25 de junho de 2017

"Temos um maldito problema"

Oficiais da inteligência duvidaram do alegado ataque de gás de Sarin em Khan Sheikhoun. Welt am Sonntag publica o protocolo de uma conversa entre um assessor de segurança e um soldado americano da ativa em uma base-chave da região.

Seymour M. Hersh

Welt

Trump com seus assessores em Mar-a-Lago. Fonte: Associated Press.

Tradução / Este diálogo foi fornecido a Seymour M. Hersh. É entre um conselheiro de segurança e um soldado americano da ativo em serviço em uma base operacional chave sobre os eventos em Khan Sheikhoun. [Fizemos abreviaturas: Soldado Americano (SA) e Conselheiro de Segurança (CS).] Welt am Sonntag está ciente da localização do encontro. Por razões de segurança, alguns detalhes das operações militares foram omitidos.

6 de abril, 2017


Soldado Americano: Temos um maldito problema.

Conselheiro de Segurança: O que aconteceu? É Trump, que está ignorando a inteligência e vai atrapalhar os sírios? Estamos chateando os russos? É isso?

Soldado Americano: Isso é ruim... As coisas estão degenerando.

Conselheiro de Segurança: Você talvez nem tenha visto a conferência de imprensa de Trump ontem. Ele abraçou a história da mídia, sem nem perguntar se havia inteligência! Estamos a um passo de os russos nos darem um pé na bunda. Fodendo perigoso. Onde estão os malditos adultos? O fracasso da cadeia de comando para dizer a verdade ao presidente, ele queira ou não queira ouvir, ficará na história como um dos nossos piores momentos.

Soldado Americano: Nada disso faz sentido. Nós SABEMOS que não houve ataque químico. Os sírios atingiram um depósito de armas (um alvo militar legítimo) e houve danos colaterais. É isso aí. Eles não realizaram qualquer tipo de ataque químico.

Soldado Americano: E agora estamos socando um monte de Tomahawks na bunda deles.

Conselheiro de Segurança: Sempre houve uma agenda oculta. Estão sempre tentando pegar o Irã. O que o pessoal à volta de Trump não compreende é que os russos não são tigres de papel e têm capacidade militar mais robusta do que a nossa.

Soldado Americano: Não sei o que os russos vão fazer. Talvez fiquem atrás e deixem os sírios defender as próprias fronteiras, ou podem prover algum tipo de apoio morno, ou podem nos expulsar do espaço aéreo e voltar para o Iraque. No momento, sinceramente, não sei o que esperar. Sinto que tudo é possível. O sistema de defesa aérea dos russos é capaz de destruir nossos TLAMs. É negócio muito muito grande... E estamos ainda pensando em avançar...

Conselheiro de Segurança: Você está certo. Claro que a Rússia não vai esperar sentada, não vai deixar acontecer.

Conselheiro de Segurança: Quem está fazendo isso? É proveniente do Votel (General Joseph L. Votel, Comandante do Comando Central dos Estados Unidos, nota do editor)?

Soldado Americano: Não sei. Vem de alguém bem grande... É negócio muito muito grande.

Soldado Americano: Só pode estar vindo do presidente.

Soldado Americano: Eles [os russos] estão pesando suas opções. As indicações são que eles serão partidários passivos da Síria e não envolverão seus sistemas, a menos que seus próprios ativos estejam ameaçados ... em outras palavras, o céu é azul.

7 de abril de 2017


Conselheiro de Segurança: O que os russos estão fazendo ou dizendo? Estou correto que fizemos pequenos danos reais à Rússia ou à Síria?

Soldado Americano: Não conseguimos nada, felizmente. Eles recuaram todas as suas aeronaves e pessoal. Nós, basicamente, lhes deram uma exibição de fogos de artifício muito cara.

Soldado Americano: Eles sabiam onde estavam os navios deles e assistiram a todo o ataque, do lançamento até o fim.

Soldado Americano: Os russos estão furiosos. Dizem que temos a inteligência correta e que sabemos a verdade sobre o ataque ao depósito de armas.

Soldado Americano: E estão certos.

Soldado Americano: Eu acho que realmente não importa se elegemos Clinton ou Trump. Porra.

Soldado Americano: Ninguém está falando sobre a razão pela qual estamos no Iraque e na Síria, em primeiro lugar. Essa missão está fodida agora.

Conselheiro de Segurança: Algum dos seus colegas estão irritados, ou todos vão continuar com a mesma merda, dizendo que está tudo bem?

Soldado Americano: Parece um hospício... Até dissemos aos russos, uma hora antes do impacto...

Conselheiro de Segurança: Mas claramente eles já sabiam o que ia acontecer.

Soldado Americano: Oh, claro que sim.

Soldado Americano: Agora a Fox está dizendo que escolhemos atacar o campo de pouso sírio, porque os ataques químicos foram lançados de lá. Nossa. Não há meio de acertar essa merda?

Conselheiro de Segurança: Eles estão, quero dizer, estão aumentando o que começaram.

Soldado Americano: É tão, tão grave...

Conselheiro de Segurança: Amem!

8 de abril, 2017


Soldado Americano: Os russos estão sendo extremamente razoáveis. Apesar do que as notícias estão relatando, eles ainda estão tentando desconfigurar e coordenar a campanha aérea.

Conselheiro de Segurança: Acho que os russos ainda não se deram conta de o quanto Trump está realmente agindo como doido, nessa questão. E acho que nós não vamos gostar do dano que os russos nos podem fazer.

Soldado Americano: Eles estão mostrando incrível restrição e ficaram inacreditavelmente calmos. Eles parecem interessados em desmoralizar tudo. Eles não querem perder nosso apoio na ajuda para destruir o ISIS.

Conselheiro de Segurança: Mas tenho a impressão de que só insistirão nessa abordagem enquanto acreditarem que pode funcionar. Se nós insistirmos nessa nossa atitude agressiva, mais dia menos dia eles revidarão.

20 de junho de 2017

Os Estados Unidos parecem mais interessados em atacar Assad na Síria do que em destruir o ISIS

É instrutivo que o Ocidente agora exprima mais indignação com o uso de gás - culpa o regime de Assad por isso, é claro - do que a continuada crueldade do ISIS

Robert Fisk


Um jato sírio (semelhante ao fotogrado em 23 de março de 2017) foi derrubado pelas forças dos EUA no domingo. Getty Images

Tradução / A extraordinária destruição de um avião de combate sírio por um avião americano no domingo, 18 de junho, tem muito pouco a ver com o alvo do avião sírio no deserto, perto de Rassafa, mas muito mais com o avanço do exército sírio perto das forças curdas apoiadas pelos Estados Unidos ao longo do Eufrates. Nos últimos meses, os sírios suspeitam cada vez mais que a maioria das forças curdas no norte da Síria – muitos delas aliados do governo de Assad até pouco tempo atrás – passou para o lado dos americanos.

De fato, os militares em Damasco não ocultam o fato de que terminaram o fornecimento de armas regulares e munições aos curdos – a quem, aparentemente, forneceram 14 mil rifles YAK-14 desde 2012 – e o regime sírio ficou indignado ao saber que as forças curdas receberam recentemente um enviado dos Emirados Árabes Unidos.

Há informações não confirmadas de que um enviado saudita também teria visitado os curdos. Isto, evidentemente, é posterior ao infame discurso de Trump em Riad, no qual o presidente dos Estados Unidos deu total apoio americano à monarquia saudita em suas políticas anti-iranianas e anti-sírias e depois apoiou o isolamento saudita do Catar.

No terreno, o exército sírio está realizando uma de suas operações mais ambiciosas desde o começo da guerra, avançando ao redor de Sueda no sul, na campina de Damasco e a leste de Palmira. Dirigem-se paralelamente ao Eufrates naquela que é, claramente, uma tentativa por parte do governo de “libertar” a circunscrita cidade de Deir fez-Azor, cujos 10 mil soldados sírios estiveram sitiados ali durante mais de quatro anos.

