29 de dezembro de 2014

2014, um bom ano para a OTAN

Washington sentiu cada vez mais a necessidade urgente de encontrar uma "nova missão" para a OTAN. Isso foi rapidamente encontrado.

Manlio Dinucci

Il Manifesto

Tradução / Para Washington e sua aliança transatlântica, 2014 poderia ter sido um ano ruim, especialmente em dois cenários: uma Europa sem guerra, onde, apesar da expansão da OTAN para o leste, laços econômicos e políticos mais fortes foram sendo reforçados entre a União Europeia e a Rússia, e onde quase todos os aliados estavam relutantes em aumentar os gastos militares ao nível exigido pelo Pentágono; e um "Grande Oriente Médio" onde os Estados Unidos e a OTAN estavam perdendo uma guerra na Síria e onde o Iraque estava se distanciando dos EUA e aproximando-se da China e da Rússia, uma aliança cada vez mais temida pela Casa Branca. Washington sentiu cada vez mais a necessidade urgente de encontrar uma "nova missão" para a OTAN. Isso foi rapidamente encontrado. O golpe da Praça Maidan, longamente preparado e incluindo também as principais forças neonazistas ucranianas, trouxe a Europa a uma situação semelhante à da Guerra Fria, provocando um novo confronto com a Rússia. A ofensiva do Emirado Islâmico, há muito tempo preparada pelo financiamento e armamento de grupos islâmicos (alguns anteriormente definidos como terroristas) desde a guerra contra a Iugoslávia e da outra contra a Líbia, permitiu que as forças dos EUA/ OTAN interviessem na Síria para destruir não o Estado Islâmico (EI), mas a Síria, e reocupar o Iraque. A "nova missão" da OTAN foi formalizada pela cúpula de setembro no País de Gales, que lançou o Plano de Ação "reanimado" cujo objetivo declarado é "rapidamente e firmemente responder aos novos desafios contra a segurança", atribuídos à "agressão militar da Rússia contra a Ucrânia" e ao crescimento do extremismo e do conflito sectário no Oriente Médio e no norte da África. O plano está qualificado pelo Secretário-Geral da OTAN, Jens Stoltenberg, como"o maior reforço da nossa defesa coletiva desde o fim da Guerra Fria."

Como ponto de partida, em apenas três meses, a OTAN quadruplicou a capacidade de caças-bombardeiros nucleares e convencionais de duplo uso baseados na região do Báltico (anteriormente parte da URSS); enviou aviões de radar AWACS à Europa Oriental; e aumentou o número de navios de guerra na região do Báltico, do Mar Negro e do Mediterrâneo; implantou forças terrestres dos EUA, britânicas e alemãs (incluindo unidades de blindados pesados) na Polônia, na Estônia, na Letônia e na Lituânia; intensificou os exercícios conjuntos na Polônia e nos países bálticos, aumentando-os durante o ano para mais de 200. Sempre com base no "reanimado" Plano de Ação, a "Força de Reação da OTAN" foi lançada através do estabelecimento de "pacotes" [blocos, unidades] de terra, ar e unidades navais capazes de ser projetados rapidamente na Europa Oriental, no Oriente Médio, na Ásia Central (incluindo o Afeganistão, onde a OTAN permanece com suas forças especiais), na África e em outras regiões. Neste contexto, uma nova "Força-Tarefa" de alta velocidade será formada, capaz de ser "implantada em dias, especialmente na periferia do território da OTAN." Simultaneamente, em Riga (Letônia), foi aberto o " Centro de Excelência de Comunicação Estratégica da OTAN", responsável pela realização da nova Guerra Fria contra a Rússia com vários instrumentos, incluindo "operações informativas e psicológicas". No âmbito do acordo assinado em 1º de julho com a Transformação do Comando Aliado (Norfolk, VA), a Itália é também parte do Centro de Excelência para a nova Guerra Fria, ao lado da Grã-Bretanha, Alemanha, Polônia e das três repúblicas bálticas. Assim, a Itália e a União Europeia contribuem para abrir a "nova área de diálogo com Moscou", anunciada por Federica Mogherini, alta representante para a política externa da UE.

22 de dezembro de 2014

O novo grande desafio de Cuba

Manlio Dinucci

Il Manifesto

Tradução / Desde que la Revolución Cubana puso fin, en 1959, al dominio estadounidense sobre la mayor isla de las Antillas, control que había comenzado con la guerra hispano-estadounidense de 1898, Estados Unidos ha venido tratando –a lo largo más de medio siglo– de reconquistar Cuba, recurriendo para ello a todos los medios: desde la invasión hasta el terrorismo de Estado y pasando por el aislamiento y el embargo.

Mas a resistência do povo cubano, organizado como "Estado socialista de trabalhadores, independente e soberano" (Artigo 1º da Constituição da República de Cuba) frustrou a tentativa. O presidente Barack Obama teve que aceitar a realidade, ao anunciar o restabelecimento das relações diplomáticas e aliviar parcialmente o embargo.

Esta decisión ha recibido una acogida entusiasta entre los cubanos y entre todos aquellos que los han apoyado, porque es el resultado de la lucha que libraron a lo largo de todos estos años. Pero al mismo tiempo estamos siendo testigos de una intensa campaña que atribuye todos los honores de la Historia al presidente Obama, como si hubiese marcado una ruptura total con la política agresiva de Estados Unidos hacia Cuba.

Una interpretación que la propia Casa Blanca se ha encargado de desmentir. Según reconoce Obama en su discurso oficial: «Décadas de aislamiento de Cuba por Estados Unidos no han logrado concretar nuestro objetivo. Hoy Cuba aún está gobernada por los Castro y el Partido Comunista.» Y agrega que, al restablecer las relaciones diplomáticas, los Estados Unidos pueden «defender nuestros valores y ayudar al pueblo cubano a que se ayude a sí mismo».

Lo cual significa que la administración Obama no renuncia a la estrategia que apunta a la destrucción del Estado cubano. Sólo modifica la manera de lograrlo. No habrá un nuevo desembarco como el de Bahía de Cochinos, efectuado en 1961, bajo la presidencia del también demócrata Kennedy, por contrarrevolucionarios cubanos entrenados y pagados por la CIA.

Lo que habrá, bajo la administración Obama, será un desembarco de organizaciones «no gubernamentales», fabricadas por la CIA y el Departamento de Estado, enviadas por Washington con «proyectos humanitarios de ayuda al pueblo cubano». El Congreso de Estados Unidos –subraya el documento oficial de la Casa Blanca– ha atribuido «importantes fondos para la programación de la democracia en Cuba, asignados para prestar asistencia humanitaria, promover los derechos humanos y las libertados fundamentales, apoyar el libre flujo de información, estimular las reformas a través de nuestros contactos de alto nivel con funcionarios cubanos». Serán financiadas especialmente «las actividades de fundaciones privados e institutos de investigación e instrucción».

Con las organizaciones «no gubernamentales» que llegarán con los bolsillos llenos de dólares, desembarcarán también las transnacionales estadounidenses que, según escribe el New York Times, están preparando una «cabeza de playa» para penetrar con sus capitales en la economía cubana, apuntando al sector de la biotecnología –muy desarrollado en Cuba–, las minas –sobre todo el níquel ya que Cuba posee una de las reservas más importantes del mundo– así como el sector hotelero y turístico, donde existe un gran potencial.

El desafío que ahora tiene ante sí el pueblo cubano consiste en conservar las conquistas de la Revolución ante la nueva ofensiva de Washington, que recurrirá a herramientas no menos peligrosas que las anteriores.

O desafio que o povo cubano tem diante de si agora é a forma de evitar que as conquistas da revolução não sejam anuladas pela nova ofensiva conduzida por Washington com ferramentas não menos perigosas do que as anteriores.

La situación es hoy más favorable para Cuba ya que gran parte de Latinoamérica ha dejado de ser el «patio trasero de Estados Unidos» y Cuba, junto con Venezuela –ahora objeto de nuevas sanciones estadounidenses– y con otros países, ha dado vida a la Alianza Bolivariana para las Américas (ALBA). Será por lo tanto decisiva la nueva generación que, en Cuba, debe dar continuación a la Revolución haciendo fracasar el plan de Washington tendiente a la destrucción del Estado socialista en nombre de una «independencia del pueblo cubano», que conduciría a una nueva dependencia del imperialismo estadounidense.

Cuba e o "Garden State": Assata Shakur, abolição e o problema do perdão

Pursuing Assata Shakur is not about Assata Shakur at all. It is about holding on to the fiction of an inherently fair justice system, denying the continuity of institutionalised racism over the life of a young country, and affirming an investment in carceral forms of social control.

Eddie Bruce-Jones*


Minha pele é negra/ Meus braços são longos/ Meu cabelo é lanoso/ e minhas costas são fortes/ 
Fortes o suficiente para aguentar a dor/ que foi infligida de novo e de novo/ 
Como eles me chamam?/ Meu nome é tia Sara/ Meu nome é tia Sara 
— Nina Simone, “Four Women

Tradução / O anúncio recente do presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, de restabelecer relações diplomáticas com Cuba foi considerado por muitas pessoas como um sinal de que os tempos estão mudando, e também como um dos últimos esforços de Obama para reaver sua credibilidade junto à esquerda. A notícia também renovou os pedidos da polícia do estado de Nova Jersey pela detenção da ativista negra Assata Shakur, que tem status de asilada política em Cuba. Antes de comentar a renovação do debate pela prisão de Shakur (ou pelo perdão por algo que ela não fez), é pertinente que eu escreva sobre o lugar e o contexto de onde ela escapou.

O Centro Correcional Clinton para Mulheres em Nova Jersey, hoje Centro Correcional Edna Mahon, encerrou Assata Shakur antes que ela escapasse e fugisse para Cuba. A prisão ocupa um lugar central na história da minha família. Todos nós a conhecemos por nome. Nós nos situamos com relação a ela como pessoas negras em geral e como mulheres negras em particular. Clinton nos lembra que é possível ser exilado dentro das nossas próprias fronteiras. Alguns de nós inclusive nascemos lá dentro.

Na década de 1930, a instituição era conhecida como Reformatório para Mulheres em Clinton. Meu avô nasceu na enfermaria de Clinton, um mês após sua mãe, então uma garota de 17 anos nos últimos meses de gravidez, ser presa por fornicação (prostituição). Ela viveu na prisão com o filho durante um ano antes de ser transferida para outro reformatório em outra cidade, uma das várias instituições que adotavam o modelo da Escola Vineland para Crianças Atrasadas e Debilitadas, dirigida pelo eugenista norte-americano Henry Goddard. Seu filho, meu avô, ficou sozinho na prisão por três meses antes de ser mandado para a adoção. Mãe e filho foram fichados em Clinton. Na ficha de meu avô consta que ele chorava “lágrimas de crocodilo” quando queria que alguém da equipe responsável pela creche lhe desse colo. Até seus 79 anos de idade, ele acreditava que sua mãe o tinha abandonado.

O Centro Reformatório de Clinton é também onde minha tia-avó Beverline, uma mulher bipolar com um espírito indomável, foi encarcerada. Lá, em meados dos anos 1960, Bev deu à luz uma linda bebê, minha tia, uma aguerrida figura materna para minha geração. Foi o endereço de Clinton que meu pai escreveu nas cartas para sua namorada, Shirley, nos anos 1990. Shirley estava lutando contra o vício em drogas quando foi presa. Não sou a única pessoa em Nova Jersey que conhece mulheres que passaram por Clinton e que sabe como o centro destrói vidas. A prisão jamais iria ajudar Shirley a se livrar do vício, ou tia Bev a controlar sua bipolaridade, ou convencer minha tataravó Bettie que ela não deveria tentar prover para ela e seus filhos através de quaisquer meios que ela encontrasse. A prisão também não iria convencer Assata Shakur que ela deveria abrir mão de sua vida e sua liberdade por respeito a um sistema legal que a perseguiu por razões políticas: para sufocar o pensamento revolucionário entre ativistas negros nos anos 60 e 70 nos EUA. Nenhuma destas quatro mulheres deveria ter estado lá, e assim como na canção de Nina Simone, podemos identificar diferentes versões destas quatro mulheres em nossas comunidades. Elas deveriam ter sido cuidadas, atendidas, não exiladas.

