31 de outubro de 2013

A riqueza global de 2013: O ano em análise

Hans-Ulrich Meister e Robert S. Shafi


A pirâmide da riqueza global 

Este capítulo aborda o padrão da propriedade de riqueza entre indivíduos, examinando não só os escalões de topo dos possuidores de riqueza como também as, muitas vezes esquecidas, seções média e baixa da pirâmide de riqueza. Dois terços dos adultos do mundo têm riqueza inferior a US$ 10 mil e em conjunto representam meramente 3% da riqueza global, ao passo que os 32 milhões de milionários em dólares possuem 41% de todos os ativos.

Disparidade de riqueza

A riqueza pessoal varia entre os adultos por muitas razões. Alguns indivíduos com pouca riqueza podem estar nas etapas iniciais das suas carreiras, com pouca oportunidade ou motivação para acumular ativos. Outros podem ter sofrido contratempos nos negócios ou infortúnios pessoais, ou viverem em partes do mundo onde oportunidades para a criação de riqueza são severamente limitadas. No outro extremo do espectro, há indivíduos que adquiriram uma grande fortuna através de uma combinação de talento, trabalho árduo ou simplesmente por estar no lugar certo no momento certo.

A pirâmide de riqueza na Figura 1 mostra estas diferenças com notável pormenor. Ela tem uma grande base de possuidores de baixa riqueza, mais acima camadas ocupadas por cada vez menos pessoas. Em 2013 estimamos que 3,2 bilhões de indivíduos – mais de dois terços dos adultos do mundo – têm riqueza inferior a US$10.000. Uma nova camada acima com bilhões (23% da população adulta) cai dentro da amplitude dos US$10.000 – US$100.000. Se bem que a riqueza média possuída seja modesta nos segmentos da base e médios da pirâmide, sua riqueza total monta a US$40 trilhões, destacando o potencial para produtos de consumo original e serviços financeiros inovadores destinados a este segmento muitas vezes menosprezado.



Os remanescentes 393 milhões de adultos (8% do mundo) têm valor líquido acima dos US$100.000. Eles incluem 32 milhões de milionários em dólares, um grupo que compreende menos do que 1% da população adulta mundial, ainda que colectivamente possua 41% da riqueza familiar global. Dentro deste grupo estimamos que 98.700 indivíduos possuem mais dos US$50 milhões e 33.900 possuem mais de US$100 milhões.

A base da pirâmide

Os diferentes estratos de riqueza têm distintas características. Embora aqueles ao nível da base estejam amplamente dispersos por todas as regiões, a representação na Índia e na África é desproporcionadamente elevada, ao passo que a Europa e a América do Norte estão correspondentemente sub-representadas (ver Figura 2). A camada da base tem na maior parte a mesma distribuição entre regiões e países, mas é também a mais heterogênea, abarcando um vasto conjunto de circunstâncias familiares. Em países desenvolvidos, apenas cerca de 30% da população cai dentro desta categoria e para a maior parte destes indivíduos, o pertencimento é um fenômeno transitório ou de ciclo de vida associado à juventude, idade avançada ou períodos de desemprego. Em contraste, mais de 90% da população adulta na Índia e na África estão situadas dentro desta base. Em alguns países de baixo rendimento da África, a percentagem da população nesta amplitude de riqueza está próxima dos 100%. Para muitos residentes em países de baixo rendimento, o pertencimento por toda a vida na camada da base é a norma ao invés da exceção.



Riqueza da classe média

Os bilhões de adultos situados na amplitude dos US$10.000 – 100.000 constituem a classe média no contexto da riqueza global. A riqueza média possuída está próxima da média global para todos os níveis de riqueza e o patrimônio líquido total de US$33 trilhões proporciona a este segmento considerável poder econômico. Esta é a camada cuja composição regional acompanha mais de perto a distribuição regional de adultos no mundo, embora a Índia e a África estejam sub-representadas e a China esteja super-representada. O contraste entre a China e a Índia é particularmente interessante. A Índia abriga apenas 4% da classe média global e a sua participação tem estado a elevar-se bastante vagarosamente nos últimos anos. A participação da China, por outro lado, tem estado a crescer rapidamente a agora representa mais de um terço do pertencimento global, quase dez vezes mais elevada do que a da Índia.

O segmento de alta riqueza da pirâmide

A composição regional altera-se significativamente quando se chega aos 393 milhões de adultos do mundo todo que compõem o segmento elevado da pirâmide de riqueza – aqueles com valor líquido de mais de US$100.000. A América do Norte, a Europa e a região da Ásia-Pacífico (omitindo a China e a Índia) em conjunto representam 89% da pertencimento global a este grupo, com a Europa sozinha abrigando 153 milhões de membros (39% do total). Isto compara-se com 2,8 milhões de membros adultos na Índia (0,7% do total global) e um número semelhante em África.

O padrão de pertencimento altera-se mais uma vez quando a atenção se volta para os milionários em dólares no topo da pirâmide. O número de milionários em qualquer país dado é determinado por três fatores: a dimensão da população adulta, a riqueza média e a desigualdade de riqueza. Os Estados Unidos têm classificação elevada em todos os três critérios e têm de longe o maior número de milionários: 13,2 milhões, ou 42% do total mundial (ver Figura 3). Há poucos anos o número de milionários japoneses não estava muito longe do número dos Estados Unidos. Mas o número de milionários em dólar tem subido gradualmente assim como o número de milionários japoneses tem caído – especialmente este ano. Em consequência, a proporção de milionários globais do Japão afundou abaixo dos 10% pela primeira vez em 30 anos ou mais.



Os onze países remanescentes com mais de 1% do total global são encimados pelos países europeus do G7, França, Reino Unido e Itália, todos os quais têm proporções na amplitude dos 5-7%. A China está pouco atrás com um pertencimento de 4% e parece provável que ultrapasse os principais países europeus dentro de uma década. A Suécia e Suíça tem populações relativamente pequenas, mas as suas altas riquezas médias elevam-nas às lita dos países que têm pelo menos 300.000 milionários, o número exigido para 1% do total mundial.

Alteração de pertencimento do grupo milionário

Alterações nos níveis de riqueza desde meados de 2012 afetaram o padrão da sua distribuição. A ascensão em riqueza média combinada com um aumento de população elevaram o número de adultos com pelo menos US$10.000, dos quais só os Estados Unidos representam 1,7 milhão de novos membros (ver Tabela 1). Pode parecer estranho que a Eurozona tenha adquirido tantos novos milionários no ano passado, mais notavelmente a França (287.000), Alemanha (221.000), Itália (127.000), Espanha (47.000) e Bélgica (38.000), mas isto simplesmente compensa em parte a grande queda no número de milionários experimentada um ano atrás. A Austrália, Canadá e Suécia também reduziram o número de milionários em 2011-2012 e agora surgem entre os dez principais ganhadores. O Japão domina completamente a lista de países que perdem milionários, representando perdas de 1,2 milhão, ou 98% do total global.



Indivíduos com riqueza líquida elevada

Estimar o padrão de riqueza dos que possuem mais de US$1 milhão exige um alto grau de engenhosidade porque em altos níveis de riqueza as fontes de dados habituais – inquéritos familiares oficiais – se tornam muito menos confiáveis. Ultrapassamos esta deficiência através da exploração de regularidades estatísticas para assegurar que a riqueza do topo extremo é consistente com os registos anuais da Forbes de bilionários globais e outras listas de dados publicadas em outros lugares. Isto produz estimativas plausíveis do padrão global de ativos possuídos na categoria alto valor líquido (high net worth, HNW) dos US$1 milhão a US$50 milhões, e na categoria ultra alto valor líquido (ultra high net worth, UHNW) dos US$50 milhões para cima. Se bem que a base da pirâmide de riqueza seja ocupada por pessoas de todos os países em várias etapas dos seus ciclos de vida, os indivíduos HNW e UHNW estão fortemente concentrados em regiões e países particulares, e tendem a partilhar estilos de vida razoavelmente semelhante, participando nos mesmos mercados global por bens de luxo, mesmo quando residem em continentes diferentes. Também é provável que as carteiras de riqueza destes indivíduos sejam semelhantes, dominadas por ativos financeiros e, em particular, ações em companhias públicas comercializadas em mercados internacionais. Por estas razões, utilizar taxas de câmbio oficiais para avaliar ativos é mais adequado do que utilizar os níveis de preços locais. Estimamos que há agora 31,4 milhão de adultos HNW com riqueza entre US$1 milhão e US$50 milhões, a maior parte dos quais (28,1 milhões) fica na amplitude US$1-5 milhões (ver Figura 4). Este ano, pela primeira vez, mais de 2 milhões de adultos estão no valor entre US$5 milhões e US$10 milhões, e mais de um milhão têm ativos na amplitude dos US$10-50 milhões. Dois anos atrás a Europa tornou-se brevemente a região com o maior número de indivíduos HNW, mas a América do Norte recuperou a liderança e agora representa um número muito maior: 14,2 milhões (45% do total), a comparar com 10,1 milhões (32%) na Europa. Os países da Ásia-Pacífico excluindo a China e a Índia têm 5,2 milhões de membros (17%) e estimamos que haja agora mais de um milhão de indivíduos HNW na China (3,6% do total global). Os restantes 804.000 indivíduos HNW (2,5% do total) residem na Índia, África ou América Latina.



Indivíduos com riqueza líquida ultra elevada

À escala mundial estimamos que haja 98.700 indivíduos UHNW, definidos como aqueles cuja riqueza líquida excede os US$50 milhões. Destes, 33.900 valem pelo menos US$100 milhões e 3.100 têm ativos superiores a US$500 milhões. A América do Norte domina as classificações regionais, com 48.000 residentes UHNW (49%), ao passo que a Europa tem 24.800 indivíduos (25%) e 14.200 residem em países da Ásia-Pacífico, excluindo a China e a Índia. Dentre países individuais, os EUA vão à frente por uma margem enorme com 45.650 indivíduos UHNW, equivalente a 45% do grupo (ver Figura 5) e quase oito vezes o número na China, a qual está em segundo lugar com 5.830 representantes (5,9% do total global). Este ano a Suíça (3.460) subiu para o quarto lugar saltando o Japão (2.890) e o Reino Unidos (3.190), mas ainda por trás da Alemanha (4.500). O número de indivíduos UHNW no Japão realmente caiu este ano. Os números no Canadá, Hong Kong e Rússia subiram, mas não tão rápido como em outros países, de modo que eles desceram um lugar ou dois nas classificações. Uma forte amostragem de indivíduos UHNW também é evidente na Turquia (1.210), a qual subiu um par de lugares, e na Índia (1.760), Brasil (1.700), Formosa (1.370) e Coreia (1.210), todos os quais mantêm suas posições nas classificações por país do ano passado.



Conclusão 

Diferenças em haveres pessoais de ativos podem ser detectadas através de uma pirâmide de riqueza, na qual milionários estão situados no estrato do topo e as camadas da base são preenchidas com pessoas mais pobres. Comentários sobre riqueza muitas vezes centram-se exclusivamente na parte do topo da pirâmide, o que é lamentável porque US$40 bilhões de riqueza familiar é possuída nos segmentos da base e médios, e satisfazer as necessidades destes possuidores de ativos pode muito bem conduzir a novas tendências no consumo, na indústria e na finança. O Brasil, China, Coreia e Formosa são países que já estão a ascender rapidamente através desta parte da pirâmide de riqueza, com a Indonésia logo atrás e a Índia a crescer rapidamente a partir de um baixo ponto de partida. Ao mesmo tempo, o segmento do topo da pirâmide provavelmente continuará a ser o mais forte condutor das tendências de fluxos e investimento de ativos privados. Nossos números para meados de 2013 indicam que há agora mais de 30 milhões de indivíduos HNW, com mais de um milhão localizado na China e 5,2 milhões a residirem em outros países da Ásia-Pacífico além da China e Índia.

Alteração de fortunas

No pico da pirâmide, cada um dos 98.700 indivíduos UHNW agora vale mais de US$50 milhões. As fortunas recentes criadas na China levam-nos a estimar que 5.830 chineses adultos (5, 9% do total global) agora pertencem ao grupo UHNW, e um número semelhante são de residente no Brasil, Índia ou Rússia. Apesar da haver pouco informação confiável sobre tendências ao longo do tempo nos dados da pirâmide de riqueza, parece quase certos que a riqueza tem estado a crescer mais rapidamente no estrato do topo da pirâmide desde pelo menos o ano 2000 e que esta tendência continua. Por exemplo: o total global de riqueza cresceu 4,9% desde meados de 2012 a meados de 2013, mas o número de milionários no mundo cresceu 6,1% durante o mesmo período, e o número de indivíduos UHNW ascendeu em mais de 10%. Parece portanto que a economia mundial permanece propícia à aquisição e preservação de fortunas de grande e média dimensão.

