12 de maio de 2007

Quem são os comerciantes do medo?

por Alexander Cockburn

counterpunch: Tells the Facts and Names the Names

Tradução / Nenhuma resposta é mais previsível do que aquelas esganiçadas pelos que vendem o medo do efeito de estufa: dizem eles que qualquer um que questione as suas afirmações está na folha de pagamento das companhias de energia. Uma segunda réplica, igualmente previsível, contrasta o número sempre diminuto de agnósticos com as crescentes legiões de cientistas agora renascidos para a "verdade" de que o CO 2 antropogênico é responsável pela tendência para o aquecimento da Terra, a fusão das calotas polares, o alteamento dos mares, o aumento dos furacões, o declínio da fertilidade do pinguim e outros horrores demasiado numerosos para serem mencionados.

Realmente, as companhias de energia adaptaram-se há muito às fantasias em voga, recitando devidamente todo o catecismo acerca da neutralidade do carbono, descontraidamente e sem rir referem-se ao encantador endosso de Tom Friedman ao "carvão limpo", reposicionando-se a si próprias como pioneiras interessadíssimas na investigação de virtuosos combustíveis alternativos, a estabelecerem-se confortavelmente em novos lares, tais como o "Energy Biosciences Institute" da British Petroleum no Campus de Berkeley da Universidade da Califórnia, primeiro fruto de um acordo de US$ 500 milhões entre aquela companhia petrolífera e um campus cuja família fundadora, os Hearsts, afinal de contas fez a acumulação da sua fortuna no negócio mineiro.

De fato, quando se chega ao patrocínio corporativo de teorias insanas acerca da razão porque o mundo está a ficar mais quente, a conspiração de interesses mais bem documentada é entre os comerciantes do medo do aquecimento global e a indústria nuclear, agora largamente possuída por companhias de petróleo, cujas perspectivas vinte anos atrás pareciam negras, no meio de manchetes acerca das precipitações de Chernobyl, centrais a envelhecerem e depósitos de resíduos nucleares com fugas até à eternidade. Os que administram a fabricação do medo do efeito de estufa estão bem conscientes de que a única saída para a crise imaginária que têm estado a patrocinar é através de uma porta com a inscrição "energia nuclear", com uma porta de serviço lateral com a etiqueta "carvão limpo". James Lovelock, o Rasputin do Gaia, disse que "A energia nuclear tem uma importante contribuição a dar". (Àqueles que se sobressaltaram com as palavras "crise imaginária", remeto ao meu último artigo acerca deste tópico, onde enfatizo que ainda há zero evidência empírica de que a produção de CO 2 antropogônico esteja a dar qualquer contribuição mensurável à atual tendência para o aquecimento do mundo. Os comerciantes do medo do efeito de estufa confiam inteiramente em modelos computacionais não verificados, brutalmente super-simplificados, para apontar o dedo à contribuição pecaminosa da espécie humana).

O histérico mais bem conhecido do mundo, auto-promotor do tópico da responsabilidade física e moral do homem pelo aquecimento global, é Al Gore, um sócio da indústria nuclear e dos barões do carvão desde o primeiro dia em que entrou no Congresso encarregado do sagrado dever de proteger os interesses orçamentais e regulamentares do Tennessee Valley Authority e do Oakridge National Lab. As "task forces" da Casa Branca sobre alterações climáticas nos anos Clinton-Gore foram sempre bem despachadas por Gore e o seu conselheiro John Holdren com gente da indústria nuclear como John Papay da Bechtel.

Como cidadão de Washington desde os seus verdes anos, Gore sempre entendeu que a ameaça da inflação é a ferramenta mais segura para engordar orçamentos e incitar multidões de eleitores. Em meados da década de noventa ele posicionou-se como chefe da aliança estratégica e tática formada em torno do "desafio das alterações climáticas", que agora avançava para ocupar o lugar do comunismo no teatro essencial a toda a vida política. Na verdade, foi no New Republic, um incansável agente publicitário da ameaça soviética em fins da década de 70, que Gore anunciou em 1989 que a guerra ao aquecimento global não poderia ser ganha sem uma renovação dos valores espirituais.

A infantaria nesta aliança tem sido os privilegiados modeladores climáticos e a sua Internacional, o Intergovernmental Panel on Climate Change (IPCC) da ONU, cuja perícia científica coletiva é reverentemente invocada por todos os devotos do catecismo dos fabricantes do medo do Efeito de Estufa. Fora o fato de que o cemitério de erros intelectuais está recheado com uma miríade de lápides de "esmagador consenso científico", o IPCC tem o exército habitual de funcionários e coletores de privilégios, e uns pequenos salpicos de cientistas reais com a qualificação primária de climatologistas ou físicos da atmosfera.

Identificar tanto os modeladores do clima financiados por governos como as suas tropas de choque, os membros do IPCC, com rigor e objectividade científica é tão irrealista quanto detectar tais atributos num craniologista financiado por Lombroso que estuda a cabeça de um assassino numa prisão do século XIX para criminosos insanos. Os dedos e compassos dos craniologistas foram programados pelos habituais incentivos de estipêndios, privilégios e ego profissional a fim de descobrir sulcos, protuberâncias e depressões na caveira daquele assassino, cada uma delas meticulosamente equacionada com uma ingovernável paixão, um défice étnico ou um desarranjo mental. A cabeça do indivíduo assassino tornou-se um modelo universal, o particular promovido a uma teoria inatacável.

Lombroso e os seus seguidores pelo menos mediam cabeças. Mas tudo o que Al Gore alguma vez precisou para promover a sua inatacável teoria do aquecimento global feito pelo homem foi de um dia quente ou alguma chuva forte. Viesse um verão chuvoso (1995), um El Niño perfeitamente rotineiro (1997) ou um incêndio florestal na Florida (1998) e lá estava Gore para a foto oportunidade, com o dedo levantado a advertir da pioria do aquecimento por vir. O ano de 1997 também encontrou Gore no Parque Nacional de Glaciares, a apontar para o glaciar Grinnell e a dizer com gravidade à imprensa que ele estava a fundir, o que na verdade tem estado a acontecer desde o fim da Pequena Idade do Gelo, de 1450-1850 . Os glaciares das latitudes médias expandem-se, assim como se contraíram no Período do Aquecimento Medieval, mais quente do que hoje e portanto tão vexatório para alarmistas do clima como Michael Mann (agora um burocrata reinante do clima no IPCC) que eles o extirparam dos seus gráficos de temperaturas históricas, tal como um editor no tempo de Stalin recortou uma foto da equipe de antigos bolcheviques para livrar-se de indesejáveis que haviam sido anatematizados.

A teoria de um aquecimento global produzido pelo homem é alimentada por previsões pseudo quantitativas de carreiristas do clima a extraírem [dados] primariamente do grande mega-computador Modelos de Circulação Geral (MCG), os quais incluem o National Center for Atmospheric Research (NCAR), o Goddard Institute for Space Studies da NASA, o Geophysical Fluid Dynamics Lab do Departamento do Comércio, um MCG privado que costumava estar no estado de Oregon antes de a Universidade de Illinois atrair a equipe para outro lugar. Há um outro em Livermore e um na Inglaterra, em Hadley. 

Estas burocracias da programação do modelo computacional manobram muitos bilhões de dólares e pretendem a sua auto-preservação e reforços orçamentais tal como as burocracias nucleares cognatas de Oakridge e Los Álamos.

É tão improvável que desenvolvam modelos refutando a hipótese do aquecimento global induzido por humanos quanto o IPCC de dizer que o tempo possivelmente está a ficar um pouco mais quente mas que não há grande motivo para alarme e na verdade até alguma razão para regozijo, uma vez que este aquecimento (cujas causas naturais discuti naquele artigo recente) dão-nos uma estação de plantio mais longa e CO2 acrescido, um poderoso fertilizante de plantas. Bem vindo ao amadurecimento global.

Remontando ao princípio da década de 1970, em agências tais como a Conferência sobre Comércio e Desenvolvimento (Conference on Trade and Development, UNCTAD) a ONU alimentou alguns planos bastante radicais para uma nova ordem económica internacional, os quais estabeleciam termos de comércio mais favoráveis para os países mais pobres. No fim da década dos 70 tais esperanças estavam a esvanecer-se sob a maré neoliberal e a era Reagan-Clinton pôs-lhe fim. No fim da década de 1980 os altos escalões da ONU perceberam claramente que o "desafio" das alterações climáticas poderia ser o cavalo de batalha para reconstruir a cada vez mais esfarrapada autoridade moral da organização, e para reclamar um papel além daquele de ser um óbvio garoto de recados americano. Em 1988, o Programa das Nações Unidas para o Ambiente, criado originalmente em 1972, foi unido num não sagrado matrimónio burocrático à Organização Metereológica Mundial da ONU, dando-nos o IPCC.

O ciclo de previsões alarmistas agora está bem estabelecido. Não muito antes de algum novo debate da ONU sobre "O que fazer acerca do clima", algum conhecido vendedor de medo como James Hansen ou Michael Mann fará uma trémula declaração acerca da aceleração do tempo e das dimensões da crise do aquecimento.

A choradeira é então retomada pelo IPCC (e na década de 1990 pelo par Clinton/Gore - Casa Branca), com os comunicados de imprensa postos em manchete pelo New York Times, exactamente com a mesma falta intencional de avaliação crítica com que aquele jornal reciclou as mentiras do governo acerca das armas de destruição maciça de Saddam. Meses e anos mais tarde virão as qualificações e retractações, muito depois de novos contratos e privilégios terem sido concedidos, e novas legiões contratadas para os impérios sempre em expansão dos fabricantes do medo. (O Pentágono pelo menos entendeu a situação, e instruído por um brilhante almirante que conduz o estudo do Center for Naval Analysis, está a construir o fundamento intelectual para enormes novos aumentos orçamentais com base em hipotéticas conexões entre aquecimento global e terrorismo explosivo devido à fome).

Quando a realidade medida não coopera com as apavorantes previsões do modelo, são cozinhados novos "factores" compensadores, tais como os – populares por breve tempo – dos aerossóis da década de 1990, recrutados para arrefecer o calor obviamente excessivo previsto pelos modelos. Ou os existentes dados inconvenientes são despachados como aconteceu com as amostras dos cilindros de gelo que deixaram de confirmar as necessidades dos modeladores de temperaturas recorde hoje a serem opostas às de meio milhão de anos atrás. Como observou Richard Kerr, o homem do aquecimento global na revista Science, "Os modeladores climáticos têm estado a trapacear por tanto tempo que isto se torna quase respeitável".

A consequência? Tal como a espiral de gastos com armas fomentadas pelos mercadores do medo da Guerra Fria, vastas quantias de dinheiro serão gastas inutilmente em programas que não funcionam contra um inimigo que não existe. Enquanto isso, perigos reais e ambientais sanáveis são tratados superficialmente ou ignorados. A histeria governa estes dias, afogando necessidades urgentes de limpeza no nosso quintal enquanto aplaina o caminho para a indústria nuclear colher as suas recompensas globais.

8 de maio de 2007

O golpe corporativo do clima

David F. Noble

Z

Tradução / Não respirem. Há uma guerra feroz contra as emissões de CO² e vocês estão a liberar CO² cada vez que respiram. A campanha multimídia contra o aquecimento global, que está a saturar os nossos sentidos e que insiste que o inimigo é o aumento do componente CO² dos gases do efeito estufa, nos faz prisioneiros: ou vocês estão connosco ou estão contra nós. Ninguém pode pôr em causa a nova ortodoxia ou se atrever ao pecado da emissão. Se Bill Clinton fosse se candidatar agora à presidência iria jurar que não respira.

Como foi que chegamos a isto? Como é que um assunto ainda ontem tão misterioso que interessava apenas a meia dúzia de cientistas especialistas aparece tão repentinamente no nosso discurso? Como é que a especulação científica evoluiu tão rapidamente para profecias unânimes de apocalipse? Estas perguntas não são hipotéticas mas perguntas históricas e têm resposta. Acontecimentos destes não surgem por acaso; o seu aparecimento é provocado. Geralmente as nossas ideias têm tendência para não serem as nossas próprias ideias: raramente lá chegamos por nós mesmos e pelo contrário absorvemo-las a partir do mundo à nossa volta. Isto é particularmente óbvio quando as nossas ideias acabam por ser as mesmas de quase toda a gente, mesmo de pessoas com quem nunca nos encontramos nem comunicamos. De onde é que apareceu esta ideia sobre a crise urgente do aquecimento global e das emissões de CO2 e como é que ela entrou nas nossas cabeças, se apenas alguns de nós leram, ou tentaram ler, um simples documento científico sobre os gases com efeito de estufa? A resposta a esta pergunta não é difícil, como poderia parecer, pela simples razão de que é necessário uma grande quantidade de dinheiro e de recursos para instilar uma ideia em tantos espíritos ao mesmo tempo e tão rapidamente, e os únicos com capacidade e meios para tal são o governo e as grandes corporações, em conjunto com os seus mecanismos multimídia. Para efetuar uma viragem tão significativa na atenção, percepção e crença é necessário um esforço substancial e portanto visível e demonstrável.

