31 de julho de 2014

Cuba está voltando-se para o capitalismo?

por Roger Keeran e Thomas Kenny


Em 2011, as autoridades cubanas adotaram corajosas novas Orientações (Lineamientos) para solucionar os problemas econômicos de Cuba. Modificadas a partir do debate público e adotadas pelo parlamento cubano, os Lineamientos agora possuem a força da lei e foram encorpadas nas regulamentações. Em maio de 2011, após uma viagem para Cuba, publicamos um artigo “Para onde Cuba vai?” onde argumentamos que apesar de certas semelhanças entre os problemas cubanos de 2011 e os problemas soviéticos de 1985 e que apesar de certas semelhanças entre as soluções buscadas por Mikhail Gorbachev conhecidas como perestroika e as reformas cubanas (actualización), as diferenças em ambas situações e os dois tipos de reformas eram muito maiores que as semelhanças. Portanto, existem poucos motivos para supor que Cuba estava caminhando para o caminho que acabou por destruir o socialismo soviético.

Em fevereiro de 2014, visitamos Cuba novamente. Desta vez entrevistamos ou re-entrevistamos operários, jornalistas, sindicalistas, intelectuais e acadêmicos. Estas discussões junto de um estudo de materiais escritos não nos fizeram mudar nossa conclusão, mas aprofundaram nossa avaliação dos problemas que os cubanos enfrentam e os desafios enfrentados pelas novas reformas e suas diferenças com a história soviética. Neste artigo, iremos retomar a questão de se as reformas assinalam uma restauração capitalista em Cuba e acrescentar algumas reflexões novas.

Problemas

Ao nacionalizar praticamente toda a propriedade produtiva e regulamentar a atividade econômica a partir do planejamento centralizado ao invés do mercado, competição, exploração e a busca pelo lucro, o socialismo cubano garantiu conquistas monumentais para a classe trabalhadora, incluindo o crescimento econômico, pleno emprego, saúde e educação, moradia, nutrição e um enorme nível cultural. Socialismo, todavia, não produz automaticamente uma utopia. A propriedade estatal e planejamento centralizado engendraram seus próprios problemas. Sem a temível disciplina do mercado, o socialismo enfrenta problemas de motivação, produtividade, eficiência e de qualidade dos produtos e serviços. Fornecer emprego a todas as pessoas pode levar a excesso de funcionários e ineficiência. Administrar um Estado grande adequadamente de acordo com as regras pode levar à burocracia, burocratismo e atrasos. Assegurar a todo o povo o básico de uma vida decente pode levar à racionamento, filas e limitações de qualidade e variedade para bens de consumo. Racionamento e escassez podem levar à corrupção e a um mercado negro. Planejamento centralizado pode levar a uma falta de responsabilidades e iniciativas a nível local.

Embora tais problemas possam ser inerentes à natureza do socialismo, eles têm sido exacerbados pelas condições de seu nascimento. Nunca uma revolução socialista teve o privilégio de se desenvolver livremente em suas próprias condições internas. Nenhum país socialista poderia evitar tentativas imperialistas de sufocá-la pela invasão, isolamento diplomático, guerra econômica (sanções, embargos, sabotagem e pressão militar), o terrorismo exportado, assassinatos, guerra psicológica, e mais recentemente o incentivo de "movimentos democráticos", e o uso da guerra cibernética e redes sociais. Os Estados Socialistas sempre tiveram que se virar em um mundo hostil, um mundo mais hostil ainda após o desaparecimento do bloco socialista na URSS e no leste Europeu.

Ao lidar com seus problemas econômicos, Cuba sempre enfrentou duas debilidades que a União Soviética ou a China não enfrentaram. Em primeiro lugar, apesar de abundantes terras aráveis, belas praias, florestas e minério de níquel, Cuba não possui abundantes recursos naturais. Não possui gás, petróleo, carvão, ferro, estanho, e a maioria dos outros recursos (apesar de recentes descobertas de reservas de petróleo marítimas possam atender a alguns desses problemas). E em segundo lugar, teve que suportar o embargo de 50 anos dos EUA que privou Cuba de mercados de exportação e importação e junto a isso, medicamentos importados, alimentos, bens de capital e bens de consumo. De acordo com algumas estimativas, em meio século, o bloqueio já custou Cuba $ 975.000.000.000, e sem o boicote o padrão de vida de Cuba poderia muito bem igualar o da Europa Ocidental.[1]

Nenhum destes problemas iguala as impecáveis vantagens do socialismo para as massas do povo, e tampouco ameaçaram o projeto socialista. No entanto, mereceram e merecem constante atenção e soluções criativas. Cuba reviu seu modelo socialistas várias vezes em tentativas de lidar com seus problemas econômicos. Ás vezes, os novos modelos tiveram de corrigir deficiências provocadas por anteriores.

Primeiro modelo, 1960-1970. No primeiro período da revolução, Cuba nacionalizou as grandes empresas estrangeiras, distribuiu terra aos sem-terra, desenvolveu um sistema de planejamento, e lidou com o embargo norte-americano fazendo comércio com países socialistas. Neste período, Cuba enfatizou os incentivos morais acima dos incentivos materiais e definiu objetivos ambiciosos visando uma rápida industrialização que seria financiada pela produção intensiva e exportação de açúcar.

Um modelo parecido com o Leste Europeu, 1970-1985. Neste período, Cuba entrou no COMECON (Conselho para Assistência Econômica Mútua, uma organização dos Estados socialistas da Europa designado para coordenar atividades econômicas e desenvolver cooperação técnica, econômica e científica). Neste período, Cuba desenvolveu seu primeiro Plano Quinquenal que deu particular importância à produção de açúcar e que colocou mais ênfase em incentivos materiais no padrão dos países socialistas do Leste Europeu.

Retificação, 1985-1990. Neste período, Cuba tentou retificar os erros de acriticamente aplicar as receitas econômicas soviéticas para as condições cubanas. Cubana abandonou alguns mecanismos de mercado que havia tentado, e fortaleceu a centralização econômica. Também tentou diversificar sua economia do açúcar ao desenvolver biotecnologia, farmacêuticos, turismo e produção de níquel.

O Período Especial, 1991-2010. O colapso da URSS e do Leste Europeu significou a perda repentina de mais de dois terços de suas exportações e uma drástica contração de toda a sua economia. A crise econômica foi exacerbada pela intensificação do embargo norte-americano a partir da Lei Torricelli (1992) e a Lei Helms-Burton (1996). Em resposta, Cuba concebeu um novo modelo que reforçou reduções nos gastos, conservou o câmbio, transformou fazendas estatais em cooperativas, permitiu remessas de dinheiro dos exilados cubanos, e atentou para a rápida acumulação de turismo. Para assegurar que as remessas e turismo fossem trazer desesperadamente comércio externo, Cuba instituiu um sistema de duas moedas.

O Período Especial provou ser uma forma muito engenhosa de contrabalancear a crise extremamente grave colocada pelo colapso da União Soviética e do recrudescimento do bloqueio. Com as políticas do Período Especial, juntamente com a ajuda de empréstimos da China e de petróleo da Venezuela, Cuba conseguiu trazer a sua economia e o padrão de vida de volta para os níveis pré-crise. Enquanto isso, no entanto, vários problemas econômicos novos surgiram. Antes de tudo, a recessão econômica mundial de 2008 atacou os mercados de exportação de Cuba, e isto continua sendo um problema. Além disso, em 2007-2010, vários furacões causaram uma destruição generalizada. No topo destes problemas, as políticas do Período Especial resultaram em algumas consequências inesperadas e indesejáveis relacionadas com o sistema de dupla moeda.

Já que a diferença entre o Peso Cubano Convertível (CUC), (que era usada por turistas e pelas remessas enviadas de fora) e o Peso Cubano era de aproximadamente de uma para 25, Cuba foi capaz de acumular o que precisava de câmbio. Esta diferença de valor também tornou o acesso às CUCs extremamente desejável e deu a seus destinatários vantagens consideráveis. Consequentemente, o trabalho em restaurantes, hotéis, táxis e outras partes da indústria turística com acesso a pagamento ou gorjetas em CUC tornou-se, em muitos casos mais atraentes e mais lucrativo do que o trabalho em profissões das quais o povo foi gratuitamente educado. Houve, assim, um “fluxo de talentos" desmoralizante e ineficiente de atividades de ensino e outras profissões para o turismo. Também contribuiu para a desigualdade, o mercado negro e corrupção. Por exemplo, já que a maior parte dos dois milhões de cubanos que vivem nos Estados Unidos são cubanos de origem europeia ou mestiça, a preponderância dos bilhões de dólares em remessas foi e está sendo enviada para seus parentes de origem europeia ou mestiça em Cuba. Isto agravou diferenças econômicas raciais.

O único jeito de sair destas dificuldades implicou em eliminar o sistema duplo de moeda. Sem causar um enorme deslocamento econômico, a moeda dupla só poderia ser eliminada gradualmente aumentando os salários cubanos e reduzindo a necessidade de câmbio. Por sua vez, isto necessitou que se aumentasse a produtividade e eficiência para tornar os produtos cubanos mais competitivos e que se reduzisse a necessidade de energia importada e matérias-primas. Também exigiu o aumento da autossuficiência em particular nos alimentos, uma vez que Cuba gasta cerca de US$ 1 bilhão ao ano para comprar alimentos no exterior. Da mesma forma, para recuperar mercados de exportação perdidos durante a recessão de 2008, se exigiu o aumento da produtividade e eficiência.

Todas estas considerações — abordando alguns dos problemas endêmicos do socialismo e combatendo problemas causados pela crise de 2008 bem como aqueles gerados pelo Período Especial — forneceram o ímpeto para as reformas de “atualização” inauguradas em 2011. Outra circunstância que pressionou para as reformas foi a incerteza da situação internacional. Por causa da China, da Revolução Bolivariana na Venezuela, e governos progressistas e social democratas no Brasil, Bolívia e afins, Cuba agora possui mais amigos e apoio internacional do que no passado recente, mas nenhum deles se garante que se dure. O apoio chinês à terras irmãs socialistas já vacilou antes. A Revolução Bolivariana não está consolidada. E governos social democratas são muito instáveis.

Tanto Fidel Castro quanto Raul Castro já sublinharam a urgência da reforma. Fidel afirmou que o “modelo cubano não funciona mais para nós”[2]. Em Dezembro de 2010, Raul Castro disse que “Ou retificamos as coisas, ou ficamos sem tempo pra continuar a contornar o abismo e afundamos”.[3]

Compreender a natureza e a gravidade dos problemas encarados por Cuba é um componente importante de traçar uma avaliação política das reformas cubanas. A essência do oportunismo como define Lenin, não é fazer acordos ou concessões para a classe inimiga mas ao fazer acordos e concessões desnecessárias. Na nossa visão, o que foi crucial do problema da Perestroika e Glasnost de Gorbachev foi que envolviam concessões desnecessárias ao imperialismo norte-americano e compromissos com a ideologia e prática burguesas. As políticas do Gorbachev foram não tanto necessidades das condições objetivas, mas mais os interesses de classe de um setor pequeno-burguês que se desenvolveu na sociedade soviética enraizado em anos de crescimento da chamada segunda economia.

Ainda que o sistema soviético possuísse problemas que fossem precisos ser resolvidos, as políticas de Gorbachev envolveram cinco políticas desnecessárias de recuo oportunista:

  • A liquidação do Partido Comunista da União Soviética,
  • A entrega da mídia à forças antissocialistas,
  • O desencadeamento do separatismo nacionalista, e
  • A rendição ao Imperialismo norte-americano
  • A completa privatização e mercantilização da economia socialista

Ainda que os primeiros quatro processos não estejam ocorrendo em Cuba, uma certa redução do papel do Estado e um certo aumento da atividade econômica privada e do mercado estão ocorrendo.

Ainda que as reformas cubanas hoje possam ser vistas com entusiasmo àqueles ligados à segunda economia cubana e por aqueles que desejam sabotar o socialismo, elas são uma resposta à problemas reais que caso não sejam resolvidos, ameaçam o futuro do socialismo em Cuba. Na medida em que as reformas são compromissos com o mercado e ideias burguesas, são compromissos necessários. O objetivo a curto prazo é eliminar o déficit na balança de pagamentos, aumentar os fluxos de receitas externas, substituir o produto interno por importações, e aumentar a eficiência econômica, a motivação pelo trabalho, e a renda. O objetivo a longo prazo é alcançar a autossuficiência alimentar e energética, a utilização eficiente dos recursos humanos, uma maior competitividade e novas formas de produção.[4]

As políticas de actualización

Ainda assim, se levanta a questão: mesmo se as reformas de Cuba de hoje sejam mais necessárias do que as reformas de Gorbachev no final dos anos 80, as cubanas não estão se movimentando de forma semelhante em diversas formas às do Gorbachev e não representam o mesmo perigo para o socialismo como as reformas de Gorbachev?