A ativista Angela Davis e o advogado de Shakur, Lennox Hinds, reagiram em 2013 à declaração do FBI de que Shakur seria adicionada à lista dos Mais Procurados do país. Eles argumentaram que esta era uma tentativa de reacender os medos da população dos EUA do símbolo de mudança radical representado por Shakur. Ela é considerada um símbolo de esperança para jovens ativistas que combatem o racismo, a brutalidade da polícia e outras formas de violência de Estado. A recompensa para a prisão de Shakur foi fixada em 2 milhões de dólares e ela foi designada pelo FBI como terrorista. Abriu-se caminho para que o medo de fantasmas, de bocas negras sem sorrisos, de sobrancelhas curvadas em desafio e de cabelos afro fizesse seu trabalho, como as histórias contadas a crianças que são jovens demais para escolher suas próprias leituras. O anúncio do reestabelecimento de relações diplomáticas dos EUA com Cuba apenas renovou este medo e deu cobertura midiática a oficiais de Nova Jersey colocando fotos de Shakur em exposição pública na esperança de recuperá-la e expressando sua determinação em levar “Joanne Chesimard (seu nome de casada) à Justiça” e restaurá-la ao “lugar a que pertence, a prisão em Nova Jersey”. As autoridades perseguem Assata Shakur apesar do surgimento de novas provas desde seu julgamento que revelaram que programas de contra inteligência do FBI estavam monitorando e tentando enquadrar ativistas negros nos anos 60, e também apesar da absoluta falta de provas que apoiem a alegação de que Shakur atirou contra o policial que ela foi acusada de assassinar (após ter sido baleada nas costas).¹

É bom ressaltar, portanto, que a perseguição a Assata Shakur não tem nada a ver com Assata Shakur. Diz respeito ao apego à ficção de um sistema penal inerentemente justo, à negação da continuidade do racismo institucional e à afirmação do investimento em formas carcerárias de controle social. A caça a Assata Shakur é equivalente a varrer o chão de uma casa em chamas. Ela se tornou um bicho-papão, um Bin Laden a ser aniquilado, uma bandida a ser destruída. Ela é invocada como um fantasma, ainda chamada de “Joanne” décadas depois e, em espanhol e em inglês, de “terrorista armada e perigosa”. Um discurso que deixa implícito que ela ainda está lá fora, quando deveria estar exilada aqui mesmo, em casa.

Vamos deixar de lado por enquanto o fato que oferecer uma recompensa pelo retorno forçado de uma asilada política está em clara contradição com o princípio de não-devolução previsto no Direito Internacional. Que tal um perdão presidencial a Assata Shakur? Por um lado, qualquer coisa que cancele uma recompensa de dois milhões de dólares pelo sequestro e devolução de Shakur é algo a ser considerado. No entanto, é importante dizer que perdoá-la por um crime que foi em grande parte (e assumidamente) fabricado não parece um desfecho adequado para Shakur ou para qualquer um de nós. O mais apropriado seria parar de varrer o chão e se concentrar em salvar a casa.

Nota: 

¹ According to Hinds, forensics evidence shows that she was shot in the back, no evidence suggests the gun was ever in her hand, and no arsenic residue from the gun was found on her.

* Eddie Bruce-Jones é professor de Direito na Birkbeck College da Universidade de Londres, e Associado Acadêmico na Honourable Society of the Inner Temple.

20 de dezembro de 2014

Por que a Rússia vai interromper a queda do rublo e continuar bombeando petróleo

Marin Katusa*

Fortune

Tradução / O rublo pode ter subido fortemente na quarta-feira, mas a queda, em dias recentes, estimulou muita conversa sobre a catástrofe do país, com gente dizendo, até, que a nova Rússia estaria a ponto de seguir a trilha da velha URSS.

Não acreditem nisso. A Rússia não é os Estados Unidos, e os efeitos de moeda em queda livre por lá são muito menos dramáticos do que seriam nos Estados Unidos.

Uma coisa importante a lembrar é que a queda do rublo tem sido acompanhada por uma queda abrupta do preço do barril de petróleo. Mas os dois não são tão intimamente ligadas como se poderia supor. Sim, a Rússia tem sua economia baseada em recursos, que se ressente de qualquer abalo sobre o petróleo. No entanto, o petróleo é negociado em quase toda parte em dólares americanos, que estão atualmente desfrutando de uma força considerável..

Isso significa que os produtores de petróleo russos podem vender o produto deles nesses dólares fortes, mas pagar suas despesas em rublos desvalorizados. Assim, podem fazer melhorias de capital, investir em novas capacidades, ou explorar mais por menos do que lhes custaria antes de o valor do rublo ser ceifado pela metade contra o dólar. O setor permanece saudável e capaz de continuar a fornecer a parte do leão das taxas governamentais.

Nem a volatilidade do rublo afetará a capacidade de muitas empresas russas pagar o serviço de suas respectivas dívidas. A maior parte da dívida privada denominada em dólares a ser rolada nos próximos meses foi contraída por empresas estatais, que têm entrada estável de moeda estrangeira, das exportações de gás e petróleo.

Os consumidores russos serão atingidos, é claro, dados os altos preços dos bens importados, e o aperto que a inflação impõe aos salários. Mas, pelo mesmo processo, as exportações serão muito mais atraentes para compradores estrangeiros. Rublo barato faz crescer a perspectiva de lucros para todas as empresas russas envolvidas no comércio internacional. Além do mais, quando à atual fraqueza da moeda soma-se a sanção que impede que se importem alimentos da União Europeia, as duas forças podem eventualmente levar a um boom de substituição de importações na Rússia.

Em qualquer caso, aconteça o que acontecer, que ninguém espere que as privações inspirem tumultos nas ruas de Moscou. A popularidade do presidente Vladimir Putin já chegou à estratosfera, desde o início da crise na Ucrânia. Os russos confiam no presidente. Apertarão os cintos e não se verá nenhuma revolta contra suas políticas.

Além do mais, o alto preço do petróleo durante o super ciclo da commodity, combinado a uma taxa de câmbio alta, levou a um grave declínio nos setores russos de manufatura e agricultura ao longo dos últimos 15 anos. Essa correlação – que os economistas chamam de “doença holandesa” – fez baixar a parte correspondente ao setor de manufatura na economia russa, de 21%, para 8%, em 2000.

Quanto mais tempo o rublo permanecer fraco, porém, menos a doença holandesa dará as cartas. Moeda mais baixa significa que volta a fazer pleno sentido econômico investir na agricultura e na manufatura russas. Ambos devem receber impulso real.

Baixos preços também são bons para os grandes consumidores do petróleo russo, especialmente a China, com quem Putin está construindo laços cada vez mais fortes. Se, como se espera que aconteça, Rússia e China passem a fazer transações em rublos e/ou yuan, o mecanismo aproximará ainda mais os dois países e minará mais ativamente a hegemonia do dólar em todo o mundo. Putin sempre pensa décadas à frente. Qualquer perda nas entradas de energia no curto prazo será largamente recompensada em ganhos de longo prazo das alianças econômicas que estão sendo construídas.

No desenvolvimento mais recente, o Banco Central Russo reagiu e elevou as taxas de juro para 17%. Por um lado, visa também a conter a inflação. Por outro, é resposta direta aos vendedores especuladores de curto prazo que estão atacando o rublo. Agora, terão de pagar prêmios adicionais, dado que a razão risco/recompensa aumentou. Os especuladores terão de pensar duas vezes, antes de atirar-se novamente ao ataque.

O aumento nas taxas de juro faz lembrar o modo como Paul Volcker, ex-presidente do Fed dos EUA, combatia a inflação nos EUA no início dos anos 80. Funcionou para Volcker, quando o mercado de ações nos EUA embarcou em disparada vertiginosa. Os russos – cujo mercado foi derrubado na crise petróleo/moeda – esperam resultado similar.

Mas o mercado russo não é, nem de perto, tão importante para a economia daquele país, quanto o mercado dos EUA é importante para a economia norte-americana. Os russos não usam o mercado como os norte-americanos. Na Rússia, não há nada semelhante ao Mad Money de Jim Kramerovsky da CNBC.

Mas a Rússia não está em vias de virar um Zimbábue. Está assentada sobre vasto superávit de moedas estrangeiras e confortável fundo de reserva de cerca de US$ 375 bilhões. Mais que isso, tem forte razão dívida/PIB de apenas 13% e estoque gigante e crescente de ouro.

E há o relacionamento de energia entre Rússia e a União Europeia, principalmente com a Alemanha. Putin mostrou seu peso quando “costurou” o gasoduto “Ramo Sul” e anunciou que faria passar as tubulações através da Turquia. Bastou anunciar, para que a União Europeia voltasse atrás e lhe desse o que ele exigia para repor o Ramo Sul no trajeto anterior. A Alemanha jamais admitirá que a Turquia converta-se em guardião da segurança energética da Europa.

Com o inverno chegando, a dependência da União Europeia, do gás e do petróleo russos assumirá o centro do palco, e a interação terá, mais uma vez, influência estabilizadora sobre a Rússia.

Em resumo: por menos que a atual situação trabalhe a favor da Rússia, o país está longe da bancarrota. Com certeza os russos conterão a queda do rublo e continuarão a bombear petróleo. A economia se contrairá, mas não quebrará.

A dura realidade é que os campos de xisto dos EUA têm muito mais a temer dos preços em queda livre do petróleo, que os russos (ou os sauditas), porque os custos de produção são aí muito mais altos. Muitos dos poços de xisto dos EUA tornar-se-ão antieconômicos, se o preço do petróleo cair mais. E se começarem a fechar, será desastroso para a economia dos EUA, uma vez que o crescimento da indústria do xisto serviu 100% como base para o crescimento econômico dos EUA nos últimos vários anos.

Os que estão festejando a queda do rublo, bem fariam se observassem o que se passa em outros países que enfrentam crise real de moeda, e países integralmente dependentes da economia do petróleo, como Venezuela e Nigéria, além da Ucrânia. Daí, não da Rússia, é que virão os problemas realmente graves.

* Marin Katusa é autora do best-seller do New York Times, The Colder War: How the Global Energy Trade Slipped from America’s Grasp.

Quando o governo diz, "Shhh!"

Margaret Sullivan

The New York Times

Tradução / Howell Raines lembra-se de um telefonema de Ari Fleisher pouco depois dos ataques de 11 de setembro 2001, nos Estados Unidos.

Raines, então editor-executivo do New York Times, diz que Fleisher, então assessor de imprensa de George W. Bush, fez um pedido assombroso. Ele “pediu que prometêssemos que entraríamos em contato com a Casa Branca antes de publicarmos qualquer assunto relacionado à segurança nacional”.

Howell Raines contou-me, num e-mail recente, que recusou: “Disse-lhe que não faríamos a promessa que ele pedia, mas que se a Casa Branca quisesse pedir a suspensão de uma matéria específica, esse pedido teria que ser feito pelo presidente ao editor-executivo ou ao publisher do jornal.” Essa foi a única vez em dois anos como editor, afirma ele, que ouviu um pedido do governo para suspender informação.

No entanto, o governo conseguiu contornar essa recusa pelo menos uma vez durante o mandato de Howell Raines. O relatório sobre tortura recentemente divulgado pelo Comitê de Inteligência do Senado menciona uma matéria que “um jornal importante” teria suspendido a pedido do governo, em 2002. O repórter James Risen informou que o jornal em questão era o The New York Times. (A matéria, sobre um dirigente da al-Qaeda que era mantido preso numa prisão secreta na Tailândia, acabou sendo publicada no ano seguinte.) James Risen disse-me que Gerald Boyd, então chefe de redação, tomou a decisão quando Howell Raines não se encontrava no jornal. Isso ocorreu (pelo que Raines consegue se lembrar) depois que Boyd foi contatado por Condoleezza Rice, que na época era conselheira de segurança nacional do presidente Bush. Raines acha difícil acreditar que Boyd, que morreu em 2006, tenha tomado essa decisão sem o consultar. Jill Abramson, que na época era chefe da sucursal de Washington (e posteriormente tornou-se editora-executiva do jornal), disse-me, por e-mail, que não participara do caso e não se lembrava do incidente. O publisher, Arthur Sulzberger, disse o mesmo.

