15 de outubro de 2017

Mudanças estruturais no interior do imperialismo

Prabhat Patnaik


Tradução / Durante longo tempo foi possível classificar as divisas do mundo em três categorias distintas: (i) a divisa principal, tipicamente pertencente à principal potência imperialista, os Estados Unidos, a qual era considerada "tão boa quanto o ouro" pelos possuidores da riqueza do mundo; (ii) outras divisas metropolitanas nas quais os possuidores da riqueza do mundo também mantinham sua riqueza, mas as quais, precisamente por não serem consideradas "tão boas quanto o ouro", tinham de manter um certo valor estável em relação à divisa principal através do prosseguimento de políticas macroeconómicas apropriadas; e (iii) divisas do terceiro mundo as quais, independentemente das políticas macroeconómicas que fossem prosseguidas, geralmente esperava-se que se depreciassem ao longo do tempo no seu valor relativo face aos dois conjuntos de divisas acima, tanto em termos nominais como reais (isto é, mesmo quando as taxas diferenciais de inflação entre aqueles países e as economias metropolitanas fossem consideradas) e nas quais, portanto, detentores de riqueza não gostariam de manter a sua riqueza. Os possuidores locais de riqueza em tais países sem dúvida assim o faziam, mas isto era devido ou à inércia ou à coerção (isto é, à existência de controles de câmbio, os quais colocam restrições à transferência da sua riqueza para fora destes países).

Tais divisas portanto tendiam realmente a depreciar-se ao longo do tempo em relação à divisa principal, o que por sua vez justificava a expectativa de que as mesmas iriam depreciar-se secularmente e portanto estabelecia uma tendência rumo a uma viciosa espiral descendente dos seus valores relativos. A economia capitalista mundial operava assim de uma maneira em que a tendência era para os possuidores de riqueza, incluindo os do terceiro mundo, a transferissem para divisas metropolitanas e localizações metropolitanas se pudessem, isto é, a menor que fossem impedidos de fazê-lo (razão pela qual controles de câmbio eram considerados essenciais para economias do terceiro mundo).

Para ilustrar este ponto, o valor da rupia pouco antes da desvalorização de 1966 na Índia era de 5 rupias por dólar e com aquela desvalorização em particular tornou-se cera de 7,5 rupias. Como a Índia prosseguia uma política de taxa de câmbio fixa apenas com desvalorizações ocasionais, este valor atingir apenas cerca de 13 rupias na véspera da liberalização econômica quando foi desvalorizado para 20 rupias, antes de ser permitido flutuar, até atingir cerca de 65 rupias por dólar. Nenhuma divisa de país avançado é cambiada hoje contra o dólar a treze vezes a que era cambiada há meio século, o que sublinha a diferença entre as situações do terceiro mundo e as divisas do primeiro mundo.

Uma implicação desta tendência rumo à depreciação secular das divisas do terceiro mundo foi que o seu trabalho esteve continuamente a ser depreciado em relação ao trabalho das economias do primeiro mundo. Portanto, ironicamente a transferência de riqueza pelos ricos do terceiro mundo dos seus próprios países para lugares "mais seguros" nos centros metropolitanos teve o efeito de reduzir o valor do trabalho nos seus próprios países em relação àqueles das metrópoles, o que significa um agravamento secular dos preços relativos dos seus produtos. Esta é uma razão pela qual mesmo nos dias de hoje vários governos do terceiro mundo, incluindo a Índia, têm pelo menos algumas restrições residuais sobre a transferência para fora da riqueza dos ricos locais: a rupia por exemplo não é uma divisa plenamente convertível mesmo atualmente.

Contudo, todo este quadro está em mudança. Uma consequência da prolongada crise econômica mundial tem sido o fato de que as taxas de juro nos países capitalistas avançados foram derrubadas para níveis quase zero numa tentativa de ressuscitar aquelas economias; e isto significou um fluxo de capital daquelas economias para certas economias do terceiro mundo, incluindo a Índia, onde as taxas de juro são muito mais elevadas. Tal fluxo assumiu a forma tanto de ações como de empréstimos. Algumas destas tomadas de empréstimos de países do terceiro mundo são contratadas em divisa estrangeira e algumas na divisa local. Da mesma forma, algumas delas foram para governos e outras para corporações do setor privado e público. O que tudo isto significa, entretanto, é que possuidores metropolitanos de riqueza, ao contrário do passado, agora começaram a manter alguma da sua riqueza na forma de divisas do terceiro mundo ou de ativos denominados nestas divisas.

Isto constitui uma importante mudança estrutural no interior do imperialismo porque implica em que possuidores de riqueza metropolitanos não podem ser indiferentes à depreciação de tais divisas do terceiro mundo. Já não são apenas os possuidores locais de riqueza que perdem em termos do valor do dólar da sua riqueza quando a divisa local deprecia, mas também os possuidores metropolitanos de riqueza. E uma vez que, mesmo no caso de uma divisa (como a rupia) não ser plenamente convertível, sob as receitas neoliberais permite-se que os possuidores de riqueza metropolitanos retirem os seus fundos quando quiserem, qualquer depreciação da divisa local desencadeia uma avalanche de fugas de capitais e também um dilúvio de insolvências internas (pois várias firmas locais tomaram empréstimos em divisas estrangeiras para financiar a tomada de controle de ativos em divisa local).

Isto basicamente implica procurar [que a atuação sobre] a taxa de depreciação cambial seja afastada dos governos locais. As divisas destes países do terceiro mundo, dos quais a Índia é um exemplo destacado, assim como as divisas de economias metropolitanos não-líderes como as da Zona Euro e a do Japão, têm de ser mantidas num valor relativo estável face ao US dólar. O fato de que, durante quase toda a última década, o valor da rupia se ter pouco depreciado face ao US dólar, ao contrário do passado, é uma indicação desta mudança de cenário.

Esta mudança tem duas importantes implicações, uma óbvia e outra não tão óbvia. A implicação óbvia é que como o instrumento habitual que os governos empregam quando a economia é confrontada com um problema de balança de pagamentos, nomeadamente uma depreciação da taxa de câmbio, é retirado das suas mãos, eles agora têm de confiar muito mais em outros instrumentos, tais como compressão da procura interna e deflação salarial (isto é, um corte em salários monetários) para alcançar o mesmo resultado. Mas, embora tanto a taxa de depreciação cambial como a deflação salarial tenham o efeito de esmagar os trabalhadores, a primeira atua indiretamente enquanto a última atua diretamente.