Caso puderem levantar o sítio, os sírios terão outros 10 mil soldados que poderiam se unir para recapturar mais territórios. No entanto, o mais importante é que o exército sírio suspeita que o Estado Islâmico – prestes a perder Raqua para os curdos e Mosul para os iraquianos, ambos apoiados pelos Estados Unidos – pode tentar assaltar a guarnição de Deir fez-Azor e declarar uma “capital” alternativa para si mesmo na Síria.

Neste contexto, o ataque americano da segunda-feira foi mais uma advertência aos sírios para se manterem afastados das chamadas Forças Democráticas Sírias – nome de fachada de um grande número de curdos e alguns combatentes árabes – já que agora estão muito próximos uns dos outros no deserto. Os curdos tomarão Raqua – pode ter havido um acordo entre Moscou e Washington sobre isso –, já que o exército sírio está muito mais interessado em aliviar Deir fez-Azor.

O mapa está literalmente mudando a cada dia. Mas o exército sírio segue ganhando contra o Estado Islâmico e suas milícias – com a ajuda da Rússia e de Hezbollah, evidentemente – embora relativamente poucos iranianos estejam envolvidos. Os Estados Unidos exageraram enormemente o tamanho das forças iranianas na Síria, talvez porque isto encaixa com os pesadelos sauditas e americanos de expansão iraniana. Mas o êxito do regime de Assad é certamente preocupante para os americanos e para os curdos.

Então, quem está lutando contra o Estado Islâmico? E quem não está lutando contra o Estado Islâmico? A Rússia afirma que matou o terrível e auto-denominado “califa do Estado Islâmico”, al-Baghdadi. A Rússia disse que está lançando mísseis cruzeiros contra o Estado Islâmico. O exército sírio, apoiado pelos russos, está lutando contra o Estado Islâmico. Presenciei isso com os meus próprios olhos.

Mas o que os Estados Unidos estão fazendo ao obstruírem, primeiro, a base aérea de Assad perto de Homs, depois os aliados do regime perto de Al Tan e agora um dos aviões de combate de Assad? Parece que Washington está agora mais disposto a atacar Assad – e seus partidários iranianos dentro da Síria – do que em destruir o Estado Islâmico. Isso seria seguir a política da Arábia Saudita, e talvez seja o que o regime de Trump quer fazer. De fato, os israelenses bombardearam tanto as forças do regime sírio como o Hezbollah e os iranianos, mas nunca o Estado Islâmico.

É ilustrativo ver que o Ocidente manifeste agora mais indignação pelo uso de gás – culpa o regime de Assad por isso, evidentemente – do que pela contínua crueldade do Estado Islâmico com os civis na maioria das áreas que o “califado” ainda ocupa na Síria e no Iraque. Se devemos acreditar no que todos os americanos agora dizem, que querem destruir o Estado Islâmico, por que estão muito dispostos a continuar a obstruir as forças do governo sírio que estão lutando contra o Estado Islâmico? Quer Washington simplesmente destruir a Síria e deixá-la como um estado fracassado? E pode ter sucesso se a Rússia estiver ameaçando atacar aviões americanos, caso voltarem a atacar os jatos sírios?

18 de junho de 2017

Cresce a resistência de classe à "globalização"

por Prabhat Patnaik


Tradução / O termo "globalização", embora muito utilizado, é extremamente enganoso, tal como o seu presumido "par", o "nacionalismo". Isto acontece porque ambos os termos são utilizados de modo abrangente sem qualquer referência ao seu conteúdo de classe, como se só pudesse haver uma espécie de "globalização" e só uma espécie de "nacionalismo". Utilizar conceitos destacados do seu conteúdo de classe é um dos truques favoritos da ideologia burguesa: o que equivale a conferir universalidade a conceitos que no essencial pertencem só ao discurso burguês, como se este fosse o único discurso possível do universo e todas as opções estivessem confinadas apenas a trajetórias alternativas dentro deste universo.

Esta utilização não-classista de palavras que servem para tudo torna possível estabelecer antinomias. Assim, seja o que for pode parecer melhor do que outra coisa, como se fosse algo razoável. Isso equivale a endossar o que disse o lado conservador de Hegel: "O real é a razão". Portanto é estabelecida uma antinomia entre "globalização" e "nacionalismo" onde a primeira parece progressista, aberta, democrática e transportadora da "modernidade", ao passo que a última parece reacionária, fechada anti-democrática ao ponto de ser fascista, e anti-"moderna". Qualquer oposição àquilo que existe (isto é, a "globalização") é então alcunhada, dentro desta disjuntiva binária, como um movimento reacionário, um afastamento da marcha rumo à "modernidade", em direção a um tradicionalismo opressivo e anti-democrático. A resistência contra a opressão dentro do atual regime de "globalização" é dessa forma desacreditada como uma regressão reacionária a um passado horrendo.

Uma vez que tal ideia também permeia certas seções da esquerda, estas também encaram a resistência a uma "globalização" opressiva (onde a opressão decorre devido ao conteúdo de classe desta globalização), como um recuo para um nacionalismo reacionário – e desenvolvem uma atitude distante em relação à mesma. Isto ironicamente serve para atuar como uma profecia auto-realizável: a própria frieza de segmentos da esquerda em relação à resistência contra a "globalização" dá uma oportunidade às forças reacionárias da direita e mesmo fascistas de se posicionarem como amigas de tal resistência – e isto realmente parece dar a esta resistência o caráter muito reacionário que estes segmentos da esquerda esperavam desde o começo.

Resistência cada vez mais liderada pela esquerda

A questão real portanto é encarar termos como "globalização" levando em conta o seu conteúdo de classe e também o conteúdo de classe da resistência a ela. E aqui emerge o fato inequívoco de que a atual "globalização" – a qual representa a hegemonia do capital financeiro internacional e tem provocado miséria aguda entre os trabalhadores por todo o mundo, ou seja, os trabalhadores nos países capitalistas avançados e os trabalhadores, camponeses, pequenos produtores e trabalhadores agrícolas nos países subdesenvolvidos – está a ser por eles desafiada por toda a parte. Uma resistência, tal como não se via desde há décadas, está a crescer, a qual, embora confinada dentro de países, tem no entanto uma ampla difusão entre os demais. E mais ainda, esta resistência está agora a ser cada vez mais conduzida pela esquerda, pois ela abstém-se por toda a parte da sua anterior ambivalência quanto à globalização liderada pelas finanças. 

As eleições presidenciais dos EUA trouxeram à tona um auto-proclamado socialista, Bernie Sanders, o qual tomou claramente uma posição reconhecendo a miséria aguda acumulada sobre os trabalhadores americanos pela globalização conduzida pelas finanças, e que se desempenhou extremamente bem na corrida eleitoral e poderia mesmo ter derrotado Donald Trump, até ter sido expulso da corrida pelo establishment do Partido Democrata (faltando-lhe infelizmente a coragem para combatê-lo). As eleições presidenciais francesas trouxeram à tona Jean-Luc Melenchon, candidato da esquerda (apoiado pelo PCF) que obteve quase 20 por cento dos votos (19,64), apenas um pouco menos do que Emmanuel Macron que obteve a vitória final no primeiro turno (23,75). E agora as eleições britânica trouxeram à tona um Partido Trabalhista liderado por um socialista, Jeremy Corbyn, que fora sistematicamente ridicularizado não só pelos conservadores como também pelos blairistas dentro do Partido que haviam capturado durante décadas e que eram ardentes advogados das políticas neoliberais promovidas pela globalizada conduzida pelas finanças.