Os detalhes obscuros podem não fazer muita diferença agora, dez anos depois. Mas a questão mais ampla – a relação entre o governo e a imprensa – é muito importante. Em que circunstâncias deveria uma organização jornalística concordar com um pedido do governo para suspender uma matéria com base em preocupações de segurança nacional?

Os dois últimos editores-chefes do The New York Times dizem que mudaram de opinião sobre o assunto – e que acham que, às vezes, a imprensa cede com muita facilidade à pressão governamental.

“O relatório sobre a tortura é uma advertência de que deveríamos ser mais exigentes sobre aquilo que deixamos de publicar”, disse-me o atual editor-executivo do diário, Dean Baquet. Repetindo observações que fez a David Folkenflik, da National Public Radio, ele me falou: “Irei ouvir um pedido sério do governo, mas estou muito, muito mais relutante” em atendê-lo.

A lamentável repercussão dos atentados do 11 de setembro 2001 é um fator que pesa nessa mudança de opinião; outro, é o que Edward Snowden, que prestou serviços para a Agência de Segurança Nacional, revelou sobre a ampla e profunda vigilância exercida pelo governo. (Snowden disse que optou por não trazer essas revelações ao The New York Times porque acreditava ser menos provável que jornalistas de outros veículos se curvassem à pressão do governo).

Dean Baquet considera que o comportamento dos Estados Unidos após os ataques de 11 de setembro 2001 proporcionaram “um debate muito rico”. Os elementos deste debate incluem as guerras do Iraque e do Afeganistão, as revelações de Snowden, a expansão da guerra com drones e o papel da CIA.

O The New York Times deve a seus leitores toda a informação necessária para acompanhar esse debate. Mas os pedidos continuam chegando. Dean Baquet disse-me que não se passa um mês sem que haja algum esforço do governo para persuadir o The New York Times a não publicar alguma coisa. E eles são bem-sucedidos? “Muito raramente.”

E quanto a Jill Abramson, segundo uma matéria de Michael Calderone no The Huffignton Post, ela disse que aquilo que parecia razoável “ao vivo”, pouco depois dos ataques do 11 de setembro de 2001, talvez não tivesse mais sentido. “Nenhum de nós sabia o que a ‘guerra ao terror’ iria representar e que tantos aspectos das liberdades civis seriam questionados”, afirmou. “Fomos ingênuos.”

A história mais famosa de uma suspensão de matéria pelo The New York Times vem de 2004. Uma reportagem de James Risen e Eric Lichtbau, de grande sucesso, gravada sem autorização judicial pela Agência de Segurança Nacional, quase não conseguiu ser impressa. Foi suspensa por 13 meses e só foi publicada quando se soube que o conteúdo sairia no livro State of War, de Risen, prestes a ser publicado.

Bill Keller, que antecedeu Jill Abramson como editor-chefe, disse-me no ano passado que a proximidade dos ataques de 11 de setembro 2001 afetou suas decisões: “Três anos depois dos ataques de 11 de setembro 2001, nós, como país, ainda estávamos sob a influência daquele trauma e nós, como jornal, não estávamos imunes. Não foi algo como um arrebatamento patriótico. Foi uma sensação aguda de que o mundo era um lugar perigoso.”
São situações difíceis, principalmente quando autoridades de primeiro escalão dizem aos editores que “você terá sangue em suas mãos” se a matéria for publicada, como Jill Abramson me contou que aconteceu.

É fácil ter uma segunda avaliação das decisões em retrospecto. Mas se as organizações jornalísticas – e, principalmente, o The New York Times – tivessem sido menos cooperativas e menos crédulas logo após o 11 de setembro de 2001, o país poderia estar bem melhor hoje.

Dean Baquet disse o seguinte: “Algumas coisas acontecem e nós, como país, lamentamos profundamente.” Para ele, o relatório sobre torturas do Senado é um “momento notável” na história dos Estados Unidos. E os cidadãos “têm o direito a ter sua própria opinião e a toda a informação de que precisam”. Só isso, diz, cria “uma poderosa barreira” contra qualquer pretensão a suspender uma informação.

É bom ver Dean Baquet assumir uma postura mais dura. E é bom ver o Times usar o termo tortura, e não um eufemismo, por uma questão de credibilidade. Que o Times tenha aprendido com seus erros e esteja disposto a discuti-los – entre todas as más notícias sobre liberdades civis, sigilo governamental e liberdade de imprensa – é uma resposta bem-vinda, mesmo que tardia.

19 de dezembro de 2014

A fábrica do Papai Noel: A cidade da China que faz as decorações de Natal do mundo

Dentro da "aldeia de Natal" de Yiwu, não há neve e não há duendes, apenas 600 fábricas que produzem 60% de todas as decorações no mundo.

Oliver Wainwright

The Guardian

Tradução / Há vermelho no teto e vermelho no piso, vermelho pingando dos parapeitos das janelas e dos glóbulos salpicados nas paredes. É como se tivessem deixado o artista Anish Kapoor solta, com seu canhão de cera, outra vez. Mas é esta, na verdade, a aparência de uma fábrica do Natal. Este é o coração da oficina do Papai Noel – milhares de quilômetros distante do Polo Norte, na cidade chinesa de Yiwu.

Nossos mitos natalinos parecem sugerir que o Natal é feito por elfos de face rosada, martelando numa cabana de madeira rodeada de neve, em algum lugar do Círculo Polar Ártico. Mas não. É provável que a maior parte das bugigangas, pingentes, lantejoulas e luzes cintilantes de LED que você espalha generosamente, em torno de sua casa, venham de Yiwu, uma cidade 300 quilômetros ao sul de Shangai – onde não há um único pinheiro de verdade ou floco de neve natural.

Batizada de “cidade chinesa do Natal”, Yiwu abriga 600 fábricas que, em conjunto, produzem mais de 60% de toda a decoração e acessórios de Natal – das árvores incandescentes de fibra ótica aos chapéus de feltro do Papai Noel. Os “elfos” que trabalham nestas fábricas são, quase sempre, operários migrantes, que trabalham 12 horas por dia, por um salário que equivale a algo ente 900 e 1300 reais por mês. E eles talvez não saibam muito bem o que é o Natal.

“Talvez seja como o Ano Novo [Chinês] para estrangeiros, diz, à agência chinesa de notícias SINA, Wei, um trabalhador de 19 anos que chegou a Yiwu este ano, vindo da região rural da província de Guizhou. Junto com o pai, ele cumpre longas jornadas num porão salpicado de vermelho. Pega flocos de neve de polistireno, mergulha-os num banho de cola, coloca-os numa máquina de revestir com pó, até que se tinjam de vermelho – e faz 5 mil peças a cada dia.

No processo, ambos terminam encardidos da cabeça ao tornozelo, com pó fino de carmesim. Seu pai veste um chapéu de Papai Noel (não para celebrar, diz ele, mas para evitar que o cabelo torne-se vermelho) e ambos gastam pelo menos dez máscaras faciais por dia, tentando não respirar o pó. É um trabalho cansativo e eles provavelmente não o farão de novo no ano que vem: assim que ganharem o suficiente para que Wei se case, querem voltar para Guizhou e, se tiverem sorte, nunca mais ver uma cuba de pó vermelho.

Embalados em sacos plásticos, seus flocos de neve vermelho-reluzentes estão expostos na imensa parafernália do Mercado Internacional de Yiwu, também conhecido como Cidade das Commodities da China – um mundo maravilhoso de 4 milhões de metros quadrados de quinquilharias de plástico. É um paraíso de R$ 1,99, um show de vendas infinito de tudo que há no mundo e você não precisa mas pode, num momento irracional qualquer, sentir-se compelido a comprar. Há ruas inteiras, neste complexo de labirintos, dedicadas a flores artificiais e brinquedos infláveis. Em seguida, vêm as sombrinhas e anoraques, baldes de plástico e relógios. É um monumento palpitante ao consumo global, em muitos andares, como se o conteúdo de todos os aterros do mundo tivesse sido escavado, recomposto e meticulosamente catalogado em 62 mil estandes.

O complexo foi considerado pela ONU o “maior mercado de atacado, de pequenas peças, do mundo” e sua escala exige uma espécie de plano urbano, que organiza este festival de comércio em cinco diferentes distritos. É no Distrito Dois que se encontra o Natal.

Há corredores inteiros repletos apenas de ouropel, ruas pulsando com shows de luzes LED que competem uns com os outros, meias de todos os tamanhos, árvores de Natal de plástico azul, amarelo e rosa cintilante, cones plásticos de pinheiro dourados e prateados. Algo parece perder-se na tradução. Há carneiros com chapéus de Papai Noel e renas bordadas em tartan – além, é claro de inexplicáveis invenções chinesas, o Papai Noel tocando saxofone.

Poderia ser a glória, mas os dias de apogeu do mercado parecem ter ficado para trás. Ele está perdendo terreno para gigantes da internet, como o Alibaba Group e o Made In China. Só no Alibaba Group, é possível escolher entre 1,4 milhão de itens de Natal diferentes, e recebê-los em casa após alguns cliques de mouse. O mercado de Yiwu não é páreo para isso: ele dispõe apenas de 400 mil produtos.

Voltadas para a faixa de baixo do mercado, as vendas de Yiwu prosperaram durante a recessão, quando o mundo desejava objetos de consumo baratos. Mas as vendas internacionais estão baixas, este ano. Ainda assim, segundo Cai Qingliang, vice-presidente da Associação dos Fabricantes de Produtos Natalinos de Yiwu, o apetite doméstico anda firme, já que a China abraçou a festa anual do consumo. Mais chineses sabem a respeito de Papai Noel que de Jesus, diz a revista The Economist.

As vendas fulgurantes do mercado de Yiwu soam sempre alegres, sugerindo um Natal eterno. Para Cheng Yaping, co-fundador da Fábrica de Objetos Boyang, que mantém uma loja adornada como um pequeno paraíso na neve, “sentar aqui todos os dias, poder cercar-se de toda esta bela decoração, é excelente para o ânimo”.

É improvável que sintam o mesmo aqueles a quem restou ocupar a outra ponta da linha de produção, resignados a mergulhar flocos de neve em oficinas inundadas de vermelho, para que possamos encontrá-las nas prateleiras a R$ 1,99.

18 de dezembro de 2014

Por que o estupro é tão intrínseco à religião

Histórias como o nascimento virgem carecem do consentimento feminino dado livremente. É revelador o quanto ainda estamos dispostos a aceitá-las.

Valerie Tarico


Tradução / Deuses e semideuses poderosos engravidando mulheres humanas: é um tema comum na história da religião e é mais que uma leve insinuação de estupro.

Zeus chegou a Dânae na forma de chuva de ouro, cortou o "nó da virgindade intacta" e a deixou grávida do herói grego Perseu.

Júpiter tomou Europa à força ao se transformar em um touro branco e raptá-la. Ele a aprisionou na ilha de Creta e a engravidou três vezes ao longo do tempo.

Pan copulou com uma pastora para gerar Hermes.

Os lendários fundadores de Roma, Rômulo e Remo, foram concebidos quando o deus romano Marte engravidou Rea Silvia, uma virgem vestal.

Helena de Tróia, a rara cria feminina de uma união deus-humano, foi gerada quando Zeus se transformou em cisne para chegar até a Leda.

Em algumas versões, Alexandre, o Grande e o imperador Augusto foram "semeados" por deuses na forma de serpentes por Febo e Júpiter, respectivamente.

Apesar de os cristãos mais antigos terem uma história alternativa, no evangelho de Lucas, a Virgem Maria engravidou quando o Espírito Santo foi até ela e o poder do Altíssimo dela tomou conta.

As versões mais antigas do nascimento de Zoroastra contam que ele nasceu de pai e mãe humanos, assim como Jesus, mas em versões mais recentes sua mãe foi perfurada por uma lança de luz divina.