Até há bem pouco tempo a maior parte das pessoas era indiferente ou mostrava-se confundida ou relativamente despreocupada com esta questão, apesar de um consenso crescente entre cientistas e ambientalistas sobre os possíveis perigos da mudança do clima. Os activistas do aquecimento global, como Al Gore, apressaram-se a deitar a responsabilidade por essa ignorância, confusão e despreocupação da população a uma campanha de propaganda organizada bem financiada pelas companhias de petróleo e gás e pelas suas organizações de fachada, amigalhaços políticos, organizações de publicidade e relações públicas, e lacaios dos meios de comunicação, que tranquilizaram as pessoas mostrando complacentemente algumas dúvidas e cepticismos sobre as preocupações dos cientistas. E tinham razão, houve de facto uma enorme campanha organizada, que está hoje amplamente documentada. Contudo, o que os activistas do aquecimento global convenientemente se esqueceram de assinalar é que a mensagem deles, alarmista, tem sido martelada nas nossas cabeças exactamente pelos mesmos meios, embora por diferentes mãos empresariais. Esta campanha, que pode vir a provar ser de longe muito mais significativa, tem até agora recebido pouca atenção.

Nos últimos quinze anos temos vindo a ser alvo de duas campanhas empresariais rivais, cada uma delas reflectindo diferentes estratégias empresariais apreciáveis, que reflectem uma divisão no seio dos círculos da elite. A questão da mudança do clima tem sido atacada por estes dois grupos opostos de elites, dando a ideia de que apenas existem estes dois lados. A primeira campanha, que apareceu nos finais dos anos 80, fazendo parte da ofensiva da "globalização" triunfalista, procurou desacreditar abertamente a especulação sobre a mudança do clima negando, pondo em dúvida, ridicularizando e menosprezando as aflitivas afirmações científicas que podiam pôr em perigo o entusiasmo para uma aberta iniciativa capitalista. Foi concebida e até certo ponto construída sobre uma campanha anterior feita pela indústria do tabaco que mostrava cepticismo sobre a evidência crescente dos efeitos maléficos do tabaco para a saúde. Na sequência desta tentativa de propaganda "negativa", todas e quaisquer críticas sobre a mudança de clima e o aquecimento global passaram a ser imediatamente identificadas com este lado do debate.

A segunda campanha positiva, que surgiu dez anos depois, na sequência de Quioto e no auge do movimento anti-globalização, procurou apropriar-se da questão ambiental, declarando-se a favor dela e utilizando-a no interesse das empresas. Moldada sobre um século de apropriação liberal corporativa dos movimentos de reforma populares e regimes reguladores, visava apropriar-se da questão com o objectivo de moderar as suas implicações políticas, tornando-a assim compatível com os interesses económicos, geopolíticos e ideológicos empresariais. A campanha empresarial sobre o clima pôs assim a ênfase na primazia das soluções segundo as "leis do mercado" ao mesmo tempo que insistia na uniformidade e previsibilidade de regras e regulamentações obrigatórias. Simultaneamente elevava a questão do clima global a uma obsessão, a uma preocupação totalista para afastar as atenções das contestações radicais do movimento de justiça global. Na sequência desta campanha, todo e qualquer opositor dos "contraditores" foi identificado – e, o que é mais importante, identificou-se a si mesmo, voluntariamente ou não – com os cruzados empresariais do clima.

A primeira campanha, que foi dominante durante os anos 90, sofreu bastante com a denúncia e encontrava-se relativamente moribunda no início da era Bush, embora não tenha perdido a influência no interior da Casa Branca (e no gabinete do primeiro-ministro). A segunda, que contribuiu para a difusão de um movimento radical, conseguiu gerar a actual histeria sobre o aquecimento global, hoje canalizada de forma segura nas agendas pró-empresariais afastando quaisquer confrontações sérias com o poder empresarial. O êxito nos meios de comunicação despertou o eleitorado e obrigou mesmo os contraditores mais inflexíveis a cultivar hipocritamente uma imagem mais verde. Entretanto, e o que é mais importante, as duas campanhas opostas conseguiram em conjunto eliminar qualquer espaço em que fosse possível rejeitar as duas.

Nos finais dos anos 80, as empresas mais poderosas do mundo desencadearam a sua revolução "globalizante", invocando sem cessar os inevitáveis benefícios do comércio livre e, durante todo o processo, pondo de lado as questões ambientais e reduzindo o movimento ambientalista a acções de retaguarda. Apesar disso, o interesse pela alteração do clima continuou a aumentar. Em 1988, cientistas do clima e políticos instituíram o Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas (IPCC - Intergovernmental Panel on Climate Change) para se manterem actualizados sobre o assunto e publicar relatórios periódicos. Numa reunião em Toronto, trezentos cientistas e políticos de quarenta e oito países publicaram um pedido de acção para a redução das emissões de CO2. No ano seguinte, cinquenta empresas de petróleo, de gás, de carvão e de fabrico de automóveis e químicos em conjunto com as suas associações comerciais formaram a Coligação para a Mudança Global (GCC - Global Change Coalition), com o apoio do gigante das relações públicas Burson-Marsteller. O seu objectivo declarado era semear dúvidas sobre as afirmações dos cientistas e evitar esforços políticos para reduzir as emissões de gases com efeitos de estufa. O GCC deu milhões de dólares em contribuições políticas e em apoio a uma campanha de relações públicas que alertava para que as tentativas mal aplicadas para reduzir as emissões de gases com efeitos de estufa através das restrições à queima de combustíveis fósseis iriam sabotar a promessa da globalização e provocariam a ruína económica. Os esforços do GCC conseguiram pôr em suspenso a questão da alteração do clima.

Entretanto, na sequência de um levantamento indígena em Chiapas em Janeiro de 1994, marcado para o primeiro dia da implementação do Acordo de Comércio Livre Norte-Americano, o movimento anti-globalização irrompeu num protesto mundial contra o capitalismo de mercado e a depredação empresarial, incluindo a destruição do ambiente. Cinco anos depois o movimento aumentara em coesão, em número, em força e militância e uniu-se em torno dos chamados "dias globais de acção" em todo o mundo, em especial em acções directas nas cimeiras do G8 e nas reuniões do Banco Mundial, do Fundo Monetário Internacional e da nova Organização Mundial do Comércio, atingindo o seu auge ao boicotar as reuniões da OMC em Seattle em Novembro de 1999. O movimento, que era formado por uma série muito lata de diversas organizações de base unidas na oposição à "agenda empresarial" global, abalou a campanha de globalização da elite até à raiz. Foi neste contexto pesado que os signatários da Convenção Quadro sobre a Mudança do Clima das NU, formulada por representantes de 155 nações na Cimeira da Terra em 1992, no Rio de Janeiro, reuniu no final de 1997, em Quioto e estabeleceu o chamado Protocolo de Quioto com o objectivo de reduzir as emissões de gases com efeito de estufa por meio de metas e do mercado do carbono. O tratado de Quioto, ratificado com muito atraso apenas no final de 2004, foi o único acordo internacional sobre a mudança do clima e tornou-se de imediato o foco do debate político sobre aquecimento global.

A oposição empresarial estava precavida contra Quioto. No verão de 1997 o Senado americano aprovou unanimemente uma resolução exigindo que um tratado desse tipo teria que incluir a participação e a aceitação dos países em desenvolvimento, em especial das novas potências como a China, a Índia e o Brasil que no entanto tinham sido excluídas da primeira ronda do Protocolo de Quioto. Os opositores empresariais a Quioto no GCC, tendo como pano de fundo o movimento da justiça global em ascensão, condenaram o tratado como sendo uma conspiração "socialista" ou do "terceiro mundo" contra os países desenvolvidos do ocidente.

No entanto, a convergência do movimento de justiça global e Quioto obrigaram parte da elite a repensar e a reagrupar-se, o que criou uma divisão nas fileiras empresariais relativamente à questão da mudança do clima. As deserções do GCC começaram em 1997 e três anos depois incluíam actores tão importantes como a Dupont, a BP, a Shell, a Ford, a Daimler-Chrisley e a Texaco. Entre os últimos fiéis do GCC estavam a Exxon, a Mobil, a Chevron e a General Motors. (Em 2000, o GCC acabou por desaparecer mas foram criadas outras organizações empresariais de fachada com os mesmos ideais para levar a efeito a campanha "negativa", que continua).

Os que se afastaram do GCC cedo se aglutinaram em novas organizações. Uma das primeiras foi o Centro Pew sobre Mudança do Clima Global, fundado pela doação filantrópica da fortuna Sun Oil/Sunoco. A administração do novo Centro foi presidida por Theodore Roosevelt IV, bisneto do presidente da Era Progressista (e ícone dos conservadores) e director-geral do banco de investimentos Lehman Brothers. Com ele na administração estava o director da firma de investimentos Castle-Harlan e ex-presidente da Northeast Utilities, e também advogado empresarial veterano Frank E. Loy, que fora o principal negociador da administração Clinton no comércio e na alteração do clima.

Logo de início o Centro Pew instituiu o Conselho Directivo dos Assuntos Ambientais, presidido por Loy. Os primeiros membros do conselho incluíam a Sunoco, a Dupont, a Duke Energy, a BP, a Royal Dutch/Shell, a Ontario Power Generation, a DTE (Detroit Edison) e a Alcan. Distanciando-se do GCC, o conselho declarou que "aceitamos as opiniões da maior parte dos cientistas de que se sabe o suficiente sobre a ciência e os impactos ambientais da alteração do clima para que tomemos medidas para enfrentar as suas consequências"; "O mundo dos negócios pode e deve dar passos concretos hoje nos EUA e fora dele para avaliar as oportunidades relativas à redução de emissões… e investir em produtos, práticas e tecnologias novos e mais eficazes". O Conselho sublinhava que a alteração do clima devia ser tratada através de "mecanismos com base nas leis do mercado" e adoptando "políticas razoáveis", e exprimia a crença "de que as companhias que desenvolverem acções atempadas de estratégias e de política climatérica obterão vantagem competitiva sustentada sobre os seus pares".

No início de 2000, "líderes mundiais de negócios" reunidos no Fórum Económico Mundial em Davos, na Suiça, declararam que "a maior ameaça que o mundo enfrenta é a alteração do clima". Nesse Outono, muitos dos mesmos actores, incluindo a Dupont, a BP, a Shell, a Suncor, a Alcan, a Ontario Power Generation, e ainda o fabricante francês de alumínio Pechiney, uniram forças com o grupo de apoio americano Environmental Defense e formaram a Parceria para a Acção Climática (PAC). Os directores da Environmental Defense incluíam Frank Loy do Centro Pew e directores do Carlyle Group, dos Berkshire Partners e da Morgan Stanley e o presidente da Carbon Investments. Secundando a missão do Centro Pew, e pouco menos de um ano depois de a "Batalha de Seattle" ter feito encerrar os trabalhos da Organização do Comércio Mundial em oposição ao regime de globalização empresarial, a nova organização reafirmava a sua crença nos benefícios do capitalismo de mercado. "O objectivo principal da Parceria é defender mecanismos com base nas leis do mercado como meio para efectuar acções atempadas e credíveis para a redução das emissões de gases com efeito de estufa que sejam eficazes e económicas". Desde o seu anúncio inicial, esta mensagem foi repetida como uma ladainha: "benefícios dos mecanismos de mercado", "regras orientadas pelo mercado", "programas com base nas leis do mercado podem fornecer os meios para atingir as metas da protecção ambiental e, em simultâneo, as do desenvolvimento económico", "o poder dos mecanismos de mercado para contribuir para as soluções para a alteração do clima". Na Primavera de 2002, o primeiro relatório da Parceria afirmava orgulhosamente que as companhias da PAC estão na vanguarda da nova área da gestão dos gases com efeitos de estufa". "A PAC não só está a conseguir reduções reais nas emissões de aquecimento global", assinalava o relatório, "como está a fornecer um corpo de experiência prática, demonstrando como reduzir a poluição enquanto se continua a ter lucros".

Este potencial para obter lucros a partir da alteração do clima chamou a atenção ávida dos banqueiros de investimentos, alguns dos quais eram actores centrais da PAC através das suas ligações com os conselhos de administração do Centro Pew e da Environmental Defense. A Goldman Sachs tornou-se líder do grupo; dado possuir centrais de energia através da Cogentrix e de clientes como a BP e a Shell, a empresa de Wall Street estava mais que alertada para as oportunidades. Em 2004 a companhia começou a explorar as possibilidades de "criação de mercado" e no ano seguinte fundou o seu Centro para Mercados Ambientais, com o anúncio de que "a Goldman Sachs procurará agressivamente a criação do mercado e oportunidades de investimento nos mercados ambientais". A empresa indicava que o Centro se empenharia na investigação para desenvolver opções de política pública a fim de instituir mercados em torno da alteração climática, incluindo a concepção e promoção de soluções reguladoras para a redução das emissões de gases com efeitos de estufa. A empresa também anunciava que a Goldman Sachs "iria assumir o comando na identificação das oportunidades de investimento em energias renováveis"; nesse ano o banco de investimentos adquiriu a Horizon Wind Energy, investiu nos fotovoltaicos com a Sun Edison, tratou do financiamento para a Northeast Biofuels, e comprou acções na Iogen Corporation, que foi pioneira na conversão da palha, caules de milho e pastagens em etanol. A companhia também se dedicou "a actuar como criador de mercado no comércio de emissões" de CO2 (e S02), assim como em áreas como os "derivados do clima", "créditos de energias renováveis" e outros "produtos relacionados com o clima". "Estamos convencidos", proclamava a Goldman Sachs, "que a gestão de riscos e oportunidades que nasce da alteração do clima e da sua regulamentação virá a ser particularmente significativa e irá conquistar uma atenção cada vez maior dos participantes no mercado de capitais".