Os resultados da eleição britânica, além de serem uma rejeição de Theresa May cujo governo conservador foi reduzido a uma minoria, e aos blairistas, também cortaram a dimensão do UKIP, o partido de direita anti-imigração que foi um destacado apoiante do Brexit. Ele obteve apenas 1,8 por cento dos votos e nem uma única cadeira, sua votação caiu muito abaixo do 10,8 por cento em comparação com a eleição geral anterior. Uma das afirmações da oposição liberal do establishment ao Brexit foi que era uma campanha da direita a partir da qual o UKIP venceria. Mas claramente a classe trabalhadora britânica, a qual esmagadoramente apoiou o Brexit, assim o fez por causa da opressão econômica da UE e não por qualquer simpatia pelo UKIP. Na verdade, ela tinha escassa consideração pelo UKIP e uma vez que o Partido Trabalhista se livrou da influência blairista na sua liderança, afluiu às bandeiras do Labour. Corbyn pode não ter vencido realmente a eleição, mas ele reconstruiu a ponte entre os sindicatos e o Partido Trabalhista a qual fortalecerá a intervenção da classe trabalhadora e a resistência contra a globalização conduzida pela finança.

Tudo isto são desenvolvimentos na arena eleitoral dos países capitalistas avançados, refletindo a oposição da classe trabalhadora à globalização. Mas mesmo na Índia, uma forte resistência do campesinato contra os apertos a que os levou o regime neoliberal sob a globalização liderada pela finança vieram agora à superfície após um período de tempo muito longo, embora seja demasiado cedo para encontrar reflexo disso na arena eleitoral. O movimento camponês emergiu em pelo menos três estados, Maharashtra, Madhya Pradesh e Rajasthan (todos dominados pelo partido BJP o qual é o instrumento atual para a imposição dos ditames da oligarquia corporativo-financeira ligada à finança internacional), cujas reivindicações incluem preços remunerativos e um cancelamento de dívida (debt-waiver). O movimento chega após um interregno de aproximadamente quatro décadas. Durante quatro décadas houve suicídios de camponeses mas não lutas camponesas em grande escala contra as políticas que levaram ao seu empobrecimento. Não há dúvida que têm sido lutas sobre questões específicas em bolsões específicos mas não movimentos generalizados e sincronizados.

Antecedentes do movimento camponês

Um movimento geral por todos os estados do país a exigir preços remunerativos havia ocorrido só no fim da década de 1970. Vale a pena recordar aqui os antecedentes daquele movimento. O fim dos anos 60 e princípios dos anos 70 foi um período de inflação maciça na Índia, com a taxa em 1973-74 chegando aos 30 por cento na sequência do primeiro choque petrolífero (embora o choque petrolífero tenha apenas se somado à fúria da inflação que tivera início). O drástico esmagamento da classe trabalhadora imposto por esta inflação foi um fator importante por trás da onda de lutas grevistas dos trabalhadores daquele tempo, dos quais a Greve Ferroviária de 1974 foi a mais importante. A insatisfação devida à inflação foi também responsável pelo fato de o [partido do] Congresso de Indira Gandhi perder as assembleias eleitorais em Gujarat.

Portanto, o governo Indira Gandhi estivera sob pressão para fazer algo acerca da inflação. Ele queria controlar esta inflação invertendo os termos de troca entre o setor agrícola e o não agrícola, contra os primeiros, o que significa efetivamente controlar a inflação pelo esmagamento dos camponeses e, através deles, dos trabalhadores agrícolas (uma vez que camponeses "transferem" suas desgraças para os trabalhadores). O período de Emergência foi digno de nota pela mudança dos termos de troca (terms-of-trade) a que deu lugar, tanto assim que muitos investigadores encararam a economia política da Emergência como consistindo na imposição de uma "política de estabilização" anti-camponesa para combater a inflação. Foi esta postura anti-campesinato que provocou manifestações maciças de camponeses (inclusive no Boat Club em Delhi) e um surto de lutas camponesas por todo o país no fim dos anos 70 e princípio dos 80.

Mas aquilo que o governo de Indira Gandhi fez num contexto específico dentro do regime dirigista agora tornou-se a norma dentro do regime neoliberal. As políticas neoliberais impostas pela globalização conduzida pela finança implicaram efetivamente a adoção permanente de um conjunto de políticas anti-camponesas, não apenas para manter baixa a inflação (a qual não está de modo algum tão alta como no princípio dos anos 70) mas para efetuar um processo de acumulação primitiva de capital para o enriquecimento dos monopolistas internos e estrangeiros.

Um tal processo de acumulação primitiva de capital a expensas dos pequenos produtores tradicionais também tem o efeito de esmagar a classe trabalhadora, incluindo seu segmento organizado. Os camponeses deslocados e pequenos produtores que afluem às cidades em busca de empregos, não os encontram. Quando muito, os empregos existentes são partilhados entre mais trabalhadores através de processos de precarização (casualisation), outsourcing, informalização e outros semelhantes, todos os quais contribuem para um inchaço do exército de reserva do trabalho. E tal inchaço mantém baixa a força negocial de todos os trabalhadores, incluindo mesmo a dos trabalhadores organizados. O que acontece aos trabalhadores numa economia como a nossa dentro de um regime neoliberal não é portanto independente do que acontece aos camponeses. Um processo de acumulação primitiva a expensas dos últimos também serve para esmagar os primeiros.

Entretanto, há um segundo meio ainda mais importante pelo qual a acumulação primitiva afeta os trabalhadores. Uma vez que o exército de reserva do trabalho exprime-se não em termos de uma simples dicotomia entre alguns que estão empregados e outros que estão no desemprego, mas antes através de fenômenos como "desemprego disfarçado" e precarização ou trabalhadores empregados intermitentemente, um inchaço das suas fileiras implica um aumento na fragmentação de trabalhadores e portanto um novo enfraquecimento da sua capacidade para resistir. E qualquer enfraquecimento na capacidade da classe trabalhadora para resistir propaga-se também a outros segmentos da população, levando a um rebaixamento geral da resistência de classe.

O que estamos a testemunhar por todo o mundo hoje em dia é uma reversão desta tendência. O capitalismo neoliberal atingiu agora o ponto onde sua tendência espontânea para manter baixa a resistência de classe, através da promoção da fragmentação, já não é mais suficiente para isso. E a resistência de classe, quando começa, tem meios para propagar-se de modo rápido e amplo. 

15 de junho de 2017

Por que a CIA se preocupa com o marxismo

Michael Barker

counterpunch: Tells the Facts and Names the Names

Em um ensaio amplamente lido para a Los Angeles Review of Books intitulado "A CIA lê a teoria francesa: sobre o trabalho intelectual de desmantelar a esquerda cultural" (27 de fevereiro de 2017), Gabriel Rockhill puxa um fio intrigante sobre a CIA e seu interesse em manter-se a par da teoria política francesa ao longo da Guerra Fria. "De acordo com a própria agência de espionagem", observa Rockhill "a teoria francesa pós-marxista contribuiu diretamente para o programa cultural da CIA de carrear a esquerda para a direita, ao desacreditar o antiimperialismo e o anticapitalismo... ". Aqui, o professor está fazendo referência especial a um relatório da CIA recentemente desclassificado, escrito em 1985, que se concentra no meio intelectual em torno de Michel Foucault, Jacques Derrida e Jacques Lacan.

Há evidências abundantes sobre as complexas intervenções culturais da CIA nos assuntos intelectuais franceses - mas é fundamental reconhecer que foram as deficiências políticas das próprias organizações comunistas (ou seja, stalinistas) que tiveram o impacto determinante na trajetória obscurantista das ideias acadêmicas de esquerda. Os próprios guerreiros frios da CIA estavam bem conscientes desses problemas na esquerda e, portanto, esses são exatamente os argumentos que apresentaram em 1985 no seu documento interno "França: Desafio dos intelectuais de esquerda". Neste "relatório de pesquisa" - referido pelo ensaio de Gabriel Rockhill - é claro, a CIA procurou examinar as atitudes em mudança dos intelectuais franceses de modo a "avaliar o provável impacto político no ambiente político em que a política é feita". Portanto, considerando o intrigante foco teórico deste relatório, vale a pena abordar alguns dos argumentos aqui apresentados, mesmo se apenas como um ponto de partida para explorar as falhas das partes mais influentes da esquerda francesa após a Segunda Guerra Mundial.