Isto implica várias coisas (deixem-me, para maior simplicidade, ignorar aqui qualquer consideração da compressão da procura geral através de outros meios): (i) uma depreciação da taxa de câmbio de 10 por cento não significa necessariamente uma queda de 10 por cento em salários reais dentro de qualquer dado período de tempo, ao passo que uma deflação salarial de 10 por cento assim o faz; (ii) por esta mesma razão, uma depreciação da taxa de câmbio de 10 por cento provoca menos resistência imediata dos trabalhadores quando comparada a uma deflação salarial de 10 por cento; por causa disto a imposição de uma deflação salarial é invariavelmente acompanhada por ataques aos sindicatos a fim de quebrar esta resistência.

Pode-se aqui mencionar uma ilustração histórica famosa. Durante a Primeira Guerra Mundial, a Grã-Bretanha foi expelida do Padrão Ouro (Gold Standard), mas a ele retornou em 1925 com uma paridade anterior à da guerra, sob a pressão dos poderosos interesses financeiros britânicos que desejavam tal paridade. Mas o tipo de apoio colonial que estivera disponível à Grã-Bretanha nos anos que antecederam a Primeira Guerra Mundial já não estavam mais disponíveis após a guerra (o Japão por exemplo estava a retirar à Grã-Bretanha fatias significativas do mercado indiano), de modo que a libra esterlina estava sobre-avaliada à paridade anterior à guerra – e a Grã-Bretanha começou a enfrentar problemas de balança de pagamentos. Em consequência, a Grã-Bretanha tentou impor uma deflação salarial aos seus trabalhadores, a qual tornaria seus bens mais baratos no exterior e também reduziria a absorção interna, melhorando assim sua balança de pagamentos. Isto contudo deu origem à famosa Greve Geral de 1926 na Grã-Bretanha, meses após o seu retorno ao Padrão Ouro. Portanto, se bem que uma depreciação da taxa de câmbio e uma deflação salarial tenham o efeito de esmagar os trabalhadores, esta última é uma medida direta que tem um carácter diretamente político.

A implicação menos óbvia do fato de possuidores metropolitanos de riqueza agora possuírem riqueza em divisas do terceiro mundo, o que descarta depreciações da taxa de câmbio, é que as suas decisões doravante têm uma influência sobre direitos sindicais no terceiro mundo e portanto sobre a democracia no terceiro mundo. Se possuidores metropolitanos de riqueza começarem a transferir a sua riqueza para fora de um país, então o país em causa tem de impor uma deflação salarial através do ataque aos sindicatos (além de seduzir o capital metropolitano a permanecer através da oferta de ativos internos a preço vil, o que constitui um caso de "desnacionalização" de ativos nacionais). Ainda por cima, se os EUA elevarem a sua taxa de juro, então isto também ameaça precipitar uma deflação salarial em países como a Índia a fim de estancar fugas de capitais, com ataques a sindicatos, a direitos democráticos dos trabalhadores e genericamente às estruturas democráticas, torna-se um acompanhamento necessário (além da "desnacionalização" já mencionada).

Esta nova situação difere da anterior em dois aspectos importantes: primeiro, na ausência de qualquer riqueza metropolitana significativa possuída em ativos na divisa local, isto é, quando só os possuidores de riqueza do terceiro mundo mantinham a sua riqueza em ativos da divisa local, eles estavam em certa medida sujeitos a algum grau de controle pelo Estado do terceiro mundo. Mas o Estado do terceiro mundo dentro de um regime neoliberal tem pouco controle, mesmo na ausência de convertibilidade da divisa, sobre possuidores de riqueza metropolitanos. Segundo, a depreciação da taxa de câmbio como instrumento era utilizável anteriormente o que removia num certo grau um ataque direto aos trabalhadores e portanto um assalto direto a sindicatos e a direitos políticos dos trabalhadores. Isto agora torna-se impossível.

Em suma, em países como a Índia as mudanças que ocorrem dentro da estrutura do imperialismo servem para fortalecer o autoritarismo que já é evidente. A exigência da introdução da "flexibilidade no mercado de trabalho", um eufemismo para um ataque aos sindicatos, certamente será acelerada nos dias que estão pela frente e o governo Hindutva, dada a sua inclinação sangrenta e a sua absoluta falta de compreensão das armadilhas do neoliberalismo, é seguro que se torne um instrumento propenso ao cumprimento desta exigência. 

13 de outubro de 2017

A mão invisível de Adam Smith no trabalho

Em um ambiente de trabalho opressivo, todos têm boas razões para pensar que falar é o trabalho de outra pessoa.

Corey Robin

Jacobin

Harvey Weinstein falando no Festival de Cinema de Zurique, 29 de setembro de 2013. Zff2012 / WIkimedia

De todas as frases que li na história de Harvey Weinstein, esta, do New York Times, foi a mais pungente:

As atrizes mais estabelecidas tinham medo de falar porque tinham trabalho; as menos estabelecidas ficaram assustadas porque elas não o fizeram.

Em praticamente todo regime de trabalho opressivo - e outros tipos de regimes opressivos - você vê o mesmo fenômeno. Os estrangeiros, a partir do conforto e facilidade de sua posição, se perguntam por que ninguém dentro do regime fala alto e sai; os insiders sabem que não é tão fácil. Todos dentro do regime - mesmo suas vítimas, especialmente suas vítimas - têm uma ótima razão para se manter em silêncio. Todo mundo tem uma boa razão para pensar que é trabalho de alguém falar.

Aqueles no fundo do regime, essas atrizes menos estabelecidas que precisam mais, olham para cima e se perguntam por que as pessoas acima delas, aquelas atrizes mais estabelecidas que precisam menos, não falam contra uma injustiça: os mais estabelecidos têm poder, por que não o usam, do que eles tem medo?

Aqueles acima da escada, aquelas atrizes mais estabelecidas, desprezam os que estão no fundo e se perguntam por que não falam contra essa injustiça: não têm nada a perder, do que têm medo?

Nenhum é errado; ambos estão refletindo com precisão e agindo sobre suas situações e interesses objetivos. Esta é uma das razões pelas quais a ação coletiva contra a injustiça e a opressão é tão difícil. É a Mão Invisível de Adam Smith no trabalho (em ambos os sentidos), sem o final feliz: todos perseguem seus interesses individuais como indivíduos; o resultado é uma catástrofe social.

12 de outubro de 2017

Thomas Sankara, a possibilidade de uma África emancipada

Em 15 de outubro de 1987, em Uagadugu, uma experiência revolucionária exaltante chegava ao fim sob o crepitar das kalachnikovs. O presidente de Burkina Faso, Thomas Sankara, era assassinado, com doze de seus companheiros.

