27 de maio de 2007

Diário

Eric J. Hobsbawm

London Review of Books

Tradução / Devo meus anos como jornalista de jazz à peça Look Back in Anger, de John Osborne, que obrigou o establishment cultu­ral britânico de meados dos anos 1950 a registrar a existên­cia daquela forma musical tão evidentemente querida dos novos e talentosos Angry Young Men. Quando, ao precisar de dinheiro, eu vi que Kingsley Amis escrevia no The Observer sobre um assunto do qual ele obviamente entendia não mais, e talvez menos, do que eu, liguei para um amigo que trabalhava no New Statesman. Ele agendou um encontro com o editor, Kingsley Martin, então no apogeu de sua glória, que disse “Por que não?”, explicou que concebera seu leitor padrão como um funcionário público de 45 anos, e me encaminhou para a comandante da segunda metade (cultural) da revista, a formidável Janet Adam Smith. Seus interesses iam de mon­tanhismo a poesia, mas não incluíam jazz. Assinando como Francis Newton (tomando emprestado o nome de um trom­petista de jazz comunista que tocou na versão de Billie Holiday para “Strange Fruit”), eu escrevi para o New Statesman mais ou menos uma coluna por mês, por aproximadamente dez anos.

Eram bons tempos para escrever sobre jazz. Não ape­nas a coluna me dava algum alívio das convulsões pessoais e políticas do ano de 1956, aquele ano de crise comunista, como era a primeira vez desde 1935 que os músicos de jazz americanos podiam ser ouvidos ao vivo na Inglaterra. Até aquele momento, o típico fã de jazz britânico, bem infor­mado pela Melody Maker e por minúsculos jornais de debate, sobrevivera essencialmente numa dieta à base de discos de 78 rpm, apaixonadamente analisados por jovens do andar de cima dos “clubes de ritmo” dos anos 1930. Um surpreendente número desses discos fora produzido nos EUA para o mercado britânico, mas os aficionados barra-pesada, especialmente o pequeno porém pioneiro grupo de entusiastas de blues, também haviam criado suas próprias redes de importação de discos americanos. Eu ficara nas franjas dessa comunidade de experts desde o início dos anos 1930, graças a meu primo Denis Preston, que mais tarde se tornaria uma figura inovadora na área da produção musi­cal; mas, até o exemplo de Kingsley Amis ter me dado coragem, eu sofria de uma admiração paralisante que me impedia de entrar em seus debates. Jovens e absolutamente provincianos, suburbanos e musicalmente analfabetos, eles eram mais críticos apaixonados e propagandistas do que músi­cos propriamente ditos.

Na época em que Francis Newton havia nascido, esses aficionados tinham criado um ambiente jovem, pop e bastante original para o jazz tradicional, que reproduzia versões do jazz de New Orleans e do country blues, até então gêneros muito mais conhecidos na Inglaterra do que nos EUA. Em uma de minhas primeiras colunas, registrei a súbita lucratividade do jazz tradicional “e mesmo do último refúgio contra a bancarrota, o canto do blues”, como demonstravam as lucrativas, porém nada notáveis, imita­ções de “Reckless Blues”, de Bessie Smith, e a versão marginal e líder nas paradas de Huddie Ledbetter para “Rock Island Line”, cantada por um sur­preso e inocente guitarrista britânico, Lonnie Donegan. “O que significava isso?”, era a minha pergunta. Agora sabemos que significava o início do rock britânico, os Beatles e os Rolling Stones, prestes a transformar a indústria pop americana no início dos anos 1960. Esse fenômeno nunca arrebatou a minha geração, ou a da maioria dos músicos de jazz, e muito menos os músicos de estúdios altamente profissionalizados que precisaram transfor­mar produtos iletrados e amadorísticos em música.

Mas o que Francis Newton significava para mim? A atração que eu sentia não se explicava tanto pela oportunidade de resenhar as performances e os discos de jazz que agora chegavam em enxurrada, ou mesmo pela tenta­tiva de encaixar essa música extraordinária na sociedade do século 20. Era a chance de entender os músicos e seu mundo: em resumo, “a cena do jazz”. Eu morava no fim do West End, e dar aulas em Birkbeck me deixava livre a maior parte do dia, então era possível combinar minha profissão com os hábitos noturnos e nada madrugadores da “cena”. Meu quartel-general era o Downbeat Club, na Old Compton Street, a alguns minutos a pé da minha casa, uma espelunca que, como tantos outros músicos modernos e seus saté­lites de Londres, eu usava como base para os momentos fora do expediente. Embora alguns músicos eventualmente tocassem naquele lugar, que às vezes também contratava um pianista, o Downbeat era mais um clube que uma casa de shows, ao contrário do novo empreendimento de Ronnie Scott, então começando numa Lisle Street ainda não orientalizada, aonde se ia não para beber ou fofocar, mas para ouvir. Havia também algumas espeluncas no Soho onde se podia fazer tudo isso ao mesmo tempo. Lembro mais vivamente dos clubes que dos shows, nos quais músicos visitantes ganha­vam o seu pão de cada dia, embora apenas nos EUA eu iria conhecer a glória de uma “cena” jazz baseada primordialmente nos clubes. Devo ter sido um dos últimos a ouvir a grande banda de Ellington, visivelmente à vontade em seu habitat natural, fazendo um típico show de clube, “derretendo”, como eu descrevi, “uma dura plateia de advogados, médicos, jornalistas e lobistas quarentões de São Francisco a ponto de eles se parecerem com noivas de antigamente”. Suponho que isso e o encontro com o trágico pianista Bud Powell em seu quarto de hotel em Paris, catatônico exceto quando diante do teclado, são as mais vívidas lembranças dos meus anos jazzísticos.

Logo se tornou óbvio que havia uma lacuna substancial, tanto de gosto quanto de contexto, entre aqueles de nós – a maioria dos que escreviam sobre jazz, mas também músicos bem-sucedidos – que se entusiasmaram com a música nos anos 1930 e 1940 e o pequeno corpo de músicos ingleses sérios e profissionais que tocavam e formavam o único público existente para o jazz “moderno” antes de Miles Davis fazer sentir seu impacto. Escrever sobre jazz nos anos 1950 significava, basicamente, tentar entender o bebop ou ao menos aprender a lidar com ele (mesmo Philip Larkin, um conservador amante do jazz, acabou sentindo que precisava dar um passo nessa direção), mas eu não sei até que ponto tive sucesso, a não ser pela admiração por Thelonius Monk e a paixão instantânea pelo talento supremo e inteligente de Dizzy Gillespie, o mais impressionante trompetista do mundo, a quem não faltava nenhum dom, a não ser a disposição de revelar a própria alma, como Charlie Parker havia feito. Minha admiração por Miles Davis baseava-se em seus discos, e não em nenhuma performance a que eu tivesse assistido.

Eu desfrutava da companhia dos músicos, e eles me aceitaram como uma excentricidade na “cena” (nenhum milieu é mais tolerante que o dos músicos de jazz), às vezes como uma espécie de dicionário ambulante, capaz de dar respostas a suas perguntas (quando não musicais). Lembro de uma feita pela namorada de um saxofonista tenor, que queria saber se era certo acreditar em Deus. Mas alguém não músico seria capaz de entender a essência de músicos criativos, por mais que convivesse com eles? Afinal, como um deles me disse (creio que foi o saxofonista tenor Sonny Stitt), “as palavras não são meu instrumento”. Para um não músico branco se aproxi­mar dos artistas negros era ainda mais difícil. Até o grande êxodo dos músi­cos americanos nos anos 1960, quando a “cena” do jazz entrou em colapso nos Estados Unidos, poucos deles viviam na Europa. É verdade que não parecia se fazer muita diferença entre brancos e negros no Downbeat Club, e a jovem Cleo Laine ficava perfeitamente confortável descrevendo-se como uma “crioula cockney”, mas os músicos afro-americanos visitantes tinham consciência da questão racial mesmo na tolerante Europa, assim como, quase com certeza, tinham também os que vinham das colônias britânicas no Caribe, como o talentoso e aventureiro sax alto Joe Harriott, que era um componente importante da “cena” moderna. Ainda assim, nas excursões, que eram seu meio de vida permanente, os americanos costumavam ouvir perguntas de admiradores brancos sobre o tema, e músicos experientes, que dependiam inteiramente do circuito branco, notadamente os cantores de blues, tinham uma narrativa genuinamente informativa pronta.

Na condição de único acadêmico a escrever sobre jazz, e sob auspícios cultu­rais de classe alta, Francis Newton naturalmente acabou servindo de guia turís­tico para os intelectuais estrangeiros no fervilhante Soho. Ele também se viu atraído para a boemia cultural avant-garde britânica, que fazia interseção com a “cena” jazz não bop. George Melly e “Trog” (Wally Fawkes, o clarinetista da Escola Humphrey Lyttelton) já estavam produzindo a Flook, sua tira de quadrinhos satírica e socialmente perspicaz, publicada, quem diria, no Daily Mail. Ainda guardo o cartão de sócio do Muriel Colony Club, na Dean Street, que alguém – mais provavelmente Colin MacInnes – me impingiu, porém aquele agrupamento alcoólico não era a minha, nem o jazz era a deles, embora uma vez eles tenham tido uma música de fundo decente, tocada por um agradável pianista caribenho. Encomendaram-me quase imediatamente um livro. Falando clara­mente, encarnar Francis Newton reforçou meus contatos com aqueles de quem os músicos dependiam, os agentes, programadores e todo o resto do mundo empresarial pop, no qual o jazz era uma pequena parte. Suas opiniões privadas sobre “o talento” divergiam amplamente daquelas emitidas em público.

Vi-me então membro de uma rede global de amantes intelectuais do jazz. Uma vez que, fora da Inglaterra, esses ainda julgavam partilhar uma fé pró­xima ao underground, se é que não mais perseguida, eles – e especialmente os escritores – formavam uma rede internacional surpreendentemente efe­tiva de confiança e ajuda mútuas. Nos Estados Unidos, isso não foi tão longe quanto no Japão, onde, como eu iria descobrir naqueles bares minúsculos, os acadêmicos mais formais – e quem pode ser mais formal que um reitor japo­nês? – se abriam com uma inconcebível franqueza, simplesmente porque um convidado que eles nunca tinham visto antes era amante de jazz. Logo percebi que a solidariedade do jazz, que caminhava a par da promoção de Kafka no primeiro estágio da Primavera de Praga, era igualmente intensa na Tchecos­lováquia. Quando as trilhas sonoras de Miles Davis e do Modern Jazz Quartet para os filmes da nouvelle vague apareceram, nos anos 1950, esperava-se que os intelectuais franceses se engajassem no jazz moderno, mas, como de hábito, eles não deram muita atenção para os críticos de jazz não franceses.

No território americano, a solidariedade do jazz consistia mais em aju­das concretas. Os críticos locais de jazz faziam tudo o que podiam para ajudar um desconhecido chegado de Londres, desde reser­var um quarto de hotel no Greenwich Village até encami­nhá-lo a um crítico depois do outro para que o guiassem na “cena” de alguma cidade menos conhecida. Ajudou ainda o fato de muitos divulgadores de jazz e blues terem origem na esquerda dos anos 1930 e 1940, com destaque para o maior de todos os descobridores de talentos do jazz, John Hammond Jr., com seu corte de cabelo militar, cujas opiniões iriam ter grande influência sobre mim.

Foi apenas em minha primeira viagem aos Estados Uni­dos, onde todas as escolas e todos os artistas sobreviventes podiam ser ouvidos ao mesmo tempo, que eu percebi a sorte que Francis Newton havia tido: essa era uma época de ouro para o jazz, em grande parte porque os ultraboppers dos anos 1940 haviam se reunido e renovado o mainstream musical. E foi só em minha segunda viagem, em 1963, que percebi o quão rápido o tsunami do rock’n’roll havia levado tudo embora. O Birdland havia fechado as portas. Durante quase todos os 20 anos seguintes, o jazz mal existia para os jovens, a não ser no meio universitário, como parte de uma cultura elevada e de adultos – algo como a música clássica, só que com menor número de adeptos. O público que restava interessado nas performances ao vivo sofria a oposição emergente de uma nova “forma livre” de jazz, musical­mente radical. O paradoxo é que, com isso, o movimento mais radical e racial­mente militante do jazz foi politicamente isolado de suas bases constitutivas afro-americanas.

