3 de junho de 2001

O verdadeiro terror de Stálin

O fim da guerra-fria tornou possível o primeiro estudo documentalmente baseado das repressões do regime soviético entre 1921 e 1953.

Rafael Poch


Durante muitos anos, pesquisadores e historiadores discutiram sobre a extensão da repressão stalinista na União Soviética; quantos foram reprimidos por motivos políticos, quantas pessoas foram executadas, quantos prisioneiros havia no sistema de campos de trabalho do Estado (GULAG), etc. Era um debate complexo por duas razões. Uma era a guerra-fria. A União Soviética era o principal inimigo do Ocidente, e no ocidente a sovietologia era, em grande medida, uma indústria intelectual ao serviço dessa guerra. A outra era a falta de evidência documental: o Estado soviético não permitia o acesso aos arquivos que continham informações sobre o aspecto mais funesto da sua história.

Tirando um zero

Essas duas razões obrigavam o estudioso a trabalhar com estimativas e impressões, com frequência muito politizadas, o que não favorecia o rigor histórico. Em muitos casos, o tema ficou em mãos de "pessoas com uma imaginação fértil", como refere o professor Moshe Lewin, um dos grandes especialistas ocidentais em história da União Soviética. Mas a guerra-fria acabou há uma década e já é hora de a propaganda dar lugar à história, e a conjectura ao documento.

Desde há dez anos que na Rússia se sabe que Stálin e o seu regime mataram muito menos do que se tinha dito. Que tenha que tirar um zero ao número de reprimidos, em milhões, não muda absolutamente nenhuma conclusão, nem altera os adjetivos.

Simplesmente, a capacidade de horrorizar-se diante de um dos grandes dramas do século XX não deveria estar em duelo com a seriedade.

Encontro o historiador Víktor Zemskov no Instituto de História da Academia de Ciências russa. Em 1989, cumprindo uma diretiva do Bureau Político de Mikhail Gorbatchov, a Academia de Ciências encarregou Zemskov de esclarecer o grande enredo das dimensões reais da repressão stalinista.

Zemskov, um homem humilde e discreto, teve pela primeira vez acesso a um dos sectores mais secretos dos arquivos do Ministério do Interior (MDV-MGB) e da polícia de Estado (OGPU-NKVD) de Stálin. Ali deparou-se com uma documentação pormenorizada e exaustiva da máquina repressora de Stálin; o GULAG, as prisões, a estatística de fuzilados, deportados, etc. Verificou-se que o Estado e os seus magarefes tratavam as contas dos seus crimes e malfeitorias com o rigor de esmerados escriturários.

Já há quase dez anos que os documentos destes arquivos falaram, mas Zemskov e as suas conclusões continuam a ser desconhecidas para o público não especializado, não só no Ocidente, como inclusive na própria Rússia.

"A mim não me convidam a falar na televisão", diz Zemskov sem o menor vislumbre de falsa modéstia, na que confessa é a sua primeira entrevista a um órgão de imprensa estrangeiro, porque ninguém se tinha interessado pelo testemunho do homem que alterou os números, não a essência, trágica e criminosa, da repressão stalinista.

Zemskov documentou que entre 1921 e 1953 foram "reprimidas" quatro milhões de pessoas. De entre elas, o regime soviético fuzilou por motivos políticos cerca de 800.000 pessoas, em concreto 799.455 pessoas. Também se pôde estabelecer que no momento culminante da repressão stalinista, o "grande terror" dos anos 1937-1938, na URSS foram efetuadas 2,5 milhões de detenções.6 Os seus números são tão impressionantes que, a seu lado, pouco importa que até agora se tenha falado de quase vinte milhões de detenções (a historiadora russa Olga Chatunóvskaia) ou de sete milhões de fuzilados, o número que apresenta Robert Conquest, o historiador ocidental mais conhecido na matéria.

Quando no verão de 1941 os alemães tomaram a cidade russa de Smolensk, conseguiram apoderar-se do arquivo local, intacto, da máquina repressora stalinista. Quando os alemães perderam a guerra, o arquivo de Smolensk passou para as mãos dos americanos. Conquest, um típico "guerreiro frio", um cruzado da guerra-fria, extrapolou os dados da repressão na região de Smolensk para todo o país, um método aceitável à falta de outros melhores, mas a evidência mostrou que as suas conclusões estavam erradas.

Face aos sete ou oito milhões de detidos em 1937-1938 baralhados por Conquest, a evidência documental fornece o número de 2,5 milhões. Os arquivos falam de 2,5 milhões de presos nos campos soviéticos em 1952, quando Conquest fala de 12 milhões, quase cinco vezes mais. O historiador ocidental estima em dois milhões os mortos nos campos no período de 1937-1938 e em sete milhões o total de mortos para o período de 1921-1953, quando a realidade documental é de 160.084 e 799.455 mortos, respectivamente. Atualmente são os números de Zemskov e já não os de Conquest, os que se baralham nas universidades.

No que respeita aos números globais, explica Zemskov, "a sovietologia ocidental afirmava que 50 ou 60 milhões haviam sido vítimas da repressão, da coletivização, da fome, etc. Em 1976, Soljenítsin disse que entre 1917 e 1959 tinham morrido 110 milhões de pessoas. A realidade é que a população do país continuou a aumentar mais de 1%, superando o crescimento demográfico de Inglaterra ou França. Em 1926 a URSS tinha 147 milhões de habitantes, em 1937, 162 milhões e em 1939, 170,5 milhões. Os censos são fiáveis, e os seus números são incompatíveis com massacres de dezenas de milhões", diz o historiador.

