US$ 8,656 bilhões — cerca de metade do índice para a Índia, tanto quanto para o Brasil, e menos de 30% da soma para a Itália (imperialista).[30] Brasil e Itália têm PIB a preços atuais próximos da Rússia.

A imagem da Rússia que surge aqui não é de um poder imperialista, mas de um petro-estado que deve pagar os melhores preços para importar a maior parte de seus equipamentos sofisticados, dependendo da sua solvência nas vendas de um punhado de commodities genéricas de baixo valor agregado. Ao comercializar a maior parte de suas principais exportações (o gás natural é uma exceção), a Rússia compete diretamente com outros países com baixos salários e baixa produtividade. Quando os mercados mundiais para estas commodities estão saturados e os preços estão baixos — como são muito frequentes -, os países ricos que são muitas vezes os principais compradores podem garantir suas necessidades por somas quase desastrosas.

Significativamente, a Rússia conduz pouco do seu comércio com os países mais pobres da periferia, cujas ofertas comerciais e compras tendem a replicar as suas próprias. As principais fontes de importação são os países do centro (especialmente a UE) e uma série de estados semi-periféricos (China e vários países da ex-URSS) que compartilham seu nível geral de desenvolvimento econômico.[31] A Rússia, portanto, ganha quase nada das relações comerciais desequilibradas que consideram o valor do centro imperialista à custa dos habitantes mais pobres do mundo. Na verdade, temos que supor que o país perde muito devido a troca desigual.

Investimento externo da Rússia: atrás da "nuvem"

Todo capital deve procurar expandir e, na busca de lucros, os capitalistas em países semi-periféricos freqüentemente procurarão oportunidades de investimento fora de suas fronteiras nacionais. Isso ocorre apesar da escassez tipicamente aguda de capital para tarefas de desenvolvimento nacional em casa. Taxas de genuíno investimento externo por países não-imperialistas, no entanto, não se aproximam, de um modo geral, dos países do centro imperialista.

As figuras brutas da Rússia para o investimento externo apresentam um emaranhado de paradoxos. Ao sugerir exportações maciças de capital, as figuras parecem colocar o país no ápice do imperialismo. Mas o que devemos fazer do fato de que os números do Banco Central russo para o investimento direto estrangeiro colocam o principal destino (de longe) das exportações de capital da Rússia como Chipre, seguido pelas Ilhas Virgens Britânicas?[32] Ambos os territórios são notórios como paraísos fiscais e centros de lavagem de dinheiro.

Os empresários russos muitas vezes adquirem suas empresas por montantes surpreendentemente pequenos através de ataques hostis, apoiados por corrupção e violência. Se as empresas não são lucrativas, como é frequentemente o caso, os ativos serão rotineiramente despojados e vendidos. As incertezas do capitalismo russo tornam extremas as atrações da fuga das capitais.[33]

Mesmo quando o objetivo dos empresários não é retirar as empresas e fechá-las, grandes somas que podem ser usadas para modernizar as empresas acabam no exterior. Pilhados por proprietários e gerentes sênior que sabem que poderiam, a qualquer momento, ser expulsos de seus escritórios por homens armados mascarados, esses fundos, após a lavagem, são principalmente investidos no Ocidente – na maior parte dos casos, em títulos de baixo risco ou imobiliários.

Enquanto isso, mesmo as operações rotineiras dos negócios russos exigem que as manobras em torno da lei sejam tornadas inquestionáveis. Para esse fim, grandes somas são continuamente “tropeadas” entre a Rússia e as zonas offshore, e essas transferências se registram como “investimentos estrangeiros”. Qualquer tentativa de determinar o quanto das exportações de capital da Rússia pode ser descrita como “real” – e afirmadas, concebivelmente, como prova do imperialismo – contém, portanto, um elemento de adivinhação. Mas, a partir de pesquisas de empresas específicas e seus investimentos identificáveis, algumas observações são possíveis.

Um estudo de 2013 das 20 maiores empresas multinacionais russas não financeiras dá um valor para o total de ativos estrangeiros no final de 2011 de US$111 bilhões.[34] Para comparação, este total era apenas cerca de um terço das participações estrangeiras em 2013 da maior multinacional não financeira do mundo, a General Electric Co., com sede nos EUA, e menos da metade dos ativos estrangeiros da Exxon Mobil Corporation.[ 35]

Globalmente, nenhuma das multinacionais russas não financeiras se classifica entre as 100 maiores empresas desse tipo quando ranqueadas por ativos estrangeiros.[36] O estudo 2013 citado acima coloca a parcela de participações estrangeiras nos ativos das 20 maiores multinacionais não financeiras russas em um modesto 14 por cento. As multinacionais mundiais de alto nível geralmente possuem mais de metade de suas participações fora de seus países “domésticos”, e, para empresas baseadas em recursos (a maioria dos principais exportadores de capital da Rússia está nesta categoria), esta tendência é especialmente marcada.[37]

O maior investidor estrangeiro russo, LUKOIL, é registrado pelo estudo acima citado como tendo projetos de petróleo e gás em 14 países estrangeiros, bem como refinarias, plantas petroquímicas e cadeias de estações de serviço. Mas com ativos estrangeiros em 2011 de US$29,16 bilhões,[38] a LUKOIL naquele ano tinha apenas cerca de um décimo das participações estrangeiras da maior multinacional petrolífera do mundo, Royal Dutch Shell.[39] Os ativos estrangeiros da LUKOIL em 2011 totalizaram apenas um terço de suas participações em geral.[40]

Claramente, as multinacionais russas são na sua maioria “peixe pequeno”, e seu investimento estrangeiro tende a ser apenas um complemento da sua atividade nas fronteiras russas.

Um argumento favorito dos defensores da tese do “imperialismo russo”, no entanto, diz respeito a planos, encabeçados pelo conglomerado estatal Rostec, para novos investimentos russos na África. Os números das Nações Unidas mostram que o investimento russo passado na África era relativamente pequeno, com investimentos diretos cumulativos em 2011 de cerca de US$1 bilhão.[41] Mas, durante a próxima década, os projetos Rostec criaram uma refinaria de petróleo de US$4 bilhões em Uganda e um complexo de platina de US$3 bilhões no Zimbábue.[42]

Tão impressionantes como esses planos podem parecer, eles não se comparam remotamente com a atividade de investimento estrangeiro de potências imperialistas reais. O Canadá, por exemplo, tem PIB a preços atuais iguais aos da Rússia. Mas, ao lado dos investidores estrangeiros do Canadá, as empresas russas são “fanfarronas” de ficar em casa. As empresas de mineração canadenses em 2012 operaram 80 projetos de mineração na América Latina e tiveram mais 48 no estágio de desenvolvimento ou viabilidade.[43] Em 2013, o investimento estrangeiro estrangeiro canadense no Chile totalizou C$18,2 bilhões; no México, C$12,3 bilhões; no Brasil, C$11,1 bilhões, e no Peru, C$8,1 bilhões.[44] Na África, os investimentos russos projetados são quase triviais ao lado da atividade existente das empresas de recursos australianos.[45]

Investimento russo na CEI

Depois de Chipre e da Europa Ocidental, o investimento estrangeiro russo concentrou-se em outros países pós-soviéticos da Comunidade de Estados Independentes (CEI).[46] Quantificar esse investimento é precisamente impossível, uma vez que grande parte disso é inquestionavelmente encaminhada através da “nuvem offshore“. Mas, com todas as devidas licenças, a expansão empresarial russa nos países da CEI deve ser vista como pequena por padrões mundiais e menor em termos de exportações globais de capital russas.[47]

Os números do governo russo sugerem que, em termos de fundos acumulados, o único dos países da CEI que, em 2011, se classificou entre os dez principais destinos mundiais do investimento estrangeiro russo foi a Bielorrússia, em quinto lugar. [48] Os dados para transações específicas revelam um padrão em que os principais negócios de investimentos russos no CEI foram poucos em números. Uma lista das maiores compras globais de ações das empresas russas entre 2005 e 2010 mostra que de 24 negócios, apenas quatro ativos envolvidos nos países da CEI. O maior deles viu a aquisição pela empresa russa de telecomunicações Vimpel-Com em 2010 da empresa ucraniana de telefonia móvel Kyivstar, por US$5,589 bilhões. Outras compras de ações na Rússia nos países da CEI foram muito menores, de US$2,5 bilhões ou menos.[49] Essas somas são significativas, mas é claro que, em seu conjunto, elas ficam atrasados, por exemplo, no investimento canadense na América Latina.[50]

Na Ucrânia, os números do governo no final de 2012 colocaram a Rússia bem atrás da Alemanha e dos Países Baixos como fonte de investimento estrangeiro direto acumulado, com um esbelto sete por cento do total.[51] A presença econômica russa na Ucrânia é, de fato, mais substancial que isso sugeriria, uma vez que o investimento também foi direcionado através de zonas offshore. Os interesses russos dominam as telecomunicações ucranianas, refinarias de petróleo e produção de alumínio, com importantes participações na metalurgia ferrosa, engenharia mecânica e geração e distribuição de eletricidade.