Muitas das orientações de fato carregam uma leve semelhança às políticas de Gorbachev, e estas tem atraído mais atenção. Inquestionavelmente, muitas das orientações objetivam aumentar o papel do mercado, da empresa privada e da autonomia local, e consequentemente reduzir o papel do planejamento estatal, empresas estatais e subsídios do Estado. Um rumo que aumente o tamanho dos interesses da pequena-burguesia de fato representa perigos. Invariavelmente, se levantarão vozes que querem apressar as coisas e ir mais rápido para o capitalismo. No prólogo da tradução em espanhol de nosso livro, Socialismo Traicionado, Ramon Labanino, um dos Cinco Cubanos presos, fala da necessidade deste momento em “estar alerta e vigilante a fim de evitar erros e fraquezas que possam nos levar ao fracasso”.

Muitas coisas acerca da abordagem da atualização até agora, não a toa que homens como Labanino conhecem a história soviética, dão confiança que Cuba pode evitar as armadilhas que condenaram o socialismo soviético.

Mais importante, ao adotar o Projeto das Orientações da Política Econômica e social do Partido e da Revolução, o Sexto Congresso do Partido Comunista de Cuba (PCCu) afirmou o comprometimento do governo com o socialismo e com a preservação das condições de vida, segurança e padrão de vida do povo cubano. Nas palavras do PCCu, o governo irá “continuar a preservar as conquistas da Revolução, como o acesso à atenção médica, educação, cultura, esportes, recreação, segurança social e pensões de aposentadoria àqueles que precisam.”

E também, de importância crucial, a formulação e implementação das orientações ocorreram e estão ocorrendo em um processo que bastante divergiu do que aconteceu na União Soviética. A “atualização” cubana surgiu de um processo altamente democrático e com participação em massa das fileiras comunistas e dos operários. Em Cuba, o desenvolvimento das orientações em 2010 até a atual implementação em 2014 abraçou as consultas e discussões populares e pela construção de um consenso de massas. O processo começou em dezembro de 2010 até Fevereiro de 2011 com discussões pelo povo como um todo, seguido de discussões feitas pelo Partido em cada província, e depois disso, em discussões no Sexto Congresso do PCCu em Abril. No total, 163.079 reuniões ocorreram onde 8.913.838 participaram. Estas discussões modificaram ou incorporaram 68% das 291 orientações originais, modificaram outras 181, e criaram 36 novas orientações. As discussões das orientações também ocorreram nas páginas dedicadas a cartas do Granma, telefonemas para rádios, blogs de internet, e nos sindicatos. Um observador notou: “Um ponto chave aqui é que a elaboração de nova legislação do trabalho envolve um processo de consulta com a CTC (Confederação Central de Sindicatos), de modo detalhado e extenso que faz com que os sindicatos tenham um veto de fato.”[5]

Por causa deste envolvimento de massas, o povo cubano está unido e confiante sobre a direção da orientação. A questão de se Cuba está ou não retornando ao capitalismo é mais forte fora de Cuba do que dentro dela. Ninguém que nós tenhamos conversado expressou o menor medo de que a atualização iria prejudicar os interesses dos trabalhadores ou ameaçar o futuro do socialismo.

A “atualização” cubana é um esforço multifacetado e abrangente que envolve 291 diretrizes que tocam quase todo canto da vida econômica. Mais uma vez diferente da abordagem de Gorbachev, as reformas cubanas estão quase que exclusivamente orientadas para mudanças econômicas, e não mudanças na política, ideologia, mídia, e política externa. Além disso, muitas das orientações são orientadas para as condições particulares de Cuba e não possuem semelhanças com a perestroika de Gorbachev. Por exemplo, algumas das orientações tem a ver com encorajar o cultivo da terra atualmente não utilizada e desenvolver as áreas rurais ao dar terras agrícolas não utilizadas em usufruto para aqueles que podem produzir alimentos para o consumo nacional. Algumas das orientações tem a ver com o retorno do princípio socialista de distribuição — “de cada qual segundo sua capacidade; a cada qual, segundo suas necessidades” — isso quer dizer, recompensando os trabalhadores por sua produtividade, de onde os cubanos tinham se afastado durante o Período Especial.

Para aumentar a produtividade e eficiência, a responsabilidade de várias empresas nacionais vai guinar para as províncias e municípios. Estes níveis mais baixos irão adquirir o controle sobre suas próprias despesas se espera que se operem na base da rentabilidade financeira. A indústria de açúcar por exemplo irá reduzir o número de funcionários e cada usina vai se tornar uma empresa separada. A descentralização envolve um afastamento do planejamento central, e isto pode causar complicações ara o que permanece da planificação, e também pode introduzir desigualdades onde alguns locais acabam desfrutando de condições mais favoráveis do que as outras. Ainda assim, a descentralização não exige a alteração dos fundamentos da propriedade socialista e ado fornecimento das necessidades sociais. Todos os países socialistas experimentaram várias combinações de centralização e descentralização.

O Estado planeja reduzir outras atividades incluindo tanto quanto um milhão ou mais de empregos. O Estado também irá eliminar os refeitórios dos trabalhadores com refeições subsidiadas ou vai transformá-los em restaurantes comerciais, e irá limitar o número de meses de elegibilidade e o tamanho do seguro-desemprego. Também planejam eliminar a caderneta de racionamento subsidiada para aqueles que têm dinheiro para comprar comida. A ideia é fazer essas mudanças de forma gradual e sistemática, de modo que esses postos de trabalho estatais encontrem emprego em um setor privado fortalecido.

Ainda que as reformas envolvam uma expansão da empresa privada, portanto relações de produção capitalistas, a expansão é altamente regulamentada. Segundo estimativas, de 2014, 450.000 cubanos trabalham no setor privado em fazendas, cooperativas e pequenas empresas[6]. Em dezembro de 2013, 78% da força de trabalho era do setor público e 22% no setor privado. O objetivo da atualização é de 60% no setor público e 40% no privado.[7] O setor privado e as cooperativas vão abraçar quase metade da força de trabalho em 2015. Neste processo, o Estado vai alugar a particulares empresas como restaurantes de cuentapropistas (paladares), padarias, barbearias, salões de beleza, relojoarias, oficinas de carros e motos. O Estado está aumentando o número de clientes admissíveis para restaurantes de cuentapropistas de 12 para 50 e suspendendo impostos por um ano para paladares que empregassem até 5 pessoas.

O mercado está expandindo. As pessoas com acesso a câmbio poderão usar as facilidades turísticas e comprar celulares, telefones e computadores. As pessoas poderão comprar e vender automóveis, casas e apartamentos e construir casas privadas e contratar equipes de construção privadas.

As orientações tentam lidar com esses aspectos controversos como a privatização e investimento estrangeiro com formas que garantam o nível de vida dos trabalhadores e do futuro do socialismo. Por exemplo, a expansão de cuentapropistas (trabalhadores por conta própria ou trabalhadores independentes) está sendo feita não só para absorver os deslocados do emprego estatal, mas também para encorajar os trabalhadores da segunda economia ilegal a se tornarem parte da economia legal. Um sindicalista nos contou sobre um parente que havia trabalhado como motorista de táxi ilegal, onde ele foi preso muitas vezes, não pagou nenhum imposto e não tinha benefícios sociais. Agora, como cuentapropista ele dirige um táxi legalmente, paga impostos, e recebe benefícios sociais, incluindo, eventualmente, uma pensão.[8] Além disso, todos os cuentapropistas podem participar de sindicatos. Os sindicatos estão a elaborar estratégias para recrutá-los e contrabalançar o pensamento pequeno-burguês que poderia surgir com a expansão do auto-emprego.

A atualização visa expandir o investimento estrangeiro, além do que já era permitido pela lei de 1997. Já nesses lanos está o novo Porto de Mariel financiado pelo Brasil. Ao mesmo tempo, a atualização busca minimizar as consequências potencialmente danosas do investimento estrangeiro, por exemplo, a lei cria incentivos a joint ventures. A lei exclui investimento de exilados cubanos. Ela exige joint ventures e outras formas de empresa que contratem trabalhadores através das agências estatais cubanas. Ela exige que os investidores estrangeiros sigam o código de trabalho em termos de meio ambiente, saúde e proteções de segurança e de segurança social. Com a exceção de cargos altos de gestão, as empresas devem empregar cidadãos e residentes cubanos em todas as posições.

Ainda que todas essas mudanças sejam de tirar o fôlego em seu alcance e aspirações, Raul Castro e o PCCu estão implementando-os cuidadosamente de olho para frustrar consequências não intencionais. No sexto Congresso do PCCu, Castro afirmou que “O desafio é claro: níveis mais elevados de rendimento na produção material, em capacidade e eficiência são essenciais; mas devem ser feitas no contextos das relações de produção social socialistas, relações da propriedade socialista.”[9] Sobre as licenças das cooperativas, Castro disse: “Não podemos apressar a aprovação constante dessas cooperativas. Devemos ir a um ritmo adequado.” Em 2013, Castro emitiu um aviso severo para os empresários contra pretenderem violarem as orientações.[10]

Na mesma linha, o Partido avisou as pessoas que não esperassem que a atualização leve à privatização da economia. Em 2010 o PCCu declarou: “Nas novas formas de gestão não-estatal, não será permitida a concentração da propriedade em pessoas jurídicas ou naturais."[11]

Em julho de 2013, Marino Murillo, um economista funcionário do alto escalão do governo de Cuba, reforçou esta ideia perante a Assembleia Nacional do Poder Popular: “Não é correto afirmar que em Cuba hoje esteja ocorrendo uma transformação da propriedade em propriedade privada. Não confundam a transformação da propriedade com modernização da gestão. São duas coisas diferentes...”[12]

O que está sendo transferido para mãos privadas não é propriedade, mas a gestão da propriedade social. [13]

Claramente o caminho à frente não é menos perigoso. Se referindo à Comuna de Paris, Karl Marx disse “A história mundial seria, de fato, muito fácil de ser feita, se a luta fosse assumida apenas em condições de chances infalivelmente favoráveis.”[14] E também funciona assim com a atualização cubana. Os cubanos estão indo para um rumo com certos riscos e sem chances infalivelmente favoráveis, mas estão fazendo de forma gradual e com cautela, com seus olhos bem abertos e com toda a população envolvida. É um rumo que é contraditório, mas necessário. Eles estão fazendo com a compreensão que, como Raul Castro disse, se não fizer nada corre-se o risco de cair no abismo.

Notas:

[1] Entrevista com Manuel Yepe, Havana, Cuba, 18 de fevereiro de 2014. Yepe é um antigo diplomata e agora um jornalista. Quando jovem, foi ajudante de Che Guevara. ver também: Cuba vs Bloqueio: Relatório de Cuba sobre a Resolução 65/6 da Assembleia Geral das Nações Unidas intitulado "Necessidade de pôr fim ao bloqueio econômico, comercial e financeiro imposto pelos Estados Unidos da América contra Cuba" (Julho de 2011)

[2] Citação de Anton L. Allahar e Nelson P. Valdés: www.cuba-1bl ogspot.com/2014_05_01archive.html#6955777,36

[3] www.economist.com/sites/default/files/20120324_Cuba.pdf

[4] Allahar e Valdès, 41

[5] Steve Ludlam, “Cuba’s Socialist Development Strategy,” Science & Society 76, no. 1 (January 2012)

[6] The Economist, 15, Fev. 2014.

[7] Entrevista com Marta Nunez, Havana, Cuba, 18 de Fevereiro de 2014.

[8] Entrevista com Lic. Anibal Melo Infante, Departamento de Relações Internacionais, Centro De Trabajadores de Cuba, (CTC) 17 Fev., 2014.

[9] Raul Castro, no Sexto Congresso do Partido Comunista de Cuba.

[10] “Cuba: Raul Castro emite severo aviso a empregadores” Associated Press (21 de Dezembro de 2013)

[11] Citação de Allahar and Valdès, 41

[12] http://www.cubadebate.cu/especiales/2013/10/15/marino-murillo-el-modelo-cubano-es-socialista/

[13] Carta de Marce Cameron, Green Left Weekly, 1 de julho de 2012. Marce Cameron fez um blog útil, “Cuba’s Socialist Renewal.”