O deus hindu Shiva teve relações sexuais com a humana Madhura, que veio adorá-lo enquanto sua esposa Parvati estava longe. Parvati transformou Madhura em sapo, mas após doze anos dentro de um poço ela recuperou a forma humana e deu à luz Indrajit.

A mãe de Buda, Maya, descobriu-se grávida após ter sido penetrada por um deus em um sonho.

A concepção pode ser um "arrebatamento", sedução ou algum tipo de penetração para procriação excitante porém não sexual. A história pode vir de uma religião tradicional ocidental ou oriental, pagã ou cristã. Mas esses encontros entre mulheres belas e jovens e deuses têm uma coisa em comum: nenhum deles contém o consentimento deliberado feminino como parte da narrativa. (No evangelho de Lucas, Maria consente depois de não ser consultada, mas comunicada por um poderoso ser sobrenatural sobre o que aconteceria com ela: "Eis aqui a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra!".

Quem precisa de consentimento deliberado? Se se trata de um deus, ela tem de querer, não é mesmo? É assim que a história acaba.

Se a jovem voluptuosa protestar ou não, se a sedução envolver mentira ou não, se a mulher já tiver um esposo ou um amante, se ela for ou não forçada fisicamente, o que se presume é que a união entre um deus e uma humana é orgasticamente avassaladora e não sangrenta e violenta. E depois? Bem, que mulher não gostaria de estar grávida de um filho (ou filha) de deus?

Por trás dessa metáfora mentirosa e surpreendentemente duradoura se encontram duas presunções que em sua forma mais primitiva podem ter sua origem na biologia evolucionista.

A hipótese biológica, muito simplificada, é a seguinte: machos e fêmeas de cada espécie possuem comportamentos instintivos que maximizam a transmissão de seus genes para a geração seguinte. Entre humanos, fêmeas procuram pelos portadores de esperma da mais alta qualidade que são capazes de atrair. Elas maximizam a qualidade e a capacidade de sobrevivência de seus filhos quando acasalam com machos poderosos e de prestígio. Os machos, por outro lado, maximizam a qualidade e a quantidade de sua cria ao procurar fêmeas férteis (em que beleza é sinal de fertilidade), controlando algumas fêmeas e afastando outros machos enquanto "espalham suas sementes", se conseguirem.

A biologia pode ser o ponto de partida, mas, ao longo do tempo, os impulsos humanos são ornados e institucionalizados, tornando-se sagrados pela cultura e pela religião. A metáfora mítica em que deuses copulam com humanas incorpora fortes crenças culturais e religiosas sobre sexualidade. Histórias familiares desse tipo vêm de sociedades patriarcais, o que significa que elas legitimam os desejos reprodutivos masculinos: homens poderosos não apenas querem controlar a valiosa mercadoria que é a fertilidade feminina, eles devem. Os deuses ordenam e dão o exemplo. E eles determinam que sejam punidos os que violarem a ordem natural das coisas - especialmente as mulheres.

As histórias sobre concepções miraculosas que listei podem ter suas raízes na pré-história, em religiões arcaicas voltadas para a adoração dos astros e do ciclo agrícola, mas sua forma moderna emergiu durante a Idade do Ferro. Nesse momento da história, a maioria das mulheres eram como bens pessoais. Assim como crianças, gado e escravos, elas eram literalmente posse dos homens, e seu valor econômico e espiritual primário se encontrava em sua habilidade de produzir uma cria de linhagem pura e conhecida. Os homens no poder possuíam concubinas e haréns, e mulheres virgens figuravam entre os espólios de guerras. (Veja, por exemplo, a história das virgens midianitas do Velho Testamento, em que Deus ordena aos israelitas que matem as mulheres "usadas", mas tomem para si as mulheres virgens.)

Essa também foi a época em que deuses escolhiam seus favoritos e se metiam em assuntos das tribos e nações, e em que grandes homens nasciam grandes. Não é de se admirar que tantos homens poderosos reivindicavam uma ascendência poderosa. Na tradição dos hebreus antigos, isso tomou a forma de obsessão com linhagem pura e descendência de alta estirpe. Escritores da bíblia hebraica traçam a genealogia do rei Davi a partir de Abraão, por exemplo e a genealogia de Abraão a partir do primeiro homem, Adão. Nas civilizações grega e romana, essas reivindicações se transformaram no costume de atribuir paternidade sobrenatural a figuras públicas. A tradição cristã tenta de maneira atrapalhada insistir simultaneamente em traçar a linhagem de Jesus, através de seu pai José, até o rei Davi, e em negar que ele teve um pai humano.

Esse é o contexto das histórias de concepções miraculosas e, nesse contexto, o consentimento da mulher é irrelevante. Em uma sociedade que trata a sexualidade feminina como posse masculina, o único consentimento que não pode ser violado é o consentimento do proprietário da mulher, o homem que detém os direitos sobre sua capacidade reprodutiva, tradicionalmente seu pai, noivo ou esposo. Muitos cristãos se surpreendem quando descobrem que em nenhuma passagem bíblica, no Velho ou no Novo Testamento, autor algum diz que o consentimento da mulher é necessário, ou mesmo desejável, antes do sexo.

A omissão é mais que lamentável: é trágica. Dois mil anos depois que textos hebreus e aramaicos foram anexados à moderna bíblia judaica, 1.600 anos depois de um comitê católico romano votar pela inclusão e exclusão de livros da bíblia cristã, 1.400 anos depois de Maomé escrever o Corão (que foi fortemente inspirado na estrutura moral da tradição judaico-cristã), nós ainda temos problemas com a questão do consentimento feminino. Nossa luta se torna imensuravelmente mais difícil pela presença de textos antigos que se tornaram ídolos modernos - textos que imputam a Deus os desejos dos homens.

O exemplo mais emblemático talvez seja um documento publicado pelo Estado Islâmico definindo regras para o tratamento de escravas sexuais, regras inspiradas no Corão. Mais perto dos americanos está a existência embaraçosa porém disseminada de líderes cristãos que ensinam que a honra feminina está na maternidade, e que uma mulher que falha em servir a seu esposo sempre que ele deseja está falhando em servir a Deus.

Mas ainda mais perto de casa para muitos é a chocante prevalência em campi universitários, e na sociedade em geral, de manipulação e coação sexual perpetrada por homens que, do contrário, pareceriam moralmente intactos. É impossível deixar de notar que um grande número de casos notórios envolvem homens influentes: membros de fraternidades, um ator famoso, um locutor de rádio, estrelas de futebol do interior e atletas profissionais de destaque. Homens, em outras palavras, que pensam ser deuses. Convencidos das próprias características divinas, torna-se lógico que o objeto de sua atenção deve querê-lo - e se ela não quiser, bem, tudo bem, já que quando um deus quer uma mulher, o consentimento não é de fato parte da história.

O que o "The Colbert Report" nos ensinou sobre a psicologia dos conservadores

Leslie Savan

The Nation

Tradução / Ninguém pensou que Stephen Colbert, o personagem, iria durar tanto tempo. Aquele tom moralista, reacionário, autocomplacente, autoelogiativo, grandiloquente, metido a “ético”, algo bom para um ano ou dois, no máximo.

Como o próprio Colbert disse na segunda-feira a Michele Bachmann que está se aposentando: “O tempo voa, Michele! Eu não posso acreditar que você manteve esse caráter conservador louco por oito anos”.

Mas durante nove anos Colbert nunca parou de nos fazer lembrar que a política – sobretudo a política conservadora é puro espetáculo, não passa de um tipo de desempenho cênico.

Para esse último show, o Grim Reaper vai tirá-lo da bancada. É o que se sabe. Mas deve-se agradecer pela longevidade do programa, pelo menos em parte, aos reinados muito mais longos de suas fontes de inspiração - “Papa Bear” Bill O’Reilly, claro, mas também Sean Hannity, Rush Limbaugh, Steve Doocy, e a própria mentalidade Fox News.

Também pode-se agradecer por esses últimos nove anos à própria “coisa” que tornava-os tão improváveis: como personagem, não só como mero crítico, da direita, Colbert guardava com ele uma rara chave que lhe permitia decifrar o enigma do conservadorismo moderno: Como é possível que essa gente continue a safar-se, fazendo sempre o que sempre fizeram? Por que tantos conservadores converteram-se em perfeitas cavalgaduras, racistas, militantes do ódio, negadores da ciência e da realidade? Os eleitores nem sempre concordam com aquelas políticas deles, mas... continuam a elegê-los. Por quê?

Nós, liberais, continuamos batendo a cabeça na parede contra a ausência total de lógica no que eles dizem e fazem e, frustrados, só fazemos berrar a única explicação que encontramos: “Eles são ... eles são ... eles são insanos”.

Em vez de tentar usar a chave de fora para dentro da muralha – como mais críticos da direita deveriam também aprender a fazer, Colbert mete e gira a chave de dentro para fora da muralha, por mais falsa que seja a chave que ele encontrou e domina. Porque aprendeu a habitar o interior da cabeça dos conservadores servindo-se do seu personagem, Colbert conseguiu mostrar, quatro noites por semana, como funciona a psicologia da direita reacionária.

E assim, em seu último segmento "Formidable Opponent", o reacionário disse que a América jamais iria torturar. O Stephen mais moderado contra-argumentou que já não havia como desmentir. Que o Relatório do Senado comprova que sim, torturaram. Ao que o primeiro Stephen responde: "Ah, eu não estou falando sobre o país real. Eu estou falando sobre a idéia de América. A idéia da América nunca iria torturar ... É isso, meu amigo, é por isso que eu escolho viver na idéia da América. "

É impossível assistir a esse tipo de personagem, que se ancora nessa franqueza sem véus, sem sentir alguma simpatia por ele e, claro, também pelo próprio conservadorismo.

Colbert expressa simpatia, mostrando que, sob a afirmação de seu caráter de onipotência e certeza, há uma fragilidade, que está enterrada em todos os blowhards da vida real e seus dittoheads.

Se pararem de bater palmas, Tinker Bell vai morrer. Se os acenos de concordância param, a força acaba. Se você para de correr na mesma direção em que vai a manada, você ser ser atropelado..

Todas as noites o personagem Colbert se faz aço a permanecer no caminho estreito e apertado por medo.

Sua fanfarronice disfarçou o fato de que ele é um covarde e uma criança grande. (Nisso o personagem mais próximo de Colbert seria Lawton Smalls, velho personagem reacionário de Marc Maron que caía em lágrimas quando não conseguia salvar seus delírios políticos). De vez em quando, Colbert escondia-se sob a mesa, ou punha-se aos berros (porque temos de extinguir da face da Terra todos os ursos!) “Ursos”, como se sabe, significa “Rússia”, mas também o comercial de Reagan “Bear in the Woods”, ou mesmo, “Papai Urso” [Bill O’Reilly]. Mas o mais provável é que o medo de ursos, em Colbert, era o próprio medo, um terror irracional de algo que jamais vimos, com o que jamais cruzamos, como painéis da morte do Obamacare ou bandidos que saem do mato para receber armas que os EUA lhes enviaram. Será que levam para entregar lá a “Doçura”, a pistola que Stephen acaricia e que, tanto quanto se conhece é o único interesse amoroso sério da vida dele.

Mais frequentemente, porém, Colbert cavalga destemido sempre avante, sem retroceder, enunciando os maiores absurdos, sem tomar conhecimento de problemas e consequências. Era o traço “Inspetor Clouseau” de Colbert. É a impenetrável inocência do personagem e o coração do ator que combinam, me parece, para gerar tanta afeição, amor, de fato, por Colbert.

Eu sempre disse que aprecio Jon Stewart (e aprecio muito, muito, John Oliver), mas amo Stephen. Rio tanto, que choro. Eu rio tanto que choro, e, chorando, eu desmaio.

Pensa-se em geral que Stewart faz a sátira política que bate mais forte. Mas Colbert, sob um fino véu de ficção, pode, sim, morder muito mais fundo. Colbert de fato é uma ameaça a O’Reilly – que dá sinais ativos de que não gosta dele –, e O’Reilly e Stewart apoiam-se mutuamente.