Os desenvolvimentos políticos nos últimos anos, no entanto, mostram claramente que o impacto do investimento russo na Ucrânia está longe de ser hegemônico. As relações econômicas da Rússia com a Ucrânia desde os tempos soviéticos não foram as de um senhor supremo imperial, mas sim se desenrolaram no contexto da interpenetração econômica entre países vizinhos em níveis similares de desenvolvimento tecnológico e social. As participações dos oligarcas ucranianos na Rússia, deve notar-se, não são de modo algum insignificantes.[52]

Potencial militar e exportação de armas

Apenas um pouco menos fundamental do que o domínio pelos países imperialistas de estruturas econômicas globais é o papel que desempenham no policiamento da ordem mundial. Os países do centro são tipicamente membros de blocos político-militares dirigidos contra a periferia e semi-periferia. As principais potências imperialistas têm importantes indústrias de armas e participam como vendedoras no comércio global de armas.

O potencial militar da Rússia, juntamente com a produção de armas, sugere que o país seja visto como parte do campo imperialista? O potencial militar pode conter objetivos defensivos e agressivos. Se examinarmos as forças armadas russas não apenas como um agregado militar, mas como um fator em um amplo afastamento das forças políticas internacionais, encontramos os pontos de evidência em uma direção claramente não imperialista.

De longe, o poder militar dominante na região européia – e de fato, o mundo – é composto pelos 28 Estados membros da OTAN. Em seus gastos combinados de “defesa” em 2014, os membros da OTAN superaram a China por um fator de cerca de 4,4 e a Rússia em mais de dez para um.[53] É verdade que um dólar na Rússia com baixos salários adquire mais potencial militar do que na Europa Ocidental ou nos Estados Unidos. Mas, se for feito um ajuste apropriado, a diferença ainda é pelo menos cinco a um.[54]

Nas décadas desde que a União Soviética expirou, a OTAN foi expandida até o ponto em que a Rússia enfrenta agora um arco de estados alinhados aos EUA, nas fronteiras ou perto delas, da Turquia ao Golfo da Finlândia. Qualquer um que aceite a existência do imperialismo deve conceder que, como um país economicamente vulnerável – e como objeto de ameaças armadas desiguais do bloco militar mais potente do mundo -, a Rússia tem o direito de atribuir recursos relativamente amplos à sua autodefesa.

Parte do custo da defesa militar russa é financiada através de exportações de armas. Em 2014, o complexo de produção bélica do país vendeu um arsenal de US$13,2 bilhões no mercado mundial.[55] Nos anos de 2010 a 2014, a Rússia ordenou 27% das vendas mundiais de armas, em segundo lugar apenas para os EUA com 31%, embora com uma disseminação muito mais estreita de clientes.[56]

Estes números, no entanto, precisam ser mantidos em perspectiva. Em 2013, as empresas russas de armas gozaram de vendas totais em casa e no exterior de US $ 31 bilhões.[57] Mas essa soma foi menor que as vendas desse ano pela maior corporação de armas simples do mundo, a Lockheed Martin, sozinha.[58] Em 2014, sete empresas russas fizeram a lista dos 100 maiores produtores de armas do mundo. Mas o cenário para as corporações dos EUA foi de 42 empresas, com sete dos 10 melhores lugares.[59]

Enquanto isso, a fraqueza da afirmação de que as exportações de armas em larga escala são em si evidências do imperialismo é demonstrada pelo fato de que, em 2012, o quarto maior exportador de armamentos do mundo era a Ucrânia, fornecendo armas sob contratos assinados com não menos de 78 países.[60]

Estrutura social e provisões de bem-estar

Para muitos não especialistas, os fatores econômicos e até mesmo militares são menos importantes para distinguir entre países imperialistas e não-imperialistas do que a qualidade do cotidiano das massas de cidadãos comuns. Nos países imperialistas, a percepção é boa, tais pessoas vivem bem e, quando não, eles pelo menos se beneficiam dos sistemas de saúde e bem-estar do Estado.

Para ser mais científico, os países imperialistas possuem grandes classes médias, consistindo em empregados melhor remunerados, profissionais independentes e pequenos e médios empresários. [61] A “boa vida” dessas camadas reflete, em grande medida, o sucesso do imperialismo na extração de valor das populações do mundo em desenvolvimento. Enquanto isso, a prosperidade relativa das grandes classes médias se alimenta e sustenta o imperialismo. As pessoas de classe média exercem uma demanda efetiva do consumidor que sustenta uma multidão de empresas nacionais, e suas economias contribuem de forma importante para o sistema financeiro. Seu contentamento com suas vidas alimenta atitudes conservadoras, garantindo a paz social em casa e consentimento para guerras no exterior.

Como a Rússia se classifica de acordo com esses critérios? A classe média russa, como bem entendida, é pequena. Simplesmente não é possível que a massa de trabalhadores assalariados russos possa ser considerada “classe média”. Um conjunto de dados de 2013, compilado antes da forte desvalorização do rublo nos últimos meses de 2014, mostra uma grande maioria de russos com renda mensal per capita na faixa de $300-800.[62] Nas cidades russas, especialmente Moscou e São Petersburgo, tais somas, mesmo em seu nível superior, cobrem pouco mais do que comida e roupas básicas, juntamente com taxas de serviços e tarifas de transporte. Essas rendas são suportáveis apenas para os trabalhadores porque a maioria não paga aluguel, tendo sido capaz de privatizar seus apartamentos anteriormente estatais.

Qual a quantidade de renda na Rússia realmente confere status de classe média, no sentido significativo de ter um poder de despesa irrestrita apreciável e uma habilidade, se desejado, para economizar dinheiro? Como uma regra geral bastante generosa, devemos definir uma renda da classe média na Rússia como a soma necessária para garantir um modesto padrão de vida no estilo ocidental.

Em 2013, revelam dados do Censo dos EUA, a renda média per capita (metade abaixo, metade acima) nos EUA foi de US$1.668 por mês. Esta soma não compra um estilo de vida opulento nos EUA, nem faz isso na Rússia. Ainda assim, uma família russa com renda per capita de US$1.668 por mês em 2013 poderia comprar um carro usado e bens duráveis domésticos, incluindo um grande aparelho de televisão de tela plana, bem como roupas e mobiliário de bom gosto. Eles poderiam tirar uma hipoteca em um apartamento modesto, jantar ocasionalmente em restaurantes e pensar em feriados na Turquia.

Em que ponto, na escala de distribuição de renda da Rússia em 2013 pela população, o nível acima de bem-estar foi reduzido? Os dados desse ano mostram que apenas 10,9 por cento dos russos tinham rendimentos monetários per capita superiores a 50.000 rublos por mês – nesse ponto, cerca de US $ 1.520. [63] Isso indica fortemente que, nesse ano relativamente próspero, a proporção de russos com estilos de vida semelhantes aos dos americanos de renda média, ou melhor, não era mais do que cerca de 10%.

Claramente, não há nenhum lugar nesta imagem para uma classe média ampla e próspera, exercendo uma substancial demanda dos consumidores. A maioria dos russos consegue consumir pouco mais que o essencial, com o resultado de que a fabricação e os serviços permanecem fracos.

Em economias imperialistas, a alta produtividade do trabalho é sustentada por sistemas desenvolvidos de educação, saúde e segurança social. O neoliberalismo nas últimas décadas viu esses sistemas serem submetidos a um ataque implacável, mas continuam sendo uma característica distintiva do capitalismo avançado.

Na Rússia, as provisões sociais se deterioraram acentuadamente desde os tempos soviéticos. O país continua a exibir um número impressionante de pessoal altamente treinado, mas os gastos com educação agora estão bem abaixo dos níveis médios da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), tanto em termos absolutos per capita como em proporção do PIB.[64] A despesa bruta em pesquisa e desenvolvimento caiu de dois por cento do PIB em 1990 para um número mundial essencialmente em desenvolvimento de um por cento em 2008,[65] antes de se recuperar para 1,5 por cento em 2013. O último valor compara com 2,8 por cento nos EUA e Alemanha, e 3,4 por cento no Japão.[66]

É na área de cuidados de saúde, entretanto, que o capitalismo russo levou o país a regredir de forma espetacular para o estágio de “em desenvolvimento”. A escassez aguda de financiamento forçou a privatização espontânea em larga escala de serviços de saúde. Em uma pesquisa mundial de 2015 sobre a expectativa de vida, a Rússia com sua média de 70,47 anos foi classificada no número 153 de 224 países listados, atrás de Honduras e Bangladesh.[67]

Conclusão: a necessidade da análise leninista

Resumindo, quais as causas que podem ser encontradas para admitir a Rússia à “comunidade fechada” de Estados capitalistas altamente desenvolvidos, os países imperialistas? Em essência, nenhum – ou talvez um, se ignorarmos as especificidades da produção de armas da Rússia e aceitarmos isso como uma característica “imperialista”.

Por outro lado, a Rússia exibe um denso agrupamento das características necessárias para identificá-lo como parte da semi-periferia capitalista.