[14] Carta de Marx para L. Kugelmann, 17 de Abril de 1871

Apresente a situação de Gaza como quiser, mas a verdade dói

O mundo está começando a se voltar contra Israel

Robert Fisk

The Independent

Tradução / Houve um tempo em que os nossos políticos e meios de comunicação tinham um medo crucial quando cobriam as guerras no Oriente Médio: a de que ninguém deveria chamá-los de antissemitas.

Tão corrosiva, tão cruel era essa acusação contra qualquer critico honesto de Israel que apenas a balir a palavra “desproporcional” – como em qualquer taxa de mortalidade árabe-israelense em guerra normais – era provocar acusações de nazismo por parte de pretensos apoiadores de Israel. Simpatizar com palestinos era ganhar a alcunha de “pró-palestino”, o que, naturalmente, significa “pró-terrorista”.

Ou assim foi até o último banho de sangue em Gaza, que está sendo tão graficamente coberto por jornalistas que os nossos poderosos e nossos meios de comunicação estão tendo uma nova experiência: não o medo de ser chamado de antissemita, mas o medo de seus próprios telespectadores e leitores – pessoas comuns tão indignadas com os crimes de guerra cometidos contra as mulheres e crianças de Gaza que estão exigindo saber por que, mesmo agora, magnatas da televisão e políticos se recusam a tratar o seu próprio público como seres humanos morais, dignos, inteligentes.

Ainda assim – cada vez que uma outra criança encharcada de sangue aparece na tela -, os apresentadores de TV falam sobre o “jogo da culpa”. Jogo da culpa? Será que eles pensam que este é um jogo de futebol sangrento? Ou uma tragédia sangrenta? Os civis são mortos. Repórteres chamam de “disparos de tanques” (o Hamas não tem tanques). Israel diz que um foguete do Hamas falhou. O Hamas diz que é obra de Israel. Portanto, é um “jogo de culpa”. Ninguém pode realmente ser culpado – e, assim, nós podemos nos livrar da responsabilidade.

E devemos esquecer que fizemos o mesmo quando bombas dos EUA mataram civis em Trípoli em 1986 (um “míssil antiaéreo líbio falhou”, eu me lembro) ou quando o ataque da Otan no distrito de Shuala em Bagdá matou civis em 2003 (a  culpa era de um “míssil antiaéreo iraquiano que falhou”, é claro). Several Americans have called me to point this out, adding that the US Senate vote of 100-0 in favour of Israel sounds a bit like the 98 per cent that Arab dictators claim for their presidency – except that the US vote, which does not represent them, really was the true figure!

Now to the get-out clause of all of us. Sim, o Hamas é corrupto, cínico, cruel. A maioria de seus “porta-vozes” são tão estúpidos, tão incoerentes, tão propensos a gritar que sempre superam o gentil Mark Regev em matéria de fazer o mundo ficar contra o Hamas. Mas o mundo está se voltando contra Israel, como os ministros da UE repetidamente (embora sempre muito gentilmente) dizem aos israelenses. E isso está se voltando contra os nossos políticos e chefões da mídia.

Quantas vezes o New York Times espera que seus leitores tolerem editoriais como o texto pusilânime da semana passada? Houve “ataques mortais” em Gaza, os leitores foram informados. O total de mortos chegou a 750, “a grande maioria palestinos”. E então a saída: houve “ataques de ambos os lados” – de Israel ou do Hamas ou de um aliado do Hamas – e, portanto, “o que realmente importa agora é que alguma maneira seja encontrada para parar este massacre”. OK, então. O “jogo da culpa” é igual a “nenhuma culpa”.

Na França, houve menosprezo com a forma como o governo reagiu ao calvário de Gaza. François Hollande queria que Israel “corrigisse” o seu objetivo “um pouco” (un peu)! Ele criticou a agressão do Hamas e as represálias de Israel. Mas, então, um bravo Benjamin Netanyahu reclamou nos Eliseus. Mudança de sintonia. Hollande pronunciou o mantra habitual. “Israel tem o direito de tomar todas as medidas para proteger o seu povo.” Mas, então, os membros do parlamento francês ficaram tão enojados com a “punição coletiva” dos palestinos que Hollande pediu o fim da “escalada” da violência. Ufa.

Na Irlanda, tradicionalmente pró-palestina, o Irish Times, infelizmente, tem soado a mesma melodia de seu homônimo de Nova York. Um dia depois que Israel bombardeou uma escola da ONU, matando 19 civis, publicou um artigo na primeira página que começava com a declaração de um cessar-fogo de Israel, continuava com um parágrafo sobre os detalhes da trégua e, em seguida, dava um parágrafo dizendo que o Hamas não reagiu – e então avisou seus leitores dos 19 mortos. Um leitor criticou o jornal por “equilibrar” a sua página de cartas para parecer que os os palestinos tenham tanta culpa quanto os israelenses. “Isso é realmente uma espécie de apatia moral”, disse ele. E disse muito bem. O mundo pode pelo menos agradecer os jornalistas em Gaza – mesmo que seus chefes estão ainda em fuga.

Líderes israelenses, esperam-vos em Haia!

Michel Warschawski


Tradução / O estado israelense e os chefes do seu exército acabarão por ser considerados como responsáveis pelo massacre de massas premeditado em Gaza. Responsáveis perante o mundo, os tribunais de justiça e a história. Não haverá circunstâncias atenuantes.

Netanyahu, Bennet, Lieberman, Ya´alon y Gantz: esperam-vos em Haia!

Inteirámos-nos pela imprensa de que o governo israelense decidiu chamar às fileiras outros 16.000 soldados da reserva, de tal forma que terá 86.000 soldados a participar na campanha contra Gaza. Supondo que em Gaza vivem 1,7 milhões de pessoas, depois da dedução de uns 5.000 combatentes do Hamas e de outras organizações (estimativa exagerada), esse número significa que haverá um soldado por cada dez civis na região mais densamente povoada do mundo. Sobre a questão da densidade, vou escrever mais tarde, mas continuemos com os números. 86.000 soldados equipados com o melhor das armas modernas, com uma artilharia e uma aviação, contra 5.000 militantes, isto é, 17 soldados por cada militante. A campanha dura já há três semanas e dir-se-ia que está longe de ter terminado.

Não é necessário ser um grande perito para compreender que a incapacidade das forças militares massivas de Israel para derrotar cerca de 5.000 combatentes ilustra que é uma resistência que vale-se de um apoio popular em massa, e todos os “comentaristas” e “peritos” das rádios e televisões estão num erro incrível, ou estão a tentar enganar intencionalmente a opinião pública israelense quando explicam que o Hamas governa pela força sobre a população de Gaza. Se durante os dois últimos anos, as críticas da população de Gaza à sua direção cresceu, nesta guerra o Hamas ganhou uma popularidade reencontrada de forma honrada e valente. E não só uma popularidade na faixa de Gaza, mas também na Cisjordânia e em todo o mundo árabe.

Quaisquer que sejam os acordos de cessar-fogo, o Hamas ganhou bastante claramente.

E o estado de Israel? Deve preparar-se para um reforço do seu isolamento internacional, e para que os seus dirigentes tomem o caminho do Tribunal Penal Internacional. Pois isto não é uma guerra, é um massacre planejado. Neste contexto, não tenho nada a acrescentar ao que escreveu o jornalista B. Michael (Ha’aretz, 30 de julho de 2014): “... e quando o menino número 100, a idosa de 80 anos, e os 300 'não implicados' são assassinados num bombardeamento de precisão e com bombas lançadas a um alvo, a desculpa da pressa não basta. Isto é já intencional, produto de uma decisão, o fruto podre de um comando consciente, voluntário, que sabe com certeza que as crianças, as mulheres, as pessoas idosas, o indefeso e o inocente, serão assassinados. O 'não foi minha intenção' já não funciona... Tendo em conta o resultado, é uma consequência das ordens. E a partir daí, será difícil ser purificado”.

Efetivamente, e quanto antes melhor, os dirigentes do Estado e do exército, com os seus pilotos e os seus artilheiros, deverão prestar contas pelo massacre de massas premeditado: contas perante o mundo, os tribunais de justiça e, certamente, perante a história. Não haverá circunstâncias atenuantes.

30 de julho de 2014

A lógica da violência de Israel

A violência de Israel não é algo sem sentido - ela segue uma lógica colonial.

Greg Shupak

Jacobin
Créditos: Forças de Defesa de Israel/Flickr.

Tradução / Entende-se que, para muitos, a ação de Israel na Faixa de Gaza seja um massacre e carnificina como tais. É um interpretação plausível para a morte de 1.284 palestinos, pelo menos 75% dos quais são civis, e ferir outros 7.100.

Ver Israel como dedicado a derramamento gratuito de sangue parece até mais razoável, como conclusão, à luz do massacre de 63 pessoas em Shujaiya depois de “uso extensivo de fogo de artilharia em dúzias de áreas populosas em toda a Faixa de Gaza” que deixou cadáveres “espalhados pelas ruas”, ou o bombardeio de abrigos da ONU abertos para acolher os que fugiam da violência. É também uma conclusão tentadora, baseada em relados de Khuza’a, área no interior do território da Faixa, e que também foi o cenário de mais um massacre pelos israelenses.

Mas descrever essa violência como ‘'maldade em si'’, como ‘'perversão'’ ou como ato sem outro objetivo além do assassinato em si deixa escapar a própria lógica que preside tudo que Israel está fazendo com sua Operação Margem de Proteção, agora, mas que de fato faz há muito tempo, ao longo de toda sua história.

Como Darryl Li aponta, “Desde 2005, Israel vem desenvolvendo um experimento raro, talvez sem precedentes, de gestão colonial na Faixa de Gaza”, procurando sempre “isolar os palestinos de qualquer contato com o mundo exterior, torná-los absolutamente dependentes da caridade externa” e, simultaneamente, cuidar de “absolver Israel de qualquer responsabilidade em relação a eles”.

Essa estratégia, prossegue Li, é o modo pelo qual Israel trabalha para manter a maioria de judeus nos territórios que controla, de modo a poder continuar a negar direitos iguais para o restante da população.

Suprimir a resistência palestina é crucial para o sucesso do experimento israelense. Mas há um corolário, a saber, uma interação cíclica entre o colonialismo israelense e o militarismo americano. Como explica Bashir Abu-Manneh, há uma relação entre o imperialismo americano e as políticas sionistas. Políticos americanos creem que uma aliança com Israel ajuda os EUA a controlar o Oriente Médio. Assim sendo, os EUA viabilizam o colonialismo e a ocupação israelenses, o que, por sua vez, cria contextos para mais intervenções dos EUA na região, que podem ser usados para tentar aprofundar a hegemonia americana.

O autor diz também que “os EUA têm determinado grandes resultantes econômicas e políticas” na região desde, pelo menos, 1967, e que Israel desempenha um “papel crucial nas realizações americanas. Em Israel-Palestina, o que se tem é que a força e uma paz colonial alternaram-se como principais instrumentos de política”. Mas, em todos os casos, permanece sempre “o mesmo objetivo, constante: a supremacia dos judeus na Palestina – o máximo possível de terra, com o mínimo possível de palestinos sobre ela”.

O que os dois analistas, Li e Abu-Manneh destacam é a preocupação de Israel em manter os palestinos em estado de impotência. Conduzida simultaneamente por sua própria agenda de ocupação com colonização e por sua função como parceira dos EUA no sistema geopolítico, Israel dedica-se a tentar equilibrar seu desejo de maximizar o território que controla e o imperativo de minimizar o número de palestinos vivos nos territórios que Israel aspira a usar para seus próprios objetivos.

Um modo de destruir qualquer sinal do poder dos palestinos tem sido deixado bem à vista na Operação Margem de Proteção, durante a qual a violência dos israelenses foi aplicada a detonar quaisquer sinais da independência palestina – daí a conclamação que fez o ministro da Economia, Naftali Bennett, para “derrotar o Hamas”.

O resultado é que os palestinos não estão sujeitos apenas a extrema violência. Também a capacidade de os palestinos viverem autonomamente na Palestina histórica tem sido atacada. A destruição da infraestrutura no recente ataque contra a única usina de produção de eletricidade de toda a Faixa de Gaza é um sinal bem claro disso. O massacre atual não põe fim só à vida de indivíduos palestinos, mas também visa a arrancar dos palestinos como povo a capacidade de viver dom independência em sua terra natal.

Quando nega aos refugiados o direito natural protegido por lei de retornar, Israel deixa ver abertamente a tática de que se serve para manter o quadro demográfico com que sonha, criando condições inóspitas para a existência autônoma dos palestinos; ao mesmo tempo, a mesma tática também pode assegurar a Israel “o máximo possível de terra, com o mínimo possível de palestinos sobre ela”.