Entre esses participantes do mercado de capitais encontrava-se o ex-vice-presidente dos EUA, Al Gore. Gore tinha um interesse antigo nas questões ambientais e representou os EUA em Quioto. Também tinha ligações familiares antigas com a indústria da energia através da amizade do seu pai com Armand Hammer e dos seus interesses financeiros na companhia de Hammer, a Occidental Petroleum, que o filho herdou. Em 2004, quando a Goldman Sachs estava a avançar a todo o vapor nas suas iniciativas de criação do mercado de alteração do clima à procura de lucros verdes, Gore fez equipa com os executivos da Goldman Sachs, David Blood, Peter Harris e Mark Ferguson, para fundar a empresa de investimentos ambientais com sede em Londres, a Generation Investment Management (GIM), com Gore e Blood como timoneiros. Em Maio de 2005, Gore, em representação da GIM, discursou na Cimeira dos Investidores Institucionais sobre o Risco do Clima e sublinhou a necessidade de os investidores pensarem a longo prazo e de integrarem as questões ambientais nas suas análises de acções. "Estou convencido que a integração das questões relacionadas com a alteração do clima nas vossas análises sobre quais as acções em que vale a pena investir, a sua quantidade, e durante quanto tempo, é mesmo um bom negócio", explicou Gore aos Investidores reunidos. Aplaudindo a decisão de seguir nesta direcção anunciada no dia anterior pelo presidente da General Electric, Jeff Immelt, Gore declarou que "Estamos aqui reunidos num momento extraordinariamente esperançoso, quando os lideres no sector de negócios começam a fazer as suas movimentações". Nessa altura Gore já estava a trabalhar no seu livro sobre o aquecimento global, "Uma Verdade Inconveniente" e nessa mesma primavera começou os preparativos para fazer um filme sobre o mesmo assunto.

O livro e o filme do mesmo nome apareceram em 2006, com uma enorme promoção e um êxito imediato na indústria do entretenimento (o filme acabou por arrebatar um Prémio da Academia). Estes dois veículos alargaram muito o alcance dos criadores de mercados da alteração do clima, cujos esforços enalteciam explicitamente. "Há um número cada vez maior de executivos de negócios americanos que está a começar a levar-nos na direcção certa", exultava Gore, acrescentando que "está também em curso uma grande mudança na comunidade dos investimentos". O livro e o filme reflectem fielmente e engrandecem as mensagens centrais da campanha empresarial. Tal como os seus colegas do Centro Pew e da Parceria para Acção Climática, Gore sublinhou a importância de usar os mecanismos do mercado para enfrentar o desafio do aquecimento global. "Uma das chaves para resolver a crise do clima", escreveu, "envolve a procura de meios para utilizar a força poderosa do capitalismo de mercado como aliado". Gore repetiu o seu conselho aos investidores sobre a necessidade de estratégias de investimento a longo prazo e da integração de factores ambientais nos cálculos do negócio, salientando orgulhosamente que os líderes de negócios já tinham começado "a adoptar uma visão mais ampla de como o negócio pode manter os seus lucros ao longo do tempo". O único executivo empresarial citado no livro, ao longo de duas páginas, era o presidente da General Electric, Jeffrey Immelt, que explicava sucintamente a razão e a finalidade do objectivo prioritário do exercício: "Estamos no momento em que a melhoria ambiental vai tornar-se rentável".

No início de 2007 a campanha empresarial tinha aumentado significativamente a sua actividade, com a criação de diversas novas organizações. O Centro Pew e a Parceria para a Acção Climática criaram nessa altura uma entidade intermédia, a Parceria Americana para Acção pelo Clima (USCAP). Os membros da USCAP incluíam os actores chave das acções iniciais, como a BP, a Dupont, o Centro Pew e a Environmental Defense, e acrescentou outros, incluindo a GE, a Alcoa, a Caterpillar, a Duke Energy, a Pacific Gas and Electric, a Florida Power and Light, e a PNM, companhia central de serviços do Novo México e Texas. A PNM tinha-se juntado pouco tempo antes à Cascade Investments do sempre atento Gates da Microsoft para formar uma nova companhia de energia não regulamentada virada para as oportunidades de crescimento no Texas e no oeste dos EUA. O presidente da PNM Jeff Sterba era também presidente da Task Force para a Mudança do Clima do Edison Electric Institute. Também aderiram à USCAP o Conselho de Defesa dos Recursos Naturais, o Instituto de Recursos Mundiais, e o banco de investimentos Lehman Brothers cujo director-geral Theodore Roosevelt IV era presidente do conselho de administração do Centro Pew e em breve veio a ser também presidente do novo Centro Global para a Mudança do Clima, de Lehman. Tal como a Newsweekassinalou (12/Março/2007), "Wall Street está a passar por uma alteração climática", reconhecendo que "a forma de apanhar o verde é tornar-se verde".

Em Janeiro de 2007, a USCAP publicou "Um Apelo à Acção", uma "tentativa não partidária guiada pelos executivos de topo das organizações membros". O "Apelo" declarava a "necessidade urgente de um enquadramento político da alteração do clima", sublinhando que "é necessário um sistema impositivo que estabeleça exigências claras, previsíveis e com base nas leis do mercado para reduzir as emissões dos gases com efeito de estufa". A USCAP adiantava um "plano para a imposição de uma abordagem orientada pelo mercado e à escala económica para a protecção do clima", que recomendasse um programa de "cap and trade" [teto e comercialização] que aliasse a criação de metas a um mercado global de carbono para a comercialização de autorizações e créditos. Condenada desde logo pelos países em desenvolvimento como "colonialismo do carbono", o comércio do carbono tornou-se a nova ortodoxia. O plano também apelava para um "programa nacional para acelerar a tecnologia, a investigação, o desenvolvimento e o posicionamento estratégico e medidas para encorajar a participação dos países em desenvolvimento como a China, a Índia e o Brasil, insistindo em que "no final de contas a solução tem que ser global". Segundo o porta-voz da USCAP, Jeff Immelt, director geral da General Electric, "estas recomendações deveriam catalisar uma acção legislativa que encoraje a inovação e estimule o crescimento económico ao mesmo tempo que melhore a segurança energética e o equilíbrio do comércio". 

No mês seguinte apareceu outra organização empresarial climática, desta vez especificamente dedicada a pregar o novo evangelho do aquecimento global. Presidida por Al Gore do Generation Investment Management, a Aliança para Protecção do Clima incluía entre os seus membros o já familiar Theodore Roosevelt IV da Lehman Brothers e do Centro Pew, o ex-conselheiro da segurança nacional Brent Scowcroft, Owen Kramer da Boston Provident, representantes da Environmental Defense, o Conselho de Defesa dos Recursos Naturais e a Federação Nacional pelos Animais Selvagens, e três ex-administradores da Organização de Protecção Ambiental. Utilizando "técnicas de comunicação inovadoras e de longo alcance", explicou Gore, "a Aliança para Protecção do Clima está a efectuar um exercício de persuasão de massas sem precedentes" – a campanha multimédia contra o aquecimento global passou a saturar os nossos sentidos. Não respirem.

Se por um lado a campanha empresarial sobre a alteração do clima alimentou uma preocupação popular febril com o aquecimento global, também conseguiu muito mais. Tendo surgido no meio do movimento mundial de justiça global, conseguiu repor a confiança naquelas fés e forças que esse movimento tanto se esforçou por denunciar e contestar: empresas de âmbito global e de maximização de lucros e as suas imensas organizações e agendas; a autoridade inquestionável da ciência e o seu corolário na salvação através da tecnologia, e o benefício do mercado auto-regulador com a sua panaceia de prosperidade através do livre mercado e dos seus poderes mágicos, que transforma em bens comerciáveis tudo aquilo em que toca, até mesmo a própria vida. Todas as verdades evidentes reveladas por aquele movimento sobre as injustiças, os prejuízos e as desigualdades semeados e sustentados por estes poderes e crenças estão agora enterradas, postas de lado na corrida apocalíptica para a luta contra o aquecimento global. Explicitamente comparada a uma guerra, este desafio épico exige uma atenção superficial e um empenhamento total, sem distracções desse tipo. Não é altura, nem há necessidade, de questionar uma sociedade deformada ou de reexaminar os seus mitos subjacentes. As culpas e as responsabilidades foram de novo remetidas para o indivíduo, o responsável pelo pecado original, o pecador familiar que merece o castigo pelos seus pecados, pelos seus excessos, predisposto pela sua cultura piedosa e agora premiado pela sua disciplina e sacrifício. Na abertura da época de basebol de 2007, o dono do Toronto Blue Jays postou-se em frente do écran de vídeo gigante, uma extravagância electrónica, no meio de um círculo de logótipos empresariais e de anúncios, e exortou toda a multidão, de forma ridícula, a sair e a comprar uma lâmpada eléctrica de consumo económico. Foi muito aplaudido.

No seu livro campeão de vendas de 2005 'Weather Makers', Tim Flannery apelava aos seus leitores para lutar na "nossa guerra sobre a mudança do clima". Com uma mensagem para a edição canadiana escrita por Mike Russill, ex-presidente do gigante da energia Suncor e hoje chefe da World Wildlife do Canadá, o livro reflecte bem a campanha empresarial. Todos nós "temos que acreditar que a luta é para ganhar em termos sociais e económicos", insiste Russill, "e que não temos que mudar dramaticamente a nossa forma de viver". "A coisa mais importante a fazer", repete Flannery, "é que todos nós podemos fazer a diferença e ajudar a combater a alteração do clima praticamente sem custos para o nosso estilo de vida". "A transição para uma economia livre de carbono é absolutamente possível", exulta, "porque temos toda a tecnologia de que precisamos para tal". "Uma armadilha altamente poderosa na via para a estabilidade do clima", avisa porém, "é a propensão que alguns grupos têm para atravessar a sua carroça ideológica em frente do avanço da sustentabilidade". "Para enfrentar uma emergência grave", aconselha, "é preferível ser-se simples de espírito". O livro é inspirador, incitando o leitor a lutar contra esta ameaça global com ingenuidade, entusiasmo e esperança, com excepção de um pequeno pormenor, escondido no meio do texto, que atormenta o leitor atento. "Como a preocupação com a alteração do clima é tão recente, e a questão é tão multidisciplinar", assinala Flannery, "há poucos verdadeiros especialistas nesta área e ainda há menos que possam articular qual o significado deste problema para o grande público e o que é que devemos fazer quanto a isso".

A campanha empresarial tem feito mais do que criar apenas oportunidades de mercado para escritores de ciência popular da moda como Flannery. Criando uma contenda estritamente maniqueísta entre contraditores malvados e descuidados, por um lado, e defensores esclarecidos sobre o aquecimento global, por outro, também levou a uma credulidade incaracterística jornalistas de esquerda, habitualmente astutos politicamente. 'Heat', o apaixonado manifesto de George Monbiot de 2006 sobre este assunto, é embaraçoso pela sua perspectiva afunilada e pela sua deferência ingénua para com a autoridade da ciência. "Impedir a alteração do clima", afirma, "tem que ser um projecto prioritário. Se falharmos nesta missão, falharemos em tudo o mais". "É preciso um corte dada a importância das exigências da ciência", declara; temos que adoptar "a posição determinada pela ciência e não a posição determinada pelos políticos", como se existisse alguma ciência que não seja também política.

Monbiot não poupa os golpes contra a "indústria da negação", excomungando os partidários empresariais negativos pela sua "idiotice" e sugerindo sarcasticamente que dentro em breve "a negação da alteração do clima será uma coisa tão estúpida como a negação do Holocausto, ou a teimosia de que a SIDA pode ser curada com raiz de beterraba". Mas não tem uma palavra de reconhecimento e muito menos de crítica para os partidários do outro lado cuja mensagem ele espalha talvez inconscientemente com tanta paixão. E também aqui, curiosamente, um pequeno parágrafo escondido no meio do texto, aparentemente desligado do resto, perturba o leitor entusiasmado. "Nada disto pretende sugerir", assinala Monbiot de passagem, "que a ciência não deva estar sujeita ao cepticismo e à crítica constante, ou que os ambientalistas não devam ser tidos em consideração…"

Os propagandistas da alteração do clima não têm mais direito a estar errados do que os outros todos. "Se enganarmos o público", concede, "corremos o risco de sermos desmascarados", acrescentando que "também precisamos de saber que não estamos a perder o nosso tempo: não vale a pena dedicar a nossa vida a lutar contra um problema que não existe". Talvez aqui estejam alguns restos de verdade infiltrados por entre as linhas compostas, apontando para a abertura de outro espaço e de outro momento.

Sobre o autor

David F. Noble é historiador, professor na York University em Toronto, Canadá. É autor de Digital Diploma Mills: The Automation of Higher Education (2001) e Beyond the Promise Land: The Movement and the Myth (2005).

7 de maio de 2007

O conciliador: De onde vem Barack Obama?