A Rússia não abriga um capitalismo avançado, nem uma classe média ampla e próspera. Seus monopólios tendem a ser insignificantes ao lado de vários países que fazem parte da semi-periferia, e muito menos dos monstros corporativos do centro imperialista. A produção industrial russa perdeu grande parte da sua diversidade passada, e seu nível técnico geral é decididamente atrasado, enquanto que, em um padrão que lembra as áreas menos desenvolvidas da periferia, o setor extrativista representa uma grande parte do produto. O comércio exterior da Rússia tem um caráter marcadamente dependente e o país exporta principalmente commodities básicas para as quais os preços são muitas vezes abatidos. Conduzindo pouco comércio com áreas mais pobres da periferia, a Rússia não se beneficia significativamente com a troca comercial desigual. Não existe um excedente global de capital na Rússia e, embora o país, no entanto, exporte capital, é por razões perversas e apesar de uma quase-catastrófica falta de investimento em infraestrutura e planta produtiva.

Com o seu real investimento estrangeiro concentrado em países do centro, a Rússia desempenha pouca participação direta na atividade imperialista por excelência – a exportação de capital para a periferia e a extração de lucros do trabalho e dos recursos do país em desenvolvimento. O capital financeiro da Rússia é pequeno e fraco, e a natureza caótica, em grande parte criminalizada, do setor financeiro russo exclui qualquer possibilidade de que este setor possa desempenhar um papel hegemônico na economia.

Nenhuma dúvida possível pode permanecer aqui: nos termos que Lenin definiu, a atual Rússia não é um poder imperialista.

Mas quem foi Lênin, afinal? E um século depois que ele escreveu, a esquerda de hoje ainda precisa se enfileirar em seu mausoléu? Não há análises alternativas, mais modernas, incorporando as mudanças que o imperialismo sofreu desde 1917?

Existem — mas não marxistas. Uma análise materialista do sistema mundial capitalista de hoje — e de sua característica saliente, a surpreendente polarização global da riqueza entre seu núcleo privilegiado e os territórios outorgantes empobrecidos — tem que se basear nas definições e metodologia de Lenin. Várias modificações para a análise de Lênin são realmente necessárias, e o conceito de semi-periferia é apenas um deles. Mas devemos supor que pode haver uma tomada adequada do imperialismo moderno que não reside no monopolismo, no poder do capital financeiro, no excesso de acumulação de capital do sistema e na compulsão resultante de expandir sua esfera de operações? E onde todos ou a maioria desses elementos estão faltando, ou estão presentes apenas em parte e de forma ambígua, isso não significa que estamos lidando com uma entidade fundamentalmente diferente, não imperialista?

Talvez, no entanto, estamos muito pendurados no domínio material e nas restrições que coloca no nosso pensamento. Talvez as definições que devemos aplicar sejam “definições da escritura”. Talvez a consideração crucial não é o que a Rússia é, mas o que ela faz. Se um país usa sua força armada para se meter em assuntos fora de suas fronteiras, isso não o torna imperialista per se?

O problema com essa linha de argumentação é que isso leva bem rápido a conclusões verdadeiramente bizarras. Muitas guerras foram travadas no último meio século entre os países da periferia, e se classificarmos a Rússia como imperialista simplesmente com base em incursões armadas em países vizinhos nas quais incorreu, então, lógicamente, também devemos falar de imperialismo paquistanês ou iraquiano, ou mesmo, nos últimos tempos, do imperialismo sudanês.

Se classificarmos como países imperialistas que claramente fazem parte do mundo em desenvolvimento, como explicar o fosso entre os ricos globais e os pobres? Usado nesta moda impressionista, essencialmente liberal, o termo “imperialismo” perde todo o potencial como ferramenta de análise. Compreender a natureza e a dinâmica do capitalismo mundial atual torna-se impossível.

Especificamente, se rejeitarmos uma análise materialista, perdemos a capacidade de distinguir entre as hegemônias globais e suas vítimas. Em conflitos cruciais, nos encontramos exibindo uma mentalidade míope que confunde os assaltados junto com os assaltantes. Nessas circunstâncias, a resistência internacional à violência imperialista é confusa e embriagada. Às vítimas são negadas a nossa solidariedade. Por serem opositores ao imperialismo, somos transformados em algo próximo aos seus cúmplices.Renfrey Clarke é um escritor e ativista político australiano correspondente em Moscou, nos anos 1990, para o jornal Green Left Weekly. Roger Annis é um trabalhador aeroespacial aposentado, ativista solidário e blogueiro canadense que realizou diversas viagens de pesquisa para a Criméia e o Donbass. Ambos Annis e Clarke estão entre os editores do site New Cold War.

Notas

[1] Alimentando esse debate, em particular, há desenvolvimentos na Ucrânia desde que os EUA e o imperialismo da Europa Ocidental, em fevereiro de 2014, conseguiram a derrubada da administração eleita de Viktor Yanukovych. Esta reviravolta foi conspirada em detalhes por diplomatas estadunidenses e as agências dos EUA gastaram bilhões de dólares na preparação. Quando a oposição ao novo governo ultra-direitista de Kiev emergiu como revoltas populares na Criméia e no Donbass, e recebeu apoio de Moscou, a mídia ocidental rapidamente acusou a Rússia do “imperialismo”. Este elemento foi então retomado e repetido de forma acrítica por seções importantes da esquerda ocidental.

[2] V.I. Lenin, Selected Works. Moscow, Progress Publishers, 1970, vol. 1, p. 737.

[3] GDP per capita at PPP, World Bank, 2014,
https://en.wikipedia.org/wiki/List_of_countries_by_GDP_%28PPP%29_per_capita

[4] Ver ensaio de Lenin, The Discussion on Self-Determination Summed Up. Em National Liberation, Socialism and Imperialism: Selected Writings by V.I. Lenin. N.Y., International Publishers, 1968, 1970, p. 164.

[5] Ibid., p. 147.

[6] Ver Lenin, Selected Works, vol. 1, p. 736: “Capitalismo só se tornou imperialismo capitalista em um estágio muito alto e definido do seu desenvolvimento, quando (…) os traços da época da transição do capitalismo para um sistema social e econômico mais elevado tomaram forma e se revelaram em todas as esferas.”

[7] http://knoema.com/sijweyg/gdp-per-capita-ranking-2015-data-and-charts

[8] Table 2–4, http://publications.credit-suisse.com/tasks/render/file/index.cfm?fileid=C26E3824-E868-56E0-CCA04D4BB9B9ADD5

[9] Calculated from stats.oecd.org/Index.aspx?DataSetCode=PDB_LV. OECD figures. See http://www.themoscowtimes.com/business/article/russians-named-europes-least-productive-workers/527669.html

[10] Expositores destacados desta tese incluem economistas políticos da Universidade Estadual de Moscou Aleksandr Buzgalin e Andrey Kolganov.

[11] Ver Ruslan Dzarasov, The Conundrum of Russian Capitalism (London, Pluto Press, 2014).

[12] Esta expressiva frase é a de Buzgalin e Kolganov.

[13] Segundo o Banco Mundial, a formação bruta de capital fixo na Rússia em 2013 foi de 21,47 por cento do PIB, contra mais de 30% no final do período soviético (www.tradingeconomics.com/russia/gross-fixed-capital-formation-percent-of-gdp-wb-data.html).

[14] Dzarasov, op. cit., pp. 203, 204.

[15] www.forbes.com/global2000/list#tab:overall

[16] Lenin, Selected Works, vol.1, p. 737.

[17] Table 2–4, http://publications.credit-suisse.com/tasks/render/file/index.cfm?fileid=C26E3824-E868-56E0-CCA04D4BB9B9ADD5

[18] Lenin, op. cit., p. 701.

[19] https://www.atkearney.com.au/documents/10192/572733/A_Chessboard_Strategy_for_Russias_Banking_Market.pdf/390d7bc6-8cc3-4f9c-9fd3-d71f4226c026

[20] https://www.snl.com/InteractiveX/Article.aspx?cdid=A-33361429-13866

[21] See www.forbes.com/companies/sberbank;www.relbanks.com/worlds-top-banks/market-capwww.forbes.com/companies/itau-unibanco-holding/

[22] http://washpost.bloomberg.com/Story?docId=1376-NZCGV56S972G01-6K92CFG6J3D6CLN5DUCPTT15MB

[23] https://www.denizbank.at/en/AboutUs/AboutSberBank

[24] CEE Banking Sector Report June 2015,
http://www.rbinternational.com/eBusiness/services/resources/media/829189266947841370-829189181316930732_829602947997338151-1078945710712239641-1-2-EN-9.pdf

[25] Em um artigo de 2014, a pesquisadora econômica de Moscou, Olga Koshovets, fez esse comentário sobre o destino da indústria civil de alta tecnologia da Rússia: “As capacidades de produção e tecnologia existentes estão praticamente esgotadas, já que foi criada na URSS e, após sua queda, quase não foram construídas novas fábricas e as instalações de produção existentes não foram desenvolvidas” (http://www.scientific-publications.net/get/1000007/1409340758352379.pdf)

[26] Rosstat, 2013. Ver www.gks.ru/bgd/regl/b14_13/IssWWW.exe/Stg/d04/26-01.htm

[27] www.gks.ru/bgd/regl/b14_13/IssWWW.exe/Stg/d04/26-10.htm

[28] As exportações de armas russas, apesar do seu sucesso nos mercados mundiais, não alteraram substancialmente a estrutura do comércio de exportação da Rússia. Nos últimos anos, armas e equipamentos militares, que representam cerca de 60% das exportações russas de alta tecnologia, representaram apenas cerca de 3% das exportações do país em geral. Ver Olga B. Koshovets, https://www.scientific-publications.net/get/1000007/1409340758352379.pdf

[29] http://www.gks.ru/bgd/regl/b14_13/IssWWW.exe/Stg/d04/26-13.htm

[30] data.worldbank.org/indicator/TX.VAL.TECH.CD/countries

[31] Ver http://atlas.media.mit.edu/en/profile/country/rus/#imports

[32]www.cbr.ru/eng/statistics/print.aspx?file=credit_statistics/dir_inv_out_country_e.htm&pid=svs&sid=ITM_586

[33] O Moscow Times, em maio de 2015, citou dados do governo russo que colocaram a saída de capital líquido do país em 2014 em US$154,1 bilhões, e o total desde 1999 em cerca de US$550 milhões. O documento aponta ainda que, de acordo com pesquisadores independentes, o total verdadeiro pode ser superior a US$1 trilhão (www.themoscowtimes.com/business/article/russia-massive-capital-flight-continues/520112.html).