Nessa época, minha vida estava mudando. Minha esposa, Marlene, alega que a pedi em casamento num show de Bob Dylan. O casamento e os filhos pequenos, inevitavelmente, puseram fim aos hábitos noturnos desregrados de Francis Newton, embora não às resenhas de shows e discos. Mas já não era tão divertido, a não ser na impactante e perturbadora primeira visita à Inglaterra de Ray Charles, que ouvi pela primeira vez entre os poucos bran­cos em um canto de um grande baile de rock’n’roll em Oakland, na Cal­fórnia, em meio a um grupinho de brancos, quando ele ainda era conhecido apenas do público negro. Eles não dançaram muito enquanto Ray Charles cantava. Agora não só uma grande estrela pop, mas também um santo inova­dor, o quarto na linha sucessória formada por Lester Young, Billie Holiday e Charlie Parker, e certamente um monstre sacré, ele “trabalhava” a plateia no Finsbury Park Astoria, com sua “santificada” voz de blues, num estilo que combinava efeitos do showbiz com emoção e muita alma. Ainda fico arre­piado ao lembrar de mim ouvindo aquele homem corcunda, magro, infeliz e cego, enquanto ele arrebatava a plateia ao dizer “eu já fui cego, mas agora consigo ver”. Aquela noite, além do meu espetacular fracasso em reconhecer o potencial dos Beatles (nunca tive tempo para os Stones), permanece como a última lembrança dos anos de Francis Newton cobrindo a “cena” para os leitores do New Statesman.

12 de maio de 2007

Quem são os comerciantes do medo?

por Alexander Cockburn

counterpunch: Tells the Facts and Names the Names

Tradução / Nenhuma resposta é mais previsível do que aquelas esganiçadas pelos que vendem o medo do efeito de estufa: dizem eles que qualquer um que questione as suas afirmações está na folha de pagamento das companhias de energia. Uma segunda réplica, igualmente previsível, contrasta o número sempre diminuto de agnósticos com as crescentes legiões de cientistas agora renascidos para a "verdade" de que o CO 2 antropogênico é responsável pela tendência para o aquecimento da Terra, a fusão das calotas polares, o alteamento dos mares, o aumento dos furacões, o declínio da fertilidade do pinguim e outros horrores demasiado numerosos para serem mencionados.

Realmente, as companhias de energia adaptaram-se há muito às fantasias em voga, recitando devidamente todo o catecismo acerca da neutralidade do carbono, descontraidamente e sem rir referem-se ao encantador endosso de Tom Friedman ao "carvão limpo", reposicionando-se a si próprias como pioneiras interessadíssimas na investigação de virtuosos combustíveis alternativos, a estabelecerem-se confortavelmente em novos lares, tais como o "Energy Biosciences Institute" da British Petroleum no Campus de Berkeley da Universidade da Califórnia, primeiro fruto de um acordo de US$ 500 milhões entre aquela companhia petrolífera e um campus cuja família fundadora, os Hearsts, afinal de contas fez a acumulação da sua fortuna no negócio mineiro.

De fato, quando se chega ao patrocínio corporativo de teorias insanas acerca da razão porque o mundo está a ficar mais quente, a conspiração de interesses mais bem documentada é entre os comerciantes do medo do aquecimento global e a indústria nuclear, agora largamente possuída por companhias de petróleo, cujas perspectivas vinte anos atrás pareciam negras, no meio de manchetes acerca das precipitações de Chernobyl, centrais a envelhecerem e depósitos de resíduos nucleares com fugas até à eternidade. Os que administram a fabricação do medo do efeito de estufa estão bem conscientes de que a única saída para a crise imaginária que têm estado a patrocinar é através de uma porta com a inscrição "energia nuclear", com uma porta de serviço lateral com a etiqueta "carvão limpo". James Lovelock, o Rasputin do Gaia, disse que "A energia nuclear tem uma importante contribuição a dar". (Àqueles que se sobressaltaram com as palavras "crise imaginária", remeto ao meu último artigo acerca deste tópico, onde enfatizo que ainda há zero evidência empírica de que a produção de CO 2 antropogônico esteja a dar qualquer contribuição mensurável à atual tendência para o aquecimento do mundo. Os comerciantes do medo do efeito de estufa confiam inteiramente em modelos computacionais não verificados, brutalmente super-simplificados, para apontar o dedo à contribuição pecaminosa da espécie humana).

O histérico mais bem conhecido do mundo, auto-promotor do tópico da responsabilidade física e moral do homem pelo aquecimento global, é Al Gore, um sócio da indústria nuclear e dos barões do carvão desde o primeiro dia em que entrou no Congresso encarregado do sagrado dever de proteger os interesses orçamentais e regulamentares do Tennessee Valley Authority e do Oakridge National Lab. As "task forces" da Casa Branca sobre alterações climáticas nos anos Clinton-Gore foram sempre bem despachadas por Gore e o seu conselheiro John Holdren com gente da indústria nuclear como John Papay da Bechtel.

Como cidadão de Washington desde os seus verdes anos, Gore sempre entendeu que a ameaça da inflação é a ferramenta mais segura para engordar orçamentos e incitar multidões de eleitores. Em meados da década de noventa ele posicionou-se como chefe da aliança estratégica e tática formada em torno do "desafio das alterações climáticas", que agora avançava para ocupar o lugar do comunismo no teatro essencial a toda a vida política. Na verdade, foi no New Republic, um incansável agente publicitário da ameaça soviética em fins da década de 70, que Gore anunciou em 1989 que a guerra ao aquecimento global não poderia ser ganha sem uma renovação dos valores espirituais.

A infantaria nesta aliança tem sido os privilegiados modeladores climáticos e a sua Internacional, o Intergovernmental Panel on Climate Change (IPCC) da ONU, cuja perícia científica coletiva é reverentemente invocada por todos os devotos do catecismo dos fabricantes do medo do Efeito de Estufa. Fora o fato de que o cemitério de erros intelectuais está recheado com uma miríade de lápides de "esmagador consenso científico", o IPCC tem o exército habitual de funcionários e coletores de privilégios, e uns pequenos salpicos de cientistas reais com a qualificação primária de climatologistas ou físicos da atmosfera.

Identificar tanto os modeladores do clima financiados por governos como as suas tropas de choque, os membros do IPCC, com rigor e objectividade científica é tão irrealista quanto detectar tais atributos num craniologista financiado por Lombroso que estuda a cabeça de um assassino numa prisão do século XIX para criminosos insanos. Os dedos e compassos dos craniologistas foram programados pelos habituais incentivos de estipêndios, privilégios e ego profissional a fim de descobrir sulcos, protuberâncias e depressões na caveira daquele assassino, cada uma delas meticulosamente equacionada com uma ingovernável paixão, um défice étnico ou um desarranjo mental. A cabeça do indivíduo assassino tornou-se um modelo universal, o particular promovido a uma teoria inatacável.

Lombroso e os seus seguidores pelo menos mediam cabeças. Mas tudo o que Al Gore alguma vez precisou para promover a sua inatacável teoria do aquecimento global feito pelo homem foi de um dia quente ou alguma chuva forte. Viesse um verão chuvoso (1995), um El Niño perfeitamente rotineiro (1997) ou um incêndio florestal na Florida (1998) e lá estava Gore para a foto oportunidade, com o dedo levantado a advertir da pioria do aquecimento por vir. O ano de 1997 também encontrou Gore no Parque Nacional de Glaciares, a apontar para o glaciar Grinnell e a dizer com gravidade à imprensa que ele estava a fundir, o que na verdade tem estado a acontecer desde o fim da Pequena Idade do Gelo, de 1450-1850 . Os glaciares das latitudes médias expandem-se, assim como se contraíram no Período do Aquecimento Medieval, mais quente do que hoje e portanto tão vexatório para alarmistas do clima como Michael Mann (agora um burocrata reinante do clima no IPCC) que eles o extirparam dos seus gráficos de temperaturas históricas, tal como um editor no tempo de Stalin recortou uma foto da equipe de antigos bolcheviques para livrar-se de indesejáveis que haviam sido anatematizados.

A teoria de um aquecimento global produzido pelo homem é alimentada por previsões pseudo quantitativas de carreiristas do clima a extraírem [dados] primariamente do grande mega-computador Modelos de Circulação Geral (MCG), os quais incluem o National Center for Atmospheric Research (NCAR), o Goddard Institute for Space Studies da NASA, o Geophysical Fluid Dynamics Lab do Departamento do Comércio, um MCG privado que costumava estar no estado de Oregon antes de a Universidade de Illinois atrair a equipe para outro lugar. Há um outro em Livermore e um na Inglaterra, em Hadley. 

Estas burocracias da programação do modelo computacional manobram muitos bilhões de dólares e pretendem a sua auto-preservação e reforços orçamentais tal como as burocracias nucleares cognatas de Oakridge e Los Álamos.

É tão improvável que desenvolvam modelos refutando a hipótese do aquecimento global induzido por humanos quanto o IPCC de dizer que o tempo possivelmente está a ficar um pouco mais quente mas que não há grande motivo para alarme e na verdade até alguma razão para regozijo, uma vez que este aquecimento (cujas causas naturais discuti naquele artigo recente) dão-nos uma estação de plantio mais longa e CO2 acrescido, um poderoso fertilizante de plantas. Bem vindo ao amadurecimento global.

Remontando ao princípio da década de 1970, em agências tais como a Conferência sobre Comércio e Desenvolvimento (Conference on Trade and Development, UNCTAD) a ONU alimentou alguns planos bastante radicais para uma nova ordem económica internacional, os quais estabeleciam termos de comércio mais favoráveis para os países mais pobres. No fim da década dos 70 tais esperanças estavam a esvanecer-se sob a maré neoliberal e a era Reagan-Clinton pôs-lhe fim. No fim da década de 1980 os altos escalões da ONU perceberam claramente que o "desafio" das alterações climáticas poderia ser o cavalo de batalha para reconstruir a cada vez mais esfarrapada autoridade moral da organização, e para reclamar um papel além daquele de ser um óbvio garoto de recados americano. Em 1988, o Programa das Nações Unidas para o Ambiente, criado originalmente em 1972, foi unido num não sagrado matrimónio burocrático à Organização Metereológica Mundial da ONU, dando-nos o IPCC.

O ciclo de previsões alarmistas agora está bem estabelecido. Não muito antes de algum novo debate da ONU sobre "O que fazer acerca do clima", algum conhecido vendedor de medo como James Hansen ou Michael Mann fará uma trémula declaração acerca da aceleração do tempo e das dimensões da crise do aquecimento.

A choradeira é então retomada pelo IPCC (e na década de 1990 pelo par Clinton/Gore - Casa Branca), com os comunicados de imprensa postos em manchete pelo New York Times, exactamente com a mesma falta intencional de avaliação crítica com que aquele jornal reciclou as mentiras do governo acerca das armas de destruição maciça de Saddam. Meses e anos mais tarde virão as qualificações e retractações, muito depois de novos contratos e privilégios terem sido concedidos, e novas legiões contratadas para os impérios sempre em expansão dos fabricantes do medo. (O Pentágono pelo menos entendeu a situação, e instruído por um brilhante almirante que conduz o estudo do Center for Naval Analysis, está a construir o fundamento intelectual para enormes novos aumentos orçamentais com base em hipotéticas conexões entre aquecimento global e terrorismo explosivo devido à fome).

Quando a realidade medida não coopera com as apavorantes previsões do modelo, são cozinhados novos "factores" compensadores, tais como os – populares por breve tempo – dos aerossóis da década de 1990, recrutados para arrefecer o calor obviamente excessivo previsto pelos modelos. Ou os existentes dados inconvenientes são despachados como aconteceu com as amostras dos cilindros de gelo que deixaram de confirmar as necessidades dos modeladores de temperaturas recorde hoje a serem opostas às de meio milhão de anos atrás. Como observou Richard Kerr, o homem do aquecimento global na revista Science, "Os modeladores climáticos têm estado a trapacear por tanto tempo que isto se torna quase respeitável".

A consequência? Tal como a espiral de gastos com armas fomentadas pelos mercadores do medo da Guerra Fria, vastas quantias de dinheiro serão gastas inutilmente em programas que não funcionam contra um inimigo que não existe. Enquanto isso, perigos reais e ambientais sanáveis são tratados superficialmente ou ignorados. A histeria governa estes dias, afogando necessidades urgentes de limpeza no nosso quintal enquanto aplaina o caminho para a indústria nuclear colher as suas recompensas globais.

8 de maio de 2007

O golpe corporativo do clima

David F. Noble

Z

Tradução / Não respirem. Há uma guerra feroz contra as emissões de CO² e vocês estão a liberar CO² cada vez que respiram. A campanha multimídia contra o aquecimento global, que está a saturar os nossos sentidos e que insiste que o inimigo é o aumento do componente CO² dos gases do efeito estufa, nos faz prisioneiros: ou vocês estão connosco ou estão contra nós. Ninguém pode pôr em causa a nova ortodoxia ou se atrever ao pecado da emissão. Se Bill Clinton fosse se candidatar agora à presidência iria jurar que não respira.

