30 de novembro de 2014

Atenas, 1944: um segredo vergonhoso da Inglaterra

Quando 28 civis foram assassinados em Atenas, a responsabilidade não foi dos nazistas, mas dos ingleses. Ed Vulliamy e Helena Smith revelam de que modo a vergonhosa decisão de Churchill de entregar os partisans que haviam lutado pelos Aliados constituiu a semente da ascensão da extrema-direita na Grécia de hoje.

Ed Vulliamy e Helena Smith


Um dia que mudou a história: os corpos de manifestantes desarmados atingidos pela polícia e pelo exército britânico em Atenas em 3 de dezembro de 1944. Fotografia: Dmitri Kessel / Time & Life Pictures / Getty Images

“Ainda consigo ver muito claramente, não me esqueci”, afirma Titos Patríkios. “A Polícia de Atenas a disparar sobre a multidão, do telhado do Parlamento, na Praça Sintagma. Os jovens homens e mulheres jaziam em poças de sangue, toda a gente a correr escada abaixo, tomados de choque, em pânico total.”

E então ocorreu o momento decisivo: a irreverência da juventude, a convicção de acreditar numa causa tão profundamente justa: “Saltei para a fonte no meio da Praça, que ainda lá está, e comecei a gritar: ‘Camaradas, não dispersem! A vitória será nossa! Não se afastem. Chegou o momento, venceremos!’”

“Eu estava”, diz-nos agora, “profundamente convicto de que venceríamos”. Mas a vitória não chegou nesse dia, tal como não se pretendeu que o que acontecera não mudaria a história de um país que, libertado do Reich de Hitler havia umas meras seis semanas, estava agora a caminho de uma sangrenta guerra civil.

Mesmo agora, aos 86 anos, quando Patríkios se ri “de mim para comigo por ter chegado a esta idade”, o poeta recorda, cada cena, cada disparo, o que aconteceu na praça principal da vida política grega, na manhã de 3 de dezembro de 1944.

Foi neste dia, faz agora 70 anos, que o Exército Britânico, ainda em guerra com a Alemanha, abriu fogo (e deu armas aos locais que haviam colaborado com os nazistas para o fazerem) sobre uma multidão de civis que se manifestavam a favor dos partisans, de quem a Inglaterra fora aliada durante três anos.

A multidão levava bandeiras gregas, norte-americanas, inglesas e soviéticas, e gritava “Viva Churchill, Viva Roosevelt, Viva Stalin”, defendendo esta aliança em tempo de guerra.

Vinte e oito civis, na maioria jovens, foram mortos e centenas foram feridos. “Pensáramos todos que esta seria uma manifestação como qualquer outra”, relembra Patríkios. “O nosso trabalho do costume. Ninguém esperava um banho de sangue.”

A lógica dos ingleses era pérfida e brutal: o Primeiro-ministro Winston Churchill considerava que a influência do Partido Comunista entre o movimento de resistência que ele próprio apoiara no decurso da Guerra (a Frente de Libertação Nacional, EAM) se fortalecera mais do que ele havia calculado, o suficiente para prejudicar o seu plano de colocar de novo o rei grego no poder e manter o comunismo à distância. Portanto mudou as alianças para passar a estar do lado dos apoiadores de Hitler, contra aqueles que haviam sido, em primeira instância, os seus aliados.

Havia outros na Praça nesse dia, que, tal como Patríkios, então com 16 anos, se tornariam membros proeminentes da esquerda. Mikis Theodorakis, compositor de renome e figura icônica da moderna história grega, pôs uma bandeira grega sobre o sangue dos que tombaram. Tal como Patríkios, era membro do movimento de resistência da juventude. E, como Patríkios, soube que o seu país tinha mudado. Numa questão de dias, os Spitfires e os Beaufighters da RAF metralhavam bastiões da esquerda. Começava a Batalha de Atenas, conhecida na Grécia como Dekemvriana, que opunha, não os ingleses face aos nazistas, mas os ingleses, ao lado dos apoiadores dos nazistas, contra os partisans. “Ainda consigo sentir o cheiro da destruição”, lamenta-se Patríkios. “Os morteiros choviam e os aviões disparavam sobre tudo. Ainda hoje tenho um sobressalto quando ouço o som de aviões nos filmes de guerra.”

Seguiu-se uma guerra civil catastrófica na Grécia: um episódio cruel e sangrento da história britânica, e também grega, que os gregos conhecem tão bem, embora de modo diferente, consoante o lado em que estavam, mas que curiosamente permanece desconhecida na Inglaterra, talvez por vergonha, talvez por uma arrogante falta de interesse. É uma narrativa desconhecida pelos milhões de ingleses que vão saborear as glórias da Antiguidade grega ou dançar pelas ilhas como num musical.

O legado desta traição tem perseguido a Grécia desde então, a sua sombra paira sobre a turbulência e a violência que despoletou em 2008, que também se chama Dekemvriana, depois do assassinato de um miúdo de escola pela polícia, e que criou um abismo entre a esquerda e a direita desde então.

A sublevação de Dezembro de 1944 e a guerra civil de 1946-49 influencia o presente”, afirma André Gerolymatos, o principal historiador destes acontecimentos, “porque nunca houve uma reconciliação. Em França ou na Itália, se tivesses combatido os Nazistas, eras respeitado na sociedade depois da Guerra, independentemente da tua ideologia. Na Grécia, acabavas a lutar contra as pessoas que colaboraram com os Nazistas, ou a ser preso e torturado por elas, às ordens da Inglaterra.” Esse crime nunca foi reconhecido, e muito do que está a acontecer na Grécia agora é o resultado do desconhecimento do passado.”

Antes da Guerra, a Grécia era governada por uma ditadura de caráter monárquico, cujo emblema, com um machado fascista e a coroa, expressam bem a sua dicotomia uma vez começada a guerra: o ditador, General Ioannis Metaxas, fora treinado como oficial do exército na Alemanha Imperial, enquanto o rei grego George II, um tio do Príncipe Filipe, Duque de Edimburgo, estava ligado à Inglaterra. A esquerda grega, entretanto, fora reforçada por um grande fluxo de refugiados politizados e intelectuais liberais da Ásia Menor, que se introduziram nos bairros da lata de Pireu e na Atenas da classe operária.

O ditador e o Rei eram fervorosamente anticomunistas, e Metaxas baniu o Partido Comunista (KKE), prendendo e torturando os seus membros, apoiadores e todos que não aceitassem “a ideologia nacional” em campos e prisões, ou enviando-os para o exílio interno. Assim que começou a Guerra, Metaxas recusou-se a aceitar o ultimatum de Mussolini para se render e prometeu lealdade à aliança anglo-grega. Os gregos lutaram com valentia e derrotaram os italianos, mas não puderam resistir à Vehrmacht. Por volta do final de Abril de 1941, as potências do eixo impuseram uma dura ocupação ao país. Os gregos, primeiro espontaneamente, depois em grupos organizados, resistiram.

Mas, notou o Executivo de Operações Especiais Britânico (SOE): “a direita e os monárquicos foram mais lentos que os seus opositores na decisão de resistir à ocupação e portanto revelaram-se pouco úteis.”

O aliado natural dos ingleses foi portanto a EAM, uma aliança da esquerda com os partidos agrários, de que o KKE era figura dominante, mas de modo nenhum único, e o seu braço militar partisan, o ELAS.

É difícil descrever o horror da ocupação. O livro do Professor Mark Mazower, Inside Hitler’s Greece descreve horrorosos blocos, ou “cercos”, em que multidões eram encurraladas nas ruas, para que informadores disfarçados pudessem apontar os apoiadores do ELAS à Gestapo e aos Batalhões de Segurança (que haviam sido formados pelo governo colaboracionista para ajudar os Nazistas), para que fossem executados. Despir e violar mulheres era um meio comum de assegurar “depoimentos”. Execuções em massa tiveram lugar “segundo o modelo alemão”: em público, para intimidar; os cadáveres eram deixados pendurados nas árvores, guardados por colaboradores do Batalhão de Segurança, para impedir a sua remoção. Em resposta, o ELAS levava a cabo contra-ataques dirigidos aos alemães e seus esbirros. O movimento partisan nasceu em Atenas, mas tinha base nas aldeias, de modo que a Grécia foi progressivamente libertada a partir do interior. O SOE desempenhou o seu papel, famoso nos anais da história militar pelo papel do Brigadeiro Eddie Myers e “Monty” Woodhouse no rebentamento do viaduto Gorgopotomas em 1942, e outras operações com os partisans, ou andartes, em grego.

Pelo Outono de 1944, a Grécia fora devastada pela ocupação e pela fome. Meio milhão de pessoas havia morrido; 7% da população. O ELAS tinha, contudo, libertado dezenas de aldeias e tinha-se tornado um proto-governo, administrando partes do país, enquanto o estado efetivo desaparecia. Mas, depois da retirada alemã, o ELAS manteve os seus 50.000 partisans armados fora da capital e, em Maio de 1944, aceitaram a vinda de tropas britânicas, e a submissão dos seus homens ao comando do General Ronald Scobie.

A 12 de Outubro, os Alemães saíram de Atenas. Alguns dos combatentes do ELAS, contudo, tinham estado todo este tempo na capital, e acolheram a lufada de ar fresco e a liberdade durante o espaço de seis dias, entre a libertação e a chegada dos ingleses. Um partisan em particular ainda é vivo, com 92 anos de idade, e é uma lenda da Grécia contemporânea.

Glezos é um homem de uma grandeza que é uma lição de humildade. A 30 de Maio de 1941, subiu à Acrópole com outro partisan e arrancou a bandeira nazista com a suástica, que lá fora posta há um mês. Foi preso pela Gestapo em 1942, torturado, e, como resultado, sofreu de tuberculose. Escapou e foi novamente preso duas vezes; a segunda vez por colaboradores. Lembra-se de ter sido condenado à morte em Maio de 1944, antes dos Alemães saírem de Atenas. “Disseram-me que a minha sepultura fora já cavada.” Conseguiu de algum modo evitar a execução e foi depois salvo de um pelotão de execução de um tribunal marcial durante o período da guerra civil por protestos internacionais liderados pelo General de Gaulle, Jean-Paul Sartre e o Arcebispo de Cantuária, o Reverendo Geoffrey Fisher.

Setenta anos mais tarde, ele é um ícone da esquerda grega que é também saudado como a maior autoridade viva sobre a resistência. “Os ingleses, até hoje, dizem que libertaram a Grécia e a salvaram do comunismo”, diz. “Mas o problema é precisamente esse. Eles nunca libertaram a Grécia. A Grécia foi libertada pela resistência, um conjunto de grupos, não apenas a EAM, a 12 de Outubro. Eu estava lá, nas ruas. Havia pessoas por toda a parte, a gritar ‘Liberdade!’, gritávamos ‘Laokratia!; ‘O poder às massas!’”

Os ingleses chegaram devidamente a 18 de Outubro, instalaram um governo provisório sob Georges Papandreou e prepararam-se para restaurar a monarquia. “Desde que chegaram”, relembra Glezos, “o povo e a resistência saudaram-nos como aliados. Não havia senão respeito e amizade para com os ingleses. Não fazíamos ideia de que já estávamos a ceder o nosso país e os nossos direitos”. Foi só uma questão de tempo até a EAM sair do governo provisório frustrada pelas exigências de desmobilização dos partisans. As negociações quebraram a 2 de Dezembro.

O pensamento oficial dos ingleses está refletido nos documentos do Gabinete de Guerra e noutros documentos no Public Record Office, em Kew. Já em 17 de Agosto de 1944, Churchill escrevera um memorando “Pessoal e Top Secret” ao Presidente Norte-americano Franklin Roosevelt, para lhe dizer que “O Gabinete de Guerra e o Secretário do Exterior estão muito preocupados sobre o que acontecerá em Atenas, e de fato na Grécia, quando os Alemães capitularem, ou quando as suas divisões tentarem abandonar o país. Se houver um longo hiato depois das autoridades alemãs saírem da cidade antes de poder estabelecer-se um governo organizado, parece muito provável que a EAM e os extremistas comunistas tentarão cercar a cidade.”