Certamente, tendo em mente a ferocidade com que a CIA travou a guerra intelectual contra a esquerda - com a ajuda de diversas elites liberais (Foundations of the American Century: The Ford, Carnegie, and Rockefeller Foundations in the Rise of American Power) - é notável que a logística imperialista desta batalha permaneça largamente ignorada dentro do próprio relatório da CIA. Deixando de lado esse importante descuido, o autor anônimo da CIA, pelo menos, enfatiza que foi a repetida desilusão da classe trabalhadora com o Partido Comunista Francês (PCF) que prejudicou a popularidade das ideologias comunistas e socialistas. Na verdade, uma e outra vez, a classe trabalhadora francesa procurou ideias políticas à esquerda para ajudá-la na tarefa crítica de democratizar a sociedade, mas muitas vezes eram traídas por intelectuais comunistas que, em última análise, não tinham fé na classe trabalhadora para mudar a sociedade por si mesma.

O relatório da CIA toca brevemente a traição do governo socialista de Mitterrand na década de 1980, e a volta de Mitterrand às políticas econômicas progressivas de seu partido e "adotou medidas de austeridade que provocaram críticas embaraçosas da esquerda e da direita ..." O autor do relatório escreve: "a dose de austeridade que essas políticas eventualmente forçaram configurou a morte da ideologia de esquerda para muitos observadores informados". Essa reversão fatal serviu para compor os eventos destrutivos e mais "traumáticos do Maio de 1968", que se caracterizaram pela traição do PCF por um movimento genuinamente revolucionário de solidariedade da classe trabalhadora (mais uma vez). Assim, o relatório da CIA conviria com precisão:

“Em maio-junho de 1968, depois de meses de intensificação de protestos, estudantes derrubaram barricadas na seção universitária de Paris e iniciaram um período de guerrilha nas ruas do Quartier Latin. O protesto se espalhou para outras cidades universitárias; os estudantes foram acompanhados por 7 milhões de trabalhadores em greve (que ocuparam as fábricas); o transporte e os serviços públicos pararam; e o governo de 10 anos do general de Gaulle cambaleou. Estudantes marxistas queriam que o Partido Comunista assumisse a liderança e declarassem um governo provisório, mas os líderes do PCF estavam tentando restringir a revolta dos trabalhadores e denunciaram os estudantes radicais como anarquistas de mentalidade lanosa. Muitos estudantes concluíram que o PCF havia feito um acordo com de Gaulle, que eventualmente debelou os tumultos.”

Após o PCF abandonar o levante revolucionário de Maio de 1968, e o fracasso em derrubar o capitalismo, não é surpreendente que as forças conservadoras da reação aproveitassem essa oportunidade para intensificar seu desafio ao marxismo. Nesse sentido, o relatório da CIA refere-se ao sucesso dos "Novos Filósofos", cujas idéias anti-stalinistas e anti-marxistas foram amplamente defendidas na mídia  mainstream (em toda a década de 1970) com a ajuda de Grasset, a altamente influente editora de Bernard-Henri Levy editora. O autor da CIA descreve então como esses Novos Filósofos se tornaram desiludidos com a esquerda, observando como "a  pusilanimidade dos partidos de esquerda tradicionais durante a revolta estudantil de 1968 tirou a escama de seus olhos, fazendo com que eles rejeitem sua fidelidade ao Partido Comunista, ao socialismo francês e até mesmo aos princípios essenciais do marxismo".

O autor do relatório continua a explicar como "Raymond Aron, reverente deão do pensamento conservador contemporâneo na França", trabalhou longos anos em seus esforços para desacreditar "o edifício intelectual do marxismo francês". Mas, mais importante, o relatório reconhece: "Ainda mais eficazes em minar o marxismo, no entanto, foram os intelectuais que se propuseram como verdadeiros crentes a aplicar a teoria marxista nas ciências sociais, mas acabaram repensando e rejeitando toda a tradição". Com esse objetivo, o analista da CIA sugere:

“Entre os historiadores franceses do pós-guerra, a influente escola de pensamento associada a Marc Bloch, Lucien Febvre e Fernand Braudel superou os historiadores marxistas tradicionais. A escola dos Annales, como é conhecida por seu principal periódico, transformou a tradição de estudos históricos francesa nas décadas de 1950 e 1960, principalmente desafiando e depois rejeitando as teorias marxistas até então dominantes do progresso histórico. Embora muitos dos seus expoentes afirmem que estão "na tradição marxista", isso significa apenas que eles usam o marxismo como um ponto de partida crítico para tentar descobrir os padrões reais da história social. Na maior parte, eles concluíram que as noções marxistas da estrutura do passado - das relações sociais, dos padrões de eventos e da sua influência a longo prazo - são simplistas e inválidas. 
No campo da antropologia, a influente escola estruturalista associada a Claude Levi-Strauss, Foucault e outros realizaram praticamente a mesma missão. Embora tanto o estruturalismo como a metodologia dos Annales tenham entrado em tempos difíceis (os críticos os acusam de serem muito difíceis para os não iniciados), acreditamos que a sua demolição crítica da influência marxista nas ciências sociais provavelmente suportará como um profundo contributo para a erudição moderna tanto na França como e em outros países da Europa Ocidental.”

O que o autor da CIA deixa sem menção nesta declaração histórica concisa é o papel que as elites americanas desempenharam ao nutrir os teóricos da escola dos Annales como uma faceta central da Guerra Fria cultural. Felizmente, este importante momento da história é revisado no livro Fast Cars de Kristin Ross, Fast Cars, Clean Bodies: Decolonization and the Reordering of French Culture (1996).

“As ciências sociais francesas com as quais estamos familiarizados agora foram assim uma invenção pós-guerra e, em todos os aspectos da modernização francesa após a guerra, sua ascendência teve alguma relação com a intervenção econômica dos EUA. Em certa medida, a mudança para este tipo de estudo foi financiada e facilitada pelos Estados Unidos em uma espécie de Plano Marshall para intelectuais. Uma revisão da literatura expõe um argumento convincente de que a principal exportação americana do período não era Coca-Cola ou filmes, mas a supremacia das ciências sociais. Em outubro de 1946, o diretor da divisão de ciências sociais da Fundação Rockefeller proclamou: 'Uma Nova França, uma nova sociedade está emergindo das ruínas da ocupação; o melhor dos seus esforços é magnífico, mas os problemas são surpreendentes. Na França, a questão do conflito ou a adaptação entre o comunismo e a democracia ocidental aparece na sua forma mais aguda. A França é o seu campo de batalha ou laboratório.' Ao expandir as ciências sociais na Europa, os americanos procuraram conter o progresso do marxismo no mundo.” (p.186)

Ross escreve que a "tática principal" empregada peos intelectuais apoiados pelo Ocidente na escola dos Annales "era a do canibalismo: abranger e absorver os inimigos como um meio de controlá-los". Ele se refere a essa abordagem como "Ciência da sociologia empírica e quantitativa - o estudo da repetição - que foi erguida contra a ciência da história, o estudo do evento".