A violência regida por essa lógica não é exclusividade do sionismo. É um traço central no colonialismo e tem paralelo histórico, por exemplo, na Trilha das Lágrimas nos EUA ou no Canadá, com a limpeza étnica das planícies mediante o processo de provocar premeditadamente grandes fomes entre os povos nativos. O significado da Operação Margem de Proteção é similar.

Impedir que um povo proveja a própria sobrevivência é um meio de sabotar a capacidade de viverem autonomamente. Esse é o sentido do ataque de Israel contra 46 barcos pesqueiros de Gaza, ou dos ataques do 16º Dia da Operação Linha de Proteção contra as áreas plantadas no norte da Faixa de Gaza, na cidade de Gaza, na Faixa de Gaza Central, em Khan Yunis e em Rafah. Assim é que se tem de entender que Israel tenha-se dedicado a destruir 2/3 dos moinhos de trigo de Gaza, e unidades que produziam ração para 3.000 animais (para nem falar dos animais cuja morte também foi provocada). Assim é que se deve interpretar o que a Dra. Sara Roy, de Harvard, descreve como deliberada destruição de longo prazo e o desmanche da economia da Faixa de Gaza, ações que, a menos que haja aumento considerável na ajuda oferecida pelo Alto Comissariado para Refugiados da ONU, provocarão fome em massa.

Impedir absolutamente que os palestinos promovam a própria sobrevivência e de suas famílias é também roubar-lhes a capacidade de funcionar por conta própria. Essa é uma das implicações de “drogas psicotrópicas para pacientes de doenças mentais, trauma e ansiedade” terem desaparecido dos estoques de medicamentos e de o hospital de Shifa; "... precisar com urgência de neurocirurgiões, anestesiologistas, cirurgiões plásticos e gerais e ortopedistas, além de 20 leitos para UTI, uma máquina digital C-ARM para cirurgias ortopédicas, três mesas de cirurgia e sistema de iluminação para todas as cinco salas cirúrgicas.

Essa é a ação – como dizem os Médicos sem Fronteiras, em conclamação para que Israel “pare de bombardear civis cercados em locais sem saída” – que já matou dois paramédicos e feriu dois outros, quando tentavam resgatar feridos de Ash Shuja’iyeh. Essa é a implicação de Israel ter destruído 22 instalações de atendimento a doentes e feridos, inclusive pelo menos um ataque direto contra o hospital al-Aqsa e a destruição do hospital o hospital de reabilitação el-Wafa, que foram atacados dias seguidos, várias vezes. Esses ataques a hospitais foram causa de uma carta aberta publicada num dos mais prestigiosos periódicos médicos do mundo, The Lancet, na qual 24 médicos e cientistas relatam ter ficado "... horrorizados ante o massacre de civis em ações militares em Gaza, disfarçadas como se fossem ações para punir terroristas, massacre que não poupou ninguém, inclusive pacientes em cadeiras de rodas, em camas hospitalares e em leitos de doentes em hospitais.

Ataques a instituições religiosas, traço que se vê em todos os projetos de ocupação com colonização, são outro modo de interferir na independência dos palestinos. 88 mesquitas de Gaza foram danificadas, o que equivale a dizer que foram danificados 88 pontos nos quais as comunidades gazenses reuniam-se e tinham contato entre elas.

O ataque de Israel contra a cultura palestina também deve ser compreendido como ato de violência contra os palestinos como povo. As culturas não são estáticas e vivem processo infinito de construção, desconstrução e reconstrução das próprias narrativas, de tal modo que os grupos se autocompreendem como específicos e são compreendidos como tais por membros de culturas diferentes.

A capacidade de um povo para contar suas próprias histórias sobre eles mesmos é aspecto chave de sua existência autônoma. Impedir a capacidade de os palestinos desenvolverem essas práticas e respectivas narrativas é mais um crime de Israel, quando destrói a casa do poeta Othman Hussein e a casa do artista Raed Issa; quando mata o cameraman Khaled Reyadh Hamad em Shujaiya e Hamdi Shihab, motorista da agência de notícias Media 24 de Gaza; quando ataca jornalistas falantes de árabe da al-Jazeera e da BBC; ou quando destrói o prédio onde funcionava a rádio Sawt al-Watan.

Minar a capacidade de um povo educar os seus jovens, treiná-los para trabalhar e ensiná-los a pensar criticamente é mais um meio para minar a possibilidade de existência independente. Por isso Israel destruiu completamente ou em parte, 133 escolas palestinas.

Ao mesmo tempo em que destrói instituições culturais e educacionais para impedir que os palestinos reproduzam-se culturalmente, Israel promove matança em massa de 229 crianças palestinas, com 1.949 outras crianças feridas; é o meio mais claro, e mais horrendo, de literalmente cortar a capacidade de os palestinos continuarem a existir como grupo. É o significado de Israel ter traumatizado 194 mil crianças, dependentes hoje de assistência psiquiátrica. É o significado também de Israel “racionar” o atendimento a “cerca de 45 mil grávidas na Faixa de Gaza, das quais 5 mil foram desalojadas”.

Israel impede também diretamente a vida dos palestinos quando destrói ou danifica gravemente as residências de 3.695 famílias palestinas, e cria condições nas quais se torna virtualmente impossível levar avante as atividades do dia a dia que dão forma à continuidades de outras gerações. Israel é causa hoje de 1,2 milhão de palestinos “não terem acesso, ou só terem acesso limitado a água e a serviços de esgoto, devido a danos no sistema de eletricidade ou falta de combustível para fazer funcionar geradores”.

That is what it means for the number of displaced people in UNRWA shelters to be “approaching 10% of the entire population of Gaza, with approximately 170,461 in 82 schools” that are “without adequate water sanitation and hygiene (WASH) infrastructure in place and without sufficient space.” That is what it means for all of Gaza’s 1.8 million people to be affected by the war.

Todos nós, cidadãos de estados que ajudam Israel a fazer o que faz, temos de forçar nossos governos a parar de colaborar com Israel. Enquanto não conseguirmos que parem, todos nós somos responsáveis por essa horrorosa violência lógica – que Israel “explica” todos os dias.

29 de julho de 2014

Nada não intencional

Nadia Abu El-Haj

London Review of Books

Já são mais de mil mortos palestinos, com mais de 5 mil feridos. Mais de 70% das baixas são civis, mais de 200, crianças. Famílias inteiras foram dizimadas. Meninos que jogavam bola numa praia foram mortos por barcos de guerra de Israel. Mais de 2 mil residências foram danificadas ou destruídas. Segundo um porta-voz do exército de Israel, 120 bombas de uma tonelada foram lançadas só contra os arredores de Shaja’yya. Mesmo assim, porque morreram três civis israelenses e 40 soldados, os israelenses e seus aliados nos EUA insistem em descrever a carnificina como guerra de autodefesa.

Eles também dizem que o exército israelense empreende a guerra com integridade moral. Não alveja civis. Nunca pretende matá-los. Que até alerta os habitantes de Gaza sobre futuros ataques, para que possam sair do caminh

O massacre “não intencional” de civis não é ilegal nos termos da lei internacional. Se os civis não são deliberadamente “alvejados”, se são mortos na tentativa de alcançar um objetivo militar legítimo e o número de mortos é “proporcional” àquele objetivo, nesse caso as baixas civis são definidas como “dano colateral”. Contudo, como ensina Neta Crawford em Accountability for Killing: Moral Responsibility for Collateral Damage in America's Post-9/11 Wars, vale a pena pensar mais criticamente sobre a categoria das mortes não intencionais de civis. Muitas mortes de civis em guerra de guerrilha urbana podem ser “não intencionais”, mas também são previsíveis.

Gaza é um território densamente povoado cercado por terra, mar e ar, do qual não há saída possível. O exército israelense está fazendo chover bombas naquele território com poder de fogo suficiente para demolirem prédios de apartamentos de oito andares; para fazerem voar pelos ares enormes portões de ferro. Há drones que disparam contra áreas onde se acumulam dezenas de milhares de pessoas, e até contra abrigos; e, também, contra pontos em que se aglomeram pessoas que tentam fugir.

O exército de Israel está bombardeando áreas densamente povoadas e campos de refugiados usando tanques Merkava e a respectiva munição, e mísseis disparados de helicópteros Apache, inclusive em áreas que, antes, o exército israelense havia indicado como um local onde os civis poderiam escapar.

Não há lugar seguro em Gaza. Não há para onde fugir. E nada há de “não intencional”, muito menos há algo de moral, se o que se vê são civis mortos em circunstâncias nas quais se pode prever com 100% de probabilidade que serão mortos; se se ataca à bala de canhão um campo de refugiados superlotado ou uma área superlotada de qualquer cidade, ou rua superlotada, não há dúvida alguma de que haverá mortes de civis em massa. Nessas circunstâncias, a distinção entre assassinato premeditado e morte não intencional já perdeu completamente qualquer significado.

E se as mortes de civis ali não forem não intencionais? O estado israelense é hábil na arte de mostrar-se sempre alinhado com os interesses e valores proclamados dos EUA. Depois do 11/9, Ariel Sharon trabalhou muito para igualar a guerra dos EUA contra “terroristas muçulmanos” no Afeganistão e no Iraque, com a luta de Israel contra o povo palestino. Mas a guerra de Israel é absolutamente diferente da guerra dos EUA. Não porque os militares americanos sejam mais morais, ou mais sensíveis às leis da guerra, mas porque os EUA operam com uma fantasia ideológica diferente. Os militares dos EUA foram libertar iraquianos e afegãos de regimes dos quais esses povos queriam libertar-se – ou, pelo menos, acreditaram que queriam, quando lhes foi dito que queriam. Sempre seria preciso conquistar corações e mentes, mas os civis iraquianos e afegãos facilmente abraçariam a causa dos EUA e sua missão “libertadora”.

A guerra de Israel contra Gaza não é uma guerra que visa a conquistar corações e mentes palestinos. Israel não se apresenta como protetora ou libertadora dos habitantes de Gaza, de algum governo opressor. Em vez disso, as táticas do exército de Israel fazem lembrar a lógica dos bombardeios de britânicos e americanos contra cidades alemãs e japonesas durante a II Guerra Mundial: atirar para matar contra a população civil. Que sofram além do imaginável. Então, os próprios civis levantar-se-ão contra o governo deles.

Quando Israel ataca hospitais em Gaza, quando assassina famílias inteiras, quando reduz a pedaços irreconhecíveis quatro meninos que jogavam bola numa praia, todos esses são assassinatos premeditados e cuidadosamente planejados. A guerra é uma extensão do castigo coletivo aplicado aos palestinos da Cisjordânia depois que três jovens colonos israelenses foram sequestrados e mortos em junho. É proporcional? Comparem-se essa resposta e a reação israelense contra os três israelenses que queimaram vivo um adolescente palestino, como vingança pela morte dos três colonos. Imaginem o exército israelense pondo-se a bombardear as colônias nas quais vivessem os colonos assassinos, responsabilizando colônias israelenses inteiras, pelo crime dos três assassinos; imaginem o exército israelense a demolir colônias de israelenses, a tiros de canhão.

Ou imaginem se o Hamas tivesse acesso a foguetes melhores, que pudessem ser mais eficazmente dirigidos contra os seus alvos. Imaginem se o Hamas começasse a atacar exatamente os pontos onde estivessem os altos comandantes e governantes israelenses, as casas deles, que matassem mulher e filhos deles, sobrinhos, sobrinhas, junto com a família, também dos vizinhos deles, da casa ao lado, numa explosão só. Imaginem que essas mortes fossem apresentadas ao mundo como “danos colaterais” pelas quais o Hamas não teria qualquer responsabilidade legal ou moral.

O bombardeio, pelo exército de Israel, contra casas, escolas e hospitais, indiscriminadamente posto no chão, reduzido a escombros, matando sem parar o povo de Gaza, tem de ser chamado pelo que é: crime de guerra.

Os propagandistas do Egito e o massacre de Gaza

Joseph Massad

The Electronic Intifada

Tradução / Enquanto a máquina assassina de Israel inflige terror e morte ao povo palestino, com a colaboração do governo dos EUA e dos seus principais aliados árabes – o não menos importante dos quais é o clã saudita, formado por 20.000 príncipes e princesas –, lançou-se no Egito, ao nível oficial e não oficial, uma descomunal campanha de ódio.

O regime do Egito é um dos dois principais carcereiros dos palestinos de Gaza, no maior campo de concentração do mundo.

O herdeiro de Hosni Mubarak no trono egípcio, o general Abdulfattah al-Sisi, expressou bem as mentiras que a egípcia classe dirigente de ladrões foi propagando no Egito, desde as campanhas antiárabes e antipalestinas de meados dos anos 1970, sob o presidente Anwar Sadat.