29 de outubro de 2013

Reivindicando o companheiro Orwell

George Orwell se tornou um espelho no qual qualquer posição política pode olhar e se ver olhando de volta. Mas não se engane – Orwell pertence à Esquerda.

por Scott Poole

Jacobin

Durante a primeira semana de revelações sobre o programa “Prism” da Agência de Segurança Nacional (NSA), George Orwell virou moda.

Ou, mais precisamente, ler (ou pelo menos possuir) 1984 de Orwell virou moda. As vendas do clássico dispararam acima de 7000% no Amazon poucos dias após a liberação dos primeiros relatos sobre a nova e sinistra forma de nossa cultura de vigilância.

A súbita popularidade de Orwell tem um custo para o legado do autor. Ler 1984 e A Revolução dos Bichos fornece apenas uma introdução simplista a um pensador complexo. Além disso, sua escrita e ação no meio de lutas mortíferas dentro da Esquerda tornaram seu legado difícil de entender sem uma análise detalhada de sua vida e obras.

Orwell se tornou um espelho em que todo tipo de posições políticas pode olhar e, sem falhar, se ver olhando de volta. Já passou do tempo de recuperar Orwell como um companheiro na luta por um mundo melhor.

Infelizmente, há mais do que alguns cultistas do Ron Paul, anarquistas de alcance abrangente e hacktivistas libertários que vêem 1984 como um tipo de volume de companhia para A Revolta de Atlas. Mesmo Glenn Beck freqüentemente cita partes selecionadas de Orwell. O falecido Christopher Hitchens deixou as águas ainda mais turvas, usando Orwell como um arquétipo para seu próprio abandono da Esquerda no fim da vida e subsequente apoio à “Guerra ao Terror” de George W. Bush.

A Revolução dos Bichos em si merece atenção especial, uma vez que se tornou um documento importante para os apologistas do capital e conhecido o bastante para que eles possam citá-lo sem lê-lo. Orwell enfrentou dificuldades para publicar o livro – menos por causa de seu conteúdo anti-stalinista, e mais porque as editoras acreditavam que sua mensagem glorificava as intenções e objetivos originais de Outubro de 1917. O poeta profundamente reacionário T.S. Eliot, por exemplo, desgostou intensamente do livro, porque acreditava que A Revolução dos Bichos sugeria que a resposta ao comunismo era “mais comunismo”.

Obscurecendo mais ainda as questões, o conhecimento do público geral do livro vem em grande parte de uma animação de 1954, que como Daniel J. Leab mostra em seu excelente Orwell Subverted, recebeu financiamento da CIA. Feito vários anos após a morte de Orwell, o filme representa uma revisão grave do romance, sugerindo não que a Revolução Russa tivesse dado errado, mas que simplesmente nunca deveria ter ocorrido. As representações positivas de Leon Trotsky (“Bola de Neve” no livro) são suprimidas ou suavizadas. “Velho Major”, o filósofo envelhecido que é uma mistura de Marx e Lenin no romance, é feito para parecer gordo, estúpido e ridículo no filme.

Nos últimos anos de sua vida, o próprio Orwell contribuiu para a confusão sobre sua visão política. Firmemente à Esquerda, ele se associou aos socialistas anticomunistas que se tornaram profundamente desencantados com o curso da política externa soviética. Trabalhando com a Partisan Review, Orwell tornou-se um firme defensor da Oposição de Esquerda anti-stalinista.

Nos últimos meses de sua vida, ele também tomou a fatídica decisão de redigir uma lista de 35 nomes de simpatizantes stalinistas e apologistas liberais burgueses dos “julgamentos” de Stalin. Deve-se notar que Orwell esperava que o governo britânico usasse isso principalmente para propaganda; este não era o tipo de “lista” tão familiar no Comitê de Atividades Antiamericanas que assombra os Estados Unidos. Ainda assim, foi uma decisão indefensável para um moribundo que tinha um arquivo robusto no MI5 detalhando suas atividades e associados “comunistas”.

A prolífica escrita de Orwell nos fornece uma melhor compreensão desses fatos isolados sobre sua biografia. De sua caneta (e do cano de sua arma na Guerra Civil Espanhola), o fascismo raramente teve um inimigo maior, e o socialismo poucos campeões maiores.

Tomemos, por exemplo, o seu Road to Wigan Pier, uma das declarações mais fortes já escritas para a posição socialista. A primeira metade do livro apresenta um retrato profundamente comovente das condições de emprego e da experiência crua da vida, entre os mineiros de carvão no norte da Inglaterra. Ele recria o mundo “daqueles pobres burros de carga subterrâneos, enegrecido até os olhos, com suas gargantas cheias de poeira de carvão, empurrando suas pás para a frente com músculos de aço dos braços e barriga.”

A segunda metade do livro constitui uma defesa vibrante da posição de extrema esquerda. Depois de dar uma das mais completas e elegantes análises de atitudes de classe já escritas em inglês, Orwell diz essencialmente que nenhuma pessoa sã pode deixar de ver o socialismo como a única resposta real a esses problemas; apenas aqueles com a “motivação corrupta” de “se apegar ao sistema social atual” poderiam ficar em oposição a isso.

E, no entanto, Orwell sendo Orwell, boa parte da segunda parte não poupa nenhum soco na sua crítica ao marxismo como expresso na política. Ele é impiedoso em sua crítica de “esnobes bolcheviques”, que são susceptíveis de se casar com ricos e acabar conservadores quando tiverem trinta e cinco anos. Não tem paciência para intelectuais comunistas que falam para a classe trabalhadora apenas na linguagem abstrusa da teoria. Poderíamos passar, diz ele, “com um pouco menos de conversa sobre ‘capitalista’ e ‘proletário’ e um pouco mais sobre os ‘ladrões’ e os ‘roubados’”.

Em geral, Orwell via o socialismo em sua época como falhando em sua tarefa mais básica: ajudar a promover a consciência de classe. Que diferença faz, ele se pergunta em A Caminho de Wigan, quando um burguês se junta ao Partido Comunista Britânico? Não muita, conclui, como por vezes demais o cheiro de diletantismo poderia ser detectado.

O que é necessário, ele acreditava, é um compromisso inabalável com a luta de classes e não o tipo de progressismo vago que muitas vezes prejudica a construção de um movimento de massas do povo. Este ódio às panelinhas esquerdistas e ao jargão de clubes às vezes levou Orwell a uma retórica facilmente levantada hoje por charlatões conservadores. Os vegetarianos o deixavam irritado. O ethos masculino que ele compartilhava com os colegas socialistas Jack London e Ernest Hemingway o cegou às conexões entre a disponibilidade de controle de natalidade e justiça econômica. Seu tom estentóreo sobre tais assuntos surgiu de sua insistência na centralidade da luta de classes. No fim, a luta de classes significava exatamente isso: uma guerra entre os ladrões e os roubados, e não uma subcultura de escolhas políticas peculiares. Os socialistas, ele sugere, são muitas vezes a pior propaganda do socialismo.

Orwell também se prova presciente em sua discussão sobre redefinir categorias marxistas para o novo mundo que assistiu nascer. Se preocupava com o fato de que muita propaganda socialista representava o “trabalhador mítico” como o pedreiro ou mineiro corpulento em seu macacão. Ele sabia que “o trabalhador”, saído direto do Realismo Soviético, seria cada vez mais substituído por um novo tipo de proletariado trabalhando sob uma nova fase do capitalismo.

“E o exército desgraçado de balconistas e lojistas?”, ele pergunta. Sua ideia pressagia nossa consciência atual das possibilidades de construir um movimento que inclua trabalhadores de cubículo e empregados de call center, os “colaboradores” de Walmarts e trabalhadores de redes de fast food. Orwell sabia que se usarmos a linguagem de explorador e explorado, a Esquerda pode defender seus argumentos. Aqueles que enfrentam a natureza viciosa do capitalismo através das longas horas de trabalho de cada dia conhecem a exploração em primeira mão. Eles não são diletantes e, Orwell nos lembra, a revolução pertence a eles.

A luta para criar uma esquerda relevante dependerá da capacidade de falar uma linguagem de luta de classes sem cair no obscurantismo teórico comum aos marxistas na sociedade ocidental de hoje. A trincheira de Orwell em Road to Wigan Pier estaria ainda mais firme se tivesse visto o destino do marxismo nas últimas décadas. Nos Estados Unidos, o “marxista” aparece mais freqüentemente como um elemento nas subculturas acadêmicas da moda do que na ideologia de um movimento de massas.

O primeiro passo para recuperar Orwell é ler Orwell. Road to Wigan Pier e Homage to Catalonia são lugares óbvios para começar. Este último, tratando das suas experiências na guerra civil espanhola lutando com trotskistas, coloca em contexto sua posição veementemente anti-stalinista.

Também vale a pena lembrar que, antes de mais nada, Orwell era um ensaísta inveterado, um dos mais prolíficos resenhadores de livros, filmes, peças de teatro e ideias que o século XX produziu. Ensaios como “Socialistas Podem Ser Felizes?” E até peças aparentemente não relacionadas sobre Charles Dickens, Tolstoi e sobre beber chá estão cheios de análises de classe e críticas ao capitalismo industrial que ele conheceu bem.

O nome de Orwell e 1984 continuam a ter uma ressonância tão poderosa que não é de se surpreender que tantos busquem sua sanção. E, como acontece com todos os pensadores complexos, é possível encontrar o que soa como citações de apoio em sua escrita e experiência de vida para uma série de ideologias.

Usos mercenários de pedaços do trabalho de Orwell se destinam a apropriá-lo para fins reacionários, e não para os objetivos pelos quais ele passou sua vida lutando. Glenn Beck, embora um sem-vergonha, deveria ficar envergonhado. Christopher Hitchens fez um desserviço tentando reivindicá-lo como seu santo padroeiro. George Orwell pertence ao povo.

28 de outubro de 2013

Multimilionários: decadência do Ocidente, auge do resto

Robin Broad e John Cavanagh


Com a ajuda da revista Forbes e em conjunto com alguns companheiros do Instituto de Estudos Políticos levámos a cabo um trabalho sobre os multimilionários e a crescente desigualdade no mundo, durante várias décadas. Da mesma maneira que uma gota de água nos proporciona indícios sobre a sua composição química, estes multimilionários oferecem sinais interessantes sobre as mudanças na fisionomia do poder e nas desigualdades globais.

Depois do espanto inicial perante a extravagante lista dos 1.426 mais ricos deste ano, quisemos examiná-la com mais detalhe. A lista revela a principal mudança de poder no mundo atual: a decadência do ocidente e o auge do resto. Para trás ficaram os dias em que os multimilionários dos EUA eram mais de 40% do total, ocupando a Europa Ocidental e o Japão a maior parte restante.

Hoje, a região Ásia-Pacífico alberga 386 multimilionários, 20 a mais que toda a Europa e Rússia juntas. Em 2013, dos nove países que hospedam mais de 30 multimilionários, só três são de países tradicionalmente “desenvolvidos”: os Estados Unidos, a Alemanha e o Reino Unido. Quem segue os Estados Unidos, com os seus 442 multimilionários? A China, com 122 (em 1995, não tinha nenhum) e a Rússia, em terceiro lugar, com 110. Os multimilionários da China extraíram dinheiro dalgumas fontes ao seu alcance.

Considera-se o homem mais rico do país, Zong Qinghou, que, possuindo a maior fábrica de bebidas do país, ostenta 11.600 milhões de dólares no seu haver. O extenso elenco de multimilionários da Rússia é encabeçado por homens que obtiveram milhares de milhões de riqueza em petróleo, gás natural e minerais do país, desdenhando as devastadoras consequências das suas práticas para com o meio ambiente.