Larissa MacFarquhar


Tradução / Em Carmi, Illinois, cidade de 5 500 habitantes à beira do rio Little Wabash, perto da ponta sul do estado, a uns 40 quilômetros do Kentucky, um grupo de doze agricultores – brancos corpulentos, com o rosto enrugado e cabelos muito curtos – está sentado em torno de um retângulo formado por mesas reunidas numa sala sem nada de notável. Conversam com o senador Barack Obama. Recostado para trás na cadeira, o senador apoiou o joelho na beira de uma das mesas. Usava gravata, mas havia tirado o paletó e arregaçado as mangas da camisa. Um agricultor tinha uma pergunta sobre o etanol.

“A dúvida me ocorreu durante o último discurso presidencial do Estado da União”, explicou o agricultor. “O presidente Bush disse que era totalmente favorável aos biocombustíveis, e depois começou a falar sobre o switchgrass [capim alto típico das pradarias americanas]. E pensei: o etanol de celulose, que é obtido a partir desse capim, pode ser mais eficiente em termos de energia do que o obtido a partir do milho. Mas ninguém sabe direito como produzir o switchgrass, ou se os fazendeiros pensam em plantá-lo em grande escala. Então por que dar tanta ênfase ao etanol de celulose?”

“Bem, eu não sou cientista”, respondeu Obama, num tom muito calmo, “por isso preciso tomar cuidado antes de entrar nesses assuntos que não conheço a fundo. Mas a produção do etanol de celulose tem o potencial de ser oito vezes mais eficiente em matéria de consumo de energia do que o etanol obtido a partir do milho, devido à eliminação do estágio intermediário da conversão do milho em açúcar. Foi o que entendi. Eu sei que vocês são muito apegados ao milho, mas se alguém chegasse a vocês e dissesse que iam ganhar o mesmo dinheiro, ou até mais, plantando switchgrass nos seus campos...”

“Duvido muito”, interrompeu o agricultor. “Um sujeito me procurou antes da colheita do trigo e perguntou se eu queria lhe vender a minha palha, e eu disse que não.”

“Interessante”, disse Obama. “Por que o senhor não quis vender a sua palha?”

“É matéria orgânica!”, respondeu o agricultor, em tom triunfante.

“Ora, mas se é vantajoso, se for um bom negócio, o senhor devia se interessar. O senhor conhece bem melhor do que eu a economia disso tudo. É por isso que precisamos nos reunir com os agricultores e descobrir o que faz mais sentido. Porque eu não planto nada, e o que o senhor acabou de me descrever, que prefere deixar de vender a palha porque ela é importante, bem...”

“Na revista FarmWeek, um editorial dizia que estavam falando de uma coisa que ia contra tudo que nós defendemos nos últimos vinte ou trinta anos, que é devolver a matéria orgânica ao solo”, explica o agricultor. “Só que, de repente, começam a falar em deixar a terra nua...”

“O que é errado”, retomou Obama. “Achamos que ninguém pode impor aos plantadores idéias que não vão funcionar. Mas precisamos produzir um etanol mais eficiente, se quisermos ver um crescimento significativo do mercado. A questão é que o etanol brasileiro é bem mais barato que o americano. George Bush queria deixar o álcool do Brasil entrar no país, e eu e Durbin” – Richard Durbin, o senador mais antigo do estado de Illinois – “dissemos que não, que éramos a favor de manter as tarifas existentes para podermos desenvolver um mercado para o etanol americano. E quero ter certeza de que as nossas decisões vão levar em conta que temos alguns dos solos mais ricos do planeta, além dos melhores agricultores. Mas o outro lado da moeda é que os plantadores precisam participar da discussão, em vez de só levantarem a mão para votar, dizendo que não estão interessados porque já se acostumaram a plantar só milho e feijão.”

Existem três coisas que os políticos democratas tendem a fazer toda vez que entram em contato direto com os eleitores que representam: demonstrar um conhecimento impressionante de cada pormenor dos seus problemas, especialmente os que envolvem dinheiro; despertar a indignação, apontando que esses problemas são provocados pelos grupos poderosos que só pensam em enriquecer à custa das pessoas comuns; e apresentar propostas políticas formuladas com o maior cuidado, pois, caso fossem aprovadas, poderiam solucionar esses problemas e pôr os grupos poderosos no seu devido lugar.

Obama raramente faz qualquer dessas três coisas. Sua tendência é demonstrar um conhecimento apenas modesto dos assuntos, parecendo menos informado do que na verdade é. Raramente faz acusações, preferindo falar sobre os problemas na voz passiva, como coisas que estão erradas conosco, e não coisas erradas que fizeram conosco. E as soluções que propõe geralmente parecem modestas e locais, não de alcance profundo e nem sistêmicas.

Obama já presidiu a várias conferências sobre saúde. Nelas, sempre se mostra calmo e relaxado, como que decidido a poupar energia. Caminha devagar de um lado para o outro, dá meia-volta, balança a cabeça. Faz sempre seus comentários num tom neutro e desapaixonado. Não manifesta piedade para com a doença, desprezo pela burocracia e nem indignação com a injustiça. Diz que o sistema está avariado e precisa de conserto, mas não procura transmitir nenhuma urgência especial.



Esse seu comportamento é muitas vezes definido como professoral, e o próprio Obama costuma comparar essas conferências às aulas de direito constitucional que dava na Universidade de Chicago. Mas “professoral” implica algo cerebral ou didático, o que não é o caso. A despeito de todas as críticas que já recebeu, Obama permanece fiel ao que parece ser um instinto que lhe diz que o lugar de estudos é em sites da internet, e não nos seus discursos. É surpreendente, tendo em vista os resultados eleitorais recentes, que não lhe dêem mais crédito pela astúcia dessa postura. Mas a verdade é que não se trata de uma simples estratégia – Obama é assim mesmo.

“Ele não tem a desvantagem de muitas pessoas inteligentes, que sempre dão a impressão de menosprezar as pessoas com quem conversam”, diz George Haywood, investidor particular e amigo de Obama. “Adlai Stevenson, que também era de Illinois, tinha isso – sempre passava a imagem de um sabe-tudo e desagradava às pessoas. Barack é exatamente o contrário.” Uma das razões mais prováveis é que Obama parece não dar muito valor à inteligência em si mesma. Até na faculdade de direito, o lugar onde a inteligência pura e simples é bastante valorizada, mais talvez que em qualquer outro lugar, e o apreço pela argumentação é fundamental, ele nunca se entusiasmou pelos duelos acadêmicos.

O jeito desapaixonado de Obama, a calma que ele sempre apresenta em ambientes pequenos, é menos professoral do que doutoral – ele lembra um médico que, ao escutar a história do paciente sem manifestar nenhuma reação emocional, deixa-o mais tranqüilo, porque dá a entender que conhece bem aqueles sintomas. Ele é doutoral também num outro sentido: Obama vê o corpo político como um organismo vivo, diante do qual a reação indignada não faz sentido – como não faria sentido para um médico mostrar indignação diante do rim de um paciente que lhe provoque dor nas costas.

E também existe, é claro, o aspecto racial da situação: “Se você é negro e homem, não precisa se esforçar para convencer as pessoas da sua agressividade”, diz Haywood. “Houve uma época em que os negros que entravam para a política partidária achavam melhor deixar os cabelos brancos. David Dinkins foi um exemplo. Ou o prefeito Bradley, em Los Angeles. Para obter o apoio do eleitorado branco mais amplo, era melhor transmitir uma imagem de segurança, e não uma sensação de revolta. Não creio que Barack tenha tomado a decisão consciente de se apresentar assim, mas foi uma coincidência feliz. A política partidária não está pronta para um negro que solte fogo pela boca.”

De forma consciente ou não, o provável é que Obama tenha aprendido com esses exemplos e descoberto que a sua eventual eleição à presidência não representaria uma revolução nas relações inter-raciais, assim como a ascensão de primeiras-ministras mulheres não foi exatamente um sinal do florescimento feminista no sul da Ásia. O preconceito sempre abre as suas exceções.

A calma de Obama também é uma questão de temperamento. O primeiro comentário de quem o conhece é sobre a forma como passa a impressão de estar bem na sua pele. “Ele era quase anormalmente contido e equilibrado”, diz Christopher Edley Jr., um dos professores de Obama na faculdade de direito de Harvard, hoje diretor em Berkeley. E, de fato, existe algo quase assustador no autocontrole de Obama – um traço que é evidente e chama a atenção, como a imobilidade fora do normal de alguém capaz de baixar a própria pressão sangüínea só usando a vontade. Obama não se esforça para ser visto como qualquer um: mostra-se relaxado, mas nunca muito íntimo, e mais elegante do que familiar. Na superfície, ele exibe movimentos tão fluidos, uma voz tão constante e bem dosada que quase parece um ator no papel de um político, demonstrando uma falta de esforço que, se verdadeira, é implausível. Obama tornou-se conhecido por suas camisas de colarinho aberto – pode vir a dar à gravata o destino que John Kennedy deu ao chapéu – , mas nunca parece descomposto. “Tanto Gore quanto Bush têm essa característica meio galhofeira, coisa que nunca vi em Obama”, diz Robert Putnam, um cientista político de Harvard que conheceu os três políticos. “Não que ele seja um sujeito sempre sério. Mas Bush costuma fazer palhaçadas e Gore sabe fazer palhaçadas. Obama nunca faz uma palhaçada.”



Omais estranho é que o homem sereno descrito pelos amigos não podia ser mais diferente da descrição que ele faz de si mesmo nas suas memórias, Sonhos do Meu Pai. No livro, o jovem Obama aparece confuso e revoltado, com dificuldades para descobrir quem ele é, muitas vezes drogado, hostil tanto à condescendência branca quanto à rebeldia negra, nunca confiando em si mesmo, sempre suspeitando de que as suas convicções não sejam mais que um disfarce para o seu egoísmo e as suas emoções, meros sintomas da sua constituição racial peculiar. É bem verdade que no livro ele conta como emergiu desse estado de espírito – é uma narrativa tradicional de encontro de si próprio que termina, como é da tradição, com um casamento em que todas as suas confusões são sanadas. Mas o contraste entre o Obama do livro e o Obama que aparece para o mundo ainda assim é extremo, a ponto de chamar a atenção. “Ele era centrado, confortável em sua pele, sabia quem era, de onde tinha vindo, por que razão acreditava nas coisas”, diz Kenneth Mack, amigo de Obama em Harvard e hoje professor na mesma universidade. “Quando li o livro, fiquei surpreso – a confusão e a revolta que ele descreve podiam existir debaixo da superfície, mas nunca se manifestavam.”

Quando lhe perguntam a respeito, Obama diz que “o que me intriga é o motivo por que as pessoas ficam intrigadas. O personagem revoltado existiu dos meus 15 até mais ou menos os meus 21 anos. A explicação é que eu era um adolescente dotado de uma carga considerável de hormônios, depois de uma infância sabidamente complicada. Mas esse não era o meu temperamento natural. E o livro não descreve todos os aspectos da minha vida. Eu podia ter escrito um livro muito diferente, falando das alegrias do basquete e de como é bom pegar jacaré numa bela praia, enquanto o sol se põe”.

Então, por que ele não escreveu sobre as alegrias do basquete? Por que se concentrou num aspecto seu politicamente tão pouco aceitável? Quando Obama freqüentou a faculdade de direito, pouco antes de escrever Sonhos do Meu Pai, falava da sua vontade de tornar-se prefeito de Chicago. Uma vez que as pessoas, por algum motivo, tendem a tolerar prefeitos (na verdade, encantar-se) com um comportamento consideravelmente mais excêntrico e dúbio que o de outras autoridades eleitas, ele pode ter escrito o livro tendo essa ambição em mente. É provável que tenha percebido que revelar o seu uso de drogas no passado era a melhor maneira de neutralizar um questionamento futuro. Mas como Obama é um excelente contador de histórias, é provável que conhecesse a narrativa típica do candidato a cargos políticos – bons resultados escolares, seguidos do sucesso numa profissão. Entregar-se prazerosamente às realizações da vida (a vitória, a vingança, uma bela casa, o basquete, seja o que for), no entanto, não serve para comover ou inspirar ninguém.

Quando trabalhava como organizador comunitário em Chicago, Obama conversou com muitos pastores negros para convencê-los a se aliarem à sua organização. Com as conversas, descobriu que a maioria deles tinha uma coisa em comum. “Um pastor contou que tinha sido viciado em jogo”, escreve ele. “Outro me falou dos seus anos como executivo bem-sucedido mas secretamente um alcoólatra. Todos se referiram a períodos de dúvida religiosa… a terem chegado ao fundo do poço, e sobre o orgulho ferido. Finalmente, falaram da ressurreição pessoal, com uma identidade agora ligada a algo maior. Era essa a fonte da sua confiança, insistiam eles: a queda que tinham sofrido e a redenção subseqüente. Era o que lhes dava a autoridade para pregar a boa-nova.” Cassandra Butts, amiga de Obama no tempo da faculdade de direito, rememora: “Barack costumava dizer que uma das suas frases prediletas do movimento pelos direitos civis era: ‘Se você não aguenta o peso da cruz, não vai aguentar a coroa'”.


Obama despontou para a proeminência na Convenção do Partido Democrata de 2004, quando descreveu a sua vida como uma celebração do Sonho Americano: um “garoto magricela com um nome estranho”, produto de uma improvável união idealista entre um africano e uma garota do Kansas, emerge da obscuridade para ingressar na Faculdade de Direito de Harvard e mais adiante – o que àquela altura já ficara claro – torna-se o terceiro senador negro dos Estados Unidos desde os anos que se seguiram à Guerra Civil. Mas, num outro sentido, a vida dele mostra um trajeto oposto ao do Sonho Americano, pois recusa os sonhos dos pais e avós e sai à procura de algo ainda mais ancestral.