Colbert também faz coisas mais próximas do ativismo conservador que Stewart tanto despreza. Como quando Colbert depôs numa subcomissão de Justiça da Câmara de Representantes a favor de garantias para empregos de americanos, em vez de proteção à mão de obra de imigrantes. Ou quando, num dos momentos mais brilhantes da comédia de todos os tempos, foi mestre de cerimônias do Jantar dos Correspondentes da Casa Branca em 2006. Estando a poucos metros do presidente George W. Bush, Colbert, o personagem, disse:

"Não somos assim tão diferentes, ele [o presidente] e eu. Chegamos lá. Não somos cérebros, a patrulhar nerds. Não somos da gangue do facticídio. Nós dois falamos com as tripas, certo, senhor presidente? 
A melhor coisa sobre este homem é que ele é constante. Você sabe onde ele está. Ele acredita na mesma coisa quarta-feira que ele acreditava na segunda-feira, não importa o que aconteceu terça-feira. Os eventos podem mudar; as crenças deste homem não."

Mas Colbert mordeu ainda mais profundamente nos jornalistas presentes, os quais, como se soube depois, não acharam graça nenhuma:

"Ao longo dos últimos cinco anos, vocês foram ótimos – a favor de cortar impostos que só ricos pagam, aquela inteligência toda sobre armas de destruição em massa, a favor do aquecimento global. Nós, americanos, não queríamos saber, e vocês nos fizeram a gentileza de nada investigar e nada descobrir. Bons tempos aqueles... pelo menos foi o que vocês disseram. 
Mas, escute, vamos rever as regras. Veja como funciona: o presidente toma decisões.. Ele é o Decididor. O secretário de imprensa só anuncia aquelas decisões, e vocês, turma ‘da mídia’, só digitam aquelas decisões. Decidir, anunciar, digitar. É passar lá o corretor ortográfico e ir p’ra casa. Localizem a família de vocês. Façam sexo com a mulher de vocês. Escrevam aquele romance que vive chutando dentro da cabeça de vocês. Lembram? Aquele, sobre o intrépido jornalista em Washington que tem coragem de investigar. Vocês sabem - ficção!"

Não se sabe se o Stephen Colbert de ficção diria alguma coisa desse tipo a convidados do "The Late Show". Mas nunca se sabe. Ele já nos surpreendeu antes.

16 de dezembro de 2014

De Internacional Socialista a internacional golpista

Maurice Lemoine

Vencidos nas duas últimas eleições presidenciais por Hugo Chávez em Outubro de 2012 e, posteriormente, por Nicolas Maduro em Abril de 2013, nas regionais de Dezembro de 2012, nas municipais de Dezembro de 2013, os setores mais radicais de oposição venezuelana, tendo por chefes de fila Leopoldo López, coordenador nacional do partido Vontade Popular, a deputada "independente" María Corina Machado e Antonio Ledezma, presidente da câmara "social-democrata" da grande Caracas, lançaram-se em Fevereiro de 2014 numa tentativa de desestabilização do poder, apelando à derrubada de Nicolas Maduro, sob a palavra de ordem genérica "La Salida" (a saída).

Para que conste, é de recordar que Maria Corina Machado, fundadora da organização não-governamental "observação eleitoral", Sumate, financiada pela USAID United States Agency for International Development (USAID) assinou o decreto do breve ditador Pedro Carmona durante o golpe de Estado contra Chávez, em abril de 2002. Por seu lado Leopoldo López, um dos fundadores em 2000 do muito à direita partido Primero Justicia, concebido também graças aos fundos e conselhos da USAID, foi igualmente dos protagonistas particularmente notados no golpe de estado, antes de ingressar na Vontade Popular , oficialmente criado como partido político em 14 de Janeiro de 2011. 

A extrema violência desencadeada entre Fevereiro e Agosto de 2014 causou a morte de 43 pessoas – opositores, adeptos "chavistas", membros das forças da ordem ou mesmo "indiferentes" que se encontravam no lugar errado na hora errada – e centenas de feridos. Liderados por um duvidoso cocktail no qual estiveram implicados membros de organizações da extrema-direita, delinquentes de direito comum e paramilitares colombianos, estas ações tiveram como consequência a detenção e prisão de Leopoldo López, à espera de julgamento, e o indiciamento de Maria Corina Machado.

Historicamente, a Internacional Socialista (IS) está relacionada na Venezuela, com o partido da Ação Democrática. Quando este, em 27 de Fevereiro de 1989, provocou a repressão contra a revolta popular devido à pobreza, o "Caracazo", que provocou entre 347 mortos, números oficiais e três mil vítimas – avaliação geralmente aceita – a IS pudicamente olhou para o lado. Quando a AD tomou parte ativa na tentativa de derrubar Chávez, em Abril de 2002, a IS, tal como o senhor George W. Bush, apoiou-a. Se se fizesse de advogado do diabo, pelo menos poder-se-ia argumentar que estas aberrações foram feitas "em nome de uma velha amizade". Mas o argumento não tem fundamento. Virando as costas à esquerda latino-americana que, de todas as tendências, da Argentina ao Brasil, do Equador à Bolívia, do Uruguai à Nicarágua, denunciaram a tentativa de desestabilizar a Venezuela "Bolivariana", a IS sob a presidência do grego George Papandreu, prosseguiu a sua deriva antidemocrática e de ódio, acabando de conceder à Vontade Popular venezuelana, em 14 de Dezembro, o estatuto de membro permanente.

Redefinindo os pobres como “terroristas”

A maior parte da chamada atividade "terrorista" é um subproduto da atual crise do neoliberalismo e da marginalização de uma crescente parte da população mundial que este produz.

Jeremy H. Keenan

openDemocracy

Crédito: Jeremy H. Keenan.

Em 1997, um grupo de neoconservadores norte-americanos (neocons) estabeleceu um centro de estudos (think tank), conhecido como “Projeto para o Novo Século Americano" (Project for the New American Century). Seu objetivo era a dominação do mundo pelos Estados Unidos. Os seus membros formaram a retaguarda do governo Bush, que assumiu o cargo em 2000, com pelo menos 18 deles colocados em posições-chave nesta administração.

Em setembro de 2000, apenas quatro meses antes do acesso à presidência de Bush, o PNAC publicou um relatório chamado “Reconstruindo as defesas americanas: Estratégia, forças e recursos para um novo século” (Rebuilding America’s Defenses: Strategy, Forces and Resources for a new Century). Dedicado a questões como a manutenção da preeminência estadunidense, como a frustração de potências rivais e como a formação de um sistema global de segurança de acordo com os interesses estadunidenses. A seção V do relatório, chamada “Criando a força dominante de amanhã” (Creating Tomorrow’s Dominant Force) inclui uma frase torpemente escrita: “Além disso, o processo de transformação, mesmo que provoque mudança revolucionária, é provável que sejam longo, se ausente de algum evento catastrófico e catalisador -- como um novo Pearl Harbor”.

Existem numerosas teorias sobre o 11-S. O que fica claro é que cumpriu amplamente a mencionada função de “novo Pearl Harbor”, apresentando os neoconservadores -- que efetivamente controlavam o Pentágono e grande parte do resto de posições mais altas na Administração dos Estados Unidos -- a oportunidade que desejavam. A colocação em marcha da Guerra Global contra o Terrorismo (Global War on Terror) era o meio ideológico necessário para assegurar a militarização de regiões como África, requerida pelos interesses imperiais estadunidenses. Com efeito, Deepark Lal, assessor econômico do Banco Mundial e um economista intimamente relacionado com os think-tanks conservadores, disseram que a Guerra Global contra o Terrorismo poderia ser percebida como “simplesmente uma extensão da defensa do mercado capitalista”.

Durante las primeras dos semanas de su mandato, el Presidente Bush estableció el Grupo de Desarrollo de la Política Energética Nacional (National Energy Policy Development Group), presidido por Dick Cheney. Su informe publicado en Mayo de 2001, cuatro meses antes del 11-S, resaltaba que el petróleo africano pronto cubriría del 25% de las necesidades energéticas estadounidenses.

La importancia del petróleo africano para los Estados Unidos en aquel momento era tal, que el Senador Ed Royce, Presidente del Subcomité de África en el Congreso, pidió que el petróleo africano fuera “considerado como prioritario para la seguridad nacional post 11-S de los Estados Unidos” y el Presidente Bush definió el petróleo africano como un “interés nacional estratégico” y por tanto un recurso que los Estados Unidos podían optar por controlar mediante la fuerza militar.

Gracias a la producción estadounidense de petróleo de esquisto bituminoso, la dependencia de provisiones energéticas extranjeras es algo del pasado, pero es ya muy tarde para salvar a África de su destino.

En lugar de reconocer que la intervención militar estadounidense en África tenía que ver con el control de recursos, la administración Bush usó el pretexto de la reciente puesta en marcha de la Guerra Global contra el Terrorismo para justificar su militarización de África. Sin embargo, con la falta de incidencia del terrorismo en África -- en el sentido del término dado tras el 11-S -- esta actuación era difícil de sostener. Por ello la solución fue fabricar este terrorismo.

En 2002, el Secretario de Defensa Donald Rumsfeld creó un “Grupo de Operaciones proactivo y preventivo” (Proactive, Preemptive Operations Group, P2OG), una organización encubierta para llevar a cabo misiones secretas para “estimular reacciones” en los grupos terroristas, incluyendo el incentivo para llevar a cabo actividades terroristas.

La primera operación de este Grupo, a principios de 2003 supuso el secuestro de 32 turistas europeos en el Sahara argelino, por parte del “Hombre de Bin Laden en el Sahara”, tal y como lo apodó George Bush. El hombre era en realidad un oficial del servicio de inteligencia argelino, que en aquel momento trabajaba para Estados Unidos en el marco de la Guerra Global contra el Terrorismo. Esta operación de “bandera falsa” fue empleada para justificar el lanzamiento de un nuevo frente africano (del Sahara-Sahel) en la Guerra Global contra el Terrorismo.

Al mismo tiempo, el Pentágono elaboró una serie de mapas de África, caracterizando toda la región del Sahara-Sahel como un “espacio incontrolado”, un “Corredor Terrorista” y un “Área Terrorista”.

Antes de esta operación P2OG, no había terrorismo en el Sahel. Pese a estar sumida en la pobreza, se trataba de una de las regiones más seguras de África.

Hoy en día, después de 10 años de falsa política antiterrorista en África, la profecía del Pentágono se ha cumplido. El Sahel se ha convertido en una zona de guerra. Alrededor de 4.000 Fuerzas Especiales francesas están “combatiendo el terrorismo” en Mali, Niger y Chad. En total, Francia tiene actualmente 10.000 tropas en África. Aproximadamente 8.000 tropas de mantenimiento de paz de la ONU se encuentran en Mali. Cerca de 1.000 “instructores” europeos y estadounidenses están proporcionando respaldo a los servicios de inteligencia y “entrenamiento”. Alrededor de 10.00 tropas nacionales se encuentran en alerta. Varios miles de personas han sido asesinadas.

Incluso con anterioridad al cambio de milenio, los límites del neoliberalismo habían sido puestos de manifiesto. “Globalización”, palabra de moda de los noventa, no se caracterizó por una expansión del capitalismo mundial sino por su implosión. La mayor parte de segmentos de la humanidad, el “Cuarto mundo” de Manuel Castells, ha sido excluida de los mercados mundiales, tanto como productores como consumidores. En “La globalización y el Mundo post-colonial” (Globalization and the Postcolonial World), Ankie Hoogvelt sugiere que al menos la mitad de la población mundial ha sido excluida del sistema global.

El milenio actual es un milenio de políticas de exclusión y contención. Mark Duffield, por ejemplo, teorizó que la “nueva agenda de asistencia” invierte los anteriores objetivos desarrollistas de “incorporación” de áreas periféricas en el sistema mundial y por el contrario hoy sirve como una política de dirección y contención de territorios políticamente inseguros situados en los límites de la economía global. En el ámbito militar, AFRICOM, el nuevo Comando de combate estadounidense para África, acogió con entusiasmo el lenguaje del nuevo discurso del “desarrollo de la seguridad” (Security-development) propio de la Comisión por África de Tony Blair, que nos lleva a hablar de “militarización del desarrollo”.