[34] IMEiMO e Vale Columbia Center, “Global Expansion of Russian Multinational after the Crisis: Results of 2011”. ccsi.columbia.edu/files/2013/10/Russia_2013.pdf

[35] http://topforeignstocks.com/2014/09/16/the-worlds-top-100-non-financial-tncs-ranked-by-foreign-assets/

[36] Ibid.

[37] Ibid.

[38] IMEiMO e Vale Columbia Center, “Global Expansion of Russian Multinational after the Crisis: Results of 2011”. ccsi.columbia.edu/files/2013/10/Russia_2013.pdf

[39] www.economist.com/blogs/graphicdetail/2012/07/focus-1

[40] Os ativos totais da LUKOIL em 2011 foram de US$84 bilhões.
Ver http://www.forbes.com/lists/2012/18/global2000_2011.html

[41] unctad.org/en/PublicationsLibrary/webdiaeia2013d6_en.pdf

[42] www.voanews.com/content/sanctions-hit-russia-looks-to-africa-to-boost-arms-tech-sales/2709611.html

[43] cidpnsi.ca/Canadian-mining-investments-in-latin-america/

[44]www.parl.gc.ca/Content/LOP/ResearchPublications/2014-49-3.htmlcidpnsi.ca/Canadian-foreign-direct-investment-abroad/

[45] As empresas australianas de recursos foram registradas em 2014 como operantes em mais de 1000 projetos em 30 nações africanas e tendo descoberto quase AUD$ 700 bilhões (cerca de US$650 bilhões) de minerais em todo o continente nos últimos cinco anos (www.abc.net.au/news/2014-09-03/miner-look-to-africa-for-new-opportunities/5716934).

[46] Um estudo americano observa que, dos ativos estrangeiros detidos em 2011 pelas 20 maiores multinacionais russas, mais de 66% estavam na Europa e na Ásia Central, com 28% nas ex-repúblicas da URSS. Ver ccsi.columbia.edu/files/2013/10/Russia_2013.pdf

[47] Um estudo de 2014, que cita dados do Banco Central da Rússia, afirma que, no total de ativos estrangeiros russos em 2012 de US$1241,4 bilhões, apenas US$50,4 bilhões (4,1%) foram realizados em outros estados da CEI. Ver www.kier.kyoto-u.ac.jp/DP/DP899.pdf No entanto, esses números não têm em conta o fator “Chipre”.

[48] Ver Rosstat, www.gks.ru/bgd/regl/b12_13/Isswww.exe/Stg/d5/24-24.htm

[49] A.V. Buzgalin, A.I. Kolganov e O.V. Barashkova, “Rossiya: novaya imperialisticheskaya derzhava?” Unpublished manuscript, 2015.

[50] As aquisições russas 2005-2010 de ativos CEI registrados por Buzgalin, Kolganov e Barashkova (op. Cit.) totalizam menos de US$12 bilhões.

[51] State Statistics Committee of Ukraine, citado em www.e-finanse.com/artykuly_eng/276.pdf

[52] Ver lenta.ru/articles/2014/09/04/property

[53] Números do Instituto de Pesquisa da Paz Internacional de Estocolmo
(books.sipri.org/files/FS/SIPRIFS1504.pdf).

[54] In the case of Russia, the multiplier applied to nominal GDP in US dollars to obtain GDP at PPP is about 2.0 (IMF, World Bank).

[55] www.themoscowtimes.com/article.php?id=526366.

[56] SIPRI International arms transfers 2014 (books.sipri.org/files/FSSIPRI1503.pdf). Quase 60 por cento das vendas de armas russas durante esses anos eram para apenas três países, Índia, China e Argélia

[57] www.themoscowtimes.com/business/article/russian-arms-exports-hit-13-billion-in-2014/513553.html.

[58] https://www.sipri.org/sites/default/files/files/FS/SIPRIFS1405.pdf

[59] http://people.defensenews.com/top-100

[60] https://www.kyivpost.com/article/content/ukraine-politics/ukraine-worlds-4th-largest-arms-exporter-in-2012-according-to-sipri-321878.html

[61] A sociologia burguesa norte-americana, que nega ou discorda do conceito de classe trabalhadora, obscurece a estrutura de classes sob o capitalismo avançado, classificando a maioria dos trabalhadores empregados como “classe média”. Mas quando um grande número de trabalhadores americanos vive de pagar para pagar, ou depende do apoio do bem-estar, essa categorização é claramente absurda.

[62] Números preparados para este estudo por Anna Ochkina da Universidade Pedagógica do Estado de Penza, com base nos dados da Rosstat e pesquisas sobre os orçamentos domésticos. E-mail pessoal de 16 de agosto de 2015.

[63] Números preparados por Anna Ochkina de fontes estatísticas russas.

[64] Ver
https://www.oecd.org/edu/Russian%20Federation_EAG2013%20Country%20Note.pdf

[65] www.oecd.org/sti/inno/46665671.pdf accessado em 7 de fevereiro de 2016.

[66] https://go8.edu.au/sites/default/files/docs/publications/policy_note_government_research_funding_in_2014_in_selected_countries_final.pdf acessado em 7 de fevereiro de 2016.

[67] http://www.infoplease.com/world/statistics/life-expectancy-country.html, acessado em 7 de fevereiro de 2016.

Acerto de contas selvagem em Wall Street: Nuvens pairam sobre a reunião do G-20

Mike Whitney

counterpunch: Tells the Facts and Names the Names

Os ministros das Finanças e banqueiros centrais de maiores economias do mundo reuniram-se em Shanghai, China no fim de semana para discutir muitos dos problemas para os quais só eles são responsáveis. No primeiro lugar da lista de problemas aparece a inabalável desaceleração do crescimento global a qual, em vasta medida, é resultado das políticas monetárias experimentais que bancos centrais implementaram a partir da recessão em 2009. Surpreendentemente, o grupo admitiu que as estratégias "de alívio" que inventaram ["easing strategies"] não produziram a recuperação duradoura que tanto buscavam, mas, ao mesmo tempo, ninguém fez qualquer esforço para corrigir os próprios erros, nem ninguém cogitou de introduzir as mudanças necessárias para conter a queda do produto global. Adiante, breve recapitulação de Bloomberg:

"Chefes das finanças das maiores economias do mundo prometeram que os respectivos governos farão mais para estimular o crescimento global, entre crescentes preocupações em torno da potência da política monetária. 
Em promessa muito mais fácil de prometer que de cumprir e que pode vir a desapontar investidores à procura de algum plano coordenado de estímulos, o G-20 disse que "usaremos política fiscal flexível para fortalecer o crescimento, a criação de empregos e a confiança". Depois de reunião de dois dias em Xangai, ministros de Finanças e presidentes de bancos centrais também repetiram o que já se ouvira na reunião anterior, que "a política monetária, só ela, não pode levar a crescimento equilibrado."

Isso é conversa fiada completa. Chefes das finanças das principais economias do mundo não comprometeram os respectivos governos a fazer mais para estimular o crescimento global. Bem ao contrário, não moveram um dedo para mudar coisa alguma. Por isso Wall Street vê-se em palpos de aranha, porque não conseguiram o alívio muito aliviado de dinheiro pelo qual tanto ansiavam. Claro. Agora que as ações estão nas cordas e os lucros corporativos só fizeram cair durante dois trimestres consecutivos (sinal de recessão iminente), os rapazes do big money querem é mais favores do Tio Sam, dessa vez no formato de estímulos fiscais e "reformas estruturais", que são codinomes secretos equivalentes a "medidas pró-business" – que sempre significam cortar salários dos trabalhadores e reduzir ainda mais os impostos sobre corporações vorazes – e o fim de qualquer regulação que ainda regule alguma coisa, para que Wall Street possa depenar mais facilmente "Nós, o Povo".