Rosa Moussaoui

Alto Volta. Uagadugu. 06/08/1983 Manifestação de apoio a Sankara. Créditos: Archives Afrique-REA

Tradução
/ Ele se recusava a ver a África estagnar na condição de “mundo atrasado de um Ocidente saciado”. Este compromisso lhe custou a vida. Em 15 de outubro de 1987, por ocasião do golpe de Estado perpetrado por seu “irmão” Blaise Comparoé, o presidente de Burkina Fasso, Thomas Sankara foi assassinado por um comando de militares do regimento da segurança presidencial.

No atestado de óbito oficial desse homem de 37 anos, que algumas semanas antes temia “uma morte violenta”, pode-se ler esta inverossímil menção”: “morte natural”. Sob a rajada dos kalachnikovs, um nome, outro mais, era acrescentado à longa lista dos revolucionários da África eliminados com a cumplicidade das capitais ocidentais: Patrice Lumumba no Congo, Amílcar Cabral, o combatente da independência da Guiné Bissau e de Cabo Verde, Ruben Um Nyobé, Félix Moumié e Ernest Ouandié de Camarões, Mehdi Ben Marka, o oposicionista marroquino, e tantos outros. Thomas Sankara tinha clareza sobre todas essas possibilidades aniquiladas. “Uma vez que aceitemos, trata-se de uma questão de tempo. Isto ocorrerá mais cedo ou mais tarde”, previa.

O “Che africano” sonhava ser médico

O assassinato desse dirigente carismático mexeu com todo o continente, destruindo a esperança de emancipação à qual ele deu corpo em Burkina Fasso, o Alto Volta, por ele rebatizado como “País dos homens íntegros”. Filho de um combatente da Segunda Guerra Mundial convertido ao catolicismo, Thomas Isidore Sankara foi destinado por seus parentes ao seminário. Ele sonhava ser médico. Finalmente, por uma confluência de circunstâncias, ele se junta ao Comando Militar de Kadiogo, em Uagadougu.

Diplomado, integra uma formação de oficiais na Academia Militar de Antsirabe, em Madagascar. A Grande Ilha encontra-se então em plena efervescência revolucionária, uma experiência determinante para o jovem Sankara. De retorno ao país, ele se dedica a organizar a jovem geração de oficiais formados no exterior sob os grilhões de um exército sempre enquadrado pelos antigos colonialistas. Oficiais como Henri Zongo, Boukary Kaboré, Jean-Baptiste Lingani paticipam desse ativismo clandestino no seio do exército. Durante um curso de formação militar no Marrocos, em 1976, Thomas Sankara faz amizade com Blaise Compaoré. Juntos, formam o Agrupamento de oficiais que desempenhará um papel de primeiro plano no desencadeamento da revolução democrática e popular, em 1983. Sankara assume o controle do Centro Nacional de Treinamento de Comando em Pô, a 150 quilômetros da capital.

No mesmo ano de 1983, ele se torna presidente do Alto Volta

Desde a independência (em 1960, Nota do Tradutor), o Alto Volta jamais conhecera verdadeiramente a estabilidade política. Civis ou militares, os regimes se sucederam, todos mais ou menos autoritários. Em 7 de novembro de 1982, um novo golpe de Estado leva ao poder Jean-Baptiste Ouédraogo, um médico militar. Dois meses mais tarde, aproveitando uma correlação de forças favorável ao campo progressista no seio do exército e devido à sua crescente popularidade, Thomas Sankara torna-se primeiro-ministro. Sua eloquência, seu ardor revolucionário, a visita que faz a Muamar Kadafi não agradam o Palácio do Eliseu (sede da Presidência da República da França. Nota do Tradutor).

Guy Penne, o “senhor África” de François Mitterrand, é despachado a Uagadugu. O primeiro- ministro é imediatamente demitido e preso. Começa uma insurreição popular que abre caminho aos militares. Em 4 de agosto de 1983, os comandos de Pô, tomados por Blaise Compaoré, conquistam Uagadugo, com o apoio de civis. Thomas Sankara torna-se presidente do Alto Volta. Imediatamente ele conclama a população a criar os Comitês de Defesa da Revolução (CDR). É o começo de uma experiência revolucionária tão efêmera quanto exaltante, alimentada por um profundo desejo de independência. Sankara é um apaixonado pela paz e a justiça social, feminista convicto, ecologista antes do tempo e anti-imperialista. Em apenas quatro anos, fato inédito, ele conseguiu levar um país do Sahel à autossuficiência alimentar. Muito ligado ao mundo rural, ele não hesitou em lutar frontalmente contra os feudais.

Seus objetivos? “Recusar o estado de sobrevivência mínima, aliviar as pressões, libertar nossos campos de um imobilismo medieval ou de uma regressão, democratizar nossa sociedade, abrir os espíritos para um universo de responsabilidade coletiva para ousar inventar o futuro. Quebrar e reconstruir a administração através de uma outra imagem do funcionário público, mergulhar nosso exército no povo pelo trabalho produtivo e lembrar incessantemente que, sem formação patriótica, um militar não passa de um criminoso em potencial”. Inimigo da dívida odiosa que mantém as ex-colônias em situação de sujeição às ex-metrópoles, Sankara quer curar seu país da dependência das “ajudas” externas. “A dívida não pode ser paga, primeiramente porque, se não pagarmos, nossos fornecedores de fundos não morrerão, estejamos seguros disto. Ao contrário, se pagarmos, somos nós que vamos morrer. Estejamos igualmente seguros disto!” – dizia na tribuna da Organização de Unidade Africana (OUA), em Addis-Abeba, em 29 de julho de 1987, conclamando a “produzir na África, transformar na África e consumir na África”. Em Burkina Fasso, novos circuitos de distribuição foram criados para favorecer as produções locais e os funcionários foram instados a se vestir de Fasso dan fani, a vestimenta tradicional fabricada nas tecelagens locais. Desde 1983, foram instituídos tribunais populares revolucionários para julgar os responsáveis políticos acusados de desfalque de fundos públicos e de corrupção. As penas consistiam na maioria das vezes no reembolso dos valores desviados e os funcionários ficavam sujeitos à suspensão ou à demissão.

Nos setores da educação, meio ambiente, agricultura, reforma do Estado, cultura, libertação das mulheres, da responsabilização da juventude, sucediam-se os programas a ritmo desenfreado, suscitando às vezes dissensões com os sindicatos e mesmo no campo revolucionário.