O avô materno de Obama, Stanley Dunham, cresceu como um pequeno delinqüente em El Dorado, Kansas. Não sabia o que fazer na vida, mas tinha certeza de que queria ir embora do Kansas – deixar a casa dos seus pais e o provincianismo sufocante das cidades pequenas do Meio-Oeste, onde “o medo e a falta de imaginação asfixiavam os sonhos de todos”, como presumiu o seu neto. Depois de alguns primeiros passos em falso, e de uma fuga amorosa com uma garota irrequieta, o avô tinha feito o que homens do seu tipo sempre acabavam fazendo: seguira para o Oeste. Foi para a Califórnia, depois para Seattle e, por fim, para a última fronteira, o ponto mais a oeste ao qual podia chegar sem retornar ao leste: o Havaí.

Distante 13 mil quilômetros a leste dali, no Quênia, o outro avô de Obama, Hussein Onyango, também tomou o mesmo rumo, e por motivos semelhantes. Descontente e ambicioso, deixou a aldeia onde o pai vivia, curioso acerca dos brancos recém-instalados numa pequena cidade próxima. Lá, passou a se vestir à moda européia e adotou noções européias de higiene e bons modos com o fervor de um recém-convertido. Durante a II Guerra Mundial, viajou para a Europa como cozinheiro do Exército britânico.

Os rebentos desses dois homens, os pais de Obama, distantes uma geração do lugar onde nasceram, foram mais livres ainda que os progenitores. A mãe de Obama, Ann, casou-se primeiro com um queniano e depois, quando ele foi embora, com um indonésio. Após o malogro do segundo casamento, voltou por algum tempo para o Havaí, decidida a cursar um mestrado de antropologia, e em seguida tornou a partir para a Indonésia, onde passaria vários anos dedicada às pesquisas de campo. Deu ao seu filho de 13 anos a opção de ir com ela ou ficar na escola que cursava no Havaí. O menino decidiu ficar.

O pai de Obama foi expulso da escola e teve os recursos cortados pelo genitor, mas logo em seguida conseguiu uma bolsa para freqüentar um college nos Estados Unidos. Abandonou a mulher grávida e o filho para estudar econometria na Universidade do Havaí. Lá conheceu Ann Dunham, casou-se com ela e teve mais um filho, Barack. Depois deixou a segunda família para voltar ao Quênia, onde foi trabalhar para o governo. Casou-se lá com outra americana, com quem teve mais dois filhos. Passados alguns anos, essa terceira família se desintegrou e, como ele não se dispunha a aceitar as injustiças ditadas pelo tribalismo persistente no Quênia, também perdeu o cargo no governo. Revoltado e sem tostão, entregou-se à bebida.

“O que mais me impressiona, quando penso na história da minha família”, diz Obama no seu livro, “é um recorrente traço de inocência, uma inocência que parece inimaginável, mesmo pelos critérios de uma criança.” Essa inocência, para ele, não é uma qualidade positiva, nem mesmo uma desculpa redentora: não é o contrário da culpa, mas o oposto da sensatez. Na descrição que Obama faz do seu avô materno, por exemplo, percebemos amor e também desprezo. “Ele tinha um caráter americano, típico dos homens da sua geração, homens que abraçavam a idéia da liberdade e o individualismo, e saíam pelas estradas sem saber exatamente o preço que pagariam”, escreve. “Homens que eram tão promissores quanto perigosos, justamente devido à sua inocência fundamental, homens que tendiam, no fim das contas, a sofrer decepções.” A filha testemunhou essa insatisfação, mas aprendeu a lição errada: o problema não tinha sido o pai ter ido embora sem um objetivo claro, vagando só por vagar, esperando que um outro lugar lhe trouxesse uma vida nova: o problema é que não fora longe o bastante. E ela decidiu ir além. “Foi o desejo de apagar o passado, aquela confiança de que poderia criar um mundo novo a partir do zero”, escreve Obama, “que acabaria sendo o legado mais duradouro do avô.”

A mãe de Obama, da maneira como ele a retrata, é uma inocente americana saída diretamente das páginas de Henry James: uma jovem que decide se arriscar no mundo acreditando que as coisas são exatamente como parecem, que a história de cada pessoa começa quando ela nasce, e as suas relações com os outros só principiam a partir do momento em que ela os conhece; que é possível sair de casa sem medo de machucar-se ou sofrer de solidão, porque as pessoas são mais ou menos as mesmas em qualquer lugar. Não tinha a menor idéia de onde estava se metendo quando deixou o Havaí. Poucos meses antes da sua chegada, a Indonésia sofrera um golpe de Estado fracassado, mas brutal, em que morreram centenas de milhares de pessoas. Alguém acabou lhe contando o que acontecera, mas a notícia não a afetou. “Num país onde o fatalismo era um instrumento necessário para suportar as provações”, escreve Obama, “ela era a única a crer no humanismo laico, a defensora isolada do New Deal, do Peace Corps, do liberalismo persistente adquirido na academia.” Ela tinha uma fé, herdada do pai e impermeável à experiência, segundo a qual “as pessoas racionais e capazes de refletir sempre conseguem moldar o seu destino”. E se considerava afortunada por ter emergido da experiência só com um segundo divórcio e duas crianças um tanto perplexas. “As coisas podiam ter acabado pior”, escreve seu filho. “Muito pior.”

Inocência, liberdade, individualismo, mobilidade – a convicção de que a pessoa pode deixar para trás uma história violenta ou sufocante, e iniciar uma nova vida, livremente escolhida -, tudo isso faz parte do sonho americano de avanço para o oeste, primeiro da Europa para a América, depois das cidades abarrotadas da Costa Leste para as Grandes Planícies centrais, e delas para o Pacífico. Mas esse sonho, para Obama, parece superficial. Quando o jovem Barack foi ao Quênia pela primeira vez, e soube o que tinha acontecido com a vida do seu pai – como ele tinha destruído a sua carreira imaginando que velhas fidelidades tribais fossem simples estreiteza mental, que podia se colocar acima do passado e modificar a sociedade pela simples força das suas convicções -, uma tia lhe contou que o seu pai nunca entendera que, como ela dizia, “se todo mundo faz parte da família, ninguém faz parte da família”. Obama achou essas palavras notáveis, tanto que as citou textualmente mais tarde, em itálico, no livro. O universalismo é uma ilusão. A liberdade, no final das contas, não passa de uma forma de abandono. Você pode começar largando a religião, depois os pais, a sua cidade, o seu povo e o seu modo de vida. Mais tarde quando você acaba largando a mulher ou o marido e os filhos, isso vem a lhe parecer o resultado de uma progressão natural.

Assim, quando chegou a vez de Obama sair de casa, ele fez o contrário dos seus avós, da sua mãe e do seu pai: deu meia-volta e tomou o rumo leste. Primeiro de volta ao continente, cursando um college na Califórnia por dois anos, e depois mais para o leste ainda, seguindo até Nova York. Acabou em Chicago, de volta ao Meio-Oeste de onde os pais da sua mãe partiram, adotando tudo o que eles tinham deixado para trás – as amarras da tradição, o peso da história, a pequenez provinciana da comunidade, a vida inteira passada num único lugar com o mesmo grupo de pessoas. Lembrou-se da grande migração negra que viera do sul para Chicago um século antes, e das tradições que os migrantes criaram na cidade. “Fui fazendo uma ligação entre a minha vida e os rostos que eu via, tomando de empréstimo as memórias alheias”, escreveu. Ele queria sentir-se preso a um destino.

É claro que, num certo sentido, ao decidir deixar a família e mudar-se para um lugar com o qual não tinha nenhuma ligação, estava fazendo exatamente a mesma coisa que os seus pais. Mas, ao contrário deles, decidiu acreditar que as suas escolhas haviam sido moldadas pelo destino e pela família. “Percebo que as minhas escolhas nunca foram na verdade só minhas”, escreveu ele, “e era assim mesmo que deviam ser, pois afirmar o contrário é perseguir um tipo lamentável de liberdade.” Escolher entre as opções tradicionais era o que estava ao seu alcance. Com o tempo, as raízes cresceriam. Casou-se com Michelle Robinson, que já era a pessoa na qual ele queria se transformar: tinha memórias e raízes, pois nascera em uma família intacta e religiosa do sul de Chicago. Barack foi trabalhar numa organização próxima a sua vizinhança, e que vinha sofrendo um processo de desintegração. Por meio do trabalho e da inspiração, ele esperava trazer a comunidade de volta à vida. Mais adiante, rejeitando o agnosticismo dos seus pais e o ceticismo dos seus próprios instintos, tornou-se cristão e entrou para uma igreja. “Acabei compreendendo”, escreveu ele em seu segundo livro, A Audácia da Esperança, que “sem um compromisso inequívoco com um determinado grupo religioso, de certa forma eu estaria sempre destinado a manter-me à parte, livre como a minha mãe era livre, mas também isolado como ela, que, em última instância, vivia isolada.”

Quando entrou na faculdade de direito, aos 27 anos, Barack se transformara no homem que havia imaginado. Toda a sua vida, fora considerado negro porque tinha a aparência de negro. Se antes algo estivera confuso em seu íntimo, agora estava superado. Sua conversão estava completa. “Se você o conhecesse, nunca perceberia que tinha uma origem birracial”, diz Kenneth Mack. “Nunca perceberia que foi criado no Havaí. Quando eu o conheci, ele parecia só mais um negro de Chicago. Mais um negro do Meio-Oeste americano.”


O triunfo da liberdade sobre a história não é apenas, evidentemente, uma narrativa americana sobre indivíduos, mas uma narrativa que a América elabora a respeito de si mesma. Quando foi proposto que os Estados Unidos invadissem o Iraque, para ali estabelecer uma democracia, Obama sabia que isso seria um erro terrível. Era a inocência americana na sua forma mais destrutiva, a liberdade em sua forma mais enganosa, o universalismo na sua forma mais ingênua. “Havia uma inocência extremamente perigosa na idéia de que seríamos saudados como libertadores, ou de que um pouco de assistência econômica e treinamento democrático bastaria para vermos uma democracia jeffersoniana florescer no deserto”, diz ele atualmente. “Existe na história americana uma corrente ativa de idealismo que é capaz de se manifestar de maneira poderosa e apropriada – como ocorreu depois da II Guerra Mundial com a criação das Nações Unidas e o Plano Marshall, no momento em que reconhecemos que a nossa segurança e prosperidade dependiam da segurança e da prosperidade alheias. Mas o mesmo idealismo também pode se manifestar como a crença de que somos capazes de recriar o mundo da maneira que quisermos, com o simples acionamento de um interruptor, devido à nossa superioridade tecnológica, econômica ou moral. E quando o nosso idealismo desemboca nesse tipo de ingenuidade e se recusa a levar em conta a história e o peso das outras culturas, acabamos nos vendo às voltas com sérios problemas, como aconteceu no Vietnã.”

Na sua visão da história, no seu respeito pela tradição, no seu ceticismo em relação à possibilidade de mudanças do mundo que ocorram
de qualquer maneira que não seja muito, muito lenta, Obama é profundamente conservador. Há momentos em que chega a soar como um novo Burke [Edmund Burke, político britânico de origem irlandesa (1729-97), considerado um dos fundadores do pensamento conservador moderno]. Desconfia de abstrações, generalizações, extrapolações e projeções. Não só por achar que revoluções são improváveis, mas por dar mais valor à continuidade e à estabilidade, pelo que elas representam em si mesmas, do que a uma mudança para melhor. Com relação à saúde pública, por exemplo, “se estivéssemos começando do zero”, diz ele, “o sistema de um único pagante” – um sistema gerido pelo governo, como o do Canadá, tornando a assistência à saúde independente do emprego – “provavelmente faria sentido. Mas já temos em funcionamento todos esses sistemas que herdamos, e administrar a transição, além de ajustar a nossa cultura a um novo sistema, seria muito difícil. Por isso, precisamos de um sistema que não seja diferente a ponto de levar as pessoas a sentir que abandonamos repentinamente o que elas conhecem desde que nasceram.”



O histórico de votação de Obama é um dos mais liberais do Senado, mas ele é sempre bem-visto pelos republicanos, talvez por falar de metas liberais usando uma linguagem conservadora. Quando se pronuncia sobre a pobreza, não costuma denunciar os plutocratas gananciosos e as reduções injustas de impostos: diz que somos responsáveis por nossos irmãos, e que cuidar dos pobres é uma das tradições americanas. Quando lhe perguntam se mudou de idéia sobre alguma coisa nos últimos vinte anos, ele responde: “Acho que me tornei mais humilde na minha avaliação da velocidade com que programas governamentais podem solucionar nossos problemas. Acho, por exemplo, que a influência dos pais e das comunidades é tão importante quanto a quantidade de dinheiro investida na educação”.

Obama costuma estimular esse apelo a diferentes facções. Muitas vezes evita criticar diretamente o governo Bush. Recentemente, em New Hampshire, declarou à sua platéia: “Sou um democrata. Sou considerado um democrata progressista. Mas se um republicano, um conservador, um libertário ou um defensor do livre mercado tiver uma idéia melhor que a minha, terei o maior prazer em adotar as idéias de qualquer um, e nesse sentido sou um agnóstico”.