Mas o que os combatentes pela liberdade pretendiam, insiste Glezos, “era o que tínhamos conseguido durante a guerra: um estado governado pelo povo para o povo. Não havia nenhum plano para tomar Atenas, como Churchill mantinha. Se tivéssemos pretendido fazer isso, poderíamos tê-lo feito antes da chegada dos ingleses.” Durante o mês de Novembro, os ingleses trataram de estabelecer a nova Guarda Nacional, tarefa que pertencia à polícia grega, e desarmar as milícias de guerra. Na verdade, o desarmamento aplicou-se apenas ao ELAS, explica Gerolymatos, não àqueles que haviam colaborado com os Nazistas. Gerolymatos escreve, no livro prestes a ser publicado, A Guerra Civil Internacional, sobre o modo como, “em meados de Novembro, os ingleses começaram a libertar oficiais do Batalhão de Segurança... E logo alguns deles caminharam livremente nas ruas de Atenas, envergando novos uniformes... O Exército Britânico continuou a oferecer proteção para ajudar à gradual reabilitação das antigas unidades de colaboradores no exército grego e forças policiais.” Um memorando da SOE instava a que o “HMG não parecesse relacionado com este esquema.”

Em conversa, Gerolymatos afirma: “Tanto quanto o ELAS podia perceber, os ingleses tinham chegado, e agora alguns oficiais superiores dos Batalhões de Segurança e do Departamento Especial de Segurança [unidades colaboracionistas que haviam sido integradas nas SS], eram vistos andando livremente nas ruas. Atenas era, em 1944, uma cidade pequena, e estas pessoas não passavam despercebidas. Os oficiais superiores britânicos sabiam exatamente o que estavam a fazer, apesar de que os soldados vulgares dos antigos Batalhões de Segurança eram a escória da Grécia”. Gerolymatos estima que 12.000 unidades dos Batalhões de Segurança foram libertadas das prisão de Goudi durante a sublevação para se juntarem à Guarda Nacional, e 228 foram reintegrados no exército.

Qualquer ideia, por parte dos ingleses, de que os comunistas estavam predispostos para a revolução perdeu-se no contexto do chamado Acordo de Percentagens, forjado entre Churchill e o Comissário Soviético Josef Stalin na “Conferência de Tolstoy” (nome de código) em Moscou a 9 de Outubro de 1944. Nos termos daquilo a que Churchill chamou “um documento perverso”, a Europa do Sudeste foi repartida em “esferas de influência”, em que, em termos gerais, Stalin escolheu a Romênia e a Bulgária, enquanto a Inglaterra, para manter a Rússia fora do Mediterrâneo, escolheu a Grécia. O que teria sido óbvio fazer, argumenta Gerolymatos, “teria sido incorporar o ELAS no Exército Grego. Os oficiais no ELAS, muitos com comissões no Exército Grego antes da Guerra, presumiram que isto iria acontecer – tal como De Gaulle fez com os comunistas franceses que lutavam na Resistência: “A França está libertada, agora vamos combater a Alemanha.”

“Mas os ingleses e o governo grego no exílio decidiram desde o início que os oficiais e os homens do ELAS não seriam admitidos no novo exército. Churchill queria um confronto com o KKE para conseguir repor o Rei. Churchill acreditava que uma restauração resultaria no restabelecimento da legitimidade e que traria de regresso a velha ordem. A união EAM-ELAS, independentemente da sua relação com o KKE, representaram uma força revolucionária, e uma mudança.”

Entretanto, continua Gerolymatos, “os comunistas gregos tinham decidido não tentar tomar conta do país, pelo menos não até ao fim de Novembro, princípios de Dezembro de 1944. O KKE fez esforços para que se chegasse a um governo à esquerda do centro, e para ser parte dele, é tudo.” A fazer eco de Glezos, diz: “Se tivessem pretendido uma Revolução, não teriam deixado 50.000 homens armados fora da capital depois da libertação; tê-los-iam trazido.”

“Recrutando os colaboradores, os ingleses mudaram o paradigma, assinalando que a velha ordem havia regressado. Churchill queria o conflito”, diz Gerolymatos. “Devemos lembrar-nos: não houve batalha pela Grécia. Um grande número de tropas inglesas que haviam chegado eram administrativos, não unidades de linha. Quando os combates rebentaram em Dezembro, os ingleses e o governo provisório deixaram os Batalhões de Segurança sair de Goudi; eles sabiam como lutar rua a rua porque o tinham feito com os Nazistas. Já tinham lutado contra o ELAS durante a ocupação e recomeçaram a batalha com entusiasmo”.

A manhã de Domingo, 3 de Dezembro, foi solarenga, várias procissões de republicanos gregos, antimonárquicos, socialistas e comunistas puseram-se a caminho da Praça Sintagma. Os cordões policiais bloquearam-lhes o caminho, mas muitos milhares conseguiram romper; quando se aproximavam da Praça, um homem em uniforme militar gritou: “Matem estes desgraçados!” A salva fatal – das posições da polícia grega no cimo do Parlamento e do quartel-general inglês no Hotel Grande Bretagne – durou meia hora. À tarde, uma segunda multidão de manifestantes entrou na Praça, até que esta se encheu com 60 000 pessoas. Depois de várias horas, uma coluna de paraquedistas ingleses limpou a Praça; mas a Batalha de Atenas começara, e Churchill conseguira a sua guerra.

Manolis Glezos estava doente nessa manhã, sofrendo de tuberculose. “Mas quando soube o que estava a acontecer, levantei-me da cama onde estava, doente”, recorda. No dia seguinte, Glezos andava pelas ruas, zangado e determinado, a desarmar as estações da polícia. Na altura em que os ingleses enviaram uma divisão armada, ele e os seus camaradas estavam à espera.

“Destaco o facto”, afirma, “de que eles preferiam usar tropas para combater a nossa população em vez dos Nazis!” Na altura em que os tanques ingleses entraram vindos do porto de Pireaus, ele estava à espera: “Lembro-me de virem pela Via Sacra. Estávamos numa trincheira. Eliminei três tanques”, afirma. “Houve grande banho de sangue, muita luta, perdi muitos amigos. Era difícil atacar um inglês, era difícil matar um soldado inglês – tinham sido nossos aliados. Mas agora iam contra a vontade popular, e haviam declarado guerra ao nosso povo.

No pico da batalha, afirma Glezos, os ingleses até estabeleceram pontos com snipers na Acrópole. “Nem os alemães o fizeram. Disparavam a alvos da EAM, mas não respondíamos, para não atingir o monumento.”

A 5 de Dezembro, o General Scobie impôs a lei marcial e no dia seguinte ordenou o bombardeamento do bairro Metz, da classe operária. “Forças britânicas e governamentais”, escreve a antropóloga Neni Panourgia no seu estudo sobre famílias nessa altura, “tendo à sua disposição armamento pesado, tanques, aviação e um exército disciplinado, podiam fazer incursões na cidade, queimando e bombardeando as casas e ruas e apagando partes da cidade… Os tanques alemães haviam sido substituídos pelos ingleses, os SS e os oficiais da Gestapo por soldados britânicos.” A casa que pertencia ao actor Mimis Fotopoulos, escreve, foi queimada, com um retrato de Churchill sobre a lareira.

“Lembro-me de gritar slogans em inglês, durante uma batalha na Praça Koumoundrou, porque tinha uma voz forte e sentimos que poderia ser ouvido”, afirma o poeta Titos Patríkios, enquanto falamos no seu apartamento. “‘Somos irmãos, nada temos que nos divida, venham connosco!’ Era isso que eu gritava, que eles [as tropas inglesas] retirassem. E nesse preciso momento, com a minha cabeça a espreitar sobre o muro, uma bala assobiou por cima do meu capacete. Se o Evangelos Goufas [também poeta], que estava lá comigo, não me tivesse puxado, teria morrido.”

Hoje pode sorrir da ideia de que, passados apenas meses depois dos assassinatos na praça, estava de regresso à escola, a estudar inglês num curso de Verão do British Council. “Éramos inimigos, mas ao mesmo tempo amigos. Numa batalha encontrei um soldado inglês ferido e levei-o a um hospital de campo. Dei-lhe o meu exemplar de Kidnapped, de Robert Louis Stevenson, e lembro-me de que ele o guardou”.

É esclarecedor ler os despachos dos soldados ingleses, tais como extraídos pelo censor mor, o Capitão J.B. Gibson, agora guardados no Public Record Office. Não dão indicação de que o inimigo que combatiam fora antes um partisan aliado, de facto muitas tropas pensavam que estavam a combater uma força apoiada pelos alemães. Um subtenente escreve: “O Sr. Churchill e o seu discurso não nos deixaram dúvidas, agora sabemos quem combatemos e por quem, os alemães estão obviamente por trás de tudo isto”. De “um oficial”: “Poderão perguntar: porque deveriam os nossos soldados dar a sua vida para resolver os problemas políticos dos gregos? Mas serão apenas problemas políticos dos gregos? Eu digo que não, faz tudo parte da guerra contra os alemães, e temos de exterminar este elemento rebelde.”

Documentos de gabinete em Kew dão conta das reacções em Londres: uma minuta de 12 de Dezembro regista o regresso de Atenas de Harold Macmillan, conselheiro político do Marechal de Campo Alexandre, para recomendar “uma proclamação de todos os civis contra nós, os rebeldes, e uma declaração segundo a qual os civis que se nos opusessem com armas poderiam ser mortos, e que um aviso de 24 horas deveria ser dado de que certas áreas iriam ser totalmente evacuadas pela população civil”. Daí o Exército Britânico deveria esvaziar a cidade de Atenas e ocupá-la. Rapidamente, tropas britânicas reforçadas estavam no controlo da situação e, na véspera de Natal, Churchill chegou à capital grega numa tentativa falhada de estabelecer a paz no dia de Natal.

“Vou agora dizer-lhe uma coisa que nunca disse a ninguém”, refere Manolis Glezos maliciosamente. Na noite de 25 de Dezembro, Glezos tomaria parte na sua mais arrojada fuga, depositando mais de uma tonelada de dinamite sob o Hotel Grande Bretagne, onde o General Scobie se tinha estabelecido. “Havia cerca de 30 de nós envolvidos. Trabalhámos nos tuneis do sistema de esgotos; tínhamos pessoas a cobrir as saídas nas ruas, receávamos bastante que nos pudessem ouvir. Rastejámos através da porcaria e da água e pusemos a dinamite por debaixo do Hotel, o suficiente para o mandar pelos ares.”

“Eu próprio transportava o fio do fusível, havia fio a toda a volta, e tinha que o ir desenrolando. Estávamos absolutamente imundos, cobertos de excrementos, e quando saímos dos esgotos, lembro-me dos rapazes a lavarem-nos. Fui ter com o rapaz que tinha o detonador; e esperámos, esperámos pelo sinal, mas nunca chegou. Nada. Não houve explosão. Depois percebi: à última da hora, a EAM descobriu que Churchill estava no edifício, e deu ordens para cancelar o ataque. Eles queriam explodir o comando inglês, mas não queriam ser responsáveis pelo assassinato de um dos três grandes.”

No fim da Dekemvriana, milhares haviam sido mortos; 12 000 pessoas de esquerda haviam sido enviadas para campos no Médio Oriente. Uma trégua foi assinada a 12 de Fevereiro, cuja única causa cumprida, ainda assim apenas parcialmente, foi a desmobilização do ELAS. E assim começou um capítulo da história grega conhecido como o “Terror Branco”, em que qualquer pessoa suspeita de ajudar o ELAS durante a Dekemvriana, ou mesmo durante a ocupação Nazi, era apanhada e enviada para um gulag estabelecido para prender, torturar e, muitas vezes, assassinar – ou, em alternativa, o arrependimento, como com a ditadura de Metaxas.