A Alemanha é a quarta na lista, com 58 multimilionários, seguida pela Índia (55), Brasil (46), Turquia (43), Hong Kong (39) e Reino Unido (38). Com efeito, a Turquia tem mais multimilionários que nenhum outro país da Europa, à exceção da Alemanha. Deixemos de lado estes nove países do topo. Taiwan hospeda mais multimilionários que a França; a Indonésia tem mais multimilionários que a Itália ou a Espanha; a Coreia do Sul tem agora mais milionários que o Japão ou a Austrália.

A atual lista de multimilionários é um tributo à crescente desigualdade ocorrida na maior dos países da Terra. O homem mais rico do mundo, por exemplo, é Carlos Slim do México - com um capital de 73.000 milhões de dólares, comparável à bagatela dos 6,2% do PIB do país. A terceira pessoa mais rica, é o rei espanhol do pequeno comércio, Amancio Ortega, que acumulou um capital de 57.000 milhões de dólares num país em que uma quarta parte dos cidadãos está atualmente desempregada.

Os multimilionários norte-americanos ainda dominam a lista, com um total de 442, o que representa 31% do total. Bill Gates e Warren Buffet detêm os lugares número 2 e 4; os seus nomes são bastante conhecidos dada a combinação da sua riqueza, da filantropia e do uso do poder e influência para convencer outros multimilionários a fazerem as suas doações caritativas.

Entre os 12 multimilionários norte-americanos que pertencem às 20 pessoas mais ricas do mundo encontram-se os membros de duas famílias que empregaram a sua vasta riqueza e poder concomitante para corromper os nossos políticos. Charles e David Koch ocupam os 6º e 7º lugares dos mais ricos do mundo; ambos utilizaram uma boa parte dos seus 68.000 milhões de dólares para financiar, não só, os candidatos da extrema direita, mas também campanhas políticas contra as medidas de regulação ambientais ou doutros tipos. Além disso, há quatro Waltons entre os 20 mais ricos; a sua riqueza combinada de 107.300 milhões de dólares disparou graças aos lucros crescentes da WalMart, ao mesmo tempo que esta empresa pressionava cidades e estados para se oporem ao aumento de salários para níveis razoáveis da subsistência.

Como variaram os números ao longo dos anos? Regressemos a 1995, uma época de riqueza emergente no meio da desregulação impulsada pela administração Clinton, nos Estados Unidos, e uma pressão generalizada em todo o mundo para desregular, liberalizar e privatizar os mercados.

Em 1995, a Forbes registou 376 multimilionários no planeta. Destes, 129 (ou 34%) eram dos Estados Unidos. O facto de o número de multimilionários norte-americanos ter crescido para 442, nos dezoito anos seguintes, enquanto a percentagem de multimilionários norte-americanos caía de 34% para 31% do total global, é testemunho de como a atmosfera desreguladora e tendente aos cortes de impostos nos Estados Unidos, sob os mandatos de Clinton e Bush, se mostrou muito favorável para os super ricos.

É de notar que, nestes 18 anos, o chamado mundo desenvolvido viu-se eclipsado pelo chamado mundo em vias de desenvolvimento. Em 1995, os Estados Unidos destacavam-se em número de multimilionários (129), a Alemanha (47) e o Japão (35). Estes três países hospedavam 56% dos multimilionários do mundo. Nenhum outro país se lhes aproximava, estando a França, Hong Kong e a Tailândia empatados em terceiro lugar, com 12 multimilionários cada um.

Nem a Rússia, nem a China possuíam um só multimilionário, em 1995, pese embora que, a respeito da Rússia, a Forbes tenha admitido que o seu crescimento financeiro fora evidente nos anos seguintes à queda do Muro de Berlim. Além disso, em 1995, o Brasil só tinha oito multimilionários e a Índia só dois.

Hoje, estes quatro países (Rússia, China, Brasil e Índia) albergam 333 dos 1.426 multimilionários do mundo - 23% do total. Além disso, o número de multimilionários no Japão caiu significativamente, nos últimos 18 anos, de 35 para 22. Os números oferecem uma imagem dramática do relativo declive dos Estados Unidos, da Europa e do Japão em menos de duas décadas e do surpreendente auge do Brasil, Rússia, Índia e China, assim como do resto da Ásia. Além disso, recordam-nos que os países onde as receitas e despesas eram relativamente equitativas, há vinte anos, como a China e a Rússia, juntaram-se às fileiras da desigualdade.

Ao longo do globo, o rápido aumento de multimilionários em dezenas de países (de novo, o Japão, uma notável exceção) é testemunho de como o clima desregulador destas últimas duas décadas acelerou o auge dos super ricos, enquanto as empresas mantiveram os dos trabalhadores praticamente congelados.

Basta dizer que as sociedades mais igualitárias e mais saudáveis requerem um enfoque radicalmente diferente de políticas de impostos. Tal como o membro associado da agência IPS, Sam Pizzigati, descreveu, os impostos justos formaram uma ampla classe média nos Estados Unidos, entre os anos 40 e os anos 60. Essas políticas de impostos justos são hoje necessárias, em todo o mundo, se pretendermos estreitar em vez de alargar a brecha entre os super possuidores e os não possuidores.

Robin Broad é catedrática na School of International Service, American University, (Washington, D.C.) e John Cavanagh é diretor do Instituto de Estudos Políticos, (Washington, D.C.).

Nossa revolução invisível

Por Chris Hedges

"Você algum dia perguntou-se como é possível que os governos e o capitalismo continuem a existir, apesar de todo o mal e as dificuldades que causam no mundo?" – escreveu o anarquista Alexander Berkman no ensaio A Ideia é a Coisa. – "e se perguntou, deve ter-se respondido que é porque as pessoas apoiam essas instituições, o povo as apóia, e as apoiam porque acreditam nelas."

Berkman estava certo. Enquanto a maioria dos cidadãos acreditarem nas ideias que justificam o capitalismo global, as instituições privadas e do Estado corporativo que servem aos nossos patrões nas empresas e corporações são inabaláveis. Quando essas ideias são destroçadas, as instituições que mantêm a classe dominante desinflam e entram em colapso. A luta de ideias prossegue sob a superfície. E é batalha que o Estado está visivelmente perdendo. Número crescente de norte-americanos já veem isso. Já sabem que foram roubados de todo o poder político. Já reconhecem que nos foram tiradas as nossas mais amadas liberdades civis, e que vivemos sob as vistas do mais intrusivo aparelho de vigilância e controle que jamais existiu na história da humanidade. Metade do país vive na miséria. Muitos do resto de nós, se o Estado corporativo não for derrubado, logo estaremos também, como eles, na miséria. Essas verdades já estão à vista de todos, já é impossível mantê-las ocultas.

Pode parecer que o fermento político está adormecido nos Estados Unidos. Não, não está. As ideias que mantêm o estado-empresa vão aos poucos perdendo eficácia por todo o espectro político. As ideias que nascem para assumir o lugar das outras, contudo, ainda são rudimentares, incipientes. A direita recuou para o fascismo cristão e a celebração da cultura das armas. A esquerda, desequilibrada por décadas de furiosa repressão pelo estado em nome do anticomunismo, luta para reconstruir-se e redefinir-se. Mas a repugnância que o povo sente contra a elite dominante, essa, está em todos, em todos os lugares. A questão é saber que ideias capturarão a imaginação das grandes maiorias.

A revolução quase sempre irrompe de eventos que, em circunstâncias normais, seria considerados sem sentidos ou, no máximo, como atos pequenos de injustiça pelo estado. Mas desde que a revolta inche, como está inchando nos Estados Unidos, qualquer faísca insignificante facilmente incendeia a rebelião popular. Ninguém, nem pessoa nem movimento, pode, sozinho, provocar o grande incêndio. Ninguém sabe onde ou quando acontecerá a irrupção. Ninguém sabe que forma terá. Mas é certo, já, que há uma revolta popular à caminho, nos Estados Unidos. A recusa, pelo estado corporativo, de dar atenção sequer aos pequenos padecimentos dos cidadãos, além do fracasso abjeto de não conseguir conter a galopante repressão pelo estado policial, o desemprego e o subemprego crônicos, o endividamento individual e familiar massivo que atormenta mais da metade da população dos Estados Unidos, o fim da esperança, o desespero que se alastra, tudo isso indica que o revide já é inevitável.

"Porque a revolução é uma evolução que chega ao seu ponto de ebulição, ninguém pode 'fazer' uma verdadeira revolução, assim como ninguém pode ‘fazer’ ferver, sem mais nem menos, a água para o chá" – Berkman escreveu. – "O que faz ferver a água é o fogo que haja por baixo da chaleira: a rapidez com que a água alcança o ponto de ebulição depende da força da chama, do fogo".

As revoluções quando irrompem parecem, para as elites e para o establishment, eventos repentinos e inesperados. É assim, porque o trabalho do verdadeiro fermento revolucionário e de consciência é invisível para a classe dominante, que só o vê quando já está feito, em vasta medida. Ao longo da história, todos os que buscaram mudança radical sempre, antes, tiveram de desacreditar as ideias das elites governantes e construir ideias alternativas para a sociedade, ideias quase sempre incorporadas num mito revolucionário utópico. Articular um socialismo viável, como alternativa à tirania corporativa – como tentam fazer o livro Imagine: Living in a Socialist USA e o site Popular Resistance – é, na minha opinião, tarefa obrigatória. Depois que mudam as ideias de uma vasta porção da população, depois que a visão de uma nova sociedade toma conta da imaginação popular, acabou-se o velho regime.

Levante popular sem ideias e visão de futuro jamais ameaçou as elites governantes. Levante social sem definição de rumo, sem qualquer ideia que lhe dê sentido, rapidamente cai no niilismo, na violência sem propósito e no caos. E se autoconsome. Por isso, essencialmente, discordo de alguns elementos dos anarquistas dos “Black Blocs”. Sou dos que acredita em estratégia. Como tantos outros anarquistas, entre os quais Berkman, Emma Goldman, Pyotr Kropotkin e Mikhail Bakunin.

No momento em que as elites governantes são abertamente desafiadas, já é preciso que uma expressiva maioria tenha perdido a fé nas ideias que sustentam aquelas elites governantes – no nosso caso, as ideias do capitalismo de livre mercado e globalização. E uma vez que muita gente já sinta assim, processo que pode levar anos, “então a evolução social lenta, silenciosa e pacífica torna-se rápida, militante e violenta”, como Berkman escreveu. “A evolução torna-se revolução.”

Estamos caminhando para isso. Não o digo porque seja, eu, militante apoiador da revolução. De fato, nem sou. Prefiro o processo gradual de reformas, de uma democracia funcional. Prefiro um sistema no qual nossas instituições sociais permitam aos cidadãos afastar do poder, por meios não violentos, os que hoje mandam nos Estados Unidos. Prefiro um sistema cujas instituições sejam independentes, não cativas, do poder das empresas. Mas nos Estados Unidos não conhecemos esse sistema e não vivemos nesse tipo de democracia. A revolta, assim, é a única opção possível. As elites governantes, depois de mortas as ideias que justificam sua existência, já recorrem à força. É como seu último esgar, ainda tentando manter o poder nas suas garras. Se um movimento popular não violento é capaz de desarmar ideologicamente os burocratas, os funcionários civis e a polícia – se, numa palavra, é capaz de derrotá-los – então a revolução não violenta é possível. Mas se o Estado consegue ainda organizar violência efetiva e prolongada contra a opinião divergente, é ele quem dissemina a violência revolucionária reativa, o que o Estado chama de “terrorismo”. Revoluções violentas quase sempre fazem nascer revolucionários tão cruéis quanto seus adversários. “Quem combate contra monstros tem de evitar converter-se em monstro, no processo” – Friedrich Nietzsche escreveu. – “Se você encara por tempo bastante o abismo, vê o abismo que o encara de volta.”

Revoluções violentas são sempre trágicas. Eu, e muitos outros ativistas, tentamos manter nosso levante não violento. Queremos poupar o país da violência doméstica, seja a violência do estado-empresa seja a violência dos que se opõem a ele. Nada garante que consigamos, sobretudo porque o estado-empresa comanda vastíssimo aparelho interno de segurança e tem polícia militarizada. Mas temos de tentar.

As empresas, soltas e indiferentes a todas as leis, limitações que o governo tente impor-lhes e limites internos, roubam hoje o máximo que podem, o mais depressa que podem, a caminho da bancarrota. Os gerentes e administradores já nem temem os efeitos da pilhagem. Muitos já esperam o fim dos próprios sistemas que eles saqueiam. São blindados pela húbris e pela ganância pessoal. Acreditam que sua riqueza obscena possa comprar-lhes segurança e proteção. Deviam ter gasto menos tempo em escolas de administração e comércio, e mais tempo em estudos sobre a natureza humana e a história dos homens. Estão cavando a própria cova.