Os mercados, de fato, estavam esperando alguma indicação de que havia mais almoço grátis só para eles, cortesia do governo. Mas os ministros de Finanças não conseguiram entrar em acordo em torno de coisa alguma, o que fez com que toda a conversa de mais e mais "estímulos" fosse frustrada, de vez. Em outras palavras, Wall Street ficou a ver navios. Por isso os rapazes lá estão tão transtornados. Vejam aí, da Financial Review:

"Investidores queimados no torvelinho dos mercados globais procuram por sinais de que os mais altos funcionários das finanças do mundo estão dispostos a tomar medidas para inflar o crescimento e acalmar os movimentos de moedas... Steven Englander, do Citigroup, disse que qualquer desconfiança de que os políticos não falarão, na declaração final, de apoio mais explícito a estímulos fiscais será visto com desagrado pelos investidores. Para Andrew Brenner, diretor de renda fixa na corretora National Alliance Capital Markets em New York, compromisso firmado com a expansão fiscal e clareza sobre a política monetária chinesa farão subir os fundos, semana que vem; e as ações despencarão, se nada se decidir quanto a essas questões...

"Manter os mesmos termos de antes será grave desapontamento, e será visto ou como complacência ou como sinal de paralisia política" – disse Englander, diretor de estratégia monetária para grandes economias desenvolvidas do Citigroup, em relatório de 25 de fevereiro de 2016. Conclamou o G-20 a "criar coragem para dizer aos países membros que a política monetária tem de ser acompanhada por expansão fiscal ("G-20 needs to ‘man up’ to avert more market turmoil, says Citigroup’s Englander", Financial Review)

Você pode ver o que está acontecendo? Todos já aceitam o fato de que a política monetária perdeu a eficácia. Então, agora, Wall Street quer facilidades fiscais. E pouco se importam com como as obtenham. Observem o cuidado de Mr. Englander com as palavras – e a clara ameaça: "Manter os mesmos termos de antes será grave desapontamento, e será visto ou como complacência ou como sinal de paralisia política." Em outras palavras, se Wall Street não conseguir mais ajuda do governo vai bater o pé e ter outro enorme chilique.

Reuters conta a mesma história. Confira:

"Os investidores podem voltar a posições prévias nos fundos, porque o G-20 não está conseguindo conduzir as economias na direção de novas medidas concretas para estimular a economia, disseram os analista... 
"O fato de que o G-20 só fará mais do mesmo será acolhido com bocejo monstro e provável queda no mercado de ações", disse Richard Edwards, diretor-gerente de comércio e pesquisa da firma HED Capital. Outros deram sinais semelhantes de desânimo. 
"Alguns ficarão desapontados se não houver medidas concretas", disse François Savary, chefe de investimentos na firma Prime Partners de investimentos e consultoria com sede em Genebra." (Reuters)

"Algumas pessoas vão se decepcionar", diz Savary?? Bem, foda-se! Quer dizer, quanto tempo é que vamos continuar a moldar a política para que ela atenda às necessidades exclusivas dos sugadores de sangue em Wall Street? É loucura!

Para bancos centrais e chefes de finanças, crescimento e mais empregos não valem, sequer, um rasgo. Não querem nem saber do estado geral da economia. Toda essa conversa é papo furado. É piada. A única coisa que lhes interessa são os lucros e os preços das ações. E só. O resto é só encher linguiça sobre "fazer mais para estimular o crescimento" ou "usar políticas fiscais para aprofundar a criação de empregos e aumentar a confiança. É de vomitar. Aqui, um pequeno excerto do comunicado do G-20:

"A recuperação global prossegue, mas ainda é desigual e não atende nossa ambição de crescimento forte, sustentável e equilibrado... Mesmo reconhecendo esses desafios, ainda assim entendemos que a magnitude da recente volatilidade dos mercados não se refletiu nos fundamentos subjacentes da economia global."

Fundamentos? Que fundamentos? Bancos centrais globais compraram mais de $10 trilhões de portfólios pressionados, desde o fim da recessão em 2009. Alguém aí está pensando que essa redução na oferta pode ter afetado o preço de ações e papéis, um pouquinho só, que fosse? Apenas um pouquinho?

Os investidores sabem que tudo isso é miragem. Sabem que ações cujos preços vão à estratosfera são mantidas em pé com goma de mascar e fita isolante. Por isso, todos saltam rapidamente para fora, e pedem resgates, ao primeiro sinal de confusão. E é isso que faz das confabulações do G-20 uma ocasião tão importante para as manchetes, porque os chefões das finanças e os cérebros bancários absolutamente não tinham o que pôr sobre a mesa. Basicamente, mandaram Wall Street "empacotar areia".

Chegaram até a dar as costas a um apelo emocional feito pelo FMI, para que tomassem "ação firme" para estimular o crescimento e evitar maiores danos ao já frágil sistema financeiro.

Eis o que disse o FMI:

"O G20 deve planejar agora para oferecer suporte coordenado à demanda usando o espaço fiscal disponível para estimular o investimento público e complementar reformas estruturais... É necessária abordagem abrangente, para reduzir a super-dependência em relação à política monetária. Em particular, política fiscal de curto prazo [near-term fiscal policy] deve garantir maior suporte onde apropriado e desde que haja espaço fiscal... A economia global precisa de ações multilaterais de peso para estimular o crescimento e conter os riscos."

Isso é uma reviravolta para os promotores de austeridade do FMI, você não acha?

Mas o Fundo está apenas sendo pragmático. Agora que a política monetária deu com os burros n'água, estímulo fiscal é o único jogo aberto na cidade. As coisas são como são. Ou os ministros das finanças aceitam esse fato e empurram para gastos adicionais do governo em programas de infra-estrutura e similares, ou ações e os lucros vão enfrentar um acerto de contas selvagem. É simples assim.

O socialismo e o feminismo não entram às vezes em conflito?

Em última análise, os objetivos do feminismo radical e do socialismo são os mesmos – justiça e igualdade para todas as pessoas.

por Nicole M. Aschoff

Jacobin

Ilustração por Phil Wrigglesworth
Socialismo e feminismo têm uma relação longa, e por vezes pesada.

Socialistas são muitas vezes acusados de enfatizarem demais a questão de classe – de colocar a divisão estrutural entre aqueles que precisam trabalhar em troca de um salário para sobreviver e aqueles que possuem os meios de produção no centro de cada análise. Até pior, eles ignoram ou inferiorizam o quão centrais outros fatores – como sexismo, racismo ou homofobia – são na formação de hierarquias de poder. Ou eles admitem a importância destas normas e práticas negativas, mas defendem que elas somente poderão ser extirpadas depois que a gente se livrar do capitalismo.

Ao mesmo tempo, socialistas acusam feministas hegemônicas de se focar demais em direitos individuais ao invés da luta coletiva, e ignorar as divisões estruturais entre as mulheres. Eles acusam as feministas hegemônicas de se alinharem com projetos políticos burgueses que diminuem a capacidade de ação de mulheres trabalhadoras, ou de pressionar por demandas de classe média que ignoram as necessidades e desejos de mulheres pobres, tanto no Norte Global quanto no Sul.

Estes debates são antigos e datam da metade do século XIX e da Primeira Internacional, e giram em torno de questões políticas profundas sobre poder e as contradições da sociedade capitalista.

Turvando ainda mais as águas está a forma com que as políticas do feminismo são complicadas pela natureza histórica do Capitalismo – a forma como o sexismo está integrado tanto no processo de lucro quanto no de reprodução do sistema capitalista como um todo é dinâmico.

Este dinamismo é muito aparente hoje, quando uma mulher candidata à presidência, Hillary Clinton, é a principal escolha entre os milionários estadunidenses. Mas a divisão entre Socialismo e Feminismo é, em definitivo, desnecessária.
Por que Socialistas deveriam ser Feministas

A opressão às mulheres, tanto na sociedade dos EUA quanto globalmente, é multi-dimensional – divisões de gênero nas esferas política, econômica e social sublinham por que, para nos libertar das tiranias do Capital, os Socialistas precisam ser também Feministas.

A possibilidade de uma mulher finalmente se tornar presidenta dos EUA joga luz sobre a rígida falta de lideranças femininas, tanto nos EUA quanto ao redor do mundo. Apesar de mulheres poderosas como Angela Merkel, Christine LeGarde, Janet Yellen e Dilma Rousseff, o equilíbrio de gênero nos mundos político e corporativo permanece altamente enviesado. Apenas 4% dos CEOs nas empresas da Fortune 500 são mulheres e a maioria das mesas diretoras de corporações têm poucos membros femininos, quando têm algum.

Globalmente, 90% dos Chefes de Estado são homens, e no Fórum Econômico Mundial de 2015 apenas 17% dos 2500 representantes eram mulheres, enquanto 2013 marcou a primeira vez que as mulheres conquistaram 20 cadeiras no Senado dos EUA.

Diferente de muitos países, as mulheres nos Estados Unidos possuem, a grosso modo, direitos igualitários e proteção legal, além de tanto acesso a educação, nutrição e cuidados de saúde quanto os homens. Mas as divisões de gênero são aparentes através da sociedade.