Titos Patríkios não é o género de homem para deixar o passado interferir no presente. Mas não nega que esta história tenha feito exactamente isso; afectando a sua poesia, as suas acções, a sua procura da “palavra justa”. Este homem tão comedido e educado iria passar anos em campos de concentração, estabelecidos com a ajuda dos ingleses quando a guerra civil começou. Com a prisão, veio o trabalho forçado, e com o trabalho forçado veio a tortura, e com o exílio veio a censura. “Na primeira noite em Makronissos [o pior de todos os campos], fomos todos severamente espancados.”

“Passei lá seis meses, a maior parte desse tempo a partir pedra, a apanhar silvas e a transportar areia. Uma vez, fizeram-me estar de pé durante 24 horas, depois de se descobrir que um jornal tinha publicado uma carta a descrever as condições horríveis do campo. Mas apesar de ter sido eu a escrevê-la, e de a ter feito chegar à minha mãe, nunca confessei tê-lo feito e durante o tempo que aqui passei, nunca assinei uma declaração de arrependimento.”

Patríkios esteve entre os que tiveram alguma sorte; milhares de outros foram executados, normalmente em público, as suas cabeças cortadas ou cadáveres pendurados habitualmente expostos em público na praça pública. A embaixada de Sua Majestade em Atenas comentou dizendo que a exibição de cabeças cortadas “é um costume habitual neste país, que não pode ser julgado de acordo com os padrões europeus ocidentais.”

O nome do homem no comando da “Missão da Polícia Britânica” na Grécia é pouco conhecido. A Sir Charles Wickham fora atribuída por Churchill a missão de supervisionar as novas forças de segurança gregas; de facto, recrutar os colaboradores. A antropóloga Neni Panourgia descreve Wickham “uma das pessoas que travestiu o Império, estabelecendo a infraestrutura necessária para a sua sobrevivência”, e atribui-lhe o estabelecimento de um dos mais terríveis campos nos quais os prisioneiros eram torturados e assassinados, em Giaros.

De Yorkshire, Wickham era um militar que serviu na Guerra Boer, durante a qual os campos de concentração, no sentido moderno, foram inventados pelos ingleses. Depois combateu na Rússia, como parte da Força Expedicionária aliada enviada em 1918 para ajudar as forças brancas russas czaristas que se opunham à Revolução Bolshevique. Depois da Grécia, continuou, em 1948, na Palestina. Mas as suas qualificações para a Grécia eram estas: Sir Charles foi o primeiro inspector-geral do Royal Ulster Constabulary (RUC), de 1922 a 1945.

O RUC foi fundado em 1922, no que ficou conhecido como os pogroms de Belfast de 1920-22, quando ruas católicas foram atacadas e queimadas. Foi, escreveu o historiador Tim Pat Coogan, “concebido não como um corpo policial normal, mas como um de contrainsurgência… A nova força continha muitos recrutas que se juntaram com a intuição de serem polícias normais, mas também continha gangues assassinos chefiados por homens como um chefe de polícia que usava baionetas com as suas vítimas porque desse modo prolongava a sua agonia.”

Como descobriu o escritor Michael Farell, quando pesquisou para o seu livro Arming the Protestants, muito do material pertencente à incorporação de Sir Charles destes UFV e milícias da Special Constabulary no RUC foi destruída, mas subsiste o suficiente para dar uma indicação clara do que estava a acontecer. Num memorando escrito por Wickham em Novembro de 1921, antes da formação da RUC, e enquanto o tratado de partição de Dezembro desse ano estava a ser negociado, ele dirigira-se a “Todos os comandantes de município” deste modo: “Devido ao número de relatórios que foi recebido relativo ao crescimento de forças de defesa lealistas não autorizadas, o governo tem em consideração o desejo de obter os serviços dos melhores elementos destas organizações.

Coogan, o maior historiador irlandês, veterano, não reclama neutralidade sobre matérias relativas à República e à União, mas os factos históricos são objectivos e ele tem um conhecimento destes que ninguém mais tem. Conversamos na sua casa, fora de Dublin e bebemos um whisky apropriadamente chamado “Writer’s Tears”, as lágrimas do escritor.

“É uma história de imperialismo”, afirma Coogan, “e claro, aplicaram-no à Grécia.” Essa mesma combinação de campos de concentração, pôr os gangues de assassinos de uniforme, e chamar-lhes polícias. Isso é colonialismo, é assim que as coisas funcionam. Usam quaisquer meios necessários, um dos quais o terror e o conluio com terroristas. Funciona.

“Wickham organizou o RUC com braço armado do Unionismo, que é como permaneceu depois disso.”, refere. “Quanto tempo, na história deste país, antes do relatório de Chris Patten de 1999, e de Wickham ter sido finalmente desacreditado pela polícia? Isso é um período bem extenso, caramba – e, entretanto, quanto sofrimento?”

O chefe do MI5 relatou, em 1940, que “na personalidade e experiência de Sir Charles Wickham, os serviços de combate têm ao dispor um amigo e conselheiro muito valioso”. Quando os serviços de informação precisaram de integrar os Batalhões de Segurança gregos – o “Constabulário Especial” do III Reich – numa nova força policial, tinham encontrado o seu homem.

Os académicos gregos variam nas suas interpretações sobre quão directamente responsável foi Wickham no estabelecimento dos campos com os seus torturadores. Panourgia considera que o campo em Giaros – uma ilha que até mesmo o Imperador Romano Tibério considerou imprópria para os prisioneiros – foi uma iniciativa directa de Wickham. Gerolymatos, entretanto, diz: “Os gregos não precisavam dos ingleses para os ajudar a estabelecer campos. Isso já fora feito antes, por Metaxas.” Documentos em Kew mostram que a polícia britânica ao serviço de Wickham esteve regularmente presente nos campos.

Gerolymatos acrescenta: “Os ingleses (ou seja, Wickham) sabiam quem eram estas pessoas. E isso é o que o torna tão assustador. Estas eram as pessoas que haviam estado nas câmaras de tortura durante a ocupação, a arrancar unhas e a aplicar outras formas de tortura.” Em Setembro de 1947, o ano em que o Partido Comunista foi ilegalizado, 19 620 pessoas de esquerda foram detidas em campos e prisões gregos, 12 000 dos quais em Makronissos, com mais 39 948 exilados internamente ou em campos ingleses pelo Médio Oriente. Existem muitos relatos terríveis de tortura, assassinato e sadismo nos campos de concentração gregos; uma das grandes atrocidades na Europa do pós-guerra. Polymeris Volgis, da New York University, descreve de que modo um sistema de arrependimento foi introduzido como se fosse uma “inquisição secular dos tempos modernos”, com confissões extraídas através de uma “degradação permanente e violenta”.

Às mulheres detidas ser-lhes-iam retirados os filhos até que confessassem ser “búlgaras” e “prostitutas”. O sistema de arrependimento levou Makronissos a ser vista como uma “escola” e “Universidade Nacional” por aqueles que agora estavam convencidos de que “a nossa vida pertence à Grécia Mãe”, em que os convertidos eram visitados pelo rei e pela rainha, ministros e oficiais estrangeiros. “A ideia”, diz Patríkios, que nunca se arrependeu, “era reformar e criar patriotas que serviriam a pátria”.

Os menores na prisão de Kifissa eram espancados com arames e meias cheias de cimento. “Aos rapazes, coziam-lhes etiquetas com nomes no peito”, escreve Voglis, “com terminações eslavas acrescentadas aos nomes; muitos foram violados.” Uma prisioneira foi forçada, depois de severamente espancada, a segurar as cabeças decepadas do tio e do cunhado. Um recluso na prisão de Patras, em Maio de 1945, escreve simplesmente isto: “bateram-me furiosamente na base dos pés até perder a visão. Perdi o mundo.”

Manolis Glezos tem uma história sua. Traz um livro sobre a ocupação e mostra uma reprodução da última mensagem deixada pelo seu irmão Nikos, colocada dentro de uma boina. Nikos fora executado pelos colaboradores apenas um mês antes dos alemães evacuarem a Grécia. À medida que era levado para o pelotão de fuzilamento, o jovem de 19 anos conseguiu atirar a boina que usava pela janela do carro, a qual foi encontrada por um amigo e devolvida à família; é dos objectos mais prezados que Glezos possui.

Por dentro, Nikos escrevera: “Querida mãe. Beijo-te. Abraços. Hoje serei executado, caindo pelo Povo Grego. 10-5-44”

Em mais nenhum sítio da Europa libertada foram os simpatizantes nazis autorizados a penetrar na estrutura do estado - o exército, as forças de segurança, o poder judicial – com tanta eficácia. O ressurgimento do fascismo na forma actual do partido de extrema-direita Aurora Dourada tem ligações directas ao facto de se ter falhado em expurgar o estado de extremistas de direita; muitos dos apoiantes do Aurora Dourada são descendentes de membros do Batalhão, como eram “Os Coronéis” que tomaram o poder em 1967.

Afirma Glezos: “Sei exactamente quem matou o meu irmão e garanto que todos eles saíram impunes. Sei que as pessoas que o fizeram estão no governo, e ninguém foi até agora punido.” Glezos dedicou anos à criação de uma biblioteca em honra do seu irmão. Em Bruxelas, não se coíbe de pedir aos seus interlocutores para contribuírem para o fundo pondo um “frango” (um Euro) numa bolsa de seda. Esta é, conjuntamente com a questão das reparações de guerra, a sua grande campanha, o seu último desejo: erguer um edifício que seja digno da biblioteca que irá honrar Nikos. “A história do meu irmão é a história da Grécia”, diz ele.

Não se afirma que o ELAS, ou o Exército Democrata da Grécia, que o substituiu, sejam vítimas infelizes. Houve de facto um “terror vermelho”, em resposta ao massacre, e na retirada de Atenas, o ELAS levou uns 15 000 prisioneiros consigo. “Matámos alguns”, concede Glezos, “e algumas pessoas agiram por vingança. Mas o limite era não matar civis.”

Em Dezembro de 1946, o Primeiro-ministro grego, Konstantinos Tsaldaris, encarando a probabilidade da retirada britânica, visitou Washington para procurar ajuda norte-americana. Em resposta, o Departamento de Estado dos EUA formulou um plano para intervenção militar que, em Março de 1947, formou a base para um anúncio do Presidente Truman do que ficou conhecido como a Doutrina Truman, para intervir usando a força, onde quer que o comunismo fosse considerado uma ameaça. Tudo o que aconteceu na Grécia sob a iniciativa dos ingleses foi o começo da Guerra-fria.

Glezos ainda se diz comunista. Mas, como Patríkios, que rejeitou o estalinismo, acredita que o comunismo, tal como aplicado aos vizinhos gregos do Norte, teria sido uma catástrofe. Recorda-se agora de que ainda “deu ouvidos” a Nikita Khruschev, o líder soviético que iria “desestalinizar” a União Soviética. A ocasião surgiu quando Khruschev convidou Glezos, que, no auge da Guerra-fria era um herói na União Soviética, honrado com um postal com a sua efígie, para ir ao Kremlin. Foi em 1963 e Khruschev mostrou-se conversador. Glezos quis saber por que razão o Exército Vermelho, tendo marchado pela Bulgária e Roménia, parou na fronteira grega. Talvez o líder russo pudesse explicar.

“Olhou-me e perguntou: ‘porquê?’”

“Eu disse: ‘Porque Estaline não se portou como um comunista. Dividiu o mundo com outros e deu a Grécia aos Ingleses.’ Então eu disse-lhe o que realmente pensava, que Estaline fora a causa da nossa queda, a raiz de todo o mal. Tudo o que quiséramos era um estado onde as pessoas governassem como o nosso [então] governo nas montanhas, onde ainda se podem ler as palavras ‘todos os poderes advêm das pessoas e são executados pelas pessoas’, inscrito nas colinas. O que eles queriam, e conquistaram, foi o poder exercido pelo partido.”

Khruschev, refere Glezos, não concordou abertamente. “Sentou-se e ouviu. Mas depois da nossa reunião convidou-me para um jantar, a que também compareceu Leonid Brezhnev [que sucedeu a Khruschev em 1964] e ouviu por mais quatro horas e meia. Sempre tomei isso como se concordasse tacitamente.”