A deriva em que estamos, na direção do totalitarismo-empresa, como qualquer deriva na direção de qualquer totalitarismo é gradual. A maré dos sistemas totalitários vai e vem, muitas vezes dando um passo atrás, para dar dois adiante, e assim vai erodindo o liberalismo democrático. Esse processo está hoje completo, nos EUA. O “consentimento dos governados” já não passa de piada macabra.

Barack Obama não tem poder para desafiar o poder corporativo, como tampouco o tinha Bush, que é portador de necessidades especiais no plano intelectual e provavelmente também no plano emocional, e nunca compreendeu o processo totalitário que a presidência abraçou. Porque Clinton e Obama e o Partido Democrata deles, esses, sim compreendem bem claramente o papel destrutivo que tiveram e continuam a ter, devem ser vistos como ainda mais cínicos, ainda mais gravemente cúmplices da ruína dos EUA. Políticos Democratas falam a língua conhecida do “sinto-a-dor-de-vocês” dos liberais, ao mesmo tempo em que permitem que seu governo-empresa nos roube todo nosso poder pessoal e nossas riquezas pessoais. Não passam de máscaras efetivas e funcionais, para o poder das empresas.

O Estado corporativo quer manter a ficção de que somos pessoalmente ativos no processo político e econômico. Enquanto continuamos a acreditar na ficção da participação, mentira massiva sustentada por massivas campanhas de propaganda, ciclos eleitorais sem fim e sempre absurdos, e na encenação do teatro político vazio, os oligarcas corporativos descansarão em seus jatos privados, salas de reunião, coberturas e mansões. Agora, que a falência do capitalismo corporativo e da globalização está exposta, essa elite governante já dá sinais de nervosismo crescente. Eles sabem que, se morrerem as ideias que justificam o poder deles, eles estão acabados. Por isso as vozes discordantes – e levantes espontâneos como o movimento Occupy – são tão brutalmente agredidos pelo Estado corporativo.

"... [M]any ideas, once held to be true, have come to be regarded as wrong and evil,” Berkman wrote in his essay. “Thus the ideas of the divine right of kings, of slavery and serfdom. There was a time when the whole world believed those institutions to be right, just, and unchangeable. In the measure that those superstitions and false beliefs were fought by advanced thinkers, they became discredited and lost their hold upon the people, and finally the institutions that incorporated those ideas were abolished. Highbrows will tell you that they had ‘outlived’ their ‘usefulness’ and therefore they ‘died.’ But how did they ‘outlive’ their ‘usefulness’? To whom were they useful, and how did they ‘die’? We know already that they were useful only to the master class, and they were done away with by popular uprisings and revolutions."

Chris Hedges mantêm uma coluna regular no site Truthdig. Formou-se na Harvard Divinity School e foi durante quase duas décadas correspondente no exterior do The New York Times. É autor de muitos livros, incluindo: War Is A Force That Gives Us Meaning, What Every Person Should Know About War, e American Fascists: The Christian Right and the War on America. Seu livro mais recente é Empire of Illusion: The End of Literacy and the Triumph of Spectacle.

Chris Hedges, "Our Invisible Revolution", Truthdig, 28 de outubro de 2013.

O pensamento econômico dominante está em estado de negação: o mundo mudou

Apesar do crash, os sumo-sacerdotes da economia recusam-se a olhar para a óbvia realidade que têm em frente dos olhos – e continuam a dar respaldo às elites mundiais.

Aditya Chakrabortty

The Guardian

Tradução / Não é suposto que as rebeliões sejam desencadeadas em auditórios escolares – mas vimos uma na última quinta-feira à noite. Era pequena e bem apresentada e com boas maneiras, e acho que a vou recordar por muito tempo.

Tínhamo-nos reunido no Downing College, em Cambridge, para discutir a crise econômica, embora a miséria quotidiana deste tópico parecesse a léguas dos doces dormitórios e da opulência aveludada deste lugar.

Igualmente incongruentes eram os oradores. A economista de Cambridge Victoria Bateman embora aparentando um ar inocente, veio, no entanto, arrasar os seus colegas. Estes tinham sido estupidamente arrogantes antes do crash – lembram-se da jactância do premiado Nobel Robert Lucas, em 2003, propalando que o “problema central da depressão-prevenção já estava resolvido”? – e, depois do crash, os mesmos economistas não aprenderam nada. Apesar disso, continuaram a ser os profetas preferidos de primeiros-ministros e presidentes. Victoria Bateman terminou a intervenção assim: “Se querem enforcar alguém pela crise, enforquem-me a mim... e também aos meus colegas economistas.”

O que se seguiu foi concordância mas a ranger os dentes. Na noite anterior aos números mais recentes sobre o crescimento, ninguém nesta sala monumental usou a palavra “recuperação”, a não ser com sarcasmo. Em vez disso, os participantes no auditório – de meia-idade, bem vestidos e certamente com generosas hipotecas – viraram-se a atacar os banqueiros, os políticos e, sim, os economistas. Os economistas tinham criado o caos pelo qual toda a gente estava a pagar, sem que, no entanto, tenham sido penalizados por isso.

Em uma das instituições de elite do mundo, as elites estavam a levar uma grande tareia – tanto os gestores financeiros, como os empresários e os acadêmicos. Também sabiam bem o que tinham feito. Chegada a sua vez de falar ao microfone, um biólogo disse: ” Só acreditarei que os economistas fizeram as devidas reformas quando os homens que estão por detrás dos modelos de Black e Scholes [a teoria que ajuda os traders na determinação do valor dos instrumentos financeiros derivados] tenham sido despojados dos seus prêmios Nobel.”

Um dos fatos centrais do pós-crash britânico é que as elites ainda detêm o poder, mas já não controlam a credibilidade necessária para o exercerem. Vê-se isso por exemplo quando Russell Brand fala nos noticiários da noite sobre o corrupto mundo liliputiano de Westminster, e também nos vários videoclips do YouTube que totalizam mais de 3 milhões de visualizações. E foi a isso que eu certamente assisti em Cambridge.

Tal como qualquer pessoa comum na Grã- Bretanha – quer os que ganham o salário mínimo, quer os que têm um salário de cinco dígitos– as pessoas naquele auditório acadêmico tinham sido convencidas durante décadas a confiar nos políticos, nos decisores governamentais e nos empregadores para lhes assegurarem os empregos, as casas e as pensões, assim como perspectivas de futuro para os seus filhos. Após a eclosão da maior e mais longa ruptura econômica desde os anos 30, já não estão, evidentemente, dispostas a renovar essa confiança.

Mas, ao mesmo tempo, as elites – quer em Whitehall, quer na City – mantêm-se na liderança. Olhando para os economistas da corrente dominante ficamos com uma muito boa ideia de como as reformas têm sido impedidas.

Como sublinhou Victoria Bateman, estes paladinos armados de diplomas de doutoramento em prol da “The Great Moderation” (A Grande Moderação) deveriam, por uma questão de justiça, ter sido completamente desacreditados após o crash. Afinal, a coisa mais significativa que emergiu a nível acadêmico da economia nos últimos cinco anos não foi nenhuma obra de pesquisa, mas sim o excelente documentário “Inside Job”, no qual o cineasta Charles Ferguson mostrou como algumas das melhores mentes das universidades americanas tinham sido pagas pela Alta Finança para produzirem trabalhos de investigação em prol da mesma Alta Finança.

Mais ainda, se olharmos em volta para os mais importantes cursos de economia, verificamos que a teoria econômica neoclássica – essa teoria que trata os seres humanos como calculadoras que andam, de maneira omnisciente, só a pensar nos seus próprios interesses, e que considera também que os mercados retornam sempre inevitavelmente à estabilidade – se mantém na liderança. Porquê? Numa palavra: negação. Os sumo-sacerdotes da economia recusam-se a reconhecer que o mundo mudou.

No seu novo livro “Never Let a Serious Crisis Go to Waste”, o economista americano Philip Mirowski narra como um colega na sua universidade foi instado pelos alunos, na primavera de 2009, a falar sobre a crise. Aparentemente, o mundo estava a desabar em torno deles e que melhor fórum haveria para discutir isso senão uma aula de macroeconomia. A resposta? “Os alunos foram informados abruptamente que não era matéria do programa do curso e não havia nada sobre isso no manual do curso e, por isso, o professor não queria desviar-se do plano estabelecido para as aulas. E não falou sobre a crise.”

Algo semelhante está a acontecer na Universidade de Manchester, onde, tal como o meu colega Phillip Inman afirmou na semana passada, os alunos da licenciatura em economia estão a solicitar aos seus professores um programa de estudos que reconheça que há outras maneiras de ver o mundo sem ser apenas uma série de problemas algébricos. Fiquei intrigado com isso: significava que Smith, Marx e Malthus não eram ensinados? Sim, disse-me o finalista da licenciatura de desenvolvimento econômico, Cahal Moran. E o que se ensina de Joseph Schumpeter e da sua teoria da destruição criativa? Ah, ele é mencionado, mas literalmente somente uma menção.

Isso não é tudo culpa dos professores: quando se tem de dar aulas para cerca de 400 alunos ao mesmo tempo, é difícil encontrar tempo e espaço para sair fora do programa. Mas o resultado é que os estudantes de economia saem das salas de exame e vão para os departamentos do governo ou para a City com exatamente o mesmo conjunto de ferramentas que há cinco anos levou ao enorme crash na economia.

A Economia deveria ser uma disciplina abrangente, abarcando filosofia, história e política. Mas as abordagens heterodoxas foram desde há muito tempo banidas da maioria das faculdades, afirma Tony Lawson. Na década de 1970, quando ele começou a ensinar na Universidade de Cambridge, a Faculdade de Economia ainda ostentava verdadeiras lendas como Nicky Kaldor e Joan Robinson. “Havia grandes debates, e os alunos estudavam política assim como história do pensamento econômico.” E agora? “Nada. Nem debates, nem política, nem história do pensamento econômico e os cursos são quase tudo apenas matemática.”

Como é que as elites se mantém na liderança? Se o conto de fadas dos economistas serve para o elucidar, as elites mantém-se na liderança por afastarem a oposição e depois taparem os ouvidos à realidade. O resultado é aquilo que todos nós estamos a pagar.

26 de outubro de 2013

A sociedade americana corre grandes perigos

Jack A. Smith


Uma pessoa pode ter um voto, mas um multimilionário – em virtude de financiar certos candidatos – tem o equivalente a milhares de votos no dia das eleições, defende Jack Smith.

De toda a desgastante confusão e gritaria política que emana de Washington nestes dias, há verdadeiramente pouco para além do que se tornou virtualmente numa rotineira paralisia política.

Nenhuma das diferenças chave que são esgrimidas pelos políticos parecem relacionar-se diretamente com estas cinco questões específicas verdadeiramente cruciais e ameaçadoras com que o povo americano se confronta:

1. A erosão da democracia americana por um sistema político flagrantemente dominado pela grande riqueza, as grandes corporações, Wall Street e os grandes bancos. Uma pessoa pode ter um voto, mas um multimilionário – em virtude de financiar certos candidatos – tem o equivalente a milhares de votos no dia das eleições, nas legislaturas federais e dos estados e consequentemente nos gabinetes executivos. Isto parece-se muito mais com uma oligarquia (domínio de um pequeno grupo de poderosos e de interesses) do que com genuína democracia.

2. O grave enfraquecimento das liberdades civis e dos direitos à privacidade do povo americano pelas administrações Bush e Obama transformaram em doze anos, os Estados Unidos num Estado de Vigilância global. O que aconteceu às “investigações e equilíbrios” que era suposto existir no sistema político dos E.U.A. para proteger as pessoas de tais abusos? O nosso correio, o e-mail, a internet, os telefones e outros aparelhos eletrônicos estão agora a ser ilegalmente acedidos à vontade pelo governo dos Estados Unidos e por muitas agências de espionagem. Algures nos Estados Unidos, um potencial regime do Big Brother está pacientemente nos bastidores a aguardar pelas condições para amadurecer. O aparelho está preparado.