“Nos anos 50 e 1960, Braudel, Le Roy Laduirie e outros, instalados depois de 1962 na Maison des sciences de l'homme, produziram o que Braudel chamava de "uma história cuja passagem é quase imperceptível... uma história em que todas as mudanças são lentas, Uma história de repetição constante, ciclos sempre recorrentes." Seus inimigos mais formidáveis ​​no campo da história viviam do outro lado da rua: a longa linhagem dos historiadores marxistas da revolução francesa - Georges Lefebvre, Albert Soboul e outros - alojados na Sorbonne. O que está em jogo no apagamento do estudo do movimento social a favor das estruturas é a possibilidade de mudança ou mutação abrupta na história: a ideia da própria Revolução. Os antigos historiadores do evento por excelência da história da França, cada um por sua vez ocupando a cátedra presidencial para o estudo do instituto da Revolução Francesa pela Sorbonne depois de 1891, olharam de relance para a modernização completa, bem financiados e bem equipados (com fotocopiadoras e computadores) dos seus colegas do outro lado do caminho.” (p.189)

Com relevância específica para comentários da CIA sobre a ascensão e o desenvolvimento do estruturalismo francês, é útil refletir sobre a análise de Ross sobre este campo de estudo. Como ele afirma:

“A ascensão do estruturalismo nas décadas de 1950 e 1960 foi acima de tudo um ataque frontal ao pensamento histórico em geral e à análise dialética marxista em particular; o apelo a muitos intelectuais franceses de esquerda após 1956 foi superdeterminado pela crise no Partido Comunista francês e no marxismo na sequência das revelações dos crimes de Stalin e da invasão soviética da Hungria no final desse ano. Após eventos históricos tão desordenados, a precisão pura e científica do estruturalismo ofereceu uma espécie de descanso.” (p.180)

Além de Febvre e Braudel, nesta etapa, vale a pena refletir brevemente sobre a carreira de outro famoso proponente do estruturalismo francês, Claude Lévi-Strauss. Isso porque, em 1941, enquanto vivia no exílio na América, a Lévi-Strauss foi oferecido um emprego na New School for Social Research da cidade de Nova York, onde, com a ajuda da Fundação Rockefeller, ajudou a fundar a École Libre des Hautes Études com uma carta oficial do governo de de Gaulle no exílio. Após a guerra, Lévi-Strauss passou a trabalhar como adido cultural na embaixada da França em Washington, antes de retornar à França em 1948, após o que se tornou diretor de estudos em antropologia (1950-74) na recém criada École Pratique des Hautes Études, Seção VI. Como Kristen Ross escreve:

“Uma subvenção da Fundação Rockefeller em 1947 ajudou a financiar a fundação da VI seção da Ecole pratique des hautes etudes sob a direção do historiador Lucien Febvre, que havia aproveitado a iniciativa de um grupo rival de sociólogos liderados por Georges Gurvitch. Localizado em Fransois Furet no início da década de 1960, esta instituição seria fundamental para o futuro das ciências sociais na França: em 1962, quando o sucessor de Febvre, Fernand Braudel reuniu todos os laboratórios de pesquisa espalhados pelo Bairro Latino e abrigou-os num único edifício no Boulevard Raspaid, a Maison des sciences de l'homme, a Fundação Ford ajudou a financiar a operação. Em 1975, a seção VI, por sua vez, se emanciparia da Ecole pratique e se tornaria a Ecole de hautes etudes en sciences sociales, com status universitário e a autorização para conceder diplomas.” (p.187)

A decisão da Fundação Ford, em 1959, de financiar a Maison des sciences de l'homme provou ser um momento crítico para a evolução das ciências sociais francesas, uma vez que a concessão de Ford de US $ 1 milhão certamente lhe trouxe grande influência. Além disso, logo após a concessão deste subsídio, a Ford também ajudou Raymond Aron a lançar seu Institute of European Sociology em Paris. Certamente, não é uma coincidência que Aron já tenha desempenhado um papel proeminente nos compromissos do Congresso para a Liberdade Cultural apoiado pela CIA - uma famosa empresa anticomunista que havia sido criada em Paris em 1950, com o apoio total das fundações liberais mais influentes da América.

Essas intervenções filantrópicas tão variadas em assuntos franceses "foram complementadas pelo apoio à construção de instituições transnacionais ao nível da Comunidade Européia e pela promoção de laços transatlânticos". Um intermediário intelectual chave a este respeito foi o economista francês Jean Monnet, que, enquanto trabalhava de mãos dadas com os filantropos americanos, foi um dos pais fundadores da OTAN e da União Européia. Monnet desfrutou de suas próprias ligações com elites econômicas e políticas no Bilderberg Club, e na década de 1950 formou seu próprio Action Committee for a United States of Europe. Além disso, em cima desses esforços transatlânticos para consolidar os interesses capitalistas, a "Fundação Ford investiu em educação de gestão de estilo americano em toda a Europa Ocidental e, em 1960, a Associação Européia de Treinamento de Gestão, com Pierre Tabatoni como presidente, atuou como uma organização guarda-chuva para essas escolas..."

Os projetos filantrópicos que procuram orientar as pesquisas acadêmicas europeias para longe do marxismo não foram, obviamente, limitados às ciências sociais - uma questão de influência que é expandida no livro de John Krige, American Hegemony and the Postwar Reconstruction of Science in Europe (2008). Em referência ao desenvolvimento da ciência francesa mais particularmente, Krige ressalta como Warren Weaver, que foi diretor da Divisão de Ciências Naturais da Fundação Rockefeller (1932-55)...

“e a fundação não estava simplesmente interessada em apoiar boas ciências e novas direções na França. Eles queriam usar sua alavanca financeira para dirigir cientistas franceses em linhas bem definidas. Weaver, em particular, acreditava que os franceses eram paroquiais e visuais. Ele queria transformá-los em pesquisadores "internacionais" voltados para o exterior, usando técnicas e abordando questões que estavam atualizadas sobretudo nos Estados Unidos. Foi uma visão inspirada pela convicção de que, sem uma remodelação radical da comunidade científica francesa em linhas americanas e a determinada marginalização de cientistas comunistas no campo da biologia, o país nunca mais poderia esperar desempenhar novamente um papel importante no avanço de ciência.” (p.81)

Outra parte integrante da batalha pós-Segunda Guerra Mundial em curso pelas mentes francesas estava mais fundamentalmente preocupada com a difamação das organizações de massas da própria classe trabalhadora - os sindicatos. Esta batalha foi ocupada pelo Comitê Sindical Livre da AFL, e muitas autoridades sindicais americanas se mostraram mais do que prontas para enfrentar a guerra contra o comunismo (e a democracia sindical) ao intervir secretamente nos assuntos cotidianos dos sindicatos. Nas suas conexões em desenvolvimento com o Comitê de Sindicatos Livres, a CIA teve sorte e "encontrou um aliado dedicado e experiente, com extensas redes e anos de experiência na manipulação secreta dos movimentos trabalhistas internacionais". O caráter subjugado desse longo e antidemocrático relacionamento está bem resumido por "um memorando do governo, não assinado, mas anexado a uma carta de novembro de 1948 de David Bruce, o Chefe da Missão Especial na França dirigido a Paul Hoffman, Administrador da Economic Cooperation Administration":

“[...] não será suficiente bombear centenas de milhões de dólares em alimentos, máquinas, carvão e matérias-primas. Devemos encontrar um meio de não só ajudar a indústria, de ajudar diretamente os representantes diretos dos trabalhadores. Isso é muito difícil. Os sindicatos não aceitam qualquer ajuda de um governo estrangeiro. (Se esse auxílio se tornar disponível, ele deve estar disfarçado e, em nenhuma circunstância, as pessoas aqui podem saber sobre isso. Todo o assunto, portanto, exige o máximo de discrição.) Eles aceitarão apenas ajuda sindical.”