Para Patríkios, não foi senão na invasão soviética da Hungria em 1956 que caiu a ficha: fora traçada uma linha no mapa, acordada entre Churchill e Estaline. “Quando vi que o Ocidente não interviria [durante a sublevação de Budapeste] percebi o que tinha acontecido, as ‘esferas de influência’ acordadas. Mais tarde, compreendi que a Dekemvriana não fora um conflito local, mas o princípio da Guerra-fria que começara como uma guerra quente aqui na Grécia.”

Patríkios regressou a Atenas enquanto recluso “em dispensa” e foi-lhe finalmente garantido um passaporte em 1959. Quando o obteve, imediatamente se meteu num barco para Paris, onde iria passar os cinco anos seguintes a estudar sociologia e filosofia na Sorbonne. “Na política não há ética”, afirma, “especialmente na política imperial”.

Tarde de 25 de Janeiro de 2009. O gás lacrimogéneo que encheu Atenas, uma nova variedade, importada de Israel, vai-se dissipando. Uma marcha de solidariedade com um funcionário da limpeza búlgaro, cuja cara foi desfigurada num ataque com ácido pelos neonazis, foi dispersada pela polícia antimotim depois de horas de combate nas ruas.

No bairro de Exarqueia, uma jovem mulher chamada Marina retira a sua balaclava e respira fundo. A tomar café, responde à pergunta: porquê a Grécia? Por que razão é tão diferente da Europa neste aspecto, porque é a guerra especialmente violenta entre a esquerda e a direita? “Por causa”, responde, “do que nos fizeram em 1944. A perseguição aos partisans que combateram os nazis, razão por que foram honrados em França, Itália, Bélgica ou a Holanda; mas que aqui os levou a serem torturados e mortos às ordens do vosso governo.”

Ela continua: “Venho duma família que foi detida e torturada durante duas gerações antes de mim; o meu avô depois da Segunda Guerra Mundial, o meu pai pela Junta de coronéis; e agora posso ser eu, num dia qualquer. Nós somos os netos dos andartes e os nossos inimigos são os netos gregos de Churchill.”

“Tudo isto”, atira o Dr. Gerolymatos, “foi em vão. Nada disto tinha de acontecer, e o crime dos ingleses foi legitimar pessoas cujo cadastro aquando da ocupação do III Reich lhes retirou toda a legitimidade. Aconteceu porque Churchill pensou que tinha de trazer de regresso o rei grego. E a última coisa que o povo grego queria ou precisava era do regresso duma monarquia derrubada, apoiada pelos colaboradores nazis. Mas foi isso que os ingleses impuseram, e isso tem marcado a Grécia desde então.”

“Todos esses colaboradores penetraram no sistema”, diz Manilos Glezos. “No mecanismo do governo; durante e depois da guerra civil, e os seus filhos foram parar à junta militar. Os restos permanecem, como células malignas no organismo. Embora tenhamos libertado a Grécia, os colaboradores nazis ganharam a guerra, graças aos ingleses. E os restos permanecem, como bacilos no sistema.”

Mas há uma última coisa que Glezos gostaria de clarificar: “Não perguntaste: Porque é que continuo? Porque faço isto aos 92 anos e dois meses de idade?”, diz, fixando-nos o olhar. “Poderia, afinal, sentar-me no sofá de chinelos de perna cruzada”, brinca. “Portanto, porque faço isto?”

E responde à sua pergunta: “Tu pensas que o homem que está aqui sentado à tua frente é Manolis, mas enganas-te. Eu não sou Manolis, porque não me esqueci que cada vez que alguém estava para ser executado, dizia-me: ‘Não te esqueças de mim. Quando dizes bom dia, pensa em mim. Quando ergues um copo, diz o meu nome’. E é isso que estou a fazer, falando convosco, ou a fazer o que faço. O homem que tens perante ti é todas essas pessoas. E isso é tudo o que importa, não os esquecermos.

Cronologia: a batalha entre a esquerda e a direita


Fim do Verão de 1944 – As forças alemãs retiram-se da maior parte do território grego, que é tomado pelos partisans. Muitos são membros do ELAS, o braço armado da Frente Nacional de Libertação, a EAM, que incluía o Partido Comunista KKE.

Outubro de 1944 – Forças Aliadas, lideradas pelo General Ronald Scobie, entram em Atenas, a última área ocupada pelos Alemães, a 13 de Outubro. Georgios Papendreou regressa do exílio com o governo grego.

2 de Dezembro de 1944 – Em vez de integrar o ELAS no novo exército, Papandreou e Scobie exigem o desarmamento das forças de guerrilha. Seis membros do novo gabinete demitem-se em protesto.

3 de Dezembro de 1944 – Confrontos violentos em Atenas depois de 200 000 marcharem contra estas exigências. Mais de 28 são mortos e centenas são feridos. Começa a Dekemvriana de 37 dias. A Lei Marcial é declarada a 5 de Dezembro.

Janeiro / Fevereiro de 1945 – O General Scobie aceita um cessar-fogo em troca pela retirada do ELAS. Em Fevereiro, o Tratado de Varkiza é assinado por todas as partes. As tropas do ELAS saem de Atenas com 15 000 prisioneiros.

1945-46 – Gangues de direita matam mais de 1 100 civis, despoletando a guerra civil quando forças do governo começam a combater o novo Exército Democrático da Grécia (DSE), maioritariamente antigos soldados da ELAS.

1948-49 – O DSE sofre uma derrota catastrófica no Verão de 1948, com perto de 20 000 baixas. Em Julho de 1949, Tito fecha a fronteira jugoslava, negando protecção ao DSE. Um cessar-fogo é assinado a 16 de Outubro de 1949.

27 de Abril de 1967 – Forças da direita tomam o poder num golpe de estado. A Junta dura até 1974. Só em 1982 é permitido aos comunistas veteranos que haviam partido para outros países regressar à Grécia.

A importância do "econômico"

Prabhat Patnaik

Peoples Democracy

Tradução / Atualmente o mundo está a assistir a um fenômeno um tanto raro, nomeadamente uma tendência difusa de levantes políticos por parte da classe média urbana. Não apenas os líderes, mas mesmo o grosso dos participantes em tais levantamentos são educados, são razoavelmente prósperos e utilizam amplamente os canais das redes sociais para se manterem em contato uns com os outros.

É certo que levantamentos da classe média educada não são novos; o movimento mundial de estudantes no fim dos anos 60 foi um exemplo clássico de um tal levantamento. Mas os atuais levantamentos da classe média diferem do movimento de estudantes dos anos 60 em pelo menos três aspectos: primeiro, aquele movimento era teoricamente inspirado pelo marxismo, embora correntes do marxismo algo diferentes daquelas que foram assentes desde os dias do Comitern, e viam o capitalismo no centro das "estruturas" a que se opunham. Os levantamentos contemporâneos da classe média, em contraste, geralmente evitam teoria (alguns chegam a orgulhar-se deste fato), não são motivados por qualquer desejo de derrubar o sistema capitalista e podem mesmo considerar toda esta conversa de "capitalismo versus socialismo" como irrelevante e ultrapassada.

Segundo, o movimento estudantil da década de 1960 via a necessidade de forjar ligações com a classe trabalhadora para avançar sua resistência às "estruturas" do capitalismo; e, por um momento na França em Maio de 1968, ele chegou a ter êxito em forjar tais ligações. Os presentes levantamentos da classe média, no entanto, embora possam ser apoiados pela classe trabalhadora, como no Egito durante a "Primavera Árabe", permanecem conscientemente como classe média.

E, terceiro, a resistência dos anos 1960 era em grande medida provocada pela Guerra do Vietnã, a qual punha a nu de maneira palpável a natureza moralmente horrenda do capitalismo. Em contraste, às motivações morais dos levantamentos da classe média de hoje falta qualquer posicionamento específico ou claro. A sua repulsa é dirigida contra uma ditadura nuns lugares (Tunísia, Egito), contra a "corrupção" em outros (Índia) e mesmo contra o apoio do Estado ao campesinato em outro (Tailândia). Alguém poderia tomar estes três exemplos como representativos de três movimentos diferentes reunidos [arbitrariamente] e, portanto, recusar atribuir-lhes quaisquer características comuns de movimentos de classe média. Mas eles têm algo em comum, não importa quanto possamos admirar uns e lamentar outros; e isto consiste no fato de que todos eles são difusos, receptivos a influências em direções diversas e diametralmente opostas (incluindo mesmo algumas fascistas) e, portanto, são também sujeitos à manipulação em geral (e não apenas frações particulares deles) por interesses corporativos e mesmo imperialistas.

Questão básica

Dizer tudo isto não é menosprezar tais levantamentos, mas simplesmente enfatizar que, sem importar qual possa ser nossa atitude em relação a cada um, este fenômeno é algo que nunca foi visto antes. É um fenômeno sui generis e levanta de imediato uma questão básica para qualquer marxista.

A teoria marxista sustenta que os chamados estratos intermediários, quer definidos como consistindo tanto pela classe média urbana como pela sua equivalente rural, os camponeses médios e ricos, ou apenas pela classe média urbana, é incapaz de exercer poder de Estado e, mais geralmente, de estabelecer sua hegemonia no âmago da sociedade. Será que o levantamento da classe média que hoje se está a verificar em todo o mundo, e que recorda levantamentos de trabalhadores que foram uma característica gritante de sociedades capitalistas não há muito tempo, sugere que este entendimento marxista básico precisa ser revisto? Será o atual ativismo da classe média precursor de uma nova época em que esta possa realmente emergir como a classe política dominante em lugar tanto da classe capitalista como da classe trabalhadora? Ou será o caso de o levantamento da classe média atuar apenas como ponto de partida rumo a alguma coisa mais, seja uma reconsolidação da hegemonia burguesa sob a liderança da oligarquia corporativo-financeira (se esta hegemonia for de algum modo desafiada em alguma forma específica existente), ou uma transição para um desafio mais básico ao sistema através da formação de uma aliança trabalhadores-camponeses-classe média? E se há um tal arranjo transicional então o que determina a direção da sua transição, isto é, para onde exatamente estaria a transitar?

Certamente esta questão habitualmente não é de modo algum discutida desta maneira, porque mesmo no caso dos levantamentos mais progressistas conduzidos pela classe média, tais como os da "Primavera Árabe" (isto é, onde o levantamento da classe média não é perceptivelmente promovido ou pelo imperialismo ou por interesses corporativos-financeiros internos, mas é visto mesmo como uma ameaça potencial a estes), a discussão invariavelmente permanece confinada à questão "democracia-versus-ditadura", a qual é importante mas insuficiente. "Democracia", a qual em si própria tem diversos matizes, é uma forma de domínio de classe. E que matiz de "democracia" é alcançado através destes levantamentos, ou se eles de algum modo tiverem êxito em alcançar qualquer forma de democracia, dependem da espécie de hegemonia de classe que os conduziu. Portanto a questão real é a que espécie de hegemonia de classe estes levantamentos da classe média podem conduzir. E a resposta a esta pergunta tem de ser procurada no âmago da "econômico".

A razão porque a classe média (ou a pequena burguesia) nunca poderá adquirir hegemonia é porque lhe falta agenda econômica coerente. Ela pode ter no melhor dos casos um desejo nostálgico de alguma forma passada de organização social, mas nenhuma agenda concreta para o futuro. Mesmo os slogans que se ouvem frequentemente nos levantamentos da classe média de hoje, tais como libertar a sociedade da "corrupção" e do "capitalismo de compadrio" ("crony capitalism"), ou "redução da desigualdade em riqueza e rendimentos", nunca trata da questão: qual é a forma de organização social dentro da qual todas estas "melhorias" devem ocorrer? E este fato faz com que todas estas sugestões de "melhoria" da sociedade sejam meras auto-ilusões, por duas razões óbvias.

