20 de maio de 2018

O chamado "interesse dos consumidores"

Prabhat Patnaik


Tradução / Na sequência da tomada de controle da Flipkart pela Walmart, ouve-se mais uma vez um argumento frequentemente já antes encontrado, nomeadamente de que ter uma grande multinacional nesta esfera, a qual pode fazer aprovisionamento global dos seus produtos, irá torná-los mais baratos para os compradores [finais] e, portanto, é do "interesse dos consumidores". Este argumento é tão velho que remonta mesmo aos tempos coloniais, quando muitos diziam que importações da Grã-Bretanha – as quais haviam provocado a desindustrialização interna pela dificuldade de competir dos artesãos locais – haviam tornado baratos bens de consumo e eram portanto do "interesse dos consumidores", na verdade do interesse dos camponeses uma vez que eles constituíam numericamente o grosso dos consumidores dos produtos importados. A alegação de que a importação de bens de todo o mundo pela Walmart para vender mais barato no mercado indiano serve os "interesses dos consumidores" é uma mera repetição deste velho argumento.

Há duas coisas erradas com este argumento. A primeira é que, mesmo assumindo a sua validade, ele equivale a dar prioridade ao interesse dos consumidores em relação ao dos produtores locais. Na verdade, equivale a dar um certificado de legitimidade ética à própria ideia de um "interesse dos consumidores" que está totalmente despreocupada com a situação difícil dos produtores locais. Este último ponto foi salientado por Gandhi há muito tempo atrás quando escreveu: "É pecaminoso comprar trigo americano e deixar o meu vizinho comerciante de cereais morrer de fome por falta de clientes. Analogamente, para mim é pecado usar atavios elegantes da Regent Street quando sei que, se tivesse vestido as coisas tecidas pelos fiandeiros e tecelões vizinhos, isso teria vestido a mim e alimentado e vestido a eles". "Pecado" na linguagem de Gandhi é o que nós chamaríamos eticamente inaceitável. A sua objeção, no terreno ético, é quanto à aceitação de um conceito de "interesse dos consumidores" sem qualquer preocupação com a situação difícil dos produtores locais.

O segundo problema com este argumento do "interesse dos consumidores" é analítico, distinto do ético. Ele assume, de modo totalmente errado, que "consumidores" são uma entidade distinta dos produtores locais os quais são deslocados por importações mais baratas. Aqueles que são deslocados também são consumidores. E mesmo se assumirmos que há alguns consumidores que não são imediatamente afetados pela deslocação dos produtores locais, isto é, que ficam realmente em melhor situação no imediato devido a importações mais baratas dos bens que consomem, eles podem no entanto ser afetados negativamente durante um período de tempo pelo deslocamento de produtores locais.

O exemplo da desindustrialização colonial, mais uma vez, deixará claro este ponto. Quando tecedeiras manuais foram deslocadas pela importação de vestuário de algodão barato vindo da Grã-Bretanha, teria parecido no imediato que os camponeses haviam ficado em melhor situação: eles afinal de contas não estavam a ser deslocados, enquanto por outro lado os bens que consumiam se haviam tornado mais baratos. Mas a deslocação das tecedeiras manuais (e de outros artesãos) levou, não de imediato mas ao longo do tempo, a um aumento da pressão da população sobre a terra. No decorrer do século XIX houve um aumento na magnitude da renda e um declínio na magnitude dos salários reais na Índia, os quais realmente pioraram a situação dos camponeses e trabalhadores agrícolas. Portanto a aparência de uma melhoria nas suas condições devido a importações mais baratas, sem dúvida bastante válida no imediato, foi uma ilusão se considerarmos um período de tempo mais dilatado. A única classe na Índia britânica que se beneficiou de modo totalmente inequívoco com o fato da desindustrialização foi a classe dos proprietários (landlords), os quais se beneficiaram tanto com as rendas mais altas como com as importações mais baratas.

Em suma, aqueles que parecem beneficiar-se enquanto consumidores com importações mais baratas introduzidas pelas multinacionais devido ao efeito preço imediato também tendem a perder, se não de imediato pelo menos ao longo do tempo, com efeito rendimento adverso de tais importações baratas. A complexidade deste quadro, onde não há "consumidores" puros completamente distintos dos produtores deslocados, e não afetados pela situação destes últimos, é ignorada por todos aqueles que olham apenas o efeito preço sem olhar para o efeito rendimento. E aqueles que têm argumentado em favor da invasão do mercado indiano por retalhistas multinacionais pertencem a esta categoria.

Portanto há dois argumentos separados contra a tomada de controle do mercado retalhista indiano por entidades como a Walmart. Uma que tem sido amplamente discutida é que desloca um vasto número de pequenos comerciantes. Isto é a contrapartida exata, e análoga, da desindustrialização testemunhada no período colonial, exceto que estamos a falar aqui não do setor industrial mas sim do setor de serviços, isto é, do comércio a varejo. O segundo argumento é que enquanto os pequenos comerciantes compram seus bens a produtores locais, as multinacionais comprariam os seus por todo o globo, aos produtores mais baratos, o que significa que produtores locais (e não apenas comerciantes locais) seriam deslocados. Temos em resumo dois processos distintos de desindustrialização provenientes da invasão do mercado indiano pelos gigantes multinacionais do retalho. Ambos produziriam desemprego e reduziriam o nível da atividade interna. E um argumento em particular que se apresenta contra esta afirmação, nomeadamente de que produtores internos serão então forçados a cortar custos e tornarem-se mais "eficientes", é um absurdo – pois cortar custos na sua situação significaria simplesmente cortar na sua subsistência, o que não é senão outro nome para o que chamamos de "deslocamento".

Entretanto, há um segundo argumento que é avançado contra a visão de que a entrada de retalhistas gigantes aumentará o desemprego. O mesmo declara que apesar de o desemprego aumentar naqueles sectores em que as importações seriam mais baratas do que as cobradas por produtores locais, haveria de modo correspondente um aumento do emprego naqueles sectores em que produtores locais cobrariam menos do que alhures, pois então os retalhistas gigantes comprariam localmente aqui para vender em outros países. Não será isto afinal de contas o que significava a famosa "vantagem comparativa" de David Ricardo? Os retalhistas gigantes multinacionais estão simplesmente a realizar "vantagens comparativas" através do seu aprovisionamento global de bens para venda. Se um país particular pode produzir um bem de modo mais barato do que outros então aquele país especializar-se-á na produção daquele bem enquanto alguns outros países produzirão os outros bens que este país estava a produzir anteriormente. 

Este argumento também é completamente falacioso, tal como era o argumento original de Ricardo o qual estava baseado na infame Lei de Say de que uma economia capitalista nunca experimenta deficiência da procura agregada. Dizer que diferentes países se especializam na produção de diferentes bens e que não há problema em qualquer país perca emprego por causa do tal aprovisionamento global pressupõe no mínimo a Lei de Say. Uma vez que abandonemos a suposição absurda da Lei de Say, torna-se claro que o total do emprego mundial cairá em consequência do aprovisionamento global.

