30 de setembro de 2015

O ato revolucionário de dizer a verdade

John Pilger

John Pilger

Tradução / George Orwell disse: "Em um momento do engano universal, dizer a verdade é um ato revolucionário."

Estes são tempos obscuros, nos quais a propaganda da fraude afeta todas as nossas vidas. É como se a realidade política houvesse sido privatizada e a ilusão legitimada. A era da informação é uma era medieval. Temos política através da mídia; censura através da mídia; guerra através da mídia; represália através da mídia; diversão através da mídia – uma linha de montagem surreal de clichês e falsas suposições.

Uma tecnologia assombrosa torna-se tanto nossa amiga como nossa inimiga. Todas as vezes que ligamos um computador ou escolhemos um dispositivo digital – nossos rosários leigos – estamos sujeitos a controle: à vigilância dos nossos hábitos e rotinas, e a mentiras e manipulação.

Edward Bernays, que inventou a expressão "relações públicas" como eufemismo para "propaganda", previu isto há mais de 80 anos. Chamou a isto "o governo invisível".

Escreveu ele: "Aqueles que manipulam este elemento não visto da [moderna democracia] constituem um governo invisível a qual é o verdadeiro poder dominante do nosso país... Somos governados, nossas mentes são moldadas, nossos gostos formados, nossas ideias sugeridas, em grande medida por homens de que nunca ouvimos falar..."

O objetivo deste governo invisível é a conquista de nós próprios: da nossa consciência política, do nosso sentido do mundo, da nossa capacidade para pensar independentemente, de separar verdades de mentiras.

Isto é uma forma de fascismo, uma palavra que justificadamente usamos com cautela, preferindo deixá-la num passado hesitante. Mas um insidioso fascismo moderno é agora um perigo que se acelera. Tal como nos anos 1930, grandes mentiras são apresentadas com a regularidade de um metrônomo. Muçulmanos são maus. Fanáticos sauditas são bons. Fanáticos do ISIS são maus. A Rússia é sempre má. A China está a ficar má. Bombardear a Síria é bom. Bancos corruptos são bons. Dívida corrupta é boa. A pobreza é boa. A guerra é normal.

Àqueles que questionam estas verdades oficiais, este extremismo, considera-se que precisam de uma lobotomia – até serem diagnosticados como aderindo à linha. A BBC proporciona este serviço gratuitamente. Se deixar de se submeter será etiquetado como um "radical" – seja o que for que isso signifique.

A dissidência real tornou-se exótica; mas aqueles que dissidem nunca foram tão importantes. O livro que estou a lançando esta noite, "The WikiLeaks Files", é um antídoto para um fascismo que nunca pronuncia o seu nome. É um livro revolucionário, assim como a própria WikiLeaks é revolucionária – exatamente como pretendia Orwell na citação que mencionei no princípio. Pois ele diz que não precisamos aceitar estas mentiras diárias. Não precisamos permanecer em silêncio. Ou, como cantou outrora Bob Marley: "Emancipe-se da escravidão mental".

Na introdução, Julian Assange explica que nunca é suficiente publicar as mensagens secretas dos grandes poderes: que perceber o sentido delas é crucial, assim como colocá-las no contexto de hoje e na memória histórica.

Este é o feito notável desta antologia, a qual recupera a nossa memória. Ela conecta as razões e os crimes que provocaram tanta tempestade humana, desde o Vietnã e a América Central até o Médio Oriente Médio e o leste da Europa, com a matriz na potência rapinante, os Estados Unidos.

Há atualmente uma tentativa americana e europeia de destruir o governo da Síria. O primeiro-ministro David Cameron está especialmente entusiasmado. Este é o mesmo David Cameron de que me recordo como um untuoso homem de RP empregado por um desmembrador de empresas (asset stripper) da televisão comercial independente da Grã-Bretanha.

Cameron, Obama e o sempre obsequioso François Hollande querem destruir o último remanescente da autoridade multi-cultural na Síria, uma ação que certamente abrirá caminho para os fanáticos do ISIS.

Isto é insano, naturalmente, e a grande mentira justificando esta insanidade é que é em apoio aos sírios que se levantam contra Bashar al-Assad na Primavera Árabe. Como revela The WikiLeaks Files, a destruição da Síria é desde há muito um cínico projeto imperial que antecede o levantamento da Primavera Árabe contra Assad.

Para os dominadores do mundo em Washington e na Europa, o verdadeiro crime da Síria não é a natureza opressiva do seu governo mas a sua independência em relação ao poder americano e israelense – assim como o verdadeiro crime do Irã é a sua independência, e o verdadeiro crime da Rússia é a sua independência, e o verdadeiro crime da China é a sua independência. Num mundo possuído pela América, a independência é intolerável.

Este livro revela estas verdades, uma após a outra. A verdade sobre uma guerra ao terror que foi sempre uma guerra de terror; a verdade sobre Guantánamo, a verdade sobre o Iraque, o Afeganistão, a América Latina.

Nunca contar a verdade foi tão urgentemente necessário. Com honrosas exceções, aqueles na mídia pagos aparentemente para manter as coisas claras estão agora absorvidos dentro de um sistema de propaganda que já não é jornalismo, mas anti-jornalismo. Isto é verdadeiro tanto para liberais e respeitáveis como para Murdoch. A menos que esteja preparado para monitorar e desconstruir toda afirmação especiosa, as assim chamadas "notícias" tornaram-se inassistíveis e ilegíveis.

Ao ler "The WikiLeaks Files" recordei as palavras do falecido Howard Zinn, que muitas vezes referia-se a "um poder que governos não podem suprimir". Isto descreve a WikiLeaks e descreve a verdade dos denunciantes que partilham a sua coragem.

Numa nota pessoal, tenho conhecido pessoas da WikiLeaks desde há algum tempo. Que tenham alcançado o que fizeram em circunstâncias que não foram da sua escolha é uma fonte de admiração constante. O seu resgate de Edward Snowden vem à mente. Tal como ele, eles são heroicos: nada menos.

O capítulo de Sarah Harrison, "Indexing the Empire", descreve como ela e seus camaradas estabeleceram toda uma Biblioteca Pública da Diplomacia dos EUA. Há mais de dois milhões de documentos, agora disponíveis para todos. "Nosso trabalho", escreve ela", "destina-se a assegurar que a história pertence a todos". Quão emocionante é ler estas palavras, as quais se mostram também um tributo à sua própria coragem.

Do confinamento numa sala da embaixada equatoriana em Londres, a coragem de Julian Assange é uma resposta eloquente aos covardes que o enlamearam e à potência canalha que procura vingar-se sobre ele e travar uma guerra à democracia.

Nada disto desviou Julian e seus camaradas da WikiLeaks: nem um milímetro. Não será alguma coisa?

O jovem Ho Chi Minh

Quando jovem em Paris, Ho Chi Minh abraçou um internacionalismo radical.

Ian Birchall

Nguyen-Ai-Quoc (mais tarde conhecido como Ho Chi Minh) falando no congresso fundacional do Partido Comunista francês em dezembro de 1920. Michael Goebel

Tradução / Setenta anos atrás este mês, em dois de setembro, em Hanói, o Viet Minh, liderado por Ho Chi Minh, publicou a Declaração de Independência da República Democrática do Vietnã. Ho era pouco conhecido no Ocidente até então, mas nos anos 1960 seu nome era cantado por manifestantes no mundo todo, para quem ele se tornou um símbolo da vontade e habilidade do Terceiro Mundo para enfrentar o imperialismo americano.

Em uma época anterior, ele era conhecido como Nguyen-Ai-Quoc, o beneficiário de uma educação privilegiada que, supostamente, disse que assim que ouviu o slogan “Liberdade, Igualdade, Fraternidade”, quis conhecer a França. Mas, a lei colonial proibia os vietnamitas nativos de sair do país; o único meio pelo qual ele poderia ir para a Europa era conseguindo um trabalho em um navio. Ele viajou primeiro para Londres, depois para Paris.

Os contatos iniciais de Nguyen chegando à França parecem ter sido com a esquerda sindicalista. Ele visitou a Librairie du travail, uma livraria trabalhista, onde ficavam os escritórios de La Vie ouvrière, um jornal sindicalista revolucionário de Pierre Monatte e Alfred Rosmer, que tinham sido alguns dos internacionalistas mais consistentes do primeiro dia da Primeira Guerra Mundial.

Ele passou a se juntar ao Partido Socialista Francês (SFIO), que estava no meio de um intenso debate para decidir se deveria se filiar a recém-formada Internacional Comunista, criada no rescaldo da Revolução Russa.

O SFIO reuniu-se no Congresso em Tours em dezembro de 1920 para tomar sua decisão. O Congresso votou pela filiação, tornando-se o Partido Comunista Francês (PCF), com uma minoria socialista se separando por uma aversão ao domínio percebido dos bolcheviques russos na Internacional Comunista.

Nguyen falou como delegado, contando aos reunidos como sua terra natal era “vergonhosamente oprimida e explorada”, além de ser “envenenada” pelo álcool e ópio. Prisões eram mais numerosas do que escolas, e liberdade de imprensa não existia. Ele exortou que “o Partido deve fazer propaganda socialista em todas as colônias” e concluiu com um apelo: “Camaradas, salvem-nos”!

Ele foi aplaudido, mas certamente tocou alguns nervos doloridos. Ele foi interrompido duas vezes. Na primeira ocasião, Jean Longuet, neto de Karl Marx, gritou para defender sua própria reputação: “Eu tenho interferido para defender nativos”! Um pouco depois, quando um delegado sem nome interrompeu, Nguyen respondeu com um corte “silêncio, parlamentares”!

As palavras de Nguyen tinham um peso especial, uma vez que a condição da afiliação do partido exigia que os partidos comunistas


expusessem os truques e trapaças dos “seus” imperialistas nas colônias, para apoiar todo movimento de libertação colonial, não meramente em palavras, mas em ações, para exigir a expulsão dos seus próprios imperialistas dessas colônias, para inculcar entre os trabalhadores do seu país uma atitude genuinamente fraterna para com os trabalhadores da colônia e as nações oprimidas, e para lançar uma agitação sistemática entre as tropas do seu país contra qualquer opressão dos povos coloniais.

Um meio pelo qual o PCF tentou implementar sua nova política foi encontrar meios de se relacionar com o grande número de assuntos coloniais.

É estimado que entre 1914 e 1918, mais de 900.000 homens das colônias foram enviados para o conflito europeu – mais de meio milhão de soldados, pelo menos 250.000 do Norte da África e mais muitos milhares da Indochina, e ainda cerca de 220.000 trabalhadores. O PCF estabeleceu uma organização para aqueles de origem colonial vivendo na França, a Union inter-coloniale (UIC União Intercolonial), e em abril de 1922 começou uma publicação Le Paria editada por Niguyen-Ai-Quoc.

Le Paria foi um pouco desalinhado e claramente subfinanciado, e sua circulação foi sempre baixa. No entanto, reuniu um pequeno, porém dedicado grupo de camaradas comprometidos com a luta anti-imperialista. Estes incluíam não só Nguyen-Ai-Quoc, mas também um jovem norte africano, Hadjali Abdelkader, que se apresentou como candidato eleitoral pelo partido em 1924.

No curso da campanha, ele recrutou um trabalhador fabril chamado Messali Hadj. Juntos eles fundaram a Étoile Nord-Africaine, a primeira organização a pleitear a independência argelina, da qual a FLN (Frente de Libertação Nacional) dos anos 1950 foi, em última análise, descendente.

Le Paria, desse modo, semeou, pelo menos, algumas das sementes das duas grandes guerras de libertação nacional que dominaram a política francesa nas duas décadas seguintes a Segunda Guerra Mundial. Trinta e seis edições do Le Paria apareceram entre 1922 e 1926, usualmente impressas em uma única folha de grande formato, seu título flanqueado por caracteres chineses e árabes.