As mulheres se saem melhor que os homens na educação superior, mas elas não atingem níveis comparáveis de sucesso ou riqueza e permanecem estereotipadas e sub-representadas na mídia popular. Ataques aos direitos reprodutivos femininos [2] continuam sem diminuir e, depois de uma longa e contínua queda nos anos 90, as taxas de violência contra as mulheres não se movem desde 2005.

Ao mesmo tempo, decisões sobre como balancear a vida doméstica e de trabalho, diante de custos sempre crescentes de moradia e cuidado infantil, são tão difíceis quanto sempre foram. Nos 50 anos desde a passagem do Ato de Pagamento Igualitário de 1963 as mulheres penetraram na força de trabalho em massa; hoje 60% das mulheres trabalham fora de casa. Mães solteiras e casadas têm mais chance de trabalhar, incluindo 57% de mães de crianças de menos de 1 ano.

Mas mulheres que trabalham em jornada completa ainda ganham apenas 81% do que os homens ganham – um número inflado pelo declínio mais rápido nos salários de homens nos últimos anos (com exceção dos que possuem diploma superior) nos anos recentes.

Diferenças de pagamento são comparáveis às divisões de gênero no trabalho. Os setores de varejo, serviços e alimentação – o centro do crescimento de novos empregos – são dominados por mulheres, e a feminização do trabalho de “assistência” é ainda mais pronunciado. Apesar de ganhos recentes, como a extensão do Ato de Padrões Justos de Trabalho aos trabalhadores domésticos, trabalho de assistência [3] ainda é visto como trabalho de mulher e sub-valorizado. Números desproporcionais de empregos de cuidados são contingentes, pagam pouco e onde humilhações, assédio, agressões sexuais e roubo de salário são comuns.

Em adição a estas diferenças claras entre as experiências de homens e mulheres nos EUA, existem efeitos mais perversos e de longo alcance do sexismo. Feministas como bell hooks argumentam que o sexismo e o racismo impregnam todos os cantos da sociedade e que narrativas dominantes de poder glorificam visões de vida brancas e heteronormativas.

Desde o nascimento, meninos e meninas são tratados diferentemente e estereótipos de gênero são introduzidos em casa, na escola, e na vida cotidiana e perpetuados através das vidas das mulheres, dando forma às suas identidades e escolhas de vida.

O sexismo também exerce um papel menos óbvio, mas crítico, na criação de lucros. Desde o começo, o Capitalismo tem dependido de trabalho não-pago fora do mercado de trabalho (principalmente no lar) que provê ingredientes essenciais para a acumulação de capital: trabalhadores – que precisam ser criados, vestidos, alimentados, socializados e amados.

Este trabalho não-pago é altamente marcado pelo gênero. Enquanto mais homens tomam parte nas tarefas domésticas e na educação infantil do que no passado, a reprodução social ainda cai primariamente sobre as mulheres, de quem se espera que carreguem nos ombros o fardo mais pesado no trabalho doméstico. A maioria das mulheres também faz trabalho pago fora de casa, tornando o seu trabalho em casa um “segundo turno.” Desta forma, mulheres são duplamente oprimidas – exploradas no espaço de trabalho e não-reconhecidas como trabalhadoras na reprodução social da força de trabalho.

Por que feministas deveriam ser socialistas

Estas divisões de gênero que atravessam as classes e persistem – nas esferas política, econômica e social – dão combustível ao ponto de vista feminista dominante de que o sexismo é uma coisa separada do Capitalismo, algo com que precisamos lidar separadamente.

Através de numerosas ondas de luta feminista, ativistas tem perseguido uma variedade de estratégias no combate ao sexismo e a divisões de gênero. Hoje, feministas hegemônicas gravitam rumo a um foco em colocar a mulher no poder – tanto na esfera política quanto econômica – como um caminho para resolver a série de problemas que as mulheres encaram, tais como desigualdade salarial, violência, equilíbrio entre vida e trabalho e socialização sexista.

Eminentes porta-vozes femininas [4] como Sheryl Sandberg, Hillary Clinton, Anne-Marie Slaughter e muitas outras defendem esta estratégia feminista de “tomada de poder.” Sandberg – uma das mais influentes defensoras desta estratégia – argumenta que as mulheres precisam parar de ter medo e começar a “desbaratar o status quo.” Se elas fizerem isso, ela acredita que esta geração pode diminuir a lacuna de lideranças e, ao fazer isso, tornar o mundo um lugar melhor para todas as mulheres.

O impulso do argumento de tomada de poder é que se as mulheres estivessem no poder elas, diferente dos homens, iriam dar conta de implementar políticas que beneficiariam mulheres e aquela divisão de gênero que atravessa classes nas esferas econômica, política e cultural somente será eliminada se as mulheres mantiverem um número de posições de liderança igual ao dos homens.

A ênfase em avanços individuais como o caminho para atingir os objetivos do Feminismo não é nova, e tem sido criticada por numerosas feministas, incluindo Charlotte Bunch e Susan Faludi, que questionam a noção de solidariedade entre irmãs como um remédio para divisões de gênero muito enraizadas. Como Faludi diz, “Você não pode mudar o mundo para as mulheres apenas inserindo rostos femininos no topo de um sistema intacto de poder social e econômico.”

Feministas-Socialistas como Johanna Brenner também apontam para como o feminismo hegemônico encobre tensões profundas entre mulheres:

“Nós podemos generosamente caracterizar como ambivalentes as relações entre mulheres da classe trabalhadora/pobres e as mulheres profissionais de classe média cujos trabalhos são erguer e regular aqueles que vêm a serem definidos como problemáticos – os pobres, os não-saudáveis, os que não se encaixam culturalmente, os sexualmente não-conformistas, os pouco-educados. Estas tensões de classe vazam nas políticas feministas, enquanto feministas de classe-média afirmam representar as mulheres trabalhadoras.”

Então, enquanto é certamente necessário reconhecer o quão dividida por gênero a sociedade contemporânea permanece, também é necessário manter os olhos abertos sobre como superar essas divisões e, igualmente importante, reconhecer as limitações de um Feminismo que não desafia o Capitalismo.

O Capital se alimenta sobre normas existentes de sexismo, compondo a natureza exploradora do trabalho assalariado. Quando as ambições e desejos das mulheres são silenciados ou sub-valorizados, é mais fácil de tomar vantagem delas. O sexismo é parte da caixa de ferramentas da companhia, permitindo às empresas pagar menos para as mulheres – particularmente negras – e discriminá-las de outras maneiras.

Mas mesmo se nós extirparmos o sexismo, as contradições inerentes ao Capitalismo vão persistir. É importante e necessário que as mulheres assumam posições de poder, mas apenas isso não vai mudar a divisão fundamental entre trabalhadores e proprietários – entre mulheres no topo e mulheres na base. Não vai mudar o fato de que a maioria das mulheres se encontra em empregos precários, de baixo salário, que representam uma barreira bem maior ao avanço e a uma vida confortável que o sexismo na esfera econômica ou política. Não vai mudar o poder da busca pelo lucro e a compulsão das companhias por dar às trabalhadoras e trabalhadores tão pouco quanto as normas econômicas, sociais e culturais permitirem.

É claro, a sociedade não é redutível a relações salariais e as divisões de gênero são reais e persistentes. Levar a questão de classe a sério significa ancorar a opressão feminina dentro das condições materiais em que elas vivem e trabalham, enquanto reconhecendo o papel do sexismo na formação das vidas das mulheres tanto no trabalho quanto em casa.

O movimento feminista – tanto sua encarnação de “Bem-Estar Social” quanto a radical contemporânea – tem tido ganhos significativos. O desafio agora é duplo: defender essas duras vitórias e tornar possível a todas as mulheres realmente aproveitá-las; e pressionar adiante por demandas novas e concretas que lidem com as relações complexas entre o sexismo e a busca por lucro.

Não há resposta simples sobre como atingir estes objetivos gêmeos. No passado, mulheres tiveram os maiores ganhos ao lutar tanto por direitos das mulheres quanto direitos dos trabalhadores simultaneamente – ligando a luta contra o sexismo à luta contra o Capital.

Como Eileen Boris e Anelise Orleck argumentam, durante os anos 70 e 80 “feministas sindicalistas ajudaram a revitalizar o movimento das mulheres que deflagrou novas demandas de direitos femininos em casa, no trabalho e dentro de sindicatos.” Aeromoças, trabalhadoras do setor têxtil, da igreja e domésticas desafiaram os movimentos sindicais dominados por homens (uma mulher não sentou na mesa executiva da AFL-CIO até os anos 80) e no processo forjaram um novo Feminismo, mais expansivo.

Mulheres sindicalistas criaram um novo campo de possibilidades ao demandar não apenas salários mais altos e oportunidades iguais, mas também creches, escalas de trabalho flexíveis, licença-maternidade, e outros ganhos normalmente negligenciados e subvalorizados por seus irmãos sindicalistas.

Esta é a direção em que tanto Socialistas e Feministas deveriam estar se orientando – rumo a lutas e demandas que desafiem tanto as tendências do Capital quanto as normas arraigadas do sexismo que estão enraizadas tão fundo sob o Capitalismo.