Seu ex-colega de faculdade que trabalhou no governo Clinton, Michael Froman, assim conta: “Um número impressionante de conservadores ligou para mim dizendo: ‘Ele é o democrata que eu poderia apoiar, não porque concorde comigo – porque não concorda – , mas porque levará em conta pelo menos o meu ponto de vista'”. Froman atualmente participa da campanha de Obama.

Depois do discurso de Obama na Convenção, muitos blogueiros republicanos apressaram-se em apoiá-lo, com títulos como “O Discurso Certo na Convenção Errada” ou “Barack Obama: Uma Alma Republicana Presa num Corpo de Democrata”. O discurso foi atipicamente reaganesco, apresentando uma visão quase uniformemente otimista dos Estados Unidos, que ele chamou de “uma terra mágica”. Hoje ele tende a ser um pouco mais sombrio. Ainda assim, os republicanos continuam a achá-lo mais aceitável, especialmente os que se opõem à guerra por motivos conservadores semelhantes aos dele. Alguns dos maiores financiadores de Bush estão contribuindo para a sua campanha. Na eleição para o Senado, Obama conquistou 40% dos votos republicanos. E existe um grupo chamado Republicanos a Favor de Obama, fundado por John Martin, estudante de direito e reservista da Marinha. É claro que nem todos os republicanos gostam de Obama – John Martin costuma receber um fluxo regular de e-mails irritados. “Olá John, só queria lhe dizer que não existem republicanos a favor de Obama Hussein Barack”, escreveu uma leitora, concluindo: “Favor me retirar da sua lista de correspondência e cuidar de superar a sua culpa de americano branco”.

Na passagem mais citada do discurso da Convenção de 2004, Obama disse: “Os sábios gostam de dividir o nosso país em estados vermelhos e estados azuis; os estados vermelhos para os republicanos, os azuis para os democratas. Mas tenho uma notícia para eles também. Cultuamos um Deus formidável nos estados azuis, e não gostamos de agentes federais enfiando o nariz nas nossas bibliotecas nos estados vermelhos”. Observadores da cena de Washington tendem a não dar importância a esses apelos em favor da unidade nacional e de cooperação entre os partidos, afirmando tratar-se de um mero clichê político. E mesmo os mais ardorosos defensores de Obama acham que essa insistência pode acabar soando inconvincente. “Todas essas afirmações politicamente corretas não são exatamente exemplos de uma retórica à moda de Churchill”, diz um amigo.


Obama está sempre decepcionando quem acha que ele dedica respeito excessivo, ou concede terreno demais ao outro lado, em vez de lutar de forma agressiva em defesa dos seus princípios. “Na faculdade, participamos juntos de um seminário e Charles Fried, que é muito conservador, era um dos nossos oradores”, conta Cassandra Butts. “Surgiu a questão da Segunda Emenda [que estabelece o direito dos cidadãos a ter armas], e Fried mostrou sua visão absolutista da matéria. Um dos nossos colegas era a favor do controle das armas – vinha de um meio urbano onde a questão da posse de armas era importante. E, embora Barack concordasse com o nosso colega, preferiu dar ouvidos a Fried – impressionava-se com o fato de Fried ter crescido no bloco soviético, onde essas liberdades não existiam. A aula havia terminado e o nosso colega continuava a discutir com Fried, mas Barack se mostrava tão pouco passional quanto antes, o que eu não entendia.” Recentemente, Obama declarou que, se Bush decidisse vetar uma lei de controle dos gastos militares com uma cláusula de retirada americana do Iraque, ele, Obama, daria apoio à anulação da cláusula, a fim de garantir a aprovação da lei. Os blogueiros liberais ficaram furiosos com essa capitulação, mas a escritora Samantha Power, que trabalha para Obama no campo da política externa, disse que “ficar num lado da sala de braços cruzados simplesmente não é o modus operandi dele”.

Novamente, isso é em parte uma questão de temperamento. “Por natureza, não sou o tipo de pessoa que se exalta muito com as coisas”, escreve Obama no seu segundo livro. Prefere considerar que seus adversários estão enganados ou sendo ridículos, em vez de encará-los como demônios. “Nunca fui adepto da teoria da conspiração”, diz ele. “Jamais acreditei que existissem pessoas que controlavam tudo, puxando cordões e apertando os botões. E o motivo é que, quanto mais velho fico, mais tempo passo conversando com gente do governo ou da elite empresarial, e mais humanos todos se tornam. O que eu acredito é que as pessoas que têm dinheiro, influência ou que controlam a maneira como os recursos são alocados na nossa sociedade tendem a proteger seus interesses, e são capazes de racionalizar ao infinito os motivos pelos quais devem ter mais dinheiro e poder que qualquer outro, e os motivos pelos quais essa distribuição é boa, de certa forma, para a sociedade como um todo.”

A tendência de Obama à conciliação vai além dos limites do expediente político – é instintiva, quase uma reação involuntária. “Barack tem uma capacidade incrível de operar a síntese entre realidades aparentemente contraditórias e torná-las compatíveis”, diz Cassandra Butts. “E isso se deve ao fato de vir de uma casa onde foi criado por brancos para depois cair no mundo e ser visto como um negro. Ele precisava decidir se aceitava essa contradição e se limitava a ser só uma das duas coisas, ou se preferia encontrar um modo de perceber que as partes formam um todo.” “Acho que os Estados Unidos passam por uma situação em que todos estão muito mais de acordo do que acreditam. E isso é uma coisa que eu sei a partir de dados de pesquisas – sentimo-nos divididos em termos de raça, de religião, de classe, de quase tudo, mas exageramos as nossas discordâncias. E é por isso que eu acho Obama a pessoa certa para o momento atual”, conclui Robert Putnam.

Às vezes, é claro, não existe possibilidade de convergência, e a resposta a uma certa questão só pode ser sim ou não. Nesses casos, Obama pode ou não sair em defesa daquilo que acredita. “Desafiar as convicções religiosas das pessoas – eis uma coisa que ele hesitaria muito em fazer”, diz Cass Sunstein, colega de Obama na Universidade de Chicago. O que não se deve apenas ao seu pragmatismo, acredita ele*, mas deriva também da sua idéia de que sempre existe algo que merece respeito num sentimento moral forte e difundido, mesmo que ele esteja errado. “Rawls fala da tolerância cívica como modus vivendi, como uma forma de vida em comum, e é assim que pensam alguns liberais”, diz Cass Sunstein [refere-se a John Rawls (1921-2002), filósofo político americano]. “Mas acho que, quanto a isso, Obama lembra mais Learned Hand [famoso juiz americano (1872-1961)], quando este declarou: ‘O espírito da liberdade é o espírito que não tem muita certeza de ter razão’. Obama leva essa idéia a sério. Acho que o motivo de os conservadores sentirem-se bem com ele é verem que ele pode concordar com algumas questões e que, mesmo que tenha uma posição diferente, sempre sabe que pode estar errado. Não me ocorre nenhum outro político americano que já tenha pensado da mesma maneira.”

“O herói dele é Lincoln, famoso por acreditar que existem certos princípios de que não se deve abrir mão em voz alta, mas que também existem razões pragmáticas e às vezes razões de princípio para a pessoa não agir com base neles”, diz Sunstein. Obama considera que a fundação dos Estados Unidos foi “uma conciliação grandiosa” e esse tipo de compromisso, para ele, não constitui uma erosão dos princípios em prol da realização de alguma coisa, mas um princípio em si – a certeza da incerteza, o fundamento da união. “Estou decidido a salvar a União”, escreveu Lincoln numa carta a Horace Greeley, o editor do New York Tribune. “Se eu pudesse salvar a União sem libertar nenhum escravo, eu salvaria; se eu pudesse salvá-la libertando todos os escravos, eu salvaria; e se eu puder salvá-la libertando alguns e deixando os outros como estão, também salvaria.” “Prefiro acreditar que, para Lincoln, o que esteve em jogo nunca foi o abandono das convicções em prol de vantagens imediatas”, escreve Obama. “Ao contrário, acredito que precisamos conversar e chegar a entendimentos comuns precisamente por sermos todos imperfeitos e nunca podermos agir com a certeza de que Deus está do nosso lado.”



Obama recosta-se numa cadeira do seu gabinete, em Washington. Transmite a impressão de que seria capaz de passar o dia inteiro sentado imóvel naquela cadeira, sentindo-se perfeitamente confortável. Enquanto fala, acena com a mão em gestos vagos e majestosos, como se, distraído, espantasse uma mosca. Fala sobre as conseqüências da guerra no Iraque, de como acredita ser crucial evitar um recuo isolacionista, ao estilo da síndrome pós-Vietnã.

“Não existe hoje país algum sem problemas de segurança”, diz ele. “Se tivermos espaços sem governo, eles se transformam em refúgio de terroristas, em campos de multiplicação de pandemias e de produção de refugiados que podem desestabilizar áreas de grande interesse para nós. A segurança e as preocupações humanitárias fazem parte do mesmo projeto, a criação de um mundo em que as pessoas tenham as suas oportunidades e que isso desperte o seu interesse em participar da manutenção da ordem. Eu pegaria parte das tropas que enviamos para o Iraque e a usaria para reforçar a presença da Otan no Afeganistão. Acho que ainda teremos a oportunidade de chegar a um bom resultado ali.”

Obama ficou conhecido pelo seu ceticismo em relação à guerra no Iraque, mas não é uma pomba e nem se mostra avesso a pensar em termos internacionais. Duas das questões a que dedicou mais atenção desde sua chegada ao Senado americano, a gripe aviária e a não-proliferação nuclear, são problemas globais em grande escala que, embora relativamente incontroversos, são mesmo assim escolhas arriscadas como questões preferenciais, pois em ambos os casos o sucesso é invisível e o fracasso pode provocar uma calamidade de proporções planetárias. Ainda assim, parece que o hábito de pensar globalmente é relativamente novo para ele. Quando o primeiro presidente Bush invadiu o Iraque, Obama estava próximo dos 30 anos e vinha pensando seriamente em uma carreira política, mas seus amigos daquele tempo não se recordam da posição dele sobre a guerra. “Não quero fazer afirmações como se na época eu tivesse condição de sustentar uma posição clara”, diz ele. “Lembro-me de acreditar que a invasão do Kuwait por Saddam justificava uma ação internacional, e se eu fosse forçado a articular uma política, talvez tivesse apoiado a iniciativa, depois da formação de uma coalizão internacional. Na época, eu estava ocupado demais na faculdade de direito, ou me preparando para o exame da Ordem.”

Na área de recepção do seu gabinete muita gente se acotovela, boa parte sem encontro marcado. O gabinete se transformou numa espécie de atração turística. Marian Wright Edelman procurava guiar um grupo de líderes religiosos, de pais e de crianças doentes, para falar com Obama por um ou dois minutos sobre a questão da saúde infantil. Cerca de vinte bombeiros rotundos de meia-idade chegaram e, sendo numerosos demais para caber na sala, espalharam-se pelo corredor, bloqueando a porta de entrada. Uma dupla de repórteres do Chicago Tribune – destacados pelo jornal para cobrir os movimentos de Obama em tempo integral – esperava no sofá por uma entrevista que já fora adiada uma vez. Um pai branco de Winnetka havia trazido seus dois filhos e o mais velho de uns 9 anos de idade lhe implorava para que esperasse até ele poder avistar Obama, mesmo que só por um segundo. Duas adolescentes – uma de Lake Elmo, Minnesota, carregando um refrigerante, e a outra, de meia-calça cor-de-rosa e carregando um sorvete de iogurte – passaram pelo gabinete, na esperança de tirar uma fotografia com o senador. Uma recepcionista entregou-lhes uma foto em preto-e-branco da pilha que mantém na sua mesa, e as garotas soltaram gritinhos de satisfação. A garota com o refrigerante tirou algumas fotos da área da recepção e da sala de reuniões vazia, e assinou o livro de visitantes. “Onde o senhor está? Nada de fotos conosco?”, escreveu ela, ao lado de comentários mais convencionais como: “Boa sorte, o senhor é um doce”, “Meu herói!”, “Obrigada, o senhor é mesmo o máximo!”


“Meu nome é Barack Obama e estou concorrendo à presidência.” É o que se ouve na Escola Secundária de Algona, Iowa. “Vagou uma cadeira no Senado estadual na área onde eu morava, e algumas pessoas que eu conhecia na comunidade vieram me procurar e perguntaram se eu me interessava”, conta Obama. “Fiz o que todo negro faz diante de uma decisão importante como essa: fui rezar em busca de inspiração, e perguntei à minha mulher o que devia fazer.” (Risos.) “E, depois de consultar esses dois poderes supremos, fiz o que todo candidato estreante sempre faz, que é sair falando com qualquer pessoa que se disponha a escutar. Fui a reuniões de pais e mestres, a barbearias, a jogos infantis de beisebol e, em todos os lugares aonde eu ia, ouvia as mesmas duas perguntas. Primeira: ‘De onde vem esse seu nome estranho, Barack Obama?’ Isso porque as pessoas acabam se confundindo na pronúncia. Já me chamaram de Alabama, já me chamaram de Yo’Mama.” (Risos.) “Mas foi a segunda pergunta que me levou a ser candidato à presidência. As pessoas me perguntavam: ‘Você parece boa pessoa, tem um belo diploma de advogado, ganha muito dinheiro, tem uma linda família que vai todo domingo à igreja. Então por que quer entrar para uma coisa tão suja e desagradável como a política?'”

