31 de janeiro de 2010

Falsificação de Baberowski

Grover Furr

Montclair State University

Tradução / Nesta redação examino uma afirmação feita pela professor Jorg Baberowski na primeira página de uma dissertação de 2003 entitulada “Zivilisation der Gewalt: Die kulturellen Ursprunge des Stalinismus”. Essa afirmação é falsa. Baberowski também faz a mesma afirmação falsa na página 175 de seu livro Der Rote Terror.

Baberowski ocupa uma importante cadeira de história na Universidade de Humboldt, Berlim. Ele é um dos historiadores anticomunistas da União Soviética na Era Stalin mais publicados na Europa. Sua proeminência justifica darmos mais atenção a essa dissertação e suas falsidades deliberadas.

Baberowski faz poucas declarações de fato nessa longa dissertação. Das que faz, menos ainda possuem referências a fontes específicas para a evidência em apoio a tais afirmações. Mais raras ainda são as referências a fontes primárias – o único tipo de evidência merecedora do nome.

Uma crítica muito longa, examinando cada afirmação dos fatos e as evidências – normalmente, a falta de evidência – dadas por Baberowski, está além do escopo dessa redação. Preferimos submeter esta única afirmação de Baberowski a um exame minucioso, e então deixar a parte representar o todo.

Segue a afirmação:

"Em um dia de verão em junho de 1937, Stalin recebeu Nikolai Yezhov, chefe do Comissariado de Assuntos Internos, ou NKVD, em seu escritório no Kremlin. Mas neste dia de verão em junho de 1937 Yezhov e Stalin não falaram somente sobre os inimigos que tiveram de ser afastados da sociedade soviética. Eles também debateram sobre o destino de Genrikh Yagoda, antecessor de Yezhov na posição de chefe do NKVD, que havia sido preso algumas semanas antes."

Baberowski então afirma que Stalin fez o seguinte:

"Stalin ordenou que não apenas Yagoda, mas também seus assistentes principais no aparato do NKVD, fossem mortos e seus corpos enterrados na propriedade da dacha que Yagoda, chefe destes, outrora ocupou."

Baberowski diz que Stalin não explicou o que ele quis dizer com essa ordem:

"Stalin não se explicou."

Diante disso, curiosamente, Baberowski passa a explicar o que Stalin quis dizer com isso.

"Onde quer que os funcionários do Estado tinham perdido suas posições e suas vidas, seus assistentes principais também deveriam morrer."

Não contente com a “canalização” de Stalin para descobrir suas intenções, Baberowski faz desta conversa com Yezhov uma metáfora ou sinédoque para o próprio bolchevismo.

"A morte deles simboliza a essência dos sistemas feudais stalinistas, que caíram com as pessoas que os constituíram. O episódio que acabamos de descrever demonstra duas coisas: a obsessão de Stalin e da direção bolchevique para aniquilar os inimigos que não se enquadravam em seu plano social, e os métodos arcaicos pelos quais esses inimigos devem ser eliminados."

Como Baberowski já admitiu que “Stalin não se explicou”, sabemos que a única fonte dessa “interpretação” é a imaginação de Baberowski.

Mas e quanto à ordem lacônica de Stalin para matar Yagoda e seus assistentes e enterrá-los na terra de dacha de Yagoda? Baberowski dá apenas uma fonte, na nota 1 acima. Essa nota é a seguinte:

Petrov, N.: Die Kaderpolitik des NKVD wahrend der Massenrepressalien 1936’39, in: W. Hedeler (Hg.), Stalinistischer Terror 1934’1941. Eine Forschungsbilanz, Berlin 2002, S. 24.

Consultando este artigo por Petrov, um dos principais pesquisadores para a organização “Memorial”, encontramos o seguinte:

"O ódio de Stalin a Yagoda encontrou expressão quando, durante uma sessão, ele gritou para Yezhov: “Os chekistas devem agora pegar a dacha de Yagoda.” Isso significava que os corpos dos chekistas assassinados devem ser enterrados na terra da propriedade estatal “Kommunarka”, que beirava a dacha de Yagoda."

(A nota 27 é uma lista de homens do NKVD que foram executados. Não há ao menos uma evidência de que eles foram enterrados na “Kommunarka” (veja abaixo). Não é relevante para a nossa presente investigação).

Petrov não dá qualquer evidência para qualquer um dos detalhes nesta história:

  • O encontro de Yezhov com Stalin – nem ao menos uma data é fornecida;
  • O “ódio” de Stalin a Yagoda;
  • Stalin “gritando” a Yezhov que “os chekistas devem agora pegar a dacha de Yagoda”.

Na escrita da história as declarações de um historiador sobre um evento passado são supostas serem interpretações de evidências. O objetivo do aparato acadêmico da bibliografia e das notas de rodapé é citar a evidência de que as declarações feitas pelo historiador são verdadeiras. Se um historiador não cita nenhuma evidência em apoio a uma declaração de fato ou de uma série deles, é razoável supor que ele sabe de nenhuma prova.

O relato de Petrov contém o que é, evidentemente, uma citação: “Jagodas Datscha sollen die Tschekisten jetzt bekommen.” Na tentativa de descobrir uma fonte para essas palavras eu fiz uma pesquisa no Google na internet de língua russa para os três substantivos: Ягода (Yagoda), дача (Dacha), e чекистам (chekista). A menção mais antiga que eu posso encontrar dessa história está em um artigo intitulado “Dacha osobogo Naznacheniia” (“Dacha de Designação Especial”) pelo pesquisador do “Memorial” Leonid Novak no jornal “Itogi” nº 44, 31 outubro de 2000. Está on-line: Дача особого назначения Ele contém a seguinte passagem:

"Em abril de 1937 Yagoda foi preso. O mobiliário da dacha foi apreendido e removido e ela ficou vago por algum período. Nas notas de trabalho de Yezhov, sucessor de Yagoda, há uma linha lacônica: “A dacha de Yagoda para os chekistas”. Neste momento um local de execução – Butovo – já estava funcionando com força total. Mas em 1937 o número diário de pessoas executadas começou a numerar não em dezenas, mas em centenas, e foi necessário abrir um novo lugar para os enterros.*

Eu acredito que esta é o mais antiga porque um artigo de Arsenii Roginski em http://www.memo.ru/memory/communarka/komm.htm (ver nota 14) o cita como fonte. Roginskii é um dos fundadores da organização anticomunista “Memorial” e, atualmente, o seu presidente (http://ru.wikipedia.org/wiki/Рогинский,_Арсений_Борисович). Leonid Novak é identificado como um “colaborador” da organização “Memorial”:

"Leonid Novak – colaborador do centro científico e educacional “Memorial.”"

Na anotação 14 de sua redação, Roginskii afirma:

"Nos últimos anos o historiador e escritor L.G. Novak tem conduzido um estudo da “Kommunarka” como um local de execuções e sepultamentos. Ele começou recentemente a publicar os resultados de sua pesquisa no jornal da Sociedade “Memorial” 30 de Outubro (1999, Nºs 1-2; 2000, Nº 3)"

Na opinião de Roginskii, Novak é o principal expert na “Kommunarka.”

Cópias do jornal da Memorial, “30 oktiabria”, não estão disponíveis para mim. Para os propósitos dessa redação assumo que o último artigo de Novak, de 2000, em Itogi, contém as mesmas ou até mais informações. Não encotnrei nenhuma referência a qualquer fonte mais antiga que esta que cita a anotação de três palavras de Yezhov. A redação de Roginskii, que eu referenciei da edição online, é o “Epílogo” (posleslovie) à edição do “Memorial Book” publicado pela “Memorial” em 2000, Moscou. (Rasstrel’nye spiski : Moskva, 1937-1941 : “Kommunarka”, Butovo : kniga pamiati zhertv politicheskikh repressii. Ed. Eremina L.S., Roginsky A.B. Moscou: Obshchestvo “Memorial”: Izdatel’stvo “Zven’ia”, 2000. ISBN: 5787000447; 9785787000443. OCLC: 78216573 ).

Em uma frase Novak menciona as “anotações de trabalho” (“рабочих записях”) de Yezhov: “Дачу Ягоды чекистам”. Na próxima sentença ele introduz o assunto da pretendida necessidade de um novo local de sepultamento. Novak simplesmente justapõe estas duas afirmações. Ele não alega que a primeira – “Entregue a dacha aos Chekistas” – implica na segunda. Novak não alega que as anotações de Yezhov afirmam ou implicam de modo algum qualquer coisa sobre enterros. Também não diz nada sobre execuções na dacha.

Roginski diz que o Sovkhoz “Kommunarka” era uma “подсобное хозяйство” ** — uma “fazenda” auxiliar ou latifúndio do NKVD. Próxima a ela estava a dacha de Yagoda.

"Moscou era um caso especial. Aqui, ao mesmo tempo, havia em funcionamento duas estruturas do NKVD – a Direção do NKVD da URSS para Moscou e o oblast (província) de Moscou, e a Sede Central do NKVD da URSS. Assim duas “zonas” também tinham sido abertas, a poucos quilômetros distantes uma da outra. Uma delas, administrada pela Direcão de Moscou do NKVD, foi na aldeia de Butovo; a segunda, sob o controle da Sede Central do NKVD, estava no ponto de 24 km na estrada de Kaluga, perto do Sovkhoz “Kommunarka” (naqueles dias era um clube de campo do NKVD), na propriedade do dacha do ex-Comissário do Povo para Assuntos Internos, G. G. Yagoda, que havia sido preso em março de 1937."

De acordo com Novak isso não está muito certo – elas eram ambas parte da mesma propriedade.

"Nas primeiras décadas após a Revolução a propriedade estava vazia, já que seus proprietários haviam sido forçados a sair. De acordo com informações no Arquivo Central do FSB da Rússia [Segurança do Estado Russo, onde os arquivos antigos do NKVD agora estão mantidos. – GF] no final dos anos 20 ou início dos anos 30 (a data exata é desconhecida), a terra foi dividida para a construção de uma dacha pessoal para o presidente do OGPU, mais tarde Comissário do Povo do NKVD da URSS, G. Yagoda."

O artigo de Novak em Itogi reproduz o mapa abaixo. Ele claramente mostra que a dacha é parte da propriedade latifundiária original.


Propriedade especial do NKVD “Kommunarka”: 1. O portão principal, 2. A dacha de Comissário do Povo do NKVD da URSS, 3. Lagoa; 4. Represa; 5. Birch Grove – um dos locais de enterros em massa; 6. Casa de banho; 7. Avenida das tílias; 8. Os restos de um recinto de arame farpado.

A dacha de Yagoda era parte da propriedade ou “khoziaistvo” do NKVD. Portanto, a interpretação mais óbvia da frase “Дачу Ягоды чекистам” é: “Retorne a dacha de Yagoda para a propriedade do NKVD “Kommunarka” mais uma vez.”

O artigo de Novak não menciona o nome de Stalin de modo algum, em qualquer contexto. Especificamente, Novak não conecta a nota “lacônica” de Yezhov a qualquer encontro com Stalin. Então onde é que “Stalin” entra nisso? Evidentemente, a partir de Roginskii, que escreve:

"Supomos [ou, vamos supor] que o “lugar secreto de execução” Kommunarka foi criado como um local especialmente designado para os enterros de ex-trabalhadores do NKVD que tinham sido condenados pelo “procedimento especial”. Construir na terra da antiga dacha do ex-comissário um lugar secreto para enterros (e provavelmente também para execuções), para seus empregados que haviam sido mortos sem mesmo sentenças formais – parece-nos que isto está completamente em conformidade com os personagens de Stalin e Yezhov. A nota “dacha de Yagoda para os chekistas” – para nosso pesar, que não tem data – foi mantida em um caderno de Yezhov em que ele normalmente registra (de uma forma muito resumida) diretivas de Stalin. Com esta nota, evidentemente, começa a história da “Kommunarka” como um local para sepultamento."

Roginskii não cita nenhuma evidência de que a “Kommunarka” foi designada como um local para o enterro de homens executados do NKVD. Ele também não afirma saber isso como um fato. Ao contrário, ele chama isso de “suposição” – ele escreve: “suponhamos”, ou “assumimos” (polagaem). Roginskii também admite que a nota de Yezhov para si mesmo não é datada.

Em outras palavras, Roginskii não tem ideia de quando Yezhov escreveu ou por quê. Não há indicação de que a nota está relacionada a alguma conversa com ou a ordens de Stalin, e muito menos a uma conversa específica com Stalin em junho de 1937. Evidentemente o nome de Stalin não está associado com esta nota, pois se fosse ele certamente teria dito.

Em todo caso, por que Stalin teria que orientar que essa propriedade – a dacha de Yagoda – fosse devolvida ao NKVD, quando sempre tinha sido propriedade do NKVD? O mapa reproduzido no artigo de Novak deixa claro que esta é uma única propriedade. De acordo com Novak ela tinha sido assim desde antes da Revolução.

Embora admitindo que não há indicação alguma de quando Yezhov escreveu a nota de três palavras para si mesmo, Roginskii acrescenta que está em um caderno “no qual ele geralmente gravava [zanosil] (de uma forma muito resumida) as diretivas de Stalin.” Mas Roginskii não cita nenhuma evidência para apoiar esta afirmação. Evidentemente Yezhov também registrou outros assuntos neste caderno. Caso contrário, Roginskii certamente teria escrito que todos os outros conteúdos deste caderno são compostos de diretivas de Stalin; que este era um caderno dedicado por Yezhov para a gravação das diretivas de Stalin, e que, portanto, esta nota de três palavras deve ser uma diretriz de Stalin também.

Portanto Roginskii não tem nenhuma base para supor que essa nota foi um lembrete “abreviado” de uma diretiva de Stalin. Mesmo se fosse, porém, não provaria nada. Como já salientado acima, a interpretação mais lógica é que a dacha de Yagoda e seu território devem ser devolvidos ao “Kommunarka”, clube de campo da NKVD da qual inicialmente tinha sido uma parte. Yezhov quase certamente tinha a autoridade para tomar essa decisão por conta própria, sem verificar um detalhe insignificante com Stalin.