O nada carismático Sisi, cujas habilidades oratórias rivalizam com as de Yasser Arafat, anunciou com muita pompa, no seu discurso de 23 de julho, para marcar o aniversário da queda da monarquia, em 1952, que o Egito já tinha sacrificado "100.000 mártires egípcios" pela causa palestina.

Embora poucas pessoas duvidem dos sacrifícios que os soldados egípcios fizeram para defender o Egito, nos últimos 67 anos, proclamar que esses sacrifícios foram feitos em nome da Palestina e dos palestinos é o cúmulo da hipocrisia.

É uma linha de argumentação que a egípcia classe dirigente de ladrões foi propagando, para poder proclamar que a terrível economia do Egito e o estado de pobreza não são o produto da descarada pilhagem deste país por parte desta classe, com a ajuda de seus patrocinadores americanos e sauditas, desde a década de 1970, mas que se deve à alegada defesa da Palestina e dos palestinos pelo Egito e ao alegado compromisso do presidente Gamal Abdel Nasser de libertar os palestinos da ocupação colonial de Israel.

Classe sórdida e saqueadora

Desde 1970, os palestinos têm estado expostos a estas mentiras e à vacuidade e total baixeza desta classe egípcia de ignorantes e analfabetos. A falta de educação e de multiculturalismo desta classe tornou-se evidente durante os últimos três anos de propaganda contrarrevolucionária e agitação nas suas estações de televisão e imprensa.

A forma e o conteúdo desta produção teórica constrangeria e escandalizaria qualquer comunidade de intelectuais, jornalistas e artistas que se autorrespeitasse, mas não a maioria dos intelectuais, jornalistas e artistas egípcios, quer tenham sido recrutados quer totalmente comprados no exterior para defender os interesses desta classe (embora, mais recentemente, alguns dos recrutados para apoiarem o regime, especialmente acadêmicos, tenham começado a recuar e a reescrever a sua história negando terem-no apoiado).

A degradação das culturas e produtos intelectuais e estéticos egípcios nas últimas quatro décadas é um resultado direto desta classe governante tirânica. Basta sentarmo-nos com estes homens e mulheres de negócios, ou visitar as suas casas, ou atentar na sua representação nos folhetins e filmes egípcios e na cultura que, por seu intermédio, querem impor, ou ouvir as suas conversas nos bares e restaurantes do hotel de cinco estrelas no Cairo, ou assistir às suas entrevistas nas escandalosamente desclassificadas estações de televisão do Egito, para compreender a sua absoluta mediocridade em todos os níveis do pensamento econômico e político e do gosto estético, para não mencionar a sua ignorância sobre a literatura e a arte egípcia, árabe e mundial, e, também, o seu total desprezo pelos pobres do Egito, que constituem mais de oitenta por cento da população.

Que esta invejosa e ciumenta classe de super-ricos fique ressentida e cobice aos mais pobres dos pobres os seus escassos bens, especialmente aos palestinos de Gaza, ilustra o tipo de orientação moral que guia as suas ações.

Ainda lembro o horror que senti quando jantei no Cairo, em outubro de 2010, com o bilionário Nassef Sawiris, o homem mais rico do país, quando ele anunciou orgulhosamente ao pequeno grupo de sete pessoas que estavam no jantar, que tem três telas de TV abertos em simultâneo, no seu escritório, em casa e enquanto viaja, e ligados, ao mesmo tempo, a três diferentes canais de notícias dos EUA (se a memória não me falha, ele nomeou a CNN, a CNBC e a Fox news) que funcionam claramente como as suas principais fontes de educação.

Sawiris, que é muito menos exibicionista do que qualquer um dos seus dois irmãos mais velhos, parecia não acreditar quando o informei de que eu me opunha às políticas de direita do presidente dos EUA, Barack Obama, tanto nacionais como estrangeiras, assim como parecia incapaz de conceber uma posição política à
esquerda de Obama.

Numa entrevista recentemente publicada no jornal pró-Sisi Al-Masry Al-Youm, Sawiris elogiou Sisi por suprimir os subsídios aos combustíveis aos pobres (enquanto mantinha baixo para os ricos o preço da gasolina dos carros de luxo), e fez uma série de recomendações neoliberais, incluindo a de desvalorizar ainda mais a libra egípcia; privatizar os transportes públicos; remover impostos sobre os ricos (que, segundo
afirma, o governo do deposto presidente Muhammad Morsi tinha imposto ilegalmente na sua empresa); blindar os ministros e funcionários do governo de procedimentos legais e permitir que o carvão seja utilizado nas fábricas de cimento, apesar da oposição massiva de ativistas da saúde e ambientais.

Tais medidas continuarão de certeza a enriquecer os ricos, um por cento, e a empobrecer os pobres (Naguib, o mais extravagante, mais velho, mas mais pobre irmão de Nassef, começou agora a escrever uma coluna semanal para o Al-Akhbar do Egito, na qual ele reitera as recomendações neoliberais de seu irmão. Também apela a Sisi, numa entrevista à TV, para conceder uma amnistia a Mubarak e libertá-lo da
prisão).

"Ficção e fabricação"

O que Sisi e esta classe com a qual ele está aliado querem afirmar é que todas as guerras do Egito com Israel foram lançadas para defender a Palestina e os palestinos e tiveram um custo enorme para o Egito, tanto financeiro como em vidas de soldados. Mas nada disso é verdade.

Em 1956, Israel invadiu o Egito e ocupou o Sinai e os soldados egípcios que foram mortos estavam empenhados em defender o seu país e a sua terra; em 1967, Israel invadiu de novo o Egito e ocupou o Sinai, e os soldados egípcios foram mortos em defesa do seu país contra a invasão estrangeira; entre 1968 e 1970, Israel e o Egito lutaram na "Guerra de Desgaste", na qual os soldados egípcios foram mortos em defesa do seu país e contra a continuação da agressão israelita e da ocupação permanente do Sinai por Israel – uma guerra que foi travada no solo egípcio; e em 1973, o Egito iniciou uma guerra para libertar o Sinai, não a Palestina, e os soldados egípcios foram de novo mortos a defender o seu país contra a ocupação estrangeira.

Isto leva-nos à guerra de 1948, na qual, dependendo das fontes, foram mortos mil ou dois mil soldados e voluntários egípcios. Não foi Nasser, que é responsabilizado pelo seu apoio retórico aos palestinos, mas sim o Rei Farouq, que lançou esta intervenção militar egípcia, para parar a expulsão sionista dos palestinos e o roubo sionista das suas terras.

Como a maioria dos estudos atestam, os motivos que levaram Farouq e o seu governo a intervir na Palestina foram a sua preocupação sobre o papel de liderança regional do Egito e o medo da rivalidade iraquiana, e menos qualquer forma de nacionalismo ou solidariedade árabe.

À margem destes motivos, a maioria dos palestinos não tem dúvidas de que os soldados e combatentes voluntários egípcios que morreram, morreram efetivamente defendendo a Palestina e os palestinos, mesmo que estivessem a combater na base de ordens que procuravam defender a hegemonia regional egípcia. Mas esta continua a ser a única guerra em que os soldados e voluntários egípcios morreram defendendo a Palestina, e aos quais o povo palestino e seu movimento nacional expressaram toda a sua gratidão.

Mas a forma como estes mil a dois mil soldados e voluntários se multiplicam com a melodia dos "100.000 mártires", como Sisi falsamente afirmou, é do âmbito da ficção e fabricação, que a egípcia classe dirigente de ladrões e os seus intelectuais a soldo e os propagandistas da imprensa pagos inventaram, no seguimento dos Acordos de Camp David de Sadat, de 1978, que sacrificaram os direitos do povo palestino, incluindo dos palestinos de Gaza, em troca de um controle policial parcial do Sinai que foge da soberania egípcia.

Isto não é para sugerir que milhões de egípcios, civis e soldados, não queiram ou não quererão apoiar a Palestina e os palestinos, ou que não lutariam pela Palestina e pelos palestinos, como muitas vezes, aliás, o confessam e declaram; isto quer dizer que apesar das batalhas de 1948, nunca lhes foi dada a oportunidade de defender os palestinos no campo de batalha. Isto é precisamente o que irrita a egípcia classe dirigente de ladrões e o que impulsiona a propaganda antipalestina em curso e o discurso de ódio das emissoras de televisão pertencentes a esta classe.

Ouvindo esta propaganda, poderíamos supor que foram os palestinos que ocuparam o Sinai, e não o Egito, que governou Gaza de 1948 a 1967 e que desde então impõe um assédio de forma intermitente, sendo que nos últimos oito anos este cerco é imposto completa e continuamente.

Apesar das campanhas massivas dos meios de comunicação social, os egípcios não deixaram de apoiar os palestinos, seja através de manifestações contra a cumplicidade do regime de Sisi nos massacres, como tem vindo a acontecer nas últimas duas semanas, seja através do envio de comboios de ajuda médica para Gaza, os quais os soldados de Sisi obrigam a voltar para trás, recusando-lhes a passagem.

Suicídio intelectual em massa

Neste contexto, é fundamental perceber que esta classe dirigente egípcia de ladrões é o inimigo principal, não do povo palestino, mas da maioria dos egípcios que aquela oprime, explora, rouba e humilha diariamente. O papel desempenhado pelos líderes que apoiam o regime de Sissi tem ocultado o fato de os inimigos dos palestinos no Egito serem também os inimigos da maioria dos egípcios.

O suicídio intelectual massivo que a maioria dos intelectuais e artistas egípcios (nasseristas, marxistas, liberais e salafistas) cometeram, ao abdicarem das suas faculdades críticas, apoiando ou mantendo-se em silêncio sobre os massacres e a repressão do novo regime, já para não falar do seu silêncio nas campanhas contra os egípcio pobres e os palestinos, recorda o suicídio cometido pelos comunistas egípcios quando desfizeram o seu partido, em 1964, para se juntarem à União Socialista de Nasser.

Essa classe estende-se desde o economista marxista e incansável defensor de Sisi, Samir Amin, até figuras muito menos ilustres, como o romancista e crítico de Mubarak, Alaa al-Aswany, e todas aquelas figuras que se situam entre ambos, incluindo o economista Galal Amin, e escritores e poetas como Sonallah Ibrahim, Abd al-Rahman al-Abnudi, Bahaa Taher, e muitos outros.

O suicídio dos comunistas egípcios em 1964 deveu-se, no entanto, à compreensão daqueles de que a repressão de Nasser, apesar de indesejável e lamentável, destinava-se, em última instância, a servir o projeto comum de nacionalização e socialização da propriedade, a fim de erradicar a pobreza egípcia. Ainda não está, contudo, claro por que razão os intelectuais egípcios contemporâneos cometem suicídio, a fim de apoiar a classe dirigente de ladrões egípcia.

O massacre de Gaza é o "plano B"

O facto de Sisi ter superado as políticas de Mubarak, ao ter-se aliado e coordenado com Israel, contra os palestinos sitiados, não é surpreendente, uma vez que ele serve a mesma classe e interesses que Mubarak havia servido. O que difere, porém, é a submissão e conformidade do Hamas ao diktat de Mubarak, que, a partir de então, abandonou.

Torna-se, agora, claro que o massacre dos palestinos encetado por Israel faz parte de um plano B, tendo sido o plano A uma possível invasão terrestre egípcia de Gaza - que o governo de Sisi ameaçou realizar há alguns meses, depois de ter destruído os túneis que servem de tábua de salvação a Gaza (isto foi antes das eleições fraudulentas de Sisi), presumivelmente com a ajuda de Israel, com o propósito ostensivo de reinstalar o caudilhismo de Muhammad Dahlan em Gaza e de se livrar do Hamas e da resistência palestina.

O facto de o chefe da inteligência egípcia ter estado em visita a Israel, alguns dias antes de os massacres de Israel terem sido lançados, e o facto de três funcionários da inteligência israelense terem visitado o Egito, alguns dias depois daqueles, são apenas pequenos indicadores do elevado nível de coordenação entre os dois países.

O sadismo e o narcisismo, que são traços da corrente dominante da cultura colonial judaica israelense, manifestam-se em mobilizações de rua penetrantes que clamam "morte aos árabes" e que levam segmentos da população judaica colonial do país a assistir e a ovacionar, a partir das colinas, o massacre dos palestinos nativos. Isto apenas pode ser comparado com a propaganda sádica e odiosa dos meios de comunicação do regime de Sisi e da classe dirigente de ladrões egípcia.

Com efeito, enquanto a matança dos palestinos de Gaza, por Israel, continua, o exército egípcio anunciou, a 27 de julho, que tinha destruído mais treze túneis entre Gaza e o Egito, presumivelmente como parte da sua contribuição heroica à contínua opressão israelense dos palestinos.