O interesse principal do jornal era a situação do império colonial da França. Nguyen-Ai-Quoc escreveu sobre a “crueldade inacreditável” de um “funcionário sádico” na administração colonial, e contrastou a barbaridade da prática colonial da França com a tradicional imagem da política republicana.

Evocando a figura feminina da Marianne, que desde a Revolução Francesa tem sido vista como a personificação da república, ele escreveu:


Há uma ironia dolorosa em observar que a civilização, simbolizada em suas várias formas – liberdade, justiça, etc. – pela gentil imagem da mulher, e arranjada por uma categoria de homem que são reputados por serem campeões na cortesia em relação às senhoras, deve fazer o símbolo vivo sofrer o mais ignóbil tratamento e ataca-lo vergonhosamente em seu comportamento, sua modéstia e sua própria vida.

Atenção igual foi dada para a luta por liberdades políticas, notavelmente liberdade de imprensa, e houve um protesto contra o serviço postal interferindo na correspondência para Le Paria. O jornal encorajou várias campanhas, em particular protestando contra a visita a Paris do imperador de Annam, Kai Dinh.

Le Paria apenas raramente levantou a demanda pela independência para os territórios coloniais. O principal impulso para as demandas do jornal foi por um fim da repressão e brutalidade nas colônias e pelas populações coloniais terem direitos iguais aos cidadãos da França metropolitana.

Para este fim, a unidade entre as classes trabalhadoras da Europa e Indochina foi encorajada. Em maio de 1922, em artigo para o jornal diário do PCF, L’Humanité, Nguyen-Ai-Quoc reconhece a profundidade da ignorância e preconceito que existia entre ambos, trabalhadores metropolitanos e coloniais.

Após citar Lenin sobre a necessidade de trabalhadores metropolitanos apoiarem as lutas nas nações subordinadas, observou com tristeza: “infelizmente, ainda há muitos militantes que pensam que uma colônia não é nada além de um país cheio de areia com o sol brilhando; alguns coqueiros verdes e alguns homens de cor, e isso é tudo”.

Enquanto isso, a maioria dos habitantes coloniais era ou repelida pela ideia do bolchevismo ou a identificava puramente com nacionalismo. Quanto a minoria educada, eles poderiam entender o que comunismo significava, mas não tinham interesse em vê-lo estabelecido; “como o cachorro da fábula, eles preferem vestir um colarinho e ter o seu pedaço de osso”.

Por isso ele argumentou:


Da ignorância mútua dos dois proletários preconceitos nascem. Para o trabalhador francês, o nativo é um ser inferior, insignificante, incapaz de entender e ainda menos de agir. Para o nativo, os franceses – quem quer que seja – são todos exploradores perversos. Imperialismo e capitalismo não falham em tirar vantagem dessa desconfiança recíproca e essa hierarquia racial artificial para obstruir a propaganda e dividir forças que deveriam se unir.

E ele concluiu: “Em face dessas dificuldades o que deveria fazer o partido? Intensifique a propaganda para supera-las”.

Diante disso, Le Paria argumentou pela unidade entre trabalhadores metropolitanos e coloniais. Em agosto de 1922, “Apelo às Populações Coloniais,” exortou: “Em face do capitalismo e imperialismo, nossos interesses são os mesmos; lembre as palavras de Karl Marx; trabalhadores de todos os países, uni-vos”. Na próxima edição, Max Cainville-Bloucourt insistiu: “Irmãos coloniais, é indispensável para vocês perceberem que não há salvação possível para vocês fora da conquista do poder político na Europa pelas massas trabalhadoras”.

Esta mensagem atingiu principalmente as colônias. Sua impressão inicial parece ter sido 1.000, subindo apenas para 3.000. A maioria destas foi para as colônias; de 2.000 cópias apenas 500 ficaram na França, enquanto 500 foram pra Madagascar, 400 para o Daomé, 200 para Magrebe, 100 para a Oceania, e 200 pra Indochina.

Já que a distribuição era clandestina, e cópias eram frequentemente apreendidas pela polícia, é difícil saber quão amplamente o jornal foi de fato distribuído. Mas Le Paria certamente fez sucesso em construir um entusiasmado time de ativistas que carregaram o jornal apesar da relativa apatia das camadas mais amplas dos membros do PCF.

Le Paria desapareceu virtualmente depois de setembro de 1925, com apenas uma última edição em abril de 1926. Havia conflitos crescentes entre o minúsculo quadro colonial do partido e o aparato burocrático. Lentamente, mas com toda certeza, o quadro entusiasmado e corajoso que construiu o Le paria foi dispersado. Nguyen-Ai-Quoc/Ho Chi Minh foi levado para Moscou em 1923 e logo abraçou o stalinismo dominante, linha comunista oficial.
Diminuindo o internacionalismo

O espírito do internacionalismo proletário que instruiu a pequena equipe de pioneiros entorno de Le Paria desapareceu junto com Ho Chi Minh, cimentando o relacionamento desigual da esquerda francesa com o imperialismo.

Em nenhum lugar isso foi mais claro do que no Sudeste Asiático. A Indochina Francesa foi formada pela primeira vez em outubro de 1887, depois da guerra Sino-Francesa. Um dos arquitetos da colonização foi Jules Ferry, primeiro ministro até 1885. Ferry foi um racista evidente que disse à Assembleia Nacional em 1885, “Nós devemos dizer abertamente que as raças superiores… tem o dever de civilizar as raças inferiores”.

Sua outra realização notável foi o estabelecimento da educação livre, compulsória e secular na França. Embora isso seja, algumas vezes, visto como parte da herança da esquerda, isso foi parte das suas aspirações imperiais. Se a França fosse se tornar um grande poder imperial, precisaria de um exército, largamente composto de camponeses, com um forte senso de identidade nacional.

Durante a Segunda Guerra Mundial, a Indochina foi controlada por uma administração colonial francesa controlada pelo regime Vichy pró-Alemanha, que fez um acordo com o Japão em 1940. Em 1945, o Japão ocupou o território. Depois do bombardeio de Hiroshima e Nagasaki, o Japão rapidamente se rendeu. Isso pegou os Aliados um pouco de surpresa; eles esperavam que a guerra continuasse até 1946.

Inicialmente, não foi a França que reocupou o Vietnã, mas a Grã-Bretanha, elas mesma governada por um governo trabalhista. Foi decidido na conferência de Potsdam em julho de 1945 que forças chinesas ocupariam a parte norte da Indochina, e tropas britânicas ocupariam a metade sul.

A França ainda estava se recuperando dos quatro anos de ocupação e precisou de tempo para reorganizar suas forças armadas. Tropas francesas começaram a deixar a Indochina (por navio) apenas em outubro. Forças britânicas, fazendo uso das recentemente derrotadas tropas japonesas, intervieram para garantir que a França estaria apta a recuperar sua colônia.

Charles de Gaulle, que liderou o governo provisório de 1945 da França, capturou o momento pós-guerra em sua transmissão anunciando a fundação da Quarta República.


Nossos postos estão reabrindo. Nossos campos estão sendo arados. Nossas ruínas estão sendo superadas. Quase todos que deixaram a França tem retornado. Estamos recuperando nosso Império. Estamos estabelecidos no Reno. Estamos retomando nosso lugar no mundo.

Os partidos de esquerda que dominaram o governo – comunistas socialistas e democratas cristãos – não fizeram oposição visível às exortações imperialistas de de Gaulle. Na verdade, até 1947, depois que a guerra em grande escala tinha estourado, ministros comunistas respeitaram a disciplina do gabinete votando pelos créditos de guerra (embora os deputados comunistas demostraram sua oposição votando pela abstenção).

Um delegado indochinês que visitou a França em 1946 reportou um encontro com o líder comunista Maurice Thorez em que este declarou que seu partido “não tinha intenção de ser considerado como potencial liquidador das posições francesas na Indochina e que ele desejava ardentemente ver a bandeira francesa voando em todos os cantos da União Francesa”.

O Partido Socialista foi igualmente interessado em preservar o império. O líder veterano Léon Blum favoreceu a fórmula de reconhecimento do Vietnã como em “estado livre dentro da União Francesa”, mas ele justificou isso com uma retórica que era muito aquela do imperialismo: “Há um meio, e um sozinho, de preservar na Indochina o prestígio da nossa civilização, nossa influência política e espiritual, e também aquele dos nossos interesses materiais legítimos, e esse é um acordo sincero na base da independência.”

A Guerra da Indochina começou em 1946, sob Blum como primeiro ministro, parcialmente porque ele falhou ao desafiar a liderança militar francesa, o que fez a guerra inevitável.

Apenas correntes menores da esquerda opuseram-se à recolonização da Indochina. Em 22 de dezembro de 1945, o jornal de esquerde independente Franc-Tireur publicou um vigoroso ataque à política externa francesa, citando uma carta de um soldado francês que comparava as ações francesas na Indochina ao massacre de Oradour, uma das piores atrocidades durante a ocupação nazi na França.

Uma série de fatores afetou o fracasso da esquerda francesa em se opor ao reestabelecimento do Império Francês, incluindo a lealdade do Partido Comunista a Rússia, que a esse ponto não desejava fazer algo que pudesse causar distúrbios ao desafiar o imperialismo do Ocidente.

Mas o principal foi a tradição republicana que dominava o pensamento político francês, especialmente na esquerda. Isso encorajou a noção de que o papel da França no mundo era progressivo, trazendo civilização e iluminação para mais territórios ignorantes – a assim chamada “ação civilizadora”.

Acreditava-se que os habitantes do mundo colonial poderiam e deveriam aspirar a nada mais do que serem cidadãos da República Francesa. É interessante contrastar isso com a abordagem mais pragmática mesmo do governo trabalhista britânico do pós-guerra, que aceitou a independência da Índia; a França agarrou-se a Indochina e Argélia até ser expulsa através de prolongadas e amargas lutas de independência.

O resto da história é bem conhecido. Os franceses lutaram para manter a Indochina, até finalmente serem derrotados na batalha de Dien Bien Phu em 1954. O Vietnã foi dividido, mas o envolvimento americano apoiando seu aliado sul vietnamita levou a mais guerra. Apenas em 1975 o Vietnã finalmente alcançou a independência depois de três décadas de guerra ter deixado uns dois milhões de mortos.

As coisas poderiam ter sido diferentes? Tal especulação é sempre difícil, mas se a esquerda francesa em 1945 tivesse sido fiel aos autênticos princípios internacionalistas, pelos quais o jovem Ho Chi Minh lutou no início dos anos 1920, a história poderia ter tido um curso menos trágico.

29 de setembro de 2015

Os arquivos WikiLeaks da América Latina

Telegramas diplomáticos dos EUA revelam um ataque coordenado contra os governos de esquerda da América Latina

Alexander Main e Dan Beeton


Créditos: TelesurTV / Flickr

Tradução / No início deste Verão, o mundo viu a Grécia a tentar resistir a um desastroso “diktat” neoliberal e a receber uma sova dolorosa no processo. Quando o governo de esquerda grego decidiu fazer um referendo nacional sobre o programa de austeridade imposto pela “troika”, o Banco Central Europeu retaliou restringindo a liquidez dos bancos gregos. Com isso acarretou um fechamento prolongado dos bancos e submergiu a Grécia ainda mais na recessão.

Apesar dos eleitores gregos terem rejeitado em massa a austeridade, a Alemanha e o cartel de credores europeu foi capaz de subverter a democracia e obter exatamente o que queria: submissão total à sua agenda neoliberal. Na última década e meia, uma luta similar contra o neoliberalismo vem sendo travada em toda a extensão de um continente e majoritariamente fora do olhar do público. Ainda que Washington inicialmente tenha procurado anular toda a dissidência e frequentemente utilizando táticas mais violentas que as utilizadas contra a Grécia, a resistência da América Latina à agenda neoliberal tem sido parcialmente bem sucedida. É um conto épico que gradualmente vem sendo conhecido graças à contínua exploração do massivo tesouro de telegramas diplomáticos dos Estados Unidos e difundidos pela WikiLeaks.