Roginskii conclui:

"Com esta nota, evidentemente, começa a história da “Kommunarka” como um local para sepultamento."

Na verdade, esta nota não diz absolutamente nada sobre o uso da terra como um local de sepultamento para ninguém, muito menos para os homens da NKVD. Roginskii diz “evidentemente” (vidimo) porque ele percebe que está adivinhando.

Uma observação por Roginskii sugere que esta interpretação pode ter sido inspirada por Nikita Petrov. Na nota 11 ele agradece Petrov pela ajuda com este artigo:

"Aproveitamos esta oportunidade para agradecer a N.V. Petrov que partilhou conosco suas observações sobre estas listas."

Estamos agora em condições de avaliar as declarações de Petrov e de Baberowski.

Não Petrov e não Roginskii, mas Novak é o especialista na “Kommunarka”. Novak não tem nada sobre qualquer decisão de enterrar homens executados da NKVD lá.

A referência de Baberowski a “einem Sommertag im Juni 1937” (“um dia de verão em junho de 1937”) vem de Petrov. Mas Petrov não afirma que a “diretiva de Stalin” foi emitida então. Em vez disso, Petrov apenas começa o parágrafo com um evento independente que teve lugar em 20 de junho de 1937.

Não há evidências de que Stalin falou com Yezhov sobre o destino de Yagoda (“uber das Schicksal von Genrich Jagoda”) em junho de 1937. Nós não sabemos o conteúdo de qualquer uma das discussões que tiveram lugar no escritório de Stalin, incluindo aquelas com Yezhov.

Não há evidências de que a nota de três palavras refere-se a qualquer discussão com Stalin seja em junho de 1937 ou em qualquer outro momento. Yezhov certamente se reuniu com Stalin frequentemente durante esse mês. No entanto, Yezhov continuou a figurar na lista de visitantes do escritório de Stalin, tanto antes como depois de junho de 1937. (“Posetiteli Kremlevskogo kabineta IV Stalina...” Istochnik 4, 1995, 15 – 73. Para junho 1937 ver pp. 54-57)

Portanto, não há evidência alguma de que Stalin ordenou Yezhov a matar Yagoda e seus tenentes e enterrá-los na dacha de Yagoda. Isso é toda uma elaboração da interpretação de Petrov das três palavras do caderno de Yezhov.

Petrov escreveu:

"O ódio de Stalin a Yagoda encontrou expressão quando, durante uma sessão, ele gritou para Yezhov: “Os chekistas devem agora pegar a dacha de Yagoda”. Isso significava que os corpos dos assassinados chekistas deveriam ser enterrados na terra da propriedade estatal “Kommunarka”, que beirava a dacha de Yagoda."

Este artigo tem demonstrado que não há um fragmento de evidência para qualquer dessas afirmações. Consequentemente, não há nenhuma evidência para apoiar a declaração de Baberowski.

Petrov é vice-presidente e pesquisador sênior da organização russa “Memorial”. Ele é, ou é comumente pensado que ele é, um historiador.*** Ele tem a obrigação como historiador de prestar depoimento em apoio às declarações que ele faz, e deixar claro aos seus leitores quando ele está especulando além da evidência existente.

Baberowski detém uma posição na faculdade de História da Universidade Humboldt de Berlim. Presumivelmente, ele sabe que as declarações feitas por outro historiador não pode ser simplesmente aceitas como verdade factual ou – especialmente quando, como com o artigo Petrov, nenhuma evidência é dada por essas declarações.

Ambos Baberowski e Petrov trairam flagrantemente suas obrigações profissionais, como historiadores. Petrov fabricou uma história sobre Stalin e Baberowski a repetiu como se fosse fato. Roginskii imaginou uma conexão entre a nota de três palavras Yezhov e o uso do clube de campo “Kommunarka” como um local de enterro.

Outra mentira: as “listas”

Aliás, Roginski é um mentiroso, bem como (ou incompetente e cego pelos seus preconceitos anticomunistas – muitas vezes é difícil dizer qual!). Ele escreve:

"Há apenas um erro aqui – na verdade o Colégio Militar não determinava as penas de morte. Ele só formalizou as decisões tomadas antes do caso ter vindo até ele para a revisão. A própria decisão foi tomada por Stalin e alguns homens de seu círculo mais próximo."

Isso é falso. A introdução das “Listas” em questão deixa claro que elas foram enviadas para Stalin e outros membros do Secretariado do Partido Bolchevique “para revisão”. Sabemos de muitos exemplos de pessoas que, apesar de estarem nas “listas” na “Categoria 1” (execução) não foram executadas. As “categorias” não eram sentenças, mas indicações da sentença que o Estado gostaria de pedir se o indivíduo fosse condenado pelos crimes que ele ou ela foi acusado.

Temos discutido essas listas em um trabalho separado da seguinte forma:

"Como Khrushchev fez, os próprios editores anti-Stalin destas listas de fato as chamam de “sentenças” preparadas com antecedência. Mas a sua própria investigação desmente essa afirmação. As listas davam as sentenças que a acusação procuraria, se o indivíduo foi condenado – isto é, a sentença do Ministério Público iria pedir ao juiz a aplicação. Na realidade, elas eram listas enviadas para Stalin (e outros membros do Politburo e do Secretariado) para “revisão” – rassmotrenie – uma palavra que é usada muitas vezes na introdução das listas (http://www.memo.ru/history/vkvs/images/intro1.htm)

Muitos exemplos são dados de pessoas que não foram condenados, ou que foram condenadas por delitos menores, e por isso não fuziladas. A.V. Snegov, que mais tarde se tornou amigo de Khruschev e foi mencionado por este pelo nome mais adiante neste discurso, está nas listas pelo menos duas vezes.


Nesta última referência Snegov é especificamente colocado na “Categoria 1”, que significa: pena máxima de morte. Um breve resumo das provas do Ministério Público contra ele é fornecido, e parece ter tido um monte delas. No entanto Snegov não foi condenado à morte, mas sim a um longo prazo num campo de trabalho.

Segundo os editores destas listas “muitas” pessoas cujos nomes estão sobre elas não eram de fato executadas, e algumas foram liberadas.

Por exemplo, um estudo seletivo da lista para o oblast Kuibyshev assinado em 29 de setembro de 1938 mostra que não tem uma única pessoa nesta lista que foi condenada pelo VS VK (o Colégio Militar do Supremo Tribunal Federal), e um número significativo dos casos foram rejeitados completamente. (http://www.memo.ru/history/vkvs/images/intro.htm)

Assim, Khrushchev sabia que Stalin não foi “sentenciar” a ninguém, mas sim rever as listas no caso que ele tinha objeções. Khrushchev sabia disso porque a nota de Kruglov, Ministro de Assuntos Internos (MVD) para Khrushchev de 03 de fevereiro de 1954 sobreviveu. Não diz nada sobre “sentenças preparadas com antecedência”, mas dá a verdade:

Essas listas foram elaboradas em 1937 e 1938 pelo NKVD da URSS e apresentado ao CC do ACP(b) para revisão de imediato. [grifo do autor, GF] ****

O Procurador foi a julgamento, não só com provas, mas com uma sentença para recomendar aos juízes em caso de condenação.

(Furr, Khrushchev Lied, Capítulo 4)

Conclusão

O artigo de Baberowski é uma ilustração do problema com a historiografia dos anos de Stalin na União Soviética em geral. Sua maior parte não consiste em uma tentativa de descobrir a verdade, mas em falsidades anticomunistas. Essas mentiras são colocadas ao serviço da moralização e da condenação, muitas vezes, nos tons mais estridentes. A exclamação Baberowski na primeira página do seu artigo

"Stalinismo e terror são sinônimos. Stalinismo é terror."

soa como um dos discursos inflamados do nazista Josef Goebbels: “Hitler ist Deutschland, Deutschland wie ist Hitler” (também o leitmotiv do filme de Lenni Riefenstahls, Triumph des Willens). É uma forma de propaganda particularmente de mau gosto. Isso não tem nada em comum com historiografia.

Há, talvez, um aspecto positivo para este triste estado de coisas. Ninguém mente quando a verdade está do seu lado. Assim, podemos concluir com segurança que a verdade, como demonstrado por deduções razoáveis ​​a partir da evidência disponível, não suporta o fanático anti-Stalin, as conclusões anticomunistas que estes e muitos outros historiadores – e, sem dúvida, aqueles que as apoiam – desejam. Porque, se a verdade sustentasse suas conclusões preconcebidas, eles iriam dizer a verdade. Na verdade, eles poderiam dispensar as suas conclusões preconcebidas!

Mas eles continuam a fabricar – em linguagem simples, a mentir. Às vezes as mentiras são tão flagrantes como as que temos aqui expostas – óbvio para qualquer pessoa com um pouco de conhecimento mais paciência, acesso às fontes e curiosidade.

Esta é uma forte evidência de que a verdade não vai sustentar o projeto dos anticomunistas. Nesse fato, há muita esperança para o futuro de um projeto muito diferente: descobrir a verdade, sucessos e fracassos, triunfos e tragédias, da história soviética.

Notas:

* Uma cópia deste artigo em um formato maior e com uma cópia maior do mapa (veja abaixo) esteve uma vez em http://www.ihst.ru/projects/sohist/repress/kommunarka.htm e em janeiro de 2010 podia ser visualizada no Internet Archive em http://web.archive.org/web/20080503052144/

** A página russa do Wikipédia define esse termo como “личное сельскохозяйственное имущество семьи, обычно в сельской местности”, “a possessão agrária privada de uma família, geralmente numa área agrícola.” “Propriedade” seria uma boa tradução. (http://ru.wikipedia.org/wiki/Подсобное_Хозяйство

Howard Zinn, o imprescindível

por Tanalís Padilla

La Jornada

Em um país onde a figura do intelectual público é quase inexistente, a morte de Howard Zinn deixa um vazio profundo. A partir de seu trabalho como historiador, seu trabalho docente e sua participação em lutas populares, Zinn esteve sempre com os marginados. Como o expressa o título de sua autobiografia, Você não pode ser neutro num trem em movimento, Zinn buscava que seus alunos pensassem criticamente, renunciassem à comodidade do silêncio e combatessem a injustiça onde quer que a presenciassem. “Isto –reconheceu– é uma receita que traz problemas”.

Com efeito, o reitor da Universidade de Boston, onde Zinn foi professor, o acusou de envenenar a academia. Estranho veneno este de Zinn. Não somos poucos que, inspirados por sua obra A outra história dos Estados Unidos, decidimos ser historiadores. O texto continua tendo uma imensa popularidade entre os jovens e foi adotado por professores do ensino básico que reconhecem em seus alunos uma fome impossível de saciar com a história oficial.

En La otra historia de Estados Unidos la colonización del territorio estadunidense es contada desde la experiencia de la población nativa, la elaboración de la Constitución a partir de la mira de los esclavos, la invasión a México desde el ejemplo de desertores del ejército estadunidense, la industrialización desde el punto de vista de trabajadoras textiles, la Primera Guerra Mundial desde una mirada socialista, la segunda gran guerra desde los pacifistas, la expansión imperial vista desde los pueblos latinoamericanos, la década de los años 70 a partir de la rebeldía de la población encarcelada y la inconformidad ante las acciones militares en Vietnam.

En las primeras páginas de este libro, Zinn desmitifica la noción de que el historiador es o puede ser objetivo. El historiador ha sido formado en una sociedad en la cual la educación y el saber son concebidos como cuestiones técnicas y de excelencia y no como una herramienta dentro de la lucha de clases sociales, razas y naciones, escribió. El impacto del texto de Zinn fue monumental. La elegante sencillez de su redacción, permite que su tomo de casi 600 páginas sea leído con la facilidad e intriga de una novela. Así, tanto en su estilo como en su contenido, Zinn democratiza la educación y la historia.

Esta preocupación por socializar el conocimiento, lo llevó a escribir varias obras de teatro, incluyendo una sobre Carlos Marx. Zinn presenta a Marx como pocos lo conocen. Narró los momentos difíciles que vivió tratando de mantener a su familia (tres de sus hijos murieron) y sus propios actos de disidencia en Alemania, Francia e Inglaterra. Para examinar la forma en que defendería su propia teoría, Zinn elabora debates entre Marx y su mujer e hija. Ambas eran brillantes, afirma Zinn, así que las presentó cuestionando algunos de los pensamientos más sofisticados de Carlos Marx. Para representar las tensiones existentes entre el marxismo y el anarquismo, Zinn inventó un imaginario debate entre Marx y Bakunin.

De la misma manera, su obra Emma muestra la explotación que padeció Emma Goldman como joven obrera, su liderazgo en las luchas sindicales, su estancia en la cárcel, su pensamiento anarquista y la libertad sexual que vivió. En Hija de Venus, Zinn condena la guerra dentro de un contexto de conflicto familiar y generacional. Aquí la joven protagonista, hija de un biofísico involucrado en el diseño de armas nucleares, hace ver a su padre las devastadoras consecuencias de su trabajo. Estas obras han sido montadas por todo el país, desde las grandes universidades de California hasta las pequeñas granjas de Vermont.

Como un complemento a La otra historia de Estados Unidos, Zinn, junto con Anthony Arnove, reunió una serie de cartas, poemas, canciones y discursos de diversas figuras quienes históricamente han resistido con pequeños y grandes actos. Intitulado Voces de la otra historia de Estados Unidos, el volumen fue la base para el proyecto El pueblo habla, documental donde diversos actores famosos hacen lectura de estos textos rebeldes.

En una entrevista de radio, se le preguntó al historiador si había este tipo de héroes hoy día. Claro que sí, respondió Zinn y citó el ejemplo de Evann Orleck-Jetters, una niña de 12 años, hija de una pareja lesbiana. El año pasado, Evann dio su testimonio ante el Congreso estatal de Vermont cuando éste debatía la legalización del matrimonio gay. Al enterarse, Zinn la invitó a ser parte del elenco de El pueblo habla que estaba por presentarse como obra de teatro en Nueva York. Zinn se mostró tan generoso y atento con esta pequeña que nunca había conocido, recuerda una de sus mamás, “que me impactó el absoluto contraste con la forma de ser de tantas ‘estrellas’ académicas.”