Lutas e demandas que atingem isso são concretas e estão atualmente sendo travadas. Por exemplo, a luta por um sistema público e gratuito de saúde – que proveria cuidados de Saúde como um Direito para toda pessoa, do berço ao túmulo, independente de sua capacidade de pagar – é uma demanda que mina ambos o sexismo e o poder do Capital de controlar e reprimir a ação trabalhadora. Há muitas outras demandas concretas de curto-prazo que misturam os objetivos do Feminismo e do Socialismo também, incluindo Educação Superior gratuita, creches gratuitas, e uma Renda Básica Universal combinados com uma rede robusta de segurança social.

Estas reformas estabeleceriam as bases para objetivos mais radicais que iriam longe na extirpação do sexismo, da exploração e da mercantilização da vida social. Por exemplo, projetos para aumentar o controle coletivo e democrático sobre instituições centrais para nossas vidas em casa, na escola ou no trabalho – escolas, bancos, espaços de trabalho, prefeituras, agências estatais e locais – dariam a todas as mulheres e homens mais poder, autonomia e a possibilidade de uma vida melhor.

Esta estratégia anticapitalista é uma que contém a possibilidade de mudanças radicais de que as mulheres precisam.

Em última análise, os objetivos do Feminismo radical e do Socialismo são os mesmos – justiça e igualdade para todas as pessoas, não simplesmente oportunidades iguais para as mulheres ou participação igual por mulheres em um sistema injusto.

28 de fevereiro de 2016

G-20 e as soluções convencionais para a desaceleração global

Michael Roberts

The Next Recession

Foi desanimador o encontro que reuniu, no último final de semana, os ministros das finanças das vinte maiores economias do mundo em Xangai, na China. Antes do encontro, o FMI apresentou um quadro sombrio da situação da economia global. No relatório Global Prospects and Policy Challenges, os economistas do FMI alertaram que reduziriam, novamente, suas previsões para o crescimento econômico global em 2016.

Durante o encontro, foram apresentados os dados relativos ao comércio mundial em 2015, mostrando a maior retração desde a Grande Recessão de 2008-9. Segundo o Observatório de Comércio Global do Serviço Holandês de Análise de Politica Econômica, o valor em dólares das mercadorias que cruzaram fronteiras internacionais no último ano caiu 13,8% – a primeira contração desde 2009.

O índice Baltic Dry, que mede o comércio global de mercadorias a granel (bulk commodities), está se aproximando dos seus níveis históricos mais baixos. A China, que desde 2014 ultrapassou os Estados Unidos como o país de maior comércio no mundo, declarou quedas de dois dígitos referentes a janeiro tanto em suas exportações, quanto em suas importações. No Brasil, país que passa agora por sua pior recessão em mais de um século, as importações chinesas colapsaram. Segundo a maior empresa de frete marítimo do mundo, a Maersk Line, as exportações chinesas enviadas por containers para o Brasil, incluindo desde carros até têxteis, caíram 60% em janeiro, comparadas com o mesmo mês de 2015, enquanto as importações via containers caíram pela metade, naquela que é a maior economia da América Latina.

Quando medido em volume, a situação não é tão sombria, com o comércio global crescendo 2,5%. Mas tal crescimento ficou abaixo do crescimento econômico geral, de 3,1%, corroborando uma tendência depressiva na economia global. Antes da crise de 2008, o comércio mundial cresceu por décadas a taxas até duas vezes maiores que a da produção global. Entretanto, desde 2011 o crescimento no comércio desacelerou, mantendo-se no nível, ou mesmo abaixo, do crescimento geral da economia mundial, o que levantou dúvidas sobre a possibilidade da globalização, tão característica das últimas décadas, ter chegado ao seu teto.

E, se a China for excluída, as economias do assim chamado mundo em desenvolvimento estão crescendo agora mais lentamente que as do mundo desenvolvido pela primeira vez desde 1999. Os mercados emergentes, excluindo a China, geraram um crescimento da produção de apenas 1,92% no último ano, de acordo com dados do FMI, isto é, abaixo mesmo do hesitante crescimento do mundo desenvolvido, onde a produção subiu 1,98%.

Este desempenho ruim dos mercados emergentes frente aos países desenvolvidos é ainda mais marcado em termos de produção per capita, pois o crescimento populacional é mais rápido nos primeiros. De fato, o último censo no Japão mostrou que o país perdeu um milhão de habitantes nos últimos dez anos.

Um economista do Citibank comentou: “Isto é o que se chama de falta de convergência. Teoricamente, os mercados emergentes deveriam estar crescendo mais rapidamente que os desenvolvidos, se aproximando destes, mas eu penso que o mundo emergente está provavelmente passando por um pouco de recessão agora... O futuro de bilhões de pessoas dependerá de saber se esta reversão da tendência à convergência se mostrará um acidente de percurso, ou se a performance vigorosa dos países emergentes de 2000 a 2014 se revelará como uma anomalia”.

Por outro lado, como argumentei anteriormente em meu blog, não podemos confirmar uma nova queda econômica global a não ser que a economia dos Estados Unidos também comece a se contrair. O que não está acontecendo ainda. Nos dados do último trimestre de 2015, o PIB real dos Estados Unidos cresceu a um ritmo anual de 1%, fechando um crescimento para 2015 de 2,4%, similar ao resultado do Reino Unido. Mas o crescimento americano está desacelerando, devido à diminuição do ritmo do investimento privado e às perdas no comércio exterior.

O quadro não é bom. Como economistas do Citibank puseram: “É provável, em nossa visão, que o crescimento global seja fraco novamente este ano, e o risco de uma recessão do crescimento global (crescimento abaixo de 2%) é grande e está crescendo. Se a economia americana esmorecer, será difícil identificar qualquer outra grande economia que poderia servir de motor de crescimento para o mundo a curto prazo. E a previsão de crescimento nos Estados Unidos em 2016 já caiu de 3.0%, em janeiro de 2015, para 2.0% mais recentemente.”

O FMI, em seu G20 Surveillance Note, concluiu que “há pouco espaço para complacência agora. Governantes (policymakers) podem e devem agir rapidamente para estimular o crescimento e planejar contenção de riscos. Igualmente urgente é a coordenação de medidas pelo G20 em uma forte resposta. O G20 deve planejar agora e identificar proativamente políticas que possam ser postas em ação rapidamente, se os riscos de queda econômica se materializarem.” No encontro do G20, o diretor do Banco da Inglaterra (o mais bem pago diretor do mundo), Mark Carney, declarou que “a economia global corre o risco de ficar presa numa situação de equilíbrio de baixo crescimento, baixa inflação e baixa taxa de juros.” Os ministros do G20 fizeram esforço para parecerem confiantes em seu comunicado conjunto: “A recuperação global continua, mas se mantém desigual e aquém de nosso desejo por crescimento forte, sustentável e balanceado.”

Então qual a saída para esta desaceleração global que ameaça se converter em nova recessão? A busca por novas medidas de política econômica para evitar nova queda já se iniciou. Bancos centrais têm zerado as taxas de juros para encorajar empresas e indivíduos a pegarem mais dinheiro emprestado, dinheiro tem sido emitido e dado aos bancos (quantitative easing) e, agora, estamos vendo taxas de juros negativas (cobrando encargos dos bancos que não emprestam seu dinheiro para a economia real). Mas estas medidas não estão funcionando.

De fato, no encontro do G20 o diretor Carney, do Banco da Inglaterra, despejou água fria sobre a solução oferecida por vários bancos centrais para a desaceleração, as taxas de juros negativas. Estas ações dos bancos centrais de determinar as taxas de juros abaixo de zero podem criar um ambiente de “meu pirão primeiro” (beggar thy neighbor), que poderia aprisionar a economia global em crescimento baixo. Taxas negativas de juros significam que clientes de fato pagam uma tarifa para deixarem depositado dinheiro nos bancos, então cidadãos japoneses estão começando a acumular ienes, de acordo com o Wall Street Journal, e precisam de algum lugar para guardá-los. A venda de cofres duplicou desde o ano anterior na cadeia de lojas Shimachu, de acordo com o Wall Street Journal. Já se esgotou nas lojas um modelo, custando 700 dólares. Outros poupadores consideram lugares menos convencionais. “Em resposta à taxa negativa de juros, pessoas idosas pensam em guardar seu dinheiro embaixo do colchão.” Então, as pessoas estão guardando seu dinheiro, ao invés de gastá-lo.

O G20 pondera: “Políticas monetárias vão continuar apoiando a atividade econômica e garantindo a estabilidade dos preços... mas política monetária sozinha não pode conduzir a crescimento balanceado.” E, como os economistas do FMI disseram: “política monetária acomodativa, ainda que muito necessária, não basta. É necessário uma abordagem compreensiva, que inclua política fiscal (onde há espaço para tal) e redução do endividamento (balance sheet repair).”

Se nada for feito, uma nova crise financeira global é inevitável, e, sem reformas, é provável que aconteça logo, de acordo com o antecessor de Carney, o antigo diretor do Banco da Inglaterra, Mervyn King, ao promover seu novo livro (“O fim da alquimia, a economia global e o futuro do dinheiro”). King, que era diretor quando o sistema financeiro mundial quase colapsou em 2008-09, disse que somente repensando desde os fundamentos o sistema monetário e bancário seria possível evitar uma nova crise. “Sem reforma do sistema financeiro, outra crise é certa, e o fracasso... em atacar o desequilíbrio na economia mundial torna provável que não demore a acontecer.”