Coletivização e deportação

Tão pouco batem certos os números de mortos por causa da coletivização da agricultura. "Na bibliografia – diz Zemskov – dão-se números absurdos de 6 a 10 milhões, entre eles de 3 a 7 milhões na Ucrânia. Mas graças à estatística demográfica sabemos que em 1932, na Ucrânia, nasceram 782 mil pessoas e morreram 668 mil, enquanto que em 1933 nasceram 359 mil e morreram 1,3 milhões. Estes números incluem a mortalidade natural, mas está claro que a primeira causa de morte nesses anos foi a fome."

Segundo Zemskov, não se confirma a tese, tão popular na Ucrânia, de que o massacre produzido pela coletivização foi um genocídio nacional contra os ucranianos. Zemskov diz que "o Estado cometeu um crime contra todos os camponeses, independentemente da sua nacionalidade". A prova está em que "a mesma situação que se deu na Ucrânia, deu-se entre a população do Cáucaso do Norte, a região do Volga e Cazaquistão, onde houve fomes extremas. Havia que cumprir o plano confiscando parte da colheita, mas como por causa da seca não se alcançava o necessário, confiscaram toda a colheita", explica o historiador.

Algumas nacionalidades da URSS sofreram muito sob o stalinismo. 14 delas foram deportadas por inteiro e 48 parcialmente. Só entre as etnias do Cáucaso deportaram-se 650.000 pessoas em três operações militares, vigiadas por um exército de 100.000 homens, sem contar 19 mil soldados do NKVD. No entanto, a evidência não corrobora a tese de que a repressão stalinista afetou sobretudo as etnias e nacionalidades não russas. Pelo contrário sugere-se que a repressão se dirigiu sobretudo contra os setores mais instruídos da sociedade, em especial contra o próprio aparelho de Estado. Assim, a nacionalidade que proporcionalmente sofreu mais vítimas foi a letã, não tanto por razões étnicas, mas precisamente porque os letões estavam muito presentes no aparelho de estado.

Sofrimento e repressão

A estatística do GULAG era exata, explica Zemskov. "Um só caso de um preso desaparecido durante um naufrágio ou afogado (as fugas dos campos eram muito frequentes; quase 400 mil presos fugiram entre 1934 e 1953, dos quais 38% não puderam ser recapturados) dava origem a todo um dossier de documentos e correspondência. De tudo isto se informava regularmente a Stálin." Por isso há que supor que os responsáveis políticos conheciam perfeitamente as dimensões da sua repressão e dos seus fuzilamentos.

Zemskov reconhece que o conceito de "reprimido político", esse colectivo de quatro milhões de pessoas entre 1921 e 1953 que invlui os 800 mil fuzilados, pode ser discutido. O historiador aplica o conceito aos incriminados pelo artigo 58 do Código Penal ("atividade contra revolucionária e outros crimes graves contra o Estado"), e a pergunta é se essa metodologia não deixa de fora enormes colectivos que foram injustamente perseguidos.

O problema é que é muito difícil encontrar gente que não tenha sofrido e padecido no período de 1921-1953 da história da URSS, e do que se trata, explica, é de "distinguir os reprimidos políticos do sofrimento geral". O critério foi contabilizar unicamente os detidos e julgados como delinquentes políticos (o mencionado artigo 58). Isso marca uma fronteira objetiva entre aqueles que sofreram em geral, por exemplo os latifundiários, Kulaks, o clero, os capitalistas, todos eles expropriados, e todos aqueles membros, em concreto, destes grupos da população que foram condenados, encarcerados ou fuzilados. "Desta forma, se isolam os 'reprimidos políticos' daqueles que simplesmente foram vítimas das transformações sócio-econômicas, cruéis e igualitaristas, circunstância que pode aplicar-se à maioria da população da URSS, pois, de uma ou outra forma, todo o mundo sofreu; passava-se fome, vivia-se mal".

Sobre os motivos da repressão, Zemskov diz: "Do que se tratava era de desfazer-se da gente que não se enquadrava com o projeto comunista de futuro, assim como daqueles que tinham um grande instinto de preservação, ainda que formalmente não fossem culpados de nada. Era uma medida preventiva. Mólotov disse-o numa frase reveladora ao jornalista Féliks Tchuev: 'Não esperávamos que nos atraiçoassem; nós tomávamos a iniciativa e antecipávamos-nos a eles'".

A pergunta que toda esta barbárie coloca ao historiador é a de até que ponto a história russa é única desde o ponto de vista da grande mortandade política. "No que respeita à história da Inglaterra do século XVII, da França do século XVIII e da Alemanha do século XIX, a da Rússia é única no sentido de que aqui isso ocorreu no século XX, quando já existia uma economia complexa e integrada que se afundou com a revolução", responde Zemskov. "Quando H.G. Wells veio à Rússia em 1920, contemplou uma selvajaria total; desmontavam-se as linhas de estrada de ferro, não havia eletricidade e tudo se afundava, as pessoas morriam de frio e fome. E antes disso, ainda que a Rússia fosse da periferia europeia, tinha sido um país civilizado. Isto é, quanto mais civilizado é um país, tanto menos desejável é a revolução pelas terríveis consequências que esta tem", conclui. A resposta do historiador russo sugere, em resumo, que a modernidade, no que tem de capacidade técnica de matar e controlar, é o que torna Stálin mais temível que Gengis Khan. Todo um aviso para o futuro.