O ponto principal do aprovisionamento global é que cada mercadoria é comprada aos produtores que cobram o mínimo por ela. Este embaratecimento de bens a nível global, uma vez que também deve aumentar pelo menos até certo ponto as margens de lucro comparadas com as da situação pré aprovisionamento global, é logicamente o análogo exacto de um corte salarial global, isto é, de uma mudança na distribuição de rendimento dos produtores em toda a parte do mundo para os retalhistas gigantes. Essa mudança acrescenta-se à mudança na distribuição do rendimento dos pequenos comerciantes que são deslocados pelos gigantes do retalho. Ambas as mudanças implicam, tudo o mais permanecendo o mesmo, uma redução na procura global e portanto na produção e no emprego globais.

Dito de modo diferente, para qualquer dado nível de investimento global em termos reais (o qual não muda no curto prazo), uma vez que as poupanças globais devem igualar o investimento global, e uma vez que o rácio das poupanças extraídas dos lucros e maior do que as extraídas dos salários, um aumento na fatia de lucro por unidade de produto deve levar a uma redução no consumo e produção globais. E o principal objectivo de retalhistas gigantes como a Walmart que cavalgam o globo é elevar o montante de lucro por unidade de produto, tanto através do deslocamento de pequenos comerciantes como através do aprovisionamento global de produtos junto aos produtores mais baratos. (O deslocamento de pequenos comerciantes tem um efeito adicional na depressão da procura pois o rácio das poupanças sobre os lucros é maior para os blocos de lucro maiores do que para os menores).

Numa tal situação, apesar de ser concebível que um país particular possa não testemunhar uma queda no emprego, isso só implica que algum outro país testemunhou uma queda no emprego ainda maior. Numa situação em que o emprego global se contrai devido às depredações de tais gigantes do retalho, um país pode escapar a um declínio no emprego só se o fardo for passado com ainda maior ferocidade a algum outro país.

Portanto, se possivelmente acontecer que a entrada da Walmart aumente o emprego na Índia, então não há nada a aplaudir quanto a isto. Significa apenas que algum outro infeliz país testemunhou uma diminuição ainda maior no emprego. E alegar "interesse dos consumidores" neste cenário para defender as depredações de tais gigantes do retalho é simplista ao extremo.

19 de maio de 2018

Os Estados Unidos vs. Democracia

Alexander Main

A política de Trump em relação à Venezuela tornou-se cada vez mais agressiva às vésperas das eleições de amanhã.


Nicolas Maduro se dirige à Assembléia Geral das Nações Unidas em 29 de setembro de 2015 na cidade de Nova York. John Moore / Getty Images

Tradução / Costumava ser censurável apelar abertamente para golpes militares e intervenção dos EUA na América Latina. Não mais. Ao menos quando se trata da Venezuela, um país onde – de acordo com a narrativa dominante na mídia – um ditador brutal está deixando a população faminta e aniquilando qualquer oposição.

Em agosto passado, o president Trump casualmente mencionou uma “opção militar” para a Venezuela em seu campo de golfe em Nova Jersey, provocando um alvoroço na América Latina, mas nem um pio em Washington. Paralelamente, Rex Tillerson, então Secretário de Estado, manifestou-se favoravelmente a uma possível deposição militar do presidente venezuelano Nicolás Maduro.

Recentemente, artigos de opinião sugerindo que um golpe um uma intervenção militar estrangeira na Venezuela pode ser uma boa coisa pontilharam o terreno da mídia: do Washington Post ao Project Syndicate ao The New York Times. Ocasionalmente um especialista argumenta que um golpe de Estado poderia ter consequências indesejáveis, por exemplo se o regime do golpe decidisse aprofundaras relações com Rússia e China.

Raramente alguém aponta que esse debate é insano, em especial com relação a um país onde as eleições ocorrem frequentemente e são, com poucas exceções, consideradas competitivas e transparentes. No domingo, 20 de maio, Maduro será candidato à reeleição. Pesquisas sugerem que, se o comparecimento for alto, ele poderá ser retirado do posto.

O fato de que golpe, não eleições, são o tema quente é um triste reflexo do rumo distorcido que a discussão mainstream sobre a Venezuela tomou. Durante vários anos, a maior parte das análises e reportagens sobre a nação, rica em petróleo mas conturbada economicamente, tem apresentado uma representação em preto e branco, sensacionalista, de uma situação interna complexa e cheia de nuances. Além disso, tem havido pouca discussão séria sobre as políticas dos governo Trump em relação à Venezuela, mesmo quando estas causam mais danos à economia do país, agravando a carência de alimentos e remédios que salvam vidas, e minando a paz e a democracia.

Lados radicalizados
Não nos esqueçamos, Maduro – frequentemente descrito por especialistas e políticos dos EUA como um ditador – foi eleito democraticamente em eleições relâmpago realizadas um mês após a morte de seu predecessor, Hugo Chávez, no início de 2013. Como o período presidencial na Venezuela é de seis anos, seu mandato constitucional atual terminará no início de 2019.

Desde o início, alguns setores da oposição venezuelana rejeitaram a legitimidade de Maduro e exigiram sua saída imediata do governo. Em 2014 e novamente em 2017, endossaram movimentos de protesto explicitamente voltados a gerar grandes tumultos em áreas urbanas chave, para tentar forçar a queda do governo — por exemplo, exacerbando a pressão popular ou pela intervenção militar interna ou externa.

Embora muitos desses protestos fossem pacíficos, alguns tornaram-se violentos e resultaram em dezenas de mortes, algumas atribuíveis a forças de segurança do Estado e outras a membros do movimento de protesto, de acordo com relatórios confiáveis e provas documentais. Centenas de manifestantes foram detidos e algumas figuras da oposição, incluindo o ex-prefeito de Chacao, Leopoldo López, foram condenados à prisão por supostamente incitar á violência. López atualmente está em prisão domiciliar, depois de cumprir três anos de pena.

Apoiadores da oposição acreditam que os direitos processuais de López e outros envolvidos com os protestos foram violados, e certamente há motivos para esse argumento. Entretanto, alguns adeptos do governo acreditam que esses indivíduos mereceram penas mais pesadas pela tentativa de usurpar o poder popular por meio da desestabilização e da violência, de uma forma que lembra a preparação para o golpe militar de curta duração em 2002 contra Chávez — em que López e outros líderes da oposição estavam envolvidos.

No final de 2015, a oposição da Venezuela conquistou uma grande maioria de cadeiras nas eleições para a Assembleia Nacional. Mas o Executivo e Legislativo do país ficaram logo em desacordo sobre supostos casos de fraude eleitoral que levaram a Suprema Corte da Venezuela, um órgão amplamente visto como leal ao governo, a desqualificar três legisladores da oposição. A remoção desses legisladores significou a perda da maioria de dois terços da aliança de oposição, que lhe dava amplos poderes para intervir no nível executivo.

A oposição gritou e recusou-se a cumprir a decisão do tribunal. Em resposta, a corte recusou-se a reconhecer a legitimidade do parlamento. As instituições da Venezuela deixaram de interagir de acordo com o manual constitucional e os dois lados adotaram táticas cada vez mais radicais para tentar obter superioridade.