No cenário internacional, Sankara logo se afirmou como uma grande voz do continente africano e mesmo além, uma voz dos povos oprimidos ou mantidos sob tutela. Ele era franco, convicto, inflexível. No outono de 1986, quando François Mitterrand o visita em Uagadugu, ele não hesita, numa cena memorável, em criticar diante das câmeras sua complacência com o regime do apartheid na África do Sul. O velho socialista francês se esquiva saudando “a agudeza de uma bela juventude”. A implicação das redes franco-africanas na eliminação de Thomas Sankara é indubitável. Na época, reinavam nos círculos dominantes personagens sombrios como Jacques Foccart, lembrado por Jacques Chirac após seu retorno ao Matignon. O eixo dessas manobras franco-africanas? A Costa do Marfim, sobre a qual ainda reina o velho Félix Houphouët-Boigny…

Hoje, trinta anos após o assassinato de Thomas Sankara, no momento em que as potências imperialistas intensificam a ofensiva política, econômica e militar sobre o continente para perpetuar sua pilhagem, o legado do dirigente burquinense é ainda mais precioso do que nunca. “Ele deixa como herança uma imensa esperança para a África. A de completar a descolonização para permitir que os povos conquistem direitos, progresso e liberdade”, afirma Dominique Josse, responsável do Partido Comunista Francês pela África.

Há um sonho que Thomas Sankara não realizou. Exatamente um ano antes de seu assassinato, por ocasião de uma visita oficial na União Soviética, ele foi convidado à Cidade das Estrelas onde são formados e treinados os cosmonautas. A descoberta de uma cápsula Soyouz, das estações Saliout e Mir causa-lhe grande impressão. Ele se inclina diante da estátua de Yuri Gagarin, assina o livro de ouro e, antes de partir, saindo do protocolo, interpela os anfitriões. Ele conta : “Eu disse não, não é tudo, camaradas, esperem! Está tudo bem, estamos contentes. Nós os felicitamos, trata-se de um progresso científico. E quando tudo isto estiver a serviço dos povos, será realmente um bem. Mas eu queria perdir-lhes uma coisa … Duas vagas. É preciso que vocês reservem duas vagas, para formar burquinenses. Nós também queremos ir à Lua … Nós também vamos chegar lá! Então, a cooperação deve começar. E nós somos sérios. Nós queremos enviar pessoas à Lua, haverá americanos, soviéticos, pessoas de outros países… Mas haverá também de Burquina Fasso”.

9 de outubro de 2017

A história de Colombo

Este Dia de Colombo nos propicia um momento para construir algo em que Colombo se manteve firmemente contra: uma sociedade baseada na humanidade fundamental de todos.

Marley-Vincent Lindsey

Cristóvão Colombo e sua equipe deixam o porto de Palos, Espanha, para o "Novo Mundo". Biblioteca do Congresso

Lá se foram os dias em que um historiador como Howard Zinn poderia simplesmente apontar que os europeus exploravam, saqueavam e escravizavam os nativos americanos em busca de ouro, especiarias e uma conexão com a Ásia.

Agora, muitas concepções populares insistem que o que aconteceu é mais complicado. Eles argumentam que ambientes, doenças e tecnologia - em vez da avareza expansionista de Colombo e seu bando de exploradores rapaces - devem ser identificadas como as principais causas do extermínio dos índios americanos. E quando eles introduzem a agência humana em suas análises, muitas vezes é em nome de atores de elite.

Em Guns, Germs e Steel de Jared Diamond, ganhador do Prêmio Pulitzer, por exemplo, os fatores ambientais são elevados à "causalidade final" ao explicar por que Colombo e outros europeus varreram o continente.

Diamond nunca pergunta por que as reuniões iniciais entre europeus e nativos americanos levaram à violência e à escravização. Supondo que encontros entre dois grupos distintos de pessoas inevitavelmente produzam conflitos, ele se concentra nos tipos de culturas, animais e recursos geograficamente disponíveis para as populações euro-asiáticas (em oposição às populações americanas e africanas). Com base em antigas vantagens, ele argumenta que obtemos uma espécie de imperialismo igualitário: qualquer grupo de pessoas que começasse na Eurásia, a longo prazo, se sairiam muito melhor e provavelmente dominariam qualquer outro grupo de pessoas que começasse na não-Eurasia.

Para ser justo, o livro de Diamand ataca o papel pretendido do determinismo biológico na formação de eventos históricos. No entanto, ele ainda se recusa a ver os seres humanos como sujeitos políticos, tratando-os como agentes de profecia ambiental. Onde estava a invasão de Colombo, as motivações políticas das pessoas envolvidas aparentemente não tinham influência.

Uma tendência semelhante está em ação no livro do jornalista Charles Mann, de 1491, que narra uma história sobre os nativos americanos moldando os ambientes em que viviam. Enquanto sua intenção é mostrar que as civilizações das Américas eram muito mais avançadas do que imaginadas popularmente, Mann é ainda mais forte em sua rejeição de cumplicidade moral pela violência e destruição que os europeus logo realizaram.

Examinando os dados demográficos, Mann conclui que a taxa de morte coincidente - por meio de doenças que os europeus não conseguiram controlar - ultrapassou em muito a taxa de morte por violência deliberada. "Como eles podem", Mann pergunta, "ser culpado por isso (as mortes de centenas de milhares)".

Diamond e Mann fazem parte de uma onda de escritores que abraçaram as explicações relacionadas ao meio ambiente e à doença, precisamente quando os historiadores concluíram que o registro escrito havia confirmado as delitentes feridas de Colombo e seus confederados.

Para esses contrários, 1492 marcou o início de uma era em que grupos de pessoas em todo o mundo começaram a criar um sistema mundial global. Ou pelo menos as classes dominantes o fizeram. A antiga narrativa de conquista, violência e atrocidade foi assim transformada em uma história em que as elites fizeram a modernidade, e as lutas populares contra elas recuaram para o fundo.

Alterar as percepções sobre as sociedades nativas americanas desempenhou um papel interessante no desenvolvimento desta narrativa da globalização.

Até meados do século XX, a falta de interesse na história dos nativos americanos ajudou a perpetuar mitos sobre a sociedade e a cultura indígenas como um Eden romântico, posteriormente corrompido pelos pecados da Europa.

No entanto, as sociedades indígenas eram bastante estratificadas - especialmente as dos astecas e dos incans. Longe dos paraísos igualitários, tais sociedades possuíam uma clara classe de elite que explorava grupos subordinados.

Os mitos sobre um Éden nativo americano vieram menos dos escritos de pessoas que viviam em 1492 e mais de naturalistas, filósofos e cientistas do século XIX, que pintaram uma imagem bem-vinda do "índio" como inelutavelmente em sintonia com a natureza, perdida para aqueles que eram "civilizados".

Mas, à medida que aquela visão cor-de-rosa começava a desmoronar, as representações mais feias ocuparam seu lugar. Agora, alguns historiadores descrevem os astecas como uma "cultura obcecada com a morte". Mesmo historiadores mais astutos confundem as ações grotescas e os comportamentos da classe dominante da elite como representantes das sociedades nativas americanas como um todo.