O neoliberalismo foi firmemente implantado na América Latina bem antes da Alemanha e as autoridades da zona euro terem imposto ajustes estruturais à Grécia e a outros países periféricos endividados. Através da coerção (e.g., condições anexadas a empréstimos do FMI) e doutrinação (e.g., treinamento de “chicago boys” regionais apoiados pelos Estados Unidos), os Estados Unidos tiveram êxito, em meados dos anos 80, em difundir o evangelho da austeridade fiscal, desregulação, “mercados livres”, privatização e cortes draconianos no setor público por toda a América Latina.

O resultado foi incrivelmente parecido ao que vimos na Grécia: crescimento estagnado (quase nenhum crescimento per capita durante vinte anos de 1980-2000), aumento da pobreza, declínio do nível de vida para milhões e muitas novas oportunidades para os investidores internacionais e empresas fazendo dinheiro em pouco tempo. Começando nos finais dos anos 80, a região começou a ter convulsões e a levantar-se contra as políticas neoliberais. No início a rebelião era majoritariamente espontânea e desorganizada — como foi no caso venezuelano das revoltas do “Caracazo” no início de 1989.

Mas depois, candidatos anti-neoliberais começaram a ganhar eleições e, para choque do establishment da política externa dos EUA, um número crescente destes manteve as suas promessas de campanha e começou a implementar medidas anti-pobreza e políticas heterodoxas que reafirmavam o papel do estado na economia. De 1999 a 2008, candidatos com inclinação de esquerda ganharam eleições presidenciais em Venezuelana, Brasil, Argentina, Uruguai, Bolívia, Honduras, Equador, Nicarágua e Paraguai. Muita da história das tentativas dos governos dos EUA para conter e reverter a onda anti-neoliberal pode ser encontrada nas dezenas de milhares de telegramas diplomáticos dos EUA na região, difundidos pela WikiLeaks e datados desde os primeiros anos de George W. Bush até aos primeiros anos da administração do Presidente Obama.

Os telegramas — que analisamos no novo livro, The WikiLeaks Files: The World According to US Empire — revelam os mecanismos do dia-a-dia da política de intervenção de Washington na América Latina (e fazem do mantra do Departamento de Estado de que “os EUA não interfere na política interna de outros países” uma farsa). Apoio material e estratégico é providenciado aos grupos de oposição de direita, alguns dos quais são violentos e anti-democráticos. Os telegramas também pintam uma imagem vívida da mentalidade ideológica de Guerra Fria dos emissários mais velhos e os expõem a tentar usar medidas coercivas que fazem lembrar o recente estrangulamento aplicado à democracia grega.

De forma nada surpreendente, os principais meios de comunicação ignoraram ou falharam em grande medida em expor estas perturbadoras crônicas de agressão imperial, preferindo focalizar os relatos potencialmente embaraçosos dos diplomatas ou as ações ilegais de oficiais estrangeiros. Os poucos especialistas que deram uma análise de fundo aos telegramas afirmaram que não havia uma disparidade significativa entre a retórica oficial dos EUA e a realidade descrita nos telegramas. Nas palavras de um analista de relações internacionais dos Estados Unidos, “não obtemos uma imagem dos Estados Unidos como sendo esse todo poderoso mestre das marionetas a tentar puxar as cordas dos vários governos à volta do mundo para servir os seus interesses corporativos.” No entanto, uma leitura atenta dos telegramas desmente claramente esta afirmação.

“Isto não é chantagem”

No final de 2005, na Bolívia, Evo Morales teve uma vitória esmagadora nas eleições presidenciais com base em uma reforma constitucional, direitos indígenas e a promessa de lutar contra a pobreza e o neoliberalismo. No dia 3 de Janeiro, apenas dois dias após a sua tomada de posse, Morales recebeu uma visita do embaixador David L. Greenlee. O embaixador foi direto ao assunto: O visto dos EUA sobre a ajuda multilateral à Bolívia dependeria do bom comportamento do governo de Morales. Podia ser uma cena do Poderoso Chefão.

[O embaixador] mostrou a importância crucial das [instituições] financeiras internacionais, das quais a Bolívia dependia para assistência, tais como o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional. “Quando pensar no BID, deve pensar nos EUA,” disse o embaixador, “isto não é chantagem, é a simples realidade.”

No entanto, Morales aferrou-se à sua agenda. Durante os dias seguintes forjou planos para regular novamente o mercado de trabalho, renacionalizar a indústria dos hidrocarbonetos e estreitar a cooperação com o arqui-inimigo de Washington, Hugo Chavez. Em resposta, Greenlee sugeriu um menu de opções para forçar Morales a curvar-se perante a vontade do seu governo. Estas incluíam; vetar empréstimos multilaterais de vários milhões de dólares, adiar os já agendados alívios multilaterais da dívida, desencorajar os fundos da Millennium Challenge Corporation (que a Bolívia nunca recebeu até hoje, apesar de ser um dos países mais pobres do hemisfério) e cortar o “apoio material” às forças de segurança bolivianas.

Infelizmente para o Departamento de Estado, em pouco tempo, ficou claro que este tipo de ameaças seriam devidamente ignoradas. Morales já tinha decidido reduzir drasticamente a dependência da Bolívia nas linhas de crédito multilaterais que requisitassem uma habilitação do Departamento do Tesouro dos Estados Unidos. Poucas semanas depois de tomar posse, Morales anunciou que a Bolívia já não estaria dependente do FMI, e deixaria o acordo de empréstimos com o Fundo expirar. Anos mais tarde, Morales, aconselharia a Grécia e outros países endividados da Europa a seguir o exemplo de Bolívia e a “libertarem-se da ordem do Fundo Monetário Internacional.”

Não conseguindo forçar Morales às suas jogadas, o Departamento de Estado começou, então, a centrar-se no fortalecimento da oposição boliviana. A região controlada pela oposição, Media Luna, começou a receber cada vez mais assistência dos Estados Unidos. Um telegrama de Abril de 2007, discute “um maior esforço da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID) para fortalecer os governos regionais como contrapeso ao governo central.”

Um relatório da USAID de 2007 mencionava que o seu Office of Transition Initiatives (OTI) tinha aprovado 101 bolsas por US$4.066.131 para ajudar os governos departamentais a operar mais estrategicamente.” Também se fez chegar fundos aos grupos indígenas que se opunham à visão de Morales para as comunidades indígenas.”

Um ano mais tarde os departamentos de Media Luna, iriam empenhar-se na rebelião contra o governo de Morales, primeiramente com um referendo sobre a autonomia, apesar destes terem sido considerados ilegais pelas autoridades judiciais; e posteriormente apoiando os protestos violentos pró-autonomia que tiveram como consequência pelo menos 20 simpatizantes do governo mortos.

Muitos acreditavam que se estava a desenvolver uma tentativa de golpe de estado. A situação apenas se acalmou com a pressão de todos os outros presidentes da América do Sul, que emitiram uma declaração conjunta de apoio ao governo constitucional do país. Mas enquanto que a América do Sul se unia em apoio a Evo, os Estados Unidos seguiam em comunicação regular com os líderes da oposição do movimento separatista, mesmo quando estes falavam em “rebentar com as condutas de gás” e usar a “violência como uma probabilidade de forçar o governo a levar a sério qualquer diálogo.”

Contrariamente à posição oficial durante os eventos de Agosto e Setembro de 2008, o Departamento de Estado, levou muito a sério a possibilidade de um golpe de estado ou assassinato do presidente boliviano, Evo Morales. Um telegrama revela planos da Embaixada dos EUA em La Paz para tal caso: “[o Emergency Action Committee] irá desenvolver, com [o US Southern Command Situational Assessment Team], um plano de resposta no caso de uma urgência repentina, i.e. um golpe de estado ou a morte do Presidente Morales,” lê-se no telegrama.

Os acontecimentos de 2008 foram o maior desafio até agora da presidência de Morales e a situação em que ele esteve mais perto de ser derrubado. As preparações para uma possível saída da presidência de Morales revelam que os Estados Unidos, pelo menos, acreditaram que a ameaça a Morales era bastante real. O fato de não ter dito nada publicamente apenas sublinha de que lado Washington se posicionava durante o conflito e qual desfecho provavelmente preferiria.

Como funciona

Alguns dos métodos de intervenção usados na Bolívia foram emulados de outros países com governos de esquerda ou com movimentos fortes de esquerda. Por exemplo, após o regresso dos Sandinistas ao poder, em Nicarágua, no ano 2007, a embaixada dos EUA em Manágua trabalhou “a toda a velocidade” para reforçar o apoio ao partido de oposição de direita, o Alianza Liberal Nicaraguense (ALN). Em Fevereiro de 2007, a embaixada reuniu com o coordenador estratégico do ALN e explicou-lhe que os EUA “não providenciavam assistência direta a partidos políticos,” mas — de maneira a ultrapassar esta restrição — sugeriu que o ALN estivesse mais estreitamente coordenado com ONGs amigas que pudessem receber fundos dos EUA.

A líder do ALN disse que “avançaria com uma lista extensiva da lista ONGs que, de fato, apoiam os esforços do ALN” e a embaixada proporcionou-lhe “encontros com os diretores para o país do IRI [Instituto Republicano Internacional] e NDI [Instituto Internacional Democrata para os Assuntos Internacionais].” O telegrama também faz notar que a embaixada iria “dar seguimento ao incremento de angariação de fundos” para o ALN.

Telegramas como este deveriam ser de leitura obrigatória para estudantes da diplomacia dos EUA e aqueles que querem perceber como o sistema de “promoção de democracia” realmente funciona. Através do USAID, Fundação Nacional para a Democracia (NED), NDI, IRI e outras entidades para-governamentais, o governo dos EUA fornece uma ampla assistência aos movimentos políticos que apoiem os objetivos econômicos e políticos dos EUA.

Em Março de 2007, o embaixador dos EUA na Nicarágua pediu ao Departamento de Estado que providenciasse aproximadamente 65 milhões de dólares acima dos níveis de base recentes nos próximos quatro anos — ao longo das próximas eleições presidenciais de maneira a financiar o “fortalecimento dos partidos políticos, ONGs “democráticas” e “pequenas e flexíveis subvenções de decisão rápida a grupos comprometidos em desenvolver esforços críticos que defendam a democracia em Nicarágua, que façam avançar os nossos interesses e se contraponham a aqueles que se mobilizam contra nós.”

No Equador, a embaixada dos EUA opôs-se ao economista de esquerda, Rafael Correa, vencedor destacado nas eleições de 2006 e o levaram ao cargo presidencial. Dois meses antes dessas eleições, o conselheiro político da embaixada alertou Washington que “se podia esperar que Correa se juntasse ao grupo Chavez-Morales-Kirchner de líderes sul americanos nacionalistas-populistas,” e fazia notar que a embaixada tinha “avisado os nossos contatos políticos, econômicos e midiáticos da ameaça que Correa representa para o futuro de Equador e desencorajou as alianças políticas que podiam equilibrar a percepção de Correa com o radicalismo.” Imediatamente após a eleição de Correa, a embaixada enviou um telegrama ao Departamento de Estado com o seu plano de jogo:

Não mantemos ilusões de que as tentativas do Governo dos Estados Unidos possam influenciar a direção do novo governo ou do Congresso, mas esperamos maximizar a nossa influência junto com outros equatorianos e grupos que partilham os nossos pontos de vista. As propostas de reformas de Correa e atitude perante o Congresso e partidos políticos tradicionais, se não for controlada, pode prolongar o período atual de conflitos e instabilidade.