Líderes da oposição apoiaram uma nova série de protestos, que foram ficando cada vez mais violentos, paralisando vias públicas em Caracas e outras cidades durante vários dias, a cada vez. Grupos de manifestantes confrontaram-se frequentemente com as forças de segurança e dezenas de pessoas foram mortas, incluindo manifestantes, agentes de segurança do Estado e transeuntes.

O governo Maduro respondeu ao crescente caos nas ruas chamando eleições para uma Assembleia Nacional Constituinte que iria desenhar uma nova Constituição e, de acordo com Maduro, trazer “ordem, justiça, paz” à Venezuela.

A oposição, denunciando a iniciativa como uma manobra destinada a mudar a Assembleia Nacional, boicotou as eleições. Desse modo, o novo órgão é quase inteiramente pró-governo e os EUA e governos aliados recusam-se a reconhecê-lo. Em seguida às eleições para a Assembleia Constituinte, o movimento de protesto desentendeu-se e a oposição tornou-se mais dividida, com radicais chamando outro boicote eleições seguintes, regionais e municipais. Como resultado desse e de outros fatores, os eleitores da oposição fracassaram na mobilização e o governo venceu a maioria das disputas, tanto regionais quanto municipais, no final de 2017.

A economia
O pano de fundo da prolongada crise política da Venezuela foi, é claro, o atoleiro econômico do país, que se agrava cada vez mais. Embora a queda dos preços do petróleo tenha certamente desempenhado um papel, Maduro sem dúvida tem parte da responsabilidade pela profunda depressão e hiperinflação que levou centenas de milhares de venezuelanos a emigrar e causaram sua queda nas pesquisas.

Enquanto muitos ideólogos culpam o “socialismo” pelos problemas econômicos do país, a maioria dos economistas aponta uma série de erros políticos que têm pouco ou nada a ver com socialismo. Mais devastador tem sido o disfuncional sistema de taxa de câmbio, que levou a uma espiral de “inflação-depreciação” cada vez pior no decorrer dos últimos quatro anos, e agora à hiperinflação. A gasolina quase gratuita e um controle de preços que não funcionou também contribuíram para a crise. As sanções financeiras do governo Trump – mais do que todos os esforços de desestabilização anteriores, que foram significativos – tornaram praticamente impossível para o governo sair da confusão sem ajuda externa.

Como se essa situação profundamente agônica não fosse suficiente, a mídia publicou com frequência relatos exagerados sobre as condições na Venezuela, apontando por exemplo fome generalizada. Para ser claro, a escalada de preço dos alimentos aumentou a subnutrição no país, mas isso é bem distante de uma fome em larga escala.

Mais importante, tem havido escassas reportagens na mídia dos EUA sobre os danos econômicos adicionais provocados pelas sanções financeiras do governo Trump, anunciadas em agosto do ano passado (logo depois da declaração sobre uma “opção militar” para a Venezuela).

Como meu colega Mark Weisbrot explicou, o embargo unilateral e ilegal – que exclui a Venezuela da maioria dos mercados financeiros – tem tido duas consequências principais, ambas implicando aumento das dificuldades econômicas para o povo venezuelano. Primeiro, porque causa uma escassez ainda maior de bens essenciais, incluindo alimentos e remédios. Segundo, porque torna a recuperação da economia quase impossível, uma vez que o governo não pode tomar empréstimos ou reestruturar sua dívida externa, e em alguns casos até mesmo realizar transações normais de importação, inclusive para medicamentos.

Além de fomentar maior devastação econômica na Venezuela, Trump e sua corte de conselheiros sobre a Venezuela, incluindo o senador republicano Marco Rubio, têm apoiado opositores de linha dura em seus esforços para impedir tentativas de diálogo e minar as eleições, mesmo quando estas oferecem a possibilidade de uma transição política pacífica.

No caso em questão: as eleições presidenciais deste domingo. O líder da oposição Henri Falcón – um ex-governador e organizador de campanha para o candidato da oposição nas eleições presidenciais de 2013, Henrique Capriles – concorre como candidato independente contra Maduro e outros três candidatos. Vários grandes partidos de oposição estão boicotando as eleições, entre outras razões porque fazem objeção à data próxima do pleito, que segundo eles não lhes dá tempo suficiente para organizar uma campanha forte. Contudo, a autoridade eleitoral concordou com o adiamento por um mês da data inicial. Dois partidos de oposição, Primeiro Justiça e Vontade Popular, também não conseguiram registrar candidatos porque, alega-se, não alcançaram os requisitos formais para fazê-lo.

Contudo, pesquisas eleitorais realizadas pelo Datanalysis, instituto mais frequentemente citado na Venezuela, indicam que Falcón pode vencer, se houver um grande comparecimento às urnas. Antes de confirmar sua candidatura, Falcón obteve fortes garantias junto à autoridade eleitoral do país, garantindo transparência, acessibilidade eleitoral e votação secreta, como houve em todas as contestadas eleições anteriores, desde que Chávez assumiu o poder em 1999.

Mas o governo Trump, depois de ameaçar Falcón com sanções financeiras individuais se não desistisse de sua candidatura, apoiou a o boicote eleitoral promovido por setores mais linha dura da oposição. Eles veem o candidato, que era aliado de Chávez até 2010, como alguém que, se eleito, estaria disposto a entrar em acordo com os chavistas. O governo dos EUA ameaçou até mesmo aumentar sanções contra o petróleo venezuelano, se as eleições forem realizadas. Fontes indicam que quando ambos, Falcón e o governo venezuelano, solicitaram que a ONU enviasse uma equipe observadora internacional para monitorar as eleições, funcionários dos EUA intervieram para garantir que esse esforço de monitoramento não acontecesse.

Com o governo norte-americano e a oposição da Venezuela fazendo todo o possível para reforçar a campanha dos linhas-duras pelo boicote, há uma grande possibilidade de que seja baixo o comparecimento às urnas no campo da oposição, e que Maduro vença as eleições por uma larga margem. Pode-se esperar que o governo Trump faça a imediata denúncia de um processo “fraudulento” e “ilegítimo”, tomando atitudes que tornarão a vida dos venezuelanos comuns ainda mais difícil.

Entre Obama e Trump

Vale notar que a política de Trump para a Venezuela é principalmente uma continuação da política de Obama para o país, embora o embargo financeiro e apelo a um golpe militar sejam particularmente ultrajantes e desprezem o direito internacional e as normas das nações civilizadas. As sanções de Trump aumentam o regime de sanções de Obama que identificam a Venezuela como uma “ameaça extraordinária à segurança nacional”. Quando Obama começou o processo de normalização de relações com Cuba, ele começou a mirar os bens de vários altos funcionários e indivíduos associados com o governo Maduro.

Sob Obama, o governo dos EUA continuou, como na era-Bush, a financiar organizações políticas de oposição na Venezuela, e mais uma vez fez lobby junto a governos regionais para censurar a o país em organizações multilaterais, como na Organização dos Estados Americanos (OEA). Washington também recusou-se a aceitar um embaixador venezuelano em Washington – embora convidasse um cubano – e alinhou-se a membros linha-dura da oposição quando recusou-se a reconhecer a vitória eleitoral de Maduro em abril de 2013.