Como foi que chegamos a isto? Como é que um assunto ainda ontem tão misterioso que interessava apenas a meia dúzia de cientistas especialistas aparece tão repentinamente no nosso discurso? Como é que a especulação científica evoluiu tão rapidamente para profecias unânimes de apocalipse? Estas perguntas não são hipotéticas mas perguntas históricas e têm resposta. Acontecimentos destes não surgem por acaso; o seu aparecimento é provocado. Geralmente as nossas ideias têm tendência para não serem as nossas próprias ideias: raramente lá chegamos por nós mesmos e pelo contrário absorvemo-las a partir do mundo à nossa volta. Isto é particularmente óbvio quando as nossas ideias acabam por ser as mesmas de quase toda a gente, mesmo de pessoas com quem nunca nos encontramos nem comunicamos. De onde é que apareceu esta ideia sobre a crise urgente do aquecimento global e das emissões de CO2 e como é que ela entrou nas nossas cabeças, se apenas alguns de nós leram, ou tentaram ler, um simples documento científico sobre os gases com efeito de estufa? A resposta a esta pergunta não é difícil, como poderia parecer, pela simples razão de que é necessário uma grande quantidade de dinheiro e de recursos para instilar uma ideia em tantos espíritos ao mesmo tempo e tão rapidamente, e os únicos com capacidade e meios para tal são o governo e as grandes corporações, em conjunto com os seus mecanismos multimídia. Para efetuar uma viragem tão significativa na atenção, percepção e crença é necessário um esforço substancial e portanto visível e demonstrável.

Até há bem pouco tempo a maior parte das pessoas era indiferente ou mostrava-se confundida ou relativamente despreocupada com esta questão, apesar de um consenso crescente entre cientistas e ambientalistas sobre os possíveis perigos da mudança do clima. Os activistas do aquecimento global, como Al Gore, apressaram-se a deitar a responsabilidade por essa ignorância, confusão e despreocupação da população a uma campanha de propaganda organizada bem financiada pelas companhias de petróleo e gás e pelas suas organizações de fachada, amigalhaços políticos, organizações de publicidade e relações públicas, e lacaios dos meios de comunicação, que tranquilizaram as pessoas mostrando complacentemente algumas dúvidas e cepticismos sobre as preocupações dos cientistas. E tinham razão, houve de facto uma enorme campanha organizada, que está hoje amplamente documentada. Contudo, o que os activistas do aquecimento global convenientemente se esqueceram de assinalar é que a mensagem deles, alarmista, tem sido martelada nas nossas cabeças exactamente pelos mesmos meios, embora por diferentes mãos empresariais. Esta campanha, que pode vir a provar ser de longe muito mais significativa, tem até agora recebido pouca atenção.

Nos últimos quinze anos temos vindo a ser alvo de duas campanhas empresariais rivais, cada uma delas reflectindo diferentes estratégias empresariais apreciáveis, que reflectem uma divisão no seio dos círculos da elite. A questão da mudança do clima tem sido atacada por estes dois grupos opostos de elites, dando a ideia de que apenas existem estes dois lados. A primeira campanha, que apareceu nos finais dos anos 80, fazendo parte da ofensiva da "globalização" triunfalista, procurou desacreditar abertamente a especulação sobre a mudança do clima negando, pondo em dúvida, ridicularizando e menosprezando as aflitivas afirmações científicas que podiam pôr em perigo o entusiasmo para uma aberta iniciativa capitalista. Foi concebida e até certo ponto construída sobre uma campanha anterior feita pela indústria do tabaco que mostrava cepticismo sobre a evidência crescente dos efeitos maléficos do tabaco para a saúde. Na sequência desta tentativa de propaganda "negativa", todas e quaisquer críticas sobre a mudança de clima e o aquecimento global passaram a ser imediatamente identificadas com este lado do debate.

A segunda campanha positiva, que surgiu dez anos depois, na sequência de Quioto e no auge do movimento anti-globalização, procurou apropriar-se da questão ambiental, declarando-se a favor dela e utilizando-a no interesse das empresas. Moldada sobre um século de apropriação liberal corporativa dos movimentos de reforma populares e regimes reguladores, visava apropriar-se da questão com o objectivo de moderar as suas implicações políticas, tornando-a assim compatível com os interesses económicos, geopolíticos e ideológicos empresariais. A campanha empresarial sobre o clima pôs assim a ênfase na primazia das soluções segundo as "leis do mercado" ao mesmo tempo que insistia na uniformidade e previsibilidade de regras e regulamentações obrigatórias. Simultaneamente elevava a questão do clima global a uma obsessão, a uma preocupação totalista para afastar as atenções das contestações radicais do movimento de justiça global. Na sequência desta campanha, todo e qualquer opositor dos "contraditores" foi identificado – e, o que é mais importante, identificou-se a si mesmo, voluntariamente ou não – com os cruzados empresariais do clima.

A primeira campanha, que foi dominante durante os anos 90, sofreu bastante com a denúncia e encontrava-se relativamente moribunda no início da era Bush, embora não tenha perdido a influência no interior da Casa Branca (e no gabinete do primeiro-ministro). A segunda, que contribuiu para a difusão de um movimento radical, conseguiu gerar a actual histeria sobre o aquecimento global, hoje canalizada de forma segura nas agendas pró-empresariais afastando quaisquer confrontações sérias com o poder empresarial. O êxito nos meios de comunicação despertou o eleitorado e obrigou mesmo os contraditores mais inflexíveis a cultivar hipocritamente uma imagem mais verde. Entretanto, e o que é mais importante, as duas campanhas opostas conseguiram em conjunto eliminar qualquer espaço em que fosse possível rejeitar as duas.

Nos finais dos anos 80, as empresas mais poderosas do mundo desencadearam a sua revolução "globalizante", invocando sem cessar os inevitáveis benefícios do comércio livre e, durante todo o processo, pondo de lado as questões ambientais e reduzindo o movimento ambientalista a acções de retaguarda. Apesar disso, o interesse pela alteração do clima continuou a aumentar. Em 1988, cientistas do clima e políticos instituíram o Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas (IPCC - Intergovernmental Panel on Climate Change) para se manterem actualizados sobre o assunto e publicar relatórios periódicos. Numa reunião em Toronto, trezentos cientistas e políticos de quarenta e oito países publicaram um pedido de acção para a redução das emissões de CO2. No ano seguinte, cinquenta empresas de petróleo, de gás, de carvão e de fabrico de automóveis e químicos em conjunto com as suas associações comerciais formaram a Coligação para a Mudança Global (GCC - Global Change Coalition), com o apoio do gigante das relações públicas Burson-Marsteller. O seu objectivo declarado era semear dúvidas sobre as afirmações dos cientistas e evitar esforços políticos para reduzir as emissões de gases com efeitos de estufa. O GCC deu milhões de dólares em contribuições políticas e em apoio a uma campanha de relações públicas que alertava para que as tentativas mal aplicadas para reduzir as emissões de gases com efeitos de estufa através das restrições à queima de combustíveis fósseis iriam sabotar a promessa da globalização e provocariam a ruína económica. Os esforços do GCC conseguiram pôr em suspenso a questão da alteração do clima.

Entretanto, na sequência de um levantamento indígena em Chiapas em Janeiro de 1994, marcado para o primeiro dia da implementação do Acordo de Comércio Livre Norte-Americano, o movimento anti-globalização irrompeu num protesto mundial contra o capitalismo de mercado e a depredação empresarial, incluindo a destruição do ambiente. Cinco anos depois o movimento aumentara em coesão, em número, em força e militância e uniu-se em torno dos chamados "dias globais de acção" em todo o mundo, em especial em acções directas nas cimeiras do G8 e nas reuniões do Banco Mundial, do Fundo Monetário Internacional e da nova Organização Mundial do Comércio, atingindo o seu auge ao boicotar as reuniões da OMC em Seattle em Novembro de 1999. O movimento, que era formado por uma série muito lata de diversas organizações de base unidas na oposição à "agenda empresarial" global, abalou a campanha de globalização da elite até à raiz. Foi neste contexto pesado que os signatários da Convenção Quadro sobre a Mudança do Clima das NU, formulada por representantes de 155 nações na Cimeira da Terra em 1992, no Rio de Janeiro, reuniu no final de 1997, em Quioto e estabeleceu o chamado Protocolo de Quioto com o objectivo de reduzir as emissões de gases com efeito de estufa por meio de metas e do mercado do carbono. O tratado de Quioto, ratificado com muito atraso apenas no final de 2004, foi o único acordo internacional sobre a mudança do clima e tornou-se de imediato o foco do debate político sobre aquecimento global.

A oposição empresarial estava precavida contra Quioto. No verão de 1997 o Senado americano aprovou unanimemente uma resolução exigindo que um tratado desse tipo teria que incluir a participação e a aceitação dos países em desenvolvimento, em especial das novas potências como a China, a Índia e o Brasil que no entanto tinham sido excluídas da primeira ronda do Protocolo de Quioto. Os opositores empresariais a Quioto no GCC, tendo como pano de fundo o movimento da justiça global em ascensão, condenaram o tratado como sendo uma conspiração "socialista" ou do "terceiro mundo" contra os países desenvolvidos do ocidente.

No entanto, a convergência do movimento de justiça global e Quioto obrigaram parte da elite a repensar e a reagrupar-se, o que criou uma divisão nas fileiras empresariais relativamente à questão da mudança do clima. As deserções do GCC começaram em 1997 e três anos depois incluíam actores tão importantes como a Dupont, a BP, a Shell, a Ford, a Daimler-Chrisley e a Texaco. Entre os últimos fiéis do GCC estavam a Exxon, a Mobil, a Chevron e a General Motors. (Em 2000, o GCC acabou por desaparecer mas foram criadas outras organizações empresariais de fachada com os mesmos ideais para levar a efeito a campanha "negativa", que continua).

Os que se afastaram do GCC cedo se aglutinaram em novas organizações. Uma das primeiras foi o Centro Pew sobre Mudança do Clima Global, fundado pela doação filantrópica da fortuna Sun Oil/Sunoco. A administração do novo Centro foi presidida por Theodore Roosevelt IV, bisneto do presidente da Era Progressista (e ícone dos conservadores) e director-geral do banco de investimentos Lehman Brothers. Com ele na administração estava o director da firma de investimentos Castle-Harlan e ex-presidente da Northeast Utilities, e também advogado empresarial veterano Frank E. Loy, que fora o principal negociador da administração Clinton no comércio e na alteração do clima.

Logo de início o Centro Pew instituiu o Conselho Directivo dos Assuntos Ambientais, presidido por Loy. Os primeiros membros do conselho incluíam a Sunoco, a Dupont, a Duke Energy, a BP, a Royal Dutch/Shell, a Ontario Power Generation, a DTE (Detroit Edison) e a Alcan. Distanciando-se do GCC, o conselho declarou que "aceitamos as opiniões da maior parte dos cientistas de que se sabe o suficiente sobre a ciência e os impactos ambientais da alteração do clima para que tomemos medidas para enfrentar as suas consequências"; "O mundo dos negócios pode e deve dar passos concretos hoje nos EUA e fora dele para avaliar as oportunidades relativas à redução de emissões… e investir em produtos, práticas e tecnologias novos e mais eficazes". O Conselho sublinhava que a alteração do clima devia ser tratada através de "mecanismos com base nas leis do mercado" e adoptando "políticas razoáveis", e exprimia a crença "de que as companhias que desenvolverem acções atempadas de estratégias e de política climatérica obterão vantagem competitiva sustentada sobre os seus pares".

No início de 2000, "líderes mundiais de negócios" reunidos no Fórum Económico Mundial em Davos, na Suiça, declararam que "a maior ameaça que o mundo enfrenta é a alteração do clima". Nesse Outono, muitos dos mesmos actores, incluindo a Dupont, a BP, a Shell, a Suncor, a Alcan, a Ontario Power Generation, e ainda o fabricante francês de alumínio Pechiney, uniram forças com o grupo de apoio americano Environmental Defense e formaram a Parceria para a Acção Climática (PAC). Os directores da Environmental Defense incluíam Frank Loy do Centro Pew e directores do Carlyle Group, dos Berkshire Partners e da Morgan Stanley e o presidente da Carbon Investments. Secundando a missão do Centro Pew, e pouco menos de um ano depois de a "Batalha de Seattle" ter feito encerrar os trabalhos da Organização do Comércio Mundial em oposição ao regime de globalização empresarial, a nova organização reafirmava a sua crença nos benefícios do capitalismo de mercado. "O objectivo principal da Parceria é defender mecanismos com base nas leis do mercado como meio para efectuar acções atempadas e credíveis para a redução das emissões de gases com efeito de estufa que sejam eficazes e económicas". Desde o seu anúncio inicial, esta mensagem foi repetida como uma ladainha: "benefícios dos mecanismos de mercado", "regras orientadas pelo mercado", "programas com base nas leis do mercado podem fornecer os meios para atingir as metas da protecção ambiental e, em simultâneo, as do desenvolvimento económico", "o poder dos mecanismos de mercado para contribuir para as soluções para a alteração do clima". Na Primavera de 2002, o primeiro relatório da Parceria afirmava orgulhosamente que as companhias da PAC estão na vanguarda da nova área da gestão dos gases com efeitos de estufa". "A PAC não só está a conseguir reduções reais nas emissões de aquecimento global", assinalava o relatório, "como está a fornecer um corpo de experiência prática, demonstrando como reduzir a poluição enquanto se continua a ter lucros".