A primeira razão é que o capitalismo é um sistema "espontâneo", o qual tem uma lógica interna sua e é por ela conduzido. Interferir com aquela lógica necessariamente implica que tal interferência tenha de ser transferida para diante, pois "uma coisa leva a uma outra". Por exemplo: se desigualdades de riqueza forem reduzidas através de uma tributação da riqueza, então os capitalistas reduzirão seus planos de investimento, precipitando desemprego em massa e uma crise. O que será a resposta do Estado que a princípio impôs a Tributação da Riqueza, diante de tal situação, se não simplesmente sucumbir a isto pela retirada do imposto? Será que ele arrancará então com unidades do setor público para compensar a escassez de investimento provocada pela perda de "confiança" dos capitalistas?

Em suma, qualquer grande interferência no funcionamento do capitalismo não pode ser fragmentária. Ela terá de ser sustentada através de nova interferência de um modo recursivo e isto necessariamente terá de ir em frente até que o próprio sistema seja transcendido; ou alternativamente a grande interferência original tenha sido revertida. Os levantamentos da classe média não enfrentam este problema (nem mesmo estão em medida de desafiar esta concepção). Eles não tratam disto porque nem mesmo se impõem a tarefa de formular qualquer agenda econômica coerente.

A segunda razão é que vivemos numa era de capital "globalizado", quando o capitalismo atingiu uma etapa em que o processo de centralização de capital deu origem à formação de um capital financeiro internacional. O Estado, contudo, mesmo quando tem uma forma democrática, permanece um Estado-nação. Portanto, nesta situação, utilizar o Estado-nação para interferir no funcionamento do capital globalizado torna-se particularmente difícil, o que se soma ao problema mencionado acima da interferência no funcionamento do capital per se. O ativismo da classe média de modo algum se coloca esta questão porque lhe falta qualquer agenda econômica para além de desejos meramente piedosos.

Falta de agenda econômica

Precisamente porque lhe falta qualquer agenda econômica, e qualquer perspectiva concreta sobre como "interferir" no funcionamento do capitalismo e como executar esta "interferência", mas ao invés restringem seus desejos apenas a algumas medidas fragmentárias, na melhor das hipóteses, ou na expectativa totalmente injustificável de que o sistema simplesmente aceitará tais medidas sem protesto ou oposição, ele também acaba finalmente por ser assimilado pelo sistema. Mesmo na sua encarnação mais favorável ao povo, e mesmo quando procura alcançar algum êxito político, este êxito permanece apenas temporário. Sem atacar, com uma estratégia apropriada que inclua uma agenda econômica concreta, a hegemonia da oligarquia corporativo-financeira (a qual está integrada ao capital financeiro internacional) sobre a economia, é forçado a aceitar ou o abandono da democracia ou de matizes da "democracia" que são "adequadamente" debilitados pela tal hegemonia corporativa.

Vamos deixar de lado aqueles levantamentos da classe média que são promovidos pelo imperialismo e pelas oligarquias corporativas internas e que acontecem sob nomes como a "revolução laranja" ou a " revolução das tulipas ". Mesmo onde os levantamentos da classe média foram pró povo e quiseram estabelecer democracia contra implacáveis ditaduras apoiadas pelo imperialismo, como no Oriente Médio e alhures, o seu triunfo geralmente teve vida curta, não porque quaisquer destes triunfos incorresse no risco da vida curta, mas devido às suas próprias limitações estruturais internas, a saber, a ausência de qualquer programa econômico concreto que combinassem com as mudanças políticas que eles desejavam anunciar.

Segue-se que os levantamentos da classe média, se desejarem sinceramente fazer alguma diferença para as vida do povo, têm de enfrentar a hegemonia da oligarquia corporativa-financeira através de uma agenda econômica concreta, a qual pode então constituir a base de uma aliança trabalhadores-classe média-camponeses (afim à velha "aliança operário-camponesa"). Uma tal agenda, mesmo quando está confinada a medidas "Estado Providência" ("Welfare State"), se permanecer autêntica, necessariamente terá de tomar passos recursivos que levam ao rumo de uma transcendência do capitalismo, exatamente como Marx fundamentou.

Dizer que não há nada que vá para além de Marx não é deificá-lo, mas simplesmente enfatizar que ele descobriu certas verdades essenciais acerca do capitalismo as quais permanecem válidas enquanto o sistema perdurar. Fechar os olhos a estas verdades, como tendem a fazer os levantamentos da classe média, mina projetos que se pretendam de algum modo emancipatórios; não leva a qualquer abertura de novo terreno. Na verdade, o marxismo tem sempre de ser desenvolvido a fim de estar à altura de novas situações, mas este desenvolvimento deve necessariamente basear-se sobre certas verdades acerca do capitalismo descobertas por Marx.

29 de novembro de 2014

Um espectro ronda o mundo

Resenha do livro de Domenico Losurdo, A esquerda ausente

Paolo Ercolani

Il Manifesto

Tradução / Um espectro ronda o mundo: é à esquerda. Mas, num sentido diametralmente oposto ao das celebres palavras do Manifesto de Marx e Engels.

Ao mesmo tempo, para interpretar os resultados dramáticos que vieram das grandes parábolas revolucionárias, ela iria apelar para o famoso ditado do frances Girondin Vergniaud (mais tarde retomado por Hannah Arendt, entre outros): "A revolução é como Saturno devorando seus filhos'. Hoje em dia, no entanto, para entender a situação da esquerda, no mundo, se deveria usar a metáfora da “autofagia”.

Incapaz de digerir as derrotas promulgadas por esse implacável tribunal que se chama história, de fato, a esquerda teria "devorado a si mesma" (e seus valores fundamentais) e, em seguida retornaria ao cenário mundial, sob a forma de um espectro indistinto e indistinguível, substancialmente incapaz de reconstruir sua renovação: "a reunião dos movimentos reais de protesto e de luta pela emancipação com a teoria comprometida a analisar criticamente a ordem existente."

Um monopartidarismo competitivo

Isto é o que pode ser visto a partir da leitura do novo livro de Domenico Losurdo, A esquerda ausente: crise, sociedade do espetáculo, e guerra (Carocci, pp 303., € 23), imagem impiedosa do mundo contemporâneo em que o triunfo do pensamento único neoliberal e neo-colonialista pode também ser conseguido através da dissolução da esquerda, em todo o 'interior de uma filosofia política em que as diferenças e os conflitos são evaporados para dar lugar ao que o autor chama de "um partido competitivo."
O discurso de Losurdo se baseia em pressupostos tipicamente marxistas, começando com uma análise da configuração atual que tomou a estrutura econômica.

Em poucas palavras, o nosso tempo é caracterizado por dois grandes processos de redistribuição de renda. Nos países capitalistas avançados, com o desmantelamento do estado de bem-estar, as demissões, a insegurança no emprego, salários mais baixos etc., há um aumento da polarização social: uma elite cada vez mais estreita se apropria de uma massa crescente de riqueza social, em detrimento das classes mais baixas (uma comparação interessante com a análise do autor de Thomas Piketty). Já a nível global está em vigor, uma redistribuição de renda pelo contrário: os países que se libertaram do jugo colonial ou semi-colonial e agora são "emergentes" (especialmente a China) rapidamente reduzir o fosso em relação aos países capitalistas e colocam em discussão uma grande divergência (título do livro de Kenneth Pomeranz, traduzida em italiano por Mulino), que durante séculos marcou e selou o desfecho colonial ou semi-colonial do Ocidente sobre o resto do mundo. A burguesia monopolista que é a protagonista e beneficiária do primeiro processo de redistribuição de renda tenta de todas as maneiras contrariarem o segundo: as duas guerras do Golfo, a destruição da Líbia, uma tentativa de desestabilização da Síria, as ameaças ao Irã, a marginalização progressiva e espoliação do povo palestino são aspectos diferentes de uma única política que pretende cancelar ou pôr em causa os resultados da revolução anti-colonialista no Oriente Médio e em todo o mundo.

No Ocidente, uma esquerda digna do nome seria chamada a entrar em conflito com a burguesia monopolista em ambas as frentes: para combater o processo de redistribuição de renda em favor das classes privilegiadas que ocorrem nos países capitalistas avançados; para saudar e apoiar o processo de redistribuição de renda em vigor em todo o mundo em favor dos países que têm por trás a revolução anti-colonial; para tanto, deveria lutar contra a política neo-colonialista do rearmamento e da guerra implementado pelo Ocidente e especialmente os EUA.

O problema, segundo o autor, é que a esquerda ocidental demonstrou deficiências graves no primeiro ponto e especialmente no segundo. Como isso aconteceu? A seu tempo Marx observou que a burguesia exerceu seu domínio graças ao monopólio que detém os meios de produção e difusão de idéias. Neste monopólio, Losurdo ainda adiciona outro ainda mais formidável: o monopólio da produção e difusão de emoções. Antes de iniciar uma guerra, aproveitando-se de sua superioridade esmagadora sobre os meios de comunicação, o poder de fogo, a West Island, manipula ou inventa um particularismo de terror no comportamento do inimigo a ser morto (precursor deste método era Bismarck, uma vez que, se desejado justificar o expansionismo colonial pelo Segunda Reich, pediu a seus homens: "não seria possível encontrar detalhes de incidentes terríveis de crueldade?").

O Keynesianismo de Beijing

Investido pelo "terrorismo da indignação", esse inimigo pode ser bombardeado com o consentimento de uma opinião pública mais ou menos ampla. É assim que eles são planejados, executados, bem como as guerras, até mesmo as "revoluções coloridas" que Losurdo chama atenção para os verdadeiros golpes reais (o último exemplo é a atual Ucrânia).

O final do livro se vê crescendo um impressionante tribunal de acusações pelo autor em relação às grandes figuras culturais da esquerda moderada e radical: Habermas e Bobbio, definidos como "belas almas", para Žižek e Latuoche, que, na sequência Foucault (e Hayek!) muito cedo e de forma inadequada os enviam para o sótão da "luta de classes" e do "estado-providência", até o marxista David Harvey, que na condenação da China coloca-a entre os países que aderiram ao neoliberalismo, seria para Losurdo terminar com o protagonista da maior revolução anti-colonial do mundo na história, assim como o último bastião das políticas keynesianas.

A tese de Losurdo está em negrito e em debate. Mas de uma coisa não há dúvida: este é o lugar onde se tem que começar a dar carne e substância ao fantasma invisível que chamamos de esquerda.

28 de novembro de 2014

"Ser sem abrigo é melhor do que trabalhar na Amazon"

Nichole Gracely tem um mestrado e foi uma das melhores preparadoras de encomendas da Amazon. Agora, depois de protestar contra a empresa, é sem abrigo.

Nichole Gracely

The Guardian

Tradução / Estou sem abrigo. Os meus piores dias agora são melhores do que os meus melhores dias quando trabalhava para a Amazon.

De acordo com as contas da Amazon, eu era uma das suas “apanhadoras” mais produtivas – eu era uma máquina, e o meu ritmo ia acelerando ao longo do turno. O que eles não sabiam é que eu acelerava porque se abrandasse por um minuto que fosse colapsava de tédio e exaustão.

Na estação mais movimentada treinava trabalhadores temporários com regularidade. Quando isso acabava eu era de novo uma apanhadora normal, a cirandar num canto remoto do armazém, sozinha por 10 horas, com todos os meus movimentos a serem seguidos pela administração numa tela de computador.

A minha performance soberba não garantia segurança laboral. A ISS é a agência de trabalho temporário que recruta trabalhadores para os armazéns da Amazon e eles estão no centro do caso SCOTUS: Integrity Staffing Solutions vs. Busk. O ISS pode simplesmente desativar o crachá de um trabalhador e de um momento para o outro essa pessoa fica sem emprego. Eles tratam-nos como se fossemos pedintes porque nós precisamos daquele trabalho. E, ainda pior, mais de dois anos depois desse caso ter ido a tribunal, tudo o que eu vejo em todo o lado é que o Jeff Bezos "está a contratar".

Nunca me senti tão sozinha como quando trabalhava lá. Trabalhava em isolamento e vivia sob vigilância constante. A Amazon podia obrigar-me a fazer horas extra e eu tinha de aceitar todas as mudanças de horário que eles queriam e, se não houvesse trabalho para fazer, mandavam-nos para casa mais cedo sem pagamento. De um momento para o outro, comecei a não conseguir pagar as minha contas.