A opinião majoritária no Federal Reserve (Banco Central dos Estados Unidos) não é tão pessimista. O vice-presidente Stanley Fischer ainda espera que economia americana se acelere. Fischer declarou: “Se os recentes desenvolvimentos no mercado financeiro conduzirem a uma deterioração durável das condições financeiras, eles podem apontar uma desaceleração do crescimento global que poderá afetar o crescimento e a inflação nos Estados Unidos. Mas temos visto outros momentos similares de volatilidade nos anos recentes – incluindo a segunda metade de 2011 – que deixaram poucas marcas visíveis na economia, e ainda é cedo para julgar as ramificações do aumento da volatilidade dos mercados nas primeiras sete semanas de 2016.” Seria, então, um erro promover uma taxa de juros negativa nos Estados Unidos. “A política monetária deve buscar evitar tais riscos e manter a expansão num caminho sustentável.”

De todo modo, as previsões de catástrofe entre economistas e governantes estão ficando mais fortes. Se fala agora então em “dinheiro de helicóptero” (dar dinheiro às famílias para que gastem) e/ou estímulo fiscal (maior gasto governamental e corte de impostos). Eu comentei antes sobre a natureza do “dinheiro de helicóptero”, batizado assim a partir da ideia originalmente promovida pelo economista monetarista Milton Friedman e seu discípulo, o antigo presidente do Federal Reserve Ben Bernanke, de que autoridade monetárias poderiam simplesmente despejar pilhas de dinheiro de helicópteros para serem gastas. O dinheiro (literalmente!) caído do céu levaria a um grande aumento na demanda dos consumidores, o que mobilizaria vendas, salários e lucros. Esta ideia, que, evidentemente, seria implementada por depósitos nas contas bancárias dos cidadãos, ganhou maior peso quando Adair Turner, antigo chefe da autoridade regulatória do Reino Unido, a promoveu em seu livro “Entre a dívida e o diabo”.

Esta “solução” é agora promovida como a última cartada por pessoas como Martin Wolf e Gavyn Davies, os colunistas keynesianos do Financial Times britânico. Temos um argumento similar dos assessores da campanha presidencial de Bernie Sanders nos Estados Unidos (e também dos assessores da oposição trabalhista de Corbyn e McDonnel no Reino Unido). Dê dinheiro diretamente ao povo e isto estimulará a demanda dos consumidores, e a economia dará um salto para frente pois há uma grande demanda reprimida pronta a ser liberada.

Esta abordagem vem da premissa keynesiana que o que há de errado com as economias capitalistas neste momento é que existe uma “falta crônica de demanda”. Como Martin Wolf explica: “Por trás de tudo isto há uma simples realidade: o excesso de poupança – a tendência à poupança desejada crescer mais do que o investimento desejado – está aumentando e, portanto, a ‘síndrome crônica de deficiência de demanda’ está piorando.” O problema com o capitalismo agora seria que “a demanda também está fraca em comparação com um crescimento desacelerante da oferta. No plano mundial, o crescimento da oferta de trabalho e da produtividade do trabalho caiu de forma aguda desde a metade da última década. Um crescimento menor do potencial de produção por ele mesmo enfraquece a demanda, pois diminui o investimento, sempre um motor importante do gasto numa economia capitalista.”

Portanto, uma demanda fraca causaria investimento menor, que, por sua vez, causaria crescimento menor. Mas é mesmo esta a ordem de causalidade? Em meu blog, eu argumentei de forma consistente com as evidências que a premissa keynesiana é errada: a falta de demanda agregada numa economia nacional ou global é o resultado de uma desaceleração ou de uma queda, não a causa. A queda vem do colapso no investimento (especialmente do investimento privado) e isto ocorre quando não é mais lucrativo investir. Quem escolhe a música é o lucro, não a “demanda”.

Recentemente, Alan Freeman, também um economista marxista como eu, apresentou um artigo defendendo que Marx e Keynes teriam muito em comum na suas análises econômicas das crises no capitalismo e nas prescrições de política econômica para combatê-las (senão na política em geral). Bom, eu discordo. Não creio que as ideias teóricas de Keynes e Marx possam ser fundidas. No meu blog, enfatizei as diferenças econômicas, assim como neste artigo. (The contributions of Keynes and Marx to understanding the crisis and finding solutions)

A questão-chave agora na desaceleração global é a análise keynesiana de que o problema é a falta de demanda agregada, e de que um aumento no gasto público poderia evitá-la, por meio do multiplicador de demanda keynesiano. Mas a análise marxista diz que é a lucratividade do investimento que é decisiva nas economias dominadas pelo capitalismo, e que é o multiplicador marxista da lucratividade que é capaz de resolver esta situação. O problema da última solução é que a lucratividade somente pode ser restaurada pela destruição de valor, paralisando investimento, liquidando antigo capital e lançando milhões no desemprego. Esta é a contradição do capitalismo que Keynes não reconheceu, assim como todos os economistas ortodoxos.

Este é o motivo pelo qual o plano de Bernie Sanders, admirável em seu intento de prover empregos, salários e serviços públicos, incluindo saúde e educação, não irá ser bem-sucedido sob o capitalismo. Um apoiador de Sanders, o economista americano Gerald Friedman, causou comoção entre economistas tradicionais quando defendeu que “as políticas propostas pelo senador Sanders resultariam em crescimento anual da produção de 5,3% pela próxima década, com uma média de geração de empregos perto de 300.000 por mês. Consequentemente, a produção em 2026 seria 37% maior, e o emprego, 16%, do que seriam sem estas políticas”.

A ideia é que impulsionar a demanda com gasto governamental e aumentar os salários significativamente traria crescimento sustentável que pagaria por si mesmo. Esta ideia até mesmo ganhou apoio de um antigo diretor regional do Federal Reserve, Narayana Kocherlakota. Ele considera que o crescimento dos Estados Unidos poderia ser muito maior que as taxas medíocres projetadas para os próximos anos. Ele sugere que a economia americana poderia crescer entre 4 e 5% por ano pelos próximos quatro anos, mesmo se o crescimento (total) de produtividade não se recupere. “Neste perfil alternativo, [capital, trabalho e produção econômica] seriam [todos] (um pouco mais de) 10% maiores do que atualmente é projetado para 2020”.

Conseguir isto envolveria aumentar salários e taxas de juros, diz ele, mas somente até “níveis historicamente normais”. Então, dê às pessoas mais salários para que gastem mais e a demanda irá explodir. Há muita ociosidade na economia dos Estados Unidos: pessoas sem emprego e empresas prontas a investir. De fato, maiores salários forçariam empresas a investir em novas tecnologias para poupar trabalho e promover crescimento da produtividade, que atualmente repousa em baixa recorde.

Os argumentos de Friedman foram submetidos a uma crítica clinicamente precisa pelos economistas ortodoxos Christine e David Romer. (Senator Sander's Proposed Policies and Economic Growth) Seu principal argumento é que impulsionar a demanda na maneira como Sanders e Friedman defendem não resultaria em crescimento, porque a economia capitalista não teria esta “lacuna de demanda” (demand gap) e a “capacidade produtiva” da economia dos Estados Unidos estaria fraca demais. Em outras palavras, a economia capitalista dos Estados Unidos só poderia crescer a 5% por ano em termos reais pelo futuro previsível se fosse capaz de expandir investimentos e aumentar a produtividade do trabalho pelos próximos dez anos. E um aumento da demanda não poderia promover isso. Claro, os dois Romer não apresentaram nenhuma alternativa à sua crítica das propostas de Sanders.

De todo modo, governantes de todo o mundo estão se recusando a lançar tais programas de gasto fiscal, mesmo que o gasto com infraestrutura na Europa e nos Estados Unidos esteja no ponto mais baixo dos últimos 30 anos, e pontes, estradas e ferrovias estejam desabando a olhos vistos. De acordo com o relatório de 2013 da Associação Americana de Engenheiros Civis, os Estados Unidos precisam seriamente investir mais de 3,4 trilhões de dólares até 2020 em infraestrutura, incluindo US$1,7 trilhão em estradas, pontes e trânsito, US$736 bilhões em eletricidade e energia, US$391 bilhões em escolas, US$134 bilhões em aeroportos, US$131 bilhões em hidrovias e projetos relacionados. Mas o investimento federal em infraestrutura caiu pela metade nas últimas três décadas, de 1% do PIB para 0,5%.

Por que governos se recusam a introduzir tais políticas de maneira significativa? Bem, porque gasto governamental significa mais impostos sobre o setor empresarial e/ou sobre domicílios, ou então significa aumentar o endividamento do setor público quando este já está em níveis recordes. E significa a intervenção do Estado no setor capitalista justamente quando a lucratividade está em queda.

Soluções monetaristas para a desaceleração global já falharam, as soluções fiscais keynesianas não estão sendo aplicadas nem funcionariam a longo prazo, de qualquer maneira. A única saída é outro colapso.