Essencialmente, o governo de Obama – como o de Bush, que esteve envolvido no golpe de vida curta em 2002 contra Hugo Chávez – tinha uma política de promover uma “mudança de regime” na Venezuela. Com Trump, aquela política tomou uma direção mais agressiva, aberta e perigosa.

Infelizmente não tem havido praticamente nenhuma crítica aos esforços do governos dos EUA para derrubar o governo venezuelano na grande mídia. No Congresso dos EUA, onde um grande número de legisladores agora se opõem ao embargo contra Cuba, por exemplo, há pouco clamor, com a importante exceção do um pequeno grupo de democratas progressistas que se opuseram às sanções contra a Venezuela, sob Obama e Trump. A maior parte do establishment político e da mídia parece acreditar que Trump tem a agenda política certa para a Venezuela, com vários liberais justificando as duras medidas com casos de corrupção, violação de direitos humanos e outros crimes que supostamente envolvem funcionários venezuelanos.

Entretanto, nenhuma dessas críticas pede sanções econômicas contra países latino-americanos com registro de muito mais violência e repressão. Contra Honduras, por exemplo, onde os militares recentemente reprimiram violentamente manifestações pacíficas após eleições fraudulentas, que o governo dos EUA reconheceu. Ou contra a Colômbia e o México, onde nos últimos meses dezenas de candidatos políticos e líderes sociais foram assassinados com impunidade.

A Venezuela é tratada de modo diferente pelos EUA por razões óbvias: tem um governo que busca ser independente de Washington e se encontra sobre reservas de centenas de bilhões de barris petróleo, que – quando a economia da Venezuela finalmente se recuperar – irão possibilitar ao governo ter influência regional de longo alcance.

De fato, isso é exatamente o que aconteceu durante o governo Chávez. Aumentou a popularidade da Venezuela na América Central e no Caribe graças em grande parte à generosa iniciativa Petrocaribe do governo, que trouxe benefícios econômicos tangíveis a muitos países da região. Ela teve também influência na construção de instituições regionais tais como a Comunidade de Estados Latino-Americanos e do Caribe (Celac) e a União das Nações Sul Americanas (Unasur), que eram muito mais independentes dos EUA do que a Organização dos Estados Americanos, localizada em Washington.

A despeito de como cada um se sinta, em relação ao atual governo da Venezuela, é tempo de se dar conta de que a política dos EUA com relação a esse pais está tornando as coisas piores. Está gerando maior sofrimento econômico, instabilidade e polarização política e minando as chances de alcançar uma solução pacífica para a crise política do país.

Os comentários sobre golpe e intervenção militar na Venezuela, ou em qualquer outro lugar da América Latina, precisam retornar a seu prévio status de tabu, particularmente por causa da receptividade a ideias absurdas da atual liderança dos EUA. Em vez disso, é hora de esfriar as cabeças em todo o espectro político para trabalhar juntos por uma mudança na direção política em relação à Venezuela. Primeiro, os cidadãos dos EUA que se importam com os Estados Unidos devem organizar-se para forçar Trump a levantar o embargo financeiro; depois, é preciso encorajar os esforços para construir confiança e diálogo entre os setores políticos, ao mesmo tempo em que marginalizamos linhas-duras que se opõem a qualquer forma de acordo.

15 de maio de 2018

Desigualdade mundial crescente

Michael Roberts


Tradução / Um livro está repercutindo na mídia comercial no momento. É chamado de Factfulness. Ele pretende argumentar que, ao contrário da sabedoria convencional, o mundo está se tornando um lugar melhor. A pobreza está caindo, a expectativa de vida está aumentando; os níveis de saúde estão melhorando; as pessoas têm mais coisas e melhores serviços. Até a violência e as guerras estão em declínio.

Esta é uma velha mensagem antiga que foi exposta no passado pelo bilionário Bill Gates, entre outros. De fato, ele dá a este novo livro muitos elogios – como justifica sua visão de que as coisas estão melhorando para a maioria e com as políticas corretas em saúde, educação, população, mudanças climáticas etc., o mundo pode progredir sem qualquer mudança em seu modo de produção e estrutura social.

Tomei essa mensagem otimista em posts anteriores e meu último livro, Marx 200, discute a natureza dialética do desenvolvimento do capitalismo – algo que Marx reconheceu já em 1848 no Manifesto Comunista. Sim, o capitalismo levou adiante as forças produtivas como nenhum outro modo de produção (sociedade escravista, feudalismo e despotismo asiático), mas também carrega um lado sombrio de crescente exploração, domínio do mercado e máquina sobre a liberdade e a subsistência das pessoas; e guerras globais, e até mesmo a destruição do planeta.

Em contraste com o otimismo de Factfulness, o último Relatório Mundial de Desigualdade é uma análise preocupante. A desigualdade entre ricos e pobres está aumentando em ritmo crescente. Os autores, os mais respeitados especialistas em desigualdade de renda e riqueza globalmente, concluem que o número de bilionários subiu pelo maior valor de sempre em 2017, enquanto mais da metade da população mundial vive entre US $ 2 e US $ 10 por dia. O relatório mostra que a parcela de riqueza detida pelos 1% dos maiores proprietários nos EUA dobrou de 10% para 20% entre 1980 e 2016, enquanto os 50% inferiores caíram de 20% para 13% no mesmo período.

Kofi Annan, ex-chefe das Nações Unidas, chamou essa escala de desigualdade econômica global de “desconcertante e vergonhosa”. Os autores descobriram que a desigualdade de renda aumentou em quase todas as regiões do mundo nas últimas décadas, mas em velocidades diferentes. Desde 1980, a desigualdade de renda aumentou rapidamente na América do Norte, China, Índia e Rússia. A desigualdade cresceu moderadamente na Europa.

No nível global, a desigualdade aumentou acentuadamente desde 1980, apesar do forte crescimento na China. A metade mais pobre da população global viu sua renda crescer significativamente graças ao alto crescimento na Ásia (particularmente na China e na Índia). No entanto, devido à alta e crescente desigualdade dentro dos países, os 1% mais ricos do mundo captaram duas vezes mais crescimento do que os 50% mais pobres desde 1980.

Quando se trata de desigualdade de riqueza em oposição à renda, há algumas conclusões surpreendentes no relatório. “A desigualdade econômica é em grande parte impulsionada pela propriedade desigual do capital, que pode ser de propriedade privada ou pública. Mostramos que, desde 1980, ocorreram transferências muito grandes de riqueza pública para privada em quase todos os países, sejam eles ricos ou emergentes. Embora a riqueza nacional tenha aumentado substancialmente, a riqueza pública é agora negativa ou próxima de zero nos países ricos ”. 

Os autores sugerem que a combinação de grandes privatizações e o aumento da desigualdade de renda dentro dos países alimentou o aumento da desigualdade de riqueza, mesmo que ela ainda não tenha retornado ao seu nível extremamente alto no início do século XX nos países ricos. O aumento da desigualdade de riqueza, no entanto, é muito grande nos Estados Unidos, onde a parte de riqueza de 1% subiu de 22% em 1980 para 39% em 2014. A maior parte desse aumento foi devido à alta da riqueza de 0,1%. os proprietários. 