“Ele sempre quis ser presidente”, conta Valerie Jarrett, amiga da família há muitos anos, desde que contratou a mulher de Obama para trabalhar no gabinete do prefeito Daley. (Michelle atua hoje como executiva nos hospitais da Universidade de Chicago.) “Nem sempre admitiu, mas não há a menor dúvida. A primeira vez que ele me contou, disse: ‘Acho que eu tenho algumas qualidades especiais, e que seria uma pena desperdiçá-las’. Penso que foi no início da campanha dele para o Senado Federal. E mais tarde complementou: ‘Sabe, acho que eu tenho um jeito para isso’.”

“Algumas pessoas que sabiam do meu ativismo na comunidade me perguntaram se eu tinha interesse em concorrer àquele cargo”, diz Obama em Ames. “E então eu fiz o que qualquer homem sensato faz diante de uma decisão como essa: fui rezar pedindo inspiração, e perguntei à minha mulher o que ela achava.” (Risos.) No final de 2006, quando refletia sobre a decisão de concorrer, os amigos lhe perguntaram se ele estava pronto para a luta, se a idéia da disputa estimulava a sua adrenalina, e ele respondeu: “Sim, mas eu não sei se estou interessado em toda a controvérsia”. Não é a resposta que se espera de alguém que está embarcando numa campanha presidencial – que não quer controvérsia. “Mas é por isso que ele é tão simpático”, diz um amigo. “É essa a qualidade que as pessoas enxergam nele; todos estão vendo como a campanha pode ser estafante.” “Bill Clinton era muito mais versado nas táticas da política”, diz David Axlerod, o principal conselheiro da campanha de Obama. “Era um consumidor voraz de pesquisas. Claro, ele era tão incansável que era capaz disso, de ler quatro livros por semana e ainda ser presidente dos Estados Unidos. Ninguém jamais contrataria Barack como chefe de campanha. Mas Bill Clinton daria um ótimo chefe de campanha.”

E essa não é a única diferença entre Obama e Clinton. Comparar os dois ajuda a ver como um político por vocação, como os dois são definidos, pode ser muito diferente comparado a outro. “Bill Clinton tem um talento quase sobrenatural para escutar”, diz Robert Putnam. “Após conversar com Clinton, você sai pensando que pela primeira vez na vida alguém realmente ouviu o que você tinha a dizer – que Bill Clinton foi a primeira pessoa no mundo que te compreendeu. É uma coisa quase mágica.” Parte dessa qualidade, numa forma mais contida e sublimada, está presente também em Hillary Clinton – em seu desejo intenso de conquistar as pessoas, em sua preparação exaustiva, na disposição de dar tudo que é capaz para conseguir um voto.

O que não é nem de longe o estilo de Obama. Ele nunca dá mostras de avidez. Parece gostar de gente, mas não dá a impressão de precisar dos outros. Quando a maioria dos políticos fala a uma platéia, parece que vive para isso; Obama, em encontros locais, mostra-se empenhado mas com menos ardor, como se houvesse várias outras coisas que ele gostaria igualmente de fazer naquele dia. Quase sempre mantém na reserva o poder de oratória que demonstrou na Convenção de 2004. Mesmo nos grandes comícios atuais, nunca tenta deslumbrar ninguém – seus olhos não soltam chispas, suas mãos permanecem desvencilhadas e sempre abaixo da linha dos ombros, e ele nunca parece a ponto de ter uma experiência de mística.


Obama, é óbvio, está concorrendo à presidência dos Estados Unidos, mas isso não quer dizer que ele não esteja ávido por mais apoio: apenas sua maneira de conquistá-lo é mais sutil. Quando um dos redatores dos seus discursos, Jon Favreau, que trabalhou na campanha de John Kerry em 2004, foi entrevistado para o cargo, Obama lhe perguntou que teoria usava para compor os discursos. “Eu não tinha uma teoria grandiosa no bolso”, conta Favreau, “mas respondi: ‘Quando eu vi o senhor na Convenção, o que me chamou mais a atenção foi que contou uma história do começo ao fim do seu discurso – uma história de sua vida, sobre como ela se encaixa na história americana mais ampla – e chegou um ponto em que as pessoas queriam aplaudir, sem que o senhor precisasse fazer o tipo de declaração que sempre provoca aplausos. Os democratas não costumam fazer isso’. E Barack respondeu que era exatamente isso que ele tentava fazer.” Eis a teoria do discurso segundo Obama, e também, ao que parece, a sua teoria da campanha eleitoral: não tente obter muitos pontos o tempo todo, não se mate por um voto – uma campanha é um processo longo e lento, e você não precisa esgotar cada platéia, e tampouco descer do palco exausto.

Quando Christopher Edley conheceu Obama, na faculdade de direito, achou que ele iria longe porque era muito centrado. Mais tarde, quando leu o primeiro livro de Obama e viu o quanto ele desconfiava de si mesmo e dissecou a própria vida por anos a fio, achou que iria bem longe por causa disso. “A capacidade de reflexão a respeito de si mesmo é, na minha experiência, valiosíssima para um candidato ou um presidente”, diz ele. “É difícil descrever a alguém que nunca tenha se envolvido o quanto uma campanha presidencial é difícil. Quando você passa dia após dia voando de um canto a outro do país num tubo de alumínio a mais de 12 mil metros de altitude, a coisa mais fácil do mundo é se perder. E cada passo em falso pode se transformar em uma catástrofe midiática de 36 horas de duração, o que faz você passar a ter todos os motivos para desconfiar dos seus instintos, de maneira que ser sensível às suas forças e fraquezas e ter coragem de encará-las de frente ajudam muito cada vez que você enfrenta uma crise. Já vi candidatos procederem como um cervo congelado pelos faróis de um carro: não conseguem mais avançar e precisam ser conduzidos pela sua equipe. E também vi candidatos que, diante da adversidade, se transformam na mais teimosa das mulas e se mostram incapazes de se adaptar ou fazer qualquer ajuste. A maioria dos candidatos entra nos encontros perguntando a todo mundo: ‘Como estou indo? Como estou indo?’, sem a menor capacidade de se verem no espelho. Assim, a capacidade de ser brutalmente autocrítico, que Barack demonstra no seu livro, é uma qualidade de peso.”

“Muita gente entra na política com uma idéia. Obama entrou com um exemplo. O único político que ele analisa com certo vagar, no seu primeiro livro, é o negro que ocupava a prefeitura de Chicago quando se mudou para a cidade, em 1985: Harold Washington. Obama não fala da plataforma de Washington, e nem do que conseguiu realizar no exercício do cargo, fala do efeito que sua eleição teve sobre a comunidade negra. Quando chegou a Chicago, Obama percebeu que, por toda a área sul da cidade, as pessoas penduraram o retrato de Harold Washington na parede. “Na noite em que Harold venceu, vou lhes contar, as pessoas saíram correndo pelas ruas”, conta um barbeiro que Obama chama de Smitty. “Foi igual ao dia em que Joe Louis nocauteou Max Schmeling. O mesmo sentimento. As pessoas não estavam só orgulhosas de Harold. Estavam orgulhosas de si mesmas.” Ficou claro para Obama que a vitória de Harold Washington provocou nas pessoas um sentimento quase religioso de libertação. “Da mesma forma que a minha idéia de organização”, conclui o candidato, Harold Washington “prometia uma redenção coletiva.”

Mas a redenção é frágil. Depois da morte súbita de Washington, no meio do seu segundo mandato, sua obra desfez-se quase de imediato. “Não havia uma organização política montada, princípios claramente definidos a seguir”, escreve Obama. “A totalidade da política negra girava em torno de uma pessoa, radiosa como um sol.” Para um homem menos conservador, esse fracasso poderia acarretar um sentimento esmagador – uma demonstração da impossibilidade da mudança -, mas para Obama mostrou ser apenas uma prova adicional de que o carisma é enganoso, de que as revoluções são ilusórias, de que a verdadeira mudança é sempre lenta. Agora que ele próprio está concorrendo, é provável que saiba que tanto pode ser prejudicado como exaltado pelas expectativas elevadas, de modo que tenta, de maneira sutil, desestimulá-las. Obama tem os pés no chão. Se ele achasse que a sua vitória demandaria uma revolução, não seria candidato.

4 de maio de 2007

Negacionismo e liberdade de pesquisa

Negacionismo e liberdade de pesquisa

A condenação do judeicídio não se pode dissociar da condenação das infâmias coloniais do Terceiro Reich. Verdadeira e falsa crítica do negacionismo.

Domenico Losurdo

Negazionismo e libertà di ricerca
"Hitler nunca ordenou ou permitiu que se matasse uma pessoa por motivo da raça ou da religião": pode-se ler esta defesa da honra do Führer e do Terceiro Reich na mais recente intervenção de Robert Faurisson. Depois de ter criminalizado o processo iniciado com a revolução de Outubro e de ter procedido à reabilitação mais ou menos explícita de Mussolini, de Franco, dos "rapazes de Saló", o revisionismo histórico em raivoso ataque desde há decénios chega às suas lógicas conclusões.

1. Negacionismo antijudaico e negacionismo filocolonialista

Para compreender o absurdo da tomada de posição de Faurisson, basta pô-la em confronto com a descrição que da guerra conduzida pela Alemanha nazi na Europa oriental faz outro expoente de destaque do revisionismo histórico, que é David Irving. Apesar das suas reticências e piruetas, não consegue esconder o essencial: faz alusão aos "bárbaros massacres de judeus soviéticos" e reconhece que, embora "coberta de eufemismo subtis", "toda a actividade homicida dos nazis" era porém destinada a matar "sem distinções de classe social, de sexo ou de idade"; as próprias brigadas especiais só conseguiam levar a cabo a sua tarefa "sob os efeitos do álcool". Estas concessões porém são gravemente atenuadas pela tese de que Hitler não devia estar ao corrente do que se passava! Contudo, é o próprio Irving quem observa que o Führer considerava "excelente" e merecedora da mais ampla difusão a proclamação com que o general W. von Reichenau esclarecia aos seus soldados um ponto essencial: devia-se exigir "um duro mas justo tributo aos sub-humanos judeus". A desumanização das vítimas, degradadas a Untermenschen, abre as portas à "solução final". Se ridículos são os contorsionismos de Irving, é um verdadeiro insulto à verdade histórica e à memória das vítimas o que se pode ler nas palavras de Faurisson.

Como obstar ao desvio revisionista, mais ou menos radical, que se manifesta em sectores significativos da cultura ocidental? Façamos só mais uma pergunta: são apenas os judeus a ser insultados pela reabilitação mais ou menos explícita do fascismo e até do Terceiro Reich? Reflicta-se na declaração de Faurisson que citei no início: "Hitler nunca ordenou ou permitiu que se matasse uma pessoa por motivo da raça ou da religião". Já vimos a sorte reservada aos judeus no decorrer da guerra contra a União Soviética. Mas agora leiamos as disposições dadas pelo Führer nas vésperas da agressão contra a Polónia: impõe-se a "eliminação das forças vitais" do povo polaco; deve-se "proceder de modo brutal" sem se deixar tolher pela "compaixão"; "o direito está do lado do mais forte". Análogas ou talvez ainda mais drásticas são as directivas que presidem à operação Barbarroxa: uma vez capturados, é preciso eliminar imediatamente os comissários políticos, os quadros do Exército Vermelho, do Estado soviético e do Partido Comunista; no Oriente impõe-se uma "dureza" extrema e os oficiais e soldados alemães são chamados a "superar as suas reservas" e os seus escrúpulos morais. No âmbito do seu projecto de edificação de um grande império continental na Europa oriental, Hitler por um lado assimila os habitantes desta área aos peles-vermelhas: eles devem ser expropriados e dizimados de modo a consentir a expansão colonial da raça branca e ariana; por outro lado a população restante está destinada a prestar trabalho servil ao serviço da raça dos senhores. Mas para que povos de civilização antiga possam ser reduzidos à condição de peles-vermelhas (a expropriar e dizimar) e de negros (a escravizar), "todos os representantes da intelectualidade polaca" e russa – sublinha o Führer – "têm de ser aniquilados"; "isto pode parecer duro mas não deixa de ser uma lei da vida". Assim se explica a sorte reservada na Polónia ao clero católico, na URSS aos quadros comunistas, e em ambos os casos aos judeus, bem presentes nas camadas intelectuais e suspeitos de inspirar e alimentar o bolchevismo. Como se vê, o negacionismo de Faurisson é um insulto à memória dos judeus, sim, mas também dos polacos, dos russos, etc: estamos na presença de "raças" às quais a hitleriana "raça dos senhores" é chamada a impor, com modalidades diferentes, um destino trágico.

Não faltam porém as críticas vindas de certos ambientes a estas considerações. Argumentar deste modo, dizem eles, significaria proceder a uma intolerável multiplicação do número dos negacionismos. É a objecção clássica dos dogmáticos, que se recusam a reflectir sobre as categorias que eles utilizam: na formulação de regras gerais do discurso, vêem uma ameaça à sua pretensão de se comportarem como juízes soberanos e inapeláveis. Resta o facto de a denúncia em sentido único do negacionismo de Faurisson se mostrar ela mesma afectada de negacionismo. E é precisamente este último negacionismo que hoje em dia é mais difundido e mais perigoso.