O "cessar-fogo" que Sisi ofereceu, e que lhe foi ditado pelos seus aliados israelenses, foi devidamente rejeitado pelo povo palestino, a favor de uma valente resistência militar face à criminalidade dos seus captores coloniais, e a favor de uma resistência política e diplomática corajosa face à crueldade dos seus carcereiros egípcios.

Punição coletiva em Gaza

Rashid Khalidi

The New Yorker 

Créditos: Paolo Pellegrin/Magnum.

Tradução / Três dias após o Primeiro Ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, ter iniciado a atual guerra em Gaza, ele reuniu uma coletiva de imprensa em que disse, em hebraico, de acordo com o jornal Times de Israel: “Eu acredito que o povo israelense entenda agora o que eu sempre disse: que não pode haver uma situação, sob nenhum acordo, em que nós abandonemos o controle de segurança do território a oeste do Rio Jordão”.

Vale a pena ouvir cuidadosamente quando Netanyahu fala sobre o povo israelense. O que ocorre na Palestina hoje não diz respeito ao Hamas. Não diz respeito aos foguetes. Não diz respeito aos “escudos humanos” ou terrorismo ou túneis. Diz respeito ao controle permanente de Israel sobre as terras palestinas e sobre as vidas de palestinos. É disso que Natanyahu está falando, e é o que ele agora admite ser aquilo de que ele “sempre” falou: a inabalável política israelense, há décadas em vigor, de negar a autodeterminação, liberdade e soberania da Palestina.

O que Israel está fazendo em Gaza configura uma punição coletiva. É uma punição pela recusa de Gaza a ser um gueto dócil. É uma punição aos palestinos por ter a ousadia de unificarem-se, e do Hamas e outras facções, por responderem ao estado de sítio e suas provocações com resistência, armada ou não, depois de Israel ter reagido repetidamente com força destrutiva contra protestos desarmados. Apesar de anos de cessar-fogo e tréguas, o estado de sítio de Gaza nunca foi suspenso.

Como as próprias palavras de Netanyahu desmonstram, contudo, Israel não aceita que os palestinos não concordem com sua própria subordinação. Aceita apenas um “estado” palestino despido de todos os atributos de um verdadeiro estado: controle sobre sua própria segurança, fronteiras, limites marítimos, contiguidade territorial e, portanto, soberania. A farsa de vinte e três anos de “processo de paz” mostra que isto é tudo que Israel oferece, com a aprovação total de Washington. Sempre que palestinos resistiram ao seu patético destino (como qualquer outra nação o faria), Israel os puniu por sua insolência. Isso não é novidade.

Punir palestinos por existir tem uma longa história. Essa foi a política de Israel anterior ao Hamas, e seus rudimentares foguetes foram o bicho-papão do momento para Israel, antes de tornar Gaza uma presídio a céu aberto, saco de pancadas e laboratório de armas. Em 1948, Israel matou milhares de inocentes e aterrorizou outros milhares em nome da criação de um estado de maioria judaica numa terra com 65% de árabes. Em 1967, desalojou centenas de milhares de palestinos novamente, ocupando o território que até hoje controla, em grande medida, 47 anos depois.

Em 1982, numa cruzada para expulsar a Organização pela Liberação da Palestina (OLP) e extinguir o nacionalismo palestino, Israel invadiu o Líbano, matando 17 mil pessoas, a maioria civis. Desde os anos 80, com o levante da ocupação palestina, de forma geral atirando pedras e organizando greves gerais, Israel prendeu dezenas de milhares de palestinos: mais de 750.000 pessoas foram para prisões israelenses desde 1967, um número equivalente a 40% da população adulta hoje. Eles sairam da prisão com depoimentos de tortura, fundamentados por grupos de direitos humanos como o B’tselem. Durante a segunda intifada, que começou em 2000, Israel invadiu novamente a Cisjordânia (de onde de fato nunca saiu). A ocupação e colonização das terras palestinas continuou ininterruptamente através do “processo de paz” dos anos 90, e até os dias de hoje. E, ainda assim, nos Estados Unidos a discussão ignora esse contexto opressivo crucial, e está sempre limitada à “auto-defesa” de Israel e à suposta responsabilidade de palestinos por seu próprio sofrimento.

Nos últimos sete anos ou mais, Israel sitiou, atormentou e atacou regularmente a Faixa de Gaza. Os pretextos mudam: eles elegeram o Hamas; eles se recusam a ser dóceis; eles se recusam a reconhecer Israel; eles lançam foguetes; eles constroem túneis para contornar o estado de sítio etc. Mas cada pretexto é uma falácia, porque a verdade dos guetos – o que acontece quando você aprisiona 1,8 milhão de pessoas em 225 mil metros quadrados, quase um terço da área da cidade de Nova York, com controle de fronteiras, quase sem acesso ao mar para pescadores (apenas três de 20 quilômetros são permitidos, segundo o Acordo de Oslo), sem meio de entrada ou saída e com mísseis guiados sobre suas cabeças noite e dia – é que eles acabarão contra-atacando. Isso aconteceu em Soweto e Belfast e acontece em Gaza. Nós podemos desaprovar o Hamas e alguns de seus métodos, mas isso nao é o mesmo que aceitar a ideia de que palestinos devem concordar de maneira apática com a recusa do seu direito de existir como povo livre em sua terra ancestral.

Esta é precisamente a razão pela qual o apoio dos Estados Unidos à atual política de Israel é insano. A paz foi alcançada no norte da Irlanda e na África do Sul porque os Estados Unidos e o mundo acordaram para o fato de que eles teriam de colocar pressão no lado mais forte, cobrando responsabilidade e dando fim à impunidade. O norte da Irlanda e a África do Sul estão longe de serem exemplos perfeitos, mas vale a pena recordar que para conquistar um resultado justo foi necessário que os Estados Unidos lidassem com grupos como o Exército Republicano Irlandês (IRA, sigla original) e o Congresso Nacional Africano (CNA), que se envolveram com guerrilha e até mesmo terrorismo. Essa foi a única maneira de trilhar um caminho em direção à paz verdadeira e à reconciliação. O caso da Palestina não é fundamentalmente diferente.

Ao invés disso, os Estados Unidos estão fazendo pender a balança em favor do lado mais forte. Nessa visão de mundo surreal e inversa, o que parece é que os israelenses foram ocupados pelos palestinos — e não o contrário. Nesse universo distorcido, aqueles aprisionados nos presídios a céu aberto estão sitiando armas nucleares nas mãos de uma das mais sofisticadas forças militares do mundo.

Se pretendemos nos afastar dessa irrealidade, os EUA precisam mudar suas políticas ou abandonar o argumento de que são um “mediador honesto”. Se o governo estadunidense quer subsidiar e armar Israel e repetir os argumentos israelenses que ignoram a razão e o direito internacional, então que o façam. Mas não deveriam então reivindicar autoridade moral e falar solenemente sobre a paz. Com certeza, não deveriam insultar palestinos ao dizer que se preocupam com eles e suas crianças, que estão morrendo em Gaza hoje.

OTAN em ofensiva global

Manlio Dinucci


Tradução / Nada de férias mas sim de muito trabalho. Estava-se em preparações para a cúpula dos chefes de estado de quando da sua realização em Newport, no País de Gales, onde foram então fixadas as diretivas da adaptação estratégica para ação em sistema “Anti-Rússia”. Como dito pelo general americano Philip Breedlove, Comandante Supremo dos Aliados na Europa, isso deveria custar dinheiro, tempo e muito esforço, mas agora o trabalho já tinha sido iniciado. Na Ucrânia, enquanto a OTAN intensificava o treinamento das forças armadas de Kiev, financiado por Washington a custo de $33 milhões de dólares, foram sendo reativados três aeroportos militares na região sul a serem utilizados pelos caças de bombardeio da aliança. Na Polônia exercícios com paraquedistas americanos, polacos e da Estônia foram imediatamente realizados de quando o C-130J voltou da base de Ramstein na Alemanha. Com a participação da Hungria, Romênia e Lituânia estiveram em curso operações militares da OTAN com radares tipo AWAC, caças F-16, e navios de guerra no Mar Negro. Na Geórgia, onde tinha chegado uma delegação da Assembleia Parlamentar da OTAN para acelerar o ingresso da mesma na aliança, as tropas voltando do Afeganistão foram sendo retreinadas por instrutores dos Estados Unidos para operar no Cáucaso. No Azerbaidjão, no Tadjiquistão e na Armênia grupos escolhidos foram sendo treinados para operar abaixo do comando da OTAN, da qual os respectivos quartéis generais já estão oficialmente presentes nesses países. No Afeganistão a OTAN esteve convertendo a guerra transformando-a numa série de “operações encobertas”.

A “Organização do Tratado Norte Atlântico” depois de ter sido estendida a Europa Oriental, no território da ex-União Soviética, e à Ásia Central, está agora encaminhando-se a outras regiões. Na África, depois de ter demolido a Líbia, na guerra de 2011, a OTAN estipulou, muito apressadamente, em Addis Abeba, um acordo que reforça a assistência militar dada a União Africana [Kaddafi deveria ficar desesperado com uma tal infâmia] e isso muito especialmente em relação a formação e treinamento das brigadas das Forças Africanas de Ação Imediata– African Standby Force. Essas forças deverão então também dar “planejamento e transporte aero-naval. Há também aqui ordens a respeito da tomada de decisões quanto a onde e como empregar essas forças. Um outro instrumento da OTAN é a sua operação “anti-pirataria”, a denominada Ocean Shield, ou seja, Proteção Oceânica, na qual o Oceano Índico e o Golfo de Aden são estrategicamente muito importantes. Nas operações conduzidas em coordenação com o Comando Africano dos Estados Unidos participaram navios de guerra italianos que tinham também a tarefa de estreitar laços com as forças dos países costeiros da região. Com essa finalidade o caça-torpedeiro lança-mísseis “Mimbelli” fez também uma escala no porto de Dar Es Salaam na Tanzânia. Na América Latina a OTAN já tinha estipulado, em 2013, um “Acordo de Segurança” com a Colômbia, que apesar de já estar empenhada em programas militares da aliança, não deverá ainda tão cedo ser considerada como associada. Nesse contexto o Comando Sul dos Estados Unidos esteve tendo no país exercícios militares com forças especiais sul e norte-americanas nos quais tomaram parte 700 tropas de comando.

No Pacífico esteve em curso o maior exercício marítimo do mundo. Com que finalidade? Função Anti-China e Anti-Rússia. Nesse participaram, sob o comando dos Estados Unidos, 25.000 militares de 22 países, com 55 navios, e 200 aviões de guerra. A OTAN esteve presente através da marinha dos Estados Unidos, Canadá, Grã Bretanha, França, Holanda e Noruega. A Itália, a Alemanha e a Dinamarca estiveram participando como observadores. A “Organização do Tratado do Atlântico Norte” (OTAN) foi assim estendida até ao Pacífico.

Guerra de engano, Israel, 2014

Como uma guerra preventiva pode se justificar? E como se pode enganar a si mesmo e sua retidão na presença de imagens de horror de Gaza?

Gideon Levy


Tradução / Começa como uma guerra de escolha: uma política israelense diferente nos últimos meses a teria evitado. Evoluiu para uma guerra sem sentido. Já é bastante óbvio que isso não resultará em qualquer conquista de longo prazo. Pode ainda deteriorar-se num desastre, e no final, vir a ter sido uma guerra de engano – Israel mentiu para si mesmo até arruinar-se.

O primeiro engano foi o de que não havia alternativa. É verdade, quando vários foguetes caem em Israel, tornou-se o caso. Mas e os passos que levaram a eles? Foram passos para os quais houve outras opções. Não é difícil imaginar o que teria acontecido se Israel não tivesse suspendido as conversações de paz; se não tivesse lançado uma guerra total contra o Hamas na Cisjordânia, no rastro do assassinato de três adolescentes israelenses; não teriam deixado de realizar a transferência de recursos destinados ao pagamento de salários na Faixa de Gaza; não teriam se oposto ao governo de unidade palestina, e teriam atenuado o bloqueio da Faixa de Gaza.

Os foguetes Qassam foram uma resposta às escolhas de Israel. Depois que os objetivos se amontoaram, como sempre ocorre em guerras – de parar os foguetes, para encontrar e destruir túneis, e para a desmilitarização de Gaza. Eles podem bem continuar a crescerem, para sabe-se lá o que mais. “O silêncio será recebido com calma”. Lembram disso? Na sexta-feira, Israel rejeitou a proposta de cessar-fogo do Secretário de Estado John Kerry.