Este potencial para obter lucros a partir da alteração do clima chamou a atenção ávida dos banqueiros de investimentos, alguns dos quais eram actores centrais da PAC através das suas ligações com os conselhos de administração do Centro Pew e da Environmental Defense. A Goldman Sachs tornou-se líder do grupo; dado possuir centrais de energia através da Cogentrix e de clientes como a BP e a Shell, a empresa de Wall Street estava mais que alertada para as oportunidades. Em 2004 a companhia começou a explorar as possibilidades de "criação de mercado" e no ano seguinte fundou o seu Centro para Mercados Ambientais, com o anúncio de que "a Goldman Sachs procurará agressivamente a criação do mercado e oportunidades de investimento nos mercados ambientais". A empresa indicava que o Centro se empenharia na investigação para desenvolver opções de política pública a fim de instituir mercados em torno da alteração climática, incluindo a concepção e promoção de soluções reguladoras para a redução das emissões de gases com efeitos de estufa. A empresa também anunciava que a Goldman Sachs "iria assumir o comando na identificação das oportunidades de investimento em energias renováveis"; nesse ano o banco de investimentos adquiriu a Horizon Wind Energy, investiu nos fotovoltaicos com a Sun Edison, tratou do financiamento para a Northeast Biofuels, e comprou acções na Iogen Corporation, que foi pioneira na conversão da palha, caules de milho e pastagens em etanol. A companhia também se dedicou "a actuar como criador de mercado no comércio de emissões" de CO2 (e S02), assim como em áreas como os "derivados do clima", "créditos de energias renováveis" e outros "produtos relacionados com o clima". "Estamos convencidos", proclamava a Goldman Sachs, "que a gestão de riscos e oportunidades que nasce da alteração do clima e da sua regulamentação virá a ser particularmente significativa e irá conquistar uma atenção cada vez maior dos participantes no mercado de capitais".

Entre esses participantes do mercado de capitais encontrava-se o ex-vice-presidente dos EUA, Al Gore. Gore tinha um interesse antigo nas questões ambientais e representou os EUA em Quioto. Também tinha ligações familiares antigas com a indústria da energia através da amizade do seu pai com Armand Hammer e dos seus interesses financeiros na companhia de Hammer, a Occidental Petroleum, que o filho herdou. Em 2004, quando a Goldman Sachs estava a avançar a todo o vapor nas suas iniciativas de criação do mercado de alteração do clima à procura de lucros verdes, Gore fez equipa com os executivos da Goldman Sachs, David Blood, Peter Harris e Mark Ferguson, para fundar a empresa de investimentos ambientais com sede em Londres, a Generation Investment Management (GIM), com Gore e Blood como timoneiros. Em Maio de 2005, Gore, em representação da GIM, discursou na Cimeira dos Investidores Institucionais sobre o Risco do Clima e sublinhou a necessidade de os investidores pensarem a longo prazo e de integrarem as questões ambientais nas suas análises de acções. "Estou convencido que a integração das questões relacionadas com a alteração do clima nas vossas análises sobre quais as acções em que vale a pena investir, a sua quantidade, e durante quanto tempo, é mesmo um bom negócio", explicou Gore aos Investidores reunidos. Aplaudindo a decisão de seguir nesta direcção anunciada no dia anterior pelo presidente da General Electric, Jeff Immelt, Gore declarou que "Estamos aqui reunidos num momento extraordinariamente esperançoso, quando os lideres no sector de negócios começam a fazer as suas movimentações". Nessa altura Gore já estava a trabalhar no seu livro sobre o aquecimento global, "Uma Verdade Inconveniente" e nessa mesma primavera começou os preparativos para fazer um filme sobre o mesmo assunto.

O livro e o filme do mesmo nome apareceram em 2006, com uma enorme promoção e um êxito imediato na indústria do entretenimento (o filme acabou por arrebatar um Prémio da Academia). Estes dois veículos alargaram muito o alcance dos criadores de mercados da alteração do clima, cujos esforços enalteciam explicitamente. "Há um número cada vez maior de executivos de negócios americanos que está a começar a levar-nos na direcção certa", exultava Gore, acrescentando que "está também em curso uma grande mudança na comunidade dos investimentos". O livro e o filme reflectem fielmente e engrandecem as mensagens centrais da campanha empresarial. Tal como os seus colegas do Centro Pew e da Parceria para Acção Climática, Gore sublinhou a importância de usar os mecanismos do mercado para enfrentar o desafio do aquecimento global. "Uma das chaves para resolver a crise do clima", escreveu, "envolve a procura de meios para utilizar a força poderosa do capitalismo de mercado como aliado". Gore repetiu o seu conselho aos investidores sobre a necessidade de estratégias de investimento a longo prazo e da integração de factores ambientais nos cálculos do negócio, salientando orgulhosamente que os líderes de negócios já tinham começado "a adoptar uma visão mais ampla de como o negócio pode manter os seus lucros ao longo do tempo". O único executivo empresarial citado no livro, ao longo de duas páginas, era o presidente da General Electric, Jeffrey Immelt, que explicava sucintamente a razão e a finalidade do objectivo prioritário do exercício: "Estamos no momento em que a melhoria ambiental vai tornar-se rentável".

No início de 2007 a campanha empresarial tinha aumentado significativamente a sua actividade, com a criação de diversas novas organizações. O Centro Pew e a Parceria para a Acção Climática criaram nessa altura uma entidade intermédia, a Parceria Americana para Acção pelo Clima (USCAP). Os membros da USCAP incluíam os actores chave das acções iniciais, como a BP, a Dupont, o Centro Pew e a Environmental Defense, e acrescentou outros, incluindo a GE, a Alcoa, a Caterpillar, a Duke Energy, a Pacific Gas and Electric, a Florida Power and Light, e a PNM, companhia central de serviços do Novo México e Texas. A PNM tinha-se juntado pouco tempo antes à Cascade Investments do sempre atento Gates da Microsoft para formar uma nova companhia de energia não regulamentada virada para as oportunidades de crescimento no Texas e no oeste dos EUA. O presidente da PNM Jeff Sterba era também presidente da Task Force para a Mudança do Clima do Edison Electric Institute. Também aderiram à USCAP o Conselho de Defesa dos Recursos Naturais, o Instituto de Recursos Mundiais, e o banco de investimentos Lehman Brothers cujo director-geral Theodore Roosevelt IV era presidente do conselho de administração do Centro Pew e em breve veio a ser também presidente do novo Centro Global para a Mudança do Clima, de Lehman. Tal como a Newsweekassinalou (12/Março/2007), "Wall Street está a passar por uma alteração climática", reconhecendo que "a forma de apanhar o verde é tornar-se verde".

Em Janeiro de 2007, a USCAP publicou "Um Apelo à Acção", uma "tentativa não partidária guiada pelos executivos de topo das organizações membros". O "Apelo" declarava a "necessidade urgente de um enquadramento político da alteração do clima", sublinhando que "é necessário um sistema impositivo que estabeleça exigências claras, previsíveis e com base nas leis do mercado para reduzir as emissões dos gases com efeito de estufa". A USCAP adiantava um "plano para a imposição de uma abordagem orientada pelo mercado e à escala económica para a protecção do clima", que recomendasse um programa de "cap and trade" [teto e comercialização] que aliasse a criação de metas a um mercado global de carbono para a comercialização de autorizações e créditos. Condenada desde logo pelos países em desenvolvimento como "colonialismo do carbono", o comércio do carbono tornou-se a nova ortodoxia. O plano também apelava para um "programa nacional para acelerar a tecnologia, a investigação, o desenvolvimento e o posicionamento estratégico e medidas para encorajar a participação dos países em desenvolvimento como a China, a Índia e o Brasil, insistindo em que "no final de contas a solução tem que ser global". Segundo o porta-voz da USCAP, Jeff Immelt, director geral da General Electric, "estas recomendações deveriam catalisar uma acção legislativa que encoraje a inovação e estimule o crescimento económico ao mesmo tempo que melhore a segurança energética e o equilíbrio do comércio". 

No mês seguinte apareceu outra organização empresarial climática, desta vez especificamente dedicada a pregar o novo evangelho do aquecimento global. Presidida por Al Gore do Generation Investment Management, a Aliança para Protecção do Clima incluía entre os seus membros o já familiar Theodore Roosevelt IV da Lehman Brothers e do Centro Pew, o ex-conselheiro da segurança nacional Brent Scowcroft, Owen Kramer da Boston Provident, representantes da Environmental Defense, o Conselho de Defesa dos Recursos Naturais e a Federação Nacional pelos Animais Selvagens, e três ex-administradores da Organização de Protecção Ambiental. Utilizando "técnicas de comunicação inovadoras e de longo alcance", explicou Gore, "a Aliança para Protecção do Clima está a efectuar um exercício de persuasão de massas sem precedentes" – a campanha multimédia contra o aquecimento global passou a saturar os nossos sentidos. Não respirem.

Se por um lado a campanha empresarial sobre a alteração do clima alimentou uma preocupação popular febril com o aquecimento global, também conseguiu muito mais. Tendo surgido no meio do movimento mundial de justiça global, conseguiu repor a confiança naquelas fés e forças que esse movimento tanto se esforçou por denunciar e contestar: empresas de âmbito global e de maximização de lucros e as suas imensas organizações e agendas; a autoridade inquestionável da ciência e o seu corolário na salvação através da tecnologia, e o benefício do mercado auto-regulador com a sua panaceia de prosperidade através do livre mercado e dos seus poderes mágicos, que transforma em bens comerciáveis tudo aquilo em que toca, até mesmo a própria vida. Todas as verdades evidentes reveladas por aquele movimento sobre as injustiças, os prejuízos e as desigualdades semeados e sustentados por estes poderes e crenças estão agora enterradas, postas de lado na corrida apocalíptica para a luta contra o aquecimento global. Explicitamente comparada a uma guerra, este desafio épico exige uma atenção superficial e um empenhamento total, sem distracções desse tipo. Não é altura, nem há necessidade, de questionar uma sociedade deformada ou de reexaminar os seus mitos subjacentes. As culpas e as responsabilidades foram de novo remetidas para o indivíduo, o responsável pelo pecado original, o pecador familiar que merece o castigo pelos seus pecados, pelos seus excessos, predisposto pela sua cultura piedosa e agora premiado pela sua disciplina e sacrifício. Na abertura da época de basebol de 2007, o dono do Toronto Blue Jays postou-se em frente do écran de vídeo gigante, uma extravagância electrónica, no meio de um círculo de logótipos empresariais e de anúncios, e exortou toda a multidão, de forma ridícula, a sair e a comprar uma lâmpada eléctrica de consumo económico. Foi muito aplaudido.

No seu livro campeão de vendas de 2005 'Weather Makers', Tim Flannery apelava aos seus leitores para lutar na "nossa guerra sobre a mudança do clima". Com uma mensagem para a edição canadiana escrita por Mike Russill, ex-presidente do gigante da energia Suncor e hoje chefe da World Wildlife do Canadá, o livro reflecte bem a campanha empresarial. Todos nós "temos que acreditar que a luta é para ganhar em termos sociais e económicos", insiste Russill, "e que não temos que mudar dramaticamente a nossa forma de viver". "A coisa mais importante a fazer", repete Flannery, "é que todos nós podemos fazer a diferença e ajudar a combater a alteração do clima praticamente sem custos para o nosso estilo de vida". "A transição para uma economia livre de carbono é absolutamente possível", exulta, "porque temos toda a tecnologia de que precisamos para tal". "Uma armadilha altamente poderosa na via para a estabilidade do clima", avisa porém, "é a propensão que alguns grupos têm para atravessar a sua carroça ideológica em frente do avanço da sustentabilidade". "Para enfrentar uma emergência grave", aconselha, "é preferível ser-se simples de espírito". O livro é inspirador, incitando o leitor a lutar contra esta ameaça global com ingenuidade, entusiasmo e esperança, com excepção de um pequeno pormenor, escondido no meio do texto, que atormenta o leitor atento. "Como a preocupação com a alteração do clima é tão recente, e a questão é tão multidisciplinar", assinala Flannery, "há poucos verdadeiros especialistas nesta área e ainda há menos que possam articular qual o significado deste problema para o grande público e o que é que devemos fazer quanto a isso".