Ao mesmo tempo, aos espanhóis cruzados são cada vez mais oferecidos uma apologética, ou mesmo saudados por sua ostensiva benevolência.

O principal exemplo é Bartolomé de las Casas - "Defensor das Índias". Enquanto de las Casas libertou seus escravos - e dedicou quase meio século a lutar pelos nativos americanos nos tribunais de Valladolid, Barcelona e Sevilha - manteve suas críticas de empreendimentos coloniais confinados a surtos violentos. Ele ainda se apegava a uma crença na autoridade cristã, cuja supremacia os nativos americanos desafiaram quando perguntaram por que as cruzes vieram com os estoques de armas. Mesmo o historiador mais responsável pelo nosso conhecimento atual e pesquisador de de Las Casas - Lewis Hanke - viu o Bispo representar os elementos mais benevolentes da conquista hispânica.

Em resumo, em vez de fornecer uma visão mais matizada da conquista espanhola, a recuperação dos escritos intelectuais de Las Casas tem obscurecido as questões de brutalidade real.

Termos humanos, participações políticas

Se a narrativa prevalecente é falha, qual seria, então, a descrição mais precisa?

Deixe-me oferecer uma contra-síntese: em 1492, Cristóvão Colombo navegou pelo Caribe, com a intenção de parar na parte mais rica da Ásia. Achando erroneamente que ele havia cumprido sua tarefa, Columbo informou que era apenas uma questão de tempo até que a Coroa pudesse cobrar seu investimento.

Em sua jornada de retorno, Colombo trouxe de volta seis escravos nativos americanos, inaugurando uma rede de escravidão nativa americana em todo o mundo espanhol (e replicando o que os europeus fizeram no Mediterrâneo por séculos).

Percebendo que os espanhóis pretendiam estabelecer uma presença permanente e explorá-los brutalmente, grupos nativos americanos como o Taíno e os caribes combateram, unidos por escravos africanos trazidos para o Caribe. O fracasso em encontrar ouro na Hispaniola, agravado pela crescente dívida e um abastecimento cada vez mais escasso, levou os colonos ao desespero. E os nativos americanos pagaram o preço. Enquanto as doenças exacerbavam o número de baixas, a principal causa de morte para os nativos americanos, especialmente entre 1492 e 1550, foi a escravização, a fome e a exaustão.

Este poderia ter sido o fim da história: uma falha em colonizar o Caribe. Mas Hernan Cortés, desafiando o governador cubano Diego Velázquez, navegou do Caribe para Veracruz, onde ancorou - e depois afundou - os navios que trouxeram sua equipe. Com apenas um caminho a seguir, o grupo de Cortés, flanqueado e subsumido por um exército independente tlaxcalteca, invadiu Tenochtitlan. O coração do império asteca caiu sob o domínio espanhol.

Mais do que prováveis, as sociedades asteca e inca foram elas próprias baseadas na estratificação social entre as classes de elite e comuns, com as últimas pagando impostos e tributos às primeiras. Essa estrutura foi em grande parte cooptada pelos espanhóis, que se tornaram benfeitores do sistema.

Embora a conexão direta desse momento com o desenvolvimento de um sistema mundial de capital seja difícil, a luta violenta entre conquistadores e intelectuais espanhóis e ingleses indubitavelmente sustentou os países em suas guerras no continente europeu. Além disso, essa exploração deu à Europa o tempo e o espaço necessários para finalmente alcançar regiões como a China e afastar as cidades nativas como Tenochtitlan e Cuzco. O custo, no entanto, foi milhões de vidas nativas americanas e um regime de escravidão expansiva e racializada, como a que o mundo nunca tinha visto.

Partes dessa narrativa são discutíveis; não é para ser a história das Américas. Mas é uma narrativa discutível em termos humanos, com participações políticas. A doença, os ambientes e a tecnologia fazem parte da história, mas cada uma exige uma vontade política particular para aspectos serem potentes.

É uma narrativa de culpa moral e motivações políticas. E se ela leva a discussões políticas modernas, isso acontece somente quando perguntamos quais as decisões tomadas pelos humanos para ajudar ou prejudicar um ao outro.

Feliz dia de Colombo. Doe seu tempo e energia hoje para construir algo em que Columbo permaneceu firmemente contra: uma sociedade baseada na humanidade fundamental de todos.

O que acabou com a promessa do comunismo muçulmano?

Os ativistas bolchevistas e islâmicos juntaram forças após a Primeira Guerra Mundial para construir o maior movimento de massas no Sudeste Asiático. Não durou.

John T. Sidel

The New York Times

Corbis, via Getty Images

Por um breve momento após as revoltas bolcheviques de 1917, parecia que a revolução poderia ser travada em vastas partes do mundo sob a bandeira conjunta do comunismo e do islamismo. 

O Pan-Islamismo surgiu nas últimas décadas do Império Otomano, com os esforços do sultão Abdulhamid II para reivindicar o título de califa entre os muçulmanos. Novas formas de escolaridade islâmica e associações começaram a surgir em todo o mundo árabe e além. Do Egito e do Iraque à Índia e ao arquipélago indonésio, o Islã tornou-se um chamado de protesto contra o colonialismo e o imperialismo europeus.

O poder de mobilização do Islã atraiu ativistas comunistas nas décadas de 1910 e 1920. Os bolcheviques, que careciam de infra-estrutura organizacional nas vastas terras muçulmanas do antigo império russo, aliaram-se com reformadores islâmicos nessas áreas. Eles criaram um Comissariado especial para os Assuntos Muçulmanos sob o controle do bolchevique tártaro Mirsaid Sultan-Galiev, prometendo estabelecer um "comunismo muçulmano" distinto no Cáucaso e na Ásia Central. Durante o Congresso de 1920 dos Povos do Oriente em Bacu, no atual Azerbaijão, o presidente do Comintern, Grigory Zinoviev, um judeu ucraniano, conclamou a se travar uma guerra "sagrada" contra o imperialismo ocidental.

Mas, como sabemos agora, o comunismo e o islamismo não conseguiram unir-se em uma aliança duradoura. No início da Guerra Fria, eles pareciam irrevogavelmente opostos. Diferentes pontos de vista sobre o comunismo dividiram os muçulmanos em toda a Ásia, África e Oriente Médio em suas lutas pela independência e emancipação durante a segunda metade do século XX. Uma jihad anti-comunista rejeitou fundamentalmente o Afeganistão na década de 1980 e ajudou a preparar o cenário para o surgimento da Al Qaeda e de uma nova forma de terrorismo islâmico.