Durante el periodo colonial y finales del pre-colonial, los remanentes de modos de producción pre-capitalistas procuraron cierta seguridad a aquellas secciones de la población excluidas del sistema capitalista. Sin embargo, dado que las industrias extractivas y la agroindustria se expandieron e hicieron mella en las reservas tradicionales, a través de lo que podemos considerar una “acumulación primitiva”, la supervivencia de los excluidos se ha tornado todavía más precaria.

La gente sin embargo, ni se rinde ni muere. Tienen esa cualidad humana fundamental de resistencia. Se organizan, generalmente de forma democrática, para luchar por sus derechos humanos, sus derechos indígenas, derechos de propiedad y su derecho a una buena gobernanza. Sus gobiernos, agentes del sistema neoliberal, regímenes autoritarios represivos preocupados por su propia supervivencia, sirven para contenerlos. En esta tarea de convención, les asiste la Guerra Global contra el Terrorismo, que sirve para deslegitimar las organizaciones civiles, con el consecuente desgaste del empoderamiento de la sociedad civil y sus demandas de “gobernanza democrática”.

Una de las características de la Guerra Global contra el Terrorismo ha sido que numerosos de estos gobiernos se han vuelto aún más represivos, sabiendo que tienen tras ellos a los americanos y a “Occidente”. Véase la Primavera Árabe.

Los gobiernos, como los del Sahel, Argelia y demás, han buscado “rentas terroristas” a través de la generosidad militar y financiera por parte de Estados Unidos. Mauritania, Mali, Níger y Chad, entre otros, son acusados de haber provocado a las minorías étnicas y a la sociedad civil para que tomen las armas, de haberlos “criminalizado” y de designarlos no ya como “rebeldes”, término que reviste cierta dignidad, sino como “terroristas” o, en palabras del Departamento de Estado estadounidense, como “terroristas putativos”.

Los países occidentales han reformado la controvertida legislación terrorista para usarla contra cualquier persona que se oponga al “sistema”, por lo que cada vez más individuos del “Cuarto Mundo”, los marginados y excluidos, son considerados como “terroristas”, sin las sutilezas de la legislación.

Dado que la última crisis económica global ha puesto en evidencia los límites del neoliberalismo y ha profundizado dramáticamente la polarización social, especialmente en el “Sur Global” y en el “Cuarto Mundo”, sólo hay que profundizar en la miríada de estadísticas sobre “terrorismo” producidas por agencias gubernamentales occidentales y la nueva industria de “seguridad terrorista”, para ver qué está ocurriendo.

La mayor parte de datos presentan defectos metodológicos, entre los que destaca la propia definición de “terrorismo” y la distinción entre “terrorismo” y “conflictos armados” de un tipo u otro.

Los datos aportan dos grandes pistas de lo que está ocurriendo. A pesar del incremento en un 43% de los ataques terroristas en 2013, según informa el Departamento de Estado de Estados Unidos, o en un 61% según el Índice de Terrorismo Global (Global Terrorism Index), la mayor parte de los ataques –tal y como admite el Departamento de Estado - fueron locales y regionales, no internacionales. Así, los a los países occidentales les ha ido bien. De las 17.891 personas fallecidas, sólo 16 fueron ciudadanos estadounidenses, mientas que de las 32.577 personas heridas, sólo 12 fueron americanas. De las cerca de 3.000 personas secuestradas, sólo 12 fueron americanas. A los países europeos les ha ido de forma similar.

Una segunda pista es que estos casos toman un cariz completamente distinto si se suprimen los “conflictos armados” y se suprimen países como Irak. Según los datos de Wikipedia, que excluye cerca de 40 “conflictos armados”, se produjeron únicamente 3.348 muertes a causa de ataques terroristas en la primera mitad de 2013, y estima en 6.696 las muertes para el año completo. De éstas, 50% se produjeron en Irak, 32% en Paquistán, Siria y Afganistán.

En otras palabras, cerca de dos tercios de los incidentes terroristas citados por el Departamento de Estado estadounidense y fuentes similares, provienen de “conflictos armados”, la mayor parte de los cuales se vinculan a conflictos étnicos, insurgencias locales, desposesión de tierras, etc. y suponen formas legítimas de resistencia. No obstante, gracias a la ideología prevalente de la Guerra Global contra el Terrorismo, hoy se consideran “terroristas”, cuando la mayor parte de ellos son un producto derivado de la actual crisis del neoliberalismo y la marginación de una creciente proporción de la población mundial que éste produce.

15 de dezembro de 2014

A responsabilidade de Foucault

Foucault não fazia as "perguntas certas". E as respostas que ele encontrou ajudaram a desorientar a esquerda.

Daniel Zamora

Jacobin

Foto do filósofo francês Michel Foucault registrada em 16 de dezembro de 1981 no estúdio de rádio Europe 1 em Paris, França. (Alexis Duclos/AP Photo)
Tradução / A questão do papel do Estado de Bem Estar Social na sociedade capitalista é complexa. Claro, dependendo do contexto, ele pode servir para conter a contestação social, limitar movimentos de transformação radical, até mesmo para reproduzir certas estruturas sociais conservadoras (especialmente no que diz respeito à questões de raça e gênero).

O Estado de Bem Estar Sociais é obviamente o resultado de um compromisso entre classes sociais. Não é, consequentemente, uma questão de “parar por ali”, mas, pelo contrário, de entender que o Estado Providência pode ser o ponto de partida para algo novo. Meu problema com Michel Foucault, portanto, não é que ele procure “ultrapassar” o Estado de Bem Estar Social, mas que ele contribuiu ativamente para sua destruição, e que ele fez isso de uma maneira que estava totalmente em conformidade com a crítica neoliberal de seu momento. Seu objetivo não era de mover-se rumo ao “socialismo”, mas livrar-se dele.

Mas antes de discutir a questão do Estado de Bem Estar Social no final dos anos 1970 e o papel que ele pode ter nas políticas emancipatórias hoje, vamos retornar a algumas daquelas “boas questões” que Foucault estava perguntando.

Teria Foucault feito “algumas das questões certas?”

A primeira questão sobre o Estado de Bem Estar Social colocada por Foucault referia-se as “situações de dependência” que dizia ele causar. À seus olhos, “em uma mão damos às pessoas mais segurança, e na outra aumentamos sua dependência”. Seguridade social produz dependência? Essa crítica é de certo inesperada de um autor classificado como da “ala esquerda”.

Ainda assim, essa frase não é uma afirmação isolada. Dessa maneira, em uma entrevista de 1983, Foucault diz que ele concorda plenamente com um jornalista que afirma existir atualmente uma necessidade de “afirmar a responsabilidade pessoal de cada um por suas próprias escolhas” e continuar rumo a uma maior “accountability” (responsabilização).

Além da “dependência” que ele supostamente cria, Foucault acredita que a seguridade social em última instância serve principalmente aos ricos. Assim, em uma entrevista em 1976, ele invoca, novamente sem muito distanciamento, o argumento neoliberal clássico de acordo com o qual o Estado de Bem Estar Social, na verdade, torna-se um subsídio para os ricos pago pelos pobres, já que normalmente são os ricos que usam com mais frequência os serviços providos.

Como ele explica, “as transferências sociais que eram esperadas do sistema de seguridade social não realizaram completamente as expectativas... Os ricos continuam a utilizar muito mais os serviços médicos que os pobres. Esse é o caso hoje na França. O resultado é que pequenos consumidores, que são também os mais pobres, pagam com os tributos que recolhem o sobre-consumo dos ricos.”

Esse argumento, muito desenvolvido por Milton Friedman em seu pequeno opus Liberdade para Escolher – o qual Foucault com certeza conhecia – basicamente opõe-se a qualquer forma de sistema universal financiado pelo poder público. De acordo com Friedman, tal sistema sempre levará a “transferir do que vai pior para o que vai melhor”.

Como o economista explica, mesmo que “o programa de benefícios seja parcializado em favor das pessoas com menores salários”, “crianças de famílias pobres tendem a começar a trabalhar – e começar a pagar seus impostos trabalhistas – em uma idade relativamente mais jovem; crianças de famílias com rendas mais altas em uma idade muito mais avançada. No outro ponto do círculo da vida, pessoas com salários mais baixos normalmente tem uma vida mais curta que pessoas de salários mais altos. O resultado é que o pobre tende a pagar impostos por mais anos e receber benefícios por menos anos que o rico – tudo sob a alegação de defender os pobres!”

O último grande “problema” enfatizado por Foucault no que diz respeito na questão da saúde reside na natureza “arbitrária” do conceito de “direito” à saúde, e seus efeitos prejudiciais nos gastos sempre crescentes no sistema. De fato, ele afirma que como as necessidades no campo da saúde não são nem quantificáveis nem limitadas, “não é possível fixar objetivamente um campo teórico ou prático, válido para todos, no qual as necessidades de saúde sejam total e definitivamente satisfeitas”. Já que nossos desejos quanto à saúde são diferentes, como poderia haver um “direito” universal para respeitar?

Essa observação, reproduzindo o clássico argumento dos oponentes dos sistemas públicas de saúde, leva ele a concluir que é “claro que dificilmente fará sentido falar em ‘direito à saúde'”. De lá, ele naturalmente prossegue para colocar a questão, “deveria uma sociedade buscar por meios coletivistas a necessidade de saúde de indivíduos? E podem indivíduos legitimamente demandar a satisfação dessas necessidades?” E ele continua e declara que “uma resposta positiva à essa questão não teria uma aceitável, ou até imaginável, realização prática”.

Esse posicionamento é muito próximo dos argumentos neoliberais contra os sistemas universais de saúde, que foram construídos exatamente na noção de um “direito” universal à saúde que poderia ser determinado objetivamente para toda a população. Tal concepção seria repudiada pouco a pouco em favor de uma ideia defendida por Hayek que o cuidado à saúde é um bem de consumo como qualquer outro, e é da responsabilidade de cada indivíduo “escolher” obter tratamento ou não.

Assim, como A. W. Gaffney nota em seu excelente artigo na Jacobin, para Hayek “uma pessoa pode preferir pagar aluguel à ter uma mamografia, enquanto outra pode preferir uma cirurgia no coração ao invés de uma semana de férias.” Como resultado, “a ideia de que existe um padrão ‘objetivamente’ determinável para serviços médicos que pode e será obrigatoriamente provido à todos, um conceito que enfatiza o esquema Beveridge e todo o Sistema Nacional de Saúde Britânico, não tem relação com a realidade.”

Nesse sentido, Hayek, assim como Foucault, “disputa a própria noção de que possa existir algo como o desejo universal – muito menos um ‘direito’ – a qualquer bem de consumo, incluindo o cuidado à saúde.”

Para ser claro, Foucault se preocupa em explicar imediatamente que ele “não advoga, seria desnecessário dizer, um tipo de livre mercado selvagem que resultaria em cobertura individual para aqueles que tem os meios e uma ausência de cobertura para os outros”. Mas parece óbvio para ele, assim mesmo, que é “impossível, em qualquer evento, deixar os gastos crescerem sob essa fórmula no mesmo ritmo dos anos recentes.”

Foucault, então, não advoga pelo neoliberalismo, mas adota todas as suas críticas ao Estado de Bem Estar Social. Ele ataca a suposta “dependência” que ele produz, a própria noção de “direitos”, e seu efeito negativo sobre os pobres. Seu objetivo portanto, não é ir em direção a uma sociedade totalmente neoliberal, mas incorporar no corpus socialista alguns dos elementos decisivos da crítica neoliberal ao Estado. É precisamente nesse sentido que Colin Gordon o vê como um tipo de precursor do Blairismo.

Essa tese também é ilustrada pela proximidade de Foucault com Pierre Rosanvallon, o progenitor francês do “social-liberalismo” agora dominante dentro do Partido Socialista Francês

Além disso, é sob esse prisma que devemos entender o apoio de Foucault aos Novos Filósofos anticomunistas dos anos 1970. Como tem sido mostrado por Michael Scott Christofferson – a quem estou em débito – esse apoio buscou igualmente ir contra a União da Esquerda e toda a ideologia que ela representada. (A União da Esquerda foi uma aliança eleitoral socialista-comunista iniciada em 1970 pelo líder socialista francês François Mitterrand, marcando um agudo retorno à esquerda para os socialistas.)