Os maiores medos da embaixada foram confirmados. Correa anunciou que fecharia a base aérea dos EUA em Manta, aumentaria os gastos sociais, e avançaria uma assembleia constituinte. Em Abril de 2007, 80 porcento de eleitores equatorianos validaram a proposta de uma assembleia constituinte e em 2008, 62 porcento aprovaram a nova constituição que consagrava uma série de princípios progressistas, incluindo a soberania alimentar, direito à habitação, saúde e emprego e controle governamental sobre o banco central (um enorme não-não à cartilha neoliberal).

No início de 2009, Correa anunciou que o Equador cumpriria parcialmente com a sua dívida externa. A embaixada estava furiosa com esta decisão e outras ações recentes, como a decisão de Correa de alinhar Equador mais estreitamente com a Aliança Bolivariana para os Povos da Nossa América (ALBA) de esquerda (que tinha sido iniciada pela Venezuela e Cuba em 2004 como contrapeso à Área de Comércio Livre das Américas (ALCA), naquela altura promovida pela administração Bush. Mas o embaixador estava também consciente de que tinha pouca influência sobre ele:

Estamos a transmitir a mensagem em privado de que as ações de Correa irão ter consequências na sua relação com a nova administração de Obama, enquanto evitamos comentários públicos que seriam contraproducentes. Não recomendamos que se termine qualquer programa do Governo dos Estados Unidos que sirvam os nossos interesses uma vez que essa opção apenas enfraqueceria os incentivos de Correa de retroceder para uma posição mais pragmática.

O incumprimento parcial teve sucesso e aforrou ao governo equatoriano aproximadamente 2 bilhões de dólares. Em 2011, Correa recomendou o mesmo tratamento para os países europeus endividados, particularmente Grécia, aconselhando-os a não cumprir os pagamentos da dívida e 'ignorar o conselho do FMI.'

As ruas estão quentes

Durante a Guerra Fria, a suposta ameaça do avanço soviético e cubano serviu para justificar um sem número de intervenções para remover governos de inclinação de esquerda e apoiar regimes militares de direita. De maneira similar, os telegramas do WikiLeaks mostraram como, nos anos 2000, o espectro do “Bolivarianismo” foi usado para validar intervenções contra novos governos de esquerda anti-liberais, como o da Bolívia, representado como tendo “caído sem reservas no abraço venezuelano;” ou do Equador, visto como um “testa-de-ferro” para Chávez”

As relações com o governo de esquerda de Hugo Chávez amargaram desde o início. Chávez eleito presidente pela primeira vez em 1998, rejeitando amplamente as políticas econômicas neoliberais, desenvolveu uma relação estreita com Cuba de Fidel Castro e criticou, bem alto, o assalto da administração Bush ao Afeganistão após os ataques de 9/11 (os EUA retiraram o seu embaixador de Caracas após Chavéz ter proclamado: “Não podes lutar contra o terrorismo com terrorismo”).

Mais tarde fortaleceu o controle governamental do setor petrolífero, aumentando os valores de royalties pagos pelas empresas estrangeiras e usou as receitas do petróleo para financiar o sistema público de saúde, educação e programas alimentares para os pobres.

Em Abril de 2002, a administração Bush validou publicamente um golpe de estado, de pequena duração, que removeu Chávez do poder por quarenta e oito horas. Os documentos da Fundação Nacional para a Democracia, obtidos através da Freedom of Information Act [Lei pela Liberdade de Informação], mostraram que os EUA forneceram fundos para a “promoção da democracia” e treinamento a grupos que apoiassem o golpe de estado e que mais tarde viriam a estar envolvidos em esforços para remover Chávez através de “greves” administrativas que paralisaram a indústria petrolífera, nos finais de 2002 e mergulharam o país em recessão. Os telegramas da WikiLeaks mostram que após essas tentativas falhadas de derrubar o governo eleito venezuelano, os EUA continuaram a apoiar a oposição venezuelana através da NED e USAID.

Em um telegrama de Novembro de 2006, William Brownfield, embaixador naquela altura, explicava a estratégia de USAID/OTI para debilitar a administração de Chávez:

Em Agosto de 2004, o embaixador delineava os 5 pontos estratégicos da sua equipe para o país neste período [2004-2006] que serviriam de guia para a embaixada... o foco da estratégia é: 1) Fortalecimento das Instituições Democráticas, 2) Penetrar na Base Política de Chávez, 3) Dividir o Chavismo, 4) Proteger os negócios vitais dos EUA, e 5) Isolar Chávez internacionalmente.

Os laços apertados que existem entre a embaixada dos EUA e os vários grupos de oposição são evidentes em numerosos telegramas. Um telegrama de Brownfield relaciona a Súmate — uma ONG que teve um papel central nas campanhas de oposição — aos “nossos interesses na Venezuela.” Outros telegramas revelam que o Departamento de Estado fez pressão internacional para que se demonstrasse apoio à Súmate e encorajou apoio financeiro, político e legal dos EUA a esta organização, muito dele canalizado através da NED.

Em Agosto de 2009, a Venezuela foi atingida por protestos violentos de oposição (como tinha ocorrido um variado número de vezes sob Chávez e depois com o seu sucessor Nicolas Maduro). Um telegrama secreto de 27 de Agosto cita o contratante Development Alternatives Incorporated (DAI) referindo-se a “todas” as pessoas protestando naquele momento como “nossos beneficiários”:

[O empregado da DAI] Eduardo Fernandez disse que “as ruas estão quentes” referindo-se aos cada vez maiores protestos contra as tentativas de Chávez de consolidar o poder e que “todas estas pessoas (organizando os protestos) são nossos beneficiários.”

Os telegramas também revelam que o Departamento de Estado providenciou treinamento e apoio a um líder estudante que reconhecidamente tinha liderado multidões com a intenção de “linchar” um governador Chavista: “Durante o golpe de estado de Abril de 2002, [Nixon] Moreno participou nas manifestações no estado de Merida, liderando multidões que marcharam na capital do estado para linchar o governador Florencio Porras do MVR.”

No entanto, uns anos depois disto, outro telegrama mostra: “Moreno participou no International Visitor Program [do Departamento de Estado] em 2004.” Moreno viria mais tarde a ser procurado por tentativa de homicídio e ameaças a uma polícia, além de outras acusações. Também na linha da estratégia dos cinco pontos, como delineava Brownfield, o Departamento de Estado priorizava os seus esforços no isolamento internacional do governo venezuelano e em contrabalançar a sua influência em toda a região. Os telegramas mostram como os chefes das missões diplomáticas na região desenvolveram estratégias coordenadas para contrabalançar a “ameaça” regional.

Assim como a WikiLeaks inicialmente revelou em Dezembro de 2010, os chefes de missão para 5 países sul americanos encontraram-se no Brasil em Maio de 2007 para desenvolver uma resposta conjunta aos alegados “planos agressivos” do Presidente Chávez… de criar um movimento unificado Bolivariano por toda a América Latina.” Entre as áreas de ação que os chefes de missão havia um plano de “continuar a fortalecer laços com aqueles líderes militares na região que partilham a nossa preocupação com Chávez.” Um encontro similar dos chefes de missão dos EUA da América Central — focada na “ameaça” de “atividades políticas populistas na região” — realizou-se na embaixada dos EUA em El Salvador em Março de 2006.

Os diplomatas dos EUA fizeram grandes esforços para tentar prevenir que os governos das Caraíbas e América Central se juntassem à Petrocaribe, um acordo regional de energia de Venezuela que providencia petróleo aos seus membros em termos extremamente preferenciais. Telegramas vindos a público mostram que os oficiais norte-americanos reconheciam, de forma privada, os benefícios econômicos do acordo para os países membros, assim como mostravam preocupação que a Petrocaribe fosse aumentar a influência daVenezuela na região.

No Haiti, a embaixada trabalhou de forma estreita com grandes empresas de petróleo para tentar prevenir que o governo de René Préval se juntasse à Petrocaribe, apesar de reconhecerem que “liberaria 100 milhões de dólares por ano,” como foi reportado por Dan Coughlin e Kim Ives na Nation. Em Abril de 2006 a embaixada “telegrafou” de Porto Príncipe: “Continuaremos a pressionar [o presidente René do Haiti] Preval contra a sua adesão à PetroCaribe. O embaixador verá hoje o conselheiro chefe de Preval, Bob Manuel. Em reuniões anteriores este compreendeu as nossas preocupações e está consciente que um acordo com Chávez iria provocar problemas conosco.”

O histórico da esquerda

Devemos ter em conta que os telegramas do WikiLeaks não mostram vislumbres das atividades mais secretas das agências de informação dos EUA e são provavelmente apenas a ponta do icebergue no que toca às interferências políticas de Washington na região. No entanto os telegramas fornecem evidências alargadas da persistência e dos esforços determinados dos diplomatas dos EUA em intervir contra os governos de esquerda na América Latina, usando a alavancagem financeira e os múltiplos instrumentos disponíveis na caixa de ferramentas para a “promoção da democracia” — e às vezes até através de meios violentos e ilegais.

Apesar do restabelecimento das relações diplomáticas com Cuba por parte da administração Obama, não há indicações de que as políticas em relação à Venezuela e outros governos de esquerda da América Latina tenham mudado significativamente. Não há dúvida que a hostilidade da administração em relação ao governo eleito da Venezuela é inexorável. Em Junho de 2014, o Vice Presidente Joe Biden deu início à Caribbean Energy Security Initiative, visto como um “antídoto” à Petrocaribe. Em Março de 2015, Obama declarou Venezuela como “ameaça extraordinária à segurança nacional” anunciado sanções contra oficiais venezuelanos, uma atitude criticada de forma unânime por outros países na região.

Mas, apesar das agressões incessantes dos EUA, a Esquerda, em grande medida, tem prevalecido na América Latina. Com a excepção de Honduras e Paraguai, onde golpes de estado de direita derrubaram líderes eleitos, quase todos os movimentos de esquerda que chegaram ao poder nos últimos quinze anos mantêm-se ainda hoje no poder.

Principalmente como resultado destes governos, de 2002 a 2013 a taxa de pobreza da região baixou de 44% para 28% após ter, de fato, piorado nas duas décadas anteriores. Estes sucessos e vontades dos líderes de esquerda de correr riscos de maneira a se libertarem do diktat neoliberal, deve hoje ser uma fonte de inspiração para a esquerda anti-austeridade da Europa. É certo que alguns dos governos estão hoje a passar por dificuldades significativas, em parte devido à recessão econômica regional que afetou os governos de direita e de esquerda de igual maneira. Mas visto através das lentes dos telegramas, há boas razões para questionar se todas estas dificuldades são fomentadas internamente.

Por exemplo, em Equador — onde o presidente Correa está sob ataque da Direita e de alguns setores da Esquerda — os protestos contra as novas propostas de impostos progressivos envolve os mesmos homens de negócios, alinhados com a oposição, com quem os diplomatas dos EUA são vistos a definir estratégias nos telegramas.

Em Venezuela, onde um sistema de controlo monetário disfuncional gerou uma enorme inflação, protestos violentos de estudantes de direita desestabilizaram seriamente o país. As probabilidades são extremamente altas de que alguns destas pessoas que protestam tenham recebido financiamentos e/ou treinamento da USAID ou NED, que viram o seu orçamento para Venezuela aumentar 80 porcento de 2012 para 2014.

Ainda há muito mais a aprender dos telegramas da WikiLeaks. Para os capítulos América Latina e as Caraíbas” do “The WikiLeaks Files”, examinamos atentamente centenas de telegramas e fomos capazes de identificar distintos padrões de intervenção dos EUA que descrevemos em maior profundidade no livro (alguns destes já previamente reportados por outros). Outros autores do livro fizeram o mesmo para outras regiões do mundo. Mas há mais de 250,000 telegramas (quase 35,000 só da América Latina) e há sem dúvida muitos outros aspectos referenciáveis da diplomacia dos EUA na atualidade que estão à espera de ser desmascarados.