A campanha empresarial tem feito mais do que criar apenas oportunidades de mercado para escritores de ciência popular da moda como Flannery. Criando uma contenda estritamente maniqueísta entre contraditores malvados e descuidados, por um lado, e defensores esclarecidos sobre o aquecimento global, por outro, também levou a uma credulidade incaracterística jornalistas de esquerda, habitualmente astutos politicamente. 'Heat', o apaixonado manifesto de George Monbiot de 2006 sobre este assunto, é embaraçoso pela sua perspectiva afunilada e pela sua deferência ingénua para com a autoridade da ciência. "Impedir a alteração do clima", afirma, "tem que ser um projecto prioritário. Se falharmos nesta missão, falharemos em tudo o mais". "É preciso um corte dada a importância das exigências da ciência", declara; temos que adoptar "a posição determinada pela ciência e não a posição determinada pelos políticos", como se existisse alguma ciência que não seja também política.

Monbiot não poupa os golpes contra a "indústria da negação", excomungando os partidários empresariais negativos pela sua "idiotice" e sugerindo sarcasticamente que dentro em breve "a negação da alteração do clima será uma coisa tão estúpida como a negação do Holocausto, ou a teimosia de que a SIDA pode ser curada com raiz de beterraba". Mas não tem uma palavra de reconhecimento e muito menos de crítica para os partidários do outro lado cuja mensagem ele espalha talvez inconscientemente com tanta paixão. E também aqui, curiosamente, um pequeno parágrafo escondido no meio do texto, aparentemente desligado do resto, perturba o leitor entusiasmado. "Nada disto pretende sugerir", assinala Monbiot de passagem, "que a ciência não deva estar sujeita ao cepticismo e à crítica constante, ou que os ambientalistas não devam ser tidos em consideração…"

Os propagandistas da alteração do clima não têm mais direito a estar errados do que os outros todos. "Se enganarmos o público", concede, "corremos o risco de sermos desmascarados", acrescentando que "também precisamos de saber que não estamos a perder o nosso tempo: não vale a pena dedicar a nossa vida a lutar contra um problema que não existe". Talvez aqui estejam alguns restos de verdade infiltrados por entre as linhas compostas, apontando para a abertura de outro espaço e de outro momento.

Sobre o autor

David F. Noble é historiador, professor na York University em Toronto, Canadá. É autor de Digital Diploma Mills: The Automation of Higher Education (2001) e Beyond the Promise Land: The Movement and the Myth (2005).

7 de maio de 2007

O conciliador: De onde vem Barack Obama?

Larissa MacFarquhar


Tradução / Em Carmi, Illinois, cidade de 5 500 habitantes à beira do rio Little Wabash, perto da ponta sul do estado, a uns 40 quilômetros do Kentucky, um grupo de doze agricultores – brancos corpulentos, com o rosto enrugado e cabelos muito curtos – está sentado em torno de um retângulo formado por mesas reunidas numa sala sem nada de notável. Conversam com o senador Barack Obama. Recostado para trás na cadeira, o senador apoiou o joelho na beira de uma das mesas. Usava gravata, mas havia tirado o paletó e arregaçado as mangas da camisa. Um agricultor tinha uma pergunta sobre o etanol.

“A dúvida me ocorreu durante o último discurso presidencial do Estado da União”, explicou o agricultor. “O presidente Bush disse que era totalmente favorável aos biocombustíveis, e depois começou a falar sobre o switchgrass [capim alto típico das pradarias americanas]. E pensei: o etanol de celulose, que é obtido a partir desse capim, pode ser mais eficiente em termos de energia do que o obtido a partir do milho. Mas ninguém sabe direito como produzir o switchgrass, ou se os fazendeiros pensam em plantá-lo em grande escala. Então por que dar tanta ênfase ao etanol de celulose?”

“Bem, eu não sou cientista”, respondeu Obama, num tom muito calmo, “por isso preciso tomar cuidado antes de entrar nesses assuntos que não conheço a fundo. Mas a produção do etanol de celulose tem o potencial de ser oito vezes mais eficiente em matéria de consumo de energia do que o etanol obtido a partir do milho, devido à eliminação do estágio intermediário da conversão do milho em açúcar. Foi o que entendi. Eu sei que vocês são muito apegados ao milho, mas se alguém chegasse a vocês e dissesse que iam ganhar o mesmo dinheiro, ou até mais, plantando switchgrass nos seus campos...”

“Duvido muito”, interrompeu o agricultor. “Um sujeito me procurou antes da colheita do trigo e perguntou se eu queria lhe vender a minha palha, e eu disse que não.”

“Interessante”, disse Obama. “Por que o senhor não quis vender a sua palha?”

“É matéria orgânica!”, respondeu o agricultor, em tom triunfante.

“Ora, mas se é vantajoso, se for um bom negócio, o senhor devia se interessar. O senhor conhece bem melhor do que eu a economia disso tudo. É por isso que precisamos nos reunir com os agricultores e descobrir o que faz mais sentido. Porque eu não planto nada, e o que o senhor acabou de me descrever, que prefere deixar de vender a palha porque ela é importante, bem...”

“Na revista FarmWeek, um editorial dizia que estavam falando de uma coisa que ia contra tudo que nós defendemos nos últimos vinte ou trinta anos, que é devolver a matéria orgânica ao solo”, explica o agricultor. “Só que, de repente, começam a falar em deixar a terra nua...”

“O que é errado”, retomou Obama. “Achamos que ninguém pode impor aos plantadores idéias que não vão funcionar. Mas precisamos produzir um etanol mais eficiente, se quisermos ver um crescimento significativo do mercado. A questão é que o etanol brasileiro é bem mais barato que o americano. George Bush queria deixar o álcool do Brasil entrar no país, e eu e Durbin” – Richard Durbin, o senador mais antigo do estado de Illinois – “dissemos que não, que éramos a favor de manter as tarifas existentes para podermos desenvolver um mercado para o etanol americano. E quero ter certeza de que as nossas decisões vão levar em conta que temos alguns dos solos mais ricos do planeta, além dos melhores agricultores. Mas o outro lado da moeda é que os plantadores precisam participar da discussão, em vez de só levantarem a mão para votar, dizendo que não estão interessados porque já se acostumaram a plantar só milho e feijão.”

Existem três coisas que os políticos democratas tendem a fazer toda vez que entram em contato direto com os eleitores que representam: demonstrar um conhecimento impressionante de cada pormenor dos seus problemas, especialmente os que envolvem dinheiro; despertar a indignação, apontando que esses problemas são provocados pelos grupos poderosos que só pensam em enriquecer à custa das pessoas comuns; e apresentar propostas políticas formuladas com o maior cuidado, pois, caso fossem aprovadas, poderiam solucionar esses problemas e pôr os grupos poderosos no seu devido lugar.

Obama raramente faz qualquer dessas três coisas. Sua tendência é demonstrar um conhecimento apenas modesto dos assuntos, parecendo menos informado do que na verdade é. Raramente faz acusações, preferindo falar sobre os problemas na voz passiva, como coisas que estão erradas conosco, e não coisas erradas que fizeram conosco. E as soluções que propõe geralmente parecem modestas e locais, não de alcance profundo e nem sistêmicas.

Obama já presidiu a várias conferências sobre saúde. Nelas, sempre se mostra calmo e relaxado, como que decidido a poupar energia. Caminha devagar de um lado para o outro, dá meia-volta, balança a cabeça. Faz sempre seus comentários num tom neutro e desapaixonado. Não manifesta piedade para com a doença, desprezo pela burocracia e nem indignação com a injustiça. Diz que o sistema está avariado e precisa de conserto, mas não procura transmitir nenhuma urgência especial.



Esse seu comportamento é muitas vezes definido como professoral, e o próprio Obama costuma comparar essas conferências às aulas de direito constitucional que dava na Universidade de Chicago. Mas “professoral” implica algo cerebral ou didático, o que não é o caso. A despeito de todas as críticas que já recebeu, Obama permanece fiel ao que parece ser um instinto que lhe diz que o lugar de estudos é em sites da internet, e não nos seus discursos. É surpreendente, tendo em vista os resultados eleitorais recentes, que não lhe dêem mais crédito pela astúcia dessa postura. Mas a verdade é que não se trata de uma simples estratégia – Obama é assim mesmo.

“Ele não tem a desvantagem de muitas pessoas inteligentes, que sempre dão a impressão de menosprezar as pessoas com quem conversam”, diz George Haywood, investidor particular e amigo de Obama. “Adlai Stevenson, que também era de Illinois, tinha isso – sempre passava a imagem de um sabe-tudo e desagradava às pessoas. Barack é exatamente o contrário.” Uma das razões mais prováveis é que Obama parece não dar muito valor à inteligência em si mesma. Até na faculdade de direito, o lugar onde a inteligência pura e simples é bastante valorizada, mais talvez que em qualquer outro lugar, e o apreço pela argumentação é fundamental, ele nunca se entusiasmou pelos duelos acadêmicos.

O jeito desapaixonado de Obama, a calma que ele sempre apresenta em ambientes pequenos, é menos professoral do que doutoral – ele lembra um médico que, ao escutar a história do paciente sem manifestar nenhuma reação emocional, deixa-o mais tranqüilo, porque dá a entender que conhece bem aqueles sintomas. Ele é doutoral também num outro sentido: Obama vê o corpo político como um organismo vivo, diante do qual a reação indignada não faz sentido – como não faria sentido para um médico mostrar indignação diante do rim de um paciente que lhe provoque dor nas costas.

E também existe, é claro, o aspecto racial da situação: “Se você é negro e homem, não precisa se esforçar para convencer as pessoas da sua agressividade”, diz Haywood. “Houve uma época em que os negros que entravam para a política partidária achavam melhor deixar os cabelos brancos. David Dinkins foi um exemplo. Ou o prefeito Bradley, em Los Angeles. Para obter o apoio do eleitorado branco mais amplo, era melhor transmitir uma imagem de segurança, e não uma sensação de revolta. Não creio que Barack tenha tomado a decisão consciente de se apresentar assim, mas foi uma coincidência feliz. A política partidária não está pronta para um negro que solte fogo pela boca.”

De forma consciente ou não, o provável é que Obama tenha aprendido com esses exemplos e descoberto que a sua eventual eleição à presidência não representaria uma revolução nas relações inter-raciais, assim como a ascensão de primeiras-ministras mulheres não foi exatamente um sinal do florescimento feminista no sul da Ásia. O preconceito sempre abre as suas exceções.

A calma de Obama também é uma questão de temperamento. O primeiro comentário de quem o conhece é sobre a forma como passa a impressão de estar bem na sua pele. “Ele era quase anormalmente contido e equilibrado”, diz Christopher Edley Jr., um dos professores de Obama na faculdade de direito de Harvard, hoje diretor em Berkeley. E, de fato, existe algo quase assustador no autocontrole de Obama – um traço que é evidente e chama a atenção, como a imobilidade fora do normal de alguém capaz de baixar a própria pressão sangüínea só usando a vontade. Obama não se esforça para ser visto como qualquer um: mostra-se relaxado, mas nunca muito íntimo, e mais elegante do que familiar. Na superfície, ele exibe movimentos tão fluidos, uma voz tão constante e bem dosada que quase parece um ator no papel de um político, demonstrando uma falta de esforço que, se verdadeira, é implausível. Obama tornou-se conhecido por suas camisas de colarinho aberto – pode vir a dar à gravata o destino que John Kennedy deu ao chapéu – , mas nunca parece descomposto. “Tanto Gore quanto Bush têm essa característica meio galhofeira, coisa que nunca vi em Obama”, diz Robert Putnam, um cientista político de Harvard que conheceu os três políticos. “Não que ele seja um sujeito sempre sério. Mas Bush costuma fazer palhaçadas e Gore sabe fazer palhaçadas. Obama nunca faz uma palhaçada.”



Omais estranho é que o homem sereno descrito pelos amigos não podia ser mais diferente da descrição que ele faz de si mesmo nas suas memórias, Sonhos do Meu Pai. No livro, o jovem Obama aparece confuso e revoltado, com dificuldades para descobrir quem ele é, muitas vezes drogado, hostil tanto à condescendência branca quanto à rebeldia negra, nunca confiando em si mesmo, sempre suspeitando de que as suas convicções não sejam mais que um disfarce para o seu egoísmo e as suas emoções, meros sintomas da sua constituição racial peculiar. É bem verdade que no livro ele conta como emergiu desse estado de espírito – é uma narrativa tradicional de encontro de si próprio que termina, como é da tradição, com um casamento em que todas as suas confusões são sanadas. Mas o contraste entre o Obama do livro e o Obama que aparece para o mundo ainda assim é extremo, a ponto de chamar a atenção. “Ele era centrado, confortável em sua pele, sabia quem era, de onde tinha vindo, por que razão acreditava nas coisas”, diz Kenneth Mack, amigo de Obama em Harvard e hoje professor na mesma universidade. “Quando li o livro, fiquei surpreso – a confusão e a revolta que ele descreve podiam existir debaixo da superfície, mas nunca se manifestavam.”