O segundo engano é que a ocupação da Faixa de Gaza acabou. Imagine um enclave sitiado, cujos habitantes estão aprisionados, com a maioria dos seus negócios e atividades controlados por um outro estado – da manutenção do registro populacional ao comando de sua economia, inclusive proibindo exportações e restringindo a pesca, e que voa no seu céu e ocasionalmente invade o seu território. Isso não é ocupação?

O terceiro engano é a afirmação de que as Forças de Defesa de Israel “fazem tudo o que está em seu alcance” para evitar a morte de civis. Já passamos dos primeiros mil civis mortos, um número assustador deles de crianças e a maioria deles de civis; com uma vizinhança que foi destruída e 150 mil pessoas desalojadas sem lugar a salvo para onde escapar. Tudo isso torna essa afirmação nada mais que uma piada cruel.

A afirmação de que o mundo apoia a guerra e reconhece sua justeza também é um engodo israelense. Embora seja verdade que os políticos ocidentais reiterem que Israel tem o direito de se defender, os corpos que vão se empilhando e os refugiados desesperados estão decepcionando o mundo e gerando ódio contra Israel. Finalmente, até os estadistas que apoiam Israel lhe deram as costas.

O próximo engodo é que a guerra mostrou ser “o Povo de Israel” uma “nação maravilhosa”. Essa campanha mentirosa, intoxicante e autocongratulatória e melosa já dura há tempo. A nação se moveu para dar suporte às trevas, e assim segue. Mas além das vans cheias de doces e de caminhões com pacotes de roupas íntimas, e funerais para soldados cujas famílias vivem no exterior, que milhares de israelenses acompanharam e as demonstrações de preocupação com os feridos, essa guerra também expôs outros comportamentos, em toda a sua feiura. Os “soldados do comitê de bem estar” que são o Povo de Israel, expôs indiferença em relação ao sofrimento do outro lado. Nem um gesto de compaixão, nem um pingo de humanidade, nenhum choque, nenhuma empatia pela sua dor. As imagens horríveis de Gaza – elas não são nada menos que horríveis – são recebidas aqui com algo entre um bocejo e uma alegria. Um povo que se comporta assim não merece os elogios que acumula sobre si. Quando as pessoas estão morrendo em Gaza e, em Tel Aviv, as pessoas estão desinteressadas, não há razão para agitação.

Nem há causa para agitação no incidente da campanha contra meia dúzia de pessoas que se opõem à guerra. Do gabinete de ministros e membros do parlamento para as ruas e os caras da internet – um vento doente está soprando. Somente cidadãos obedientes. “Unidade israelense”? “A nação é uma grande família?”. Isso é uma piada. Assim como é piada a cobertura midiática israelense em tempos de guerra, uma rede de propaganda cujos membros emitem notícias para si mesmos, a título de autoelogio ou exortação, para incitar e instigar – e para fechar os próprios olhos.

E a maior piada de todas, a mãe de todos os enganos: a crença na retidão de seus métodos. O slogan da “guerra justa” é repetido com tanta frequência, ad nauseam, que se começa a suspeitar que até aqueles que o entoam em mais alta voz começam a duvidar, não fosse assim, não estariam gritando tão alto e não combateriam tão facilmente os poucos que tentam expressar uma opinião diferente. Afinal de contas, como uma guerra preventiva pode ser justificada? E como se pode enrolar a si mesmo nessa retidão, na presença do show de horrores das imagens de Gaza?

Talvez o chão esteja queimando sob os pés dos membros desse coro de justificadores da guerra, também. Talvez eles também tenham entendido que, quando as batalhas acabam, o quadro real se torna claro. É assim que sempre ocorre em guerras enganadoras, e é assim que a guerra de 2014 também vai se mostrar.

28 de julho de 2014

Como Israel distorce crimes de guerra

O relatório secreto que ajuda a encobrir atrocidades de Israel

Patrick Cockburn

CounterPunch: Tells the Facts and Names the Names

Tradução / Os porta-vozes de Israel têm um modelo para explicar como eles mataram mais de 1.000 palestinos na Faixa de Gaza, a grande maioria civis, enquanto apenas três civis foram mortos em Israel por foguetes e morteiros lançados pelo Hamas. Mas na televisão, no rádio e nos jornais, os porta-vozes do governo de Israel, como Mark Regev, se mostram mais engenhosos e menos agressivos do que seus antecessores, que eram visivelmente indiferentes à quantidade de palestinos mortos.

Existe um motivo para essa melhoria nas habilidades do trabalho de relações públicas dos porta-vozes israelenses. Observando o que eles dizem, o script que estão usando é um estudo profissional, bem pesquisado e confidencial sobre como influenciar a mídia e a opinião pública nos Estados Unidos e na Europa. Ele foi escrito pelo especialista em pesquisas e estrategista político republicano Dr. Frank Luntz, um estudo encomendado há cinco anos pelo grupo chamado The Israel Project, que tem escritórios nos Estados Unidos e em Israel, para ser usado pelos que “estão na linha de frente da guerra por Israel na mídia”.

Todas as 112 páginas do manual foram marcadas com a frase “não é para ser distribuído ou publicado” e é fácil entender o motivo. O relatório Luntz, oficialmente intitulado “The Israel project’s 2009 Global Language Dictionary” (Dicionário de Linguagem Global 2009 do Israel Project) foi vazado quase imediatamente para a Newsweek Online, mas sua verdadeira importância foi pouco avaliada. Ele deveria ser leitura obrigatória de todo mundo, especialmente jornalistas, interessados em qualquer aspecto da política israelense em relação ao “o que fazer e o que não fazer” dos porta-vozes de Israel.

O texto é altamente esclarecedor a respeito do abismo que existe entre o que autoridades e políticos israelenses realmente acreditam e o que eles dizem, formatado em detalhes minuciosos por pesquisas de opinião para determinar o que os norte-americanos querem ouvir. Certamente nenhum jornalista que entreviste um porta-voz israelense deve levar a entrevista adiante sem antes ler a prévia das muitas frases e temas empregados pelo Sr. Regev e seus colegas.

O livro está cheio de conselhos substanciais a respeito de como os porta-vozes devem adaptar suas respostas para diferentes públicos. Por exemplo, o estudo diz que “os norte-americanos concordam que Israel ‘tem direito a uma fronteira que possa defender’. Mas não ajuda em nada definir exatamente onde deve ser essa fronteira. Evite falar sobre fronteiras em termos de antes ou depois de 1967, porque isso só serve para lembrar os norte-americanos da história militar de Israel”.

Particularmente com a esquerda, isso prejudica. Por exemplo, “o apoio ao direito de Israel de defender suas fronteiras cai de 89% para 60% quando você fala em termos de 1967”. Que tal o direito de retorno dos refugiados palestinos que foram expulsos ou fugiram em 1948 e nos anos seguintes e que não podem voltar para suas casas? Aqui o Dr. Luntz tem um recado sutil para os porta-vozes. Ele diz que “o direito de retorno é um assunto difícil para os israelenses tratarem com eficácia porque muito da linguagem israelense soa como o ‘separado mas igual’, vocabulário dos segregacionistas dos anos 50 e dos defensores do apartheid nos anos 80. O fato é que os norte-americanos não gostam, não acreditam e não aceitam o conceito de ‘separado mas igual’”.

Então, como os porta-vozes devem lidar com o que o guia admite ser uma questão difícil? Eles devem chamá-la de uma “reivindicação”, porque os norte-americanos não gostam de pessoas que reivindicam. “Então diga ‘os palestinos não estão satisfeitos com seu próprio estado. Agora eles reivindicam território dentro de Israel’”. Outras sugestões de respostas israelenses eficazes incluem dizer que o direito de retorno deve ser parte de um acordo final “em algum momento no futuro”.

O Dr. Luntz observa que os norte-americanos em geral temem imigrações massivas para os Estados Unidos. Então, mencionar “imigração em massa palestina” dentro de Israel não vai cair bem com eles. Se nada mais funcionar, diga que o retorno dos palestinos “atrapalharia o esforço de atingir a paz”.

O relatório Luntz foi escrito após a Operação Chumbo Fundido, de dezembro de 2008 a janeiro de 2009, quando 1.387 palestinos e nove israelenses foram mortos.

Ele tem um capítulo inteiro sobre “isolar o Hamas apoiado pelo Irã como obstáculo à paz”. Infelizmente, quando veio a Operação Margem Protetora, que começou no dia 6 de julho, os propagandistas israelenses tiveram um problema porque o Hamas se desentendeu com o Irã por conta da guerra na Síria e não teve mais contato com Teerã. Relações amigáveis foram retomadas apenas nos últimos dias – graças à invasão israelense.

Muitos dos conselhos do Dr. Luntz dizem respeito ao tom e à apresentação dos argumentos de Israel. Ele diz que é absolutamente crucial demonstrar empatia com os palestinos: “Convencíveis não querem saber o quanto você sabe mas o quanto você se preocupa. Mostre empatia com relação aos DOIS lados!”. Isso pode explicar o fato de que um bom número de porta-vozes israelenses quase lastima os problemas dos palestinos, enquanto são martelados por bombas israelenses.

Em uma frase em negrito, sublinhada e em caixa alta, o Dr. Luntz diz que os porta-vozes ou líderes políticos israelenses não devem nunca justificar “o massacre deliberado de mulheres e crianças inocentes” e devem questionar agressivamente os que acusam Israel destes crimes. Os porta-vozes israelenses se esforçaram para seguir essa recomendação quando 16 palestinos foram mortos em um abrigo da ONU na faixa de Gaza na quinta-feira.

Existe uma lista de palavras e frases a serem usadas e a lista das que devem ser evitadas. A campeã de todas: “A melhor maneira, a única maneira, de atingir uma paz duradoura é com o respeito mútuo”. Acima de tudo, o desejo israelense de paz com os palestinos deve ser enfatizado todo o tempo. Isso é o que a grande maioria dos norte-americanos quer que aconteça. Mas qualquer pressão sobre Israel para que faça a paz pode ser reduzido dizendo “um passo de cada vez, um dia de cada vez”, o que será aceito como “uma abordagem de bom senso na equação terra-por-paz”.

O Dr. Luntz cita como exemplo de “entrevista israelense eficaz” uma que diz: “Eu particularmente quero me dirigir às mães palestinas que perderam seus filhos. Nenhum pai deve enterrar seu filho”.

O estudo admite que o governo israelense realmente não quer a solução dos dois estados, mas diz que isso deve ser mascarado já que 78% dos norte-americanos a querem. As esperanças de melhoria econômica para os palestinos devem ser enfatizadas.

O primeiro ministro Benjamin Netanyahu foi citado com aprovação por ter dito que “é hora de alguém perguntar ao Hamas: o que exatamente VOCÊ está fazendo para levar prosperidade ao seu povo?”. Essa hipocrisia é inacreditável, depois de sete anos de cerco econômico de Israel que reduziram Gaza à pobreza e à miséria.

Em todas as ocasiões, a apresentação dos acontecimentos por parte dos porta-vozes israelenses é desenhada para dar aos norte-americanos e europeus a impressão de que Israel quer a paz com os palestinos e está preparada para fazer concessões para chegar lá, quando todas as evidências mostram o contrário. Apesar de não ter tido essa intenção, poucos estudos mais reveladores já foram escritos sobre a Israel moderna em tempos de guerra e de paz.

A fúria do Imperador: o caos tomará o mundo!

James Petras

The Official James Petras Website

Introdução

Tradução / O caos está instalado e vai se espalhando à medida que chefes de estado enfurecidos nos EUA, na Europa e seus clientes e aliados prosseguem guerras genocidas. Guerras mercenárias na Síria; o bombardeio terrorista de Israel em Gaza; guerras por procuração na Ucrânia, Paquistão, Iraque, Afeganistão, Líbia e Somália.

Dezenas de milhões de refugiados fogem de cenários de destruição total. Nada mais é sagrado. Não há santuários a salvo. Casas, escolas, hospitais e famílias inteiras constituem alvo de destruição.

Caos por encomenda

No centro do caos, o Presidente Obama, de olhar ameaçador, ataca cegamente, alheio às consequências, disposto a arriscar um descalabro financeiro ou uma guerra nuclear. Reforça sanções contra o Irã; impõe sanções à Rússia; constrói bases de mísseis que podem atingir Moscou em cinco minutos; envia drones assassinos contra o Paquistão, Iêmen e Afeganistão; fornece armas aos mercenários na Síria; treina e equipa curdos no Iraque e financia a selvajaria de Israel contra Gaza.