Para mim, Foucault não estava dessa maneira fazendo as “perguntas corretas”. Pelo contrário, ele popularizou boa parte do senso comum neoliberal que constituiu a base teórica da guerra travada contra o Estado de Bem Estar Social. Esse senso comum, muito longe de ser uma questão secundária, representa na minha opinião um dos principais obstáculos para a instituição de políticas sociais que apontem tão longe.

Como podemos pensar seriamente que colocando em descrédito as ações estatais no campo social e abandonando a própria noção de “direitos” sociais constituem progresso para se pensar “além do Estado de Bem Estar Social”? Tudo que isso tem permitido é a destruição do Estado de Bem Estar Social, nem uma faísca de algo “além”.

O exemplo da frase de Beatriz Preciado é particularmente claro. Nessa afirmação sucinta, ela assume que o recuo do Estado de Bem Estar Social não é um problema político sério. Nos deveríamos provavelmente celebrá-lo, já que irá agora liberar indivíduos do controle social. O mínimo que alguém poderia dizer é que apenas um acadêmico, alguém relativamente protegido da precariedade social, poderia dizer algo assim.

A verdade é que na Europa Continental – mas também nos Estados Unidos – o recuo de programas universais tem levado à considerável regressão social cujo impacto não é só material, é ideológico. Não é apenas o Estado de Bem Estar Social que perdemos – é a nossa capacidade de pensar diferente, de pensar fora das categorias do neoliberalismo.

Qual é a pergunta “certa”? 

Em sua resposta à minha entrevista, um dos principais argumentos críticos de Peter Frase ao meu argumento é que ele não oferece um horizonte político radical fora do capitalismo. Minha análise é, em última instância, limitada à uma crítica interna ao neoliberalismo, e, talvez, espero — secretamente — por um retorno ao fordismo pós-guerra.

Na verdade, meu argumento é muito diferente. Como eu digo claramente no final de minha entrevista, um “retorno” ao passado não é nem possível nem desejável. No máximo, é uma fantasia que não tem chance de ser realizada por caminhos genuinamente emancipatórios. Pelo contrário, esse sentimento de nostalgia é hoje o cerne do sucesso político dos partidos de extrema direita, mas também, cada vez mais, da direita mainstream.

Esse retorno ao passado é sedutor para uma fração não negligenciável da classe trabalhadora. Ao defender uma reversão radical da liberalização cultural e dos efeitos culturais da globalização neoliberal, esses partidos conseguiram ganhar a batalha ideológica e econômica. Eles não propõem uma alternativa real ao capitalismo, enquanto ganham a luta política no terreno dos valores familiares, do trabalho e da responsabilidade.

Essa nostalgia, juntamente com seus efeitos conservadores claros, mesmo assim se esconde dentro de uma dimensão progressista. De maneira que, como a religião para Marx, ela é “o lamento da criatura oprimida, o coração de um mundo sem coração, e a alma de condições sem alma. É o ópio do povo.” Mas esse ópio é “ao mesmo tempo, a expressão de um sofrimento real e o protesto contra o sofrimento real.”

Nós devemos, consequentemente, agarrar a natureza ambivalente desse lamento. Não é somente nostalgia por um mundo sem imigrantes, um mundo de fronteiras, e mulheres na cozinha. É também sobre as instituições da seguridade social e as conquistas sociais da era pós-guerra. Essa aspiração, como a religião aos olhos de Marx, deve então ser lida de ambas as faces. Não é tão só o desejo pela volta a uma sociedade mais conservadora, é também um declaração aos valores progressistas que representavam para a classe trabalhadora.

Meu ponto não é, obviamente, limitar-nos à esse legado, mas, ao contrário, defendê-lo, usá-lo não só para ganhar novamente a classe trabalhadora mas também permitir o desenvolvimento de ideias políticas genuinamente radicais. A questão que deveríamos estar nos fazendo atualmente não é se o Estado de Bem Estar Social que surgiu no pós-guerra é um “beco sem saída” para a esquerda. Pelo contrário, nós deveríamos estar nos perguntando como podemos usar suas dimensões progressistas para o propósito da transformação social.

É muito mais fácil imaginar como uma forma diferente de organização social pareceria com base em elementos mais progressistas dentro do Estado de Bem Estar Social do que começar de idéias abstratas que estão muitas vezes desconexas da realidade dos trabalhadores. É sempre fácil imaginar mundos diferentes e sociedades comunistas de uma maneira teórica e abstrata.

Mas essas ideias são normalmente formuladas em salas de seminário nas universidades e em encontros de grupos políticos marginais. Desligando-se das instituições que efetivamente (e não teoricamente) transformaram o mundo, a esquerda radical também desligou-se do mundo real e das necessidades do dia a dia da maioria da população.

As instituições que os movimentos dos trabalhadores conseguiram estabelecer depois da Segunda Guerra eram muito mais que apenas um instrumento para “estabilizar” o capitalismo. É verdade que essas instituições foram atravessadas por sérias contradições políticas, mas elas também representaram, em sua geminação, os elementos de uma sociedade diferente, onde o mercado poderia não ocupar o lugar central que ocupa hoje.

Nós deveríamos, então, continuar o trabalho político e ideológico que iniciou-se com o nascimento do Estado de Bem Estar Social. Nós devemos radicalizar seu legado, nós deveríamos levá-lo mais fundo, e imaginar com ele – e não contra ele – uma sociedade genuinamente igualitária e democrática.

Movimento histórico de Obama

Noam Chomsky


Tradução / O estabelecimento de laços diplomáticos entre os Estados Unidos e Cuba foi amplamente saudado como um evento de importância histórica. 

Na revista "The New Yorker", John Lee Anderson resumiu a reação geral entre os intelectuais liberais.

"Barack Obama mostrou que pode agir como um estadista de peso histórico. Assim como, neste momento, Raúl Castro. Para os cubanos, este momento será tanto emocionalmente catártico quanto historicamente transformador. O relacionamento deles com seu vizinho americano rico e poderoso do norte permaneceu congelado nos anos 60 por 50 anos. Em um grau surreal, seus destinos também foram congelados. 
Para os americanos, isso também é importante. A paz com Cuba nos leva momentaneamente de volta àquela época dourada em que os Estados Unidos eram uma nação amada por todo o mundo, quando um jovem e simpático J.F.K. estava na presidência – antes do Vietnã, antes de (Salvador) Allende (o presidente chileno), antes do Iraque e de todas as outras misérias – e nos permite nos sentir orgulhosos de nós mesmos por finalmente fazermos a coisa certa."

O passado não é tão idílico como retratado na imagem de Camelot. O presidente John F. Kennedy não foi "antes do Vietnã", nem mesmo antes de Allende e do Iraque. Mas vamos deixar isso de lado. 

Em Cuba, Kennedy herdou a política de embargo do presidente Dwight Eisenhower, assim como seus planos formais para derrubada do regime, que Kennedy rapidamente botou em prática com a invasão à Baia dos Porcos em abril de 1961. 

Na primeira reunião do Gabinete de Kennedy após a invasão fracassada, o clima era "quase selvagem", notou de modo privado o subsecretário de Estado, Chester Bowles. "Havia uma reação quase frenética por um programa de ação." 

Kennedy articulou a histeria em seus pronunciamentos públicos: "As sociedades complacentes, autoindulgentes e moles estão prestes a ser varridas com os escombros da história. Apenas os fortes (...) podem sobreviver", disse ao país, apesar de estar ciente, como disse de forma privada, que os aliados "acham que estamos ligeiramente dementes" em relação a Cuba. Não sem razão.

As ações de Kennedy fizeram jus às suas palavras. Ele lançou uma campanha homicida para levar "os terrores da terra" a Cuba –u ma frase do historiador e conselheiro de Kennedy, Arthur Schlesinger, referindo-se ao projeto que o presidente designou ao seu irmão Robert Kennedy como sendo sua mais alta prioridade.

A campanha, conhecida como Operação Mangusto, envolveu operações paramilitares, guerra econômica e sabotagem, que somadas resultaram nas mortes de milhares de cubanos.

Esses terrores da terra foram um importante fator para levar o mundo à beira da guerra nuclear durante a crise dos mísseis cubanos em outubro de 1962, como revelam estudos recentes. Mesmo assim, o governo Kennedy retomou os ataques terroristas assim que a crise passou.

Uma forma padrão dos apologistas para evitar esses assuntos desagradáveis é se ater aos planos de assassinato de Fidel Castro pela CIA, ridicularizando seu absurdo. Eles de fato existiram, mas foram apenas uma pequena nota de rodapé.

Ao tomar posse após o assassinato de Kennedy, o presidente Lyndon Johnson relaxou o terrorismo. Mas não deixaria Cuba sobreviver em paz. Johnson explicou ao senador J. William Fulbright, presidente do Comitê de Relações Exteriores do Senado, que apesar de "eu não estar interessado em algo como a Baía dos Porcos", ele queria conselho sobre "como poderíamos apertar as porcas mais do que estamos fazendo".

Como observa o historiador latino-americano Lars Schoultz, "apertar as porcas tem sido a política americana desde então".

Certamente alguns sentiram que esses meios delicados não bastavam –como, por exemplo, o chefe de Gabinete do presidente Richard Nixon, Alexander Haig, que pediu ao presidente que "apenas me dê a ordem e eu transformarei aquela maldita ilha em um estacionamento".

A eloquência de Haig capturou vividamente a longa frustração dos líderes americanos com "aquela pequena república cubana infernal", a frase de Theodore Roosevelt enquanto reclamava da não disposição de Cuba em aceitar graciosamente a invasão americana de 1898 para bloquear sua libertação da Espanha e transformá-la em uma colônia virtual.

Louis Pérez, o historiador de Cuba, escreve que a "Guerra Hispano-Americana" (como é conhecida em sua nomenclatura imperial), saudada nos Estados Unidos como uma intervenção humanitária para libertar Cuba, atingiu seus objetivos: "Uma guerra cubana de libertação foi transformada em uma guerra americana de conquista", visando obscurecer a vitória cubana que a invasão rapidamente abortou.

O resultado aliviou as ansiedades americanas a respeito "do que era anátema para todos os autores de políticas norte-americanos desde Thomas Jefferson – a independência cubana".

Como as coisas mudaram em dois séculos.

Ocorreram alguns esforços hesitantes para melhorar as relações nos últimos 50 anos, analisados em detalhes por William LeoGrande e Peter Kornbluh no livro recente deles, "Back Channel to Cuba".

Se deveríamos nos sentir "orgulhosos de nós mesmos" pelos passos dados pelo presidente Barack Obama pode ser debatido, mas eles são "a coisa certa", apesar do embargo esmagador permanecer em vigor em desafio a todo o mundo (com exceção de Israel) e o turismo ainda estar proibido.

Em seu discurso à nação anunciando a nova política, o presidente também deixou claro que, em outros aspectos, a punição a Cuba por se recusar a se curvar à vontade e violência americana continuará.

Vale a pena notar as palavras de Obama:

"Orgulhosamente, os Estados Unidos têm apoiado a democracia e os direitos humanos em Cuba ao longo dessas cinco décadas. Nós o fizemos principalmente por meio de políticas que visavam isolar a ilha, impedindo a viagem e comércio mais básicos que os americanos podem desfrutar em qualquer outro lugar. E apesar dessa política ter raízes na melhor das intenções, nenhum outro país se juntou a nós na imposição dessas sanções e elas tiveram pouco efeito, fora fornecer ao governo cubano uma desculpa para impor restrições à sua população. (...) Hoje, eu estou sendo honesto com vocês. Nós nunca poderemos apagar a história entre nós."

Esse pronunciamento impressionante traz à mente as palavras de Tácito: "O crime, assim que é exposto, não tem refúgio exceto na audácia".