A meu ver, a desigualdade de riqueza e renda é uma característica inerente às sociedades de classes, e o capitalismo não é exceção. Mas isso não significa que aumentaria indefinidamente, um ponto feito pelo relatório sobre a desigualdade. Isso depende da dinâmica de acumulação de capital e da ação política dos governos.

Naturalmente, os autores (ou Kofi Annan) não propõem uma reestruturação radical do sistema capitalista, isto é, sua substituição. Em vez disso, eles buscam uma tributação progressiva dos rendimentos; controlo da evasão fiscal e dos paraísos fiscais para a riqueza; “mais educação” e investimento público. O problema dessas políticas, que merecem respeito, é que elas não podem ser implementadas se os interesses do capital forem protegidos, particularmente, quando o capitalismo está lutando para sustentar a lucratividade do capital, precisamente, diminuindo a força sindical (que é um importante fator de contra-pressão contra a crescente desigualdade) ignorado pelos autores; mantendo as privatizações (não o investimento público) e “desregulamentando” os mercados de trabalho, isto é, aumentando a exploração total do trabalho.

Além disso, crises recorrentes na produção capitalista não são o resultado do aumento da desigualdade (embora alguns na esquerda argumentem isso); e assim as verdadeiras contradições e limites do capitalismo não serão resolvidas pela redução da desigualdade.

O que também está faltando no relatório é por que a desigualdade de riqueza aumentou – é principalmente o resultado do aumento da concentração e centralização de ativos produtivos capitalistas em poucas mãos. A concentração real da riqueza é expressa no fato de que o grande capital (finanças e negócios) controla o investimento, o emprego e as decisões financeiras do mundo. Um núcleo dominante de 147 empresas, através de participações interligadas em outros, controla, juntas, 40% da riqueza na rede global, de acordo com o Instituto Suíço de Tecnologia. Um total de 737 empresas controlam 80% do total. Essa é a desigualdade que importa para o funcionamento do capitalismo – o poder concentrado do capital.

14 de maio de 2018

Israel, 200 armas nucleares apontadas para o Irã

Manlio Dinucci

Il Manifesto

Tradução / A decisão dos Estados Unidos de sair do acordo nuclear iraniano - assinado em 2015, por Teerã, pelos 5 membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU e pela Alemanha - provoca uma situação de extremo perigo não só para o Médio Oriente.

Para compreender quais são as implicações desta decisão, tomada sob pressão de Israel, que define o acordo como sendo “a capitulação do Ocidente ao Eixo do Mal, liderado pelo Irã", devemos partir de um fato inequívoco: é Israel que tem a Bomba, não é o Irã.

Há mais de cinquenta anos, Israel produz armas nucleares nas instalações de Dimona construídas, sobretudo, com a ajuda da França e dos Estados Unidos. Não é inspeccionada porque Israel, a única potência nuclear no Médio Oriente, não adere ao Tratado de Não-Proliferação de Armas Nuclear, que o Irão assinou há cinquenta anos.

As provas de que Israel produz armas nucleares foi demonstrada há mais de trinta anos, por Mordechai Vanunu, que trabalhava na fábrica de Dimona: depois de serem examinadas pelos principais especialistas de armas nucleares, elas foram publicadas pelo jornal The Sunday Times em 5 de Outubro de 1986.

Vanunu, raptado em Roma pelo Mossad e transportado para Israel, foi condenado a 18 anos de prisão e, depois de libertado em 2004, foi submetido a severas restrições. Israel possui hoje (embora sem admiti-lo) um arsenal estimado de 100 a 400 armas nucleares, entre as quais há mini-bombas nucleares e bombas de neutrões da nova geração, e produz plutónio e trítio em quantidades que permitem a construção de uma outra centena.

As ogivas nucleares israelitas estão prontas para lançamento em mísseis balísticos, como o Jericho 3, e pelos caças F-15 e F-16 fornecidos pelos EUA, aos quais se juntam agora os F-35. Consoante confirmam as numerosas inspecções da AIEA, o Irão não tem armas nucleares e compromete-se a não produzi-las, submetendo-se ao acordo através de um rigoroso controlo internacional. No entanto - escreve o antigo Secretário de Estado americano, Colin Powell, em 3 de Março de 2015, num email que veio a público – “em Teerão, sabem muito bem que Israel tem 200 armas nucleares, todas apontadas para Teerão, e que nós (USA) temos milhares delas".

Os aliados europeus dos EUA, que formalmente continuam a apoiar o acordo com o Irão, estão, fundamentalmente, alinhados com Israel. A Alemanha forneceu-lhe quatro submarinos Dolphin, modificados para lançar mísseis de cruzeiro com ogivas nucleares. A Alemanha, a França, a Itália, a Grécia e a Polónia participaram, com os EUA, no maior exercício internacional de guerra aérea na História de Israel, a Bandeira Azul 2017.

A Itália, ligada a Israel por um acordo de cooperação militar (Lei n. 94, 2005), participou com os caças Tornado do 6º Stormo, de Ghedi, adaptados para transportar bombas nucleares B-61 dos EUA (que em breve serão substituídas pelas B61-12). Os EUA, com o F-16 da 31st Fighter Wing de Aviano, estão adaptados para a mesma função.

As forças nucleares israelenses estão integradas no sistema eletrônico da OTAN, no âmbito do "Programa de Cooperação Individual" com Israel, um país que, embora não sendo membro da Aliança, tem uma missão permanente no quartel general da OTAN, em Bruxelas. De acordo com o plano testado no exercício EUA-Israel Juniper Cobra 2018, as forças dos EUA e da OTAN viriam da Europa (especialmente das bases na Itália) para apoiar Israel numa guerra contra o Irã.

Pode começar com um ataque israelense contra as instalações nucleares iranianas, como o que foi realizada em 1981, em Osiraq, no Iraque. No caso de haver uma retaliação iraniana, Israel poderia usar uma arma nuclear, iniciando uma reação em cadeia com resultados imprevisíveis.

As apostas da Grande Marcha do Retorno

Greg Shupak

Jacobin

Milhares de palestinos estão ao longo da fronteira com Israel, enquanto manifestações em massa continuam em 14 de maio de 2018, na Cidade de Gaza, em Gaza. Spencer Platt / Getty

Tradução / Em 14 de maio de 1948, setenta anos atrás, Israel lançou sua “declaração de independência”. Desde então, todo dia 15 de maio tem sido o Dia Nakba quando os palestinos marcam a limpeza étnica sofria por seu povo depois da criação de Israel. Este Dia Nakba foi marcado pela Grande Marcha do Retorno, uma grande mobilização em massa até a cerca que Israel ergueu para separar Gaza e Israel, para manifestar seu desejo de passar pela barreira. Até o momento, Israel já matou pelo menos 52 manifestantes palestinos, no que a Anistia Internacional chamou de “uma violação repugnante da lei internacional”, envolvendo “o que parecem ser assassinatos intencionais, que constituem crimes de guerra”.