A certa altura perdi o medo. Eu já estava a viver um inferno. Protestei com a Amazon. A mordaça foi levantada e eu tinha liberdade para falar. Passei os meus últimos dias num apartamento a construir argumentos nos fóruns de discussão, a escrever artigos de jornal e a falar com repórteres. Isso foi em 2012 e as práticas laborais da Amazon estavam a começar a ser criticadas. Eu saí do armazém da Amazon e não tinha nenhum outro trabalho alinhavado para sobreviver.

Tive de usar os cartões de crédito para pagar a renda e comprar comida, porque o primeiro cheque de subsídio de desemprego só veio passado seis meses.

Eu recebi cerca de 200 dólares por semana e durante seis meses não tive mais nenhuma fonte regular de rendimento. Vendi tudo do meu apartamento e saí da Pensilvânia tão depressa como pude. Na altura nem sabia que tinha direito a ir buscar comida ao Banco Alimentar.

Continuei o meu protesto contra a Amazon em Seatle, apesar de sem abrigo. Quando o caso Hachette apareceu eu escrevi um cartaz dizendo: "Eu era uma apanhadora de encomendas na Amazon. Fiz um curso superior. Já escrevi livros. Agora estou sem abrigo. Toda a ajuda conta".

Fiz mais dinheiro por palavra nesse cartaz do que alguma vez farei com as palavras dos meus livros, e fiz mais dinheiro por hora com esse cartaz do que a trabalhar. As pessoas davam-me dinheiro, desejavam-me sorte e iam-se embora com fé na humanidade.

Levei o meu cartaz até à porta da Whole Foods (supermercado) onde os funcionários dos escritórios da Amazon iam almoçar e eles ficavam de boca aberta a olhar para mim. Nos locais onde normalmente levantava o cartaz fazia mais dinheiro do que quando trabalhava para a empresa. E isso era em Seattle. Uma mulher perguntou-me “o que estás a escrever?” e eu contei-lhe a minha experiência sobre como de trabalhadora pobre passei a sem abrigo e da desigualdade de rendimentos que tinha sofrido. Ela falou-me do livro do Thomas Piketty e depois de termos falado um pouco sobre as minhas ideias deu-me 10 dólares e disse-me que comprava um livro sobre a minha história.

Se o Supremo Tribunal dos Estados Unidos decidir contra os trabalhadores da Amazon e determinar que eles não devem ser pagos enquanto estão nas filas para a entrega dos artigos, então vou continuar o protesto.

Já me candidatei a muitos empregos, mas todos os meus potenciais empregadores que façam uma pesquisa no google encontram a minha má relação com o meu último empregador.

Não podia aceitar empobrecer a trabalhar e agora sou uma sem abrigo crónica. Mas não é um mistério porque estou sem abrigo. Não tenho dinheiro para uma casa e pedir ajuda à minha família constantemente não é opção. Já conheci outras pessoas que são inteligentes e trabalhadoras e que também não têm casa. Muitas trabalharam muito até terem ficado com problemas de saúde e depois foram chutadas sem qualquer dinheiro. Eles contam que sejamos estúpidos. Nós não escolhemos ser sem abrigo.

Não sei em que pensam os americanos quando imaginam um sem abrigo, mas acho que não me incluiriam no grupo. Acabei a faculdade. Publicava no jornal da minha universidade e num site sobre justiça social. Fiz um mestrado em Estudos Americanos. Não avancei para o doutoramento porque achei que aquilo não era uma opção de carreira: não achava que era um “privilégio” fazer trabalho voluntário e trabalhar por menos do que o salário mínimo como doutorando para depois se tivesse sorte, ficar como professora adjunta. Não demorei muito tempo a perceber que nunca uma estudante de humanidades ia ter a hipótese te ser tolerada e paga decentemente nesse mundo totalmente empresarial que são hoje as universidades modernas. Nunca tive meios para trabalhar gratuitamente através de estágios para poder um dia ter uma carreira na universidade. Tive de aceitar trabalhos que pagavam dinheiro, como a Amazon, enquanto estudava na faculdade e tive mesmo de pedir um crédito para estudar.

Mas eu não definhei quando perdi todos os meus recursos e já não podia pagar as contas. Em vez disso, manifestou-se em mim um instinto de sobrevivência que eu nem sabia que tinha. Aprendi a viver sem dinheiro e sem casa. Trabalhei da REI (loja de artigos desportivos) em Eugene no Estado de Oregon em 2002 e por isso aprendi a viver ao ar livre. Recuso-me a viver dentro de paredes que me oprimem. Deixei de me preocupar com os números da desgraça. Na verdade, eles já não são reais para mim.

Acampei e protestei pelo direito de construir bairros de lata dos tempos modernos. Dormi em caixas de cartão no março mais chuvoso que Seattle já viu. Acampei ao lado de autoestradas.

A minha carteira não tem uma única nota. Preciso de óculos. Preciso de roupas de inverno. Preciso de dinheiro e de uma oportunidade. Qualquer coisa! Já me candidatei a empregos tanto de escritório, como de trabalho físico. Tirei o meu mestrado do curriculo para não parecer sobrequalificada. Tentei tudo. Se calhar é porque protestei contra a Amazon; se calhar é porque o meu crédito no banco está mau. Se calhar é porque eu uso a morada dos abrigos para sem abrigos como morada. Se calhar é porque não há empregos.

Os sem abrigo e as pessoas sem dinheiro são simplesmente mantidas vivas enquanto nada acontece. Neste momento, as medidas de austeridade sentem-se nas vidas concretas e os serviços sociais essenciais estão a tornar-se inadequados. Hoje acordo na rua e muitas vezes ando milhas com a mochila às costas antes de tomar qualquer pequeno almoço.

Já trabalhei em sítios no Oregon para me darem um teto, na maioria das vezes a cozinhar e a alimentar famílias. É como se fosse um programa de re-educação Maoista – demasiado parecido com escravatura para o meu gosto. Tornei-me uma capitalista. Levantei um cartaz para escapar a condições péssimas em Oregon e cheguei a Seattle sem nada. Quando cheguei vi verde. Criei uns cartazes de cartão e, de um momento para o outro, estava a fazer dinheiro outra vez. Cem dólares à hora era a normalidade, não a excepção. Aprendi que o capitalismo é giro quando se está a ganhar. Precisei de um computador portátil para usar como ferramenta profissional. Os serviços sociais não ajudaram. Mas consegui comprar um por abanar um cartaz em Seattle. É uma grande ferramenta.

Eu e o meu companheiro tentamos ativamente arranjar emprego, um sítio a que pudéssemos chamar casa. nós gostávamos desses maravilhosos dias na inteligente e civilizada Seattle, mas viemos embora porque aprendemos que o melhor é continuarmos a andar. Não é fácil começar de novo a partir do nada.

O meu coração expandiu e aprendi que o povo Americano é muito melhor do que o nosso sistema econômico e político. Fui a receptora e a dadora de atos de bondade que nunca antes me pareceram possíveis.

Todos os que se queixam dos americanos fracos, deviam por os olhos nos esforçados sem abrigo. É preciso uma força incrível ao longo do dia. Estou mais forte, mais saudável e mais feliz do que nunca. Há mais respeito por uma mulher sem abrigo nas ruas do que a Amazon tem pelos seus trabalhadores nos armazéns.

26 de novembro de 2014

Disparidade racial do Ebola

O tratamento mais eficaz para Ebola pode estar tendo pele branca.

Kwei Quartey


Tradução / Os profissionais da saúde Nancy Writebol, Kent Brantly, Craig Spencer e Rick Sacra, assim como o cameraman da NBC Ashoka Mupko, foram beneficiários da sofisticação médica do sistema hospitalar dos Estados Unidos.

Todos eles contraíram o ebola no oeste da África e sobreviveram para contar suas histórias, saindo do hospital livres do vírus e aparecendo incrivelmente saudáveis. Eles tiveram a vantagem de um rápido diagnóstico e uma pronta evacuação para o principal centro de isolamento dos EUA e, em alguns casos, tratamento com soros convalescentes e a droga experimental ZMapp.

Essa história é bem diferente da de outras vítimas do ebola.

Martin Salia era o diretor médico do hospital Kissy United Methodist, em Serra Leoa e seu único médico em tempo integral. Fazendo parte do extremamente pequeno grupo de profissionais médicos nesse país – apenas 136 para uma população de 6 milhões de pessoas – Salia era uma rara espécie de médico capaz de tratar qualquer coisa, desde machucados ortopédicos até infarto do miocárdio.

Salia, que era profundamente religioso, acreditava que sua missão era ajudar as pessoas de Serra Leoa, onde o ebola continua a proliferar. Apesar de não estar trabalhando em um centro de tratamento ao ebola, Salia pode muito ter sido exposto à doença através de cirurgias em pacientes infectados. Quando Salia ficou doente, no início de novembro, seu teste de ebola deu negativo. Três dias depois, outro teste teve como resultado positivo. Mas ao contrário dos outros norte-americanos Writebol, Branly, Spencer, Sacra e Mupko – todos brancos, Salia não foi prontamente transferido para os EUA.

Ele começou a receber soro convalescente em Serra Leoa e levou cinco dias até que fosse enviado para um centro de isolamento para o tratamento do ebola aos EUA – com uma demora de sete dias a mais de seus colegas brancos. Parece claro que os atrasos nos diagnósticos e no tratamento de Salia, resultou em uma deterioração de sua saúde além do ponto de recuperação. Quando ele chegou nos EUA, em 15 de novembro, ele já não poderia ser mais salvo.

Mas um caso de ebola ainda pior envolveu um médico africano, a quem o tratamento foideliberadamente atrasado. Sheik Umar Khan, um especialista em febre hemorrágica de Serra Leoa, foi diagnosticado com ebola em julho e então admitido em um centro de tratamento na cidade de Kailahun. A equipe médica dos Médicos Sem Fronteiras (MSF) e da Organização Mundial de Saúde, que cuidou de Khan afirmaram “terem agonizado por toda a noite” se administrava ou não o ZMapp. No final, sem discutir com Khan, eles decidiram que não. “O que eles realmente não queriam era matar o Dr. Khan tentando curá-lo”, disse Armand Sprecher, um especialista em saúde pública da MSF.

Mas certamente, a questão que deveria ser feita é: e se eles tivessem curado Khan? Sprecher, que esteve envolvido na busca de remédios para os MSF, ofereceu posteriormente uma das mais absurdas desculpas para um médico: de que o nível de contaminação de Khan era tão alto que o remédio “provavelmente não funcionaria”.

Então, qual é a resposta certa: a equipe achava que o ZMapp não faria nada por Khan ou que iria mata-lo? Pois não podem ser as duas.

Khan morreu alguns dias depois e o mesmo ZMapp que lhe foi negado, foi então enviado para a Libéria e aplicada em Writebol e Brantly, que se recuperaram admiravelmente (apesar de não ser possível afirmar o quanto o ZMapp contribui para suas sobrevivências). Além disso, oficiais espanhóis confirmaram que eles também obtiveram um suprimento de ZMapp para um terceiro paciente – um padre espanhol de 75 anos que morreu após ser evacuado da Libéria para Madri.

Na história, agora infame, do liberiano Thomas Erick Duncan – que morreu em um hospital do Texas depois de contrair ebola na Libéria – o sobrinho de Duncan, Josephus Weeks, levantou a possibilidade de que a questão racial pesou na decisão de enviar um homem doente para casa. Questões éticas similares surgiram também a respeito de que o tratamento das vítimas de ebola está sendo estratificado no critério de origem nacional, tornando “algumas pessoas mais iguais do que as outras”.

Os médicos que cuidaram desses pacientes negariam que qualquer decisão foi tomada, conscientemente, usando critério racial nos tratamentos. Isso, todavia, é exatamente o problema. Aquestão racial entre médicos é, na maioria das vezes, inconsciente, o que significa que precisamos considerar cuidadosamente se nossas decisões médicas refletem “dois pesos, duas medidas” no tratamento de nossos pacientes – infectados por ebola ou não.