Zinn siempre mostró un gran respeto hacia los jóvenes. Quería aprender de su rebeldía

En vez de lamentar un pasado –mítico o real– en que la izquierda era más fuerte, se preocupaba por continuar viejas y nutrir nuevas formas de resistencia. En vida y obra será este legado siempre capaz de florecer.

3 de janeiro de 2010

Neoliberalismo e subjetivação capitalista

Pierre Dardot e Christian Laval 


Tradução / Segundo uma acepção muito difundida, o termo neoliberalismo se refere tanto a uma ideologia que defende um “retorno” ao liberalismo originário quanto a uma política econômica de retração do Estado que abre ainda mais espaço ao mercado. Em suma, a caução de Adam Smith vem legitimar uma mercantilização implacável da sociedade. Assim, após o parêntese do Estado Providência, por meio do capitalismo neoliberal voltar-se-á a ver um capitalismo totalmente adequado à sua essência, isto é, a um “capitalismo puro”.[1]

Temos, então, o direito de perguntar: em que essa fase se distingue dos períodos anteriores? O capitalismo não se encontra sempre animado por uma propensão para substituir as relações sociais tradicionais pela lógica fria do cálculo dos juros? Ele não se define desde o início pela irresistibilidade do seu movimento de expansão? Ele não rebrota sempre de seus “limites imanentes”? Marx num certo sentido já não disse tudo quando apresentou a exigência de uma produção cada vez maior de valor excedente (ou mais-valor) como a differentia specifica do sistema capitalista? “Produzir valor excedente, sempre em volume maior (Plusmacherei), é a lei absoluta deste modo de produção”3 . Em suma, não há nada de novo sob o sol da acumulação capitalista, ou melhor, como disse Foucault de um modo farsesco, é “sempre a mesma coisa e sempre a mesma coisa pior”.4 

A extensão da lógica do mercado por meio da transformação do Estado 

A fim de responder a esta questão, deve-se prestar atenção às particularidades das condições em que surgiu o neoliberalismo: ele acabou prevalecendo numa sociedade permanentemente marcada por forte regulação administrativa em vários campos de atividade, devido ao espaço ocupado pelo Estado “social” e “educador”. Esse modo de regulação estava fundado numa fictícia centralidade do “interesse geral” na definição das políticas, na prevalência do direito público na organização da ação social, na difusão de normas e formas de organização burocrática nos mais diversos setores, inclusive na produção de bens e serviços, no compromisso salarial entre as classes sociais e na distribuição dos ganhos de produtividade. Para minar e suplantar essa poderosa racionalidade administrativa e burocrática, o neoliberalismo tinha que se constituir como uma forma “total” ou “transversal”, com base em um modelo de relação social que fosse transferível para todas as atividades. Tudo aconteceu como se a passagem de uma racionalidade à outra nova, em virtude de uma lógica que não é a de um mero confronto intelectual, impusesse a essa nova racionalidade que ela viesse a prevalecer mantendo a abrangência e a simplicidade de sua antecessora. Na verdade, o que estava em questão, muito mais do que a ideologia ou a política econômica, era um sistema eficaz de normas que operasse, desde o início, em termos de práticas e comportamentos.

Esta é precisamente a razão pela qual se tem um fenômeno totalmente novo. O capitalismo não cresce simplesmente porque conquista novos territórios, submete populações cada vez maiores, transforma em mercadoria todos os frutos da atividade humana. Certamente, este é o modo clássico da acumulação capitalista tal como foi analisado por Marx, Rosa Luxemburgo e Hilferding. Mas o capitalismo cresce também de outra maneira, a qual, mesmo sendo quase sempre esquecida, não é menos poderosa: a da difusão social de um sistema de regras de ação. Este sistema de normas ultrapassa largamente aquele da empresa para abraçar, por meio de um processo de ligações cruzadas, múltiplas instituições e relações sociais. Longe de ser, como se acredita, um obstáculo à extensão da lógica do mercado, o Estado tornou-se um de seus principais agentes, se não o seu principal vetor. Sob seu controle, os instrumentos de política pública herdados da gestão socialdemocrática e keynesiana tornaram-se, paradoxalmente, alavancas para transformar, de dentro, a lógica de funcionamento da ação pública em função de uma mudança profunda da sociedade. Por isso, é perfeitamente inepto pensar essa transformação nos termos convencionais como se viesse para limitar a intervenção governamental: ela não vem para limitá-la, mas, em certo sentido, vem para estendê-la, ou melhor, vem para transformar o Estado e para expandir a lógica do mercado. 

Pode-se então perguntar que relação pode ser estabelecida entre a expansão da “lógica de mercado” – ou seja, da concorrência –, e as instituições que não produzem “mercadorias” no sentido estrito do termo e que não são empresas capitalistas? Pois, a lógica da acumulação de capital implica sempre na produção de crescentes quantidades de mercadorias. É preciso, então, supor que a racionalidade neoliberal se caracteriza precisamente pela expansão e fortalecimento da “lógica de mercado” fora da esfera mercantil. Ora, isto quer dizer que o neoliberalismo deve ser caracterizado pela transformação da competição em forma geral das atividades de produção, especialmente daquelas que produzem serviços não mercantis e até mesmo daquelas atividades sociais fora da esfera produtiva. É esta pelo menos a tese deste trabalho: a autonomização e a extensão da concorrência não procedem da ação subterrânea de supostas “leis imanentes da produção capitalista”, algo que a concorrência veio impor a cada capitalista individual sob a forma de um “constrangimento externo”1 . Muito ao contrário, elas são o efeito de práticas, técnicas, discursos que generalizam aquilo que no jargão gerencial é chamado de “melhores práticas” e que, portanto, vem homogeneizar para toda sociedade certas maneiras de fazer e de ser. 

Da extensão universal do domínio da concorrência 

O capitalismo está passando por mudanças profundas, nenhuma das quais é irredutível ao jogo de aparências que espelham uma identidade própria inalterável. O traço mais característico do capitalismo neoliberal é – repete-se aqui – a expansão e intensificação da concorrência pela mundialização. Em consequência, um retorno ao conceito de concorrência permitirá compreendê-lo melhor. 

O saber segundo o qual a concorrência é essencial ao funcionamento do capitalismo como um sistema é devido particularmente a dois autores, Marx e Schumpeter, os quais tiveram o mérito de tê-lo afirmado contra, respectivamente, a economia clássica e a ortodoxia neoclássica. 

Os economistas clássicos (Smith, Ricardo) consideravam a concorrência como uma simples condição do funcionamento harmonioso das trocas de mercado. O essencial para eles encontrava-se além do mercado, ou seja, na complementaridade implícita da divisão das tarefas, cerne da divisão do trabalho – e não na regra de equivalência que regula as próprias trocas. Marx apreendeu com clareza a lógica própria que a concorrência imprime a todo sistema capitalista. Longe de garantir uma coordenação espontânea das atividades que supostamente beneficia a todos, esta lógica, aos seus olhos, gera uma instabilidade crônica e crises recorrentes. Em uma passagem marcante de A Miséria da Filosofia (1847), ele respondeu nos seguintes termos a Proudhon que definira a competição como “emulação para a indústria”: “a competição não é emulação industrial, é emulação comercial. Na verdade, a emulação industrial só existe em função do comércio. Há mesmo fases na vida econômica dos povos modernos em que todo mundo é tomado de uma espécie de vertigem para obter lucro sem produzir. Esta vertigem da especulação, que se repete periodicamente, expõe a verdadeira natureza da competição, que busca mesmo escapar da necessidade de emulação industrial. ”1 Nesta primeira perspectiva, a “vertigem da especulação” aparece como um evento espetacular de subordinação da indústria ao comércio, pois o “constrangimento” da concorrência se impõe a todos os agentes da produção: produz-se, assim, para vender a um preço melhor do que os dos concorrentes, com o fim de extrair o maior lucro possível – e não para desenvolver a atividade enquanto tal. Para se expressar na linguagem de O Capital, pode-se dizer que o problema é o da “realização”, por meio da venda, do valor adicional produzido pelo produtor imediato (o trabalhador). 

A ortodoxia neoclássica (Walras, Pareto), por outro lado, compreendeu a concorrência como uma moldura que permite aos comportamentos racionais dos agentes econômicos levarem o sistema para um estado ideal de equilíbrio: qualquer situação de não conformidade com as condições de concorrência perfeita é considerada, assim, como uma anormalidade que impede a realização de uma harmonia postulada entre estes agentes. Schumpeter pôs em questão justamente este primado do estado de equilíbrio e, consequentemente, o privilégio da estática sobre a dinâmica: a evolução econômica, disse ele em sua Teoria do Desenvolvimento Econômico (1911), é essencialmente feita por meio de rupturas e descontinuidades associadas às várias espécies de inovações, seja a criação de novos produtos, seja a abertura de novos mercados, seja o desenvolvimento de novos processos e o uso de novas matérias-primas. Nesta segunda perspectiva, a figura central é a do empresário. Este último é acima de tudo um inovador, que não hesita em romper o curso normal das coisas, opondo-se à rotina de que são prisioneiros aqueles que simplesmente utilizam os métodos tradicionais. O empresário é o homem da “destruição criadora”. O que Schumpeter destaca, portanto, é que a inovação é a principal forma de competição: mais do que a vantagem de preço, a concorrência visa as estratégias, os processos e os produtos. 

Essa dupla referência autoral tem a vantagem de pôr em destaque as duas formas principais da concorrência no sistema capitalista. Por um lado, tem-se a concorrência de preços; por outro, tem-se a competição por meio da inovação. O capitalismo neoliberal, obviamente, não acaba com a concorrência de preços, mas ao dar um lugar novo à concorrência por meio da inovação, aproveita melhor a complementaridade desses dois modos de competição com o fim de alargar o seu âmbito e de intensificar o seu jogo. 

Esta mudança ocorre no final dos anos 70 e início dos 80 – não por causa de qualquer “conspiração”, mas por efeito de múltiplos e convergentes processos que produziram os mercados “globalizados” e a concorrência generalizada. Por meio de efeitos de encadeamentos e retroalimentações, a acumulação de capital foi muito acelerada. A crescente influência dos oligopólios transnacionais junto às autoridades estatais, assim como a expansão dos circuitos financeiros offshore, favoreceu a multiplicação de “micro decisões” políticas favoráveis à sua expansão.1 Ao mesmo tempo em que o “fordismo” se esgotava nas esferas nacionais, as corporações transnacionais surgiram como modelos de desempenho, capazes de manter altos níveis de produtividade e de rentabilidade, pelo mesmo fato da expansão global de suas atividades. A política dos governos nestas condições experimentou uma mudança significativa: o Estado passou a se comprometer com apoios logísticos, fiscais e diplomáticos, mais e mais ativos em favor dos oligopólios, tornando-se assim seus parceiros na guerra econômica global. Isso explica porque o Estado se tornou um receptor da pressão da concorrência global, passando notadamente a conduzir diretamente a “reforma” das instituições públicas e das organizações de assistência social em nome da competitividade “nacional”. No entanto, o que está em jogo, mesmo para além da transformação do Estado, vem a ser a gestão de pessoas, no sentido dado por Michel Foucault, ou seja, porque [essa mudança] têm por alvo os indivíduos e os seus modos de vida. 

Ao se perguntar sobre o modo exato mediante o qual essa pressão é aplicada, torna-se necessário, então, voltar à combinação das duas formas de concorrência anteriormente discutidas: de facto, é essa combinação inédita que dá à lógica neoliberal da concorrência uma face tão especial. Atendo-se ao plano puramente econômico, pode-se de fato tirar daqueles dois modos [acima aludidos] duas lógicas diferentes e, ainda assim, profundamente imbricadas.2 A primeira é a lógica da “divisão cognitiva” do trabalho que predomina nos setores de alta tecnologia (biotecnologia, produtos farmacêuticos, eletrônicos, informáticos, etc.): trata-se aí de organizar a produção de acordo com a partição do conhecimento em blocos relativamente homogêneos (por exemplo, “pesquisa e desenvolvimento” ou marketing). Ora, isto é feito de acordo com a natureza do conhecimento e das habilidades, pois se trata de tirar proveito do comando da repartição dessas atividades. Pretende-se, com isto, incentivar a corrida da inovação. A segunda é a “divisão taylorista” do trabalho, a qual não foi abolida, mas reativada. Trata-se agora de fragmentar o processo de produção de acordo com uma lógica de minimização dos custos e das demoras, de forma a competir em preço. O essencial é que um número crescente de atividades se encontra submetida tanto à competição por meio da inovação e da concorrência de preços, de tal maneira que se pode falar de uma verdadeira “hibridização” das duas lógicas.1 

A extensão da lógica do mercado para além da esfera do mercado, ou seja, daquela dos bens e serviços e dos “fatores de produção”, requer em certo sentido que se apreenda essa dupla dimensão da concorrência. A dificuldade desta tarefa é que não se pode fazer uma exportação, pura e simples, da estrutura lógica que institui o campo econômico. Porque esta não governa senão a organização do trabalho nos setores diretamente mercantis. Eis que a grande questão prática do neoliberalismo vem a ser: como dobrar os sujeitos à sua norma, todos os sujeitos, incluindo-se aqueles que não sentem diretamente a pressão do mercado em seu trabalho? Como fazer os indivíduos internalizarem a pressão externa da concorrência de modo a fazê-los adotá-la como norma de subjetividade? 

A novidade do neoliberalismo consiste precisamente em que ele busca uma homogeneização que funciona para além da divisão entre o mercado e o nãomercado, por meio da imposição de um padrão de relações sociais em todos os níveis da existência individual e coletiva. No comportamento econômico e na relação do indivíduo consigo mesmo, isto é, no âmbito mais global e no âmbito mais íntimo, uma mesma forma relacional agora tende a prevalecer. 