No entanto, em torno da época da Revolução Russa, as perspectivas do comunismo e do Islã que juntaram forças pareciam muito brilhantes. Elas talvez não fossem mais brilhantes do que no arquipélago indonésio, então sob o domínio holandês: em 1918-21, os organizadores sindicais de esquerda atuando em conjunto com intelectuais islâmicos e comerciantes muçulmanos piedosos construíram o maior movimento de massas no Sudeste Asiático.

Ao longo da década anterior, ativistas sindicais indonésios já haviam estabelecido uma forte união representando os trabalhadores na extensa rede ferroviária que atendia a vasta economia de plantação de Java e Sumatra. Em 1914, a Indische Sociaal-Democratische Vereeniging, ou União Social-Democrática dos Indígenas, expandiu-se da organização sindical entre trabalhadores ferroviários para formas mais amplas de ativismo social e ação política contra o domínio colonial.

Em particular, os membros começaram a se juntar ao Islã Sarekat, uma organização fundada em 1912 como uma associação muçulmana de comerciantes de batik que se transformou em um movimento popular mais amplo e estava organizando manifestações em massa e ataques em Java. A influência socialista no islamismo de Sarekat já havia ficado evidente no congresso do movimento em 1916, onde o Profeta Muhammad foi proclamado "pai do socialismo e pioneiro da democracia" e "o socialista por excelência".

A Revolução Russa inspirou ainda mais o Islã Sarekat. No final de 1917, ativistas da União Social-Democrata das Índias começaram a agitar e a se organizar entre as fileiras inferiores das forças armadas holandesas nas Índias. Tomando emprestado as táticas bem-sucedidas dos bolcheviques na Rússia, foram recrutados centenas de marinheiros e soldados na esperança de desencadear motins e revoltas. As autoridades coloniais holandesas imediatamente detiveram e prenderam os ativistas e ordenaram sua expulsão das Índias.

Mas em 1920, a União Social-Democrata das Índias se renomeou como União Comunista das Índias, tornando-se o primeiro partido comunista na Ásia a se juntar ao Comintern. Novos sindicatos foram formados em Java e Sumatra. Aldeões camponeses se mobilizaram contra os proprietários. Um ataque ferroviário paralisou paralisou o cinturão de plantação no leste de Sumatra.

Foi nesse contexto que a lendária figura de Tan Malaka apareceu pela primeira vez. O descendente de uma família aristocrática do oeste de Sumatra, Tan Malaka passou a Primeira Guerra Mundial como estudante na Holanda. Ele entrou em contato com ativistas e ideias socialistas e testemunhou a revolução Troelstra de curta duração no final de 1918, durante a qual os social-democratas holandeses tentaram brevemente imitar uma revolta revolucionária em curso na Alemanha. No início de 1919, Tan Malaka voltou para a Indonésia, onde logo foi levado à organização sindical. Ele se juntou ao embrionário Partido Comunista local, ascendendo rapidamente à sua liderança - antes que o governo colonial o forçasse a se exiliar de volta aos Países Baixos, no início de 1922.

E foi assim com a experiência inicial do potencial revolucionário de combinar comunismo e islamismo que Tan Malaka apareceu no Quarto Congresso do Comintern em Moscou e Petrogrado em 1922. Lá, ele apresentou um discurso memorável sobre as semelhanças entre o Pan-Islamismo e o Comunismo. O Pan-Islamismo não era religioso per se, argumentou, mas sim "a fraternidade de todos os povos muçulmanos e a luta de libertação não só do árabe, mas também do índio, dos javaneses e de todos os povos muçulmanos oprimidos".

"Esta fraternidade", acrescentou, "significa luta de libertação prática não só contra o holandês, mas também contra o capitalismo inglês, francês e italiano, portanto, contra o capitalismo mundial como um todo".

O registro oficial dos procedimentos observa que o apaixonado apelo de Tan Malaka para uma aliança entre o comunismo e o Pan-Islamismo foi recebido com "aplausos animados". Mas suas memórias recordam que depois de três dias de acalorado debate após seu discurso, ele foi formalmente proibido de continuar contribuindo para o processo. As conclusões oficiais do quarto Congresso das províncias, incluindo as "Teses sobre a questão oriental", são particularmente ambíguas na questão do Pan-Islamismo e surpreendentemente silenciosa sobre a Indonésia, embora o movimento tenha sido muito mais bem sucedido do que qualquer outra mobilização comunista no chamado Oriente na época.

Uma aliança entre comunismo e islamismo não poderia se dar, nem na Indonésia nem em outros lugares. A força do comunismo, como movimento, foi a sua capacidade de mobilizar trabalhadores para lutar por melhores salários e condições de trabalho através de sindicatos, seja nas torres de petróleo de Bacu ou nas plantações de Java e Sumatra. Mas, como forma de governo, o comunismo significava o controle do partido único, uma economia de comando com agricultura coletivista e controle partidário de todas as esferas da vida social - incluindo a religião.

O islamismo, ao contrário, era uma base muito mais ampla e persistentemente mais aberta e ambígua para o engajamento político. Em Java e em outros lugares, o "Islã" proporcionou uma bandeira para os comerciantes muçulmanos contestar a invasão econômica por não-muçulmanos e construir uma infra-estrutura para a organização no campo, principalmente através de escolas islâmicas. Politicamente, era uma noção flexível: intelectuais e ativistas islâmicos poderiam ser para o colonialismo, o comunismo ou o capitalismo.

Na Indonésia, as tensões entre comunistas e líderes islâmicos já começaram a dividir o Islã Sarekat no início da década de 1920. Os comunistas pediram a escalada de greves e protestos, enquanto os líderes islâmicos defendiam a acomodação com as autoridades coloniais holandesas. O Islã Sarekat se dissolveu diante da repressão holandesa após rebeliões fracassadas em 1926-7.

No final da década de 1940, partidos islâmicos se opuseram ao Partai Komunis Indonesia (P.K.I.), ou ao Partido Comunista Indonésio, durante a luta pela independência. Os partidos islâmicos ficaram desconfortáveis com a insistência dos comunistas de que a independência do domínio colonial holandês também suspenderia os privilégios aristocráticos e provocaria o estabelecimento de formas de propriedade socialistas sobre a terra e a indústria. Esse conflito se estendeu até o início do período pós-independência. As organizações islâmicas participaram ativamente dos pogroms anticomunistas de 1965-66, que destruíram o P.K.I. e deixaram centenas de milhares de vítimas na Indonésia.

Por essa altura, o padrão de antagonismo estava bem estabelecido em todo o mundo muçulmano e persistiu durante toda a Guerra Fria. Os limites institucionais e ideológicos do comunismo e do islamismo se endureceram, provocando perspectivas de experiências renovadas na construção de alianças políticas.