Como outros estados coloniais, Israel pretende asfixiar a vida social das populações dos territórios ocupados que procura dominar. Esse imperativo é particularmente urgente no caso de Israel, onde as populações judias e não-judias são de tamanho equivalente e a terra em questão é relativamente pequena. A negação discriminatória de direitos estende-se aos palestinos em outros países - são cidadãos de segunda classe em Israel, sob ocupação, na diáspora ou em campos de refugiados. Todos são impedidos de retornar às suas casas através do uso da violência e com a ajuda decisiva dos EUA.

A mensagem inconfundível para os palestinos de todas as gerações, desde antes da Nakba até a Grande Marcha de Retorno, é que a menor resistência ao etnoestado erigido em sua terra natal será combatido com prisões e mortes.

Anatomia da repressão

A violência israelense permeia todos os aspectos da vida dos palestinos, com estratégias de controle que assumiram uma variedade de formas ao longo do tempo. Para criar o Estado em 1948, as forças sionistas expulsaram 750.000 palestinos de suas casas. No processo, realizaram cerca de dez massacres em grande escala, cada um com pelo menos cinquenta vítimas, juntamente com cerca de cem massacres menores. As forças dos paramilitares israelenses mataram palestinos em quase todas as suas aldeias, despejando repetidamente os corpos das vítimas em covas, antes da oficialização do Estado de Israel. Em várias ocasiões, milícias sionistas mataram crianças e estupraram mulheres palestinas.

Atrocidades semelhantes continuaram nos primeiros anos do Estado de Israel. Em 1953, as forças israelenses massacraram 69 aldeões palestinos em Qibya, depois de alegarem “infiltração” do território israelense por refugiados palestinos. Durante o conflito de Suez, três anos depois, eles mataram 48 trabalhadores palestinos em Kafr Kassim; 275 civis palestinos em Khan Yunis e num campo de refugiados próximo; em seguida, mais 111 palestinos no campo de refugiados de Rafah.

Depois de 1967, com o estado de Israel consolidado, o governo começou a perseguir o que Tariq Dana e Ali Jarbawi chamam de “sonho de uma ‘Grande Israel’ com o máximo de terra e o mínimo de árabes”. Mais de 350.000 palestinos foram expulsos de suas casas, enquanto Israel ocupava a Cisjordânia, Gaza e Jerusalém Oriental (assim como as Colinas de Golan da Síria e o Sinai do Egito). Quase 600.000 colonos adentraram ilegalmente nos territórios ocupados com o apoio do Estado. E os massacres de palestinos em Israel continuaram desde então: no verão de 2014, Israel matou 2.251 palestinos – incluindo 1.462 civis e 556 crianças – durante a fúria assassina chamada Operação Margem Protetora. Como observou o estudioso canadense Nahla Abdo, a violência dos palestinos deve ser vista no contexto dessa “relação assimétrica” entre os dois lados.

Enquanto isso, aos palestinos nos territórios ocupados é sistematicamente negado o devido a processo legal: mantidos sem julgamento em detenções administrativas ou submetidos a processos militares e rotineiramente torturados. Tal tratamento estende-se às crianças palestinas, sujeitas a práticas que, nas palavras da UNICEF, “resultam em tratamento ou punição cruel, desumano ou degradante, de acordo com a Convenção sobre os Direitos da Criança e a Convenção contra a Tortura”, incluindo ameaças de “morte, violência física, confinamento solitário e agressão sexual, contra si mesmos ou um membro da família”. Atualmente, existem mais de 6.000 presos políticos palestinos em prisões israelenses.

Quando os palestinos não estão sendo algemados, torturados, bombardeados ou abatidos, eles vivem sob a ameaça contínua de tais ações. Depois da guerra de 1967, Israel estabeleceu um regime para examinar tudo, desde oficinas palestinas que fabricam móveis, sabão, tecidos, produtos de azeitonas e doces, até listar quantos televisores, refrigeradores, fogões a gás, pomares, animais e tratores os palestinos possuem, muitas vezes censurando livros, romances, filmes, jornais e panfletos políticos.

Expropriação econômica

A violência econômica – a expropriação da riqueza palestina e a destruição da capacidade dos palestinos de se sustentarem – marcou o tratamento de Israel aos palestinos desde o início do Estado israelense. Nos anos imediatamente posteriores a 1948, Israel adotou políticas destinadas a confiscar e controlar a terra palestina, destacadamente com a Lei da Propriedade Desocupada de 1950, pela qual Israel garantiu para si 90% da terra, designando como “desocupada” toda terra que os palestinos tivessem sido obrigados a abandoar devido repartição conduzida pelas Nações Unidas em 1947.

Os assentamentos israelenses são construídos em áreas ricas em recursos, projetados para explorar a água palestina e a terra arável – uma política que aumenta os recursos de Israel e priva os palestinos de desenvolvimento econômico. Após a ocupação de 1967, Israel construiu um regime econômico destinado a incorporar a economia palestina à economia de Israel, tornando seu governo colonial um empreendimento barato e, ao mesmo tempo, frustrando o desenvolvimento econômico palestino. Entre as medidas adotadas estavam o fechamento de instituições financeiras e monetárias árabes, a imposição da moeda israelense, a proibição de exportações e importações, exceto através de fronteiras controladas por Israel, a imposição de altos impostos (alfândega, imposto de renda, IVA), quase nenhum investimento em infraestrutura nas áreas palestinas, licenciamento restrito para atividades industriais e controle sobre comunicações, recursos de eletricidade, água e recursos naturais. As políticas israelenses transformaram o mercado palestino num mercado cativo, que se tornou um conveniente lixão para produtos industriais israelenses de má qualidade que não podiam competir com os fabricantes dos países industrializados da Europa e EUA. Isso não só trouxe grande lucro para a economia israelense, mas igualmente formou uma nova classe de capitalistas israelenses, cujas principais atividades industriais foram projetadas para os territórios ocupados.

Assim, as políticas israelenses provocaram uma deterioração da base econômica palestina e criaram uma dependência estrutural à economia de Israel, na medida em que o Estado ocupante controla os principais pontos nodais da atividade econômica, como fronteiras, terras, recursos naturais, comércio, movimentação de mão-de-obra, gestão fiscal e zoneamento industrial. Por mais de uma década, além disso, um brutal cerco militar combinado entre EUA e Israel e o Egito dizimou Gaza, a ponto de em breve a região ser inabitável. Militares e colonos de Israel arrancaram centenas de milhares de oliveiras palestinas na Cisjordânia e na Faixa de Gaza e nos primeiros anos do milênio o exército israelense arrasou quatro milhões de metros quadrados de terra cultivada.

A Grande Marcha do Retorno

Desde o início da Grande Marcha do Retorno, em 30 de março, Israel matou dezenas de palestinos e feriu quase 4.000. Nenhum israelenses foi morto ou ferido. O poder da Marcha é que ela chama a atenção para a ilegitimidade de manter artificialmente uma maioria demográfica judaica na Palestina histórica. Enquanto massas de palestinos aproximam-se da cerca entre Gaza e Israel, os manifestantes personificam a “ameaça” de palestinos retornando a seus lares e vivendo em uma Palestina-Israel que não pode ter como premissa manter os palestinos fora e perpetuamente apátridas -como refugiados ou como uma minoria oprimida dentro de Israel.