Depois de administrar o Plano Marshall para interesses imperiais, Paul Hoffman passou de seu papel como chefe da Administração de Cooperação Econômica para se tornar o presidente da Fundação Ford (1950-3) na América. A natureza inter-relacionada e sofisticada de intervenções tão sofisticadas nos assuntos políticos da França é utilmente descoberta no estudo incisivo de Giles Scott-Smith, Networks of Empire: The US State Department’s Foreign Leader Program in the Netherlands, France, and Britain, 1950-70 (2011). Scott-Smith supõe:

“A capacidade dos EUA de interferir nos assuntos franceses foi incomparável durante a primeira década [após o final da Segunda Guerra Mundial], mas os governos em Paris ainda conseguiram manter uma visão independente e orientar seu próprio curso, beneficiando-se do seu lugar especial no interior da estratégia dos EUA para a Europa Ocidental. A Administração de Cooperação Européia, com sede em Paris, exerceu uma tremenda influência no cenário socioeconômico francês, mas implementou-o através de sua própria versão, o Plano Monnet. A ajuda financeira e militar dos EUA foi reciclada para permitir que guerras coloniais duradouras fossem travadas na Indochina e no norte da África. A relutância francesa em apoiar um ressurgimento econômico da Alemanha logo se tornou sublimada em planos estruturais para a integração européia, com Paris liderando o caminho. Enquanto a CIA apoiou o sindicato Force Ouvrière e uma série de outros meios de comunicação anticomunistas como o Congresso para a Liberdade Cultural em Paris, as elites políticas francesas adotaram voluntariamente suas próprias estratégias para minar a influência comunista. A influência dos EUA foi, portanto, limitada pelos imperativos políticos e sociais franceses.” (p.327)

Voltando à análise apresentada no relatório agora desclassificado da CIA, é de salientar que os autores do relatório minimizam a orientação fascista / tradicionalista das forças da Nova Direita que elevaram sua proeminência na sequência de 1968. Na verdade, a CIA inicialmente se refere a estas forças em seu relatório como os "novos liberais". Mais tarde, o analista da CIA afirma:

“Encorajados por escritores e editores que estão associados de alguma forma com o barão da imprensa de direita Robert Hersant, a Nova Direita na França retomou as idéias de reviver o liberalismo europeu clássico como o elixir que a França precisa para se recuperar da "má-administração" socialista.”

Em um apêndice mais revelador do seu relatório, intitulado "Aspectos culturais do pensamento da Nova Direita", a CIA, no entanto, mostra como:

“Os escritores conservadores, muitos deles associados ao Research and Study of European Civilization (GRECE) e do Clube do Relógio (Club de l'Horloge)... encontraram uma saída para seus argumentos nas publicações da Hersant, notadamente a revista Figaro, que era editada pelo mentor espiritual da GRECE, Louis Pauwels.”

Aqui, a CIA também chama a atenção para "os elementos anti-igualitários e até mesmo anti-cristãos do pensamento GRECE / Horloge", mas apenas para observar, como nos últimos anos, esse elemento de seu pensamento aparentemente havia sido atenuado para melhor espalhar suas ideias tóxicas. Dito isto, o relatório da CIA, pelo menos, admite que o GRECE não era realmente "novos liberais", pois eles apontam que mesmo:

“Raymond Aron, reverente deão do pensamento conservador contemporâneo na França, detestava os intelectuais da Nova Direita, muitas vezes equiparando seu anti-igualitarismo elitista com os piores esforços antidemocráticas no conservadorismo francês.”

No entanto, a partir de 1968, é claro que o establishment capitalista na América e na França procurou fazer tudo o que estivesse ao seu alcance para minar a unidade nacional e internacional da luta da classe trabalhadora. Expressou-se de uma forma contundente, isso levou um foco renovado à exclusão de certas vozes de esquerda dos principais meios de comunicação. Aqui, um bom exemplo de tais práticas é fornecido pelo ativismo do financista de direita, Sir James Goldsmith, que em 1977 comprou o L'Express, um jornal popular que o novo dono havia identificado anteriormente como "a fonte da doença intelectual da França". O primeiro passo de Sir James na aquisição deste jornal foi impor Raymond Aron à equipe do jornal. Em um nível acadêmico mais mundano, as agências de financiamento de elite também continuaram a apoiar os esforços acadêmicos para aprender mais sobre a ameaça representada por um movimento sindical cada vez mais militante em toda a Europa Ocidental.

Em última análise, no entanto, apesar de muitos ganhos notáveis e vitórias inspiradoras, as forças de esquerda foram tragicamente derrotadas por um assalto neoliberal ressurgido e coordenado contra a democracia em todo o mundo. Como na França, esse processo de transformação neoliberal foi facilitado pela colaboração voluntária do Partido Comunista com membros da classe dominante e com as traições da classe trabalhadora por reformistas à esquerda como Mitterrand. Foi nessas condições desfavoráveis que as teorias pós-modernas dos pós-estruturalistas franceses intelectualmente debilitadas, mas bem financiadas, posteriormente receberam um ponto de vista indesejável dentro da academia e, até certo ponto, da mídia convencional. Como o teórico literário marxista Terry Eagleton argumenta em seu livro Literary Theory: a Introduction (1983):

“O pós-estruturalismo era um produto dessa mistura de euforia e desilusão, libertação e dissipação, carnaval e catástrofe, que era 1968. Não sendo possível quebrar as estruturas do poder do estado, o pós-estruturalismo pôde, em vez disso, subverter as estruturas da linguagem. Não era provável, pelo menos, que ninguém te batesse na cabeça por fazê-lo. O movimento estudantil foi expulso das ruas e conduzido subterrâneo ao discurso. Seus inimigos... tornaram-se sistemas de crenças coerentes de qualquer tipo - em particular todas as formas de teoria política e organização que procuravam analisar e atuar sobre as estruturas da sociedade como um todo.” (p.142)

É claro que essas correntes morosas e intelectualmente incoerentes do retiro "esquerdista" não permaneceram confinadas à França - como exemplificado pelo apoio da Fundação Ford a um programa de dois anos de seminários em meados da década de 1960, que deu um impulso ao estruturalismo francês em margens americanas. No entanto, apesar de tais retornos acadêmicos para aqueles da esquerda, a possibilidade de lutas emancipadoras da classe trabalhadora se tornam mais visíveis no horizonte desumano do capitalismo. Os primeiros sinais desse avivamento podem ser vistos pela popularidade ressurgente conquistada por candidatos políticos socialistas como Bernie Sanders (na América), Jean-Luc Mélenchon (na França) e Jeremy Corbyn (na Grã-Bretanha).

Sem dúvida, a classe dominante e suas agências de inteligência irão, neste momento, elaborar freneticamente novos "relatórios de pesquisa" para que eles possam orientar suas atividades políticas em uma tentativa vã de neutralizar esse clima crescente de resistência. Então, desta vez, temos que garantir que aprendemos as lições apropriadas da história. Em primeiro lugar, devemos nos recusar a permitir que novos líderes socialistas nos enganem em nossa tentativa de liberdade. E, portanto, devemos ter claro que, se nossos líderes não estão à altura de nos ajudar a construir uma alternativa democrática e socialista ao status quo falido, devemos estar prontos para substituí-los e, finalmente, estar dispostos a aproveitar o poder para nós mesmos.

12 de junho de 2017

A OTAN e o neonazismo na Europa

Manlio Dinucci

Il Manifesto

Tradução / A Ucrânia, de fato já na OTAN, quer agora entrar oficialmente na organização. O parlamento de Kiev, votou no dia 8 de junho por maioria (276 contra 25) uma emenda legislativa que torna prioritário esse objetivo. A sua admissão na OTAN não seria um ato formal. A Rússia é acusada pela Otan de ter anexado ilegalmente a Crimeia e de conduzir ações militares contra a Ucrânia.

Em consequência, se a Ucrânia entrasse oficialmente na OTAN, os demais 29 membros da Aliança, com base no Artigo 5, deveriam “ajudar a parte atacada empreendendo ações julgadas necessárias, inclusive o uso da força armada”. Em outras palavras, deveriam declarar guerra à Rússia.