Em ligação com isto, o Washington Post denunciou a 5 de outubro: “David Sanger, o repórter do New York Times que passou duas décadas a dar informações a partir de Washington, diz que a administração Obama é a “administração mais fechada e controladora que ele cobriu até agora. Essa crítica vem de uma notícia sobre liberdade de imprensa nos Estados Unidos escrita pelo anterior editor do Washington Post Leonard Downie Jr., na qual ele afirma que os repórteres sobre segurança nacional enfrentam “desafios vastos e sem precedentes” em resultado da vigilância governamental, secretismo e “controle sofisticado” do acesso dos media às notícias do governo.”

3. A rapidamente crescente desigualdade econômica atingiu um ponto em que cerca de metade da população tem baixos salários ou é pobre, enquanto a classe média está a ficar depauperada e a elite de 1% a 5% vive como a realeza. Entretanto, o desemprego e os despejos continuam elevados enquanto os programas sociais que beneficiam as pessoas estão na tábua de cortar. Como pode haver uma democracia saudável se não existe sequer uma semelhança com a democracia econômica para os pobres, a classe trabalhadora, a classe média baixa e agora também largos sectores da classe média?

4. As alterações climáticas já estão em cima de nós e contudo – apesar de alguns recentes balbucios da Casa Branca em baixar as emissões de gás com efeito de estufa – os Estados Unidos vão dentro em breve tornar-se o maior produtor de petróleo bruto e de gás natural, graças às políticas da administração Obama. Washington sempre exige ser reconhecido como líder mundial, se necessário pela força, e agora está a conduzir o mundo para um desastre ao ignorar a crise climática por medo de perturbar os lucros das corporações e da finança.

5. O governo dos Estados Unidos está determinado em permanecer como a superpotência militar mundial, gastando para cima de $600 mil milhões por ano no Pentágono e uma igual quantia em vários empreendimentos de “segurança nacional” - ao todo mais do que $1.2 biliões por ano. O Presidente Obama mantém guerras no terreno ou com war drones no Afeganistão, Paquistão Ocidental, Iêmen e Somália enquanto continua a aumentar os preparativos militares contra a China. Ao mesmo tempo, Obama envia forças militares especiais do Comando de Operações Especiais Conjuntas (JSOC) para montes de países em todo o globo para assegurar interesses dos Estados Unidos – e a maior parte dos Americanos não tem sequer ideia de que isto está a acontecer.

Obviamente que de uma perspetiva de esquerda, o principal perigo são os Republicanos – a extrema-direita, os reacionários do Tea Party, a maior parte dos grandes negócios e da finança, os libertários, os moderados receosos, os fundamentalistas da Bíblia e os racistas que sobram. Eles são habitualmente contra o direito ao aborto e negam o aquecimento global. Muitos querem “encolher” o governo federal para eliminar a Segurança Social e todos os programas sociais que beneficiam as pessoas, destruir todas as medidas reguladoras dos grandes negócios e erigir barreiras quase inacessíveis contra o movimento dos trabalhadores.

Contudo, as cinco questões-chave acima referidas são o produto quer do Partido Republicano, quer do Partido Democrata. Os libertários e o Tea Party opõem-se fortemente à erosão das liberdades civis. Os libertários são lealmente contra a guerra imperialista. Na verdade, a maior parte dos Democratas parece desvalorizar as duas questões quando o seu partido ocupa a Sala Oval.

O Partido Democrata é um perigo secundário (ou um mal menor, se se preferir). Apesar de controlar a Casa Branca e o Senado há cinco anos e a Casa há dois desses anos – provou ser incapaz de montar um contra ataque efetivo contra a ideologia da direita desenfreada, não porque os Democratas de centro direita tenham a orientação política ou a vontade para servir adequadamente as necessidades das famílias trabalhadoras americanas. Ambos os partidos estão casados num sistema de empresas privadas totalmente baseado na desigualdade econômica em casa e nas guerras imperialistas no estrangeiro. Pode isto honestamente ser objecto de dúvidas por parte dos liberais e dos progressistas, mesmo se estes, sem margem para dúvida, puxarem a alavanca para Hillary Clinton e mais do mesmo em 2016?

O que fez o Partido Democrata para parar a erosão da democracia americana? O que fez para reforçar as liberdades civis? O que fez (nos últimos 50 anos) para inverter o fosso da desigualdade crescente entre ricos e pobres? O que fez para acabar com as guerras e para reduzir substancialmente os gordos orçamentos militar/segurança nacional de modo a investir em programas sociais? O que fez para dar passos significativos para converter os combustíveis fósseis em fontes de energia renovável? Não fez nada de significativo.

A nossa sociedade está mudando rapidamente para o pior. Todos nós podemos ver isso. Ainda tem um caminho a fazer que pode ser parado e invertido antes que o impulso direitista se torne incontrolável. Para fazer isso, é absolutamente necessária uma nova política progressista de esquerda. A marcha da direita tem de ser detida e obrigada a fazer marcha atrás. A marcha da esquerda (não o mal menor do centro direita) tem de arrancar. Tudo o resto, em nossa opinião, não passa de ilusões.

Jack A. Smith é editor da Activist Newsletter e editor fundador do semanário de esquerda Guardian (EUA).

24 de outubro de 2013

A guerra sectária: redesenhando o Oriente Médio

Por Ramzy Baroud [*]

Doha – As águas quentes do Golfo parecem tranquilas de onde estou sentado, mas tal tranquilidade dificilmente reflete os conflitos que esta região continua a gerar. A euforia da chamada Primavera Árabe já passou faz tempo, mas o que restou foi uma região que é rica em recursos oprimida com uma história facilmente manipulada que está em um estado de transição imprudente. Ninguém sabe como será o futuro, mas as possibilidades são amplas e, possivelmente, trágicas.

Em minhas muitas visitas à região, eu nunca encontrei tal falta de clareza quanto ao futuro, apesar do fato de que linhas de batalha foram traçadas como nunca antes. Governos, intelectuais, seitas e comunidades estão se alinhando em ambos os lados de várias divisões. Isto está acontecendo em diversos graus em todo o Oriente Médio, dependendo da localização do conflito.

Alguns países são diretamente engolidos em conflitos sangrentos e definidores – revoluções desencaminhadas, como no Egito, ou revoltas que se transformaram em guerras civis das mais destrutivas como na Síria. Inversamente, aqueles que foram poupados até agora da agonia da guerra, estão bastante envolvidos no financiamento de várias partes em conflito, transportando armas, treinando combatentes e liderando campanhas midiáticas em apoio de uma facção contra outra. Já não existe um conceito como objetividade midiática, nem mesmo em termos relativos.

No entanto, em alguns casos, as linhas também não são traçadas com nenhum grau de certeza. Dentro das fileiras da oposição síria ao regime Baath em Damasco, os grupos são muito numerosos para serem contados, e suas próprias alianças mudam em direções que poucos na mídia parecem notar ou se importam em noticiar. Nós arbitrariamente escrevemos sobre uma ‘'oposição'’, mas na realidade não há plataformas políticas ou militares verdadeiramente unificadoras, seja o Conselho Militar Supremo, Conselho Nacional Sírio ou a Coalizão Nacional Síria. Em um mapa interativo, formulado pela Al Jazeera provavelmente a partir do que parecem ser conclusões por atacado, o conselho militar “alega comandar em torno de 900 grupos e um total de 300.000 combatentes”. A alegação de controle real sobre esses grupos pode ser facilmente contestada, e há diversos outros grupos que operam baseados nas suas próprias agendas, ou unificados sob plataformas militares diferentes com nenhuma obediência a qualquer estrutura política, não àquelas em Istambul ou qualquer outro lugar.

É fácil, contudo, associar conflito perpétuo com o Oriente Médio supostamente inerentemente violento. Por quase duas décadas, muitos avisaram que a intervenção norte-americana no Iraque eventualmente ‘'desestabilizaria'’ toda a região. O termo ‘'desestabilizar'’ foi certamente relevante, já que Israel fez mais que sua parte para desestabilizar diversos países, ocupar alguns e destruir outros. Mas os prospectos de desestabilização política eram muito mais ameaçadores quando o país mais poderoso do mundo investiu muito de seu poder e recursos financeiros para fazer o trabalho.

Em 1990-1991, depois novamente em 2003, e mais uma vez em 2006, o Iraque foi usado como um campo gigante de experimentações de guerra, “construção de estado” e guerra civil provocada pelos EUA. A região nunca havia passado por tal divisão para acomodar linhas sectárias como então.

O discurso que unificou a guerra americana foi descaradamente sectário da maioria xiita oprimida pela minoria sunita. Eles reorganizam uma das paisagens políticas mais complexas do mundo dentro de algumas semanas, com base em um modelo imaginado por “especialistas” em Washington, com pouca experiência de vida real. Não só o Iraque foi feito em pedaços, mas foi refeito várias vezes para acomodar a compreensão inepta da história pelos EUA.

O Iraque continua a sofrer, mesmo depois que os EUA supostamente retiraram suas forças armadas. Milhares de pessoas morreram no Iraque nos últimos meses, com as vítimas identificadas como membros de uma seita ou de outra. Mas a doença do Iraque tornou-se uma doença regional. E como os EUA quando invadem países soberanos e reorganizam as fronteiras políticas, grupos como o Estado Islâmico do Iraque e al-Sham (ISIS) operam onde quer que encontrem sua vocação, sem respeito pelas fronteiras geográficas.

Formado no Iraque, em 2006, como uma plataforma para vários grupos jihadistas como a al-Qaeda no Iraque, ISIS tem sido um componente poderoso da selvagem guerra em curso na Síria. Apesar de sua má reputação, parece ter poucos problemas em encontrar o acesso e recursos. Pior ainda, em algumas partes da Síria, ele opera uma economia pouco estável, que lhe dá maior privilégio do que os grupos sírios caseiros.

Esses grupos nunca teriam existido no Iraque, ou passariam com relativa facilidade para outros países, se não fosse pela invasão dos EUA. Eles funcionam como exércitos particulares, divididos em bandos menores de combatentes aguerridos que são capazes de se orientarem através das fronteiras e tomar o controle de comunidades inteiras. Al-Qaeda, um grupo pouco conhecido há 12 anos, tornou-se uma das partes interessadas no futuro de todos os países do Oriente Médio.

Para os países que não estão submetidos ao tipo de agitação que está sendo experimentado na Síria e no Iraque, eles, no entanto, entendem que é tarde demais para desempenhar o papel de espectador. É uma guerra total se desenvolvendo, e não há tempo para a neutralidade. Preocupantes previsões da mudança da paisagem física da região estão em andamento e poucos países parecem ser poupados.

O recente artigo de Robin Wright no The New York Times, “Imagining a Remapped Middle East”, é uma especulação típica feita pelas elites políticas e meios de comunicação americanos sobre o Oriente Médio. Eles aplicaram a sério antes e depois da invasão dos EUA no Iraque, onde eles retalharam o país árabe de qualquer modo que fosse de acordo com os interesses dos Estados Unidos, na típica fórmula dividir para governar. Desta vez, porém, as perspectivas são assustadoramente sérias e reais. Todos os grandes jogadores, mesmo que aparentemente opostos uns aos outros, estão de fato contribuindo para a divisão plausível. De acordo com Wright, não só os países poderiam se tornar menores, alguns dos territórios retalhados poderiam fazer parte de países vizinhos.

Mesmo cidades-estados - oásis de múltiplas identidades, como Bagdá, enclaves bem armados como Misrata, a terceira maior cidade da Líbia, ou zonas homogêneas como Jabal al-Druze no sul da Síria - podem ter um ressurgimento, mesmo que tecnicamente dentro de países, escreveu Wright. O infográfico que acompanha foi intitulado: “Como 5 países poderiam se tornar 14”.

Se tais eventos nunca vão se realizar, a previsão mesma fala da inegável natureza mutante do conflito no Oriente Médio, onde os países estão agora envolvidos em guerra. As novas linhas de batalha são agora sectárias, carregando os sintomas de uma guerra civil implacável do Iraque. Na verdade, os jogadores são mais ou menos os mesmos, exceto que agora o “jogo” se espalhou para ultrapassar fronteiras porosas do Iraque até espaços muito mais amplos onde os militantes têm o domínio.

Daqui, as águas quentes do Golfo parecem calmas, mas só aparentemente.


21 de outubro de 2013

Líbia: de Kadhafi à Al-Qaeda. Com agradecimentos à CIA...