Nas áreas muçulmanas da União Soviética, o Estado-partido reprimiu instituições de culto, educação, associação e peregrinação islâmicas, que eram vistos como obstáculos à transformação ideológica e social de acordo com a orientação comunista. Onde os estados islâmicos foram estabelecidos, a política de esquerda foi freqüentemente associada à blasfêmia e proibida. Em países como Sudão, Iêmen, Síria, Iraque e Irã, os partidos comunistas e outros partidos de esquerda encontraram-se em uma amarga competição pelo poder com os islâmicos.

Um dos efeitos do fracasso das forças revolucionárias em se mobilizar sob a bandeira conjunta do comunismo e do islamismo foi dividir profundamente os muçulmanos, enfraquecendo sua capacidade de lutar contra o colonialismo durante a primeira metade do século 20 e depois resistir ao surgimento do autoritarismo em todo o mundo muçulmano. Outro efeito foi estimular novas formas de mobilização islâmica anti-soviética durante a Guerra Fria - incluindo alguns que se transformaram em grupos terroristas anti-ocidentais virulentos que definem parcialmente o mundo de hoje.

As divisões entre esquerdistas e islâmicos no Egito após a queda do presidente Hosni Mubarak em 2011 também ajudaram a preparar o cenário para o retorno do país ao governo militar em meados de 2013. Tensões semelhantes dividiram a oposição ao presidente Bashar al-Assad na Síria, preparando o caminho para a caída do país em uma guerra civil há mais de seis anos. Um século inteiro após a Revolução Russa, a fraca aliança entre comunismo e islamismo continua a moldar a política do mundo muçulmano.

* John T. Sidel é o professor Sir Patrick Gillam de Política Internacional e Comparada na London School of Economics and Political Science e o autor do livro a ser lançado em breve "Republicanismo, Comunismo, Islamismo: Origens Cosmopolitas da Revolução no Sudeste Asiático".

Um poder revolucionário para curar

Cinquenta anos após a morte do Che, as ideias que mantêm sua lenda viva

Vijay Prashad

The Indu

Em 9 de outubro de 1967, no sul da Bolívia, perto da estéril e desolada vila de La Higuera, o exército boliviano, sob instruções do governo dos EUA, aprisionou a isolada coluna de guerrilha liderada por Ernesto Che 'Guevara. Che, um herói da Revolução Cubana de 1959, acreditava que Cuba, a apenas 90 quilômetros de distância do continente americano, ficaria vulnerável a menos que outras revoluções tivessem sucesso no mundo. Sua reação ao violento bombardeio dos EUA contra o Vietnã foi semelhante, não é suficiente defender o Vietnã, ele havia dito, mas era necessário "criar dois, três, muitos Vietnã". O fracasso na revolução no Congo levou o Che a Bolívia, onde o exército o prendeu. Ele finalmente foi capturado e levado para uma escola. Mario Terán Salazar, um soldado, foi encarregado do assassinato. Che olhou para aquele homem tremendo. "Acalme-se e fique bem", disse ele. "Você vai matar um homem." Che morreu sob seus pés.

Do homem, Ernesto Guevara (b.1928) tornou-se um mito. É difícil não se sentir tocado com a vida desse médico argentino que se tornou revolucionário.

Radicalizado pela realidade

Sua tutela no pensamento revolucionário surgiu de suas experiências entre os pacientes com lepra da Venezuela e os mineiros de estanho da Bolívia, entre os revolucionários da Argentina e o golpe de 1954 na Guatemala. A realidade o radicalizou. Só mais tarde ele contaria que ele tinha sido influenciado pela, como ele disse, "a doutrina de San Carlos", sua súbita referência a Karl Marx.

Em 1953, no México, Guevara conheceu Hilda Gadea, uma revolucionária da peruana APRA (Aliança Popular Revolucionária Americana). Gadea escolarizou Guevara na teoria marxista e nas correntes radicais, inflamando a região. Eles se mudaram para a Guatemala em setembro de 1954, que estava no meio de uma grande luta contra o governo dos EUA e as corporações dos Estados Unidos. Um governo democraticamente eleito liderado por Jacobo Árbenz tentou realizar reformas de terra básicas, que afrontaram a United Fruit Company. Guevara ficou marcado pelo papel dessa corporação no governo da Guatemala.

Para sua tia Beatriz, ele escreveu: "Eu tive a oportunidade de atravessar os domínios da United Fruit, e isso me convenceu uma vez mais da vilania desses estuários capitalistas. Eu jurei diante de um antigo retrato do velho e cansado camarada Stalin não descansar até que este polvo capitalista fosse aniquilado. Eu melhorarei na Guatemala e me tornarei um verdadeiro revolucionário".

Quando os EUA iniciaram o golpe contra o governo de Arbenz, Guevara saiu às ruas. Não deu certo. Guevara e Gadea fugiram para o México. Foi lá que eles, graças a Gadea, conheceram Raúl Castro e, eventualmente, seu irmão Fidel. Pouco depois, Guevara embarcava em um barco raquítico, o Granma, com os Castros e outros 79 para lançar a Revolução Cubana. Quando seu barco chegou em Cuba, os militares mataram 70 dos revolucionários. Os sobreviventes apressaram-se para o interior, e com pura areia começaram a construir o exército camponês que eventualmente acabou com o ditador Fulgencio Batista, no final de 1959.

Os jovens revolucionários herdaram um país falido. Batista havia transferido US $ 424 milhões de reservas cubanas para bancos dos EUA. Os empréstimos não estavam disponíveis. Em uma reunião tardia, Castro perguntou se havia um economista entre eles. Che levantou a mão. Ele se tornou o ministro da economia. Mais tarde, quando Castro perguntou sobre suas credenciais, Che respondeu que achava que Castro havia perguntado: "Quem é comunista?" Che assumiu sua tarefa com energia e determinação. Os EUA estabeleceram um embargo contra a ilha em 1962. Isso sufocou Cuba. O jornalista uruguaio Eduardo Galeano entrevistou Che em 1964. "Não quero que todos os cubanos desejem que sejam um Rockefeller", disse Guevara. Ele queria construir o socialismo, um sistema que "purificou as pessoas, os afastou do egoísmo, os salvou da concorrência e da ganância". Foi uma tarefa assustadora, dificultada pela pobreza do tesouro e da população; embora o espírito do povo cubano o tenha levado a oferecer seu trabalho para construir seus recursos.