O mérito de ter introduzido na legislação ucraniana o objetivo de entrar na OTAN é do presidente do parlamento Andriy Parubiy. Cofundador em 1991 do Partido nacional-social ucraniano, segundo o modelo do Partido nacional-socialista de Adolf Hitler; chefe das formações paramilitares neonazistas, usadas em 2014 no golpe da Praça Maidan, sob a direção dos EUA e da OTAN, e no massacre de Odessa; chefe do Conselho de Defesa e Segurança Nacional que, com o Batalhão Azov e outras unidades neonazistas ataca os civis ucranianos de nacionalidade russa na parte oriental do país e efetua com esquadrões especiais espancamentos de militantes do Partido Comunista, devastando as suas sedes e queimando livros no perfeito estilo nazista, enquanto o mesmo Partido está para ser posto oficialmente na ilegalidade. Este é Andriy Parubiy que, como presidente do parlamento ucraniano (cargo que lhe foi conferido pelos seus méritos democráticos em abril de 2016), foi recebido em 5 de junho no Palácio Montecitorio pela presidente da Câmara, Laura Boldrini. “A Itália – sublinhou Boldrini – sempre condenou a ação ilegal realizada há anos em uma parte do território ucraniano”. Assim, ela avalizou a versão da OTAN segundo a qual a Rússia teria anexado ilegalmente a Crimeia, ignorando o fato de que a escolha dos russos da Crimeia de separar-se da Ucrânia e reingressar na Rússia foi tomada para impedir de ser atacada, como os russos do Donbass, pelos batalhões neonazistas e as demais forças de Kiev.

O cordial colóquio foi encerrado com a assinatura de um memorando de entendimento que “reforça ulteriormente a cooperação parlamentar entre as duas assembleias, tanto no plano político como no administrativo”. 

Reforça-se, assim, a cooperação entre a República italiana, nascida da Resistência contra o nazi-fascismo, e um regime que criou na Ucrânia uma situação análoga àquela que levou ao advento do fascismo nos anos 1920 e do nazismo nos anos 1930. O batalhão Azov, cuja marca nazista é representada pelo emblema decalcado do símbolo das SS do Reich, e incorporado na Guarda nacional, foi transformado em unidade militar regular e promovido ao status de regimento de operações especiais.

Foi, assim, dotado de veículos blindados e peças de artilharia. Com outras formações neonazistas transformadas em unidades regulares, é treinado por instrutores estadunidenses da 173ª divisão aerotransportada, transferidos de Vicenza (Itália) para a Ucrânia, ao lado de outros instrutores da OTAN.

A Ucrânia é assim transformada em “berço” do renascido nazismo no coração da Europa. Para Kiev confluem neonazistas de toda a Europa, inclusive da Itália. Depois de treinados e postos à prova em ações militares contra os russos da Ucrânia no Donbass, regressam aos seus países. Doravante, a OTAN vai rejuvenescer as fileiras da Gládio.

9 de junho de 2017

Os fatos que provam o triunfo eleitoral de Corbyn

Jonathan Cook

counterpunch: Tells the Facts and Names the Names

Tradução / Assistindo à cobertura que a BBC deu à eleição, qualquer um chegaria a duas conclusões. Primeira, que a campanha de Theresa May foi horrível e sabotou a candidata, em vez de promovê-la; e segunda que, por mais que Jeremy Corbyn estivesse festejando, ele saía das urnas, isso sim, absolutamente derrotado.

São as conclusões que se poderia esperar de uma classe de especialistas midiáticos que consumiram dois anos, sem trégua, ofendendo e caluniando Corbyn, declarando-o "inelegível", avisando que só teria votos de um pequeno nicho de radicais de esquerda, e anunciando que os Trabalhistas estavam a um passo da pior derrota eleitoral da história contemporânea – se não de todos os tempos. A mensagem de justiça social de Corbyn estaria alienando o interior do Reino Unido.

Assim sendo, temos de dar um passo atrás, examinar os números da eleição e ver como se saiu, na verdade, o partido Trabalhista liderado por Corbyn.

Corbyn obteve 41% dos votos, contra 44% para May. Dado o sistema inerentemente falho do Reino Unido, obteve cerca de 50 cadeiras a menos que os Conservadores – mas mesmo assim obteve melhora muito significativa em relação ao número de cadeiras trabalhistas sob Ed Miliband. Não há grupo majoritário no Parlamento e, para sobreviver, May dependerá dos votos de um pequeno grupo de sindicalistas do Ulster da Irlanda do Norte, o que cria governo terrivelmente instável.

Mas como Corbyn se saiu em termos de votos do Partido Trabalhista em comparação com seus antecessores recentes? Ele teve muitos mais votos do que Ed Miliband, Gordon Brown e Neil Kinnock, que estavam entre aqueles que, às vezes, ruidosamente, se opuseram à sua liderança do partido.

Mas o que dizer dos votos que Corbyn obteve, comparados aos de Tony Blair, seu crítico de mais alta hierarquia midiática cujos muitos aliados na bancada Trabalhista nunca se cansaram de desafiar e subverter a liderança de Corbyn nos últimos dois anos, e tentaram derrubá-lo, inclusive encenando um movimento contra o líder, no ano passado?

Aqui vão os números das três vitórias de Blair. Em 2005, obteve 36% dos votos – muito menos que Corbyn. Em 2001, 41% – praticamente o mesmo que Corbyn. E a vitória arrasadora de Blair em 1997 foi-lhe assegurada por 43% dos votos, apenas 2 p.p. acima da porcentagem de votos para Corbyn na noite passada.

Em suma, Corbyn é hoje comprovadamente o líder Trabalhista mais popular entre os eleitores em mais de 40 anos, exceto no caso da vitória de Blair em 1997. Sim, mas é preciso lembrar o preço que Blair pagou por uma vantagem realmente muito pequena sobre os votos dados a Corbyn. Por baixo dos panos, Blair vendeu a alma do Partido Trabalhista à City de Londres, às megacorporações e aos seus lobbyistas. Esse pacto faustiano atraiu para a candidatura de Blair o apoio de quase toda a mídia britânica, inclusive do bloco de jornais e canais de TV comandado por Rupert Murdoch. As empresas mobilizaram toda sua máquina de propaganda para pôr Blair no poder. E com tudo isso Blair só conseguiu 2 p.p. de votos a mais que Corbyn – que teve a mesma violenta máquina de propaganda, mas trabalhando contra ele.

Além disso, também diferente de Corbyn, Blair não precisou enfrentar grande parte do próprio partido que operava para destruí-lo também de dentro para fora.

Além disso tudo, Blair contou com muitos votos escoceses para os Trabalhistas, bloco que já não existia quando Corbyn chegou à liderança. Hoje, a maior parte daqueles votos vão para o Scottish National Party (SNP) que atua pela independência da Escócia.

Todos esses números já indicam claramente a extensão do feito de Corbyn.

Outro ponto. A grande vitória em 1997 foi o auge do sucesso de Blair. Quando os membros do Partido Trabalhista deram-se conta do que Blair fizera para chegar àquela vitória, o apoio parlamentar começou a diminuir e nunca mais se recuperou, até que Blair teve de deixar a liderança; e entregou ao sucessor, Gordon Brown, um partido exangue.

Com Corbyn, a campanha eleitoral mostrou que há um grande desejo por sua honestidade, sua paixão, seu compromisso com a justiça social - pelo menos quando o público teve a chance de ouvir diretamente dele, ao invés de ter suas políticas e personalidade mediadas e distorcidas por uma mídia corporativa tendenciosa e auto-suficiente. Diferente de Blair, que destruiu o Partido Trabalhista a ponto de convertê-lo em partido Thatcherista, Corbyn está reconstruindo o Partido Trabalhista como movimento social instrumento de políticas progressistas.

Aqui está um gráfico que oferece outra medida da extensão da conquista da Corbyn ontem à noite.


Aí se vê que Corbyn obteve o maior aumento na porcentagem de votos trabalhistas em relação à eleição geral prévia, desde Clement Attlee em 1945. Em resumo: Corbyn conseguiu reformatar o destino eleitoral do Partido Trabalhista inglês mais completamente que qualquer outro líder do partido, em 70 anos.