Estão os Estados Unidos verdadeiramente em guerra contra o terrorismo em África, ou fomentam-no para servir os seus interesses? Estudo de Marc Vandepitte.

Marc Vandepitte[*]


Estado fracassado

Em 11 de outubro, o Primeiro-ministro líbio foi brutalmente derrubado antes de ser libertado algumas horas mais tarde. Este rapto é sintomático da situação no país. Em 12 de outubro, um automóvel armadilhado explodiu perto das embaixadas da Suécia e da Finlândia. Uma semana antes, a embaixada da Rússia foi evacuada, depois de ter sido invadida por homens armados. Há um ano, a mesma coisa aconteceu na embaixada americana. O embaixador e três colaboradores foram mortos. Outras embaixadas tinham sido anteriormente alvos de ataque.

A intervenção ocidental na Líbia, tal como no Iraque e no Afeganistão, instaurou um Estado fracassado. Depois do derrube e do assassinato de Kadhafi, a segurança no país está fora de controle. Atentados contra políticos, ativistas, juízes e serviços de segurança são o pão de cada dia. O governo central exerce apenas o controle do país. Milícias rivais impõem a sua ordem. Em fevereiro, o governo de transição foi forçado a reunir em tendas, depois de ter sido expulso por rebeldes encolerizados. O barco que naufragou perto de Lampedusa, afogando 300 refugiados, provinha da Líbia. Etc.

A Líbia detém as mais importantes reservas de petróleo de África. Mas, depois do caos que reina no país, a extração de petróleo praticamente paralisou. A partir daí, o país tem de importar petróleo para assegurar as necessidades de eletricidade. No início de setembro, as reservas de água para Tripoli foram sabotadas, ameaçando a capital de penúria.

Bases para os terroristas islâmicos

Mas o mais inquietante é a jihadização do país. Os islâmicos controlam territórios inteiros e colocam homens armados nos pontos de controle das cidades de Benghazi e Derna. O personagem Belhadj é disso uma perfeita ilustração. Este velho (por assim dizer) membro eminente da Al-Qaëda esteve implicado nos atentados de Madrid de 2004. Depois do derrube de Kadhafi, tornou-se governador de Trípoli e enviou centenas de jihadistas líbios para a Síria para também combater Assad. Trabalha agora na instauração de um partido conservador islâmico.

A influência da jihadização estende-se bem para lá das fronteiras do país. O ministro tunisino do interior descreve a Líbia como um «refúgio para todos os membros da Al-Qaëda do norte de África». A seguir ao colapso do poder central da Líbia, as armas pesadas caíram nas mãos de toda a espécie de milícias. Uma delas, o Libyan Islamic Fighting Group [Grupo islâmico líbio de combate (NT)], (LIFG), de que Belhadj era dirigente, concluiu uma aliança com os rebeldes islamitas do Mali. Estes últimos conseguiram, com os Tuaregues, tomar o norte do Mali durante alguns meses. A tomada de reféns em grande escala num local de extração de gás de Argélia, em janeiro, deu-se a partir da Líbia. Hoje, a rebelião síria é dirigida a partir da Líbia e a missão do petróleo jiadhista estende-se em direção ao Níger e à Mauritânia.

Com os agradecimentos à CIA

À primeira vista, os Estados Unidos e o Ocidente parece mostrarem-se preocupados com esta recrudescência da atividade jihadista no norte de África. Juntemos-lhe também a Nigéria, a Somália e, mais recentemente, o Quénia. Mas observando de mais perto, a situação é mais complicada. A queda de Kadhafi tornou-se possível através de uma aliança entre as forças especiais francesas, britânicas, jordanas e qataris, de um lado, e dos grupos rebeldes líbios, de outro. O mais importante deles era precisamente o Libyan Islamic Fighting Group (LIFG), que figurava na lista das organizações terroristas proibidas. O seu líder, o mencionado Belhadj, tinha dois a três mil homens debaixo das suas ordens. A sua milícia teve direito a treinos americanos, mesmo antes de ter começado a rebelião na Líbia.

Os Estados Unidos não eram principiantes nessa matéria. Nos anos 80, encarregaram-se da preparação e do enquadramento dos combatentes islamitas extremistas no Afeganistão. Nos anos 90, repetem a dose na Bósnia e, dez anos mais tarde, no Kosovo. Não é de excluir que os serviços de informações ocidentais estejam diretamente ou indiretamente implicados nas atividades terroristas dos Tchechenos na Rússia ou dos Uigures na China.

Os Estados Unidos e a França fingiram-se surpreendidos quando os Tuaregues e os islamitas ocuparam o norte do Mali. Mas não passava de uma fachada. Podemos mesmo perguntarmo-nos se não seriam eles a provocá-lo, como aconteceu em 1990 com o Iraque face ao Kuweit. Tendo em conta a atividade da Al-Qaëda na região, qualquer especialista em geoestratégia sabia que a eliminação de Kadhafi provocaria o recrudescimento da ameaça terrorista ao Magreb e ao Sahel. Como a queda de Kadhafi foi provocada em grande parte pelas milícias jihadistas, que os Estados Unidos treinaram e enquadraram, pode-se começar a fazer perguntas muito sérias. Para mais pormenores a este propósito remeto-vos para um artigo anterior.

Agenda geopolítica

Seja de que maneira for, a ameaça terrorista islamita na região e noutros locais do continente convém bastante aos Estados Unidos. Era a desculpa perfeita para estar militarmente presente e intervir no continente africano. Não escapou a Washington que a China e outros países emergentes estão cada vez mais ativos no continente e constituem assim uma ameaça à sua hegemonia. A China é hoje o mais importante parceiro comercial da África. Segundo o Finantial Times, "a militarização da política americana depois do 11 de setembro é controversa há muito tempo, uma vez que é considerada como uma tentativa de os Estados Unidos reforçarem o seu controlo sobre as matérias-primas e de contrariar o papel comercial exponencial da China".

Em novembro de 2006, a China organizou uma cimeira extraordinária sobre a cooperação económica, onde estiveram presentes, pelo menos, 45 chefes de Estado africanos. Precisamente um mês mais tarde, Bush aprovou o lançamento do Africom. Africom é o contingente militar americano (aviões, navios, tropas, etc.) destinado ao continente africano. Vimo-lo em ação pela primeira vez na Líbia e no Mali. O Africom está desde então em atividade em 49 dos 54 países africanos e os Estados Unidos têm bases ou instalações militares permanentes em pelo menos dez países. A militarização dos Estados Unidos no continente alarga-se permanentemente. A seguir encontra-se um mapa da sua presença no continente nestes dois últimos anos. É bastante eloquente.

Mapa

No terreno econômico, os países do norte perdem terreno face aos países emergentes do sul, e é certamente este o caso de África, um continente rico em matérias-primas. Parece cada vez mais evidente que os países do norte combaterão este reequilíbrio com meios militares. Isto promete para o continente negro.

[*] Filósofo e economista belga, nascido em Gante em 1959, formado nas Universidades de Gante e Lovaina, onde também estudou teologia, Marc Vandepitte é o autor de numerosos livros sobre as relações Norte-sul, América Latina, Cuba e China.

20 de outubro de 2013

6 razões pelas quais privatizações geralmente terminam em desastres

Público bate privado em quase todos os sentidos.

por Paul Buchheit

AlterNet

Sistemas privados estão focados em gerar lucros para as poucas pessoas bem posicionadas. Sistemas públicos, quando abastecidos suficientemente por impostos, funcionam para todo mundo de uma forma igualitária.

Em seguida, as seis razões específicas que mostram porquê privatizações simplesmente não funcionam. 

1. A motivação por lucro move a maior parte do dinheiro para o topo

O administrador do sistema de saúde federal ganhou como salário 170 mil dólares em 2010. O presidente do MD Anderson Cancer Center, no Texas, recebeu dez vezes mais em 2012. Stephen J. Hemsley, o CEO da United Health Group (Grupo Único de Saúde), ganhou 300 vezes mais em um ano, 48 milhões de dólares, a maior parte por causa das ações da empresa.

Em parte por causa dessas desigualdades, nosso sistema de saúde é o mais caro do mundo desenvolvido. O preço de cirurgias comuns é de três a dez vezes mais caro nos Estados Unidos do que na Grã Bretanha, Canadá, França ou Alemanha.

O sistema de saúde público, por outro lado, que não tem a motivação por lucros e a competitividade de cobrança, é administrado de forma eficiente, para todos os americanos elegíveis. De acordo com o Conselho do Seguro de Saúde Acessível e outras fontes, os custos administrativos médicos são muito maiores nas empresas privadas do que no sistema de saúde público.

Mas os privatistas continuam invadindo o setor público. Nosso governo reembolsa os CEOs de empresas privadas em uma taxa aproximadamente duas vezes maior do que o que pagamos para o presidente. No geral, pagamos aos chefes de corporações mais de 7 bilhões de dólares por ano.

Muitos americanos não percebem que a privatização da segurança e saúde social transferiria muito do nosso dinheiro para mais outro grupo de CEOs. 

2. Privatizações atendem pessoas com dinheiro, o setor público atende todo mundo 

Um bom exemplo é o U.S.Postal Service (USPS, Serviço Postal dos EUA em tradução livre), que é legalmente obrigada a atender toda casa do país. O Fedex e o United Parcel Service (UPS, Serviço Único de Encomendas em tradução livre) não conseguem atender lugares deficitários. Além de que a USPS é muito mais barata para pacotes pequenos. Uma comparação online revelou o seguinte por uma entrega de dois dias de pacotes com tamanhos similares para outro estado:


  • USPS – 2 dias US$ 5,68 (46 centavos sem a restrição de dois dias)
  • FedEx – 2 dias US$ 19,28
  • UPS – 2 dias US$ 24,09


USPS é tão barata, de fato, que a Fedex atualmente usa os Correios dos Estados Unidos para aproximadamente 30% de suas encomendas por terra.

Outro exemplo é a educação. Um relatório recente do ProPublica descobriu que nos últimos vinte anos colégios estaduais de quatro anos têm atendido uma parte cada vez menor de estudantes de baixa renda. No nível K-12, estratégias empresariais de redução de custo são uma das consequências da privatização da educação dos nossos filhos. Escolas privilegiadas são menos propensas a aceitar alunos com deficiência. Professores dessas escolas têm menos anos de experiência e uma taxa de rotatividade mais elevada. Os outros funcionários possuem planos insuficientes de aposentadoria e seguro de saúde, e são muito mal pagos.

Finalmente, no que diz a respeito ao sistema de saúde, 43% dos americanos doentes deixou de ir ao médico ou comprar medicamentos em 2011 por causa dos preços excessivos. Estima-se que mais de 40 mil americanos morrem todos os anos porque não podem pagar seguro de saúde.

3. Privatizações tornam necessidades básicas humanas em produtos

Grandes empresas gostariam de privatizar nossa água. Um economista do Citigroup se orgulhou: "Água, como uma série de ativos, será, em minha opinião, a mercadoria física mais importante, superando o petróleo, o cobre, as commodities agrícolas e os metais preciosos."

Eles querem nossa terra. Tentativas de privatização foram feitas na administração de Reagan nos anos 1980 e pelo Congresso, controlado pelos republicanos, nos anos 1990. Em 2006, o presidente Bush propôs leiloar 300 mil hectares de floresta nacional em 41 estados. O caminho da prosperidade de Paul Ryan foi baseado em parte na proposta do republicano Jason Chaffetz': "Eliminação do excesso de terras federais, Lei de 2011", que iria leiloar milhões de hectares de terra no oeste da América.

Eles querem nossas cidades. Um especialista em privatizações disse ao Detroit Free Pressque o dinheiro de verdade está em ações urbanas, como uma "fonte de receita". Então, o recurso mais valioso de Detroit era a Water & Sewerage Department (DWSD, Departamento de Água e Esgoto), que garante 350 milhões de dólares aos bancos, mantendo a demanda. Bloomberg estima um preço de quase meio bilhão de dólares, em uma cidade na qual os donos de casa mal conseguem pagar pelos serviços de água.

E eles querem nossos corpos. Um quinto dos genomas humanos é propriedade privada através de patentes. Amostras de influenza e hepatite foram reivindicadas por laboratórios de universidades e corporações, e por causa disso os pesquisadores não podem usar formas patenteadas de vida para ajudar nas pesquisas sobre o câncer.