Os anos de Cuba

"Cuba nunca será uma vitrine do socialismo", Guevara disse a Galeano, "mas sim um exemplo vivo". Era muito pobre para se tornar um paraíso. No entanto, poderia exalar o amor por seu próprio povo e pelo mundo. Para Guevara, o amor era tudo, a chave de sua ideia de socialismo. Em uma carta aos seus cinco filhos escritos em rota para a Bolívia, Guevara disse: "Sempre seja capaz de sentir profundamente dentro de seu ser todas as injustiças cometidas contra qualquer um, em qualquer lugar do mundo. Esta é a qualidade mais bonita que um revolucionário pode ter ".

O despacho

Quanto ao destino daqueles que mataram Guevara há 50 anos, o ditador boliviano René Barrientos morreu um ano depois, quando seu helicóptero explodiu em chamas. O general Joaquín Zenteno Anaya, que liderou a operação contra o Che, foi morto a tiros nas ruas de Paris. O Major Andrés Selich Chop, que liderou os Rangers para capturar o Che, foi morto pela ditadura de Hugo Banzer. Monika Ertl, membro do Exército de Libertação Nacional da Bolívia, matou o coronel Roberto Quintanilla Perez, que havia anunciado a morte do Che ao mundo, em Hamburgo.

Mario Terán Salazar, o soldado que atirou no Che, ficou escondido. Muitos anos depois, em 2006, o governo cubano operou o assassino de Che para remover uma catarata de seus olhos sem acusação. O legado do Che não era vingança. Continua a ser o amor de um médico pela humanidade.

* Vijay Prashad é o Editor Chefe da LeftWord Books. Ele está trabalhando em um livro sobre o comunismo no Terceiro Mundo

8 de outubro de 2017

Wolfgang Schäuble adverte sobre a crise financeira global da dívida

As políticas do banco central aumentam a ameaça de bolhas, diz o ministro alemão das finanças

Guy Chazan

Financial Times

Wolfgang Schäuble está se mudando para um novo emprego como orador do Bundestag alemão.

Wolfgang Schäuble advertiu que os níveis crescentes de dívida global e liquidez representam um grande risco para a economia mundial, em seu discurso de despedida como ministro das finanças da Alemanha.

Em uma entrevista ao Financial Times, o Eurófilo que liderou uma das maiores economias do mundo nos últimos oito anos, disse que havia o perigo de formação de "novas bolhas" devido aos trilhões de dólares que os bancos centrais bombearam nos mercados.

O Sr. Schäuble também advertiu sobre os riscos para a estabilidade na zona do euro, particularmente dos balanços bancários sobrecarregados pelo legado pós-crise de empréstimos inadimplentes.

Um forte defensor da retidão fiscal, o Sr. Schäuble dominou a resposta política da Europa à crise da dívida da zona do euro e foi vilipendiado em países como a Grécia como arquiteto de austeridade.

Mas ele será lembrado principalmente como o político mais ardentemente pró-europeu no gabinete da chanceler alemã Angela Merkel, hábil em vender os benefícios do euro e de uma integração européia mais profunda a um público alemão, muitas vezes cético.

O Sr. Schäuble disse ao FT que o voto do Brexit no ano passado tinha demonstrado quão "tolo" era ouvir "demagogos que dizem... estamos pagando demais pela Europa".

A esse respeito deram um grande contributo para a integração Europeia, disse ele. Mas creio que a curto prazo isso não vai ser bom para a Grã-Bretanha".

O Sr. Schäuble deve mudar para um novo emprego como integrante do Bundestag alemão, em meio à preocupação sobre como a legislatura será afetada pela chegada de 92 deputados da Alternativa para a Alemanha [Alternative für Deutschland (AfD)], um partido populista de direita que surpreendeu o establishment político conquistando 12,6 por cento dos votos na eleição do mês passado.

O Sr. Schäuble, que participará da sua última reunião dos ministros das finanças do eurogrupo na segunda-feira, procurou tranquilizar os aliados da Alemanha de que o surpreendente sucesso da AfD não afetaria de modo algum o compromisso do país com a democracia liberal.

"Não há chance de a Alemanha recair no nacionalismo", disse ele.

Os eleitores do AfD estavam insatisfeitos, sentido-se excluídos, estavam irritados com a percepção de injustiça e preocupados com a mudança do mundo. "Mas não há motivos para acreditar que a democracia e o estado de direito estejam em perigo", afirmou.

No entanto, ele advertiu que o mundo está em perigo de "encorajar a formação de novas bolhas".

Economistas do mundo inteiro estão preocupados com o risco da acumulação de cada vez mais liquidez e da subida da dívida pública e privada. Eu também estou”, afirmou.

Seus comentários são feitos um dia depois de Christine Lagarde, chefe do Fundo Monetário Internacional, ter dito que o mundo estava desfrutando de seu melhor impulso de crescimento desde o início da década. Ela advertiu, no entanto, de "ameaças no horizonte" como "altos níveis de dívida em muitos países, a rápida expansão do crédito na China e a tomada excessiva de riscos nos mercados financeiros".

O ponto de vista do Sr. Schäuble é compatível com os do Bank for International Settlements (BIS), que há muito argumentou que a flexibilização monetária agressiva dos bancos centrais estava alimentando bolhas nos preços dos ativos.

O BIS advertiu no mês passado que o mundo tornou-se tão acostumado a crédito barato que as taxas de juros mais altas poderiam descarrilar a recuperação econômica global.

O Sr. Schäuble defendeu a austeridade, que era "estritamente falando, uma maneira anglo-saxônica de descrever uma política financeira sólida que não vê necessariamente mais ou déficits mais elevados como algo bom".

O boom econômico atual da Alemanha, com o aumento da demanda doméstica e do investimento e a menor taxa de desemprego desde a reunificação, resulta de uma política econômica que priorizava "aderir às regras" e evitar déficits. Sob sua administração, o país administra orçamentos equilibrados desde 2014.

"O Reino Unido sempre se divertiu com o capitalismo da Renânia", disse ele, contrastando o modelo de mercado social liderado pelo consenso da Alemanha com os mercados livres anglo-americanos e a desregulamentação."[Mas] vimos que as ferramentas da economia de mercado social foram mais eficazes em lidar com a crise [financeira]... do que nos lugares onde a crise surgiu ".

O Sr. Schäuble elogiou as "iniciativas vigorosas" de Emmanuel Macron para reformar a UE, sem abordar diretamente as propostas do presidente francês para a reforma da zona do euro. Ele disse apenas que a principal tarefa que enfrentava a área da moeda única é "reduzir os riscos, que ainda são muito elevados", pense nos balanços bancários em muitos Estados membros da UE ".

"Temos de garantir que seremos suficientemente resistentes para enfrentar uma nova crise econômica", acrescentou. "Nós não teremos sempre tempos econômicos tão positivos quanto agora".