E, ao contrário de Blair, ele fez isso sem fazer negócios escusos com as grandes empresas para eviscerar os programas econômicos e sociais de seu partido.

8 de junho de 2017

Esta é a verdadeira história por trás da crise econômica que se desenrola no Catar

Somente as peças de Shakespeare poderiam se aproximar da descrição de tal traição - as comédias, evidentemente

Robert Fisk

The Independent

A nação está agora envolvida em uma crise - mas em que parte a Arábia Saudita está brincando? Reuters

Tradução / A crise no Catar prova duas coisas: a infantilização continuada dos estados árabes e o total colapso da unidade dos muçulmanos sunitas, unidade que teria sido supostamente criada pela participação absurda de Donald Trump na conferência de cúpula dos sauditas, há duas semanas.

Depois de prometer lutar até a morte contra o "terror" xiita iraniano, a Arábia Saudita e parceiros mais íntimos agora se mobilizaram para combater um de seus vizinhos mais ricos, o Catar, que seria a cabeça do "terror". Só em peças de Shakespeare se vê traição de tais proporções. Nas comédias de Shakespeare, claro.

Porque, na verdade, há algo de inacreditavelmente delirante nessa charada. Claro que cidadãos do Catar com certeza contribuíram para o ISIS. Mas, isso, cidadãos da Arábia Saudita também fizeram.

Nenhum catari disparou aviões no dia 11/9 contra New York e Washington. Mas todos os 19 assassinos eram sauditas. Bin Laden não era catari. Era saudita.

Mas Bin Laden dava preferência ao canal al-Jazeera do Catar, para divulgar suas falas pessoais, e foi o canal al-Jazeera quem tentou dar novo ânimo aos desesperados da al-Qaeda/Jabhat al-Nusrah na Síria, garantindo ao líder deles horas e horas de transmissão gratuita para explicar que, sim, eram grupo muito moderado, dedicado amante da paz.

Primeiro, tiremos da frente as partes histericamente cômicas dessa história. Vejo que o Iêmen estaria rompendo suas conexões aéreas com o Catar. A notícia deve ser sido um choque para o pobre emir do Catar, Xeique Tamim bin Hamad al-Thani, porque o Iêmen – sob bombardeio ininterrupto pelos ex-amigos sauditas e dos Emirados –, já não tem sequer um avião aproveitável com o qual criar, imaginem romper, conexões aéreas.

As Maldivas também romperam as relações com o Catar. Com certeza, isso não tem nada a ver com a promessa recente de uma facilidade de empréstimo saudita de cinco anos de US $ 300 milhões para as Maldivas, a proposta de uma empresa de propriedade saudita de investir US $ 100 milhões em uma estância familiar nas Maldivas e uma promessa de estudiosos islâmicos sauditas de gastar US $ 100.000 em 10 mesquitas de "classe mundial" nas Maldivas.

E não vamos mencionar o número bastante significativo de militantes do ISIS e outros cultistas islâmicos que chegaram para lutar pelo ISIS no Iraque e na Síria - bem, das Maldivas.

Agora que o emir do Catar está sem soldados suficientes para defender o próprio pequeno país, os sauditas resolvem que ele teria de solicitar que os exércitos sauditas invadam o Catar para restaurar a estabilidade – como os sauditas em 2011 persuadiram o rei do Bahrain a fazer. Mas o Xeique Tamim sem dúvida espera que a gigantesca base aérea militar dos EUA no Catar seja suficiente para conter a generosidade saudita.

Quando perguntei ao pai de Tamin, Xeique Hamad (que adiante foi impiedosamente derrubado do poder por Tamin) por que não despachara os americanos para bem longe do Catar, ele respondeu: "Porque, se tivesse despachado, meus irmãos árabes me invadiriam."

Tal pai, tal filho, suponho. Deus abençoe a America.

Tudo começou – conforme querem que acreditemos – com um suposto ataque de hackers contra a Agência Catar News, que expôs alguns comentários pouco elogiosos, mas incomodamente corretos, do emir do Catar sobre a necessidade de manter um relacionamento com o Irã.

O Catar negou a veracidade da história. Os sauditas resolveram que era tudo verdade e divulgaram aqueles conteúdos pela própria (e mortalmente entediante) rede de televisão estatal. O supracitado emir, essa era a mensagem, fora longe demais daquela vez. Os sauditas, não o minúsculo Catar, mandam no Golfo. E a visita de Donald Trump não comprovou precisamente isso?

Mas os sauditas têm outros problemas com os quais se preocupar. O Kuwait, longe de romper relações com o Catar, faz agora as vezes de pacificador entre Catar e sauditas e Emirados. O Emirado de Dubai é muito próximo do Irã, recebeu dezenas de milhares de expatriados iranianos e absolutamente não segue o exemplo de ira anti-Catar que vem de Abu Dhabi.

Há poucos meses, Omã estava até fazendo manobras navais conjuntas com o Irã. O Paquistão há tempos declinou o convite para mandar seus exércitos ajudar os sauditas no Iêmen, porque os sauditas requereram só soldados sunitas, não soldados xiitas; o exército paquistanês sentiu-se muito compreensivelmente ultrajado ao se dar conta de que a Arábia Saudita já operava para sectarizar até o corpo militar paquistanês.

O ex-comandante do exército do Paquistão, o general Raheel Sharif, espalhou rumores que está à beira da renúncia como chefe da aliança muçulmana patrocinada pelos sauditas para combater o "terror".

O presidente marechal de campo al-Sissi do Egito andou chiando contra o Catar por apoiar a Fraternidade Muçulmana no Egito – e o Catar, sim, apoia mesmo o grupo agora banido, que Sissi diz, erradamente, que seria parte do ISIS – mas o Egito, embora receba milhões dos sauditas, tampouco tem intenção de mandar soldados seus para ajudar os sauditas naquela guerra catastrófica que fazem contra o Iêmen.

Além disso, Sissi precisa de seus soldados egípcios para expulsar o ISIS e manter, mancomunado com Israel, o sítio contra a Faixa de Gaza palestina.

Mas, se se olha um pouco adiante pela estrada, não é difícil ver o que realmente preocupa os sauditas. O Catar também mantém silenciosos laços com o regime de Assad; ajudou a libertar com segurança as freiras cristãs sírias sequestradas pela Jabhat al-Nusrah; e ajudou a libertar soldados libaneses sequestrados pelo ISIS no oeste da Síria. Quando as freiras deixaram o cativeiro, agradeceram a ambos, a Bashar al-Assad e ao Catar.

E há suspeitas crescentes no Golfo de que o Catar tem ambições muito maiores: financiar a reconstrução da Síria pós-guerra. Mesmo se Assad permanecer como presidente, a dívida síria poria a nação sob controle econômico do Catar.

Isso, sim, daria ao minúsculo Catar duas taças de ouro. Dar-lhe-ia um império territorial que faria dupla com o império midiático al-Jazeera. E estenderia a prodigalidade aos territórios sírios, os quais muitas empresas de petróleo gostariam de usar como rota de oleodutos do Golfo à Europa via Turquia, ou via navios-tanques petroleiros, do porto sírio de Lattakia.

Para os europeus, essa rota reduz as chances de serem chantageados pelo petróleo russo, e cria vias marítimas para o petróleo, menos vulneráveis se os navios-tanque não tiverem de cruzar o Golfo de Hormuz.

Então, colheitas ricas para o Qatar - ou para a Arábia Saudita, claro, se os pressupostos sobre o poder dos EUA dos dois emires, Hamad e Tamim, se provar inútil. Uma força militar saudita no Qatar permitiria que Riyad engolisse todo o gás líquido do emirado.

Mas evidentemente os sauditas "antiterror" e amantes da paz – deixemos de lado por um instante as degolas – jamais desejariam a um irmão árabe destino tão desgraçado.

Assim sendo, esperemos que, pelo menos por enquanto, as linhas aéreas da Catar Airways sejam a única parte esquartejada do corpo político catari.