Obama certamente está ciente da história de fato, que inclui não apenas a guerra terrorista e o embargo econômico, como também a ocupação militar do sudeste de Cuba por mais de um século, incluindo a Baía de Guantánamo, um importante porto. Em comparação, a tomada ilegal da Crimeia pelo presidente russo, Vladimir Putin, parece quase benigna.

A vingança contra os cubanos insolentes que resistiram à dominação americana tem sido tão extrema que até mesmo prevaleceu sobre segmentos poderosos da comunidade empresarial – farmacêutico, agronegócio e energia – que fizeram lobby pela normalização. Esse é um desdobramento incomum na política externa americana.

As políticas vingativas de Washington virtualmente isolaram os Estados Unidos no hemisfério e provocaram desprezo mundial. Washington e seus acólitos gostam de fingir que "isolaram" Cuba, como Obama disse, mas a história mostra claramente que os Estados Unidos é que foram isolados – provavelmente o principal motivo para a mudança parcial de curso.

A opinião doméstica sem dúvida também pesou na "medida histórica" de Obama – apesar do público, de modo irrelevante, ser a favor da normalização há muito tempo. Uma pesquisa da "CNN" em 2014 mostrou que apenas um quarto dos americanos atualmente considera Cuba uma ameaça séria aos Estados Unidos, em comparação a mais de dois terços 30 anos atrás. Com a diminuição dos temores, talvez possamos relaxar um pouco nossa vigilância.

Nos comentários sobre a decisão de Obama, um tema principal tem sido que os esforços benignos de Washington de levar democracia e direitos humanos aos cubanos sofredores, manchados apenas pelas peripécias infantis da CIA, foram um fracasso. Nossas metas elevadas não foram atingidas, de modo que uma mudança de curso relutante é necessária.

A mentalidade imperial é maravilhosa de se ver. Dificilmente passa um dia sem novas ilustrações. Nós podemos adicionar a nova "medida histórica" em relação a Cuba, e sua recepção, à lista notável.

14 de dezembro de 2014

O aumento fenomenal na desigualdade de riqueza

Prabhat Patnaik


Tradução / O Credit Suisse publica todos os anos um Relatório da riqueza global (Global Wealth Report). O relatório deste ano refere-se à discussão específica da questão da desigualdade de riqueza. O termo "riqueza" no relatório cobre apenas riqueza familiar e refere-se ao valor de ativos a preços correntes. Por outras palavras, ele inclui ganhos de capital e portanto os efeitos de fatores especulativos.

Há dois pontos a serem observados ao discutir os números apresentados no relatório do Credit Suisse. Primeiro, o termo "riqueza" utilizado no relatório difere do stock de capital, ou de ativos reais em geral. Isto acontece porque, muito embora toda riqueza refira-se em última análise à propriedade de ativos reais, com ativos financeiros sendo nada além de declarações de direitos (claims) sobre ativos reais, os preços dos ativos reais e os preços das declarações de direitos sobre ativos reais podem mover-se muito desigualmente. Portanto, quando há uma "bolha" no mercado de ações, o valor da riqueza na forma de, digamos, ações aumenta; mas pode não haver qualquer aumento correspondente no valor dos ativos reais da firma cujas ações aumentaram de valor.

Em segundo lugar, em qualquer comparação internacional há uma questão importante relacionada com a taxa de câmbio apropriada à qual o valor da riqueza em diferentes países deveria ser comparado. O número de bilionários indianos entre os 100 principais no mundo, por exemplo, variaria grandemente conforme se convertesse a sua riqueza em rupias para US dólares à taxa de câmbio oficial ou em alguma taxa de câmbio PPC (a qual tipicamente atribui à rupia um valor mais alto). Este segundo problema, entretanto, não se levanta se estivermos a comparar mudanças de desigualdade de riqueza transversalmente a países, pois isso envolve somente a distribuição relativa de riqueza dentro de cada país e não exige qualquer conversão de diferentes divisas em dólares. Limitar-nos-emos aqui a este último exercício.

A primeira coisa a perceber é o notável aumento na desigualdade de riqueza que se verificou no mundo capitalista após a década de 1970, isto é, desde que começou a nova ascendência do capital financeiro. Nos Estados Unidos, por exemplo, entre 1910 e 1970 a fatia dos 10% de topo das famílias no total da riqueza familiar declinou de 81% para 64%, depois de 1970 aumentou acentuadamente de 64% para 75%. Da mesma forma, a fatia dos 1% de topo das famílias no total da riqueza total entre 1910 e 1970 declinou de 45% para 28%; mas aumentou posteriormente de 28% para 34%. E mais ou menos o mesmo quadro mantém-se para as outras economias capitalistas avançadas.

Mas neste último período, quando a desigualdade de riqueza aumentou, este aumento foi substancialmente consumado por volta de 2000; se tomarmos o período 2000 a 2014, então a fatia do decil de topo ou do percentil de topo na riqueza total não aumentou muito mais, no todo, dentro das economias capitalistas avançadas do mundo. Neste último período, entretanto, o aumento dramático real teve lugar na desigualdade de riqueza dentro das chamadas "economias de mercado emergentes".

Em 2014, a "desigualdade muito alta", definida como uma situação em que o decil de topo tem mais do que 70% da riqueza familiar total, caracterizou Hong Kong, Suíça e Estados Unidos entre as economias avançadas. Mas caracterizou também uma dúzia de "economias de mercado emergentes", nomeadamente Argentina, Brasil, Egito, Índia, Indonésia, Malásia, Peru, Filipinas, Rússia, África do Sul, Tailândia e Turquia. (A China e Formosa estão entre os de "alta desigualdade", o que é diferente de "desigualdade muito alta", países onde a fatia do decil de topo em riqueza familiar está acima dos 60% mas abaixo dos 70%).

Além disso, entre 2000 e 2014, entre as economias em que houve o que o Relatório chama de uma situação de "ascensão rápida" na desigualdade, definida como aumento de 0,5 ponto percentual ou mais por ano na fatia do decil de topo na riqueza familiar total ao longo do período em referência, estas chamadas "economias de mercado emergentes" estiveram bem representadas. A "ascensão rápida" verificou-se na China, Egito, Hong Kong, Turquia, Coreia, Índia, Rússia, Argentina e Formosa. É como se a onda de ascensão na desigualdade de riqueza, começada a partir do mundo capitalista avançado, se propagasse por todas as "economias de mercado emergentes" ao longo do tempo.

Consequências perigosas

Embora o relatório do Credit Suisse não diga isso, esta mesma onda está inextrincavelmente ligada ao processo de "globalização" desencadeado sob a hegemonia do capital financeiro internacional. Este enfraqueceu sindicatos e o movimento da classe trabalhadora na generalidade, fortaleceu muito os músculos do capital o qual pode agora manter a ameaça de abandonar um país se o seu diktat for desobedecido e, portanto, forçar cada Estado-nação a inclinar-se a fim de impedir a fuga do capital. Mas a sua propagação através do globo provocou uma mudança imensa cujas consequências sociais e políticas são extremamente perigosas. Esta mudança equivale a uma verdadeira reversão do avanço democrático feito pelo povo em grandes partes do mundo no decorrer das últimas várias décadas.

Entretanto, mesmo entre os países escolhidos pelo relatório do Crédit Suisse como exemplos de "ascensão rápida" em desigualdade de riqueza, a Índia sobressai. O aumento da desigualdade de riqueza na Índia entre 2000 e 2014, o período em estudo, foi verdadeiramente fenomenal. E isto resulta não tanto da fatia percentil do decil de topo na riqueza familiar total, a qual, embora tenha aumentado de 65,9% para 74% durante o período, foi ofuscado pelo aumento em vários outros países, como do aumento na fatia do percentil de topo. Hoje a fatia dos 1% do topo da riqueza total na Índia é maior do que a fatia dos 1% do topo desde sempre nos Estados Unidos, a economia capitalista arquetípica, em toda a sua história ao longo do século passado.

Por outras palavras, dentro do próprio decil do topo, se excluirmos os outros 9% daqueles 1% do topo, a sua fatia na riqueza familiar total aumentou de cerca de 19% em 2000 para 26% em 2014, o que por si mesmo constitui a "ascensão rápida" pela definição dada acima. Mas a ascensão da fatia dos 1% do topo em quase um ponto percentual por ano entre estas duas datas constitui um caso de "ascensão super rápida".

A própria ideia de uns meros 1% das famílias possuírem a metade da riqueza é quase incrível. Além disso, é um número mais elevado do que para o mundo como um todo. Segundo um cálculo do mesmo relatório publicado em The Hindu em 08 de dezembro de 2014, a fatia dos 1% do topo para o mundo como um todo em 2014 era de 48,2%, comparados com 49% para a Índia. E, além disso, a fatia dos 1% do topo na Índia tem estado a ascender muito mais rápido para o mundo como um todo. Em 2000, enquanto era de 36,8% na Índia, no mundo como um todo era de 48,7%; mas em 2014, a fatia havia aumentado para 49% para a Índia, a comparar com 48,2% para o mundo. Por outras palavras, para o mundo a fatia permaneceu inalterada, ou até declinou marginalmente; mas para a Índia ela aumentou em cerca de 1 ponto percentual por ano.

Como já foi mencionado, a fatia dos 1% de topo nos EUA é cerca de 34% e os EUA têm um do mais altos níveis de desigualdade de riqueza do mundo capitalista avançando, qualificando-se à categoria de "desigualdade muito alta". Mas em comparação com os 34% dos EUA, os 1% de topo na Índia possuem até 49% da riqueza familiar total! Isto é uma desigualdade furiosa e um aumento na desigualdade que é fenomenal por quaisquer padrões.

Contudo, mesmo os números apresentados pelo Credit Suisse num certo sentido não apreendem a extensão real da desigualdade. Eles referem-se à propriedade da riqueza e não ao comando sobre a riqueza. Se uma pessoa da classe média possui, digamos, 10 rupias de ações numa companhia que tem um patrimônio total de 100 rupias e em que um Ambani possui a maioria das ações, digamos 51 rupias, então a riqueza de Ambani será de 51 rupias e o da pessoa da classe média de 10 rupias, de acordo com a definição dada no relatório, com base na qual é medida a desigualdade. Mas de fato o controle sobre o capital é de 100 rupias para Ambani e nenhum para a pessoa da classe média. Segue-se que para qualquer dado grau de desigualdade na propriedade de riqueza, a desigualdade no controle sobre a riqueza é muito maior. Portanto, se os 1% do topo possuem quase a metade da riqueza total, então a percentagem de riqueza total que eles controlam deve ser muito maior.

Concentração de poder

Há duas tendências necessariamente associadas a tal concentração de riqueza. Primeiro, tal concentração de poder econômico inevitavelmente leva a uma concentração de poder político. A elite corporativa-capitalista super rica utiliza toda espécie de expedientes para assegurar isto, desde comprar legisladores e pessoal do Estado até controlar e utilizar os meios de comunicação impressos e eletrônicos, desde financiar eleições de candidatos que favoreçam sua agenda até financiar e apoiar grupos políticos comunais-fascistas.

Segundo, esta concentração do poder econômico com o político é invariavelmente utilizada para produzir ainda maior concentração de tal poder. Isto tem sido claramente visível na Índia. A elite corporativa super rica utilizou todas as artimanhas do seu arsenal para projetar Narendra Modi como a pessoa certa para liderar a nação e financiou amplamente a sua vitória eleitoral. E em contrapartida o governo Modi está a introduzir "reformas" no mercado de trabalho, a deitar abaixo esquemas do setor social e até o Mahatma Gandhi National Rural Employment Guarantee Scheme (MGNREGS), bem como a desviar fundos para "promover a confiança dos investidores" e anunciou esquemas ambiciosos de "desinvestimento". Tudo isso faz parte da agenda dos super-ricos.

A preservação da democracia no país e a defesa da herança da luta anti-colonial exige que tal concentração de poder nas mãos dos super ricos seja rompida. Para isto, é absolutamente necessário que a trajetória "neoliberal" que produz tal concentração de poder e que em última análise e inevitavelmente leva à ascendência do comunal-fascismo como o instrumento através do qual tal poder é exercido, seja completamente revertida.