25 de novembro de 2014

Um falcão chamado Hillary

Como seus espetáculos, Clinton adotou mitos nacionalistas destrutivos sobre o papel dos EUA no mundo.

Anatol Lieven

The Nation

Foto: Pablo Martinez Monsivais/AP Photo.

Tradução / Hillary Clinton concorre à presidência, apoiada não só em seu currículo como Secretária de Estado, mas apresentando-se também como mais “durona” que Barack Obama em questões de política externa. Nessa posição, ela provavelmente conta com distanciar-se de um presidente cada dia mais exposto como “fraco” na abordagem de questões internacionais, e apelar aos instintos supostamente mais “linha-dura” de grande parte do eleitorado.

É pois indispensável propor várias perguntas relativas a isso, cujas respostas são crucialmente importantes não só para o desdobramento de um provável governo Clinton, mas para o futuro dos EUA no mundo. Essas perguntas têm a ver com o currículo da ex-secretária de Estado e seu comportamento, assim como também têm a ver com as atitudes das elites da política externa e da segurança nacional dos EUA. Têm a ver também com uma questão ainda mais profunda e mais preocupante: se os EUA seriam ainda capazes de aprender com os próprios erros e modificar, correspondentemente, suas políticas. Acabei por me convencer de que essa é a principal vantagem que a democracia tem, sobre outros sistemas. Mas nada disso acontece sem debate público – e, portanto, sem “mídia” de massa – fundados em argumentação racional, respeito aos fatos e insistência em que os funcionários assumam a responsabilidade por decisões evidentemente desastrosas.

Como se sabe, as dificuldades que um político Democrata tem de superar ao traçar a política exterior e política de segurança capazes de atender às reais dificuldades dos tempos atuais são numerosas. Entre essas dificuldades incluem-se instituições americanas de política externa e de segurança nacional que incharam muito além do razoável e consomem a maior parte do tempo administrando-se elas mesmas e brigando umas contra as outras; a fraqueza do sistema de gabinete, que estimula aquelas instituições, o que significa que as decisões com muita frequência são jogadas já prontas no colo do presidente, além de equipes, dentro da Casa Branca, sempre obcecadas pela próxima eleição; uma disfunção política crescente em casa, resultado em parte do ciclo eleitoral norte-americano, que é guerra constante, sem alívio; uma oposição Republicana animalesca nas reações e sempre pronta a usar qualquer arma contra uma Casa Branca Democrata; uma mídia-empresa corporativa que, quando não opera diretamente a serviço dos Republicanos, é sempre doentiamente rápida no processo de converter questões menores em crises descomunais; e problemas em algumas partes do mundo (sobretudo no Oriente Médio e no Afeganistão) que são, de fato, abissalmente complexos.

*

Ainda mais importante e mais difícil que qualquer desses problemas, talvez seja o fato de que traçar uma estratégia realmente nova e adequada exigiria atacar de frente alguns mitos americanos fundamentais – mitos que se fortaleceram por muitos anos de status de superpotência, mas que têm uma história mais longa e vão às raízes do nacionalismo cívico americano. Esses mitos, sobretudo, apresentam os EUA como – uma das expressões favoritas de Clinton – “a nação indispensável”, inatamente boa (embora às vezes desorientada), com o direito e o dever de liderar a humanidade e, portanto, quando necessário, de esmagar qualquer oposição.

A força e a centralidade desses mitos nacionalistas sempre impediram as elites e a opinião pública nos EUA de aprender ou de relembrar, que fosse, as lições do Vietnã: um fracasso que ajudou a preparar a trilha para o desastre seguinte, em 2003, na invasão do Iraque, cujas consequências desdobram-se ainda até hoje, no Oriente Médio. E, como mostra todo o currículo de Clinton – seus próprios escritos e o que se escreveu sobre ela – ela deixou-se capturar por esses mitos nacionalistas e perdeu qualquer possibilidade de superá-los. Como ela diz em seu novo livro, Hard Choices:

Tudo que fiz e vi convenceu-me de que os EUA continuam a ser a "nação indispensável". Mas também estou convencida que nossa liderança não é direito de nascença: ela tem de ser reconquistada a cada geração. 
E será – enquanto nos mantivermos fiéis a nossos valores e lembrarmos que, antes de sermos Republicanos ou Democratas, liberais ou conservadores, ou qualquer outro dos rótulos que nos dividem tanto quanto nos definem, somos todos norte-americanos, pessoalmente investidos em nosso país.

É o mesmo velho solipsismo nacionalista: a única coisa que temos de fazer é nos mantermos unidos e falar cada vez mais alto de nós mesmos, como somos maravilhosos, e o resto do mundo automaticamente se renderá à “liderança” dos EUA. Não é a posição – que algumas vezes se viu em Obama – de intelectual naturalmente cético e cool obrigado a curvar-se às emoções das massas. Tudo sugere muito fortemente que, em Clinton, o nacionalismo é uma profunda convicção.

E, sejamos justos: é traço que, sim, pode ajudá-la a eleger-se presidenta. Porém, quando chegar lá, o mais provável é que tanto nacionalismo termine por impedi-la, a ela também, de modelar uma política externa adequada às novas circunstâncias dos EUA no mundo contemporâneo. Acima de tudo, o nacionalismo furioso desmobilizará a capacidade de Hillary para aprender com o passado e com os erros, dela mesma e dos EUA – defeito que já aparece, flagrantemente evidente, nas memórias recém publicadas. O que se vê ali é que, mesmo quando (raríssimas ocasiões) ela reconhece algum erro ou crime dos EUA, o reconhecimento é imediatamente atropelado pela ideia de que nós teríamos de “deixar para lá” o erro ou o crime, e “seguir em frente”. A ideia não é a menina dos olhos só da Clinton, mas de todo o establishment da política exterior dos EUA. E basta essa ideia canalha para tornar impossível qualquer análise séria do passado.

Claro, ninguém pode esperar muita honestidade ou sinceridade no que, de fato, não passa de propaganda eleitoral – e é preciso não esquecer a presença do Partido Republicano e da mídia-indústria ambos prontos para o bote ao primeiro sinal de que alguém estaria “pedindo perdão” em nome dos EUA. Ainda assim, um trecho, no início do livro, dera-me esperanças de que pudesse conter pelo menos alguma discussão séria sobre erros passados dos EUA, com lições para o futuro. Ali, Clinton reconhece pelo menos o que teria sido o maior erro dela: a decisão de votar a favor da Guerra do Iraque:

Por mais que desejasse, não pude mudar meu voto sobre o Iraque. Mas pude tentar nos ajudar a aprender as lições corretas daquela guerra e aplicá-las ao Afeganistão e a outros desafios onde temos interesses fundamentais de segurança. Estava decidida a fazer exatamente isso, quando tivesse de enfrentar novas escolhas duras, com mais experiência, sabedoria, ceticismo e humildade.

Mas fica por aí. Em nenhum momento do livro ou da vida política de Hillary Clinton, vê-se qualquer indício de que ela tenha realmente tentado aprender alguma coisa do Iraque, além da lição inescapável: que os EUA sempre anseiam por mais e mais invasões com coturnos no solo e ocupações; e essa lição, de fato, até os Republicanos conseguiram aprender. A própria Clinton, em pessoa, muito ajudou a despachar aeronaves de guerra dos EUA para derrubar outro governo, depois do Iraque, daquela vez na Líbia. E, como no Iraque, o resultado foi anarquia, conflito sectário e oportunidades novas para o crescimento de movimentos extremistas que desestabilizaram toda a região. Então, ela outra vez “liderou” os EUA a andar ainda mais fundo pela mesma estrada, e puseram-se, os mesmos, a fazer a mesma coisa na Síria.

Clinton tenta argumentar no livro que teria analisado profunda e demoradamente a oposição líbia, antes de declarar ao presidente que estava convencida de que “há chance razoável de que os rebeldes venham a ser nossos parceiros confiáveis” – mas, por profunda e demorada que a tal “análise” tenha sido, é absolutamente claro que Clinton errou. Ela simplesmente não compreendeu a fragilidade dos estados – estados, não governos ou regimes – em várias partes do mundo; não avaliou corretamente o risco de que a tal “intervenção humanitária” leve sempre ao colapso do estado; e apostou tudo na ideia inadequada e simplória segundo a qual “promover a democracia” possa bastar para reconstruir o estado. Nada disso ajuda o currículo dos EUA na “promoção” da democracia e do estado de direito – incluído aí o currículo da própria Clinton – hoje tão manchado e sujo que bem pouca gente fora do país ainda o leva a sério ou lhe dá qualquer importância.

O livro de Hillary Clinton consegue repetir simultaneamente: a ideia de que os EUA e seus aliados estariam apenas criando uma zona aérea de exclusão sobre a Líbia; e  propagandear o que, para ela, seriam seus-dela méritos pessoais na destruição do regime líbio. E ela ainda estranha que outros países não confiem integralmente nem nela nem na honestidade dos EUA. Em momento algum do livro Hillary reconhece que os que se opunham a qualquer ação militar dos EUA foram quem, sim, sempre estiveram certos; que nada tiveram de “desprezíveis” – expressão que Hillary usou para descrever os russos que se opuseram à intervenção militar dos EUA na Síria. Nem o avassalador fracasso que ela recolheu no Iraque levou Hillary a assumir posição mais inteligente e sensível em relação ao Irã. Ao contrário: em sua ansiedade para mostrar-se mais “falcão” que Obama, Hillary claramente se alinhou ao lado dos que tornaram impossível qualquer acordo nuclear com o Irã. Por causa disso, eles meteram os EUA na posição patética e insustentável, de ter de tentar conter todas as maiores forças ativas no Oriente Médio, simultaneamente.

Esse tipo de fé nacionalista na força dos EUA e na correção dos EUA não é mais adequada aos desafios que o país enfrenta. O principal é que essa fé torna impossível estabelecer qualquer tipo de relação de equilíbrio e igualdade com qualquer outra nação – não só nas questões globais e nas que mais interessam a Washington, mas também em questões que outros países consideram vitais para seus interesses.

Assim, vai-se tornando cada vez mais difícil para os funcionários dos EUA fazerem o que Hans Morgenthau declarou ser dever simultaneamente prático e moral dos estadistas: mediante estudo detalhado, desenvolver uma capacidade para se porem na posição dos representantes de outros países – não para concordar com eles, mas para conseguir compreender o que é realmente importante para eles, que interesses eles podem ceder ou conceder, e quais não concederão nunca e pelos quais, sendo o caso, serão obrigados a lutar. Clinton não exibe um pingo dessa capacidade em seu livro.

*

O mais grave desafio e risco, nesse campo, são as relações dos EUA com a China. A arrogância com que Washington trata outros países é pelo menos compreensível, em algum sentido, dado que nenhum deles tem meios para igualar e ultrapassar os EUA – embora alguns, como a Rússia, possam, sim, competir com sucesso, contra os EUA, em suas regiões. Mas a China é outro assunto. Se, como agora já se considera garantido que acontecerá, a economia chinesa ultrapassar a economia dos EUA, nesse caso, nas questões que interessem a Pequim, a China exigirá tratamento igual – e, se Washington fracassar também nisso, o caminho estará aberto para terríveis confrontos.

Em termos da conduta diária nas relações com Pequim, Clinton conseguiu manter boa figura como Secretária de Estado – embora, nesse item, ela apenas tivesse seguido uma política em geral contida, dos dois partidos. Mas se o dia-a-dia de Clinton foi pragmático aproveitável, a estratégia de longo prazo que ela concebeu pode revelar-se também desastrosa. Falo aqui da decisão do governo Obama – brotada da cabeça de Hillary – do “pivô para a Ásia”. Como se depreende dos escritos de Clinton, o “pivô” significa “conter a China” mediante o reforço de alianças militares existentes no Leste da Ásia, com desenvolvimento de novas alianças (especialmente com a Índia). Vista de hoje, essa estratégia parece razoavelmente cautelosa e permanece em parte velada, mas se o poder chinês continuar a crescer, e se se intensificarem os conflitos entre China e alguns de seus vizinhos, nesse caso se deve temer que se aprofunde uma estratégia de contenção – com consequências potencialmente catastróficas.