Os manifestantes estão, em suma, tentando afirmar, pelo menos temporária e simbolicamente, seu direito à sua terra, identidade, nacionalidade, liberdade -o que as negociações com Israel e seu patrono norte-americano não produziram até hoje.

9 de maio de 2018

A decisão de Trump sobre o acordo com o Irã é um desastre para o Oriente Médio

Cesar Chelala

counterpunch: Tells the Facts, Names the Names

Tradução / A decisão do presidente Donald Trump de retirar os EUA do acordo com o Irã cria, desnecessariamente, uma nova fonte de tensão em uma região sitiada por conflitos. Dada a variedade de empecilhos legais que o presidente Trump enfrenta hoje, sua decisão poderia ser, até certo ponto, cortina de fumaça para seu drama pessoal.

A decisão do presidente Trump foi entusiasmadamente apoiada pelo primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, e rechaçada por todos os outros governos que fazem parte do acordo. Em março de 2015, diante frente das duas casas parlamentares dos EUA, Netanyahu disse: “Disseram-nos que nenhum acordo é melhor que um mau acordo. Bem, esse é um mau acordo. É um acordo muito ruim. Estaremos melhor sem ele”.

Nas últimas décadas, as relações entre os EUA e o Irã e entre o Irã e o Ocidente estiveram envoltas em equívocos e preconceitos. Nada foi feito para chegar a um relacionamento pacífico com aquele país, e o permanente estado de desconfiança construído nos últimos anos pode levar a uma guerra a qualquer momento.

O início das relações conflitantes com o Irã pode ser identificado como sendo 19 de agosto de 1953, quando tanto o Reino Unido quanto os EUA orquestraram um golpe que derrubou o primeiro-ministro democraticamente eleito do Irã, Mohammad Mossadegh. O motivo: Mossadegh estava tentando auditar as contas da Companhia anglo-iraniana de petróleo (Anglo-Iranian Oil Company - AIOC), de capital britânico, para mudar os termos de acesso daquela empresa ao petróleo iraniano.

Após a recusa da AIOC em cooperar com o governo iraniano, o parlamento iraniano votou quase em unanimidade para nacionalizar a AIOC e expulsar seus representantes do Irã. O golpe contra o governo que se seguiu levou à formação de um governo militar sob o comando do general Fazlollah Zahedi, que permitiu o retorno de Mohammad Reza Pahlavi para governar o país como um monarca absoluto e implacável.

60 anos após o golpe, a CIA finalmente admitiu envolvimento tanto no planejamento quanto na execução do golpe que causou uma maioria de vítimas civis. Esse golpe e o comportamento dos EUA em relação aos governos árabes em toda a região estão por trás do sentimento antiamericano não só no Irã, mas em todo o Oriente Médio.

Pergunto-me como nós, nos Estados Unidos, teríamos reagido se a China e a Rússia, por exemplo, tivessem planejado derrubar um governo americano democrático, deixando no lugar uma situação caótica. Vale também lembrar que, enquanto o Irã não invadiu nenhum outro país em séculos, tanto os EUA quanto Israel, inimigos do Irã, estiveram (e ainda estão) à frente de guerras brutais contra outros países e povos.

A interferência dos EUA na política iraniana não terminou por aí. Em setembro de 1980, Saddam Hussein iniciou uma guerra contra o Irã que teve consequências devastadoras para os dois países. A guerra foi caracterizada pelos ataques indiscriminados de mísseis do Iraque e pelo uso extensivo de armas químicas.

A guerra resultou em pelo menos meio milhão de mortos em ambos os lados, e quase o mesmo número de homens permanentemente incapacitados por ferimentos. Os EUA apoiaram ativamente Saddam Hussein em seus esforços de guerra, com bilhões de dólares em créditos, tecnologia avançada, armamento, inteligência militar e treinamento em Operações Especiais.

Apesar deste histórico, no entanto, ao invés de seguir uma política de apaziguamento, o presidente Donald Trump rejeitou o acordo nuclear com o Irã, contra os interesses políticos e econômicos de longo prazo dos EUA na região. E tem um fiel aliado no primeiro-ministro de Israel, Netanyahu.

Nem todos os militares e oficiais de inteligência israelenses compartilham a visão negativa de Netanyahu sobre o acordo nuclear. O general Gadi Eisenkot, atual chefe de gabinete das Forças de Defesa de Israel (IDF), disse em uma entrevista para marcar o 70º aniversário do país: “Neste momento, o acordo, apesar de todas as suas falhas, está funcionando e adia a realização do plano nuclear iraniano entre 10 e 15 anos. Com o acordo em vigor, a janela de oportunidade estratégica ainda está aberta a nosso favor”.

Uma opinião semelhante foi expressa por Amos Gilad, ex-chefe de pesquisa da Inteligência Militar e ex-diretor da divisão de políticas e assuntos militares do Ministério da Defesa. Ele chegou a dizer que a retirada dos EUA do acordo de 2015 provavelmente beneficiaria mais o Irã do que Israel, e acrescentou: “Se os americanos abandonarem o acordo, terão que se preparar para as alternativas, e não vejo isso sendo feito”.

A reimposição de sanções certamente afetará a capacidade do Irã de realizar acordos econômicos com outros países e, como resultado, agravará a já delicada situação econômica do país. Mas também aumentaria as tensões no Oriente Médio, aprofundaria o conflito entre Israel e o Irã e até mesmo afetaria um possível acordo com a Coreia do Norte, que pode considerar que os EUA não são confiáveis, sendo incapazes de manter sua palavra.

A visão do Irã: América traiçoeira, Europa sem espinha

O presidente dos EUA, Donald Trump, tem um problema com os slogans "Morte à América". O desejo generalizado dos iranianos comuns de acabar com a arrogância, a duplicidade e a hegemonia dos EUA é tão difícil de ser entendido por O Donald?

Said Mohammad Marandi


Um folheto divulgado pelo parlamento iraniano em 9 de maio de 2018 mostra parlamentares iranianos se preparando para queimar uma bandeira dos EUA no parlamento em Teerã (AFP)

Tradução / Para alguns iranianos, há método na loucura de Trump –, mas outros veem é bem pouca metodologia efetiva naquele processo de tomar decisões. Antes da era Trump, a conversa em Teerã sobre relações com o Ocidente quase sempre passava por duas questões chaves: se se poderia confiar nos EUA e qual a importância da União Europeia.

A conclusão estabelecida e já duradoura sempre foi que os EUA são país politicamente desonesto, e que a União Europeia é evento sem consequências. Na campanha eleitoral de 2013, que elegeu o presidente Hassan Rouhani, aquela avaliação dos EUA foi publicamente contestada, mas o diagnóstico da importância nenhuma da UE sobreviveu.

Resultados substantivos

O presidente Rouhani não acreditava que a União Europeia não tivesse capacidade para, nem, pelo menos a vontade de, agir como ator global. Afinal, ele passara tempo considerável liderando negociações nucleares com Alemanha, França e o Reino Unido e concluíra que são três países sem qualquer efeito, e que o Irã teria de negociar com os EUA se quisesse resultados substantivos.