Tristemente, após a excitação inicial, na altura que os telegramas foram inicialmente divulgados, poucos jornalistas e acadêmicos têm mostrado grande interesse no assunto. Até que isto mude, não teremos uma discrição completa de como os EUA se vêem a si mesmos no mundo e como o seu braço diplomático responde aos desafios à sua hegemonia.

Orwell na ONU: Obama redefine a democracia como um país que apoia a política dos EUA

Michael Hudson

CounterPunch: Tells the Facts and Names the Names

Em seu discurso Orwelliano de 28 de setembro de 2015 na ONU, o presidente Obama disse que se houvesse democracia na Síria nunca teria havido revolta contra Assad. Com isso ele quis dizer ISIL. Onde há democracia, disse ele, não há violência ou revolução. Onde há democracia, disse ele, não há violência ou revolução.

Essa foi sua ameaça de promover revoluções, golpes e violência contra qualquer país que não considera como uma "democracia". Nessa ameaça, afinal nem tão velada assim, Obama redefiniu o vocabulário da política internacional. "Democracia" existe onde a CIA derrube Mossadegh, no Irã, para lá instalar o Xá. "Democracia" há onde os EUA patrocinem os Talebã, contra a Rússia, para derrubar o governo secular do Afeganistão. "Democracia" há na Ucrânia do golpe para pôr no poder "Yats" e Poroshenko. "Democracia" é os EUA instalando Pinochet no governo do Chile. Democráticos, só "os nossos filhos da mãe", como disse Lyndon Johnson referindo-se aos ditadores que a política externa dos EUA instalou no poder na América Latina.

Há um século, a palavra "democracia" aplicava-se a nação cujas políticas fossem delineadas por representantes eleitos. Sempre, desde a antiga Grécia, "democracia" foi o contrário de oligarquia e aristocracia. Mas depois da Guerra Fria, os políticos norte-americanos passaram a usar a palavra de outro modo. Quando um presidente dos EUA diz "democracia", está falando de país que siga cegamente as políticas neoliberais dos EUA, não importa se é ditadura militar ou governo que chegou ao poder por golpe (sempre chamados de "revolução colorida") como na Georgia e na Ucrânia. Para que um governo seja "democrático", na novilíngua dos políticos norte-americanos, basta que apoie sem reclamar o Consenso de Washington, a OTAN e o FMI. "Democrático", nesse caso, é governo que transfere o direito de construir e aplicar políticas, das mãos de políticos eleitos, para algum "banco central independente", cujas políticas são ditadas diretamente pela oligarquia encastelada em Wall Street, na City de Londres e em Frankfurt.

Por artes dessa operação orwelliana de redefinir o vocabulário político, quando o presidente Obama diz que esses países jamais conhecerão golpes, revolução violenta ou terrorismos, ele está dizendo que países que se mantenham bem-comportadamente dentro da órbita diplomática dos EUA não correm risco de serem desestabilizados (processo patrocinado pelo Departamento de Defesa e Departamento do Tesouro dos EUA). E países cujos eleitores elejam democraticamente governo ou regime que aja com independência (ou que apenas reivindique o poder de agir com independência, sem ter de seguir cegamente diretivas dos EUA), esses, sim, serão desestabilizados – à moda do que foi feito na Síria, do que foi feito na Ucrânia, do que foi feito no Chile do general Pinochet. Como Henry Kissinger argumentou: só porque um país elege comunistas não significa que tenhamos de aceitar. É a cara das "revoluções coloridas" patrocinadas pelo National Endowment for Democracy [Dotação Nacional para a Democracia].

Na sua fala na ONU, o presidente Putin da Rússia alertou contra a "exportação de 'revolução democrática'", referindo-se aos EUA em apoio aos seus factótuns locais. O ISIL é armado com armas dos EUA e seus soldados foram treinados por instrutores das forças armadas dos EUA. E caso houvesse ainda alguma dúvida, o presidente Obama reiterou diante da ONU que até que o presidente Assad da Síria seja substituído por alguém mais submisso à política militar e do petróleo dos EUA, o principal inimigo é Assad, não o ISIL. 

"É impossível tolerar por mais tempo essa situação" – Putin respondeu. E o mesmo se aplica à Ucrânia: "O que me parece absolutamente inaceitável" – disse Putin, em entrevista ao programa 60 Minutes da CBS –, "é impor a resolução de questões políticas internas nas repúblicas que formaram a URSS, com 'revoluções coloridas', com golpes de estado, pela remoção inconstituicional de quem esteja no poder. Isso é totalmente inaceitável. Nossos parceiros nos EUA apoiaram os que derrubaram Yanukovych. (...) Sabemos quem e onde, quando, quem falou com quem, quem trabalhou com quem para derrubar Yanukovych, como foram pagos, como foram treinados, onde, em que países e quem foram os instrutores. Sabemos de tudo. É inaceitável." [1]

O que significa tudo isso, para as relações EUA-Rússia? Por um momento, cheguei a ter esperanças de que talvez aquela conversa anti-Rússia de Obama seria alguma espécie de 'cobertura' para proteger algum acordo que estivesse em preparação para a reunião das 17h, com Putin. Falar de um modo, para conseguir (tentar) agir na direção oposta, tem sido o modus operandi de Obama, como de tantos políticos. Mas, não. Obama continua sob total domínio dos neoconservadores.

Onde isso vai levar? Há muitas maneiras de pensar fora da caixa. E se Putin propõe transportar por avião e navios os refugiados sírios – 1/3 da população do país – para a Europa, entregando-os na Holanda e Inglaterra, países que, pelas regras Shengen, são obrigados a aceitá-los?

E se resolver levar para a Rússia os melhores especialistas em computação e inúmeros outros tipos de trabalho altamente especializado, para os quais o sistema educacional sírio forma mão de obra respeitada em todo o planeta, para assim suplementar o rio de emigração que sai da Ucrânia "democratizada" por Victoria Nuland?

E o que acontecerá se os planos conjuntos já anunciados no domingo entre Iraque, Irã, Síria e Rússia para dar combate aos terroristas do ISIS – coalizão à qual EUA/OTAN recusaram-se a se unir – resultarem em ataques a soldados dos EUA ou, mesmo, ao principal financiador do ISIS, a Arábia Saudita?

O jogo esta fora das mãos dos EUA agora. Tudo o que é capaz de fazer é exercer a ameaça da "democracia" como uma arma de golpes para transformar os países recalcitrantes em Libias, Iraques e Sirias.

Nota:

[1] "Todos os olhos em Putin", CBSNews.com, 27 de setembro de 2015.

27 de setembro de 2015

Desastre, Inc.

Como Henry Kissinger ajudou a criar o nosso mundo "proliferado"

Greg Grandin


Tradução / O único ser humano que Henry Kissinger bajulou mais do que o presidente Richard Nixon foi Mohammad Reza Pahlavi, xá do Irã. No início dos anos 1970, o xá, sentado sobre reserva enorme de petróleo cujo preço não parava de subir, e figura chave no movimento (pivô) de Nixon e Kissinger para o Oriente Médio, queria ser tratado como gente séria. Queria que seu país recebesse o mesmo respeito que Washington mostrava a outros aliados chaves da Guerra Fria, como Alemanha Ocidental e Grã-Bretanha. Como conselheiro de segurança nacional de Nixon e, depois de 1973, como secretário de Estado, o serviço de Kissinger era inflar o xá, fazê-lo sentir-se como se realmente fosse o "rei dos reis".

Se se leem os registros diplomáticos, é difícil não imaginá-lo no duro trabalho de preparar-se para seus encontros com o xá, examinando quais os melhores gestos, as melhores palavras, para deixar claro o quanto Sua Majestade era realmente importante para Washington, valorizada muito acima dos demais mortais. "Vamos ver", contou um assessor que ajudava Kissinger na preparação para um daqueles encontros, "se o xá vai querer falar sobre Paquistão, Afeganistão, Arábia Saudita, o Golfo, os curdos e Brezhnev."

Em outra dessas reuniões preparatórias, Kissinger foi informado de que "o xá quer voar num F-14." Silêncio. Em seguida, Kissinger pôs-se a pensar em voz alta como conseguir, com elogios, que o monarca desistisse da ideia. "Podemos dizer", Kissinger começou, "que se ele realmente deseja muito, ok. Mas o presidente preferiria não ter, nem de longe, tal preocupação [de que o avião caísse]. O xá se sentirá prestigiado." Uma vez, Nixon mandou que Kissinger convocasse Danny Kaye para uma apresentação privada, para o xá e a esposa.

Aos 92 anos, Kissinger tem uma longa história de envolvimento no Irã e sua recente oposição ao acordo nuclear de Barack Obama para o Irã, embora não tenha recebido extraordinária atenção, segundo os padrões de Washington, mesmo assim ainda é importante. Há nisso alguma ironia, dado o vasto currículo de Kissinger naquela região, ainda não suficientemente examinado. A crítica de Kissinger focou-se sobretudo em alertar para o risco de o acordo nuclear com o Irã vir a provocar uma corrida armamentista regional, com os estados sunitas, liderados pela Arábia Saudita, alinhados contra o Irã xiita. "Viveremos num mundo proliferado [proliferated world]", disse ele em depoimento no Senado. Em coluna para o Wall Street Journal, que coassinou com outro ex-secretário de Estado George Shultz, Kissinger manifesta sua preocupação de que, uma vez que a região "tende na direção de levante sectário" e "colapso do estado", o "desequilíbrio de poder" pode pender a favor de Teerã.

De todas as pessoas, Kissinger sabe bem como facilmente os melhores planos podem se extraviar e levar ao desastre. O ex-diplomata de modo algum pode ser visto como o único responsável pela desgraça que hoje se abate sobre o Oriente Médio. Há também a invasão do Iraque em 2003, comandada por George W. Bush (que Kissinger apoiou). Mas ele carrega muito mais responsabilidade pelo desequilíbrio de poder em que se debate hoje nosso mundo proliferado, do que em geral se admite.

Algumas de suas políticas no Oriente Médio são bem conhecidos. No início de 1974, por exemplo, sua chamada diplomacia de vaivém [shuttle diplomacy, referência às muitas viagens] ajudou a desescalar as tensões que haviam levado, no ano anterior, à guerra entre árabes e a entidade sionista. Ao mesmo tempo, contudo, foi ele quem cuidadosamente construiu políticas que assegurariam a Israel presença permanente na região, pelo menos por muitas décadas seguintes. E em dezembro de 1975, depois de concluir (erradamente) que havia construído equilíbrio duradouro de poder a favor dos EUA, entre Irã e Iraque, Kissinger retirou o apoio que vinha dando aos curdos (que ele tinha usado como agentes de desestabilização contra os baathistas de Bagdá). Resultado disso, o Iraque imediatamente atacou os curdos, matando milhares; na sequência, lançou um programa de limpeza étnica, realocando à força os sobreviventes curdos e entregando suas casas à população árabe. "Mesmo no contexto de ação secreta, nosso movimento foi uma empreitada vergonhosamente cínica", concluiu uma comissão do Congresso dos EUA que investigou o movimento de Kissinger, de sacrificar os curdos.

Menos conhecido é o modo como as políticas de Kissinger em relação ao Irã e Arábia Saudita acelerou a radicalização na região, o modo como, passo a passo catastrófico, foi Kissinger quem preparou o terreno para as crises que continuam, em espiral infinita, até o presente.