A construção política de esferas mercantis 

A imposição dessa forma de concorrência nada tem de natural. Não resulta de processos espontâneos. Não é efeito de uma espécie de “canibalização” inerente à dinâmica do capitalismo. Resulta, isto sim, de uma construção política. 

Contrariamente às alegações da crítica marxista tradicional, ela não pode ser reduzida à “mercantilização”. Para esta última, o grande autômato do capital não pode parar de colonizar novos territórios para aumentar diretamente a produção de mais-valor. A “privatização” dos serviços públicos foi analisada desse modo por mera analogia com a privatização de empresas públicas. A escola, o hospital e a justiça receberam o mesmo tratamento que a Renault, a France Telecom e, amanhã, isto ocorrerá sem dúvida, com o Correio: o essencial consiste em alargar o âmbito da acumulação de capital, ou seja, reconquistar áreas e empresas que foram nacionalizados temporariamente, transformando a administração de tudo em empresas privadas. Esta crítica, que se apoia em fenômenos tão massivos quanto incontestáveis, no entanto, mostra-se parcial ou superficial em muitos casos. Ela vê muito mal que, por meio da exacerbação da concorrência entre as economias e as empresas, as esferas do “social” e do “político” como um todo acabam, gradualmente, sendo submetidas à lógica neoliberal.

Deve ainda ficar claro que a concorrência no capitalismo global não comanda apenas a transformação dos fins e das modalidades da ação pública, pois ela é também o meio pelo qual essas ações podem melhorar o seu desempenho em todos os setores. Deve-se acrescentar ainda o seguinte: como o fator competitivo mais importante hoje é o “capital humano”, a formação do indivíduo, o seu “desenvolvimento pessoal” dentro e fora da empresa, a sua subjetividade no trabalho e fora dele, ele também deve ser remodelado de acordo com o princípio da concorrência. Ademais, este é mesmo o ponto mais insistente do discurso neoliberal, aquele que lhe parece na prática o mais difícil de ser alcançado: é preciso fornecer ao sistema econômico indivíduos bem adequados à guerra comercial generalizada, isto é, capazes dos melhores desempenhos. A formação deste tipo de indivíduo, assim como a manutenção de sua capacidade de enfrentar a concorrência “por toda a vida”, é um modo privilegiado de fazer como que os trabalhadores estejam sempre em concorrência entre si mesmos. As virtudes da manipulação psicológica e contábil das pessoas têm demonstrado a sua eficácia – isto, entretanto, tem causado enormes estragos humanos.1 Ora, se todos devem contribuir de uma forma ou outra para a competitividade econômica, todos devem merecer o mesmo “tratamento humano”, tal como se observa especialmente nas empresas mais diretamente expostas à concorrência. É precisamente assim que a “competição” se torna um padrão geral a ser transposto para qualquer atividade concreta. Não são apenas estas ou aquelas atividades concretas que devem se realizar em condições de concorrência, mas sim todas as atividades humanas, mesmo as mais remotas em relação ao mercado mundial. Todas agora devem operar perfeitamente de acordo com a lógica da competição.

O que é novo é essa indiferença em relação à natureza concreta das áreas específicas sujeitas à imposição dessa norma; ela se aplica a todas as atividades e a todas as profissões; tal prescrição, ademais, é apresentada como “solução” para diminuir os custos de funcionamento dos serviços públicos e para aumentar a produtividade dos assalariados em geral. Mas essa transposição da concorrência de mercado para fora dele não é um efeito automático das “leis imanentes” do capitalismo. A relação entre o interior e o exterior é exatamente inversa daquela que Marx tinha em mente: a “restrição externa” da concorrência não se manifesta mais na superfície do jogo implacável das leis imanentes que operam nas profundezas da produção, mas deve conquistar também a interioridade de todos os sujeitos nessa última esfera. Ora, tal internalização implica uma política ativa, uma institucionalização da concorrência. 

Quando a situação não é “espontaneamente” de mercado, convém criar uma situação concorrencial no interior e no exterior da atividade em questão, ou seja, uma situação de mercado sem mercadorias, algo que se pode chamar de um quasemercado. Isto é particularmente verdadeiro em setores de atividades em que a mercantilização pura e simples, ou seja, a transformação do produto em mercadoria e, portanto, em algo diretamente trocável por dinheiro, não é viável. A avaliação quantitativa é o elemento decisivo desta construção de quase-mercados, é aquilo que opera a imposição da norma competitiva. 

O fetichismo da quantidade 

Para pôr os indivíduos em concorrência, para empurrá-los ao máximo desempenho, é preciso pôr um preço sobre o que eles fazem e mesmo sobre o que eles são. Avaliar significa dar um valor aquilo que, posto nas condições específicas de um mercado, apresentaria um preço. Construir um quase-mercado, portanto, envolve a definição de uma quase-moeda. É preciso dispor de um sistema de informação que seja análogo ao sistema de preços que existe num mercado. Um sistema de mercado concorrencial requer um dispositivo de produção de valor. A avaliação quantitativa consiste no método pelo qual se guia os indivíduos, forçandoos a se controlarem a si mesmos, transformando-os em sujeitos do cálculo, de tal forma que eles possam cumprir os objetivos que lhes foram atribuídos como se estes se originassem dos seus próprios desejos. Este modo de avaliação é uma das peças fundamentais da construção de um mercado. Ele requer um trabalho de normalização que opera tanto sobre as produções como sobre os produtores. Não se produz um mercado sem um instrumento que seja, ao mesmo tempo, instrumento de medida de valor, instrumento de transação de produto e instrumento da atividade de avaliação. 

A questão não é saber se aquilo que é medido por tal sistema de preços refere-se a uma “utilidade social”, mas se é suscetível de transformar a conduta dos indivíduos, fazendo-os entrar numa lógica de autocontrole e de desempenho. Assim que alguém se pergunta pelo “sentido da avaliação”, deve se certificar de que não se satisfaz com uma crítica que denuncia o absurdo da medida ou o caráter redutor das “cifras”. O sistema de preços pode ser perfeitamente absurdo, tal como no caso da investigação científica em que a medição do valor da pesquisa é feita pelo número de artigos publicados em revistas indexadas e pelo número de citações que eles geram; ela pode, também, ser perfeitamente odiosa e perigosa como no caso da avaliação da atividade policial pelo número de retornos de estrangeiros que produz nas fronteiras. Pois, o que importa não é tanto a significação “substantiva” da medida escolhida, mas a simplicidade de uso que permite. A qualidade de um sistema de preços está em seu caráter auto-referencial. Um preço não se refere senão a outro preço. Uma série de artigos, bilhetes e custódias não é comparável senão a outra série de artigos, bilhetes e custódias. A principal “qualidade” de uma quantificação consiste precisamente em que faz economia de qualquer referência mais ampla a outro sistema de valores, a uma outra forma de avaliação e de julgamento mais demorada. O sistema de preços elimina a necessidade de uma deliberação mais complexa e longa, pois permite uma redução dos “custos” da produção de um julgamento com base em vários critérios heterogêneos.

Um dos principais teóricos do neoliberalismo, Friedrich Hayek, compreendeu particularmente bem o valor econômico de dispor de um sistema de preços. Em um artigo notável, O uso do conhecimento na sociedade, Hayek explicou que o sucesso da sociedade capitalista se encontra no fato de que ela tem um sistema de informação fundado em preços, pois este fornece os “dados” mais relevantes do ponto de vista econômico, comercial e financeiro: o conhecimento do que trazer ao mercado, em que quantidade e em que momento o fazer. O que importa, neste contexto, não é o saber das regras gerais, os conhecimentos científicos sobre as causas e os efeitos, mas as notícias das circunstâncias que irão maximizar os ganhos. Este conhecimento das oportunidades aproveitáveis é dado pela variação dos preços. Agir de modo eficaz se torna, então, agir apenas com base no sistema de informação de preços. E esse tipo de quantidade, de acordo com Hayek, torna-se o único “conhecimento relevante” para a ação: “a economia de mercado funciona atribuindo um índice numérico a cada tipo de recurso escasso, o qual não tem ligação alguma com qualquer característica desse recurso em particular, mas que reflete – e, assim, resume – o seu significado tendo em vista a estrutura da produção”.

Para Hayek, este tipo de ganho pode ser obtido sempre que for possível criar um sistema de informação adequado. Quando escreve, ele pensa especialmente sobre as transações que ocorrem dentro das empresas; sendo criado, ele poderia substituir vantajosamente as formas de planejamento que regulam os suprimentos. As trocas entre as fábricas, entre os departamentos, entre as subsidiárias, ganhariam assim um guia “interno” formado por um tal sistema de preços.

Codificar e quantificar uma atividade consiste precisamente em reduzi-la a uma dada informação, bem simples, a qual permite uma decisão rápida e, eventualmente, uma sanção mercantil, sem discussão. É bem essa lógica que se espalhou por meio da difusão das ferramentas que servem ao gerenciamento dos serviços e dos homens no mundo dos negócios e, agora, nos mais diversos campos de atividade. Por meio desses métodos e técnicas, toda uma disciplina contábil passa a regular a vida dos indivíduos. 

Fabricar a subjetividade contábil 

Como já sublinhara Bentham no final do século XVIII, a grande arte da gestão dos homens consiste em juntar o interesse privado e a eficácia profissional com o fim de contrariar todos os incitamentos à ociosidade, à preguiça e ao vício. Na “gestão de desempenho, tudo deve ser orientado para objetivo da eficiência econômica. E essa meta é alcançada por meio de uma mudança da subjetividade que consiste em fazer dos assalariados sujeitos do valor. 

Em que consiste tal subjetividade financeira e contábil? Trata-se de governar os indivíduos de forma mais eficaz, de fazê-los produzir mais e mais, abandonando os velhos procedimentos administrativos quando eles passam a ser considerados ineficazes. O novo modo de governar consiste em passar de um comando jurídico e administrativo, suspeito de tornar as pessoas passivas e dependentes, para uma lógica econômica baseada na concorrência e na incitação material, que supostamente faz das pessoas sujeitos mais ativos, mais autônomos na busca de soluções melhores, mais responsáveis pelos resultados de seu trabalho. 

Fazendo uso de métodos de gestão padronizados, a subjetivação contábil dos assalariados consiste em codificar a sua atividade, em quantificar os seus resultados, em fixar pontuações ou objetivos numéricos para serem cumpridos durante a realização do trabalho. Para tanto, apela-se às técnicas de calibração (benchmarking) e de avaliação da atividade realizada, visando comparar os resultados obtidos com os objetivos fixados, assim como punir material e simbolicamente a falta de realização efetiva. Introduz-se também, constantemente, novas pontuações e novos objetivos. Trata-se de governar os indivíduos apelando aos seus interesses pessoais, fazendo com que entrem numa lógica contábil que põe metas quantificáveis que eles devem atender, assim como sanções que podem receber. 

A construção desse mundo codificado e quantificado, assim como de todas as normas de padronização que regulam todos os níveis da cadeia de objetivação e de avaliação, visa estabelecer a “responsabilização contábil” de cada funcionário (accountability) por meio de técnicas de poder que, em princípio, poderiam ser assim apresentadas: “vigie melhor para que se produza mais”. Vigiar melhor, ou seja, de forma mais eficiente, não consiste em sobrecarregar o comando autoritário e em apertar as travas da regra burocrática. Consiste em pôr em prática um dispositivo por meio do qual o indivíduo se vê forçado a vigiar constantemente a si mesmo, autocontrolando-se e, melhor ainda, sentindo-se compelido a ultrapassar continuamente as metas numéricas para não sofrer as sanções relacionadas à falta de eficiência e para se beneficiar das recompensas do desempenho. Trata-se de submeter os assalariados a um dispositivo de gerência que, em cada nível de operação, estabelece um quase-mercado, o qual funciona sob uma lei de valor interna à empresa ou à administração que os emprega. A imposição da subjetividade contábil exige a construção de um conjunto de sistemas de informação e de incentivos que funcionarão como dispositivos semelhantes ao mercado, os quais operarão conforme o modelo do mercado; ele forçará os trabalhadores a atuar nesses “mercados” como se fossem empresas, procurando “gerenciar” os seus esforços com o fim de maximizar seus ganhos. Os sociólogos do trabalho chamam esse tipo de relação social de “autonomia controlada”. É provavelmente melhor qualificá-lo como heteronomia individualizada ou como constrangimento internalizado. 

No jargão gerencial, diz-se dos assalariados sujeitos a esse sistema de fixação de metas que eles estão “motivados”. Trabalhar constantemente de acordo com esse regime de controle de si mesmo e de pressão auto imposta para atingir os objetivos da empresa é apresentado como uma condição de máximo engajamento na atividade. O assalariado é obrigado a “dar tudo de si mesmo”, mobilizando inteiramente a sua subjetividade. Pois, é preciso que eles façam “voluntariamente” e com “liberdade plena” o que se espera deles, sem ter que lembrá-los o tempo todo sobre o que devem fazer e como devem fazê-lo. 