Não se trata de resposta precipitada dos EUA, ao crescimento de um concorrente potencial. Algumas políticas chinesas ajudaram a provocar a nova estratégia e também a possibilitaram, ao enviar vizinhos da China diretamente para os braços dos EUA. É verdade, principalmente, quanto às demandas territoriais que Pequim tem feito sobre vários arquipélagos não habitados no Mar do Sul e no Mar do Leste, da China. Enquanto algumas das demandas chinesas parecem razoavelmente bem fundamentadas, outras não têm qualquer base na legislação internacional e na tradição; e, ao forçar todas as demandas ao mesmo tempo, Pequim assustou muitos dos próprios vizinhos, gerando medos bem reais de que, pelo menos no Leste da Ásia, a estratégia chinesa de “crescimento pacífico” teria sido abandonada.

Mas aspectos agressivos que haja na estratégia da China não bastam para tornar necessariamente adequada ou inteligente a resposta dos EUA a eles – sobretudo porque o anúncio do “pivô” para a Ásia de Obama e Clinton, pelo menos em parte, aconteceu antes da recente maior agressividade da política chinesa. Em especial, Clinton parece ter esquecido que uma diferença chave entre a Guerra Fria contra a URSS e o atual relacionamento com a China é que, durante a Guerra Fria, Washington sempre foi extremamente cuidadosa em relação a jamais envolver-se em nenhuma demanda trazida por vizinhos do território russo. Em consequência  (como posso testemunhar, tendo trabalhado como jornalista britânico na URSS durante os anos do colapso) não houve, naquele momento, mobilização do nacionalismo russo contra os EUA. Aconteceu, sim, mas depois – quando a monumental sandice dos sucessivos governos de Clinton, Bush e Obama envolveu os EUA em querelas dos estados pós-soviéticos. 

Como senadora, Clinton foi cúmplice integral na desastrosa estratégia de oferecer o direito de integrar-se à OTAN, à Geórgia e à Ucrânia, que levou à guerra russo-georgiana de 2008 (e a um fracasso estratégico dos EUA, de facto, inegável) e ajudou a criar o contexto para a crise ucraniana a que assistimos esse ano. (...) A julgar por seu livro, Clinton jamais se deu o trabalho sequer de tentar entender ou prever qualquer reação dos russos –, muito menos, mais um vez, de reconhecer os próprios erros ou aprender com eles. Sobre a Guerra da Geórgia, ela simplesmente repete a mentira (embora seja possível que ela realmente acredite no que diz), segundo a qual a guerra foi deliberadamente iniciada por Putin, não pelo então Presidente da Geórgia, Mikheil Saakashvili.

Na política para a China, Clinton e o governo ao qual serviu embrulharam os EUA nas disputas por aquelas ilhas. Formalmente, Washington não tomou partido quanto à propriedade das ilhas. Informalmente, porém, ao enfatizar a aliança militar EUA-Japão e seu caráter extensivo, os EUA, sim, se alinharam ao lado do Japão – pelo menos no caso das ilhas Diaoyu/Senkaku. Resultado disso, Clinton pode ter empurrado o próprio país para uma posição da qual, mais dia menos dia, os EUA serão forçados a lançar guerra devastadora para defender “direitos” que o Japão supõe que tenha sobre rochas inabitáveis; e quando Tóquio, não Washington, decidir atacar.

O realista professor australiano Hugh White destaca, dentre outras disputas entre EUA e China, a recusa, por Washington, a reconhecer a legitimidade do sistema chinês de governo. Essa recusa vê-se mil vezes repetida no livro de Clinton. White argumenta que esse reconhecimento é essencial, se se espera que os dois países partilhem o poder e a capacidade para influenciar no Leste da Ásia e evitem-se conflitos diretos.

É uma questão moral e política da mais alta complexidade, se se consideram abusos de direitos humanos que a China teria cometido. E Clinton fez da “defesa intransigente” de direitos humanos uma marca registrada de seu mandato no Departamento de Estado – mas, parece, sem ter absolutamente qualquer ideia dos efeitos desastrosos daquela sua “militância”, se aplicada às práticas corriqueiras dos EUA, em todo o mundo. (...)

Em todos os casos, seria ajuda imensa se os representantes eleitos pelo povo norte-americano conseguissem admitir o quanto o modelo norte-americano em casa e pelo mundo está sendo hoje questionado tanto por inimigos quanto por amigos preocupados: em casa, por causa da paralisia política e a crescente e óbvia inadequação de uma Constituição do século XVIII, para enfrentar o mundo do século XXI; e no resto do mundo, por causa de séries de ações criminosas levadas a efeito em desafio à lei e à comunidade internacionais. Dentre essas ações, a catástrofe que foram a guerra dos EUA e a operação de construir (?) algum estado no Iraque; e também, muito provavelmente, no Afeganistão. Não se vê nem sinal de reconhecimento desses erros, no livro de Clinton.

*

De fato, no que tenha a ver com a política disfuncional do governo Obama para o Afeganistão, a própria Clinton não pode ser considerada, nem como única, nem como principal responsável. Como o livro dela e de outros deixam bem claro (especialmente The Dispensable Nation: American Foreign Policy in Retreat [A nação dispensável: política externa dos EUA em retirada], de Vali Nasr), aquela política foi pensada e comandada principalmente pela Casa Branca, e por razões de política doméstica. Mesmo assim, dado que tão rapidamente apresenta como sucessos seus qualquer coisa que pareça sucesso, por remoto que seja, claro que Hillary tem também de assumir a responsabilidade pelas medidas que, em idêntico contexto, resultaram em indisfarçáveis fracassos.

No âmago do fracasso do governo (sem considerar aqui a natureza horrivelmente intratável da Guerra do Afeganistão em si mesma) sempre esteve a combinação de avançada militar com o anúncio de uma “retirada” militar dos EUA. No que tivesse a ver com os elementos mais linha-dura dos Talibã, foi sinal claro de que só teriam de esperar um pouco. No que tivesse a ver com moderados reais ou potenciais, Washington fracassou redondamente, quando não associou a avançada a algum esforço sério para construir um acordo de paz.

(...) Como Clinton deixa bem claro, não haveria como ela apoiar qualquer oferta de paz apoiada por Talibãs, mesmo que os mais moderados. Nas palavras dela; Para haver reconciliação, os insurgentes teriam de depor armas, rejeitar a al-Qaeda e aceitar a Constituição Afegã. Em outras palavras, Clinton jamais se interessou por acordo algum: só queria rendição.

Essa oferta poderia ter sido feita pelo governo Bush em 2002 e 2003; teria, talvez, sido aceita por vários comandantes Talibã, porque naquele momento os Talibã pareciam ter sido completamente derrotados. Mas a oportunidade foi perdida, e a mesma oferta hoje – com os EUA em retirada; a “constituição” afegã em crise profunda; e os Talibã conquistando cada vez mais território no leste e no sul – não será sequer considerada. E a síndrome – ou de fingir ou de crer sinceramente que Washington oferece acordo, quando na realidade sempre exige rendição, é um leitmotif do trabalho de Clinton. É muito bonito oferecer acordo se você está vencendo a guerra. Muito menos bonito, se você está batendo em retirada.

Nada disso implica pretender que haveria respostas simples no Afeganistão ou no Oriente Médio, que Clinton não viu. Nos dois casos não há “solução” real, só melhor ou pior gerenciamento de crises baseado na seleção do mal menor, caso a caso. Talvez, como presidenta, Clinton se mostre gerente mais competente desse tipo de crises. Mas, se se considera o currículo dela e o que ela já escreveu até agora, o veredito só pode ser, no melhor dos casos, “não testada”. Até aqui, todas as ações de Clinton e dos EUA nas crises conhecidas, só fizeram agravar as crises e piorar o quadro.

Os EUA conseguirão escapar da armadilha criada pela fé obcecada na própria superioridade moral e direito de comandar? Para escapar, seria necessário um presidente capaz de dizer ao povo norte-americano inúmeras coisas que os políticos norte-americanos realmente não querem ouvir: sobre o declínio relativo do poder dos EUA e a necessidade de ajustar as políticas e a retórica, para acomodar os desenvolvimentos reais, não fantasiados; sobre a consequente necessidade de buscar acordos com vários países que os norte-americanos foram adestrados para odiar; sobre a insuficiência da ideologia norte-americana como via universal para o progresso da humanidade; e, mais importante que tudo, sobre a insustentabilidade, no longo prazo, do modelo econômicos dos EUA e a absoluta necessidade de agir contra a mudança climática.

Num mundo ideal, presidente ou presidenta astuto(a), com apoio popular, deveria ser capaz de ultrapassar a barreira da opinião das elites e apelar diretamente aos instintos, em gerais sensíveis e generosos, da maioria dos norte-americanos. Como pesquisas recentes indicaram, na questão de armar rebeldes sírios e de buscar compromisso razoável com o Irã, as grandes maiorias mostraram instintos muito mais cautelosos e pragmáticos que Clinton; e quanto aos Republicanos, então, nem se fala. Só 8% dos norte-americanos querem que Washington continue a insistir em comandar unilateralmente o planeta, comparados a vastíssimas maiorias favoráveis a buscar a cooperação (com compartilhamento dos custos) com outras potências.

Mas, como Peter Beinart demonstrou em artigo recente em The Atlantic, há um hiato crescente na opinião sobre esses temas entre o povo dos EUA de um lado; e as elites políticas e as empresas de “mídia” de outro lado – e, o fator mais crucialmente importante de todos, os grandes doadores de dinheiro para campanhas eleitorais, dos quais os candidatos dependem cada vez mais. Se, como muitos creem hoje, os EUA encaminham-se para ser uma oligarquia de facto, verdade é que as ideias dessa oligarquia são claras sobre política externa e questões de segurança – e são muito, muito próximas às ideias de Hillary Clinton.

Com certeza é mínimo, quase zero, o fundamento para a crença de que ela estaria preparada para desafiar as oligarquias nesses campos. (...) Por sua vez, o capítulo sobre esses assuntos em Hard Choices começa com uma longa passagem na qual Clinton “canta de galo” sobre o que teria sido vitória tática sobre a China na reunião de Copenhagem em 2009 – que nada representou em termos de combate à mudança climática e só fez alienar ainda mais chineses, indianos e brasileiros. O compromisso verbal de Clinton com esse tipo de causa é louvável e impressionante: suas ações, muito menos. Mas, mais uma vez, a verdadeira questão é: se qualquer político americano conseguiria fazer muito melhor, dado que praticamente todos os Republicanos – que agora dominam o Congresso e controlam a legislação federal sobre a questão – já conseguiram se convencem completamente de que o problema “do clima” nem existe. Como seria possível implementar políticas racionais, se a maior parte dos políticos eleitos já perdeu completamente todo o respeito por provas e fatos?

Se se considera o currículo dos EUA nos últimos 12 anos, muito haveria a dizer, em teoria, sobre um longo período durante o qual Washington simplesmente afastou-se de qualquer envolvimento em crises internacionais. Mas só em teoria. Na prática, na verdade, como vários sucessivos governos descobriram rapidamente, as questões internacionais não dão sossego a presidentes dos EUA. As crises eclodem repentinamente, e construir resposta apropriada exige filosofia consistente, profundo conhecimento local, controle firme sobre o aparelho da política externa dos EUA, e habilidade para contextualizar aquela resposta de modo a que obtenha o necessário apoio do establishment político, da indústria da “mídia”/“informação” e da população. Todos esses já são desafios suficientemente grandes. Esperar que, além do mais, o presidente/presidenta eleito(a) manifeste inteligência, originalidade, coragem moral e vontade de desafiar os touros-sagrados é, provavelmente, esperar demais de qualquer um. Pelo que se sabe até hoje, é, com certeza, esperar demais de Hillary Rodham Clinton.