Guardião do Golfo

A maioria das histórias críticas do envolvimento dos EUA no Irã começam, corretamente, com o golpe conjunto, Grã-Bretanha & EUA contra o primeiro-ministro, democraticamente eleito, Mohammad Mosaddegh, em 1953, quê instalou Pahlavi no Trono do Pavão. Mas foi Kissinger que, em 1972, aprofundou muitíssimo as relações entre Washington e Teerã. Foi ele quem começou uma política de apoio amplo, total e irrestrito ao xá, como via para fixar um poder norte-americano estável no Golfo Persa, enquanto os EUA saiam do Sudeste Asiático. Como observou James Schlesinger, que foi diretor da CIA e secretário de Defesa no governo Nixon observou, se "era para fazer o xá o Guardião do Golfo, temos de dar a ele tudo de que ele precise". Isso, Schlesinger acrescentou, significava, de fato, "dar a ele tudo que ele quiser".

O que o xá mais desejava eram armas, armas, de todos os tipos - e instrutores militares norte-americanos, além de uma Marinha e uma Força Aérea. Foi Kissinger quem atropelou todas as objeções do Departamento de Estado e do Pentágono e deu ao xá o que nenhum outro país tinha: a possibilidade de comprar o que quisesse dos fabricantes de armas nos EUA.

"Estamos procurando uma Força Marítima" - o xá disse a Kissinger em 1973 -, "temos uma longa lista de compras". OK. Kissinger deixou-o comprar uma Marinha.

Em 1976, último ano completo de Kissinger no cargo, o Irã converteu-se em principal comprador de armamento norte-americano e já tinha lá o maior contingente de instrutores e conselheiros militares norte-americanos, do planeta. Em 1977, o historiador Ervand Abrahamianobservou, "o xá tinha a maior Marinha do Golfo Persa, a maior Força Aérea de toda a Ásia Ocidental e o 5º maior exército do mundo." Significava, só como pequena amostra da lista, milhares de tanques moderníssimos, centenas de helicópteros, jatos de combate F-4 e F-5, dúzias de aerobarcos [orig. hovercraft], peças de artilharia de longo alcance e mísseis Maverick. No ano seguinte, o xá comprou outros $12 bilhões de equipamento.

Depois que Kissinger deixou o governo, a relação especialíssima que ele tanto trabalhara para construiu voou pelos ares: aconteceu a Revolução do Irã, em 1979, o xá fugiu, ascendeu ao poder o Aiatolá Khomeini, e estudantes invadiram a embaixada dos EUA em Teerã (tomando os que lá estavam, como reféns. A classe política de Washington está, até hoje, tentando desenterrar-se da montanha entulho que lhe caiu sobre a cabeça.

Muitos políticos de alto escalão e incontáveis especialista no Oriente Médio consideraram Kissinger diretamente responsável por aquele desastre, especialmente George Ball, diplomata de carreira que descreveu como um "ato de loucura" a política de Kissinger para o Irã.

Kissinger dedica a vida, desde então, a não permitir que se fale sobre isso e a desviar a atenção, quando alguém se aproxima do tema. Em 2007, depois de uma conferência em Annapolis, um cadete perguntou-lhe por que vendera tantas armas ao xá do Irã, quando "conhecia a natureza do regime do xá"?

"Desde os anos 1950s, todos os governos dos EUA cooperaram com o xá do Irã" - respondeu Kissinger. E continuou: "O Irã é item crucial de nosso ativo estratégico real, e o fato de que hoje esteja em mãos inimigas mostra por que tanto cooperamos com o xá do Irã. Por que vendemos armas a ele Porque ele queria defender-se ele mesmo, e porque nos interessava que ele se defendesse. E volto a dizer: simplesmente não compreendo por que teríamos de pedir desculpas por defender o interesse nacional dos EUA, que coincide com o interesse nacional daquela região."

Esse relato atentamente omite o papel do próprio Kissinger para possibilitar toda a complexa escalada da força do governo do xá, incluindo os torturadores infames da SAVAK - agentes dessa mistura tóxica de polícia secreta e esquadrão da morte treinados pelos EUA - dos quais dependia a sobrevida do regime. Cada desaparecido, cada cadáver mutilado que as famílias enterravam, era mais uma volta do parafuso rumo à revolução. Como escreve James Bill, biógrafo de George Ball, analisando o "fracasso visível" da política de Kissinger para o Irã, "vale a pena observar que nos dois gigantescos volumes das memórias políticas de Kissinger, num total de 2.800 páginas, Kissinger dedica menos de 20 à revolução iraniana e às relações EUA-Irã."

Depois que o xá caiu, os aiatolás passaram a ser beneficiários da prodigalidade de Kissinger em matéria de armamento para o Irã e herdou bilhões de dólares em navios de guerra, tanques, jatos de combate, armas de todos os tipos e outros itens. Também foi Kissinger que conseguiu convencer o governo Carter a dar asilo ao xá nos EUA - o que fez piorar ainda mais rapidamente as relações entre Teerã e Washington, e precipitou a chamada "crise dos reféns" que os estudantes mantiveram presos na embaixada em Teerã.

Na sequência, em 1980, o Iraque de Saddam Hussein invadiu o Irã, iniciando uma guerra que consumiu centenas de milhares de vidas. O governo de Ronald Reagan "tendeu" em direção a Bagdá, oferecendo inteligência em solo indispensável para que o exército de Saddan usasse o letal gás sarín contra soldados do Irã. Ao mesmo tempo, a Casa Branca - ilegalmente e infamemente - traficava armamento de alta tecnologia para o Irã revolucionário, uma das várias operações criminosas que constituiriam o hoje chamado "Irã-Contra affair".

"É pena que os dois não possam perder a guerra" - consta que Kissinger tenha dito, falando de Irã e Iraque. Embora seja difícil de confirmar, Raymond Tanter, que trabalhou no Conselho de Segurança Nacional, informa que, num briefing sobre política exterior para Ronald Reagan, então indicado candidato dos Republicanos à presidência em outubro de 1980, Kissinger sugeriu que "a continuação da luta entre Irã e Iraque atendia aos interesses dos EUA." Tendo apostado (e perdido a aposta) no xá, Kissinger então esperava conseguir fazer o melhor possível, de uma guerra ruim. Os EUA, Kissinger aconselhou Reagan, "devem extrair proveito de ininterruptas hostilidades."

A Arábia Saudita e a correção do petrodólar

O outro "guardião do Golfo" de Kissinger, a Arábia Saudita sunita, porém, não caiu e Kissinger passou a fazer tudo que podia para converter aquela relação já próxima, numa aliança férrea. Em 1975, já dava sinais claros do que viria, construindo com o regime saudita um acordo de venda de armas semelhante ao que ele autorizara e facilitara para o xá, incluindo um contrato de $750 milhões para vender aos xeiques 60 jatos de combate F-5E/F. Àquela altura, os EUA já tinham acordos para venda de equipamento militar a Riad que somavam mais de 1 trilhão de dólares. Mais que isso, só o Irã tivera.

Como Teerã, Riad pagou por aquela enxurrada de armas com o que ganhou no aumento no preço do petróleo. A palavra "petrodólar", segundo o Los Angeles Times, foi cunhada no final de 1973, e introduzida no idioma inglês pelos banqueiros de investimentos em New York que viviam de cortejar os países do Oriente Médio produtores de petróleo. Não tardou, como escreveu o LAT, e o petrodólar tornara-se parte da "interface macroeconômica mundial" e crucial para a política externa que Kissinger estava desenvolvendo no Oriente Médio.

Em junho de 1974, o secretário do Tesouro George Shultz já se pusera a sugerir que aumentar os preços do petróleo bem poderia resultar num "negócio mutuamente muito vantajoso" entre os EUA e os países produtores de petróleo no Oriente Médio. Esse "negócio" como outros logo começaram a 'explicar', poderia resolver uma infinidade de problemas, criando demanda para o dólar norte-americano, injetando o tão carente dinheiro numa indústria de Defesa muito duramente atingida pelo revés que os EUA sofreram no Vietnã, e gerando petrodólares que cobririam os crescentes déficits comerciais.

Como aconteceu no mundo real, os petrodólares jamais foram qualquer coisa além de uma negociata. Energia a preços muito altos funcionaram como âncora a prender a economia dos EUA; inflação e juros altos tornaram-se problema grave por quase uma década. Nem que os EUA passassem a depender dos petrodólares algum dia fora previsto no "plano" que Kissinger inventara. Como aconteceu em muitos outros movimentos de Kissinger, em número muito maior do que ele e seus admiradores admitem hoje, a verdade é que Kissinger mais ou menos tropeçou nesse efeito não procurado. Esse é o motivo pelo qual, em surtos periódicos de frustração, Kissinger até hoje, vez ou outra, tem delírios de mandar, simplesmente, invadir e tomar os campos de petróleo em toda a Península Arábica - movimento que, para ele, resolveria todos os problemas econômicos dos EUA, para sempre.

"Por que não podemos derrubar um daqueles xeiques, só para mostrar que podemos fazer?" - Kissinger pensava em voz alta em novembro de 1973, fantasiando sobre qual o país-bomba-de-gasolina que ele poderia derrubar. "Talvez... Abu Dhabi?" - perguntava ele tempos depois. (Imaginem o que seria o mundo, se Kissinger, no outono de 1973, tivesse decidido derrubar o regime saudita, em vez de derrubar o presidente democraticamente eleito do Chile, Salvador Allende). "Vamos planejar um modo de passar a mão em um pouco do petróleo do Oriente Médio, se assim decidirmos" - disse Kissinger.

Esse agitar de cimitarras, não passava, contudo, de artifício. Kissinger não costurou apenas os vários acordos que tornaram os EUA dependentes dos petrodólares reciclados dos sauditas; ele pôs-se também a promover a ideia de um "piso" para o preço do petróleo, abaixo do qual o preço do barril não cairia. Dentre outras, essas medidas também visavam a proteger os sauditas (e o Irã, até 1979), contra alguma eventual queda na demanda; e oferecia margens seguras de lucro às majors norte-americanas do petróleo.

Stephen Walt, especialista em relações internacionais, escreveu: "Ao final de 1975, mais de 6 mil norte-americanos trabalhavam na Arábia Saudita, em atividades relacionadas aos militares. O total de armas compradas pelos sauditas no período 1974-1975 ultrapassou os $3,8 bilhões, e estava em andamento lá um inacreditável emaranhado de operações de treinamento e projetos de construção que ultrapassava os $10 bilhões."

Desde os anos 1970s, um governo norte-americano depois do outro descobriria que a aliança de ferro que Kissinger criara e aprofundara e que unia os "moderados" medievais da Casa de Saud e Washington servia não só para manter o fluxo de petróleo, mas, também como contrapeso contra o radicalismo xiita e o nacionalismo secular de qualquer tipo.

Recentemente contudo, uma série de eventos históricos de amplitude mundial reduziram a cacos o contexto no qual aquela aliança ainda parecia fazer algum sentido. Dentre esses eventos incluem-se: a invasão e ocupação catastróficas do Iraque; a Primavera Árabe, os eventos na Síria, o crescimento do ISIS, a guinada de Israel rumo à extrema direita, o ataque dos sauditas ao Iêmen, o preço do petróleo que não para de cair; e, bem recentemente, o acordo de Obama com o Irã.

Mas a torneira de armas que Kissinger abriu, continua escancaradamente aberta. Segundo o New York Times, "a Arábia Saudita gastou mais de $80 bilhões em armas ano passado - mais do que jamais antes e mais que França ou Grã-Bretanha - e tornou-se o quarto maior mercado mundial para a Defesa."

Assim como fez depois do fracasso no Vietnã, a indústria de armas nos EUA está buscando compensações pela limitação no orçamento da Defesa dentro do país, vendendo armas para os estados do Golfo.