Para atingir esse fim, duas forças são fundamentais. A primeira delas é a da rivalidade. Faz-se os assalariados competirem entre si para incentivá-los a apresentar desempenhos melhores. Trata-se de obrigar as pessoas a “agir livremente” nos mercados assim construídos, de guiá-las na adoção de condutas “racionais” que maximizam os seus interesses, de fazê-las adotar estratégias eficazes. A segunda força é o medo. E esse temor é principalmente aquele de vir a ser mal avaliado por seus superiores. Com efeito, este modo de governo propicia à hierarquia gerencial instrumentos de controle muito precisos, meios disciplinares bem individualizados. Implementa-se, assim, uma “cadeia gerencial” que vai da chefia até o mais humilde dos subordinados, ao longo da qual cada elo é avaliado pelo elo precedente segundo o princípio, ou mais precisamente, conforme a fantasia de uma continuidade absoluta.1 

É importante ver que essa dupla requisição impõe a norma de concorrência ao comportamento dos sujeitos sem que eles tenham qualquer atividade diretamente mercantil: da concorrência de preços (e da lógica taylorista), retém-se o imperativo da flexibilidade, a obsessão pelo rendimento de curto prazo, a exigência de uma avaliação em todos os momentos; da concorrência por meio da inovação (e da lógica cognitiva), retém-se a exaltação da autonomia ilimitada e a exortação para escolher sempre si mesmo. Estar-se-ia, porém, redondamente enganado ao se pensar que essas requisições se destinam a dois grupos muito diferentes entre si: a valorização da autonomia não se aplica apenas para os executivos dedicados à concepção e à pesquisa, pois ela também se impõe aos assalariados submetidos à lógica taylorista mais implacável. Dos mesmos sujeitos se exige, então, que eles internalizem as duas requisições simultaneamente. Não é de surpreender que, em tais condições, ocorram situações reais de “ruptura subjetiva”; certos quadros, por exemplo, são forçados a ficar durante o dia e à noite prontos para atender a chamadas de serviço (o que é ilustrado de modo exemplar pelo caso da France-Telecom). Ora, isto também mostra que a concorrência por meio da inovação imprime profundamente a sua marca ao modelo de subjetivação que caracteriza o neoliberalismo.

Todas essas técnicas de poder não produzem nada de material por si mesmas. Elas fazem algo melhor: produzem uma nova subjetividade, uma subjetividade contábil, dedicada à própria exaustão. Toda a arte de persuasão da administração consiste em fazer com que as pessoas acreditem que esse novo regime competitivo é desejado pelos assalariados, que lhes é favorável, pois melhor reflete uma “sociedade de indivíduos”. Contudo, ao contrário do que pretendem os apologistas da concorrência, esta última não se identifica com o desejo ilimitado de uma escolha por si mesmo, mas vem a ser a restrição de ter que escolher em uma situação que não foi ela mesma escolhida. Numa situação em que o mercado é forçado, é-se obrigado a participar dele. “Publicar ou perecer”: a máxima que vale para os pesquisadores é uma tradução setorial do “vender ou morrer” que vale no mercado de trabalho. Em outras palavras, a lógica da situação consiste em naturalizar o que é politicamente construído, em fazer os sujeitos pensarem eventualmente que o regime de concorrência é um funcionamento natural. 

Assim, tais técnicas de normatização e de contabilização permitem melhor integrar às operações internas das empresas e das instituições uma característica do capitalismo: a concorrência entre os trabalhadores. As palavras com que Engels descreveu em A Situação da Classe Trabalhadora na Inglaterra a competição entre os trabalhadores retomam agora uma atualidade cruel: “a competição é a mais perfeita expressão da guerra de todos contra todos que grassa na sociedade burguesa moderna. Essa guerra, guerra pela vida, pela existência, por tudo, e que pode ser, se necessário, uma guerra de morte, não apenas coloca em enfretamento as diferentes classes da sociedade, mas também os diferentes membros dessas classes; cada um fecha o caminho para os outros; cada um tenta afastar todos os que estão em seu caminho ou querem tomar o seu lugar. Os trabalhadores concorrem entre si do mesmo modo que o faz a burguesia”. 

O trabalho abstrato

Mesmo não caindo na lógica puramente imanente ao desenvolvimento do capital, a forma geral da concorrência construída por transposição tem uma relação com o “trabalho abstrato”, tal como este foi analisado por Marx. Sabe-se que por “trabalho abstrato” deve se entender uma forma de trabalho que surge da abstração das formas concretas das atividades produtivas. Trata-se, portanto, de “trabalho indiferenciado” ou de um gasto de tempo de trabalho quantificável. A dimensão quantitativa é aqui central. Apenas por meio da quantidade são os trabalhos concretos comparáveis entre si. O trabalho concreto é qualitativamente diferente de outro trabalho concreto; e, por isso, este lhe é incomensurável. 

Trabalho abstrato é a forma social que assume a multiplicidade diferenciada dos trabalhos concretos quando a troca de mercadorias se torna generalizada. Esta forma abstrata de trabalho como quantidade de tempo gasto na produção regula de fato as trocas pois somente ela pode determinar o valor relativo das mercadorias; eis que todas as mercadorias são revestidas dessa forma abstrata que só existe no cérebro, a forma valor das mercadorias. A análise da vida econômica exige que se apele a uma forma abstrata de trabalho, sem a qual não se pode compreender “a substância” econômica em si mesma, ou seja, o valor. Essa abstração é misteriosa porque é social e, mesmo sendo social, é vista pelos homens como natural. É social porque surge do confronto das mercadorias nos mercados e da concorrência que envolve os produtores. São estes é que fazem nascer a substância do valor e, assim, a “quantidade média de trabalho socialmente necessário” para produzir uma mercadoria. 

A lei do valor não rege apenas a circulação por meio da comparação das mercadorias que alegam representar determinadas quantidades de trabalho, pois ela regula também a produção. Com efeito, ela não é somente uma lei de equivalência entre as mercadorias, pois se trata de uma lei que distingue e penaliza os produtores de acordo com sua produtividade. Para Marx, o valor é dado pela quantidade média de trabalho “socialmente necessário”. Com isso, ele introduz a dimensão da concorrência que envolve todos os produtores de mercadorias. A lei do valor impõe uma punição àqueles que gastam mais tempo para produzir uma mercadoria do que o médio. A competição econômica engendra a luta para reduzir o tempo de trabalho socialmente necessário, para reduzir o “trabalho abstrato”. Temse aqui aquilo que Moishe Postone designa como a "disciplina do efeito de moinho”1: por meio do “constrangimento externo” da concorrência, as condições médias da produtividade socialmente necessária se impõem aos produtores particulares, de sorte que as determinações do “trabalho abstrato” são assim constantemente modificadas.2 

A concorrência, mais do que o processo de equivalência dos produtos realizado nos mercados, é o operador da homogeneização social das condições de produção. A partir do momento que o princípio da concorrência é posto como principal fator do desempenho econômico não só entre as empresas, mas dentro das empresas como forma de estimulação e de controle dos trabalhadores, ela assume já, por si mesma, um caráter abstrato. Torna-se uma espécie de “lei da vida” que é imposta a todos e em todas as circunstâncias. A abstração quantitativa vive agora a sua própria vida, torna-se, como diz Marx, algo natural e misterioso ao mesmo tempo, que se impõe em todos os negócios, que ignora o sentido que os trabalhadores dão às tarefas, que dobra todas as relações sociais à sua regra, que submete a si as elites políticas e as forças sociais que trabalham para expandir seu alcance. 

Que esta extensão inesperada da “lei” do valor provenha de uma construção política, e não de um processo espontâneo de autovalorização do capital, não autoriza que seja vista como resultado de uma maquinação: dizer que se trata de uma atividade de construção não implica que em dizer que provenha de um plano preparado com antecedência e controlado em todas as etapas de sua implementação. Aprendeu-se já com Marx que o produto da atividade do ser humano não é sempre produto de sua consciência ou de sua vontade. Não é isso que torna possível que o produto de sua atividade possa escapar de seu próprio controle, ao ponto de dominar a sua própria atividade?

Notas:

[1] Michel Husson, Un capitalism pur, Pages deux, 2008. 

[2] Karl Marx, Le Capital, Livre I, Quadrige/PUF, 2003, p. 693. 

[3] Michael Foucault, Naissance de la biopolitique, Gallimard/Seuil, 2004, p. 136. 

[4] Le capital, ibid, p. 663-664. 

[5] Karl Marx, Misère de la philosophie, Editions Sociales, 1968, p. 152. 

[6] Saskia Sassen, La globalisation. Une sociologie. NRF Essais, 2009. 

[7] El Mouhoub Mouhoud, Dominique Plihon, Le savoir et la finance. Paris: La Découverte, 2009, p. 63-70. 

[8] Ibid. Os autores mostram que essa hibridização vale igualmente para as próprias atividades bancárias. 

[9] Sobre esse ponto, ver Vincent de Gaulejac, La société malade de la gestion, Idéologie gestionnaire, pouvoir managérial et harcèlement social. Le Seuil-Points, nova edição, 2009. 

[10] A expressão eloquente dessa “cadeia gerencial” é tirada de um relatório recente da J-L Silicani sobre a reforma do serviço público. 

[11] N. T. Moishe Postone, em seu livro, emprega o termo “treadmill effect”, em inglês, para se referir ao processo dinâmico de formação da produtividade média social do trabalho na economia capitalista. Dardot e Laval traduzem-no, em francês, por “effet de moulin”. 

[12] Moishe Postone, Temps, travail et domination sociale. Paris: Mille et une Nuits, 2009, p. 426-427.

1 de janeiro de 2010

Presidente da hipocrisia

Tariq Ali

New Left Review

Um ano depois de a presidência dos EUA ter mudado de mãos, o que mudou no império norte-americano? Durante o governo Bush, a ‘grande’ imprensa e boa parte da sessão amnésica da esquerda repetia, que os EUA estariam sob o poder de um regime aberrante, produto de praticamente um golpe de Estado aplicado por um pequeno grupo de direitistas fanáticos – combinado à corporações ultrarreacionárias –, que teria sequestrado a democracia dos EUA, pondo-a a serviço de agressões jamais vistas contra o Oriente Médio. Resposta a isso, os EUA teriam eleito um mestiço alistado no Partido Democrata, que prometia curar todas as feridas ‘domésticas’ e restaurar a boa reputação dos EUA no mundo. Esse presidente foi recebido numa onda de euforia ideológica jamais vista desde os dias de Kennedy. Outra vez, os EUA mostrariam sua verdadeira face – decididos, mas pacíficos; firmes, mas generosos; humanos, respeitosos, multiculturalistas – ao mundo. Naturalmente, como um Lincoln ou um Roosevelt de nossos tempos, o novo jovem presidente dos EUA teria de fazer concessões, como qualquer estadista. Mas, pelo menos, estaria acabado o vergonhoso interlúdio de bandidagem e criminalidade dos Republicanos. Bush e Cheney haviam interrompido a continuidade de uma liderança norte-americana multilateral que tanto bem fizera ao país durante a Guerra Fria e depois dela. Obama recuperaria esse fio dessa meada.

Raramente a mitologia de autopromoção – ou ingenuidade bem-intencionada – foi tão rapidamente desmascarada. Não houve qualquer rompimento fundamental na política externa, como oposta às cantigas diplomáticas, entre os governos Bush 1, Clinton e Bush 2; tampouco houve qualquer mudança importante entre os governos Bush e Obama. Os objetivos estratégicos e imperativos dos EUA continuam os mesmos; tampouco mudaram os principais teatros e os meios de operação. Desde o colapso da URSS, a Doutrina Carter – a construção de um novo pilar democrático de direitos humanos – definiu o Oriente Médio estendido como campo de batalha central para a imposição do poder norte-americano em todo o mundo. Basta olhar para cada setor, para ver que Obama é produto de Bush, como Bush, de Clinton; e Clinton, de Bush-pai, em ritmo de filiação bíblica.

Continuam a ignorar Gaza

A posição de Obama a favor de Israel já estava manifesta antes da posse. Dia 27/12/2008, o Exército de Israel [ing. Israel Defense Forces, IDF] lançou ataque mortífero, por terra e ar, contra a população de Gaza. Os bombardeiros, incêndios provocados, matança generalizada continuaram sem interrupção por 22 dias, tempo durante o qual o presidente-eleito não enunciou uma sílaba de reprovação. Conforme planos já existentes, Telavive suspendeu os ataques algumas horas antes da posse de Obama, dia 20/1/2009, para não estragar a festa. Àquela altura, Obama já nomeara um doberman ultrassionista de Chicago, Rahm Emanuel, ex-voluntário do Exército de Israel, para trabalhar em sua sala, como principal assessor da presidência. Imediatamente depois da posse, Obama – como todos os presidentes dos EUA – falou a favor da paz entre os dois povos sofredores da Terra Santa e, outra vez como todos os que o antecederam, pediu que os palestinos reconhecessem Israel e que Israel suspendesse as construções nos territórios que invadiu e ocupou em 1967. Uma semana depois do discurso de Obama no Cairo, em que se manifestou contra a criação de novas colônias israelenses na Palestina, a coalizão de Netanyahu já ampliava impunemente o roubo de terra árabe em Jerusalém Leste. No outono, a secretária de Estado Clinton dava parabéns a Netanyahu por ter feito “concessões sem precedentes”. Mark Landler do New York Times, em conferência de imprensa em Jerusalém, perguntou à secretária: “Senhora Secretária, quando esteve aqui, na primeira visita, a senhora falou duramente contra a demolição de casas de árabes em Jerusalém Leste. Mesmo assim, as demolições prosseguiram e, de fato, há alguns dias, o prefeito de Jerusalém assinou nova ordem para demolir mais casas de árabes. O que a senhora teria a comentar hoje, sobre a mesma política?” A secretária ignorou a pergunta.[1]

Um mês antes, uma comissão de investigação da ONU [ing. “UN Fact Finding Mission”] nomeada para examinar denúncias sobre a invasão de Gaza, relatou que o Exército de Israel praticara atos criminosos, que não deixavam de ser criminosos por terem sido ou provocados ou respondidos com foguetes caseiros disparados pelo Hamás. Comandada por um dos mais aplicados e reconhecidos juízes especialistas em ‘direito internacional’, o juiz sul-africano Richard Goldstone, promotor que já trabalhara em sessão pré-orquestrada do Tribunal de Haia sobre a Iugoslávia e sionista conhecido e professo, as acusações contra Israel foram reduzidas ao mínimo necessário para garantir alguma credibilidade ao Relatório. Há impressionantes diferenças entre os testemunhos que a Comissão da ONU realmente ouviu e o que se lê no relatório.[2]  Mas, desabituada de receber críticas de qualquer tipo, Telavive reagiu com fúria; e Washington ordenou a seu cliente e cabeça do complô, Mahmoud Abbas, que se opusesse ao Relatório na ONU.[3] Pareceu demais até para os seguidores de Abbas e Abbas desobedeceu; mas houve reações violentas e Abbas teve de desdizer-se, o que o desacreditou ainda mais. O episódio confirmou que o controle do AIPAC sobre Washington continua tão forte como sempre – ao contrário do que supõem alguns iludidos da esquerda dos EUA, para os quais o lobby israelense estaria envelhecido e sem força, e estaria sendo substituído por algum ramo mais ‘ilustrado’ do sionismo norte-americano.