4. Sistema público fomenta uma classe média forte

Parte da mitologia do mercado livre é que os funcionários públicos e os trabalhadores sindicalizados são aproveitadores, desfrutando de benefícios que são negados aos trabalhadores do setor privado. Mas os fatos mostram que funcionários do governo e trabalhadores sindicalizados não são pagos em excesso. De acordo com o Census Bureau, funcionários estaduais e municipais compõem 14,5% da classe trabalhadora dos Estados Unidos e recebem 14,3% da remuneração total. Membros de sindicatos representam aproximadamente 12% da classe trabalhadora, mas seus salários correspondem a apenas 10% da renda bruta, conforme relatado pelo IRS.

O trabalhador do setor privado recebe aproximadamente o mesmo salário que o funcionário estadual ou municipal. Mas o salário médio para trabalhadores dos Estados Unidos, dos quais 83% estão no setor privado, foi 18 mil dólares menor em 2009, com 26.261 dólares. A desigualdade é muito mais difundida no setor privado.

5. O setor privado tem incentivos para falhar ou absolutamente incentivo nenhum

A predisposição para falhar mais óbvia é na indústria de prisões privadas. Alguém pode pensar que essa indústria possui o objetivo digno de reabilitar e esvaziar gradualmente as cadeias. Mas o negócio é muito bom. Com cada presidiário gerando até 40 mil dólares por ano em receitas, o número de presos em instalações privadas aumentou mais de 1.600% de 1990 a 2009, de 7 mil para mais de 125 mil. A Corrections Corporation of America (Corporação de Correções da América) se ofereceu recentemente para administrar o sistema de prisões em todos os estados, garantindo manter 90% das cadeias cheias.

Privatistas nem têm incentivos para manter a infraestrutura. David Cay Johnston descreve o estado de deterioração das bases estruturais da América, com redes negligenciadas pelos monopolistas industriais, que cortam gastos em vez de prestar manutenções. Enquanto isso, eles atingem margens de lucros de mais de 50%, oito vezes a média das corporações.

Quanto à segurança pública, os sinais de alerta para privatizações não regulamentadas estão se tornando mais claros e mais fatais. A fábrica de fertilizantes Texas, onde 14 pessoas foram mortas em uma explosão e incêndio, foi inspecionada pela Occupational Safety and Health Administration (OSHA, Administração de Segurança e Saúde de Profissionais) há mais de 25 anos. O Serviço Florestal dos Estados Unidos, marcado pelo incêndio em Prescott, no Arizona, que matou 19 pessoas, foi forçado a cortar 500 bombeiros por causa dos confiscos. O desastre nos trilhos de Lac-Megantic, no Quebec, foi consequência da desregulamentação das ferrovias canadenses. No outro extremo está o setor público, e o Federal Emergency Management Agency (Fema, Agência Federal de Cuidados Emergenciais), que resgatou centenas de pessoas após o furacão Sandy enquanto providenciava alimentos e água a outros milhões.

A falta de incentive privado para a melhoria das condições humanas é evidente em todo o mundo. O World Hunger Education Service (Serviço Mundial de Educação sobre a Fome) afirma que "os sistemas econômicos nocivos são a principal causa de pobreza e fome." De acordo com Nicholas Stern, o chefe economista do Banco Mundial, a mudança climática é "a maior falha de mercado que o mundo já viu."

6. Com sistemas públicos, não temos que ouvir devaneios de "iniciativas individuais"

De volta aos tempos do Reagan, uma declaração impressionante foi feita por Margaret Thatcher: "Não existe isso de sociedade. Existe homens e mulheres individuais, e existem famílias." Mais recentemente, Paul Ryan reclamou que o apoio governamental "drena as iniciativas individuais e a responsabilidade pessoal."

É fácil para pessoas com bons empregos falarem isso.

Iniciativa individual? O apoio público da nossa rede de comunicações permite aos 10% de americanos ricos manterem sua cota de 80% no mercado de ações. CEOs contam com estradas, portos e aeroportos para enviar seus produtos, com FAA e TSA, com a Guarda Costeira e com o Departamento de Transportações para protegê-los, uma rede nacional de energia para potencializar suas indústrias, e torres e satélites de comunicação para conduzir seus negócios online. Talvez o mais importante para os negócios, mesmo quando se trata de lucros a curto prazo, seja a pesquisa a longo prazo financiada com dinheiro do governo. A partir de 2009, universidades ainda recebiam dez vezes mais financiamentos governamentais para ciência e engenharia do que financiamentos industriais.

Público supera o privado em quase todos os sentidos. Somente o hype da mídia de livre mercado mantém muitos americanos acreditando que o sistema "o vencedor leva tudo" é melhor do que trabalhar junto como uma comunidade.

Desastre ideológico: Uma nação de cristãos fundamentalistas

Por Lawrence Davidson

No século XVIII, o ocidente mudou, do mercantilismo para o capitalismo. O mercantilismo era o sistema econômico que dava aos governos amplos poderes regulatórios sobre o comércio, sobretudo para garantir um equilíbrio comercial favorável. Também permitia que se organizassem poderosas guildas de trabalhadores, e protegia as indústrias domésticas. Mas a Revolução Industrial pôs fim ao mercantilismo e trouxe ao poder uma categoria de comerciantes que desejavam poder operar livremente, sem qualquer supervisão pelos governos.

Com o tempo a visão de mundo capitalista acabou por converter o “livre mercado” em fetiche, e passou a ver o governo como, no máximo, um mal necessário. Qualquer regulação era vista como equivalente à escravidão, e o papel do estado ficava reduzido a manter a ordem interna (polícia), defender o reino (militares) e fazer cumprir contratos (as cortes). Qualquer tipo de intromissão do governo nas questões sociais era reprovável, porque, como se dizia, promoveria a preguiça entre os pobres – ou foi esse o mito conveniente que então se implantou. A real razão pela qual era preciso manter num mínimo absoluto a ação do governo sempre foi que a então ascendente classe comercial temia – de fato, odiava e maldizia – os impostos.

Na Europa, as racionalizações pró-capital permaneceram basicamente seculares, buscando maximizar a eficiência, em nome do lucro. Mas nos EUA, onde praticamente nenhum bem ou nenhuma felicidade acontecem que não sejam da responsabilidade de um Deus que tudo vê, as racionalizações seculares passaram rapidamente a ser complementadas com a noção do desejo divino. Deus desejava liberdade econômica sem regulações e que prevalecesse o estado mínimo.

Esse tipo de visão religiosa ainda existe. Hoje, a luta para que voltemos ao governo mínimo e ao máximo de “liberdade” econômica é conduzida por uma coleção de cristãos fundamentalistas de direita, e pelos doidos do movimento Tea Party. Chris Hedges delineia o que lhe parece o pior cenário imaginável, ao qual chegaremos comandados pela ânsia de poder da direita cristã, em seu recente artigo “The Radical Christian Right and the War on the Government” [A direita cristã radical e a guerra contra o governo].[1] Diz que “a face pública” dessa força política “aparece na Câmara de Deputados” e que seu principal objetivo ideológico é “trancar o governo”. Hedges também aponta o senador Ted Cruz do Texas como o político fundamentalista arquetípico, que comanda o ataque contra o ‘grande governo’. Para Hedges, seria só o primeiro passo com vistas ao real objetivo de homens como Cruz, que querem fazer dos EUA uma nação cristã fundamentalista.

Parte II – A luta

Na luta que se seguiu, o inimigo dos conservadores radicais é o Partido Democrata (ou “o governo grande”) em geral, e o presidente Obama em particular. Como indicação de o quando distorsiva e isolacionista a ideologia pode ser, pesquisas feitas com grupos focais [orig. focus groups] de Republicanos conservadores revelaram um medo profundamente fixado neles: uma teoria conspiracional. Segundo os pesquisadores autores do estudo, “O que move a base Republicana (...) é uma crença sincera, genuína, de que Obama tem uma agenda secreta na qual trabalha e que visa e empurrar os EUA na direção do socialismo.” Eles também creem que Obama é o cabeça da conspiração. Parece ser um político que “veio não se sabe de onde” e, assim, é “movido por forças ocultas”. O grupo focal também revelou que a mesma crença existe em “dois de cada três que se identificaram como Republicanos.”

Nas eleições de 2010, uma violenta propaganda combinada para todos os distritos eleitorais ajudou a eleger Republicanos, e uma forte virada conserevadora deu ao Partido Republicano o controle da Câmara de Deputados. Também levou para lá, eleitos, uma forte pluralidade de conservadores de direita. Unidos, esses políticos radicais e muitos de seus eleitores detonaram o tipo de concessão que há, ou deveria haver, no coração da democracia. Para os radicais, os seus princípios (radicais) são mais importantes que qualquer tipo de concessão democrática.

Essa atitude levou à recente confrontação política, com o trancamento do governo federal nos EUA e o quase-calote da dívida pública.

Poucos dias antes do calote, Republicanos moderados começaram a abandonar os conservadores radicais e manifestaram disposição de abrir mão de exigências como o fim do subsídio federal para o atendimento à saúde (popularmente conhecido como “Obamacare”); a eliminação do déficit do governo; e uma redução radical em todos os programas oficiais e no poder regulatório do Estado. Mas só quando o líder da maioria Republicana John Boehner afinal permitiu que se convocasse o plenário para votação aberta na Câmara de Deputados, é que aqueles moderados puderam somar-se aos seus colegas no Senado e produzir uma resolução que, afinal, restaurou o fluxo de dinheiro dentro do governo e salvou os EUA de terem de dar calote em suas dívidas públicas. Mas, ao fazê-lo, os moderados racharam ao meio o Partido Republicano.

Parte III – Uma vitória negada

O que os Republicanos moderados fizeram foi negar a vitória aos conservadores radicais. Porque, sim, os conservadores viam como vitória o fechamento do governo federal e o calote público. Ideologicamente, o objetivo desses radicais é reduzir ao mínimo o papel do governo na sociedade. Contavam com que a capacidade para ‘trancar’ todo o funcionamento do governo federal dos EUA os poria em posição para negociar a minimização daquele governo. Em segundo lugar, a campanha para reduzir impostos federais ao mínimo, pela construção de orçamentos esqueléticos, seria ajudada pela capacidade dos radicais conservadores para empurrar o Departamento do Tesouro até o fundo do despenhadeiro do calote. Todos os Republicanos conservadores teriam de sustentar essa dupla pressão tática, até que os Democratas cedessem. Exatamente o que os Democratas não podiam fazer, mas só não fizeram, em boa parte, graças à deserção dos Republicanos moderados.

Essa batalha ainda não acabou. A Resolução apoiada pelos Republicanos moderados abre o governo federal dos EUA até dezembro de 2013 e libera pagamentos dos juros da dívida até fevereiro de 2014. Então, o EUA enfrentaremos um segundo round de confrontação mortal.

Mas no longo prazo, as coisas não parecem bem paradas para o Partido Republicano. Muitos radicais conservadores já veem seus compatriotas moderados como piores do que qualquer Democrata liberal. Veem-nos como traidores ‘do princípio’ – como políticos que se renderam, apavorados, à agenda “socialista” de Obama. Nessas circunstâncias, grande parte das energias do Partido serão consumidas em lutas internas autodestrutivas. O Partido Republicano corre agora o risco de ver sua base encolher, com moderados derrotados nas primárias correndo para o Partido Democrata, ou firmando posição como independentes. Eleitores democráticos poderão não se sentir motivados, ante o recente espetáculo do ‘trancamento’, a reeleger maioria Republicana para a Câmara de Deputados. Se isso acontecer, o Partido Republicano terá muito trabalho para manter-se vivo como entidade coesa.

Part IV – Conclusão

As ideologias são forma debilitante de visão rasa. A ideologia substitui a realidade por uma versão idealizada, que em geral pouco tem a ver com o mundo real e, portanto, é difícil pô-la em ação. O aspecto econômico da ideologia dos radicais conservadores padece de anacronismo fatal. Antes, no século 19, levou a ciclos devastadores de crescimento e de desfalecimento, e deixou grande parte da população sem os serviços básicos. A Grande Depressão aí está, para não ser esquecida. Quanto ao tamanho do governo e o alcance de suas atividades, é preciso ter em mente que há quase 317 milhões de pessoas nos EUA. Fazer retornar a estrutura do governo ao período pré-Grande Depressão (pior ainda: ao que foi no século 18) minaria completamente a estabilidade social, retirando todas as proteções sociais que mantêm ao largo a miséria mais total, e daria rédea solta a todos os preconceitos que a atual legislação federal desestimula. Ignorem tudo isso, e logo estarão enfrentando revolução de verdade. Os radicais conservadores são obsessivamente cegos a esses problemas, porque esses problemas põem abaixo os seus tais “princípios”.