Quando lhe perguntam a respeito, Obama diz que “o que me intriga é o motivo por que as pessoas ficam intrigadas. O personagem revoltado existiu dos meus 15 até mais ou menos os meus 21 anos. A explicação é que eu era um adolescente dotado de uma carga considerável de hormônios, depois de uma infância sabidamente complicada. Mas esse não era o meu temperamento natural. E o livro não descreve todos os aspectos da minha vida. Eu podia ter escrito um livro muito diferente, falando das alegrias do basquete e de como é bom pegar jacaré numa bela praia, enquanto o sol se põe”.

Então, por que ele não escreveu sobre as alegrias do basquete? Por que se concentrou num aspecto seu politicamente tão pouco aceitável? Quando Obama freqüentou a faculdade de direito, pouco antes de escrever Sonhos do Meu Pai, falava da sua vontade de tornar-se prefeito de Chicago. Uma vez que as pessoas, por algum motivo, tendem a tolerar prefeitos (na verdade, encantar-se) com um comportamento consideravelmente mais excêntrico e dúbio que o de outras autoridades eleitas, ele pode ter escrito o livro tendo essa ambição em mente. É provável que tenha percebido que revelar o seu uso de drogas no passado era a melhor maneira de neutralizar um questionamento futuro. Mas como Obama é um excelente contador de histórias, é provável que conhecesse a narrativa típica do candidato a cargos políticos – bons resultados escolares, seguidos do sucesso numa profissão. Entregar-se prazerosamente às realizações da vida (a vitória, a vingança, uma bela casa, o basquete, seja o que for), no entanto, não serve para comover ou inspirar ninguém.

Quando trabalhava como organizador comunitário em Chicago, Obama conversou com muitos pastores negros para convencê-los a se aliarem à sua organização. Com as conversas, descobriu que a maioria deles tinha uma coisa em comum. “Um pastor contou que tinha sido viciado em jogo”, escreve ele. “Outro me falou dos seus anos como executivo bem-sucedido mas secretamente um alcoólatra. Todos se referiram a períodos de dúvida religiosa… a terem chegado ao fundo do poço, e sobre o orgulho ferido. Finalmente, falaram da ressurreição pessoal, com uma identidade agora ligada a algo maior. Era essa a fonte da sua confiança, insistiam eles: a queda que tinham sofrido e a redenção subseqüente. Era o que lhes dava a autoridade para pregar a boa-nova.” Cassandra Butts, amiga de Obama no tempo da faculdade de direito, rememora: “Barack costumava dizer que uma das suas frases prediletas do movimento pelos direitos civis era: ‘Se você não aguenta o peso da cruz, não vai aguentar a coroa'”.


Obama despontou para a proeminência na Convenção do Partido Democrata de 2004, quando descreveu a sua vida como uma celebração do Sonho Americano: um “garoto magricela com um nome estranho”, produto de uma improvável união idealista entre um africano e uma garota do Kansas, emerge da obscuridade para ingressar na Faculdade de Direito de Harvard e mais adiante – o que àquela altura já ficara claro – torna-se o terceiro senador negro dos Estados Unidos desde os anos que se seguiram à Guerra Civil. Mas, num outro sentido, a vida dele mostra um trajeto oposto ao do Sonho Americano, pois recusa os sonhos dos pais e avós e sai à procura de algo ainda mais ancestral.

O avô materno de Obama, Stanley Dunham, cresceu como um pequeno delinqüente em El Dorado, Kansas. Não sabia o que fazer na vida, mas tinha certeza de que queria ir embora do Kansas – deixar a casa dos seus pais e o provincianismo sufocante das cidades pequenas do Meio-Oeste, onde “o medo e a falta de imaginação asfixiavam os sonhos de todos”, como presumiu o seu neto. Depois de alguns primeiros passos em falso, e de uma fuga amorosa com uma garota irrequieta, o avô tinha feito o que homens do seu tipo sempre acabavam fazendo: seguira para o Oeste. Foi para a Califórnia, depois para Seattle e, por fim, para a última fronteira, o ponto mais a oeste ao qual podia chegar sem retornar ao leste: o Havaí.

Distante 13 mil quilômetros a leste dali, no Quênia, o outro avô de Obama, Hussein Onyango, também tomou o mesmo rumo, e por motivos semelhantes. Descontente e ambicioso, deixou a aldeia onde o pai vivia, curioso acerca dos brancos recém-instalados numa pequena cidade próxima. Lá, passou a se vestir à moda européia e adotou noções européias de higiene e bons modos com o fervor de um recém-convertido. Durante a II Guerra Mundial, viajou para a Europa como cozinheiro do Exército britânico.

Os rebentos desses dois homens, os pais de Obama, distantes uma geração do lugar onde nasceram, foram mais livres ainda que os progenitores. A mãe de Obama, Ann, casou-se primeiro com um queniano e depois, quando ele foi embora, com um indonésio. Após o malogro do segundo casamento, voltou por algum tempo para o Havaí, decidida a cursar um mestrado de antropologia, e em seguida tornou a partir para a Indonésia, onde passaria vários anos dedicada às pesquisas de campo. Deu ao seu filho de 13 anos a opção de ir com ela ou ficar na escola que cursava no Havaí. O menino decidiu ficar.

O pai de Obama foi expulso da escola e teve os recursos cortados pelo genitor, mas logo em seguida conseguiu uma bolsa para freqüentar um college nos Estados Unidos. Abandonou a mulher grávida e o filho para estudar econometria na Universidade do Havaí. Lá conheceu Ann Dunham, casou-se com ela e teve mais um filho, Barack. Depois deixou a segunda família para voltar ao Quênia, onde foi trabalhar para o governo. Casou-se lá com outra americana, com quem teve mais dois filhos. Passados alguns anos, essa terceira família se desintegrou e, como ele não se dispunha a aceitar as injustiças ditadas pelo tribalismo persistente no Quênia, também perdeu o cargo no governo. Revoltado e sem tostão, entregou-se à bebida.

“O que mais me impressiona, quando penso na história da minha família”, diz Obama no seu livro, “é um recorrente traço de inocência, uma inocência que parece inimaginável, mesmo pelos critérios de uma criança.” Essa inocência, para ele, não é uma qualidade positiva, nem mesmo uma desculpa redentora: não é o contrário da culpa, mas o oposto da sensatez. Na descrição que Obama faz do seu avô materno, por exemplo, percebemos amor e também desprezo. “Ele tinha um caráter americano, típico dos homens da sua geração, homens que abraçavam a idéia da liberdade e o individualismo, e saíam pelas estradas sem saber exatamente o preço que pagariam”, escreve. “Homens que eram tão promissores quanto perigosos, justamente devido à sua inocência fundamental, homens que tendiam, no fim das contas, a sofrer decepções.” A filha testemunhou essa insatisfação, mas aprendeu a lição errada: o problema não tinha sido o pai ter ido embora sem um objetivo claro, vagando só por vagar, esperando que um outro lugar lhe trouxesse uma vida nova: o problema é que não fora longe o bastante. E ela decidiu ir além. “Foi o desejo de apagar o passado, aquela confiança de que poderia criar um mundo novo a partir do zero”, escreve Obama, “que acabaria sendo o legado mais duradouro do avô.”

A mãe de Obama, da maneira como ele a retrata, é uma inocente americana saída diretamente das páginas de Henry James: uma jovem que decide se arriscar no mundo acreditando que as coisas são exatamente como parecem, que a história de cada pessoa começa quando ela nasce, e as suas relações com os outros só principiam a partir do momento em que ela os conhece; que é possível sair de casa sem medo de machucar-se ou sofrer de solidão, porque as pessoas são mais ou menos as mesmas em qualquer lugar. Não tinha a menor idéia de onde estava se metendo quando deixou o Havaí. Poucos meses antes da sua chegada, a Indonésia sofrera um golpe de Estado fracassado, mas brutal, em que morreram centenas de milhares de pessoas. Alguém acabou lhe contando o que acontecera, mas a notícia não a afetou. “Num país onde o fatalismo era um instrumento necessário para suportar as provações”, escreve Obama, “ela era a única a crer no humanismo laico, a defensora isolada do New Deal, do Peace Corps, do liberalismo persistente adquirido na academia.” Ela tinha uma fé, herdada do pai e impermeável à experiência, segundo a qual “as pessoas racionais e capazes de refletir sempre conseguem moldar o seu destino”. E se considerava afortunada por ter emergido da experiência só com um segundo divórcio e duas crianças um tanto perplexas. “As coisas podiam ter acabado pior”, escreve seu filho. “Muito pior.”

Inocência, liberdade, individualismo, mobilidade – a convicção de que a pessoa pode deixar para trás uma história violenta ou sufocante, e iniciar uma nova vida, livremente escolhida -, tudo isso faz parte do sonho americano de avanço para o oeste, primeiro da Europa para a América, depois das cidades abarrotadas da Costa Leste para as Grandes Planícies centrais, e delas para o Pacífico. Mas esse sonho, para Obama, parece superficial. Quando o jovem Barack foi ao Quênia pela primeira vez, e soube o que tinha acontecido com a vida do seu pai – como ele tinha destruído a sua carreira imaginando que velhas fidelidades tribais fossem simples estreiteza mental, que podia se colocar acima do passado e modificar a sociedade pela simples força das suas convicções -, uma tia lhe contou que o seu pai nunca entendera que, como ela dizia, “se todo mundo faz parte da família, ninguém faz parte da família”. Obama achou essas palavras notáveis, tanto que as citou textualmente mais tarde, em itálico, no livro. O universalismo é uma ilusão. A liberdade, no final das contas, não passa de uma forma de abandono. Você pode começar largando a religião, depois os pais, a sua cidade, o seu povo e o seu modo de vida. Mais tarde quando você acaba largando a mulher ou o marido e os filhos, isso vem a lhe parecer o resultado de uma progressão natural.

Assim, quando chegou a vez de Obama sair de casa, ele fez o contrário dos seus avós, da sua mãe e do seu pai: deu meia-volta e tomou o rumo leste. Primeiro de volta ao continente, cursando um college na Califórnia por dois anos, e depois mais para o leste ainda, seguindo até Nova York. Acabou em Chicago, de volta ao Meio-Oeste de onde os pais da sua mãe partiram, adotando tudo o que eles tinham deixado para trás – as amarras da tradição, o peso da história, a pequenez provinciana da comunidade, a vida inteira passada num único lugar com o mesmo grupo de pessoas. Lembrou-se da grande migração negra que viera do sul para Chicago um século antes, e das tradições que os migrantes criaram na cidade. “Fui fazendo uma ligação entre a minha vida e os rostos que eu via, tomando de empréstimo as memórias alheias”, escreveu. Ele queria sentir-se preso a um destino.

É claro que, num certo sentido, ao decidir deixar a família e mudar-se para um lugar com o qual não tinha nenhuma ligação, estava fazendo exatamente a mesma coisa que os seus pais. Mas, ao contrário deles, decidiu acreditar que as suas escolhas haviam sido moldadas pelo destino e pela família. “Percebo que as minhas escolhas nunca foram na verdade só minhas”, escreveu ele, “e era assim mesmo que deviam ser, pois afirmar o contrário é perseguir um tipo lamentável de liberdade.” Escolher entre as opções tradicionais era o que estava ao seu alcance. Com o tempo, as raízes cresceriam. Casou-se com Michelle Robinson, que já era a pessoa na qual ele queria se transformar: tinha memórias e raízes, pois nascera em uma família intacta e religiosa do sul de Chicago. Barack foi trabalhar numa organização próxima a sua vizinhança, e que vinha sofrendo um processo de desintegração. Por meio do trabalho e da inspiração, ele esperava trazer a comunidade de volta à vida. Mais adiante, rejeitando o agnosticismo dos seus pais e o ceticismo dos seus próprios instintos, tornou-se cristão e entrou para uma igreja. “Acabei compreendendo”, escreveu ele em seu segundo livro, A Audácia da Esperança, que “sem um compromisso inequívoco com um determinado grupo religioso, de certa forma eu estaria sempre destinado a manter-me à parte, livre como a minha mãe era livre, mas também isolado como ela, que, em última instância, vivia isolada.”

Quando entrou na faculdade de direito, aos 27 anos, Barack se transformara no homem que havia imaginado. Toda a sua vida, fora considerado negro porque tinha a aparência de negro. Se antes algo estivera confuso em seu íntimo, agora estava superado. Sua conversão estava completa. “Se você o conhecesse, nunca perceberia que tinha uma origem birracial”, diz Kenneth Mack. “Nunca perceberia que foi criado no Havaí. Quando eu o conheci, ele parecia só mais um negro de Chicago. Mais um negro do Meio-Oeste americano.”