No teatro palestino do sistema norte-americano, a ausência de novidade significativa não implica ausência de movimento. Considerada de um ponto de vista mais amplo, a política dos EUA tem sido, há algum tempo, estimular a ação de Israel na direção de criar um ou mais bantustões, o que atende perfeitamente bem seus interesses.[4] Para tanto, é claro, é indispensável eliminar qualquer possível liderança palestina legítima, ou Estado palestino real. Os Acordos de Oslo foram um primeiro passo desse processo, destruindo a credibilidade da OLP e instaurando uma ‘Autoridade Palestina’ que não passa de fachada de Potemkin para a única real autoridade nos territórios ocupados, a saber, o Exército de Israel. Incapaz de obter qualquer respeitabilidade ou autoridade, por cerimonial que fosse, a liderança da OLP na Cisjordânia passou a dedicar-se a fazer fortuna, abandonando definitivamente a luta pelos interesses do povo palestino, entregue à pobreza mais absoluta e regularmente exposto à violência dos colonos judeus. Trabalhando na direção oposta, e criando um sistema primitivo mais eficaz de bem-estar social, capaz de distribuir assistência médica, remédios e alimentos nas áreas mais miseravelmente pobres, e com creches e asilos para velhos e doentes, o Hamás conseguiu ganhar apoio popular e venceu as eleições palestinas de 2006. Europa e EUA reagiram imediatamente com o boicote político-econômico, e apoiaram a volta do partido Fatah ao poder na Cisjordânia. Em Gaza, onde o Hamás era mais forte, Israel tentou durante algum tempo inflar Mohammed Dahlan para que liderasse um golpe – Dahlan é o chefe-de-quadrilha favorito de Washington, dentro do aparelho de segurança da OLP. Ben-Eliezer, ministro da Defesa contou, em depoimento à Comissão de Negócios Estrangeiros e Defesa, do Parlamento de Israel, que em 2002, quando o Exército de Israel retirou-se de Gaza, ofereceu a Faixa a Dahlan, que desejava provocar a guerra civil na Palestina que tanto perturbava a vida dos colonos judeus. Quatro anos antes, Dahlan recebera ajuda de Washington para promover golpe militar em Gaza,[5] mas foi vencido pelo Hamás, que assumiu o controle da Faixa em meados de 2007. Depois do bloqueio como castigo político e econômico por os eleitores palestinos terem-se levantado e resistido aos expressos desejos euro-norte-americanos, veio o ataque israelense do final de 2008 –, em relação ao qual Obama "piscou".

Mas o resultado, agora, não é o impasse sempre regular e pontualmente lastimado pelos sonhadores que ainda sonham com “acordos de paz”. Depois de repetidos golpes, e cada vez mais isolada, a resistência palestina está sendo paulatinamente minada e enfraquecida, a ponto de o próprio Hamás – sem conseguir desenvolver qualquer estratégia coerente, nem de romper o compromisso dos Acordos de Oslo, dos quais também o Hamás tornou-se prisioneiro – começar a considerar a possibilidade de aceitar o nada que Israel oferece, paramentado com outros nadas que o ocidente oferece. Não há nenhum tipo significativo de Autoridade Palestina. Deputados eleitos pela Cisjordânia ou Gaza são tratados como enviados de ONGs de mendigos: recebem migalhas se permanecem ajoelhados e seguem o que o ocidente ordene; e castigos, se saem da linha. Racionalmente, os palestinos melhor fariam se dissolvessem a Autoridade e exigissem direitos iguais de cidadania num único Estado, apoiados em campanha internacional a favor do boicote a Israel, desinvestimento e sanções, até que se desmantelem todas as estruturas de apartheid vigentes em Israel. Na prática, há pequena ou nenhuma probabilidade de isso acontecer em futuro próximo. O que se deve prever, muito mais provavelmente, é a convergência – já promovida e elogiada no jornal Haaretz como mais brilhantemente iluminada que a de Rabin [6] – de Obama e Netanyahu, na direção de uma solução final, com várias entidades ‘palestinas’ com as quais Israel poderá conviver e nas quais morrerá a Palestina.

Harvesting Baghdad

For the moment, however, there are more pressing preoccupations: war-zones farther east have the first call on imperial attention. Iraq may have dropped from the headlines, but not from the daily security briefings in the Oval Office. In 2002, on his way up the political ladder as a low-profile state senator in Illinois, Obama opposed the attack on Iraq; it was politically inexpensive to do so. By the time he was elected President, American forces had occupied the country for six years, and his first act was to maintain Bush’s Defense Secretary, Robert Gates, long-time cia functionary and veteran of the Iran–Contra affair, in the Pentagon. A cruder and more demonstrative signal of political continuity could hardly have been conceived. In the last two years of the Republican Administration, us troop-levels were increased by a fifth, to 150,000, in a ‘surge’ that was hailed across the party spectrum as having crushed the Iraqi resistance, readying the country for a stable pro-Western, hopefully even democratic, future. The new Democratic Administration has not deviated at all from this script. The 3-year Status of Forces Agreement signed by Bush and his collaborators in Baghdad had stipulated that all us troops would leave Iraq by December 2011, although a subsequent agreement could obviously extend their stay, and the us ‘combat’ forces would quit Iraqi cities, villages and localities by June 2009. Before his election, Obama promised a withdrawal of all us ‘combat’ troops from Iraq within sixteen months of his taking office, i.e. by May 2010—adorned with a safety clause that this pledge could be ‘refined’ in the light of events. It promptly was, with the February 2009 announcement that combat troops would now leave Iraq by September 2010, while the ‘residual’ 50,000 forces could also engage in combat operations to ‘protect our ongoing civilian and military efforts’. [7]

The slaughter and devastation wreaked on Iraq by the United States and its allies, chiefly Britain, are now well known: the destruction of the country’s cultural patrimony, the brutal dismembering of its social infrastructure, the theft of its natural resources, the sundering of its mixed neighbourhoods, and above all the death or displacement of countless of its citizens—over a million dead; three million refugees; five million orphans, according to government figures. [8] Wasting no words on any of this, the Commander-in-Chief and his generals have other concerns. Can Iraq now be regarded as a tolerably secure outpost of the American system in the Middle East? They have reason to exult, and reason to doubt. Compared with the situation at the height of the insurgency in 2006, most of the country today is under the thumb of Baghdad, and American casualties are few and far between. A predominantly Shia army—some 250,000 strong—has been trained and armed to the teeth to deal with any resurgence of the resistance. Sectarian cleansing of the capital, on a scale of which the Haganah could be proud, has wiped out most Sunni neighbourhoods, for the first time giving the Maliki regime set up by Bush a firm grip on the hub of the country. To the north, the Kurdish protectorates remain staunch bastions of us power. To the south, Moqtada al-Sadr’s militias have been sent packing. Best of all, the oil-wells are returning to those who know how to make good use of them, as auctions distribute 25-year leases to foreign corporations. Some excesses may mar the scene in Baghdad, [9] but the new Iraq has the blessing of the saintly Sistani’s smile.

Yet there persists the uneasy thought that the Iraqi resistance, capable of inflicting such damage on the us military machine only yesterday, might just be biding its time after its heavy losses and the defection of an important segment, and could still visit havoc on the collaborators tomorrow, should the us pull out altogether. [10] To ensure against any such danger, Washington has put down markers in the modern equivalents—vastly larger and more hideous—of the Crusader fortresses of old. The Balad military base, within easy bomber reach of Baghdad, is a small-town American city-state. Containing an airport that is reportedly the busiest in the world after Heathrow, it can house over 30,000 us soldiers and auxiliaries—an immigrant labour force composed largely of South Asian workers who clean homes, cook food and staff Subway sandwich bars; drug-dealers are never in short supply, while mobile Eastern European prostitutes serve Balad’s other needs. Fifteen bus routes complement the airport, but commuting remains a problem for some of the service staff. [11] Another thirteen military and air-force bases are scattered throughout the country, among them Camp Renegade near Kirkuk, to guard the oil-wells, Badraj on the Iranian border, for espionage in the Islamic Republic, and a British base dating back to the 1930s at Nasiriyah, upgraded to serve American appetites. In Baghdad itself, meanwhile, the us proconsul can now enjoy the largest and most expensive embassy in the world—it is the size of the Vatican City—in the fortified enclave of the Green Zone.

After seizing Iraq as colonial prey in 1920 and installing the Hashemite dynasty as its local instrument, Britain was faced with full-scale rebellion which it suppressed only with difficulty and all-out savagery. For the next twelve years, London ruled the country as an imperial dependency, before finally relinquishing its ‘mandate’—granted by the League of Nations—in 1932. But the client regime it left behind lasted another quarter of a century, until eventually it was overthrown in the revolution of 1958. The American seizure of Iraq provoked a full-scale insurgency even more swiftly, and one that has lasted longer, against an occupation enjoying this time a mandate of the United Nations. The us empire too will leave behind a puppet regime to hold down the country into the foreseeable future. In that venture there could be few more fitting successors to Ramsay MacDonald—that earlier handsome, willowy figure who was never at a loss for uplifting words—than Barack Obama. But history has accelerated since those days, and there is at least a chance that Maliki and his torturers will meet the fate of Nuri al-Said more rapidly, in another national uprising to root out alien military bases, outsize embassies, oil companies and their local collaborators alike.

Menacing Tehran

For American elites, Iran has long posed a conundrum: an ‘Islamic Republic’ publicly breathing fire against the Great Satan while quietly extending assistance to it wherever most needed, be it collusion with counter-revolution in Nicaragua, invasion of Afghanistan or occupation of Iraq. The rulers of Israel are not the recipients of any of these benefits, and have taken a dimmer view of the rhetoric of the mullahs, directed with greater ferocity at them and at the Little Satan in London, than at their patrons in Washington. Above all, once the prospect of an Iranian nuclear programme undermining the Israeli monopoly of weapons of mass destruction in the Middle East started to loom on the horizon, Tel Aviv galvanized its assets in the United States into a campaign to ensure that Washington became committed to striking it down at all costs. Not that there was much resistance to overcome, given the degree to which Israeli objectives have long been internalized as little less than second nature by us policy-makers. Scorning overtures from the Khatami regime for an across-the-board regional deal in 2003, the Republican Administration sought instead to force Iran into compliance with the Israeli monopoly by matching Tehran’s oratorical tirades and tightening economic sanctions on it.

Without saying so too explicitly, Obama came into office allowing it to be understood that this was not the way to go about things. Much better would be to initiate a forgive-and-forget dialogue with Tehran, banking on the traditional pragmatism of the regime, and the manifest pro-Americanism of middle-class and youth layers in the population at large, to achieve a friendly diplomatic settlement in the interest of all parties, denuding Iran of a nuclear capability in exchange for an economic and political embrace. But the timing was unlucky and the calculation was upset by political polarization in Iran itself. Factional struggles in the clerical establishment escalated over the presidential election in June 2009, when a bid by its most openly pro-Western wing to take power on a wave of (mostly) middle-class protest was suppressed by an incumbent counter-strike that combined electoral fraud and militia violence. For Obama, the opportunity for ideological posturing was too great to resist. In a peerless display of sanctimony, he lamented with moist-eyed grief the death of a demonstrator killed in Tehran on the same day his drones wiped out sixty villagers, most of them women and children, in Pakistan. With the Western media in full cry behind the President, the thwarted candidate in the Iranian contest—historically one of the worst butchers of the regime, responsible for mass executions in the 80s—was converted into another icon of the Free World. Schemes for a grand reconciliation between the two states had to be set aside.

After this misadventure, the Democratic Administration has reverted to the line of its predecessor, attempting to corral Russia and China—European acquiescence can be taken for granted—into an economic blockade of Iran, in the hope of so strangling the country that the Supreme Leader will either be overthrown or obliged to come to terms. Should such pressure fail, an air-strike by Israeli or American fighter-bombers on Iranian nuclear facilities remains the back-up threat. While still unlikely, such a blitz cannot be altogether ruled out, if only because once the West at large—in this case not only Obama, but Sarkozy, Brown and Merkel—has pronounced any Iranian nuclear capability intolerable, little rhetorical room for retreat is left if this should materialize. [12] In the past, fear of Iranian retaliation against shaky American positions in Iraq would probably have been enough to deter such an assault. But Tehran’s influence in Baghdad is not what it was. Once confident that Iraq would shortly become a sister Islamic Republic, it can no longer be sure that relations between the two will be any better than between the various Sunni states in the region. For the moment, the Maliki regime knows which side butters its bread—Iran could never match the dollars and arms it gets from the us, while Sistani’s pretensions to pre-eminence over assorted divines across the border are of long standing. Whether Moqtada al-Sadr’s militias are now equally biddable remains unclear.

Still, to date the Pentagon remains opposed to any adventure that could risk stringing its forces out across a war-zone which would stretch from the Litani to the Oxus, if the Revolutionary Guards were to foment operations in Lebanon or western Afghanistan. Nor should Tehran’s threat to retaliate with conventional missiles against Israeli cities be discounted. There are also Washington’s other allies to be considered. Israel and its lobbyists may be the prime movers in ongoing agitation against Iran, but they are not alone. The Saudi monarchy, a sui generis confessional dictatorship, remains fearful that a Tehran–Baghdad combination might destabilize the Peninsula: Shia constitute a large majority in Bahrain and the oil-producing region of the Saudi state itself. But the Saudis are also aware that any direct attack on Tehran could pose an even bigger threat to their rule, provoking Shia uprisings that might engulf them. For Riyadh, an alternative route under review in Washington is preferable—inserting Turkey into the regional equation as a Sunni–nato detachment of the empire, buttressing the Saudi petrodollars offered to Syria to break with Iran. This would serve as a counter-thrust against any future Tehran–Baghdad axis and cut off Hezbollah from Damascus, softening it up for another assault by the idf.