2. Como os historiadores da corte omitem a guerra colonial de extermínio contra a União Soviética

Veja-se um historiador de sucesso na corte imperial de Washington, que escreve no Wall Street Journal e que dá pelo nome de Robert Conquest. Este, falando de Hitler, afirma peremptoriamente: "Embora odiasse o comunismo “judaico”, ele não odiava os comunistas". Toda a gente sabe que, desde o seu advento, o Terceiro Reich desencadeou uma sanguinária repressão contra os comunistas. E esta verdade não é desmentida de modo nenhum pelo pacto de não-agressão em vigor entre a Alemanha e a União Soviética de 1939 a 1941. Como recordei no meu último livro (Il linguaggio dell'Impero), quatro anos antes do pacto de não-agressão os sionistas já haviam estipulado em 1935 um acordo com vista à deslocação para a Palestina de um número consistente de judeus alemães com uma parte considerável dos seus bens; mas isto em nada diminui a ferocidade anti-semita do regime hitleriano. Por outro lado, para os nazis, judaísmo e bolchevismo tendem a ser a mesma coisa: não é por acaso que a revolução de Outubro é rotulada como o resultado da conspiração judaico-bolchevique. Mas o historiador da corte omite este capítulo de história, tal como ignora o facto de o furor anticomunista do nazismo estar intimamente ligado ao seu programa colonialista: os comunistas que estimulam a revolução das "raças inferiores" são identificados como o obstáculo principal ao projecto de construção na Europa de um grande império continental. Assim se compreendem as modalidades com que o Terceiro Reich conduz a agressão contra a União Soviética. Vamos reconstruí-la seguindo a pista do recente e corajoso livro de Geoffrey Roberts: "Nos fins de 1941 os alemães tinham capturado 3 milhões de prisioneiros soviéticos. Em Fevereiro de 1942 morreram 2 milhões destes prisioneiros, na sua maioria devido à inanição, às doenças e aos maus tratos. Além disso, os alemães procederam directamente à execução dos prisioneiros suspeitos de serem comunistas". Isto é, logo nos poucos meses iniciais da operação Barbarroxa, os nazis matam ou provocam a morte de mais de dois milhões de soviéticos, atingindo em primeiro lugar os comunistas. E mais: enquanto é obrigado a esconder-se para escapar à "solução final", um eminente intelectual alemão de origem judaica (Victor Klemperer) escreve uma nota de diário em que se deve reflectir. Estamos em Agosto de 1942 e a Zeiss-Ikon recorre ao trabalho forçado de operárias polacas, francesas, dinamarquesas, judias e russas; a situação destas últimas é particularmente dura: "Passam tanta fome que as camaradas judias intervêm em seu auxílio. É proibido; mas deixa-se cair uma fatia. Passado algum tempo a russa baixa-se e depois desaparece com o pão para a retrete". Portanto, segundo este testemunho, a condição das escravas russas (ou soviéticas) às vezes era até pior do que a das escravas judias. Mas Conquest passa de maneira desenvolta por cima da questão colonial. Assim, ele impede a compreensão do próprio judeicídio: comunistas e judeus, identificados com frequência, são atingidos por uma violência particular, porque estão rotulados como os principais responsáveis da revolta dos povos coloniais. Em Hitler e no seu principal ideólogo (Alfred Rosenberg) não se poupam os avisos contra a ameaça que o Untermensch, o sub-homem bolchevique, ou melhor: judaico-bolchevique representa para o predomínio da raça branca, aliás do Ocidente, aliás da raça ariana, numa palavra: do único mundo que representa a causa da civilização.

O historiador caro ao Wall Street Journal está empenhado em romper esta solidariedade (tão bem ilustrada por Klemperer) que as vítimas, em condições trágicas, foram capazes de estabelecer perante os seus carnífices. Estamos em presença de um negacionismo particularmente repugnante.

3. O negacionismo como mito genealógico dos Estados Unidos

Quem sofre o insulto do negacionismo são as vítimas do colonialismo, e não só do hitleriano. Há uns anos, outro historiador aclamado na corte imperial de Washington, John Keegan, publicou um livro cujo conteúdo foi assim sintetizado no título do maior jornal italiano: "Índios maus e egoístas. Viva Custer". Com efeito, deparamos aqui com uma homenagem, pelo menos indirecta, a Custer, o general que na sua correspondência privada, fazendo-se eco dos humores amplamente difundidos na comunidade branca da época, se pronuncia por uma "guerra de extermínio". Ao rotular como "rico egoísta" o índio que pretendia monopolizar para si uma terra escassamente povoada e se opõe à expansão branca, Keegan não repara que retomou a teoria do "espaço vital", a teoria com base na qual Hitler legitimou a sua guerra de extermínio contra os "indígenas" da Europa oriental.

Percebe-se muito bem a indulgência da ideologia dominante em relação ao negacionismo que recalca os horrores da tradição colonial, desde os conquistadores da "descoberta" da América até ao Terceiro Reich. Em primeiro lugar chamar a atenção para este longo processo histórico significa de qualquer modo prestar homenagem à tradição revolucionária, dos jacobinos (que aboliram a escravatura nas colónias francesas) aos bolcheviques (que apelam aos povos das colónias para que despedacem as suas cadeias) e ao Exército Vermelho que em Estalinegrado destrói o sonho hitleriano de renovar na própria Europa as pompas sangrentas da tradição colonial.

Em segundo lugar é de notar que o negacionismo, umas vezes explícito outras implícito, da tragédia sofrida pelos ameríndios e pelos afro-americanos é um elemento constitutivo essencial do mito genealógico dos Estados Unidos, que só se podem autocelebrar como "a mais antiga democracia do mundo" na condição de se considerar implicitamente irrelevante a sorte reservada à massa dos que durante séculos foram excluídos, oprimidos ou aniquilados pelo povo dos senhores. Para além das personalidades comprometidas na primeira fila na luta política e portanto, compreensivelmente, pouco interessadas em pôr em causa o mito genealógico (e a ideologia da guerra) do país-guia do Ocidente e do Ocidente enquanto tal, o negacionismo caracteriza também a alta cultura dos Estados Unidos e da Europa. Reflicta-se na aura de santidade que nas duas margens do Atlântico rodeia a figura de Tocqueville. Este visita os Estados Unidos quando o presidente é Jackson, proprietário de escravos (à semelhança de quase todos os presidentes dos primeiros decénios de vida do novo país), protagonista da deportação dos Cherokee (morrem 25% logo no decorrer da viagem de deslocação) e campeão da luta total contra esses "cães selvagens" que são os índios: ele adora encarniçar-se até sobre os seus cadáveres, para obter lembranças que distribui entre amigos e conhecidos. Teria razão Tocqueville ao apontar como exemplo de "democracia" os Estados Unidos de Jackson, e em geral o país que foi dos últimos a abolir a escravatura no continente americano e que aliás reintroduz essa instituição no Texas arrebatado ao México através da guerra? É sintomático que esta questão elementar continue a ser iludida.

Em terceiro lugar, é bem difícil para o Ocidente e sobretudo para o seu país-guia regular as contas até ao fim com a tradição colonial, num momento em que Washington se arroga o direito de exportar com a força das armas a civilização a todos os recantos do mundo.

E enfim: livre das infâmias de que Hitler se mancha em prejuízo dos "índios" e dos "negros" da Europa oriental, o judeicídio é chamado a justificar não só a fundação de Israel, mas também a sua política de expansão colonial. O horror inesquecível sofrido pelos judeus no Terceiro Reich é utilizado para recalcar a opressão e a tragédia que, certamente em condições e com modalidades completamente diferentes, desde há decénios sofrem os palestinos. No século XIX, com Bernard Lazare, a grande cultura judaica de esquerda tentou promover a emancipação dos judeus, já não arrancando qualquer concessão colonial às grandes potências da época, mas inserindo num projecto revolucionário conjunto de orientação anti-colonialista e anti-imperialista a luta dos judeus e a dos outros povos oprimidos, a luta contra o anti-semitismo e contra o racismo colonial. Daí em Lazare a comparação entre os sofrimentos passados pelos judeus e os infligidos aos negros nas colónias africanas da Alemanha ou de outros países, aos árabes atacados pela expansão colonial da Itália ou aos irlandeses há séculos oprimidos pela Inglaterra. No século XX vimos Klemperer sublinhar a solidariedade entre escravas judias e escravas russas e soviéticas do Terceiro Reich. É esta grande tradição que agora se tenta isolar e fazer calar.

4. O Apelo dos historiadores pela liberdade de expressão

Neste contexto é conveniente reflectir na legislação já em vigor em países como a França, a Alemanha, a Áustria e que agora tende a alargar-se também à Itália e à União Europeia no seu conjunto. Contra esta eventualidade pronunciou-se um Apelo promovido por historiadores eminentes como Angelo d'Orsi, Enzo Traverso, etc, que obteve uma adesão em massa na comunidade dos historiadores e que também subscrevi: deve-se respeitar a liberdade de opinião e de expressão; a verdade histórica não é uma doutrina ou religião de Estado, a impor com o recurso à polícia e aos juízes. Não é de espantar que a estes argumentos se revelem surdos os ideólogos oficiais do Ocidente "democrático"; mais surpreendente é a falta de sensibilidade de que dão prova os ambientes de uma certa esquerda, os quais geralmente adoram gabar-se de ter rompido com o subestimar da "liberdade formal" que invalidava o "socialismo real". A legislação liberticida deve deixar-nos indiferentes porque atinge Irving, Faurisson e outras personagens do mesmo tipo? Pelo menos à esquerda a que acabei de aludir desejo lembrar a condenação formulada em 1925 por Gramsci da lei mussoliniana contra as lojas maçónicas: na realidade tinha em vista abrir caminho para a repressão do movimento operário. Nos nossos dias é preocupante a anticomunista caça às bruxas que caracteriza o clima político da Europa oriental…

Mas à justa defesa da liberdade de opinião e de expressão, que está no centro do Apelo dos historiadores e que só pode garantir uma luta credível e eficaz contra o revisionismo histórico e o negacionismo, desejaria acrescentar mais um argumento. A chamada legislação anti-negacionista, já em vigor ou a promulgar, sanciona uma dupla e intolerável discriminação: Irving, que, embora de maneira parcial e retorcida reconheceu as infâmias antijudaicas do Terceiro Reich, passou um ano na prisão; os historiadores que escarnecem das vítimas soviéticas da barbárie nazi ou que desfiguram a guerra de extermínio contra os índios (assumida como modelo por Hitler), são os heróis da cena mass-mediática ocidental. A segunda e mais grave discriminação é a que se faz entre as vítimas: está garantida a memória de umas, mas não de outras. Assistimos aliás a um fenómeno em que vale a pena reflectir: enquanto se quer alargar a toda a União Europeia a legislação anti-negacionista, eis que na Estónia é removido o monumento que presta homenagem à memória dos soldados soviéticos. Ao que parece, não faltam sequer as tentativas de reabilitação ou de compreensão do Terceiro Reich. Há um episódio revelador do clima que se está a afirmar desde há uns anos. Em Abril de 2000 o então embaixador da Letónia na Noruega escreveu uma carta ao International Herald Tribune em que explicava assim o pedido de admissão à UE e à Nato: o país tinha intenções de reafirmar as "raízes europeias" e ocidentais e os "laços culturais nórdicos". É de estarrecer: assim ressurge um motivo caro em particular a Rosenberg e em geral ao Terceiro Reich, que conduziu a Leste a sua guerra colonial de escravização e de extermínio precisamente celebrando a superior civilização europeia e nórdica, em contraposição à barbárie asiática. E por outro lado, o Conquest que já conhecemos põe no centro do seu discurso a celebração da superioridade dos "anglo-celtas" em relação a todos os outros povos do mundo. É um motivo racial que, com uma ou outra variante, suscitaria o entusiasmo de Hitler. Uma conclusão se impõe: para ser eficaz, a luta contra o negacionismo tem de se travar até ao fim e sem reproduzir, mesmo involuntariamente que seja, novas discriminações. Trata-se porém de uma luta que não se pode conduzir seguindo na peugada dos responsáveis do desvio revisionista que desde há decénios ataca com raiva no Ocidente!

Bibliografia

Robert Faurisson, Vittorie revisioniste, Effepi, Genova, 2007, p. 12;

Robert Conquest, Stalin Breaker of Nations (1991), Penguin Books, New York, 1992, p. 174;

Geoffrey Roberts. Stalin’s Wars. From World War to Cold War, 1939-1953, Yale Universitry Press, New Haven and London, 2006, p. 85;

Victor Klemperer, Ich will Zeugnis ablegen bis zum letzten, Aufbau, Berlin, 1996 (quinta edizione), vol. II, p. 194;

Adolf Hitler, Reden und Proklamationen 1932-1945, a cura di Max Domarus, Süddeutscher Verlag, München, 1965 (si vedano soprattutto i discorsi del 22 agosto 1939, del 28 settembre 1940 e del 30 marzo e dell’8 novembre 1941;

Valdis Krastins, Latvia’s Past and Present, in «International Herald Tribune» del 7 aprile 2000, p. 7.

Per quanto non risulta dai testi qui citati, rinvio al mio libro da poco uscito: Il linguaggio dell’Impero. Lessico dell’ideologia americana, Laterza, Roma-Bari.

[*] Diretor do Instituto de Ciência Filosófica e Pedagógica da Universidade de Urbino, Itália. d.losurdo@uniurb.it.