Depois de longas deliberações em Teerã -- quando os que defendiam negociações diretas insistiam em que os EUA já teriam decidido mudar a própria política e aceitar o direito plenamente legal, do Irã, a ter programa nuclear para finalidades pacíficas --, marcaram-se as conversações diretas EUA-Irã.

Apesar de profunda descrença quanto à confiabilidade e às boas intenções dos norte-americanos, os iranianos decidiram testar as próprias avaliações e conclusões. Antes das eleições presidenciais iranianas de 2013, os iranianos aceitaram uma proposta dos EUA, para negociações secretas diretas, em Omã.

Prova também de que as estrelas afinal estavam alinhadas, foi que o ex-embaixador do Irã à ONU, Dr. Javad Zarif, diplomata veterano com experiência substancial em contatos com políticos dos EUA, think tanks e mídia norte-americanos foi encarregado de comandar essas negociações, depois da posse do presidente Rouhani.

Com o objetivo de iniciar novo capítulo nas relações Irã-EUA, Rouhani e seus apoiadores políticos estavam dispostos a fazer significativas concessões e firmar um acordo nuclear. Nesse campo, o personagem mais cauteloso e preocupado com não ceder demais, era o próprio ministro de Relações Exteriores. Entrementes, os que se opunham empenhadamente ao acordo alertavam sobre experiências anteriores, lembrando e relembrando incansavelmente ao governo e à opinião pública a longa história de mentiras e traições dos EUA.

Afinal, todos ali acumulavam décadas de experiência com 'promessas' dos EUA, desde os Acordos da Argélia em 1981 Naqueles acordos, os EUA comprometeram-se formalmente a não mais intervir politicamente ou militarmente, em assuntos internos do Irã!

Agressões americanas

Os americanos violaram o acordo repetidamente e flagrantemente desde quase o primeiro dia – com "sanções incapacitantes", financiamentos para organizações terroristas, derrubaram um avião civil iraniano, destruíram instalações iranianas de petróleo, ajudaram Saddam Hussein a usar armas químicas e garantiram a ele toda a cobertura política durante os oito anos de guerra devastadora que Saddam fez contra o Irã.

Ainda assim, os iranianos persistiram e ampliaram todas as oportunidades para manifestar boa-vontade. Depois do fim da guerra Irã-Iraque, por exemplo, o Irã entregou um grande campo de petróleo à petroleira US Conoco, para que o desenvolvesse. Os EUA, apesar de terem sido mantidos sempre informados do andamento das negociações com a empresa de petróleo, imediatamente bloquearam o negócio, depois de firmado o acordo nuclear.

Imediatamente depois dos ataques do 11/9, o Irã negociou e cooperou com os EUA na questão do Afeganistão, apenas para ser rotulado como item de um "eixo do mal". No governo Obama, os EUA impuseram "sanções incapacitantes", que puniram os cidadãos comuns no Irã e mataram milhares de pessoas que foram impedidas de usar remédios indispensáveis à manutenção da vida, até que o Irã encontrasse meios para contornar as sanções.

O governo dos EUA armou até os dentes os inimigos do Irã, infiltrou exércitos de jihadistas takfiris para dentro da "profundidade estratégica" do Irã e instalou os mais potentes sistemas de armas que há no mundo junto às fronteiras do Irã.

Essas agressões são livres. Mas Trump não gosta dos slogans "Morte aos EUA"? Por que O Donald tem tanta dificuldade para compreender por que os iranianos comuns tanto querem, tão profundamente, pôr fim à arrogância, à falsidade e à hegemonia norte-americana sempre imposta por chantagem e violência?

Mas, apesar de não ter ilusões quanto à sinceridade dos EUA, o aiatolá Khamenei deu luz verde para que o presidente Rouhani seguisse nas negociações para o acordo nuclear; e disse publicamente que, se os EUA manifestassem boa vontade, outras questões seriam discutidas adiante.

Como se esperava. Aconteceu o oposto. Ao mesmo tempo em que o lado iraniano enfurecia os críticos domésticos e mostrava considerável flexibilidade, o governo dos EUA pôs-se a violar o espírito e os termos do acordo quase imediatamente depois do documento ser firmado.

No governo Obama, aprovaram-se horrenda lei de restrições de visto de entrada no país e a Lei das Sanções contra o Irã, mais indivíduos e mais empresas foram sancionadas, mas, mais importante que tudo isso, os EUA, clandestinamente, já estavam 'ordenando' que bancos, instituições financeiras, empresas de seguros e outras não negociassem com o Irã – o que é clara violação dos artigos 26 e 29 do acordo.

Os iranianos, por sua vez, não apenas atingiram todas as expectativas do acordo como, em alguns itens, até cumpriram o que lhes cabia fazer antes de esgotado o prazo assegurado pelo acordo.

Resultados tangíveis

No governo Trump, o colapso do JCPOA foi acelerado e alcançou estágio que a maioria dos iranianos acreditavam que estivesse superado. Ao longo de quase três anos, viram poucos resultados tangíveis do fim do programa nuclear pacífico do país e de o Irã ter cumprido todas as suas obrigações.

O iranianos creem que, se os EUA deixarem o acordo, o governo norte-americano será visto pela comunidade internacional como irresponsável, não merecedor de confiança e belicoso. Mas, ao se dar algum tempo antes de também abandonar o pacto, algumas semanas, para testar a espinha dorsal da União Europeia, o Irã logo será vingado.

Como os iranianos foram vingados quando o recém nomeado secretário de Estado dos EUA Mike Pompeo admitiu perante a Comissão de Relações Exteriores do Senado que o Irã já não tinha qualquer plano para construir armas nucleares mesmo antes do acordo nuclear –, com o que desmoralizou tolamente toda a narrativa na qual os EUA tanto investiram, durante 15 anos.

Emmanuel Macron da França e a alemã Angela Merkel também serão vistos como peça avariada do maquinário, por persistentemente concederem tudo que Trump quisesse ou dissesse, sem nada receber em troca. A União Europeia cada dia mais é vista como entidade sem efetividade, praticamente irrelevante, o que é enorme estímulo para que o Irã vire-se na direção de China e Rússia, seja economicamente seja politicamente.

Ironicamente, tudo isso acontece quanto Rússia e China enfrentam hostilidade e pressão similares e, resultado disso, chegaram a conclusões similares.

Hoje, graça a anos de experiência e a recente mudança global no equilíbrio de poder, o Irã está muito mais bem preparado e posicionado para enfrentar sanções. Diferente do que se tinha há dez anos, o Irã tem hoje aliados regionais poderosos e suas relações com potências não ocidentais em ascensão evoluíram significativamente.

Se os países ocidentais fecharem as portas, outras portas abrir-se-ão para o Irã. E o grande verdadeiro derrotado no processo serão os EUA, uma Europa acovardada e submissa e os erráticos regimes regionais clientes deles. Que façam o que acharem melhor.

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Said Mohammad Marandi é professor de Literatura Inglesa e Orientalismo na Universidade de Teerã.