Querem reinventar Cabul

Da Palestina passando pelo Iraque até o Irã, Obama agiu como mais um fiel servidor do império norte-americano, perseguindo os mesmos alvos que seus predecessores, pelos mesmos meios, embora com retórica mais emoliente. No Afeganistão, foi mais longe, ampliando a frente de agressão, com escalada na violência tecnológica e territorial. Quando Obama tomou posse, o Afeganistão já estava ocupado pelos EUA e forças satélites, por mais de sete anos. Na campanha eleitoral, Obama – determinado a superar Bush naquela ‘guerra justa’ – pediu mais ataques com os aviões-robôs não tripulados para esmagar a resistência afegã; e mais invasões por terra, além da invasão pelos aviões-robôs no Paquistão para interromper de vez as linhas de apoio que vinham da fronteira. Aí está promessa bem cumprida. Nesse momento, mais 30 mil soldados estão sendo mandados às pressas para o Hindu Kush. Com eles, o exército norte-americano de ocupação chegará aos 100 mil soldados, comandados por um general escolhido por Obama em razão do sucesso de suas brutalidades no Iraque, onde suas unidades formavam uma elite especializada em assassinatos e torturas. Simultaneamente, está a caminho uma massiva intensificação do terror aéreo sobre o Paquistão. No que o New York Times delicadamente designou como “uma estatística que a Casa Branca não divulgou”, o jornal informou aos leitores que “desde a posse do presidente Obama, a CIA moveu mais ataques com aviões-robôs, os drones Predator, contra território paquistanês, do que ao longo dos oito anos de governo do presidente Bush” [13].

Não há mistério algum sobre a razão dessa escalada. Depois de invadir o Afeganistão em 2001, os EUA e seus auxiliares europeus impuseram lá um governo-fantoche inventado por eles mesmos, montado num encontro em Bonn, chefiado por um quadro da CIA e assessorado por um sortimento de senhores-da-guerra tadjiques, com uma coorte de ONGs que os cercam como pajens em corte medieval. Esse constructo-fantoche jamais gozou sequer de alguma mínima legitimidade local, nem aquela estreita mas legítima base com que contava o regime dos Talibã. Instalado em Cabul, os fantoches concentraram-se na exclusiva tarefa de enriquecer. Ajudas desencaminhadas e roubadas, corrupção generalizada, narcóticos – duramente reprimidos pelos Talibãs – corriam soltos. Karzai e companhia acumularam fortuna imensa: mais de 75% de todos os fundos enviados ao Afeganistão pelos países doadores acabaram diretamente dentro dos cofres dos aliados de Karzai, da Aliança do Norte ou de empresários privados usados por eles como intermediários. A construção de um novo hotel 5-estrelas e de um shopping center tornaram-se prioridades, em país que é um dos mais pobres do mundo; e os assassinatos e a tortura converteram em rotina a poucos passos do hotel e do shopping center; a base-prisão de Bagram converteu-se em câmara de horrores ante a qual Guantánamo pareceria civilizada. A produção de ópio alcançou números que jamais alcançara em todos os tempos, crescendo mais de 90% em relação aos níveis de 2001, quando estava confinada às regiões controladas pela Aliança do Norte; espalhou-se para sul e oeste, sob a batuta do clã Karzai. A massa dos afegãos mais pobres recebeu pouco ou nada dos benefícios da nova ordem imposta, exceto maiores perigos e risco de morte muito mais alto, quando as forças reorganizadas dos neo-Talibãs começaram a atacar os exércitos ocupantes, e bombas da OTAN começaram a chover sobre vilas e aldeias. A tal ponto que Karzai viu-se várias vezes obrigado a protestar. [14]

Em junho de 2009, os guerrilheiros afegãos controlavam vastas áreas do país e tinham vários agentes infiltrados na polícia e nas unidades militares oficiais. Adotando táticas de IEDs [ing. Improvised Explosive Device] desenvolvidas no Iraque para ataques em estradas e suicidas-bombas, estavam infligindo pesadas baixas na ocupação ocidental e seus colaboradores. No próprio campo imperial, crescia o desassossego e a confusão. [15] Os funcionários norte-americanos, militares e diplomatas, contradiziam-se publicamente, sem qualquer acordo sobre até que ponto os EUA deveriam servir como avalistas da farsa de democracia que Karzai encenava como se fossem eleições; uns apoiavam, outros rejeitavam. Naquele evento, depois de veementes denúncias de fraude pelo primeiro mandatário dos EUA em Washington, e depois de manifestar-se favorável a um segundo turno de eleições, Obama consumou a farsa ao congratular-se publicamente com Karzai, por uma vitória mais visivelmente fraudada, até, que a de Ahmadinejad, dois meses antes; na ocasião, o presidente Obama não economizou palavras duras. Diferente do regime em Teerã, que tem base social de legitimidade, diminuída hoje, mas ainda existente, o que se faz passar por governo em Cabul é um implante ocidental na região, que se desintegrará da noite para o dia, no instante em que for abandonado pela guarda pretoriana da OTAN que lá está para protegê-lo.

Pendurado em Islamabad, Paquistão

Desesperadamente necessitado de alguma vitória em sua ‘guerra justa’ escolhida, Obama lançou-se no clássico movimento de ‘fuga para adiante’, despachando força expedicionária ainda maior e estendendo a guerra também ao país vizinho, onde se suspeita que o inimigo encontre ‘paraísos seguros’. Desde o início de seu governo, já estava inventada uma nova zona ‘integrada’ de guerra, uma nova entidade formada de Paquistão e Afeganistão, mas rebatizada como “Af-Pak”. Uma torrente de emissários foi despachada para Islamabad para comandar o Estado paquistanês na direção das missões de repressão e violência que passavam a ser atribuição sua. [16] Os 2.460 quilômetros de fronteira entre o Afeganistão e o que é hoje o Paquistão são limite muito poroso desde que o Império Britânico demarcou a Linha Durand, em 1893. 16 milhões de pashtuns vivem no sul do Afeganistão, 28 milhões na Província Fronteira Noroeste, no Paquistão. É impossível policiar aquela fronteira, e praticamente não se vêem os deslocamentos nas duas direções, porque as várias tribos que por ali circulam falam o mesmo dialeto e muitas vezes já estão unidas em famílias comuns por casamentos intertribais, dos dois lados. Os guerrilheiros afegãos buscam e encontram abrigo em praticamente toda a região, o que não é segredo para ninguém. Para que a OTAN ou o Exército Paquistanês conseguissem deter esse fluxo, teriam de mobilizar no mínimo 250 mil soldados em campanhas de aniquilação semelhantes às de Chiang Kai-shek nos anos 30. No governo de Musharraf – e sob as ameaças do Pentágono, de que se o Paquistão não concordar, será bombardeado até ser devolvido à Idade da Pedra –, o Exército Paquistanês converteu-se, de patrão em inimigo de morte dos Talibãs no Afeganistão, mas sempre só nas camadas superficiais. O Exército Paquistanês sabe perfeitamente bem que está sendo obrigado a influenciar Cabul a favor da Índia... Índia a qual, por sua vez, não perdeu tempo e já pôs Karzai sob suas asas. Musharraf fez o máximo que pôde para satisfazer os EUA, permitindo que soldados das Forças Especiais e aviões-robôs teleguiados, os drones Predator, invadam sem qualquer restrição o Paquistão, e delatando todos os agentes da al-Qaeda de que teve notícia. Mas, de fato, Washington jamais engoliu completamente a ideia de que esse tipo de ‘segurança’ bastasse, o que, numa espécie de reação de desconfiança, faz com que, cada dia mais, aumente o desprezo que a maioria dos paquistaneses sente por quem negocie com os EUA.

Quando Obama chegou ao poder, dois desenvolvimentos haviam alterado essa cena. Incessantemente empurrado pelo Pentágono, entre 2004 e 2006 Musharraf mandou o Exército Paquistanês nove vezes para as Áreas Tribais de Administração Federal [ing. Federally Administered Tribal Areas (FATA)], os sete setores montanhosos não incluídos na jurisdição da Província da Fronteira Noroeste – onde a autoridade do governo central sempre foi vestigial –, para deter a infiltração dos Talibãs. Como resultado só conseguiu estimular na população solidariedade cada vez maior e desejo sempre crescente de participar da resistência afegã. Assim chegou-se a dezembro de 2007, com a formação da Tehrik-i-Taliban paquistanesa, guerrilha brutal e nativa dedicada a combater diretamente contra Islamabad e Musharraf. (Ao contrário do que supõe o ocidente, esse grupo não é subsidiário ou fruto dos neo-Talibãs afegãos, como o comprova o levante de Mullah Omar contra o ocidente. Muito claramente, Omar insistia em que o alvo não seria o Exército Paquistanês; que o inimigo real sempre foram EUA e OTAN.)

Em 2008, o próprio Musharraf foi derrubado. Foi substituído na presidência pelo infame viúvo de Benazir Bhutto, Asif Zardari, escroque conhecido e desacreditado, que se ofereceu como espantalho a serviço dos EUA. A embaixadora dos EUA, Anne Patterson – recém desembarcada depois da missão de armar o governo Uribe na Colômbia – em pouco tempo já se servia da boa-vontade de Zardari. E os frutos não tardaram a brotar. Em abril de 2009, Zardari ordenou que o Exército ocupasse o distrito de Swat na Província da Fronteira Noroeste, que dois meses antes havia sido tomada pela brutal milícia Tehrik-i-Taliban Paquistanesa (TTP). Violento assalto com armamento militar pesado empurrou os guerrilheiros TTP de volta às montanhas e criou dois milhões de refugiados expulsos de suas casas e terras. Empolgado por esse impressionante sucesso humanitário, Obama forçou Zardari a mandar o exército para a própria área tribal de administração federal, FATA, em outubro, para empurrar para o ralo os guerrilheiros Talibãs – e já pouco importava que fossem afegãos ou paquistaneses, desde que fossem empurrados para o ralo – do Waziristão Sul e Bajaur. Mais centenas de milhares de homens e mulheres e crianças das tribos daquelas regiões foram expulsos de suas casas e terras, com o ronco dos bombardeiros dos EUA explodindo sobre (literalmente) suas cabeças, enquanto corriam desesperados sem saber para onde ir.[17] Em novembro, o Exército do Paquistão anunciou “o fim da ofensiva”. A guerrilha aparentemente foi varrida da face da terra

Até que ponto pode avançar esse tipo de limpeza étnica doméstica, e a que tipo de resultados levará, ainda não se sabe. O que já se sabe é que, ao forçar o Exército do Paquistão a atirar contra as tribos paquistanesas, com as quais o Exército e todos os militares sempre viveram em bons termos, Obama obra para desestabilizar mais uma sociedade, no interesse do império dos EUA. Hoje, os ataques por homens e mulheres-bombas estão convertidos em tragédias semanais nas grandes cidades do Paquistão – vãos e desesperados atos de vingança contra a repressão na região da fronteira. Zardari e sua trupe cambaleiam, depois que a imunidade que Musharraf lhe garantira, nas acusações de corrupção, foi derrubada na Suprema Corte do Paquistão. Há boa chance de que o PPP [ing. Pakistan Peoples Party], partido já corroído pelos vermes, e desgraça que assola o país desde o segundo mandato de Benazir Bhutto, rache e desapareça depois do fim de Zardari. [18] Washington resistirá ao fim desse escroque e escroqueria, mas pode confiar plenamente nos generais estrelados do Exército para que lhe ofereçam substituto funcional à altura, como sempre aconteceu no passado. O Exército Paquistanês jamais produziu oficialato jovem patriótico capaz de eliminar o alto comando, expulsar as agências estrangeiras e impor reformas, como viu-se algumas vezes na América Latina e no mundo árabe. A subserviência do Exército do Paquistão aos EUA é estrutural, mesmo que nem sempre tenha sido total. Dependente de massivos aportes de dinheiro e equipamento norte-americanos, o Exército do Paquistão não se atreve a desafiar Washington abertamente, mesmo quando obrigado a agir contra seus próprios interesses; muito encobertamente, sempre buscou manter alguma margem de autonomia, enquanto persiste a confrontação com a Índia. Arrasará seus próprios cidadãos, se os EUA assim ordenarem, sim; mas não a ponto de incendiar irremediavelmente as áreas tribais, nem colaborará até o final para extirpar toda a resistência nas áreas de fronteira.

Duplicating Saigon?

With this expansion, what are the prospects for Obama’s ‘just war’? Comparing the American with the Soviet occupation of Afghanistan, two major differences stand out. The regime created by the us is far weaker than that protected by the ussr. The latter had a genuine local basis, however much it abused it: never just an alien graft, the pdpa generated an army and administration capable of surviving the departure of Soviet troops. The Najibullah government was eventually overthrown only thanks to massive outside assistance from the us, Saudi Arabia and Pakistan. But in that assistance lies the second decisive contrast. Unlike the fighters who entered Kabul in 1992, bankrolled and armed to the teeth by foreign powers, the Afghan resistance of today is all but completely isolated: anathema not only to Washington, but to Moscow, Beijing, Dushanbe, Tashkent, Tehran, able at most to count on a sporadic, furtive tolerance from Islamabad.

That is why comparisons with Vietnam, though they are telling in so many other respects—moral, political, ideological—in military terms are less so. At one level Obama’s arrogant escalation of the war in Afghanistan could be said to combine the hubris of Kennedy in 1961 with that of Johnson in 1965, even of Nixon in 1972, whose bombing of Cambodia bears more than one resemblance to current operations in Pakistan. But there is no draft to disaffect American youth; no Soviet or Chinese aid to sustain the guerrilla; no anti-imperialist solidarity to weaken the system in its homelands. On the contrary, as Obama likes to explain, no less than 42 countries are lending a hand to help his embarrassing marionette in Kabul dance a good show. [19] No world-historical spectacle could be more welcome than the American proconsul fleeing once again by helicopter from the roof of the embassy, and the motley expeditionary forces and their assorted civilian lackeys kicked unceremoniously out of the country along with him. But a second Saigon is not in prospect. Monotonous talk of the end of American hegemony, the universal cliché of the period, is mostly a way of avoiding serious opposition to it.