As "guerras por procuração, guerras à distância, no Oriente Médio, podem durar anos" escreveram Mark Mazzetti e Helene Cooper doNew York Times - "o que tornará os países da região cada vez mais ansiosos para comprar mais jatos F-35, previstos para serem a joia do futuro arsenal de armas dos EUA. Esse avião, o mais caro projeto de armas em todo o mundo, usa a tecnologia stealth e foi pesadamente propagandeado para todos os 'aliados' europeus e asiáticos como capaz de penetrar a blindagem dos sistemas de mísseis de defesa S400 dos russos. Só não foi entregue até hoje aos aliados árabes, porque os EUA preocupam-se com preservar a vantagem militar de Israel." (...)

Rumo ao Afeganistão

Se toda a contribuição de Henry Kissinger para a desgraça do Oriente Médio tivesse sido uma corrida armamentista regional, dependência terminal dos petrodólares, radicalização no Irã e o conflito Teerã-Riad, já seria ruim que chegue. Mas seu legado é muito pior que isso. Kissinger é o homem que um dia terá de ser julgado pela atuação que teve no surgimento e ascensão do chamado "Islã político".

Em julho de 1973, depois que um golpe no Afeganistão instalou um governo moderado, secular mas republicano e com tendências favoráveis aos soviéticos, o xá, então se aproximando do pico máximo de sua influência sobre Kissinger, usou toda a vantagem que tinha, e pediu mais e mais ajuda militar. Agora, disse ele, "tenho de dar cobertura ao Oriente com força aérea de combate". Kissinger deu-lhe tudo que pediu.

Teerã também já começava a intrometer-se na política afegã, tendo oferecido a Cabul bilhões de dólares para desenvolvimento e segurança, em troca de o governo "afrouxar seus laços com a União Soviética". O movimento, à primeira vista, até poderia ser tomado como via pacífica para aumentar a influência dos EUA, via o Irã do xá, sobre Cabul. Mas veio acompanhado de uma iniciativa explosiva: aSAVAK (polícia secreta do xá) e a Agência de Inter-Serviços de Inteligência do Paquistão (ISI), puseram-se a trabalhar em equipe, para que, junto com o dinheiro, entrassem no Afeganistão legiões de insurgentes islamistas extremistas, com a tarefa de desestabilizar o governo republicano de Cabul.

Kissinger, que conhecia lá a história do Império Britânico e do Império Russo, há muito tempo considerava o Paquistão como área de alta importância estratégica. "A defesa do Afeganistão" - ele escreveu em 1955 - "depende da força do Paquistão." Mas antes de Kissinger poder pôr em cena o Paquistão no Afeganistão, contra os soviéticos, teria de tirar de si e do Paquistão a fedentina de um genocídio.

Em 1971, os generais do Paquistão lançaram um banho de sangue na região leste do país (hoje Bangladesh), com Nixon e Kissinger "empenhados por trás dos generais paquistaneses, apoiando aquele regime assassino em muitos dos momentos mais cruciais" - como Gary Bass detalhou. O presidente Nixon e seu conselheiro para segurança nacional, Kissinger, escreve Bass, "apoiaram vigorosamente os assassinos e torturadores de uma geração inteira de cidadãos de Bangladesh."

Kissinger ajudou a tornar isso possível, em parte pelo papel chave que teve na construção do Paquistão como parte de uma estratégia regional, na qual Irã e Arábia Saudita eram igualmente patrocinados para completar o trabalho sujo. Quando o primeiro-ministro do Paquistão Zulfikar Ali Bhutto, que apoiara a carnificina no Paquistão Leste em 1971, visitou Washington em 1975 para reforçar o pedido de restauração da ajuda militar, Kissinger assegurou ao presidente Gerald Ford que "ele [Bhuto] foi grande em '71." Ford concordou, e os dólares dos EUA logo já estavam fluindo diretamente para o exército e o serviço de inteligência do Paquistão.

Como conselheiro para segurança nacional, e depois como secretário de Estado, Kissinger esteve diretamente envolvido no planejamento e na execução de ações clandestinas, em lugares tão absolutamente diferentes entre eles como Cambodia, Angola e Chile. Não há qualquer tipo de informação que indique que ele, pessoalmente, tenha encorajado o ISI do Paquistão ou a SAVAK do xá, a desestabilizarem o Afeganistão. Mas ninguém precisa da pistola fumegante para avaliar o contexto mais amplo e as consequências de suas muitas iniciativas regionais no espaço que, no século 21 se tornaria conhecido em Washington como "o Oriente Médio expandido" [ing. "greater Middle East]."

Em livro que escreveram em 1995 - Out of Afghanistan, baseado em pesquisa em arquivos soviéticos, os analistas de política exterior Diego Cordovez e Selig Harrison oferecem explicação de alcance muito amplo de como muitas das políticas que Kissinger concebeu e implantou - o empoderamento do Irã do xá; a recomposição das relações militares de EUA e Paquistão; o aumento dos preços do petróleo; a adesão ao wahhabismo saudita; e a venda de quantidades estratosféricas de armas - acabaram por, juntas, disparar o que hoje se conhece como "jihadismo":

"Foi no início dos anos 1970s, com os preços do petróleo em ascensão, que o xá Mohammed Reza Pahlavi do Irã embarcou em seu ambicioso esforço para fazer retroceder a influência soviética em países vizinhos e criar uma versão moderna do império persa (...). Começando em 1974, o xá lançou esforço concentrado e determinado para converter Cabul em centro solidário ao ocidente, com a esfera de segurança centrada em Teerã e abraçando Índia, Paquistão e os estados do Golfo Persa (...) Os EUA encorajaram ativamente essa política regressista como parte da ampla parceria que tinham com o xá (...) SAVAK e CIA trabalharam de mãos dadas, algumas vezes em estreita colaboração com grupos afegãos de fundamentalistas islamistas que partilhavam os mesmos objetivos anti-soviéticos, mas tinham, mesmo assim, agendas próprias (...) Com os lucros de petróleo chegando à estratosfera, emissários desses grupos de fundamentalistas árabes que só recentemente haviam começado a ganhar destaque chegaram à cena afegã com as burras carregadas de dinheiro."

Harrison também escreveu que "SAVAK, CIA e agentes paquistaneses" estavam envolvidos em "tentativas falhadas de golpe fundamentalista" no Afeganistão em 1973 e 1974, além de uma tentativa de insurreição islamista no Vale do [rio] Panjshir em 1975, preparando o campo para a Jihad dos anos 1980s (e depois).

Muito já se escreveu sobre a decisão de Jimmy Carter, aconselhado por seu Conselheiro de Segurança Nacional Zbigniew Brzezinski, de autorizar ajuda "não letal" aos mujahedeen afegãos em julho de 1979, seis meses antes de Moscou enviar tropas para apoiar o governo afegão em sua luta contra uma insurgência religiosa islamista crescente. Mas muita ajuda letal já muito tempo estava chegando àqueles mesmos jihadistas mediante o Paquistão, aliado de Washington (e também através do Irã, até a revolução de 1979). Essa 'ajuda' dada a islamistas radicais, iniciada no mandato de Kissinger e continuada ao longo da presidência de Ronald Reagan, teve muitas e infelizes consequências, hoje já muito conhecidas, mas só bem raramente associadas àquele bom Dr. Kissinger. Ele pressionou de modo insuportável o frágil governo secular do Afeganistão. E lançou a infraestrutura básica inicial do que hoje é conhecido como o Islã radical transnacional. E, claro: ele desestabilizou o Afeganistão e, com isso, provocou a invasão soviética.

Ainda há quem celebre as decisões de Carter e Reagan, pelo papel que tiveram em empurrar Moscou para seu próprio pântano estilo-Vietnã, o que teria apressado a dissolução da União Soviética.

"O que é mais importante para a história do mundo" - na conhecida infame pergunta de Brzezinski. - "Os Talibã ou o colapso do império soviético? Alguns muçulmanos incômodos, ou a libertação da Europa Central e o fim da guerra fria?" (A rivalidade entre os dois diplomatas, imigrantes e formados em Harvard, Kissinger e Brzezinski, é bem conhecida. Mas Brzezinski em 1979 foi absolutamente kissingeriano no conselho que deu a Carter. De fato, vários aliados de Kissinger, mantidos no governo Carter, incluindo Walter Slocombe e David Newsom, influenciaram a decisão de apoiar a Jihad.

A ocupação do Afeganistão por Moscou logo se comprovaria desastrosa - e não só para a União Soviética. Quando os soldados soviéticos se retiraram em 1989, deixaram atrás deles um país destroçado e uma rede de fundamentalistas insurgentes que se movimentavam nas sombras e que, já há muitos anos, trabalhava mãos-nas-mãos com a CIA, na mais longa operação clandestina que a Agência manteve, e também trabalhavam com os sauditas e com o ISIpaquistanês. Ali estava, muito clara, um claro contingente de forças kissingerianas reunidas.

Poucos intelectuais sérios creem que, se não tivesse invadido o Afeganistão, a União Soviética teria sobrevivido por mais tempo. Nem a fidelidade do Afeganistão - depois de oscilar entre Washington, Moscou ou Teerã - fizeram qualquer diferença no resultado da Guerra Fria, não mais do que, digamos, Cuba, Iraque, Angola ou Vietnã.

Por mais que o celebrem como "grande estrategista", conselheiro de vários presidentes aos quais dizia que pensassem no futuro, que tomassem atitudes hoje, considerando onde quisessem que o país estivesse em cinco, dez anos, a verdade é que Kissinger absolutamente não viu a fragilidade essencial e o inevitável colapso da União Soviética. Nada do que Kissinger fez, os milhões de vidas que sacrificou no Cambodia, Laos, Angola, Moçambique, Chile, Argentina, Uruguai, Timor Leste e Bangladesh fizeram sequer um centímetro de diferença no resultado da Guerra Fria.

Assim também, cada uma das iniciativas de Kissinger para o Oriente Médio acrescentou sua porção de desastre, ao longo do tempo. Considerem tudo o que Kissinger fez, do ponto de vista de 2015: financiar déspotas, inflar até a total desrazão um xá enlouquecido, garantir legiões de ajuda a forças de segurança que torturavam e aterrorizaram democratas, fazer inchar a indústria de defesa dos EUA com petrodólares 'lavados' e, com tudo, lançar uma corrida armamentista no Oriente Médio financiada com os preços estratosféricos de petróleo e gás, blindar o serviço de inteligência do Paquistão, alimentar o fundamentalismo islamista, jogar o Irã e os curdos contra o Iraque, e, depois, o Iraque e o Irã contra os curdos, condenar Washington a ter de4 defender para sempre a ocupação que persiste, da entidade sionista em terras árabes.

Todas essas ações combinadas, ajudaram a amarrar o moderno Oriente Médio num nó que nem a espada de Alexandre conseguiria cortar.

Invenções sangrentas

Ao longo da última década, uma avalanche de documentos - transcrições de conversas e telefonemas, memorandos que deixam de ser sigilosos e telegramas das embaixadas dos EUA pelo mundo - implicaram Henry Kissinger em crimes em Bangladesh, Cambodia, África do Sul, Laos, Oriente Médio e América Latina. Ele tentou defender-se, falando sobre "contexto". "Extrair uma frase de uma conversa telefônica, quando há outras 50 conversas, isso não é modo aproveitável de analisar alguma coisa" - disse Kissinger recentemente, depois que mais uma grande leva de documentos deixaram de ser sigilosos. "Tenho recomendado que leiam um mês de conversas, para que saibam o que realmente se passou."

Mas nem um mês, nem oito anos de conversas de Kissinger algum dia dirão mais e melhor que Shakespeare em qualquer de suas peças sangrentas. Talvez Macbeth, ao falar do que hoje se chama "retaliação" ou "a volta do chicote sobre o lombo do chicoteador": "Nós só ensinamos instruções sangrentas, as quais, depois de ensinadas, sempre voltam para desgraçar quem as inventou."

Estamos ainda colhendo os frutos de sangue das invenções de Kissinger.