Nada funciona

O presidente responsável pelo caos ignora o fato de que impor a fome aos adversários não assegura a sua submissão: promove a unidade na resistência. A mudança de regime, impondo intermediários pela força e usando subterfúgios, pode destruir o tecido social destas complexas sociedades: milhões de camponeses e trabalhadores tornam-se refugiados desenraizados. Movimentos sociais populares são substituídos por grupos criminosos organizados e exércitos de bandidos.

A América Central, produto de décadas de intervenções militares diretas e por intermediários, que impediram as mudanças estruturais mais básicas, tornou-se um inferno caótico, insuportável para milhões. Dezenas de milhares de crianças fogem da pobreza em massa induzida pelo “livre mercado”, estado militarizado e violência gangster. Crianças refugiadas na fronteira com os EUA são detidas em massa e presas em campos de detenção improvisados, sujeitos a abuso psicológico, físico e sexual por funcionários e guardas lá dentro. Cá fora, estas crianças miseráveis são expostas ao ódio racista de um público americano assustado, não ciente dos perigos a que estas crianças escapam e do papel do governo os EUA na criação deste inferno.

As autoridades de aviação de Kiev, apoiadas pelos EUA, redirecionaram companhias aéreas internacionais de passageiros para voar sobre zonas de guerra repletas de mísseis antiaéreos, enquanto aviões de Kiev bombardearam as cidades rebeldes. Um voo foi abatido e cerca de 300 civis morreram. Imediatamente se seguiu uma explosão de denúncias de Kiev culpando o presidente russo Vladimir Putin, inundado meios de comunicação ocidentais, sem fatos reais para explicar a tragédia / crime. O beligerante Obama e os primeiros-ministros lacaios da UE dispararam ultimatos, ameaçando converter a Rússia num estado excluído. “Sanções, sanções por toda a parte... mas primeiro... A França deve dar por terminada a sua venda de 1,5 mil milhões à marinha russa.” E Londres protege os oligarcas russos, livres das sanções, envolvidos como estão na lavagem de dinheiro feita nesta cidade, na economia parasita do estilo FIRE (Fire, Insurance and Real Estate). A Guerra-fria regressou e deu uma destas voltas... À exceção dos negócios.

A confrontação ente os poderes nucleares está eminente: e os maníacos estados do Báltico e a Polônia reclamam mais alto pela guerra com a Rússia, esquecendo a posição em que estão, na linha da frente de fogo.

A cada dia, a máquina de guerra israelense dizima mais crianças em Gaza, enquanto continua a deitar mentiras cá para fora. Judeus israelenses assistem, entusiásticos, das suas colinas fortificadas, e celebram cada míssil que atinge os prédios e as escolas do bairro Shejaiya, densamente povoado, numa Faixa de Gaza cercada. Um grupo de empresários ortodoxos e seculares em Brooklyn organizou excursões para visitar as cidades sagradas durante o dia e desfrutar a pirotecnia em Gaza durante a noite... óculos para visão noturna estão disponíveis por pouco mais, para ver as mães em fuga e as crianças queimadas.

Mais uma vez, o Senado dos EUA vota unanimemente em apoio à última campanha de genocídio israelense; parece que não há crime suficientemente deplorável para abanar os escrúpulos dos líderes dos EUA. Ficam próximo de um texto assinado pelos 52 presidentes das maiores organizações judaicas dos EUA. Todos juntos abraçam a besta do Apocalipse, agarrados à carne e aos ossos da Palestina.

Mas, helas! os sionistas franceses dominam o “presidente socialista” Hollande. Paris bane qualquer manifestação contra Israel apesar dos relatórios inequívocos de genocídio. Os manifestantes que apoiam a resistência em Gaza são gaseados e batidos pelas forças especiais antimotim. O “socialista” Hollande serve as exigências das poderosas organizações sionistas, desprezando as tradições republicanas do seu país e os seus sagrados “Direitos do Homem”.

Os jovens manifestantes de Paris responderam com barricadas e pedras da calçada nas melhores tradições da Comuna de Paris, agitando as bandeiras de uma Palestina Livre. Nem uma “bandeira vermelha” em vista: a esquerda “francesa” escondeu-se debaixo da cama ou então foi de férias.

Há sinais preocupantes longe dos campos de batalha. As bolsas de valores agitam-se enquanto a economia estagna. Os especuladores selvagens regressaram no seu esplendor, aumentando a distância entre a economia fictícia e real que havia antes do “dilúvio”, o caos que anuncia outro crash inevitável.

Em Detroit, outrora grande centro da América industrial, a água potável é fechada a dezenas de milhares de pobres que não podem pagar serviços básicos. Em pleno Verão, famílias urbanas têm de fazer as necessidades em ruelas, azinhagas e descampados. Sem água, os sanitários entopem, as crianças não se lavam. Roscoe, o canalizador, diz que o trabalho está para além das suas possibilidades.

De acordo com os nossos economistas famosos, a economia de Detroit está “a recuperar... os lucros subiram, apenas as pessoas sofrem”. A produtividade duplicou, os especuladores estão satisfeitos; as pensões são cortadas e os salários descem; mas os Detroit Tigers estão em primeiro lugar.

Os hospitais públicos fecham por todo o lado. Em Bronx e em Brooklyn, serviços de urgência estão sobrecarregados. É o caos. Os internos fazem turnos de 36 horas… e os doentes e feridos arriscam a sorte perante um médico com privação de sono. Entretanto, em Manhattan, os clínicos privados e a cirurgia estética para as elites prosperam.

Os escandinavos apoiam o poder instalado por via de um golpe de estado em Kiev. O Ministro das Relações Exteriores sueco Bildt grita por uma nova guerra fria com a Rússia. O emissário dinamarquês e líder da NATO, Rasmussen, saliva obscenidades ante a perspetiva de bombardear e destruir a Síria, repetindo a “vitória” da NATO sobre a Líbia.

Os líderes alemães patrocinam o genocídio israelense em Gaza; estão confortavelmente protegidos de qualquer consciência moral pela sua nostálgica “culpa” pelos crimes nazistas de há 70 anos.

Terroristas da Jihad no Iraque financiados pela Arábia Saudita mostraram a sua “misericórdia infinita” simplesmente retirando milhares de cristãos da antiga Mossul. Quase 2.000 anos de contínua presença cristã foi o bastante. Pelo menos muitos escaparam ainda com a cabeça entre as orelhas.

Caos por toda a parte

Mais de cem mil agentes da Agência de Segurança Nacional dos EUA são pagos para espionar dois milhões de cidadãos e residentes muçulmanos nos EUA. Mas, por todas as dezenas de bilhões de dólares gastos e dezenas de milhões de conversas gravadas, a caridade islâmica é alvo de processos e há filantropos que são apanhados em emboscadas.

Onde caem as bombas ninguém sabe, mas as pessoas estão a fugir. Milhões fogem do caos.

Mas não têm para onde ir! Os franceses invadem meia dúzia de países africanos mas os refugiados veem recusado asilo em França. Milhares morrem no deserto, ou afogados a atravessar o Mediterrâneo. Aqueles que conseguem são chamados criminosos ou relegados para guetos e campos.

Reina o caos em África, no Oriente Médio, na América Central e em Detroit. Toda a fronteira dos EUA com o México se tornou um centro militar de detenção, um campo de prisioneiros multinacional. A fronteira está irreconhecível para a nossa geração.

Reina o caos nos mercados, mascarado de sanções de natureza comercial: ontem o Irã, hoje a Rússia, amanhã a China. Washington deverá tomar cuidado! Os seus adversários estão a encontrar terreno comum, a estabelecer comércio, a forjar acordos, a construir defesas; os seus laços estão mais fortes.

Reina o caos em Israel. Obcecados pela guerra, os israelenses descobrem agora que o povo eleito de Deus também sangra e também morre, os seus corpos também perdem membros e olhos nas ruas de Gaza, onde homens e rapazes pobres defendem a sua terra. Quando as celebrações derem lugar a lamentações, irão reeleger Bibi, o seu açougueiro de serviço? Os seus irmãos do outro lado do oceano, que financiam Israel, os homens dos lobbies e os comentaristas beligerantes, irão automaticamente adotar uma nova face, sem questões, arrependimentos, ou (Deus não permita!) autocrítica; se é “bom para Israel e para os Judeus”, tem de ser justo.

O caos reina em Nova Iorque. Julgamentos favorecem os piratas e os seus fundos depredatórios, que exigem um retorno de 1.000% em fundos argentinos. Se a Argentina rejeitar esta chantagem financeira, as ondas de choque irão sentir-se nos mercados financeiros globais. Os credores irão tremer de incerteza: irá crescer o medo de um novo crash financeiro. Conseguirão sacar mais um resgate de trilhões de dólares?
Mas onde está o dinheiro? As máquinas trabalham dia e noite para o imprimir. Há poucos botes salva-vidas... o suficiente para os banqueiros e Wall Street, os outros 99% terão de nadar ou servir de comida para os tubarões.

A imprensa financeira corrupta agora aconselha os senhores da guerra sobre que país bombardear, e os políticos sobre como impor sanções econômicas; já não fornecem informação escorreita sobre economia, nem aconselham os investidores sobre os mercados. Os seus editoriais irão incitar um investidor a correr para comprar este mundo e o outro enquanto os bancos vão à falência.

O presidente dos EUA está quase a ter um esgotamento: é um mentiroso de proporções dantescas e com um caso grave de paranoia política, histeria bélica e megalomania. Está fora de controle, aos berros: “eu mando no mundo: são os EUA ou o caos”. Mas, cada vez mais, o mundo tem outra mensagem: “São os EUA e o caos”.

Wall Street abandona-o. Os russos traíram-no. Os mercadores chineses fazem agora negócios em todos os lugares onde estávamos e deveríamos estar. Jogam com dados viciados. Os teimosos somalis recusam submeter-se a um presidente negro: rejeitam este “Martin Luther King dos drones”... Os alemães mordem os dedos, furiosos, à medida que os americanos monitoram e gravam cada uma das suas conversas... para sua própria segurança! “As nossas corporações são ingratas, depois de tudo o que fizemos por elas”, rosna o primeiro presidente negro. “Fogem dos nossos impostos enquanto subsidiamos as suas operações!”

Soluções finais: o fim do caos

A única solução é continuar: o caos gera o caos. O Presidente esforça-se por proteger a sua “liderança”. Faz aos seus conselheiros mais próximos perguntas muito difíceis: “Por que razão não podemos bombardear a Rússia, como Israel bombardeia Gaza? Porque não construímos uma ‘cúpula de ferro’ sobre a Europa e anulamos os misseis nucleares russos, enquanto abrimos fogo sobre Moscou das nossas novas bases na Ucrânia? Que países deverá a nossa ‘cúpula’ proteger? Tenho a certeza que os povos do Leste da Europa e dos estados bálticos farão de bom grado o sacrifício supremo. No fim de contas, os seus líderes espumavam por uma guerra com a Rússia. A sua recompensa, uma devastação nuclear, será um preço pequeno para assegurar o nosso sucesso!”

O lobby sionista insistirá que a nossa ‘cúpula de ferro’ deverá proteger Israel. Mas os sauditas poderão tentar subornar os russos a poupar os campos do petróleo enquanto Moscou aponta às bases de mísseis dos EUA perto de Meca. Os nossos aliados nucleares no Oriente Médio terão mesmo que mudar para uma nova terra sagrada.

Obama e os seus conselheiros pensarão em reduzir a população asiática em um ou dois milhões? Estarão a planejar várias centenas de Hiroshimas pelo fato de os chineses terem pisado as “linhas vermelhas” do Presidente? A economia e o comércio chineses cresceram demasiado depressa, expandiram-se demasiado depressa, tornou-se demasiado competitiva, demasiado competente, demasiado bem-sucedida em obter quotas de mercado, e os chineses ignoraram os nossos avisos e o nosso poderio militar sem paralelo.

A maior parte da Ásia irá respirar poeira nuclear, milhões de indianos e indonésios morrerão como danos colaterais. Os que sobreviverem irão banquetear-se com peixe radioativo pescado num mar contaminado.

Para além do caos: um novo American way

Porque a nossa ‘cúpula de ferro’ irá falhar, teremos de reemergir das cinzas tóxicas e sair dos nossos abrigos, sonhando com uma América livre de guerras e da pobreza. O reino do caos terá chegado ao fim. A “paz e a ordem” irão reinar no cemitério.

Os imperadores serão esquecidos.

E nunca chegaremos a saber quem disparou o míssil que atingiu o malogrado voo malaio com os seus 300 passageiros e tripulação. Teremos perdido a conta aos milhares de palestinos, entre pais e filhos, esmagados em Gaza pelo povo eleito de Israel. Não saberemos no que deram as sanções contra a Rússia.

Não importará, numa era pós-nuclear, depois do caos.