If a textbook illustration were needed of the continuity of American foreign policy across administrations, and the futility of so many soft-headed attempts to treat the Bush–Cheney years as exceptional rather than essentially conventional, Obama’s conduct has provided it. From one end of the Middle East to the other, the only significant material change he has brought is a further escalation of the War on Terror—or ‘Evil’, as he prefers to call it—with Yemen now being sighted as the next target. [20] Beyond, the story is much the same. Renditions—torture by proxy—are upheld as a practice, while their perpetrators continue to lounge at their ease in Florida or elsewhere, ignoring extradition warrants under Obama’s protection. Domestic wire-taps continue. A coup in Central America is underwritten. New military bases are set up in Colombia.

Emulating Wilson

Still, it would be a mistake to think that nothing has changed. No Administration is exactly like any other, and each President leaves a stamp on his own. Substantively, vanishingly little of American imperial dominion has altered under Obama. [21] But propagandistically, there has been a significant upgrade. It is no accident that a leading columnist—and one of the more intelligent—could, only half ironically, list the five most important events of 2009 as so many speeches by Obama. [22] In Cairo, at West Point, at Oslo, the world has been treated to one uplifting homily after another, each address larded with every egregious euphemism that White House speech-writers can muster to describe America’s glowing mission in the world, and modest avowal of awe and sense of responsibility in carrying it forward.

‘We must say openly to each other the things we hold in our hearts’ is the characteristic tone. ‘Our country has borne a special burden in global affairs. We have spilled American blood in many countries on multiple continents. We have spent our revenue to help others rebuild from rubble and develop their own economies. We have joined with others to develop an architecture of institutions—from the United Nations to nato to the World Bank—that provide for the common security and prosperity of human beings’. ‘The struggle against violent extremism will not be finished quickly, and it extends well beyond Afghanistan and Pakistan . . . Our effort will involve disorderly regions, failed states, diffuse enemies’. ‘Our cause is just, our resolve unwavering. We will go forward with the confidence that right makes might’. In the Middle East, there are ‘tensions’ (the term recurs nine times in his address to Mubarak’s claque at al-Azhar), and a ‘humanitarian crisis’ in Gaza. But ‘the Palestinians must renounce violence’, and ‘the Iraqi people are ultimately better off’ for American actions. In Oslo: ‘Make no mistake: evil does exist in the world’. ‘To say that force may sometimes be necessary is not a call to cynicism—it is a recognition of history; the imperfections of man and the limits of reason.’ In Cairo: ‘Resistance through violence and killing is wrong’. In short: if the us or Israel wage war, it is a regrettable moral duty. If Palestinians, Iraqis or Afghans resist them, it is an immoral dead-end. As Obama likes to say, ‘We are all God’s children’, and ‘This is God’s vision’. [23]

If sonorous banality and armour-plated hypocrisy are the hallmarks of this Presidential style, that does not make it less functional for the task of servicing and repairing the imperial institutions over which Obama and Clinton now preside. Nothing grated more on international opinion than the lack of requisite unction with which Bush and Cheney all too often went about their business, exposing allies and audiences otherwise well-disposed towards American leadership to inconvenient truths they would have preferred not to hear. Historically, the model for the current variant of imperial Presidency has been Woodrow Wilson, no less pious a Christian, whose every second word was peace, democracy or self-determination, while his armies invaded Mexico, occupied Haiti and attacked Russia, and his treaties handed one colony after another to his partners in war. Obama is a hand-me-down version of the same, without even Fourteen Points to betray. But cant still goes a long way to satisfy those who yearn for it, as the award to Obama of what García Márquez once called the Nobel Prize for War has graphically shown. After lying enough to voters—promising peace and delivering war—Wilson was re-elected to a second term, though it did not end well for him. In more combative times, Johnson was forced to step down in ignominy for his warmongering, without being able to gull the electors again. Twelve years later, a debacle in Tehran helped sink Carter. If the recent setbacks for Democrats in West Virginia and New Jersey—where Democratic voters stayed at home—become a pattern, Obama could be a third one-term President, abandoned by his supporters and mocked by those he tries so hard to conciliate.

Notas:

[1] ‘Remarks with Israeli Prime Minister Binyamin Netanyahu’, Jerusalém, 31/10/2009, em http://www.state.gov/secretary/rm/2009a/10/131145.htm.

[2] Em entrevista à Rádio do Exército de Israel, em hebraico, a filha do juiz Goldstone, Nicole Goldstone, disse: “Meu pai aceitou esse trabalho, porque acreditava que estaria trabalhando pela paz para todos, também para Israel. (...) Não foi fácil. Meu pai não esperava ver e ouvir o que viu e ouviu”. E disse ao entrevistador que, dependesse de seu pai, o relatório teria sido muito mais duro. Deve-se acrescentar que, não fosse pela participação de uma advogada paquistanesa, Hina Jilani, na mesma missão de investigação, o relatório teria sido muito mais ‘macio’.

[3] Os israelenses impuseram a sanção máxima: se Abbas endossasse o Relatório Goldstone, cancelava-se o negócio de telefonia com uma empresa israelense, e o pessoal da OLP perderia empregos e comissões.

[4] Deve-se registrar que ambos, o Bispo Tutu e Ronnie Kasrils, ex-ministro de Defesa do governo de Mandela, discordam veementemente dessa analogia. Para ambos, as condições nas quais vivem os palestinos nos territórios ocupados é muitas vezes pior do que a dos negros nos bantustões

[5] Ver ROSE, David, ‘The Gaza Bombshell’, Vanity Fair, April 2008.

[6] Por exemplo, ver Ari Shavit, ‘Netanyahu is Positioning Himself to the Left of Rabin’, Haaretz, 6/12/2009.

[7] Obama speech at Camp Lejeune, North Carolina, 27 February 2009.

[8] Cultural Cleansing in Iraq: Why Museums were Looted, Libraries Burned and Academics Murdered, edited by Raymond Baker, Shereen Ismael and Tareq Ismael, London 2009, contains detailed figures and sources, amongst which the fact that from 2003–07, Washington only allowed 463 refugees, mainly professional Iraqis of Christian origin, into the United States. For an illuminating survey of the history of Iraqi oil and the privatized looting now under way, see Kamil Mahdi, ‘Iraq’s Oil Law: Parsing the Fine Print’, World Policy Journal, Summer 2007.

[9] Here is the Economist: ‘Old habits from Saddam Hussein’s era are becoming familiar again. Torture is routine in government detention centres . . . Iraqi police and security people are again pulling out fingernails and beating detainees, even those who have already made confessions. A limping former prison inmate tells how he realized, after a bout of torture in a government ministry that lasted for five days, that he had been relatively lucky. When he was reunited with fellow prisoners, he saw that many had lost limbs and organs. The domestic-security apparatus is at its busiest since Saddam was overthrown six years ago, especially in the capital. In July the Baghdad police reimposed a nightly curfew, making it easier for the police, taking orders from politicians, to arrest people disliked by the Shia-led government.’ See ‘Could a Police State Return?’, 3 September 2009.

[10] General Petraeus recently announced that attacks on us forces in Iraq were down to ‘only’ 15 a day: Financial Times, 2 January 2010. Not Maliki but Muntadhar al-Zaidi, the Baghdad shoe-thrower, represents the sentiments of most Iraqis, regardless of ethnic or confessional origin.

[11] ‘It takes the masseuse, Mila from Kyrgyzstan, an hour to commute to work by bus on this sprawling American base. Her massage parlour is one of three on the base’s 6,300 acres and sits next to a Subway sandwich shop in a trailer, surrounded by blast walls, sand and rock’, writes Marc Santora: ‘Big us Bases Are Part of Iraq, but a World Apart’, New York Times, 8 September 2009.

[12] In Illinois in 2004, I watched Obama interviewed on network television in the run-up to the Senate election he subsequently won. Asked whether he would back Bush if he decided to bomb Iran, the future President did not hesitate for a moment. He put on a warlike look and said that he would.

[13] David Sanger, ‘Obama Outlines a Vision of Might and Right’, New York Times, 11 December 2009.

[14] Most recently on 27 December when a us black-ops unit killed 10 civilians on the same day as Ahmadinejad’s militias killed 5 demonstrators in Tehran.

[15] See the letter from Matthew Hoh, a former Marine captain who served as a political officer in Iraq and subsequently Afghanistan, and resigned in September 2009. ‘The Pashtun insurgency, which is composed of multiple, seemingly infinite, local groups, is fed by what is perceived by the Pashtun people as a continued and sustained assault, going back centuries, on Pashtun land, culture, traditions and religion by internal and external enemies . . . In both rc East and South, I have observed that the bulk of the insurgency fights not for the white banner of the Taliban, but rather against the presence of foreign soldiers and taxes imposed by an unrepresentative government in Kabul . . . If honest, our stated strategy of securing Afghanistan to prevent al-Qaeda resurgence or regrouping would require us to additionally invade and occupy western Pakistan, Somalia, Sudan, Yemen, etc.’ See Ralph Nader, ‘Hoh’s Afghanistan Warning’, CounterPunch, 4 November 2009.

[16] Inter-Risk, the Pakistani subsidiary of us defence contractor DynCorp, was recently raided by local police, who seized ‘illegal and sophisticated weaponry’. The company’s boss, a retired Captain Ali Jaffar Zaidi, informed reporters that us officials in Islamabad had ordered the import of prohibited weapons ‘in Inter-Risk’s name’, promising that payment would be made by the us embassy. Anwar Abbasi, ‘Why the us security company was raided’, The News, 20 September 2009.

[17] For the estimated number of refugees in Swat and fata, see Mark Schneider, ‘fata 101: When the Shooting Stops’, Foreign Policy, 4 November 2009. Schneider is Senior Vice President of the impeccably Establishment International Crisis Group.

[18] The us-brokered deal that allowed Zardari and his late wife to return to the country during the Musharraf period was pushed through via a hurriedly concocted ‘National Reconciliation Ordnance’ pardoning politicians charged with various crimes. Last November, the National Assembly in Pakistan refused to vote in favour of renewing the Ordnance. The re-instated Chief Justice did the rest. On 16 December 2009, a cold, crisp winter afternoon in Islamabad, the full bench of the Supreme Court of Pakistan—sixteen senior judges and the Chief Justice—declared the Ordnance null and void. Few doubt that the Zardari interregnum is almost over. This particular us drone can now be returned safely to base in Dubai or Manhattan.

[19] In Oslo Obama could duly congratulate the Nobel Peace Prize committee on the Norwegian troop contingent in Afghanistan, along with those from Albania, Armenia, Australia, Austria, Azerbaijan, Belgium, Bosnia and Herzegovina, Bulgaria, Canada, Croatia, the Czech Republic, Denmark, Estonia, Finland, France, Georgia, Germany, Greece, Hungary, Iceland, Ireland, Italy, Jordan, Latvia, Lithuania, Luxembourg, Macedonia, the Netherlands, New Zealand, Poland, Portugal, Romania, Singapore, Slovakia, Slovenia, Spain, Sweden, Turkey, Ukraine, the United Arab Emirates and the uk.

[20] On 27 December 2009 Obama announced the doubling of us military expenditure on Yemen. The Economist noted that ‘On his [Obama’s] watch American drones and special forces have been busier than ever, not only in Afghanistan and Pakistan but also, it is reported, in Somalia and Yemen’: 30 December 2009.

[21] Hence in part the disenchantment of many erstwhile Obama partisans, which has surfaced with striking rapidity compared to the relatively long liberal love affair with Bill Clinton. Nonetheless, their explanations have tended to blame structural constraints rather than the incumbent himself: Garry Wills sees the well-meaning president as caught in the cogs of the us imperial state apparatus (‘The Entangled Giant’, New York Review of Books, 8 October 2009), while Frank Rich has angrily attacked lobbyists for undermining Obama’s ‘promise to make Americans trust the government again’ (‘The Rabbit Ragu Democrats’, New York Times, 3 October 2009). For Tom Hayden, the ‘expedient’ decision to boost force levels in Afghanistan is ‘the last in a string of disappointments’, despite the fact that Obama had pledged to do so in his campaign; but though Hayden is removing his bumper sticker, he will still be ‘supporting Obama down the road’ (‘Obama’s Afghanistan Escalation’, Nation, 1 December 2009).

[22] Gideon Rachman, ‘The Grim Theme Linking the Year’s Main Events’, Financial Times, 23 December 2009.

[23] ‘Remarks by the President on a New Beginning’, Cairo, 4 June 2009; ‘Remarks by the President to the Nation on the Way Forward in Afghanistan and Pakistan’, West Point, 1 December 2009; Nobel Peace Prize acceptance speech, Oslo, 11 December 2009; ‘Remarks by the President to the Ghanaian Parliament’, Accra, 11 June 2009. The tropes of ‘imperfect man’ and ‘limited reason’ are borrowed from the vapourings of Reinhold Niebuhr, pastor of Cold War consciences, for whom see Gopal Balakrishnan, ‘Sermons on the Present Age’, below. Niebuhr could, however, on occasion be less of a humbug than his pupil. Rather than pious guff about the ‘two suffering peoples’, he had the honesty to call a Zionist spade a spade: in 1942, observing that ‘the Anglo-Saxon hegemony that is bound to exist in the event of an Axis defeat will be in a position to see to it that Palestine is set aside for the Jews’, he argued that ‘Zionist leaders are unrealistic in insisting that their demands entail no “injustice” to the Arab population’. The latter would have to be ‘otherwise compensated’. (‘Jews after the War—ii’, Nation, 28 February 1942.)