O Estado e a esquerda

Prabhat Patnaik


Tradução / A atitude maoísta para com o Estado indiano é clara. Empenhado numa luta armada para derrubardo mesmo, os maoístas vêem este Estado como o seu inimigo. O que dizer acerca, contudo, daquele segmento da esquerda que não está empenhado na luta armada mas participa em eleições parlamentares, que por vezes constitui governos ao nível de estado e que atua de acordo com a Constituição? Será que ele considera aceitável o Estado indiano? E uma vez que de acordo com a sua análise, este Estado é um Estado burguês (ou um Estado "burguês-latifundiário"), comprometido com a defesa da propriedade capitalista, será que a "esquerda parlamentar" reconciliou-se então à preservação do sistema capitalista na Índia?

Se bem que muitos responderiam a esta pergunta pela afirmativa, a própria esquerda negaria veementemente esta acusação. Ela argumentaria que permanece tão comprometida como sempre com a derrubada do capitalismo e do Estado burguês e que aceitar o Estado indiano burguês (e ocasionalmente mesmo a ser parte dele, uma vez que governos estaduais não estão fora do âmbito do Estado), é apenas um meio de operar a partir de dentro da ordem, para obter o requisito do apoio popular a fim de derrubar a própria ordem. E para obter este apoio, ela opera não só na arena parlamentar como também em outras esferas onde procura fortalecer movimentos populares.

Este era o argumento que o não dividido Partido Comunista havia avançado quando cancelou a Luta Armada em Telangana e em 1952 disputou as primeiras eleições gerais no país sob a nova Constituição. Contudo, este argumento provoca uma imagem bizarra, de um Partido pacientemente "à espera", ou a trabalhar diligentemente em direção ao desenlace, onde receberá como prêmio apoio público adequado, um tanto como o "virtuoso" que recebe um prêmio no "dia do julgamento". Uma tal imagem é obviamente inaceitável para a esquerda, o que significa que este argumento não pode ser tão simples; ele tem de ser complementado por um argumento mais amplo. Este argumento mais amplo pode, na minha opinião, ser esboçado como se segue.

O Estado burguês não é uma coisa imobilizada. Ele pode assumir perfis e aparências diversas. Uma ditadura fascista é um Estado muito mais burguês (onde monopólios estão diretamente envolvidos com o exercício do poder do Estado), tal como um "Estado Previdência" social-democrata, uma vez que ambos estão comprometidos com a defesa e promoção da propriedade capitalista. Por outras palavras, a forma e o conteúdo do Estado burguês muda ao longo do tempo e esta mudança é conduzida por dois fatores: um são as mudanças "espontâneas" que ocorrem na natureza do capitalismo, as quais a esquerda acredita serem proveniente da a partir das tendências imanentes do capital, a partir da lógica interna do seu funcionamento, tal como o capitalismo da "livre competição" do tempo de Adam Smith deu lugar ao capitalismo monopolista. E o outro fator é o grau de resistência e pressão popular que é aplicado sobre o Estado.

O capitalismo tipicamente quer que a intervenção do Estado seja para promover e fomentar a lógica interna do seu funcionamento ao invés de transgredi-la. Ele está continuamente a tentar assegurar que a pressão popular sobre o Estado seja mantida sob controle, que a necessidade para o Estado de adotar medidas em resposta aos desejos do povo e contra as exigências do capital seja anulada. Em suma, ele está sempre a tentar atenuar a democracia.

Este fato por vezes é articulado abertamente. Em 2006, por exemplo, quando o governo Vajpayee na Índia venceu as eleições, The Wall Street Journal lamentou este desenvolvimento e, candidamente, observou que não se deveria permitir que só o eleitorado escolhesse o governo. Ao invés, todos os "participantes" ("stakeholders"), incluindo "investidores", deveriam ter uma palavra na matéria! Mais recentemente, na Europa, na esteira do referendo na Grécia, o eleitorado foi descrito como um "aborrecimento" pelos porta-vozes da finança.

Naturalmente, mudanças tais como a de 2006, não afetam necessariamente os "investidores". O governo seguinte, desde que não afaste o país do turbilhão dos fluxos financeiros globais (que a globalização, o resultado da lógica de funcionamento do capital, necessariamente implica), é constrangido a prosseguir as mesmas políticas depois de vencer a eleição, por medo de que qualquer desvio das mesmas ofenda o capital financeiro e, com isso, provoque saídas de capital e uma crise financeira. Mas isto apenas sublinha o fato de que os caprichos do capital financeiro suprimem as exigências do povo numa economia exposta aos fluxos financeiros globais, isto é, que tal exposição atenua a democracia. Não importa quem o povo eleja, não importa que compromissos foram assumidos junto ao povo antes das eleições, o governo recém-eleito necessariamente trai estes compromissos desde que retenha as mesmas ligações externas do anterior (como o Syriza na Grécia acabou de demonstrar).

Mas com êxito ou não, a resistência do povo atua como um contrapeso contra esta tendência "espontânea" do capital para atenuar a democracia e, em certas conjunturas específicas, ela demonstra-se mais poderosa. O período do pós guerra na Europa – quando a resistência interna na classe trabalhadora (Winston Churchill, recordem-se, perdeu as eleições britânicas efetuadas imediatamente após a guerra devido ao horror da classe trabalhadora em relação às suas políticas sócio-econômicas), e o temor do Comunismo, forçou o capital a fazer concessões – é um exemplo óbvio de uma tal conjuntura. A "gestão da procura" keynesiana e o "Estado Previdência" foram seus produtos.

Por outras palavras, naquele período o Estado burguês, sem deixar de ser um Estado burguês, foi empurrado a uma direção previdenciária (welfarist) sob a pressão popular e contra os desejos da própria burguesia. Numa data posterior, com o capital tornando-se globalizado em consequência das suas próprias tendências imanentes, nem o poder do Estado-nação nem o do movimento da classe trabalhadora (o qual continua a ser organizado em bases nacionais) foi suficientemente poderoso para impedir a imposição da sua agenda. A "espontaneidade" do sistema reafirmou-se livrando-se da interferência do Estado contra a sua lógica interna, a qual dirige-se para o enfraquecimento da resistência e dos direitos dos trabalhadores, para a criação de um exército de reserva de trabalho, para repelir medidas de Estado previdência e para uma atenuação da democracia. 

Uma vez que as tendências espontâneas do capital são sempre para pressionar o Estado burguês em direção ao autoritarismo, a defesa e aprofundamento do seu conteúdo democrático, através da mobilização da resistência popular, torna-se uma tarefa da esquerda. A esquerda, portanto, não está preocupada apenas em calmamente reunir suas forças dentro do corpo de alguma entidade imobilizada (fixed) chamada Estado burguês, até que estas forças se tornem suficientemente fortes para derrubar aquele Estado. Ela está preocupada em defender a todo momento o conteúdo democrático do Estado burguês contra a tentativa da própria burguesia de corroer esse conteúdo.

Dito de modo diferente, dentro do objetivo estratégico global de substituir o Estado burguês existente, defender o conteúdo democrático do sistema constitucional-político contra a tentativa da burguesia para empurrá-lo numa direção mais autoritária, torna-se uma táctica essencial na luta para a superação do Estado burguês. Isto acontece porque tal luta em defesa do conteúdo democrático do Estado burguês também se torna uma luta contra os escalões dominantes da burguesia que estão por trás do ímpeto autoritário.

Na verdade, paradoxalmente, defender o que quer que exista de conteúdo democrático no Estado burguês é uma intervenção poderosa e eficaz no combate global contra o Estado burguês. Isto acontece porque este modo de superar o Estado burguês atua como uma restrição contra a imposição numa data posterior de qualquer nova espécie de autoritarismo, de qualquer ditadura totalitária. E isto envolve em todas as etapas mobilizar grandes massas de povo, junto com outras formações políticas que também se oponham ao autoritarismo, o que lhe dá uma potência muito maior.

Tudo isto é ilustrado vivamente na atual situação indiana. Para executar "reformas" neoliberais tais como tomar terras de camponeses sem o seu consentimento (um exemplo do que Marx chamou "acumulação primitiva de capital") e introduzir "flexibilidade no mercado trabalho" (o que significa reduzir os direitos e a resistência dos trabalhadores), que estão de acordo com as tendência imanentes do capital, a Índia corporativa apoiou nas últimas eleições uma formação política suportada por uma organização comunal-fascista cujo objetivo confessado continua a ser a criação de uma "Nação Hindu" ("Hindu Rashtra"). Esta aliança corporativa-comunal que adquiriu poder já está a desviar o país bastante significativamente numa direção autoritária. É importante nesta conjuntura que ao invés de menosprezar qualquer conteúdo democrático que exista dentro do Estado, tratando-o como "impostura", a esquerda defenda este conteúdo democrático do Estado burguês. O conteúdo democrático do Estado burguês, por outras palavras, torna-se um canteiro para a luta de classe. Só defendendo a democracia a esquerda pode esperar transcender o sistema.

Crise síria: Rússia coloca tropas no terreno na luta contra o ISIS

Palmira pode ser o primeiro alvo islâmico a ser atacado

Robert Fisk

The Independent

Neste momento, soldados uniformizados russos estão guardando postos de controle nas estradas ao redor de três bases militares russas na costa do Mediterrâneo, como parte do plano de Moscou para seus primeiros ataques contra os inimigos do Presidente Bashar al Assad. 

Drones russos – mais da metade dos quais são controlados por operadores russos no território da Síria – estão agora voando regularmente sobre Palmira, que pode ser o primeiro alvo islâmico a ser atacado, de acordo com fontes do exército sírio. A capacidade de inteligência do exército sírio foi muito melhorada ao redor da velha cidade romana, a qual foi capturada pelo Estado Islâmico em maio, depois do que foi usada como campo de execuções tanto de civis quanto de soldados sírios capturados pelo EI. Os drones também estão sobrevoando à noite sobre os desertos do oriente da Síria, atualmente controlados pelo Estado Islâmico.

As tropas sírias fazem planos de recapturar Palmira, desde que a aviação russa possa causar dano suficiente ao Estado Islâmico ao redor da cidade – talvez essa ação possa ocorrer nas próximas três semanas – mas os diplomatas sírios ouviram dos russos que tais ações dependerão muito das reações ao discurso que o Presidente russo, Vladimir Putin, deverá pronunciar nas Nações Unidas em 28 de setembro. Espera-se que o Presidente Putin se apresente como um líder capaz de destruir o Estado Islâmico, depois do fiasco protagonizado pelos Estados Unidos e seus aliados ocidentais.

Cinco grandes aviões russos de transporte continuam entregando mais e mais suprimentos para a base militar adjacente ao Aeroporto de Latakia desde a tarde de sábado e os civis que ali residem disseram que à noite o céu ficava cheio de aviões. Os russos trouxeram tanto equipamento para a Síria – a maioria dos quais para uso do exército governamental – que outra base perto de Tartus foi utilizada como estacionamento para helicópteros, já o terceiro agora em uso pelo exército russo.

Aos pilotos de caça russos foi atribuída a tarefa de tomar parte em operações militares conjuntamente com o exército sírio no interior do país, tendo em mente que o tempo necessário para treinar pilotos sírios seria muito longo até que ficassem hábeis em lidar com os sofisticados caças-bombardeiros que estão sendo entregues. Mas em terra, as tropas russas não se envolverão em todas as operações, a não ser em caso de emergência, revelam as fontes das notícias.

No entanto, os soldados russos que fazem a guarda das bases aéreas estão com uniforme completo, compartilhando com seus colegas sírios das funções de checagem dos postos de controle e não fazem qualquer esforço para ocultar a sua presença ante os civis de Latakia. Mesmo que suas ordens não compreendam o combate imediato, Putin já pode dizer que – ao contrário de seus colegas ocidentais – que a Rússia já tem “botas no terreno” para combater o Estado Islâmico na Síria.