O triunfo da liberdade sobre a história não é apenas, evidentemente, uma narrativa americana sobre indivíduos, mas uma narrativa que a América elabora a respeito de si mesma. Quando foi proposto que os Estados Unidos invadissem o Iraque, para ali estabelecer uma democracia, Obama sabia que isso seria um erro terrível. Era a inocência americana na sua forma mais destrutiva, a liberdade em sua forma mais enganosa, o universalismo na sua forma mais ingênua. “Havia uma inocência extremamente perigosa na idéia de que seríamos saudados como libertadores, ou de que um pouco de assistência econômica e treinamento democrático bastaria para vermos uma democracia jeffersoniana florescer no deserto”, diz ele atualmente. “Existe na história americana uma corrente ativa de idealismo que é capaz de se manifestar de maneira poderosa e apropriada – como ocorreu depois da II Guerra Mundial com a criação das Nações Unidas e o Plano Marshall, no momento em que reconhecemos que a nossa segurança e prosperidade dependiam da segurança e da prosperidade alheias. Mas o mesmo idealismo também pode se manifestar como a crença de que somos capazes de recriar o mundo da maneira que quisermos, com o simples acionamento de um interruptor, devido à nossa superioridade tecnológica, econômica ou moral. E quando o nosso idealismo desemboca nesse tipo de ingenuidade e se recusa a levar em conta a história e o peso das outras culturas, acabamos nos vendo às voltas com sérios problemas, como aconteceu no Vietnã.”

Na sua visão da história, no seu respeito pela tradição, no seu ceticismo em relação à possibilidade de mudanças do mundo que ocorram
de qualquer maneira que não seja muito, muito lenta, Obama é profundamente conservador. Há momentos em que chega a soar como um novo Burke [Edmund Burke, político britânico de origem irlandesa (1729-97), considerado um dos fundadores do pensamento conservador moderno]. Desconfia de abstrações, generalizações, extrapolações e projeções. Não só por achar que revoluções são improváveis, mas por dar mais valor à continuidade e à estabilidade, pelo que elas representam em si mesmas, do que a uma mudança para melhor. Com relação à saúde pública, por exemplo, “se estivéssemos começando do zero”, diz ele, “o sistema de um único pagante” – um sistema gerido pelo governo, como o do Canadá, tornando a assistência à saúde independente do emprego – “provavelmente faria sentido. Mas já temos em funcionamento todos esses sistemas que herdamos, e administrar a transição, além de ajustar a nossa cultura a um novo sistema, seria muito difícil. Por isso, precisamos de um sistema que não seja diferente a ponto de levar as pessoas a sentir que abandonamos repentinamente o que elas conhecem desde que nasceram.”



O histórico de votação de Obama é um dos mais liberais do Senado, mas ele é sempre bem-visto pelos republicanos, talvez por falar de metas liberais usando uma linguagem conservadora. Quando se pronuncia sobre a pobreza, não costuma denunciar os plutocratas gananciosos e as reduções injustas de impostos: diz que somos responsáveis por nossos irmãos, e que cuidar dos pobres é uma das tradições americanas. Quando lhe perguntam se mudou de idéia sobre alguma coisa nos últimos vinte anos, ele responde: “Acho que me tornei mais humilde na minha avaliação da velocidade com que programas governamentais podem solucionar nossos problemas. Acho, por exemplo, que a influência dos pais e das comunidades é tão importante quanto a quantidade de dinheiro investida na educação”.

Obama costuma estimular esse apelo a diferentes facções. Muitas vezes evita criticar diretamente o governo Bush. Recentemente, em New Hampshire, declarou à sua platéia: “Sou um democrata. Sou considerado um democrata progressista. Mas se um republicano, um conservador, um libertário ou um defensor do livre mercado tiver uma idéia melhor que a minha, terei o maior prazer em adotar as idéias de qualquer um, e nesse sentido sou um agnóstico”.

Seu ex-colega de faculdade que trabalhou no governo Clinton, Michael Froman, assim conta: “Um número impressionante de conservadores ligou para mim dizendo: ‘Ele é o democrata que eu poderia apoiar, não porque concorde comigo – porque não concorda – , mas porque levará em conta pelo menos o meu ponto de vista'”. Froman atualmente participa da campanha de Obama.

Depois do discurso de Obama na Convenção, muitos blogueiros republicanos apressaram-se em apoiá-lo, com títulos como “O Discurso Certo na Convenção Errada” ou “Barack Obama: Uma Alma Republicana Presa num Corpo de Democrata”. O discurso foi atipicamente reaganesco, apresentando uma visão quase uniformemente otimista dos Estados Unidos, que ele chamou de “uma terra mágica”. Hoje ele tende a ser um pouco mais sombrio. Ainda assim, os republicanos continuam a achá-lo mais aceitável, especialmente os que se opõem à guerra por motivos conservadores semelhantes aos dele. Alguns dos maiores financiadores de Bush estão contribuindo para a sua campanha. Na eleição para o Senado, Obama conquistou 40% dos votos republicanos. E existe um grupo chamado Republicanos a Favor de Obama, fundado por John Martin, estudante de direito e reservista da Marinha. É claro que nem todos os republicanos gostam de Obama – John Martin costuma receber um fluxo regular de e-mails irritados. “Olá John, só queria lhe dizer que não existem republicanos a favor de Obama Hussein Barack”, escreveu uma leitora, concluindo: “Favor me retirar da sua lista de correspondência e cuidar de superar a sua culpa de americano branco”.

Na passagem mais citada do discurso da Convenção de 2004, Obama disse: “Os sábios gostam de dividir o nosso país em estados vermelhos e estados azuis; os estados vermelhos para os republicanos, os azuis para os democratas. Mas tenho uma notícia para eles também. Cultuamos um Deus formidável nos estados azuis, e não gostamos de agentes federais enfiando o nariz nas nossas bibliotecas nos estados vermelhos”. Observadores da cena de Washington tendem a não dar importância a esses apelos em favor da unidade nacional e de cooperação entre os partidos, afirmando tratar-se de um mero clichê político. E mesmo os mais ardorosos defensores de Obama acham que essa insistência pode acabar soando inconvincente. “Todas essas afirmações politicamente corretas não são exatamente exemplos de uma retórica à moda de Churchill”, diz um amigo.


Obama está sempre decepcionando quem acha que ele dedica respeito excessivo, ou concede terreno demais ao outro lado, em vez de lutar de forma agressiva em defesa dos seus princípios. “Na faculdade, participamos juntos de um seminário e Charles Fried, que é muito conservador, era um dos nossos oradores”, conta Cassandra Butts. “Surgiu a questão da Segunda Emenda [que estabelece o direito dos cidadãos a ter armas], e Fried mostrou sua visão absolutista da matéria. Um dos nossos colegas era a favor do controle das armas – vinha de um meio urbano onde a questão da posse de armas era importante. E, embora Barack concordasse com o nosso colega, preferiu dar ouvidos a Fried – impressionava-se com o fato de Fried ter crescido no bloco soviético, onde essas liberdades não existiam. A aula havia terminado e o nosso colega continuava a discutir com Fried, mas Barack se mostrava tão pouco passional quanto antes, o que eu não entendia.” Recentemente, Obama declarou que, se Bush decidisse vetar uma lei de controle dos gastos militares com uma cláusula de retirada americana do Iraque, ele, Obama, daria apoio à anulação da cláusula, a fim de garantir a aprovação da lei. Os blogueiros liberais ficaram furiosos com essa capitulação, mas a escritora Samantha Power, que trabalha para Obama no campo da política externa, disse que “ficar num lado da sala de braços cruzados simplesmente não é o modus operandi dele”.

Novamente, isso é em parte uma questão de temperamento. “Por natureza, não sou o tipo de pessoa que se exalta muito com as coisas”, escreve Obama no seu segundo livro. Prefere considerar que seus adversários estão enganados ou sendo ridículos, em vez de encará-los como demônios. “Nunca fui adepto da teoria da conspiração”, diz ele. “Jamais acreditei que existissem pessoas que controlavam tudo, puxando cordões e apertando os botões. E o motivo é que, quanto mais velho fico, mais tempo passo conversando com gente do governo ou da elite empresarial, e mais humanos todos se tornam. O que eu acredito é que as pessoas que têm dinheiro, influência ou que controlam a maneira como os recursos são alocados na nossa sociedade tendem a proteger seus interesses, e são capazes de racionalizar ao infinito os motivos pelos quais devem ter mais dinheiro e poder que qualquer outro, e os motivos pelos quais essa distribuição é boa, de certa forma, para a sociedade como um todo.”

A tendência de Obama à conciliação vai além dos limites do expediente político – é instintiva, quase uma reação involuntária. “Barack tem uma capacidade incrível de operar a síntese entre realidades aparentemente contraditórias e torná-las compatíveis”, diz Cassandra Butts. “E isso se deve ao fato de vir de uma casa onde foi criado por brancos para depois cair no mundo e ser visto como um negro. Ele precisava decidir se aceitava essa contradição e se limitava a ser só uma das duas coisas, ou se preferia encontrar um modo de perceber que as partes formam um todo.” “Acho que os Estados Unidos passam por uma situação em que todos estão muito mais de acordo do que acreditam. E isso é uma coisa que eu sei a partir de dados de pesquisas – sentimo-nos divididos em termos de raça, de religião, de classe, de quase tudo, mas exageramos as nossas discordâncias. E é por isso que eu acho Obama a pessoa certa para o momento atual”, conclui Robert Putnam.

Às vezes, é claro, não existe possibilidade de convergência, e a resposta a uma certa questão só pode ser sim ou não. Nesses casos, Obama pode ou não sair em defesa daquilo que acredita. “Desafiar as convicções religiosas das pessoas – eis uma coisa que ele hesitaria muito em fazer”, diz Cass Sunstein, colega de Obama na Universidade de Chicago. O que não se deve apenas ao seu pragmatismo, acredita ele*, mas deriva também da sua idéia de que sempre existe algo que merece respeito num sentimento moral forte e difundido, mesmo que ele esteja errado. “Rawls fala da tolerância cívica como modus vivendi, como uma forma de vida em comum, e é assim que pensam alguns liberais”, diz Cass Sunstein [refere-se a John Rawls (1921-2002), filósofo político americano]. “Mas acho que, quanto a isso, Obama lembra mais Learned Hand [famoso juiz americano (1872-1961)], quando este declarou: ‘O espírito da liberdade é o espírito que não tem muita certeza de ter razão’. Obama leva essa idéia a sério. Acho que o motivo de os conservadores sentirem-se bem com ele é verem que ele pode concordar com algumas questões e que, mesmo que tenha uma posição diferente, sempre sabe que pode estar errado. Não me ocorre nenhum outro político americano que já tenha pensado da mesma maneira.”

“O herói dele é Lincoln, famoso por acreditar que existem certos princípios de que não se deve abrir mão em voz alta, mas que também existem razões pragmáticas e às vezes razões de princípio para a pessoa não agir com base neles”, diz Sunstein. Obama considera que a fundação dos Estados Unidos foi “uma conciliação grandiosa” e esse tipo de compromisso, para ele, não constitui uma erosão dos princípios em prol da realização de alguma coisa, mas um princípio em si – a certeza da incerteza, o fundamento da união. “Estou decidido a salvar a União”, escreveu Lincoln numa carta a Horace Greeley, o editor do New York Tribune. “Se eu pudesse salvar a União sem libertar nenhum escravo, eu salvaria; se eu pudesse salvá-la libertando todos os escravos, eu salvaria; e se eu puder salvá-la libertando alguns e deixando os outros como estão, também salvaria.” “Prefiro acreditar que, para Lincoln, o que esteve em jogo nunca foi o abandono das convicções em prol de vantagens imediatas”, escreve Obama. “Ao contrário, acredito que precisamos conversar e chegar a entendimentos comuns precisamente por sermos todos imperfeitos e nunca podermos agir com a certeza de que Deus está do nosso lado.”



Obama recosta-se numa cadeira do seu gabinete, em Washington. Transmite a impressão de que seria capaz de passar o dia inteiro sentado imóvel naquela cadeira, sentindo-se perfeitamente confortável. Enquanto fala, acena com a mão em gestos vagos e majestosos, como se, distraído, espantasse uma mosca. Fala sobre as conseqüências da guerra no Iraque, de como acredita ser crucial evitar um recuo isolacionista, ao estilo da síndrome pós-Vietnã.