Todas essas ideologias de visão curta, sejam de direita ou de esquerda, já se comprovaram pouco realistas, e falharam por isso. Infelizmente, geraram problemas terríveis, antes de morrer. Até aqui só vimos uma pálida sombra do potencial de desgraça do desafio ideológico que os EUA temos pela frente. Cabe desejar que consigamos evitar a grande tempestade.

Lawrence Davidson, "A Christian Fundamentalist Nation - Ideological Disaster", Information Clearing House, October 20, 2013.

Vamos entrar nessa luta de classes

Por Chris Hedges

“Os ricos são diferentes de nós”, F. Scott Fitzgerald teria dito a Ernest Hemingway, ao que Hemingway teria respondido, “São, eles têm mais dinheiro”.

O diálogo, embora não tenha acontecido, resume uma sabedoria que Fitzgerald tinha, mas que escapava a Hemingway. Os ricos são diferentes. O casulo de riqueza e privilégio permite que os ricos convertam todos que há à volta deles em trabalhadores dóceis, serviçais, serventes, aduladores e parasitas. A riqueza alimenta, como Fitzgerald ilustrou em O Grande Gatsby e no conto O moço rico, uma classe de gente para quem os serem humanos são mercadoria descartável. Colegas, sócios, empregados, pessoal da cozinha, criados, jardineiros, tutores, personal trainers, até amigos e família, curvem-se aos desígnios dos ricos, ou sumam. Tão logo os oligarcas alcançam riqueza não fiscalizada e poder econômico, como alcançaram nos EUA, os cidadãos também se tornam descartáveis.

A face pública da classe oligárquica tem pouca semelhança com a face privada. Eu, como Fitzgerald, fui lançado nos braços da crosta superior quando jovem. Embarcaram-me, aos dez anos, como aluno bolsista, para um exclusivíssimo internato na Nova Inglaterra. Tive colegas cujos pais – que os filhos viam raramente – chegavam à escola em limusines, acompanhados de fotógrafos pessoais (e, às vezes, suas amantes), para que a imprensa fosse alimentada de imagens de ricos e famosos desempenhando o papel de bons pais. Passei dias em casas de ultra ricos e poderosos, assistindo aos meus colegas, também crianças, a dar ordens em tom de desprezo a homens e mulheres que trabalhavam para eles, choferes, cozinheiros, babás e criados em geral. Quando os filhos e filhas dos ricos metiam-se em confusões, havia sempre advogados, relações públicas e políticos conhecidos a protegê-los – a vida de George W. Bush é caso a ser estudado - da viciosa ação afirmativa para os ricos. Os ricos têm o mais snob desdém pelos pobres – apesar da muita filantropia sempre fotografada e publicada – e pela classe média. Essas classes baixas são vistas como vagabundos e parasitas, incômodo que tem de ser suportado, às vezes aplacado, às vezes controlado na busca para acumular mais poder e mais dinheiro. O ódio que a autoridade me inspira, além da ira que me inspiram as pretensões, a maldade, o nenhum afeto positivo, o senso de “é meu direito” dos ricos, nasceram de ter vivido cercado por privilegiados. Foi experiência profundamente desagradável. Mas ali fui exposto ao insaciável egoísmo, ao infinito hedonismo daquela gente. Já de menino, aprendi quem são os meus inimigos.

A incapacidade de compreender a patologia dos nossos governantes oligarcas é uma das nossas falhas mais graves. Fomos blindados à depravação da elite governante pela incansável propaganda das empresas de relações públicas que trabalham para as corporações e para os ricos. Políticos covardes, “celebridades” ocas e nossa vã, viciosa, rasa cultura popular financiada por empresas, que ensina que os ricos devem liderar para nos convencer de que com dedicação e trabalho duro chegaremos “lá”, nos impedem de ver a verdade.

"Eles eram pessoas descuidadas, Tom e Daisy", Fitzgerald escreveu sobre o casal rico no centro da vida de Gatsby. "Eles quebraram coisas e criaturas e voltaram ao dinheiro deles, ou à sua vasta indiferença, ou a seja lá o que os mantém juntos, e os outros que limpem a bagunça que fizeram."

Aristóteles, Maquiavel, Alexis de Tocqueville, Adam Smith e Karl Marx todos começaram da premissa segundo a qual há um antagonismo natural entre os ricos e as multidões. "Aqueles que têm muito dos bens da fortuna, força, riqueza, amigos, e assim por diante, não são nem dispostos nem capazes de submeter à autoridade", escreveu Aristóteles em Política. "O mal começa em casa , pois quando eles são meninos, em razão do luxo em que são criados, eles nunca aprendem , mesmo na escola, o hábito de obediência". Os oligarcas, como esses filósofos sabiam, são educados nos mecanismos da manipulação, da repressão sutil e acintosa e na exploração para proteger a riqueza e o poder deles, à nossa custa. O principal, dentre seus mecanismos para controlar, é o controle das ideias. As elites governantes asseguram-se de que a classe intelectual estabelecida seja subserviente a uma ideologia – nesse caso, o capitalismo de livre mercado e globalização –, que justifica a ganância e a cobiça. "As ideias dominantes nada são além da expressão ideal das relações materiais dominantes", escreveu Marx, "as relações materiais dominantes objetivadas como ideias."

A ampla, insistente disseminação da ideologia do capitalismo de livre mercado pela imprensa, e o expurgo, especialmente nas universidades, de vozes críticas, permitiram que nossos oligarcas orquestrassem aqui a maior desigualdade social, em todo o mundo industrializado. O 1% mais rico nos Estados Unidos é proprietário de 40% da riqueza da nação; e os 80% abaixo possuem apenas 7%, como Joseph E. Stiglitz escreveu em O Preço da Desigualdade. Para cada dólar que o 1% mais rico acumulou em 1980 receberam outros três dólares em renda anual em 2008, como David Cay Johnston explicou no artigo "9 Coisas que os Ricos não Querem que Você Saiba Sobre Impostos". Os 90% de baixo, disse Johnson, no mesmo período, só acrescentaram 1 centavo aos próprios ganhos. Metade da população dos Estados Unidos está hoje na faixa dos pobres, ou de baixa renda. O valor real do salário mínimo caiu $2,77 desde 1968. Os oligarcas não acreditam em autossacrifício pelo bem comum. Não se sacrificam. Jamais se sacrificarão. Os oligarcas são o câncer da democracia.

"Nós, americanos, não somos vistos como povo submisso, mas é claro que nós somos", escreve Wendell Berry. "Por que outra razão aceitaríamos que nosso país seja destruído? Por que outra razão nós todos – por procuração que demos a políticos corruptos e empresas gananciosas – estaríamos colaborando para essa destruição? Muitos de nós ainda nos mantemos suficientemente sãos para não mijar na própria caixa d’água, mas deixamos que outros mijem e ainda os recompensamos. Recompensamos tão bem, de fato, que os que mijam na nossa caixa d’água são muito mais ricos do que o resto de nós. Como nos submetemos? Por não sermos radical o suficiente. Ou por não sermos suficientemente profundo, o que é a mesma coisa."

A ascensão de um estado oligárquico oferece à nação duas vias, segundo Aristóteles. Ou as multidões empobrecidas revoltam-se para corrigir o desequilíbrio de riqueza e poder, ou os oligarcas estabelecem uma tirania brutal para manter as multidões escravizadas à força. Escolhemos a segunda das opções de Aristóteles. Os lentos avanços que conseguimos no início do século XX, mediante os sindicatos, as regulações sobre atos do governo, o New Deal, os tribunais, uma imprensa alternativa e movimentos de multidões, todos esses avanços foram revertidos. Os oligarcas estão nos convertendo – como já fizeram uma vez, nas fábricas de aço e tecidos no século XIX – em seres humanos descartáveis. Estão construindo o mais invasivo aparato de segurança e de vigilância de toda a história da humanidade, para nos manter submissos.

Esse desequilíbrio não teria perturbado a maioria dos Pais Fundadores. Os fundadores, senhores de escravos, em grande parte ricos, temiam a democracia direta. Ele distorceram o processo político para esvaziar a possibilidade de governos populares e proteger os direitos de propriedade da aristocracia nativa. As multidões tinham de ser mantidas à margem. O Colégio Eleitoral, poder original dos estados para indicar senadores, o enfraquecimento eleitoral das mulheres, dos nativos norte-americanos, dos afro-americanos e dos homens não proprietários prenderam a maioria do lado de fora do processo democrático já desde o início da república. Tivemos de lutar muito para ganharmos alguma voz. Centenas de operários foram mortos e milhares foram feridos em nossas guerras de trabalho. A violência agrediu mais o trabalho que em qualquer outra nação industrializada. As aberturas democráticas que alcançamos foram conquistadas e pagas com o sangue dos abolicionistas, dos afro-americanos, das sufragistas, dos operários e de todos nos movimentos antiguerra e pelos direitos civis. Nossos movimentos radicais, reprimidos e violentamente desmantelados em nome do anticomunismo, foram os verdadeiros motores da igualdade e da justiça social. A dor e o sofrimento infligidos aos trabalhadores pela classe dos oligarcas no século XIX só se comparam ao que sofremos hoje, agora que já nos tiraram todas as proteções sociais. Divergir é, outra vez, ato criminoso. Os Mellons, Rockefellers e Carnegies na virada do século passado tentaram criar uma nação de senhores e escravos. A moderna encarnação empresarial dessa elite oligárquica do século XIX criou um neofeudalismo mundial, no qual os trabalhadores por todo o planeta vivem em miséria, enquanto os empresários oligarcas acumulam centenas de milhões de dólares em riqueza pessoal.

A luta de classes define quase toda a história da humanidade. Marx estava certo sobre isso. Quanto antes nos dermos conta de que estamos presos em uma guerra mortal contra os que nos governam, a elite corporativa, mais depressa nos daremos conta de que essas elites têm de ser derrubadas. A elite corporativa já tomou conta de todos os sistemas de poder nos Estados Unidos. A política eleitoral, a segurança nacional, o judiciário, nossas universidades, as artes, as finanças, além de todas as formas de comunicação, já está, tudo isso, nas mãos das empresas. A democracia nos EUA, com falsos debates entre dois partidos de empresários, é teatro sem sentido. Não há meio, dentro do sistema, para recusar as demandas de Wall Street, da indústria dos combustíveis fósseis ou dos que lucram com as guerras. O único caminho que nos resta, como Aristóteles sabia, é revolta.

Não é uma história desconhecida. Os ricos, ao longo da história, sempre encontraram meios para dominar e voltar a dominar as multidões. E as multidões, ao longo da história, sempre despertaram, ciclicamente, para livrar-se de suas cadeias. Essa luta incessante nas sociedades humanas entre o poder despótico dos ricos e o clamor por justiça e igualdade está no âmago do romance de Fitzgerald, que usa a história de Gatsby para construir uma dura denúncia contra o capitalismo. Enquanto escrevia O Grande Gatsby, Fitzgerald estava lendo O declínio do ocidente, de Oswald Spengler. Spengler previu que, conforme as democracias ocidentais se fossem calcificando e morressem, uma classe de “bandidos endinheirados” substituiria as elites políticas tradicionais. Spengler estava certo sobre isso.

"Existem duas ou três histórias humanas", escreveu Willa Cather, "e eles vão repetir-se tão ferozmente como se nunca tivessem acontecido antes".

A gangorra da história empurrou os oligarcas mais uma vez para o alto. Estamos quebrados e humilhados, sentados no chão. É uma luta que retorna na história. Foi travada uma e outra na história humana, Mas parece que nunca aprendemos. É hora de pegar nosso forcado.

Chris Hedges escreve regularmente coluna no blog Truthdig. Formou-se na Harvard Divinity School e foi durante quase duas décadas correspondente no exterior do The New York Times. É autor de muitos livros, incluindo: War Is A Force That Gives Us Meaning, What Every Person Should Know About War, e American Fascists: The Christian Right and the War on America. Seu livro mais recente é Empire of Illusion: The End of Literacy and the Triumph of Spectacle.

Chris Hedges, "Let’s Get This Class War Started", Truthdig, 20 de outubro de 2013.