“Não existe hoje país algum sem problemas de segurança”, diz ele. “Se tivermos espaços sem governo, eles se transformam em refúgio de terroristas, em campos de multiplicação de pandemias e de produção de refugiados que podem desestabilizar áreas de grande interesse para nós. A segurança e as preocupações humanitárias fazem parte do mesmo projeto, a criação de um mundo em que as pessoas tenham as suas oportunidades e que isso desperte o seu interesse em participar da manutenção da ordem. Eu pegaria parte das tropas que enviamos para o Iraque e a usaria para reforçar a presença da Otan no Afeganistão. Acho que ainda teremos a oportunidade de chegar a um bom resultado ali.”

Obama ficou conhecido pelo seu ceticismo em relação à guerra no Iraque, mas não é uma pomba e nem se mostra avesso a pensar em termos internacionais. Duas das questões a que dedicou mais atenção desde sua chegada ao Senado americano, a gripe aviária e a não-proliferação nuclear, são problemas globais em grande escala que, embora relativamente incontroversos, são mesmo assim escolhas arriscadas como questões preferenciais, pois em ambos os casos o sucesso é invisível e o fracasso pode provocar uma calamidade de proporções planetárias. Ainda assim, parece que o hábito de pensar globalmente é relativamente novo para ele. Quando o primeiro presidente Bush invadiu o Iraque, Obama estava próximo dos 30 anos e vinha pensando seriamente em uma carreira política, mas seus amigos daquele tempo não se recordam da posição dele sobre a guerra. “Não quero fazer afirmações como se na época eu tivesse condição de sustentar uma posição clara”, diz ele. “Lembro-me de acreditar que a invasão do Kuwait por Saddam justificava uma ação internacional, e se eu fosse forçado a articular uma política, talvez tivesse apoiado a iniciativa, depois da formação de uma coalizão internacional. Na época, eu estava ocupado demais na faculdade de direito, ou me preparando para o exame da Ordem.”

Na área de recepção do seu gabinete muita gente se acotovela, boa parte sem encontro marcado. O gabinete se transformou numa espécie de atração turística. Marian Wright Edelman procurava guiar um grupo de líderes religiosos, de pais e de crianças doentes, para falar com Obama por um ou dois minutos sobre a questão da saúde infantil. Cerca de vinte bombeiros rotundos de meia-idade chegaram e, sendo numerosos demais para caber na sala, espalharam-se pelo corredor, bloqueando a porta de entrada. Uma dupla de repórteres do Chicago Tribune – destacados pelo jornal para cobrir os movimentos de Obama em tempo integral – esperava no sofá por uma entrevista que já fora adiada uma vez. Um pai branco de Winnetka havia trazido seus dois filhos e o mais velho de uns 9 anos de idade lhe implorava para que esperasse até ele poder avistar Obama, mesmo que só por um segundo. Duas adolescentes – uma de Lake Elmo, Minnesota, carregando um refrigerante, e a outra, de meia-calça cor-de-rosa e carregando um sorvete de iogurte – passaram pelo gabinete, na esperança de tirar uma fotografia com o senador. Uma recepcionista entregou-lhes uma foto em preto-e-branco da pilha que mantém na sua mesa, e as garotas soltaram gritinhos de satisfação. A garota com o refrigerante tirou algumas fotos da área da recepção e da sala de reuniões vazia, e assinou o livro de visitantes. “Onde o senhor está? Nada de fotos conosco?”, escreveu ela, ao lado de comentários mais convencionais como: “Boa sorte, o senhor é um doce”, “Meu herói!”, “Obrigada, o senhor é mesmo o máximo!”


“Meu nome é Barack Obama e estou concorrendo à presidência.” É o que se ouve na Escola Secundária de Algona, Iowa. “Vagou uma cadeira no Senado estadual na área onde eu morava, e algumas pessoas que eu conhecia na comunidade vieram me procurar e perguntaram se eu me interessava”, conta Obama. “Fiz o que todo negro faz diante de uma decisão importante como essa: fui rezar em busca de inspiração, e perguntei à minha mulher o que devia fazer.” (Risos.) “E, depois de consultar esses dois poderes supremos, fiz o que todo candidato estreante sempre faz, que é sair falando com qualquer pessoa que se disponha a escutar. Fui a reuniões de pais e mestres, a barbearias, a jogos infantis de beisebol e, em todos os lugares aonde eu ia, ouvia as mesmas duas perguntas. Primeira: ‘De onde vem esse seu nome estranho, Barack Obama?’ Isso porque as pessoas acabam se confundindo na pronúncia. Já me chamaram de Alabama, já me chamaram de Yo’Mama.” (Risos.) “Mas foi a segunda pergunta que me levou a ser candidato à presidência. As pessoas me perguntavam: ‘Você parece boa pessoa, tem um belo diploma de advogado, ganha muito dinheiro, tem uma linda família que vai todo domingo à igreja. Então por que quer entrar para uma coisa tão suja e desagradável como a política?'”

“Ele sempre quis ser presidente”, conta Valerie Jarrett, amiga da família há muitos anos, desde que contratou a mulher de Obama para trabalhar no gabinete do prefeito Daley. (Michelle atua hoje como executiva nos hospitais da Universidade de Chicago.) “Nem sempre admitiu, mas não há a menor dúvida. A primeira vez que ele me contou, disse: ‘Acho que eu tenho algumas qualidades especiais, e que seria uma pena desperdiçá-las’. Penso que foi no início da campanha dele para o Senado Federal. E mais tarde complementou: ‘Sabe, acho que eu tenho um jeito para isso’.”

“Algumas pessoas que sabiam do meu ativismo na comunidade me perguntaram se eu tinha interesse em concorrer àquele cargo”, diz Obama em Ames. “E então eu fiz o que qualquer homem sensato faz diante de uma decisão como essa: fui rezar pedindo inspiração, e perguntei à minha mulher o que ela achava.” (Risos.) No final de 2006, quando refletia sobre a decisão de concorrer, os amigos lhe perguntaram se ele estava pronto para a luta, se a idéia da disputa estimulava a sua adrenalina, e ele respondeu: “Sim, mas eu não sei se estou interessado em toda a controvérsia”. Não é a resposta que se espera de alguém que está embarcando numa campanha presidencial – que não quer controvérsia. “Mas é por isso que ele é tão simpático”, diz um amigo. “É essa a qualidade que as pessoas enxergam nele; todos estão vendo como a campanha pode ser estafante.” “Bill Clinton era muito mais versado nas táticas da política”, diz David Axlerod, o principal conselheiro da campanha de Obama. “Era um consumidor voraz de pesquisas. Claro, ele era tão incansável que era capaz disso, de ler quatro livros por semana e ainda ser presidente dos Estados Unidos. Ninguém jamais contrataria Barack como chefe de campanha. Mas Bill Clinton daria um ótimo chefe de campanha.”

E essa não é a única diferença entre Obama e Clinton. Comparar os dois ajuda a ver como um político por vocação, como os dois são definidos, pode ser muito diferente comparado a outro. “Bill Clinton tem um talento quase sobrenatural para escutar”, diz Robert Putnam. “Após conversar com Clinton, você sai pensando que pela primeira vez na vida alguém realmente ouviu o que você tinha a dizer – que Bill Clinton foi a primeira pessoa no mundo que te compreendeu. É uma coisa quase mágica.” Parte dessa qualidade, numa forma mais contida e sublimada, está presente também em Hillary Clinton – em seu desejo intenso de conquistar as pessoas, em sua preparação exaustiva, na disposição de dar tudo que é capaz para conseguir um voto.

O que não é nem de longe o estilo de Obama. Ele nunca dá mostras de avidez. Parece gostar de gente, mas não dá a impressão de precisar dos outros. Quando a maioria dos políticos fala a uma platéia, parece que vive para isso; Obama, em encontros locais, mostra-se empenhado mas com menos ardor, como se houvesse várias outras coisas que ele gostaria igualmente de fazer naquele dia. Quase sempre mantém na reserva o poder de oratória que demonstrou na Convenção de 2004. Mesmo nos grandes comícios atuais, nunca tenta deslumbrar ninguém – seus olhos não soltam chispas, suas mãos permanecem desvencilhadas e sempre abaixo da linha dos ombros, e ele nunca parece a ponto de ter uma experiência de mística.


Obama, é óbvio, está concorrendo à presidência dos Estados Unidos, mas isso não quer dizer que ele não esteja ávido por mais apoio: apenas sua maneira de conquistá-lo é mais sutil. Quando um dos redatores dos seus discursos, Jon Favreau, que trabalhou na campanha de John Kerry em 2004, foi entrevistado para o cargo, Obama lhe perguntou que teoria usava para compor os discursos. “Eu não tinha uma teoria grandiosa no bolso”, conta Favreau, “mas respondi: ‘Quando eu vi o senhor na Convenção, o que me chamou mais a atenção foi que contou uma história do começo ao fim do seu discurso – uma história de sua vida, sobre como ela se encaixa na história americana mais ampla – e chegou um ponto em que as pessoas queriam aplaudir, sem que o senhor precisasse fazer o tipo de declaração que sempre provoca aplausos. Os democratas não costumam fazer isso’. E Barack respondeu que era exatamente isso que ele tentava fazer.” Eis a teoria do discurso segundo Obama, e também, ao que parece, a sua teoria da campanha eleitoral: não tente obter muitos pontos o tempo todo, não se mate por um voto – uma campanha é um processo longo e lento, e você não precisa esgotar cada platéia, e tampouco descer do palco exausto.

Quando Christopher Edley conheceu Obama, na faculdade de direito, achou que ele iria longe porque era muito centrado. Mais tarde, quando leu o primeiro livro de Obama e viu o quanto ele desconfiava de si mesmo e dissecou a própria vida por anos a fio, achou que iria bem longe por causa disso. “A capacidade de reflexão a respeito de si mesmo é, na minha experiência, valiosíssima para um candidato ou um presidente”, diz ele. “É difícil descrever a alguém que nunca tenha se envolvido o quanto uma campanha presidencial é difícil. Quando você passa dia após dia voando de um canto a outro do país num tubo de alumínio a mais de 12 mil metros de altitude, a coisa mais fácil do mundo é se perder. E cada passo em falso pode se transformar em uma catástrofe midiática de 36 horas de duração, o que faz você passar a ter todos os motivos para desconfiar dos seus instintos, de maneira que ser sensível às suas forças e fraquezas e ter coragem de encará-las de frente ajudam muito cada vez que você enfrenta uma crise. Já vi candidatos procederem como um cervo congelado pelos faróis de um carro: não conseguem mais avançar e precisam ser conduzidos pela sua equipe. E também vi candidatos que, diante da adversidade, se transformam na mais teimosa das mulas e se mostram incapazes de se adaptar ou fazer qualquer ajuste. A maioria dos candidatos entra nos encontros perguntando a todo mundo: ‘Como estou indo? Como estou indo?’, sem a menor capacidade de se verem no espelho. Assim, a capacidade de ser brutalmente autocrítico, que Barack demonstra no seu livro, é uma qualidade de peso.”

“Muita gente entra na política com uma idéia. Obama entrou com um exemplo. O único político que ele analisa com certo vagar, no seu primeiro livro, é o negro que ocupava a prefeitura de Chicago quando se mudou para a cidade, em 1985: Harold Washington. Obama não fala da plataforma de Washington, e nem do que conseguiu realizar no exercício do cargo, fala do efeito que sua eleição teve sobre a comunidade negra. Quando chegou a Chicago, Obama percebeu que, por toda a área sul da cidade, as pessoas penduraram o retrato de Harold Washington na parede. “Na noite em que Harold venceu, vou lhes contar, as pessoas saíram correndo pelas ruas”, conta um barbeiro que Obama chama de Smitty. “Foi igual ao dia em que Joe Louis nocauteou Max Schmeling. O mesmo sentimento. As pessoas não estavam só orgulhosas de Harold. Estavam orgulhosas de si mesmas.” Ficou claro para Obama que a vitória de Harold Washington provocou nas pessoas um sentimento quase religioso de libertação. “Da mesma forma que a minha idéia de organização”, conclui o candidato, Harold Washington “prometia uma redenção coletiva.”

Mas a redenção é frágil. Depois da morte súbita de Washington, no meio do seu segundo mandato, sua obra desfez-se quase de imediato. “Não havia uma organização política montada, princípios claramente definidos a seguir”, escreve Obama. “A totalidade da política negra girava em torno de uma pessoa, radiosa como um sol.” Para um homem menos conservador, esse fracasso poderia acarretar um sentimento esmagador – uma demonstração da impossibilidade da mudança -, mas para Obama mostrou ser apenas uma prova adicional de que o carisma é enganoso, de que as revoluções são ilusórias, de que a verdadeira mudança é sempre lenta. Agora que ele próprio está concorrendo, é provável que saiba que tanto pode ser prejudicado como exaltado pelas expectativas elevadas, de modo que tenta, de maneira sutil, desestimulá-las. Obama tem os pés no chão. Se ele achasse que a sua vitória demandaria uma revolução, não seria candidato.